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terça-feira, julho 27, 2010

O QUE LEVA A FAZER DO MELHOR AMIGO UM "ANFITRIÃO"

Na mitologia grega, Anfitrião é um militar que estando ausente, na guerra, encontra a sua mulher concebida de Zeus, um deus, e do qual nasce Hércules, um  semi-deus. Esclarecidas as coisas tudo ficou "numa boa" entre Anfitrão e Zeus. Por isso, anfitrião é na linguagem terra-a-terra "um corno assumido".

Se na historieta introdutória o caso é entre desconhecidos, o que se assiste no presente tem sido, vezes sem conta, facadas entre amigos de peito.
_Por que é que o(a)s amigo(a)s de confiaça, às  vezes, nos espectam o punhal.

sexta-feira, julho 23, 2010

EQUATO-GUINEENSES: DENTRO OU FORA DA CPLP?

Hoje, sexta-feira inicia a cimeira de Chefes de Estado da CPLP, nomeadamente: Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique e Timor Loro Sae. Participando igualmente a Guiné Equatorial, enquanto membro observador da organização e que verá o seu pedido de adesão formalmente aceite ou chumbado.

Para INFLUENCIAR a tomada de decisão concorrem dois argumentos: os do sim que acham ser mais valia para a organização, estando à testa chefes de Estado como o de Angola, Eduardo dos Santos, do Brasil, Lula da Silva e ainda as Repúblicas de Cabo-Verde e São Tomé e Príncipe.

Do lado do não que, entre várias aspas, colocam como mote principal a ausência de democracia na República de Teodor Obia Nguemá, alinhando na primeira coluna personalidades como o socialista português Manuel Alegre e a ONGD, também lusa, que abriu um fórum on line.

Numa mensagem electrónica que me copiou, o historiador angolano Simão Sindoula argumenta na sua tese pelo sim os motivos que resumo: “esta questão deve ser, absolutamente, visto do ponto de vista histórico e cultural… a Guine Equatorial tem, hoje, como património de grande importância, um dos crioulos de base portuguesa do Golfe de Guine, o famoso fa d'ambu… isso, permitira dar mais atenção à necessidade de salvaguardar este falar que está em via de extinção. Há outras razoes geo-estratégicas e sociais que tornam esta adesão desejável:.. a situação geográfica muito particular da ilha de Annobon, uma região que pode apresentar jazigos de petróleo e uma fonte potencial de grave conflito, a comunidade lusófona pode, neste caso, servir de plataforma de dialogo e consenso… a re-portugalização de Annobon e a expansão da língua de Camões para a ilha de Bioko e parte continental da GE ajudaria, indirectamente, a vital integração regional”.

Eu, Luciano Canhanga, comungo dos argumentos acima expostos, pois entendo que os grandes homens tomam as grandes decisões que fazem História. É assim que a humanidade caminhas e se desenvolve.

A G.E. é o único Estado (livre) de expressão espanhola no continente africano, tendo esta língua o português como o parente mais próximo, sendo também a G.E. um Estado com proximidade histórica quer com Portugal, como com os Estados africanos de expressão lusófona.

No meu entender, um referendo na GE ajudaria melhor a definir a sua adesão e seria desejável para o conforto dos políticos daquele país a que se seguiriam tramites meramente administrativos por parte da CPLP. E quais seriam os efeitos?

_ Como bem o diz o Dr. Sindoula, a (re)lusoficação dos povos daquele Estado (ilhas), a integração regional, entre outros ganhos.

A CPLP pretende que o português seja uma língua de serviço das Nações Unidas. Embora os equato-guineenses sejam apenas um milhão e tal, seria, entretanto, um bom agregado populacional que se juntaria à comunidade. Daí que julgo não ser um exercício vão ter a G.E. entre os tradicionais lusófonos.

Se olharmos para Timor Loro Sae, o que se assiste naquele país é uma re-introdução da língua portuguesa, que se fala tão pouco naquele território, sobretudo entre os jovens e crianças. Na G.E. pode acontecer a mesma coisa. Com o tempo teríamos os povos destes dois países a se comunicarem fluentemente na língua de Camões e noutras que também são definidas/adoptadas como veículos oficializados de intercâmbio de ideias e sentimentos.

 

segunda-feira, julho 19, 2010

OBRAS PÚBLICAS: TUGAS RIEM ATÉ RASGAR A MANDÍBULA

Dizem dois adágios populares que: "quem ri depois ri melhor" e que "o barato sai caro".

Em tempos contou-se uma anedota que rezava o seguinte: "um organismo público lançou um concurso público e dele responderam três empresas distintas, sendo uma chinesa, uma portuguesa e outra angolana. Convocados a apresnetar técnicamente e defender os custos propostos o representante português começou por explicar que a obra proposta teria uma vida útil de 50 anos, material e acabamentos de primeira classe e um custo de 6 milhões de dolares. O contratante achou o valor bastante elevado e mandou embora o tuga.

Chamado o chinês, explicou, por sua vez, que faria uma obra de qualidade média (omissas as qualidades dos materiais e vida útil) com um custo de 3 milhões de dolares. O contratante olha desconfiado pelo preço do avançado pelo asiático e manda-o embora, prometendo contactá-lo no fim das avaliações.

O terceiro homem era angolano e este propões um trabalho de alto padrão com acabamentos nunca vistos e duração infinita... blá, blá, blá (como sempre), ao custo de 9 milhões de dolares americanos. O contratante estupefacto pergunta por que razão o português pedira 6 milhões, o chinês, 3 milhões e ele o triplo, ao que respondeu:

_ Dr., serão três milhões para si, três milhões de lucro para mim e três milhões para o chinês que será subcontratado para fazer a obra!".

Sem mais quês nem porquês, o angolano firmou o contrato e aí estão os resultados: Fissuras trás de fissuras nas obras recentes, feitas por chineses e angolanos-chineses (coligados), enquanto as obras portuguesas do tempo de kaprandada estão aí de pedra e cal.

Para além do caso bem conhecido do "nado morto" Hospital Geral de Luanda, que ruiu em menos de 4 anos, visitei um hospital público do nordeste angolano, onde o anexo que tem menos de 4 anos já apresenta fissuras enquanto a parte antiga, deixada pelos tugas anda aí sólida e a espera apenas de pintura e pequenas adequações.

