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quinta-feira, outubro 22, 2026

AS CATEDRAIS DO SALALÉ

Quem viaja pela estrada que liga Kazombo ao Makondo, no Muxiko Leste, dificilmente percorre muitos quilómetros sem que o olhar seja interrompido por uma presença silenciosa. Aqui e ali, junto às aldeias, no meio da savana ou entre o capim alto, erguem-se montes de terra avermelhada, alguns modestos, outros imponentes, como se fossem pequenas catedrais moldadas pela própria natureza. São as termiteiras, conhecidas em muitas regiões de Angola como montes de salalé.
À primeira vista parecem apenas acumulações de terra endurecida. Mas basta conhecê-las um pouco para perceber que escondem uma das mais extraordinárias obras de engenharia do reino animal. 

As termiteiras são construídas por milhões de térmitas sociais, sobretudo do género Macrotermes, ao longo de vários anos. O monte visível é apenas a parte exterior de uma estrutura muito mais vasta. Sob a superfície estende-se uma complexa rede de galerias, câmaras, túneis de ventilação e compartimentos destinados à criação das larvas, ao armazenamento de alimentos e ao cultivo de fungos que servem de alimento à colónia.

Em muitos casos, o sistema subterrâneo ultrapassa os seis metros de profundidade, ligando-se a uma intricada rede de condutas que regula a circulação do ar, a humidade e a temperatura. É um sistema de climatização natural tão eficiente que tem inspirado arquitectos e engenheiros na concepção de edifícios de baixo consumo energético. 

O biólogo sul-africano Eugene Marais, um dos primeiros estudiosos do comportamento das térmitas, descreveu-as como organismos capazes de agir como uma única entidade. Mais tarde, investigadores como David Attenborough ajudaram a revelar ao grande público a impressionante organização destas sociedades, enquanto o entomólogo Stephen Pratt aprofundou os mecanismos de construção colectiva e inteligência distribuída.

Ao longo dos séculos, as termiteiras despertaram também a imaginação humana. Algumas apresentam formas cónicas, outras lembram torres, colunas ou esculturas esculpidas pelo vento. 

Na tradição oral de várias comunidades africanas, há quem lhes atribua significados espirituais ou ancestrais. Há ainda quem, observando certas formas mais esguias ou arredondadas, veja nelas uma curiosa semelhança com partes do corpo humano. Não passa de um exercício da imaginação, mas demonstra como a natureza frequentemente dialoga com o imaginário das pessoas.

No leste de Angola, onde a paisagem alterna entre extensas savanas e manchas de floresta, estes montes tornam-se parte da identidade visual do território. Não são simples acidentes do relevo. São marcos da paisagem, companheiros de viagem e testemunhas silenciosas do tempo. Muitas aldeias parecem crescer ao lado deles, como se reconhecessem, intuitivamente, a importância daquele pequeno monumento erguido por criaturas quase invisíveis.

A utilidade das termiteiras, porém, vai muito além da ecologia. Os geólogos conhecem bem o seu valor científico. Ao escavarem profundamente para recolher partículas finas do solo, as térmitas transportam para a superfície materiais provenientes de camadas que, de outra forma, permaneceriam inacessíveis. 

Por essa razão, os montes de salalé são frequentemente amostrados durante campanhas de prospecção mineral. A análise geoquímica da terra das termiteiras pode revelar a presença de elementos-traço associados a jazigos enterrados, funcionando como indicadores naturais de minerais como ouro, cobre, níquel, diamantes e outros depósitos metálicos. Em diversas regiões de África e da Austrália, esta técnica tornou-se um complemento importante da prospecção geológica convencional.

É curioso pensar que um insecto de poucos milímetros possa auxiliar a ciência na descoberta das riquezas escondidas nas profundezas da Terra. Enquanto as térmitas trabalham para garantir a sobrevivência da sua colónia, acabam por trazer à superfície pistas que orientam o olhar atento dos geólogos.

Talvez seja essa a maior lição das termiteiras. Aquilo que parece apenas um monte de terra é, afinal, um monumento à persistência, à cooperação e ao engenho. Não foi construído por máquinas, nem por arquitectos famosos, mas por milhões de pequenos seres que, sem alarde, transformam grãos de terra em obras que resistem ao tempo.

Na estrada entre Kazombo e Makondo, elas continuam de pé. Umas altas, outras baixas. Umas jovens, outras centenárias. Todas lembrando ao viajante que a natureza também sabe construir monumentos e que, muitas vezes, as maiores maravilhas começam com criaturas quase imperceptíveis aos nossos olhos.