Se no princípio os tugas se achavam algo discriminados nas contratações de empreitadas por verem as preferências transferidas aos nossos amigos do oriente, agora riem-se que se fartam das nossas desgraças causadas pelo nosso imediatismo, ambição desmedida pela "comiss(ch)ão", e outras manias.

E agora?

quinta-feira, julho 15, 2010

ATENÇÃO! HÁ FOME NO MAIOR CONGLOMERADO DE MEDIA DE ANGOLA

Há dois anos surgiu no mercado mediático um conglomerado de média. Tão elevada tem sido a qualidade dos seus produtos impressos, radiofónicos, televisivos e afins que em pouco tempo se tornou em referência no mercado mediático angolano. Uns dizem mesmo que a tal media “não deixa nada que seja do interesse público passar despercebido”. Porém, há mais de dois meses que os trabalhadores deste grande conglomerado não vêm a cor do dinheiro dos seus ordenados e nada sai para fora, de forma oficial. Os jornalístas do grupo calam-se aos microfones e nos jornais, embora desabafem cá fora, a media congénere segue-lhes as peugadas e tudo fica em semi-segredo.

O SJA -Sindicato dos Jornalistas Angolanos-, cujo porta-voz trabalha é editor dos jornais do  conglomerado, também ainda nada disse à propósito.

Até mesmo o Folha8 nada avançou sobre o assunto que corre de boca em boca nas reportagens e nos convívios em que participam jornalistas e outros trabalhadores do grupo. 

_ Será que se trata apenas de um boato ou há mesmo panelas a entrar em arrefecimento permanente?

domingo, julho 11, 2010

UMA VIAGEM ATENTA NO "NOSSO METRO"

Se olharmos para o plano de desenvolvimento ferroviário de Angola encontraremos uma linha projectada em direcção ao norte (Minas de Bembe) que viabilizará a extracção de minério naquelas paragens e que passará pela planície de Cacuaco até se embrenhar pelo interior para atingir o território do Uige.

Em anos não muito distantes, a área do Kikolo estava servida de um comboio de passageiros e mercadorias que partia da estação dos Musseques. O alargamento e crescimento exponencial de Luanda (urbana e suburbana) há muito reclama a entrada em cena de outros actores no domínio dos transportes colectivos, para complementarem os habituais autocarros, candongueiros e ultimamente os kupapatas.

A entrada recente, mas ainda insignificante, de novos operadores de táxis é uma mais valia, porém exígua para a grande demanda. Daí que o anúncio do Senhor Presidente da República para a construção do Metro de Superfície vem em boa hora e espera-se que da palavra dita ao facto vivido não haja um grande hiato de tempo que possa vir a transformar o discurso presidencial em letra morta.

Haverá, com certeza, questões ligadas à operacionalidade técnica quanto à implantação do projecto ora anunciado. O Metro de Superfície é o que mais se adapta às características geo-morfológicas e sociais da nossa capital. Para a sua materialização, é preciso, porém, ter-se bastante coragem e nos despirmos todos de todas as formas de resistências às mudanças.

É preciso também ter em conta que Luanda está ainda sem um plano urbanístico definitivo. A reparação de vias estruturantes tem levado à destruição de muitas casas e a construção das linhas para o Metro de Superfície exigirá, com certeza, outros grandes sacrifícios quer para o Estado quer para os cidadãos que serão afectados por esta benfeitoria. Porém, temos de pensar na Luanda de 2020 ou mesmo de 2100 que terá de ombrear em igualdade de circunstâncias com as congéneres capitais africanas e mundiais.

Antes de se iniciarem as obras do "nosso metro" que se pense também na integração das infra-estruturas básicas para os sistemas de água, energia, gás e telecomunicações para que não se repita, no futuro, a ocorrência de empresas construtoras a danificarem, por falta de informações, aquilo que com muito sacrifício e dinheiro se está a erguer.

Publicado no Semanário Económico (Angola) edições de 08 e 15 de Julho 2010.

quarta-feira, julho 07, 2010

PARA QUANDO O FIM DA BI-CEFALIA NA FNLA?

A minha última reflexão sobre a política nacional aconteceu em 2008, depois das eleições legislativas onde eu sugeria à media para pôr termo às denominações bicéfalas nos partidos políticos, uma vez que a realização das eleições tinha nivelado a questão das lideranças ao aceitar determinadas candidaturas e chumbar outras. E parecia que as coisas estavam bem encaminhadas até que ressurgiu o caso FNLA, onde as eleições, por si só, não encerraram em definitivo o assunto, tendo o Tribunal Constitucional, em função das várias reclamações a ele dirigidas pelas partes envolvidas, comunicado um acórdão em que repunha a situação ao último congresso convocado pelo finado Holden Roberto.

Em 1998 Lucas Ngonda entrou em colisão com Holdenm Roberto por este nunca lhe passar pela cabeça a realização de um congresso. Ngonda criou uma quinta coluna e realizou um congresso que o elegeu presidente. Do outro lado permaneceu Holden e a sua entourage, com Ngola Kabango como actor principal da “orquestra”. O partido passou a ter duas sedes, uma na rua Samuel Bernardo e outra na Hoji-ya-Henda.

Uma mediação, composta por William Tonet, igreja e companhia, convenceu as partes para partirem para um congresso da unificação, realizado em 2004, onde a direcção ficou repartida entre as duas alas, ou seja: Presidência para Holden Roberto; 1ª Vice-Presidência para Lucas Ngonda; 2ª Vice-Presidência para Ngola Kabango e a Secretaria-Geral para Francisco Mendes (um correligionário de Ngonda). Este elenco teria de coabitar até à realização de um congresso ordinário nos dez meses seguintes, o que não aconteceu, pois o velho Holden assim não entendeu, resultando numa nova “rebelião” de Ngonda e parceiros que dois anos depois, realizou outro congresso à parte.

Com o líder fundador morto, Ngola Kabango, sentindo-se substituto natural, parte, finalmente, para um congresso em que não participam os da ala de Ngola e proclama-se presidente (herdeiro do programa de Holden). O congresso teve a participação e candidaturas de Carlinhos Zassala, Miguel Damião e um outro candidato. Todos eles reclamaram da organização e fraude, remetendo ao Tribunal Supremo a impugnação do conclave.