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In: Viagem ao Muxiko Leste

Publicado no Jornal de Angola de 05.07.2026

segunda-feira, outubro 19, 2026

CRIAR ROEDORES E AVES PARA DIVERSIFICAR A DIETA

Há exemplos que valem ser partilhadas pelo seu arrojo. É conhecida a dieta "arroz com feijão" ou "arroz com lataria" nos quarteis e nos estabelecimentos prisionais. Os presos em Vunonge comem sopa, salada, verduras e dieta diversificada. O Campo Prisional, no perímetro irrigado do Mis(s)ombo produz tomate, couves, repolho, cebola, feijão, milho, maracujá, alho, entre outras variedades que vão à cozinha. Os detidos dizem sentir à mesa o fruto do seu trabalho e entregam-se à lavoura com energia e elevada disposição. Mas a nova direcção dos Serviços Prisionais do Kuvangu (Vunonge) é ainda mais ousada. Está a implementar um projecto piloto de criação de pequenos roedores e aves, com o objectivo de diversificar a dieta alimentar dos efectivos e da população prisional. Segundo o director Sabino Salongue Catombela, já existem algumas dezenas de coelhos e porquinhos-da-Índia, com expectativa de chegar a centenas. 

O coelho adapta-se facilmente a diferentes climas, incluindo tropicais. Alimenta-se de feno, folhas verdes e rações ricas em fibras, praticando a cecotrofia (reingestão de fezes nutritivas). A sua reprodução é extremamente rápida: a gestação dura apenas 30–32 dias e pode resultar em várias ninhadas anuais, cada uma com 6 a 10 filhotes. A carne de coelho é rica em proteína, de baixo teor de gordura e fácil digestão, sendo considerada um alimento saudável e de elevado valor nutricional.

Quanto aos porquinhos-da-Índia, adaptam-se bem a climas temperados e tropicais. Alimentam-se de capim, folhas verdes e legumes, necessitando de suplementação de vitamina C. A gestação dura entre 59–72 dias e pode gerar 3 a 4 ninhadas por ano, com cerca de 3 filhotes por parto. A sua carne é magra, nutritiva e tradicionalmente consumida nos Andes, representando uma fonte acessível de proteína animal.

O projecto inclui ainda um pombal e uma capoeira, onde já se encontram dezenas de galinhas adultas e pintos. Estas aves reforçam a oferta de proteína animal e complementam a criação de roedores.

O projecto representa uma estratégia inovadora de diversificação alimentar, aproveitando espécies de fácil manejo e reprodução rápida. A criação de coelhos, porquinhos-da-Índia, pombos e galinhas poderá transformar a dieta prisional, garantindo proteína acessível e sustentável, em linha com práticas de ciência animal (Cheeke, 1987).

quinta-feira, outubro 15, 2026

FORTALEZAS DO KWANZA-SUL: REABILITAR A MEMÓRIA E PRESERVAR A HISTÓRIA

No seu Discurso sobre o Estado da Nação, proferido a 15 de Outubro de 2026, o Presidente da República, João Lourenço, anunciou a reabilitação de importantes fortalezas históricas da província do Kwanza-Sul, nomeadamente as de Kalulu, Kibala e Kikombo. A iniciativa insere-se no esforço de valorização do património histórico-cultural nacional e representa uma oportunidade para recuperar monumentos que testemunham diferentes períodos da história de Angola, desde a ocupação colonial e a resistência dos povos locais até aos processos de transformação política e social ocorridos ao longo do século XX.

Mais do que simples estruturas militares, estas fortalezas constituem marcos materiais de um passado complexo, cuja preservação permitirá às gerações actuais e futuras compreender melhor os acontecimentos que moldaram a identidade das comunidades locais e a própria formação do Estado angolano. 

Entre estas infra-estruturas históricas, a Fortaleza de Kalulu assume particular relevância por estar intimamente ligada à história da resistência das populações do Lubolu à penetração colonial portuguesa.

Situada no novo município de Kalulu (região do Lubolu), a Fortaleza de Kalulu foi construída em 1897, por iniciativa do tenente Albano Augusto Pais Brandão, num período em que as autoridades coloniais portuguesas procuravam consolidar a sua presença no interior de Angola. A região do Lubolu era então palco de sucessivos confrontos entre as forças coloniais e as populações locais, que resistiam à ocupação estrangeira e à imposição da administração portuguesa.

A construção da fortaleza obedeceu a uma lógica essencialmente militar. A sua finalidade era garantir a defesa das posições portuguesas, assegurar as linhas de comunicação e servir de base para as operações destinadas à ocupação efectiva do território. A fortificação tornou-se, assim, um dos símbolos da presença colonial na região.