Em 2009, o Tribunal Constitucional, herdando os processos do Tribunal Supremo, através de um acórdão, remeteu a situação da liderança da FNLA ao congresso da reunificação, o último convocado por Holden Roberto, facto que fez transitar a presidência legal das mãos de Kabango para NGonda que acaba de convocar, nas vestes de presidente interino o congresso extraordinário, hoje (07.07.2010) terminado.

O que me inquieta é que mesmo os jornalistas e os órgãos de comunicação social conhecendo a realidade e a conturbada história desta formação política, em vez de procurarem por esclarecimentos legais e esclarecerem o povo, voltaram a embarcar na bi-cefalia do partido, ouvindo Ngonda e Kabango, ambos como presidentes.

E o povo que espera por um esclarecimento da media como fica? E pior é que Ngola Kabango grita aos quatro ventos ser o presidente legal prometendo um outro congresso para Novembro do ano que vem…

_ Continuará a FNLA ad eternum na condição de um partido onde as pessoas nunca se entendem?

_ E como fica a questão da obediência partidária dos deputados eleitos, dentre eles Ngola Kabango?

_ O partido continuará a ter uma sede na rua Samuel Bernardo e

Outra na Avenida Hoji-ya-Henda?

Eu, modestamente, até já sou pela extinção desta “batata podre” que pode contaminar outras “batatas” partidárias.

terça-feira, junho 29, 2010

REENCONTRO


Conhecemo-nos na infância, por volta de 1978. Eu com 4 e ele com 3 anos. Juntos nos ensaiamos na pesca à toqueia no riacho junto à casa do avô João dos Santos para aonde nos fomos acomodar depois de meus pais terem abandonado a fazenda Kitumbulo onde vivíamos. A fazenda Israel, que fora gerida pelo avô João dos Santos, era duma outra civilização. Estava mais próxima da estrada asfaltada E120 e na casa de João dos Santos, um assimilado, só se falava o português, hábito herdado do colono recém-corrido e que ainda fazia lei. Augusto dos Santos era neto directo e sendo eu indirecto, nascido duma sobrinha do patriarca da família. O velho era um homem de vários ofícios. Era enfermeiro, costureiro e agricultor.

Vivendo os seus filhos nas cidades do Dondo e Luanda João dos Santos cuidava com bastante apreço dos netos. O Augusto, o Santos e eu. Depois nasceram outros.

Na iniciação, o Augusto (na foto) fora famoso por ter rejubilado num jogo de batota quando depois de ter apostado 10 Kz recebeu de troco 9 Kz, sendo-lhe descontado 1kz. E o Augusto saltitava de emoção por lhe terem sido devolvidas várias moedas… Estava eu na primeira classe, um ano mais adiantado do que ele. Depois fomos à circuncisão cuja escola frequentamos apenas três pessoas, Augusto, um primo nosso e eu.

A nossa separação deu-se em 1983 quando a guerra civil se acentuou. O avô adoeceu e foi levado para a cidade de Luanda onde viria a falecer dias depois. Como se a perda fosse menor, uma doença estranha apossou-se do Augusto e o rapaz perdeu a audição e parte da fala. Embora o pai, António Infeliz dos Santos, vivesse em Luanda, o Augusto e os dois irmãos mais novos (Santos e Quituxi)permaneceram com a mãe, vivendo uma vida que só eles saberiam contar. Quanto a mim, segui em 1984 para Luanda e lá fiquei radicado até hoje.

Daquela data a esta parte, apenas por mais duas ou três vezes nos tínhamos cruzado de forma muito curta, sem podermos trocar mímicas que nos levassem a recordar o nosso passado comum: as nossas brincadeiras em casa e na escola, os mata-bichos da avó Emília, as pescas com cana improvisada e isca de gafanhotos, o medo das injecções que o avô nos aplicava, as roupas que a tia Santa (madrasta dele) nos dava, as boleias no IFA militar do tio Infeliz (pai dele) e doutras coisas.

Encontrei-o desta vez a viver junto da sua tia Maria Canhanga, na aldeia de Pedra Escrita, e no território que compreende a fazenda Israel herdada do pai, um finado tenente-coronel do exército governamental. O Augusto acompanhou-me à QB*, ajudou-me a plantar duas bananeiras, uma laranjeira e um abacateiro. Emocionou-se a ver o campo que eu tinha cultivado à distância e bateu-me no ombro, como fazia antigamente sempre que o acudisse de algum embaraço. Revezando-nos, carregamos ao ombro um cacho de banana-pão e caíram lágrimas na hora da despedida.

_ Primo, assim já vais? – Questionou-me ao ver-me a entrar no carro.

Apenas acenei a cabeça receoso de provocar um banho de lágrimas. Mas quem chorou fui eu!

domingo, junho 20, 2010

NOVA ESTRELA É KUANZA-SUL EM MINIATURA

Assuntos ligados à narração correcta da História e cultura dos povos que habitam o Kuanza-Sul, de onde sou originário, levaram-me a procurar, mais uma vez, pelo Reverendo Gabriel Vinte e Cinco que pastoreia a Igreja Metodista Unida em Angola, cargo-templo de Nova Estrela, em lUANDA.

Não encontrei o pastor que fora a uma missão religiosa no município de Cazenga, mas fui tratado de forma digna, como sempre o fizeram os metodistas de toda Angola. A saudação em várias línguas nacionais e estrangeiras, os cânticos que me lembraram os meus tempos na I.M.U.A-Moisés, e a excelente pregação sobre as consequências nefastas do imediatismo, fizeram de mim um homem com o dia bem vivivido neste domingo, 20.06.2010.

Senti-me na Igreja de Moisés e ao mesmo tempo no Kuanza-Sul.

terça-feira, junho 15, 2010

O MUNDIAL E A "SECRETARIA" DOS GRANDES

Servindo-me do exercício do silêncio, que pode resultar em grandes vozeirões, remeti-me a uma pausa na escrita destas prosas. Assediado porém pela realização do primeiro mundial de futebol no continente africano não me contive e sou "forçado" a debitar ideias sobre o grande acontecimento da Àfrica do Sul.