Albano Augusto Pais Brandão ocupa, por isso, um lugar destacado na história da fortaleza. O seu envolvimento nas campanhas militares portuguesas está documentado no Relatório da Coluna de Operações à Sanga, elaborado entre Outubro de 1903 e Fevereiro de 1904 e conservado no Arquivo Histórico Militar português. O documento descreve operações militares realizadas em localidades do Lubolu e evidencia a persistência dos esforços portugueses para subjugar grupos que resistiam à autoridade colonial.

Contudo, a história da Fortaleza de Kalulu não pode ser contada apenas do ponto de vista da ocupação colonial. Ela está profundamente ligada à memória da resistência das populações do Lubolu, que durante décadas se opuseram à presença portuguesa.

Os conflitos iniciados na década de 1890 prolongaram-se pelos primeiros anos do século XX, culminando em importantes episódios de contestação, entre os quais se destaca o levantamento de 1917. A resistência das comunidades locais constitui um elemento fundamental da identidade histórica da região e permanece viva na memória colectiva das populações.

Neste contexto, a Pedra Escrita do Lubolu (Ndala Uzu), actualmente classificada como património histórico-cultural nacional, assume um significado particular. Associada às memórias das guerras de resistência contra a ocupação colonial, este local complementa simbolicamente a Fortaleza de Kalulu. Enquanto a fortaleza testemunha a implantação do dispositivo militar português, a Pedra Escrita (junto à aldeia de Ndala Uzu) recorda a persistência e a determinação dos povos locais na defesa da sua autonomia.

Durante a luta de libertação nacional, entre 1961 e 1975, Kalulu permaneceu sob administração portuguesa, acompanhando a evolução do conflito que conduziria à independência de Angola. Embora não existam evidências documentais que atribuam à fortaleza um papel específico em operações militares decisivas desse período, a sua origem mantém-na associada à história da presença colonial na região.

Após a independência, o Lubolu voltaria a viver tempos difíceis. No contexto da guerra civil angolana, Kalulu foi invadida em 5 de Setembro de 1983, 25 de Dezembro de 1989 e depois, durante o conflito pós-eleitoral que se seguiu a 1992, por forças da UNITA, episódios que provocaram, mortes e ferimentos de civis, deslocações de populações e profundas perturbações na vida económica e social do município. Tal como acontece relativamente ao período colonial tardio, não existem elementos suficientes para determinar de forma rigorosa a utilização operacional específica da fortaleza durante esses acontecimentos, daí que toda a narração em primeira pessoa de militares e comissários do período republicano é bem-vinda.

Reabilitar para conhecer e preservar

O anúncio presidencial da reabilitação da Fortaleza de Kalulu representa, por isso, muito mais do que uma simples obra de recuperação física. Trata-se de uma oportunidade para transformar o monumento num espaço de conhecimento, reflexão e valorização da memória colectiva.

A intervenção deverá ser acompanhada por investigação histórica, recolha de testemunhos das comunidades locais, levantamento documental e instalação de conteúdos interpretativos que permitam contextualizar os diversos momentos da história da região. Dessa forma, será possível apresentar aos visitantes uma visão equilibrada e abrangente do passado, reconhecendo simultaneamente a presença colonial, a resistência das populações do Lubolu e os acontecimentos posteriores à independência.

A Fortaleza de Kalulu poderá, assim, afirmar-se como um importante pólo de memória histórica do Kwanza-Sul, integrado no conjunto de fortalezas que o Estado angolano pretende preservar e valorizar. Mais do que recuperar pedras e muralhas, a sua reabilitação permitirá conservar a memória plural de um território cuja história foi marcada pela resistência, pela ocupação, pela luta e pela permanente capacidade de renovação do povo angolano.

Fontes

  1. Arquivo Histórico Militar de Portugal, Relatório da Coluna de Operações à Sanga, elaborado por Albano Augusto Pais Brandão (1903-1904);

  2. Decreto Executivo n.º 136/19, de 12 de Junho, relativo à classificação da Pedra Escrita do Libolo;

  3. Discurso sobre o Estado da Nação, Presidente da República de Angola, 15 de Outubro de 2026;

  4. Eduardo Ferreira dos Santos, Tese de Doutoramento, Universidade de São Paulo, 2015;

  5. Kindala Mabuel, Jornal Cultura, 2 a 15 de Janeiro de 2018.

domingo, outubro 11, 2026

BRUXELAS: O SILÊNCIO E A (DES)ORDEM

[Crónica de uma terceira passagem pela capital europeia]

Acordei. A coluna ainda não se refez completamente, mas a cabeça já não dói. E talvez seja justamente por estar ainda entre o sono e a vigília que consigo escutar melhor uma coisa que, em Luanda, quase nunca se escuta: o silêncio.

Se há algo que "inquieta" em Bruxelas é a paz, para quem vive numa espécie de guerra social permanente.

Aqui não se ouvem passarinhos a chilrear. Não há motoristas enfurecidos a buzinar desesperadamente. Não se ouvem sons soltos ao vento, vindos de uma festa qualquer, próxima ou distante. Não há galos a cantar, galinhas a cacarejar, cães a ladrar ou gatos noctívagos a miar.

Há um silêncio quase absoluto.

E esse silêncio contrasta violentamente com a nossa realidade diária e vezeira.

Em certas zonas suburbanas de Luanda, o dia parece nascer já em estado de discussão. A cidade acorda aos gritos. Buzina-se para avançar, para parar, para reclamar, para anunciar a presença. A rua é estrada, mercado, sala de conversa, oficina, paragem, restaurante improvisado e, por vezes, extensão da própria casa.

Não é apenas desordem. É uma maneira de produzir a cidade.

Joana Venâncio, ao estudar o processo urbano de Luanda, chama a atenção para o facto de a cidade não poder ser compreendida apenas pela oposição entre o formal e o informal. A informalidade, escreve a investigadora, tornou-se parte do próprio processo de construção urbana.

Talvez seja isso que explica aquilo que, visto daqui, parece excesso.

Excesso de vozes. Excesso de buzinas. Excesso de mercadoria. Excesso de gente. Excesso de movimento.

Em Luanda, a cidade não espera que o espaço seja preparado para ser ocupado. O cidadão ocupa-o primeiro e adapta-o depois.

É a lógica da sobrevivência.

É também a lógica de uma economia que aprendeu a funcionar onde o Estado, o planeamento urbano ou a infraestrutura formal ainda não chegaram.

Os kandongueiros são um exemplo. Castro, Reschilian e Zanetti observam que o transporte informal não é apenas um sinal de “desordem”, mas um dos mecanismos fundamentais da mobilidade e da expansão metropolitana de Luanda.

E há as zungueiras. Há os vendedores de rua. Há as bancadas que nascem junto aos passeios. Há a mercadoria que sai da loja para a calçada. Há a casa que se transforma em pequeno comércio.

Há uma cidade que se reinventa todos os dias.

Em Bruxelas, a sensação é outra.

A cidade parece desenhada a régua e esquadro, embora não seja exactamente assim. Há ruas antigas, estreitas, sinuosas; há bairros que nasceram em épocas diferentes; há igrejas que parecem marcar o início e/ou o fim de determinadas ruas. Há uma história urbana feita de camadas.

Mas existe uma coisa que se sente imediatamente: a norma.

Ela está no passeio. No estacionamento. No trânsito. Na fachada. Na obra. Na publicidade. Na utilização do espaço público.

A própria cidade estabelece planos e regulamentos urbanísticos vinculativos. E, na zona da Grand-Place, classificada pela UNESCO, existem regras específicas destinadas a conciliar conservação patrimonial, turismo, comércio e habitação.

Não significa que tudo seja perfeito.

O trânsito pode ser lento. As ruas podem estar congestionadas. Há obras. Há mudanças. Há conflitos entre automóveis, bicicletas, transportes públicos e peões.

Mas sente-se uma diferença fundamental: a cidade parece saber que existem regras e, sobretudo, parece esperar que elas sejam cumpridas.

Isso produz uma outra estética urbana. Menos improvisação. Mais previsibilidade. Menos grito. Mais contenção. Menos ocupação espontânea. Mais negociação com a regra.

E depois há Matongé. Ah, Matongé! Ali a África reaparece.

Não exactamente a África que deixámos, mas uma África transportada, reorganizada e domesticada pela cidade europeia.

É como se alguém tivesse trazido pedaços de Kinshasa, Dakar, Luwanda, Brazzaville, Lagos e de tantos outros lugares, colocado tudo dentro de uma moldura belga e dito: podem viver aqui, mas dentro das regras daqui.

A descrição oficial de Visit Brussels é curiosamente poética: a Chaussée de Wavre é apresentada como a “artéria principal”, as galerias de Ixelles e da Porte de Namur como os “pulmões”, e as ruas circundantes como “vasos sanguíneos”.

E é precisamente essa a sensação. O Matongé respira.

Ali há cabeleireiros, cosméticos, restaurantes africanos, cafés, agências de viagens, transferências de dinheiro, igrejas, frutas tropicais e lojas onde a mercadoria parece querer escapar da montra para a rua.

É uma pequena África dentro de Bruxelas. Uma África que fala mais alto. Uma África que gesticula mais. Uma África que vende, compra, regateia, cumprimenta, discute e ri. Mas existe uma diferença fundamental.

Aquele mundo que, em determinados bairros de Luwanda, pode espalhar-se pela cidade inteira, aqui encontra um território relativamente delimitado. A desordem — se quisermos chamar-lhe assim — tem endereço.