E tudo começou na sala de serviço com o Elias (meu assistente) que trouxe a conversa da secretaria. A secretaria é nas grandes empresas pouco burocratizadas o local onde todos vão em busca de formulários, foto-cópias, outros impressos e encadernações. O Elias trouxe a analogia da secretaria para se referir às equipas onde as demais vão, por força do poderio, buscar pontos. A análise recaiu ao grupo em que estão alinhados Brasil, Portugal, Correia do Norte e Costa do Marfim.

Tirando a desconhecida Coreia, a maioria dos angolanos conhece ou já ouviu falar do Brasil e Portugal, países com quem partilhamos história e língua, como também conhecem e têm afinidades pela Costa do Marfim, país que representa o orgulho e a esperança africanas neste mundial. Por isso, muitos angolanos como eu estão divididos e acham mesmo a Coreia como a "secretaria do grupo".

E o Elias começou por dizer que "tendo Portugal empatado com a Costa do Marfim e sendo o Brasil o papão do grupo, restava a Portugal e Costa do Marfim ganharem por a Coreia e perder por poucos golos no jogo frente aos penta campeões (brasil)". Seguindo a na lógica do Elias qual seria o caminho para se encontrar o segundo classificado já que todos iriam à secretaria buscar pontos, tendo Portugal e Costa do Marfim empatado no jogo entre si...

O meu assistente continuou que "vai à segunda fase quem mais golos entalar à secretaria (Coreia do Norte)" . Mas o Elias foi mais ousado e colocou uma questão nova. Nova porque nunca foi debatida de forma aberta por ser quase improvável o cenário desenhado: Perguntava-me ele: "_Chefe, e se todas as equipas terminarem empatadas sem golo e com três pontos, fruto de três empates".

No momento em que escrevo esta prosa o triplo empate está fora de questão, mas a secretaria deu mostras de que "não oferecerá nenhum modelo nem impresso" a Portugal e Costa do Marfim, como não o fez em relação ao tout puissant Brasil que se viu e desejou para vencer a partida por 2-1.

domingo, junho 06, 2010

COMO CONTER O RECURSO AO CARRO PRÓPRIO?

As estatísticas mais optimistas apontam para cerca de dez mil veículos automóveis que dão entrada todos os meses na capital angolana, contando-se, entre elas, viaturas novas e de “segunda-mão”.

Com os seus quatro milhões de habitantes, Luanda possui neste momento mais viaturas do que a população inicialmente projectada para a cidade, que era de 500 mil habitantes, inferindo negativamente na distribuição de espaços para circulação e estacionamento. Daí que, olhar de forma atenta e crítica ao crescimento desenfreado do número de veículos automóveis na capital do país não seja um exercício em vão.

Qualquer observador atento rapidamente concluirá que o débil sistema de transportes públicos urbanos (autocarros, comboios e ferryboats) está na origem do recurso, quase que obrigatório, ao carro próprio.

É certo que durante os 27 anos que antecederam a paz definitiva nenhum olhar atento esteve direccionado à reparação de vias de comunicação, quer terrestres, aeroportuárias, marítimas e ferroviárias, esforço que apenas agora começa a ser desenvolvido neste grande segmento.

Por outro lado, apesar de terem sido importados inúmeros autocarros pelo Governo e agentes privados, a degradação das vias urbanas e a inexistência delas em muitas das extensões da cidade capital fazem com que o serviço prestado pelas operadoras deste serviço esteja sempre abaixo do desejável e, mais uma vez, os ditos “candongueros e kupapatas”, mesmo com a sua onda de desordens, são tidos como os grande facilitadores das populações.

Bastará contar quantas estradas paralelas, em condições, existem em direcção a Viana, Cacuaco, Samba e outros destinos. Qualquer acidente ou impedimento na Deolinda Rodrigues será suficiente para bloquear o acesso àquele município, dando-se o mesmo em relação aos demais destinos que contam apenas com uma ou duas rotas viáveis.

Quando se julgava que o comboio, de Baia ao Bungo, viesse a resolver parte do problema, fomos brindados com apenas uma linha, o que impossibilita a circulação simultânea de várias composições como acontece em outros países.

Sem transportes públicos rodoviários eficazes e sem comboios de minuto a minuto, a utilização do transporte marítimo, através de ferryboats ao longo da costa, ligando a Samba e Cacuaco à cidade baixa, podia ser parte da solução, mas mais uma vez os potenciais investidores e empreendedores tardam em reagir, estando o Governo, também a braços com as inúmeros encargos financeiros e empreitadas, a "assistir" o povo a marchar e a cidade cada dia mais cheia de carros privados e em condições técnicas muitas vezes duvidosas.

Que soluções para os nossos congestionamentos, falta de transportes públicos e recurso ao carro próprio?

_ Como leigo aponto apenas:
1-Urbanizar a periferia e levar os autocarros aos musseques;
2- Criar vias alternativas às estradas principais;
3- Construir mais passagens superiores, inferiors e túneis para tornar o trânsito automóvel mais expedito;
4-Desenvolver imediatamente o transporte marítimo de passageiros;
5- Modernizar e expandir o transporte ferroviário até aonde seja possível.

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(Re)publicado parcialmente pelo Semanário Económico de 10 Junho de 2010

terça-feira, junho 01, 2010

O ÚLTIMO PASSEIO

=Homenagem ao Pedro Menezes=

Tentei ao longo dos 5 anos, completados hoje, não falar, nem escrever sobre os meus últimos momentos com o finado amigo Pedro Menezes. Foi por força da grande dor e vazio que deixou em mim. Porém, por nos terem atribuído acções inverídicas, trago à luz os nossos derradeiros momentos.

À hora da mudança de turnos (13horas) cruzámos no pátio. Polaco Pedro, Pedro Menezes, Lito Costa e eu.
_ Comué, hoje há? - perguntou o Pedro ao Polaco ao que ele acenou afirmativamente.

- Yá, então logo a concentração é aqui. - Continuou o Pedro, desta vez olhando para o Lito Costa. Próximo da cabine estava o Adilson Santos que é colega de Lito, sendo eu e o Pedro Menezes funcionários da mesma área. O Polaco é amigo comum, pois tem um programa independente na LAC e lida quer com jornalistas, quer com os técnicos (sonoplastas).