E talvez seja essa uma das grandes lições de Matongé: a cidade europeia não elimina necessariamente a diferença; organiza-a.

Depois, basta caminhar alguns minutos e a paisagem muda. O centro de Bruxelas recebe-nos com outra linguagem.

As fachadas antigas, as lojas, os restaurantes, as cervejarias, os hotéis, os centros comerciais, as lojas disto e daquilo — até de produtos que, em Luwanda, reconheceríamos como "mayuya" ou mercadoria de consumo popular — funcionam dentro de uma engrenagem comercial rigorosa.

A “marginal do comércio” apresenta-se como um formigueiro humano. Gente de várias origens e com vários destinos. Gente que parece ter decidido que o melhor lugar para estar não é necessariamente o fogão de casa nem a sala fria e silenciosa. Está na rua. Na loja. No bar. No restaurante. No café. No casino. No centro comercial. Na calçada. Há uma espécie de felicidade comercial.

A cidade consome, mas também oferece espaço para que o consumo seja uma forma de convivência. E, curiosamente, há muito movimento sem haver necessariamente barulho, nem sujeira. É talvez essa a grande diferença. Há vida sem algazarra. Há multidão sem tumulto. Há comércio sem gritaria. Há trânsito sem guerra e há higiene por todo o lado. Esta é a minha terceira passagem por Bruxelas em 26 anos.

A primeira aconteceu em 2000. Vim em formação sobre as relações entre a União Europeia e os países ACP — África, Caraíbas e Pacífico. Foi uma passagem essencialmente institucional. Entre salas de formação, documentos e reuniões, houve também a oportunidade de chegar à sede da Comissão Europeia.

A segunda aconteceu duas décadas depois, em 2022, portanto 22 anos depois da primeira. Foi uma passagem especialmente ligada ao percurso de Angola na Iniciativa de Transparência nas Indústrias Extractivas, a ITIE.

Em Setembro de 2020, Angola formalizou a intenção de aderir à ITIE. Em Março de 2022 apresentou formalmente a candidatura. E foi em 16 de Junho de 2022, numa reunião do Conselho de Administração da ITIE realizada em Bruxelas, que Angola foi admitida como país implementador da iniciativa, tornando-se o 57.º país da ITIE e o 28.º de África. Ou seja, aquela "segunda Bruxelas" não foi apenas uma passagem pela cidade. Foi também um momento na história recente da governação dos recursos minerais, petróleo e gás de Angola.

A terceira é agora. E esta é, seguramente, a passagem que mais me permite andar por Bruxelas. Não apenas chegar, reunir e partir. Andar. Observar. Sentir. Comparar. Escutar. E talvez seja andando que uma cidade verdadeiramente se revela.

Desta vez, venho por causa da Conferência Mundial da ITIE 2026, que decorre(u) em Bruxelas, Square, nos dias 8 e 9 de Outubro, co-organizada pelo Governo da Bélgica e pela Comissão Europeia. A conferência reune mais de mil participantes, entre governos, empresas, sociedade civil, investidores, parceiros de desenvolvimento e especialistas de mais de 50 países, sob o tema “Transparency for shared prosperity” — “Transparência para uma prosperidade partilhada”.

A discussão situou-se muito além da simples publicação de números.

Pretendeu-se discutir como a transparência, os dados e o diálogo podem melhorar a governação dos recursos naturais, reduzir riscos de corrupção, reforçar a mobilização de receitas, apoiar cadeias de valor responsáveis, fortalecer a confiança e assegurar que a riqueza proveniente dos recursos naturais produza benefícios duradouros para os cidadãos.

É uma discussão particularmente importante para países como Angola. Porque petróleo, gás e minerais não são apenas recursos enterrados no subsolo. São receitas. São emprego. São investimento. São território. São comunidades. São ambiente. São soberania. São futuro!

E, quando a ITIE fala de transparência, fala também da possibilidade de transformar informação em confiança e confiança em desenvolvimento. Como resumiu a presidente do Conselho de Administração da ITIE, Helen Clark, o momento exige que “governance and transparency” estejam no centro das políticas energéticas.

Talvez por isso esta terceira Bruxelas tenha sido diferente. Nas duas primeiras, vim sobretudo para participar. Nesta, estou também a caminhar. E caminhar permite descobrir coisas que uma sala de conferências nunca revela. Permite descobrir o silêncio da manhã. O comércio que começa devagar. O trabalhador que atravessa a rua. O turista que procura uma praça. O africano que entra numa loja de Matongé. O belga que espera o transporte. O restaurante que abre. A cidade que se limpa. A cidade que trabalha.

A cidade que, apesar das suas contradições, parece ter aprendido que a liberdade de cada um termina onde começa o espaço do outro.

Luwanda tem uma vitalidade que Bruxelas não possui. Tem calor humano. Tem improvisação. Tem capacidade extraordinária de sobrevivência. Tem uma economia informal que, muitas vezes, sustenta famílias inteiras. Tem uma rua que é viva porque as pessoas a transformam em vida.

Bruxelas, por seu lado, tem uma coisa que Luwanda ainda procura consolidar em muitas áreas: a capacidade de transformar a regra em hábito colectivo.

Uma cidade pode ter riqueza e continuar desorganizada. Pode ter pobreza e ser organizada. Pode ter belas avenidas e péssimos comportamentos. Pode ter ruas estreitas e uma excelente convivência urbana.

A verdadeira diferença talvez não esteja no tamanho das ruas. Está na relação que os cidadãos estabelecem com elas.

Volto à janela. Silêncio. Nenhum galo. Nenhuma galinha. Nenhum cão. Nenhuma festa perdida na distância. Nenhuma buzina desesperada. Bruxelas dorme — ou talvez apenas fale baixo.

E eu, vindo de uma cidade onde a manhã frequentemente chega aos gritos, descubro que o silêncio também pode ser uma forma de riqueza.

Mas Matongé está ali. A África está ali. Respira, conversa, vende, compra, ri e, às vezes, fala mais alto do que devia. Talvez seja bom que esteja. Porque uma cidade completamente silenciosa também seria uma cidade sem memória.

E Bruxelas, com toda a sua ordem, parece saber disso. Por isso deixa a África falar. Só lhe pede uma coisa: que fale dentro das regras da casa.

É assim Bruxelas de 2026.

quinta-feira, outubro 08, 2026

CAMINHOS DE MAKONDO

Vinte e nove de Junho de 2026. O comércio e as vias de comunicação são o coração que ainda pulsa fraco no Muxiko Leste. A comitiva saída de Lwanda, a capitalíssima, chegada ao Lwau às nove horas, percorreu 270 quilómetros até Kazombo, entre pouco asfalto e muita terra batida. Dali, mais uma centena de quilómetros até Kalunda, comuna do município de Makondo, consumindo perto de 4 horas de viagem. O tempo, aqui, mede-se em poeira e paciência.

Sem estradas, não há comércio que floresça. O cimento, as ligas de ferro, as chapas e telhas, o mosaico e azulejos, a madeira serrada, as máquinas e equipamentos, tudo depende de transporte. E transporte pede vias em condições. O governo central promete: em breve a estrada chegará à sede da província. Já faltou mais. A população reconhece que o percurso foi encurtado em mais de metade do tempo outrora perdido.
Mas Kazombo não tem lojas, nem cantinas organizadas. As compras fazem-se em Sawlimbo, mais próximo do que a antiga capital do Muxiko unitário, a cidade do Lwena. Os poucos empresários reclamam da distância, da logística, da carestia e dos sobas que pedem dinheiro.
“Na Zâmbia, os sobas exercem autoridade sobre a terra. Em Angola, a terra é propriedade primária do Estado. Todavia, os sobas angolanos querem exibir o poder dos seus homólogos zambianos e forçam os poucos empresários com pedidos de dinheiro e bens materiais”, lamenta-se.
A multinacional AngloAmerican prospecta cobre na continuidade do filão conhecido como copper belt, agora em território angolano. Se promissores, tais projectos ligados à indústria extractiva poderão aliviar o sofrimento e as carências. Os acessos melhoram, a produção agropecuária e melífera ganha clientes, o comércio ganha corpo e a permuta cede terreno à economia monetizada.
O comboio do CFB, que poderia ser alternativa, fica longe do Makondo. Tal vez um ramal, um dia, venha a minorar os apelos. A ferrovia, símbolo de ligação entre o litoral e o interior, não chega a estas paragens. O comércio, por isso, depende quase exclusivamente da estrada. Sem ela, não há como transportar mercadorias, nem como dar corpo a uma economia que precisa de circulação para existir.
Na manhã de 30 de Junho, um detalhe curioso: os telefones assumiram o horário da Zâmbia. O combinado era levantar-se às 5h30, mas muitos despertaram uma hora antes. O acampamento viveu um pequeno alvoroço, sobretudo entre os trabalhadores habituados ao ritmo das 5h30. O tempo, mais uma vez, mostrou que aqui não se mede apenas em quilómetros, mas também em fusos e desencontros.
Assim se escreve a crónica de uma terra onde o cobre promete riqueza, mas onde o verdadeiro tesouro ainda é a estrada que falta, única via capaz de dar vida ao comércio e aproximar o Makondo do resto do país.
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In: viagem a Muxiko Leste

domingo, outubro 04, 2026

O ZOOLÓGICO PERDIDO DA ILHA DE LUWANDA

Recordo a primeira vez que visitei o Jardim Zoológico da Ilha de Luwanda, ainda criança, nos anos 1980. Para quem nascera e vivera os primeiros dez anos no Lubolu, habituado a enxotar e caçar macacos, lebres, pacas, veados, corças, javalis, jiboias, porcos-espinho e chacais, o impacto foi diferente. Ali, os animais estavam próximos da cidade, num pequeno “muxitu” cercado pelo mar, onde não podiam fugir nem ser caçados. Era um espetáculo de natureza domesticada, um regalo para os olhos e para a imaginação