Lito e Adilson combinaram, à parte, a hora da largada. Cada um tinha o seu carro e não precisavam de favores. Pedro e eu combinamos na redacção, depois de termos, antes, reclamado das impertinências da Amélia de Aguiar sobre os estacionamentos do Pedro Menezes.

Momentos antes a Amélia abordara o Pedro sobre a sua manobra que, a seu ver, revelava inexperiência de condução automóvel. E tudo aí morreu.

_ Comué Canha, vais hoje ao colégio (ISPRA)? - indagou-me.

_ Não. Só na sexta-feira é que vou entregar o pedido para a confirmação da matrícula,  - respondi-lhe.

Estávamos no dia 31 de Maio. Tinha eu chegado havia dez dias de Lisboa e era o nosso primeiro momento de conversa.
_ Então, já ouviste a conversa do pátio... o teu carro está bom? - voltou a questionar-me o Pedro.
_ Ainda, mas... é melhor ir no teu...
_ Yá, então pede já a Elsa e depois confirmas.
_ Não tem maka, - respondi. Estou a me comportar pra caramba!

Assim nos separamos às 15h10. O destino seria a vila de Viana, à noite. À casa do Polaco ou à discoteca Múkua. Era a terceira vez que Menezes e eu iríamos procurar os amigos de Viana, o Polaco Pedro, O Zé Assis e o Zé do Múkua.

Posto em casa, pedi à mulher para me ausentar à noite. Ela não colocou entraves, pois sairia com alguém por quem tinha confiança. O Pedro não fazia uso de bebidas alcoólicas nem qualquer substância psicotrópica. Aguardei por ele e apareceu sozinho, às 22 horas, vestindo um terno preto, o que motivou a Elsa a aconselhar-me a usar um casaco preto que tinha trazido de Lisboa, devido ao frio. Minutos depois partimos. Era da LAC que sairíamos em coluna. Antes, aos congolenses apanhamos o Mateus Gaspar.

No local da concentração, no largo da LAC, onde o Adilson e um irmão mais novo nos aguardavam, decidiu-se que iríamos ao Cassenda visitar o Mário Inácio que fazia anos naquela noite. Assim foi. Uma hora e meia foi quanto gastamos em casa do Marito Perez Inácio. De saída, numa rua próxima do terminal de cargas da TAAG, uma festa tinha sido interrompida pela ausência de energia eléctrica. Dela saiam muitos jovens estarrecidos. Entre eles uma colega, Rosemary Vieira, acompanhada de irmã, Ana Vieira e uma prima.

Depois de se informarem do nosso destino as duas irmãs decidiram connosco seguir a Viana e passar o resto da noite, ao que acedemos. Rosemary e a irmã seguiram no carro do Menezes e o Mateus Gaspar passou para o carro do Adilson. Era a primeira vez que víamos a Ana Vieira que ao longo do percurso se mostrou indisposta queixando-se de uma dor de cabeça. Quase não conversou.

O destino era a discoteca Múkua. Lá estavam os nossos amigos. Foi uma noite muito animada, pois cairia num feriado, 1º de Junho. O Menezes procurava por motivos de reportagem cultural. Eu queria apenas distrair-me e tomei uns copos. Depois dos anos 90 em que frequentei "dancings" na Precol, nunca mais tinha tido noite semelhante.

Às três da manhã decidimos partir de volta a Luanda. Decidimos partir em coluna, tal e qual na ida. Ordenei que o Pedro seguisse em frente, devido à sua lenta condução que desencorajaria os demais colegas a acelerarem em demasia, e que os que seguissem atrás o não ultrapassassem. Ordenei ainda para que o Pedro não fosse para além dos 80km horários. Todos os condutores concordaram e assim foi até nas próximidades da FTU onde o Adilson ultrapassou o Pedro.

A estrada estava vazia. O Kia Avela inundava-se de frio e a música era suave, ao gosto do Pedro. A Rosemary, que sabíamos era namorada de um colega nosso, estava no banco da frente. A irmã, Ana, adoentada, estava no de trás comigo. Falava-se de coisas vãs, sem memória.

O instante final do percurso foi junto ao monumento ao camionista, à Avenida Deolinda Rodrigues, junto ao cemitério da Sant'Ana. A roda dianteira esquerda do carro transpôs o lancil. O Pedro despertou e puxou o volante à esquerda, mas em demasia e o carro subiu o lancil contrário. O exercício acontecia em fracções de segundos e nem tempo tivemos para palavras. Assisti lúcido aos acontecimentos. A terceira tentativa de pôr o carro no eixo da via foi a fatal. Uma árvore, à esquerda, acolheu-nos. A Ana e a Rosemary choravam. Eu as encorajava sem saber das lesões internas contraídas. O Pedro expelia o último fôlego da vida. Sem esperanças contive-me em assisti-lo partir...

Momentos depois, o Victor Hugo Mendes reportava para a Rádio Luanda o sucedido. Foi quem tudo fez para que houvesse socorro. Surgiu primeiro um carro patrulheiro da polícia e depois os bombeiros que tentavam, a custo, retirar-nos da viatura que abraçara a árvore. Primeiro arrombaram as portas, depois o tejadilho e nada conseguiam. O carro estava encolhido. Com a voz que me restava ainda aconselhei esticarem o carro, o que fizeram com sucesso.

Já mais de duas horas se tinham passado desde o acidente. Esticado o carro, levaram primeiro ao hospital o Pedro que já era cadáver. Seguiu-se-lhe a Rosemary e depois a Ana. Fui o último transportado numa carrinha de patrulha policial. Em vão, ainda pedi aos polícias que me levassem ao Hospital Militar.

No Josina Machel, jogados ao cimento, a Rosemary Vieira ainda chorava a sua dor e a perda do Pedro que estava inanimado. A Ana recebia os primeiros cuidados. E eu, aí na cadeira de rodas ou maca, sentindo as dores que me derrubavam a coragem.

Depois da cirurgia, e ainda sob os efeitos da anestesia, soube, pela Televisão Pública de Angola, que a Rosemary também tinha morrido. Da Ana nunca mais ouvi falar apenas os dizeres acusadores do povo sobre uma cumplicidade que nunca houve...

Luciano Canhanga

segunda-feira, maio 31, 2010

O PRÉDIO DA QUIBALA


"Deixar de sonhar é morrer". Ninguém, e nada mesmo, pode colocar fim à imaginação criadora do homem, sobretudo quando se sente em condições de realizar.

Alguém, um cidadão anónimo quibalista, quis construir um edifício de dois pisos. O homem sentiu-se encantado ao encontrar edificios daquela natureza na vila sede. Pensou emocionado em construitr o seu. Faltaram-lhe porém, a ciência, os recuros financeiros e materiais. Mas não desistiu.

Encontrou na aldeia um espaço com desnível de relevo. Um terreno subdividido com uma parte mais alta do que a outra. E pensou ele que aquele seria o local ideal para realizar o seu sonho, construindo duas residências geminadas que, vistas de longe, pareceriam pisos sobrepostos.

Bem pensou, partiu para a prática. Fabricou adobes, comprou chapas de zinco e ... mãos à obra!

A foto (gentileza de Maria João Neto) diz tudo.

terça-feira, maio 25, 2010

O QUE FAZER DEPOIS DA MEIA IDADE?

Hoje 25 de Maio, dia em que os africanos se rejubilam pela criação, em 1963, da OUA, agora transfigurada em União Africana, é também o meu dia de bodas. E faço 36 anos, o mesmo que estar mais para lá do que cá,  tendo em conta o que determinei como idade ideal para se viver que são setenta anos. Por isso, passo hoje à outra idade, a da razão pura, reflexão e comedição.

Não me cobrem se já não soltar sorisos rasgados; se me virem vestido a papá; se não vos responder na hora, temendo tomar decisão errada; se for comedido nas afirmações e nos discursos, ... Tornei-me um mais velho e "mu dikano dya muadyakime ki mutundu maka mabolo".

Actos aplausíveis e apupáveis terei sempre pois me sujeito à minha condição humana... E penso também hoje no que fiz, tenho de fazer e como viver os 34 em falta... 

terça-feira, maio 18, 2010

O DIA EM QUE OS BOMBEIROS CHEGARAM TARDE

Tornaram-se vezeiros os incêndios de grandes proporções na capital angolana e com prejuízos enormes, às vezes incalculáveis, se estendermos os danos aos morais.

Por descuido ou desleixo para com as normas básicas de segurança das instalações, todas as semanas são reportados incêndios em instalações comerciais e residências que deixam muito angolanos com dores físicas e bocas amarguradas. O mais recente incêndio de grandes proporções aconteceu no mercado do Roque Santeiro, ao Sambizanga, tendo consumido bancadas, barracas e casas onde era guardado material de construção em venda naquele mercado paralelo (feira).

Pelo que se ouviu das visadas, entrevistadas pela TPA, qualquer uma das vendendora terá perdido valores acima de USD 3.000,00, pois só com aquele montante se pode entrar para a comercialização de materiais de construção.  E não estamos a falar de empresárias. São pobres mulheres que pediram o dinnheiro emprestado de alguém conhecido, com o único objectivo de manter acesos os fogareiros e os fogões.

Mulheres  "vijunárias" que recorreram, agregadas, ao kixi-crédito e ou micro-crédito para poderem sustentar as famílias ao mesmo tempo que reembolsam os valores recebidos. E o fogo consumiu tudo o que encontrou encaixotado. Lavrou até o dinheiro que "por questões de segurança as senhoras nunca conseguiam levar para casa, deixando-o guardado entre as imbambas". Perderam-se "vidas" feitas ao suor de muitos dias de sol, frio e poeira no descampado do Roque Santeiro. E foi "graças a pronta intervenção dos bombeiros" pois, pelo contrário, "o chão teria ardido"...

Se com a "pronta intervenção" do corpo de bombeiros acontece o que a TPA mostrou (reportado como um infausto incêndio), gostaria de saber o que acontecerá no dia em que os bombeiros chegarem tarde?

domingo, maio 16, 2010

UM MITO CHAMADO LIBOLO

Antes dos três jogos que definiram o vencedor da taça de Angola em basquetebol ninguém, nem mesmo eu (acérrimo defensor da equipa da minha municipalidade) acreditava na vitória do Libolo frente ao "tout puissant" 1º de Agosto.

A primeira partida saldou-se numa pesada derrota para os libolenses que entraram na luta pela primeira vez, relegando o petro e ASA. Foram 116 pontos para os militares e 80 para os "atrevidos" libolenses o que fazia prever "um passeio" do D'Agosto na competição.

No jogo que seria da confirmação, o Recreativo do Libolo venceu por 3 pontos de diferença, 92-89, o que levou as duas equipas a disputarem uma finalíssima. Nem com isso a aposta se equilibrava a favor dos libolenses, pois há muito os militares são papões na modalidade e a turma da vila cafeícola do Kuanza-Sul apenas está na competição há duas temporadas.

Na finalíssima, disputada hoje, o 1º de Agosto auto-confiante defrontou um Libolo com elevado estado anímico e o resultado não podia ser outro: 66-64 a favor dos "miúdos" que conseguem o seu primeiro título no basquetebol masculino angolano. E está apenas há duas temporadas na competição, seguindo os mesmos passos que a e quipa de futebol que ao entrar foi terceiro melhor classificado do Girabola, subindo para vice-campeão na segunda participação (2009).

terça-feira, maio 11, 2010

O IMPACTO DO ATRASO SALARIAL NOS JUROS DE MORA

Há alguns anos o que mais aquecia o debate dos economistas angolanos radicados em Luanda era a bancarização salarial. Um imperativo que se afigurava de todo útil e inadiável, tendo em conta a possibilidade de regularização da economia nacional, a possibilidade que os trabalhadores teriam/têm de contrair empréstimos junto da banca comercial, as lera livranças (alguém ouve mais falar delas?) e etc., etc.

Bancarizados que estão agora os "kumbús" (dinheiro) de muitos angolanos, um outro muro surge bem "à frente dos trabalhadores": o atraso de salários na função pública e nalgumas empresas e mistas. Como era de imaginar, para além dos fogões que entraram num estado de ociosidade, cozinhando dias sim, dias não, o ordenado do mês em falta está já duplamente comprometido com o pagamento de kilapis (dívidas) contraídos para acudir o atraso salarial e com os elevados juros de mora, junto dos bancos credores.