O zoológico, criado por volta da década de 1950, foi concebido como espaço de educação ambiental e preservação da fauna angolana, exibindo espécies emblemáticas como macacos, palancas, pacaças, crocodilos, chacais, aves tropicais, porcos-espinho, jiboias, hienas, leopardos e até a palanca negra gigante, símbolo nacional. Servia de porta de entrada para o conhecimento da biodiversidade, numa época em que Angola ainda não tinha parques estruturados para o turismo ecológico.
Na semana passada voltei ao recinto. O que encontrei foi desolador: escombros de casas, cabanas de pescadores, lixo de consumo e restos de obras, além de grupos religiosos e escuteiros que usam o espaço sem qualquer ordem. O muro de gradeamentos foi roubado, substituído por chapas opacas que escondem a degradação. Perguntei-me como se rouba um quilómetro de grades sem que ninguém veja, com tantas forças policiais instaladas na própria ilha.
Hoje, quem manda naquele espaço são os trambiqueiros e oportunistas. Não há bilheteira, não há animais, não há conservação. O que deveria ser um património ambiental e cultural transformou-se em depósito de lixo e refúgio de marginais. A floresta perdeu a dupla função de preservar espécies vegetais endémicas e mostrar a fauna nacional.
A extinção do zoológico não foi avisada nem justificada. Angola tem recursos humanos e financeiros, uma fauna rica e condições para manter um espaço digno. O abandono é um insulto à memória colectiva e à educação das futuras gerações. Não podemos perder esta batalha contra o lixo, contra a indiferença e contra o esquecimento. O espaço da Ilha de Luwanda merece ser recuperado como parque ecológico e educativo, devolvendo à cidade um lugar de encontro com a natureza e com a sua própria história.

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Publicado pelo jornal Metropolitano/Luanda, a 12.10.2026

sábado, outubro 03, 2026

COMO O ISMAEL DESBLOQUEOU AS FOTOS DO MEU CASÓRIO


Faltavam poucos dias e tive um entrave técnico por causa de uma despesa que eu considerava desnecessária. Recebeste uma reclamação e me convocaste com "nervo de pai". Compareci. O almoço foi em um restaurante que ficava à meia distância entre o teu e o meu local de trabalho.

_ Ó cidadão, quantas vezes pensas voltar a casar? _ Perguntaste.
_ Se depender de mim, essa será a última. _ Respondi.
_ Então, que dificuldades tens de pagar ao fotógrafo? Realiza a vontade da tua mulher e não há cá mais conversas.
Fiquei a pensar no que te dizer, mas cortaste-me a linha de pensamento.
_ Percebeste ou preciso de desenhar?
_ Não, padrinho. Está percebido.
E assim foi...
Há coisas que só tu sabias dizer. Com dureza ou candura. Eras o meu padrinho Ismael Mateus com quem eu brincava, resmungava, brigava e aprendia.

quinta-feira, outubro 01, 2026

A ANGÚSTIA DA REFORMA: QUANDO O TRABALHO SE CONFUNDE COM A PRÓPRIA VIDA

Kujiza dedicou praticamente toda a sua vida ao serviço do Estado. Aos dezassete anos ingressou na Polícia, onde permaneceu até aos vinte e cinco. A sua rotina era marcada pela disciplina rigorosa: farda, paradas, rondas, cumprimento de missões e observância irrestrita das normas dos corpos paramilitares. Aprendeu cedo que, naquele ambiente, a hierarquia não era objeto de discussão.