Aqui chegados e sem que o "quem de direito" venha a público explicar o que, na verdade, se estará a passar como o salário e o como será vista a questão junto da banca credora, que descontará "um juro incrementado" em função da "nossa má fé (?)", enquanto devedores (culpa porém que nos é alheia), só nos restam  os jornalistas "independentes" para promoverem debates, juntando empregadores, Banco Nacional, bancos comerciais (pagadores de salários e cobradores de juros de mora), MINFIN, economistas, cidadãos afectados pelo atraso salarial e pagamento de juros hiper-altos e outros actores sociais e económicos para produzirem os esclarecimentos que se impõem. 

O que são juros de mora?

Quando alguém está obrigado, por um contrato ou pela lei, a realizar um pagamento dentro de um prazo determinado e, por sua culpa, não o faz, diz-se que essa pessoa se encontra em mora. Ao encontrar-se em mora, o devedor fica legalmente obrigado a indemnizar o credor pelos eventuais danos por este sofridos, decorrentes do não pagamento em tempo devido. Esta indemnização traduz-se no pagamento de juros de mora (em países com Portugal a taxa aplicada pode ir até 8% do montante em atraso. Em Angola desconheço os valores pelo que peço contribuições a quem as tiver). Assim, além da dívida propriamente dita, há que pagar uma compensação ao credor pelo atraso do pagamento.

Algum jornalista ou editor (dos M.D.M. e O.C.S.) segue este caminho? Haja coragem!

sábado, maio 08, 2010

A DÉBIL SEGURANÇA LABORAL NAS OBRAS CHINESAS

João Cipalavela é natural do Kuito. Forçado pela pobreza e pela guerra viu-se longe da escola e dos centros de formação profissional. Agora adulto, e com a formação da família em perspectiva, Chipalavela decidiu fugir da ociosidade e dos maus vícios (drogas, alcoolismo), empregando-se, em Luanda, numa empresa de fabricação de blocos de cimento utilizados na construção civil.

- "Aqui, óh mano, a vida é dura. O tal dinheiro mesmo que nos pagam é só vindi-e-um mili kuanza. Nó chega mesmo e ainda nos descontam lá a comida que comemos"._- Disse-me quando o abordei sobre a sua proveniência rápidamente denunciada pelo sotaque no falar.

Chuipalavela e amigos, todos de províncias do interior, labutam mais de 18 horas ao dia, com apenas 24 horas de descanço ao longo da semana. É um trabalho árduo. Carregar as betoneiras, controlar as máquinas, carregar os blocos húmidos para o sol, arrumá-los depois de secos, carregá-los nas camionetas que atendem os clientes e descarregá-los nas obras destes e outros afazeres domésticos no estaleiro.

- "Óh mano, ainda se você não tem força te mandam 'mbora sem te pagar. Só nós mesmo é que aceitamos. Os daqui (luandenses) num aceitam esse trabalho. Lhes mandam só um dia, já num vorta mais"- Contou-me.

Mas a vida dura de Chipalavela e companheiros tem outros capítulos. Um deles tem a ver com a insegurança no trabalho. Chipindi é de Boas Águas, no Catchiungo - Huambo. Trabalha na empresa de confecção de blocos, detida por chineses, há nove meses. O jovem reclama de maus tratos, da jornada contínua sem descanço e da falta de equipamentos adequados de protecção individual (EPI's), bem como da ausência de cuidados médicos em caso de sinistros. Chipindi conta que ao arrumar os blocos houve a queda de um monte,provocando-lhe escoriações no rosto e nos dois braços e antebraços. O patrão apenas deu-lhe duas coritas (adesivo) e nada mais.

_ "Nem só mesmo álcool ou tintura me deram, para não falar já de me levar no hospital". A mulher do patrão que senta aqui (indicava ele à cadeira ocupada habitualmente por uma senhora também chinesa) me disse vai se lavar com a água do tanque e depois põe essas duas coritas que me deu. Assim estou ainda a pensar se este mesmo é tratamento que se dá numa pessoa" - desabafou.

Notei ainda que mesmo com o sol ardente do meio-dia os motoristas chineses nunca permitem que os seus ajudantes angolanos (carregadores de blocos) usem a cabina da viatura, tendo de fazer-se transportar por cima da carga,recordando-nos cenas antigas de "mona ngambé" (filho de escravo).
Por tudo o que vivenciei nos três estaleiros que percorri na última quinta-feira 06.05.2010) em busca de matéria-prima para a minha obra, uma chamada de atenção aos fiscais do Ministério do Trabalho não seria pedir em demasia. Seria bom também que os SME passassem por essas empreiteiras e verificassem se todos têm autorização legal de permanência. É que se chega rápidamente à conclusão que para além da falta de respeito às normas elementares de saúde e tratamento humanos, há também muitos chineses e chinesas dispensáveis para o tipo de trabalho que se pratica.

Passem por lá, Srs do MAPESS e SME, e apliquem a tolerância ZERO.

Nota: O autor viveu os factos ao dirigir-se aos estaleiros paralelos à obra da SONANGOL DISTRIBUIDORA e cooperativa cajueiro, na estrada da Camama, bairro Viana II. A reprodução textual respeita o "linguajar" dos declarantes.

quarta-feira, maio 05, 2010

CRESCEM ASSALTOS NA PERIFERIA DE LUANDA

Até ao ano de 2002, quando a preocupaçao maior era acabar com a guerrilha, a questão da mitigação dos assaltos, à mão armada, em Luanda e noutras cidades do país, era tida como secundária. Os meios (humanos, técnicos e financeiros) eram quase todos eles canalizados para as "zonas quentes" e até mesmo delinquentes conhecidos eram recrutados para a "causa maior" da nação, a defesa da integridade territorial e da soberania.

Conseguida a paz, em 2002, começou-se a olhar um pouco mais distante da curva do nariz. Começou a falar-se sobre o policiamento de proximidade (o finado Isaias Chungufo foi dos primeiros a propagar entre nós o termo). A polícia viu-se apetrechada com novos meios técnicos e os homens recebem formação. Só que os defeitos  "de fábrica" se mantêm. É a preguiça quando não é o carro avariado, São os charcos que impedem a circulação das patrulhas, os mesmos homens que foram parar à polícia de forma acidental, enfim, os males de sempre emperram ainda a rotação máxima e desejável da engrenagem policial, e vezes sem conta somos confrontados com informações sobre assaltos à mão armada nas ruas, nas paragens de transportes, em residências e em lugares que a priori o incauto nunca desconfia.

O bandido está em todo o lado. Excepto a prontidão da nossa polícia. Ontem mesmo (04.05) dois individuos que seguiam atrás de mim (19h30) foram assaltados em Viana por dois meliantes armados que se colocaram em fuga depois de consumado o acto. Cantinas têm sido assaltadas dias sim, dias também. Os nossos homens de farda azul sabem disso e na prática nada!

Hoje de madrugada, na zona do SEIS, em Viana, três residências foram simultâneamente assaltadas à mão armada sem que a polícia movesse alguma palha. Avisado ao telefone pela minha irmã, ainda liguei para o nr.113, tendo o homem do piquete mostrado preocupação e sinal de que a polícia lá iria em socorro dos aflitos. Tudo o que sei é que os bandidos levaram o que queriam e inclusive "pintaram o diabo". Acordados pelos gritos os vizinhos compareceram e ofereceram compaixão... Apenas a polícia não se fez presente.

Que relação haverá entre os gatunos e aqueles que, sendo sua tarefa combatê-los, nada fazem?

sexta-feira, abril 30, 2010

A ALEGRIA DA MINGOTA E A INFELICIDADE DO KITEMBO

Alegre, ela. Sabe cativar e expandir sorrisos rasgados ao vento. Assim procedeu e atraiu o seu macho predilecto.

Gordo, ele. Fora esbelto num passado que apenas os amigos de infância e adolescência conhecem. Juntos os via caminharem da Central à Moisés, em dias do centenário Metodista ou a caminho dos ensaios do coro. Juntos também estavam, vezes sem conta, no Ngola Mbandi onde concluíram o ensino básico na década de noventa do século XX. Kitembo é amigo do Canhanga, diga-se, apesar das curvas e contra-curvas que os separa últimamente.

Domingas, ou simlesmente Mingota, Kitembo e Canhanga têm algo em comum. Ambos entendem de jornalismo. Cada um a seu nível de prática e conhecimento, pois foram sempre de formações e visões diferenciadas. Os dois primeiros no activo e na mesma rádio onde Kitembo é líder e o terceiro emprestado à comunicação institucional duma empresa de grande porte. Vez por vez encontram-se os rapazes, para trocar ideias, discutir o indiscutível ou até mesmo tomar uma pinga. Bons frascos já foram ambos no passado, mas as responsabilidades profissionais e a idade que pesa com o cair de cada sol vai atenuando a frequência com que se entregam ao que marcou o primeiro milagre de cristo.

Nestes anos de simples adepto do jornalismo, sem poder entrar em campo e marcar golos, Canhanga aprecia, com nostalgia, os lances mal efectuados de cada amigo, cada conhecido, cada voz que encanta e cada texto que encontra nas mãos dum ardina. E foi nesta pele que ouviu a voz do amigo vomitada pela caixa do carro anunciando que "infelizmente" os ouvinte não teriam a reportagem matinal da Mingota que "felizmente" contrairia matrimónio naquela manhã de sexta-feira.

O Kitembo (na foto) perdeu, no serviço, temporariamente a Mingota que se casou.

sábado, abril 17, 2010

A CANTINA DO KAMARÁ E A LEI DOS 3M

Sabe-se que quando da independência, havia um comércio retalhista estruturado, com lojas e cantinas (comércio precário) com um sistema de produção de bens considerado aceitável para aquela época. Importa também reconhecer que a economia angolana nem sempre esteve totalmente monetarizada, coexistindo o comércio monetarizado e a permuta (troca de bens/produtos por outros de valor equivalente). Três factores animam nos últimos anos o nosso comércio.

De um lado está o comércio informal, feito em locais impróprios e que prejudica a vida urbana (circulação, asseio, estética, etc). De outro lado está o surgimento de grandes e médias superfícies que vão cobrindo, nas cidades, um vazio que há muito se fazia sentir em termos de concentração de bens e serviços num espaço único. Para o caso de Luanda existem os Shoping’s e os "Nosso Super". A terceira variante, e preocupante, tem a ver com o surgimento de cantinas, nos subúrbios das cidades, detidas maioritáriamente por cidadãos expatriados. É aqui que os cientistas sociais são chamados para estudos sobre as causas e objectivos dos promotores deste tipo de “apropriação silenciosa”.

Sabe-se que à luz da legislação económica angolana, os estrangeiros são chamados para investirem em áreas que envolvam avultadas somas monetárias e para as quais os nacionais não estão in solo “preparados” para a demanda que se impõe. O comércio grossista é, por via disso, um pedaço em que são chamados a debitar esforços. O que se assiste, porém, é o contrário e várias vezes nos perguntamos: _ Porque será que as cantinas passaram todas às mãos dos Kamarás, Dialós, Diarrás e Diakités?

Um estudo (ainda inacabado) sustenta que por trás dos cantineiros expatriados estará uma mão invisível que usa os mesmos métodos praticados pelos europeus nos longínquos séculos XIV e XV, ou seja, os 3M: marché, missionnaire et militaire (aqui entendível apenas como povoir/poder). Os norte e oeste-africanos usam o comércio/economia para expandirem a sua religião (islamismo) e com ela (a religião proporcionará o aumento de prosélitos angolanos confessos) virão outras formas de exercício do poder. Sabe-se que a economia e a política andam sempre de mãos dadas.

Não se podendo pôr termo ao surgimento das actuais cantinas que encarnam o chamado comércio de proximidade, urge a necessidade de regular/definir e fiscalizar os que o fazem e em que circunstâncias exercem esta actividade. Por outro lado, assistindo-se ainda à permuta em algumas áreas do interior do país, fruto do fraco nível de produção e distribuição, entendo que só a autosustentabilidade em termos de bens e serviços nos levará à completa monetarização do comércio e ao equilíbrio entre a procura e a oferta que muito afecta os preços.

Estando, com certeza, o Governo atento ao debate e às prementes necessidades dos angolanos, o anúncio feito pelo Presild, de pretender levar ao interior mais de dez mil lojas de proximidade, é um valente passo que só peca por tardia.

Publicado no jornal "Semanário Económico" do dia 15 de Abril de 2010.