O seu comandante costumava dizer:
— Ordem de chefe é como lâmina: corta. Por isso, cumpre-se.
E Kujiza cumpria.
Anos mais tarde, ingressou na Administração Pública, onde iniciou a carreira como técnica simples. Graças à disciplina adquirida na vida policial, destacou-se pelo profissionalismo, assiduidade e dedicação. Subiu gradualmente na carreira até alcançar a função de chefe de departamento, uma das mais elevadas da administração intermédia.
A etiqueta da Administração Pública exigia aprumo. Para manter a imagem compatível com as responsabilidades do cargo, Kujiza sacrificou parte significativa dos seus rendimentos em roupas adequadas, acessórios e sapatos de qualidade. O guarda-fatos e a sapateira transformaram-se, para ela, em instrumentos de trabalho tão importantes quanto os processos e relatórios que diariamente analisava.
Durante décadas, o ministério foi mais do que um local de trabalho. Tornou-se a sua segunda casa, ou talvez a primeira. Raramente faltava ao serviço. Poucas vezes gozou férias em condições. Muitas vezes abdicou do descanso, do convívio familiar e dos prazeres pessoais para cumprir as exigências da instituição.
Quando a música da vida profissional parecia mais animada, o sino da idade e do tempo de serviço tocou inevitavelmente. Mais de trinta e cinco anos de serviço prestado ao Estado e sessenta anos de idade. Não havia alternativa. O destino estava traçado: a reforma.
Confrontada com essa realidade iminente, Kujiza reagiu com angústia:
— Por que me querem fora do Ministério? Sempre foi a minha casa. A minha rotina foi vir trabalhar todos os dias sem faltar. Sempre me vesti com aprumo e exemplaridade para que os utentes se sentissem confortáveis e confiantes no meu trabalho e no trabalho da instituição. E é justamente agora, quando alcancei uma chefia intermédia, que me dizem para sair? Onde vou usar os meus vestidos? Onde vou usar os meus sapatos de marca?
Depois de alguns instantes de silêncio, continuou:
— Durante quarenta anos quase não gozei férias em condições. Nem sei o que significa mimar-me com o fruto do meu trabalho. Durante muito tempo nem sequer havia recursos suficientes. Agora que começou a pingar alguma recompensa pelos anos de sacrifício, retiram-me da festa?
As suas palavras não expressavam apenas tristeza. Revelavam uma crise identitária. Kujiza não estava apenas a deixar um emprego; estava a afastar-se de um modo de vida que lhe dera propósito, reconhecimento e sentido de pertença durante décadas.
Situações como a de Kujiza multiplicam-se em muitas instituições públicas e privadas. Muitos trabalhadores chegam ao final da carreira sem preparação psicológica, social, económica e até familiar para enfrentar a vida pós-reforma. Acostumados a horários, chefias, responsabilidades e rotinas diárias, sentem dificuldade em redefinir o seu papel na sociedade.
A literatura científica sobre envelhecimento e reforma demonstra que a transição para a aposentação não deve ser encarada como um acontecimento pontual, mas como um processo que exige preparação antecipada. O sociólogo e gerontólogo Robert Atchley (1976) sustenta que a reforma envolve diversas fases de adaptação e que o sucesso dessa transição depende da capacidade do indivíduo para reconstruir objectivos, rotinas e identidades após o encerramento da carreira profissional.
Por sua vez, Wang e Shultz (2010) defendem que o planeamento da reforma deve abranger não apenas a dimensão financeira, mas também os aspectos psicológicos, sociais e ocupacionais da vida futura. Segundo estes autores, trabalhadores que se preparam antecipadamente apresentam melhores níveis de bem-estar e adaptação após a aposentação.
Mais recentemente, Shultz e Wang (2011) reforçaram a ideia de que a reforma constitui um processo de transição gradual, durante o qual as pessoas precisam redefinir a sua identidade e encontrar novas formas de participação social, produtividade e realização pessoal.
Dessa forma, torna-se imperioso que as instituições implementem Programas de Preparação para a Reforma (PPR). Esses programas devem ajudar os trabalhadores em fim de carreira a compreender o que estão a deixar e, sobretudo, o que poderão vir a fazer. Devem prepará-los para novas rotinas, novos projectos de vida, actividades de empreendedorismo, consultoria, voluntariado, formação de jovens profissionais ou simplesmente para usufruírem, com qualidade e dignidade, da pensão conquistada ao longo de décadas de trabalho.
O grande desafio não consiste apenas em preparar o servidor para abandonar o emprego, mas em capacitá-lo para continuar a viver com propósito. Afinal, quem passou a vida inteira a servir o Estado precisa d3 aprender que a reforma não representa o fim da utilidade social, mas o início de uma nova etapa em que poderá, finalmente, colocar a sua experiência ao serviço de si próprio, da família e da comunidade.
Porque ninguém deveria chegar ao último dia de trabalho perguntando, como Kujiza:
— E agora, quem serei eu sem o meu gabinete, sem a minha rotina e sem o meu trabalho?
A melhor resposta para essa pergunta começa muitos anos antes da reforma. Começa com preparação, planeamento e construção consciente de uma vida que continue a fazer sentido para além do serviço activo.

Luciano Canhanga (MSc em Ciência Empresarial, UFP/Pt)

Texto publicado pelo Jornal de Angola a 5.10.2026