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quinta-feira, outubro 22, 2026

AS CATEDRAIS DO SALALÉ

Quem viaja pela estrada que liga Kazombo ao Makondo, no Muxiko Leste, dificilmente percorre muitos quilómetros sem que o olhar seja interrompido por uma presença silenciosa. Aqui e ali, junto às aldeias, no meio da savana ou entre o capim alto, erguem-se montes de terra avermelhada, alguns modestos, outros imponentes, como se fossem pequenas catedrais moldadas pela própria natureza. São as termiteiras, conhecidas em muitas regiões de Angola como montes de salalé.
À primeira vista parecem apenas acumulações de terra endurecida. Mas basta conhecê-las um pouco para perceber que escondem uma das mais extraordinárias obras de engenharia do reino animal. 

As termiteiras são construídas por milhões de térmitas sociais, sobretudo do género Macrotermes, ao longo de vários anos. O monte visível é apenas a parte exterior de uma estrutura muito mais vasta. Sob a superfície estende-se uma complexa rede de galerias, câmaras, túneis de ventilação e compartimentos destinados à criação das larvas, ao armazenamento de alimentos e ao cultivo de fungos que servem de alimento à colónia.

Em muitos casos, o sistema subterrâneo ultrapassa os seis metros de profundidade, ligando-se a uma intricada rede de condutas que regula a circulação do ar, a humidade e a temperatura. É um sistema de climatização natural tão eficiente que tem inspirado arquitectos e engenheiros na concepção de edifícios de baixo consumo energético. 

O biólogo sul-africano Eugene Marais, um dos primeiros estudiosos do comportamento das térmitas, descreveu-as como organismos capazes de agir como uma única entidade. Mais tarde, investigadores como David Attenborough ajudaram a revelar ao grande público a impressionante organização destas sociedades, enquanto o entomólogo Stephen Pratt aprofundou os mecanismos de construção colectiva e inteligência distribuída.

Ao longo dos séculos, as termiteiras despertaram também a imaginação humana. Algumas apresentam formas cónicas, outras lembram torres, colunas ou esculturas esculpidas pelo vento. 

Na tradição oral de várias comunidades africanas, há quem lhes atribua significados espirituais ou ancestrais. Há ainda quem, observando certas formas mais esguias ou arredondadas, veja nelas uma curiosa semelhança com partes do corpo humano. Não passa de um exercício da imaginação, mas demonstra como a natureza frequentemente dialoga com o imaginário das pessoas.

No leste de Angola, onde a paisagem alterna entre extensas savanas e manchas de floresta, estes montes tornam-se parte da identidade visual do território. Não são simples acidentes do relevo. São marcos da paisagem, companheiros de viagem e testemunhas silenciosas do tempo. Muitas aldeias parecem crescer ao lado deles, como se reconhecessem, intuitivamente, a importância daquele pequeno monumento erguido por criaturas quase invisíveis.

A utilidade das termiteiras, porém, vai muito além da ecologia. Os geólogos conhecem bem o seu valor científico. Ao escavarem profundamente para recolher partículas finas do solo, as térmitas transportam para a superfície materiais provenientes de camadas que, de outra forma, permaneceriam inacessíveis. 

Por essa razão, os montes de salalé são frequentemente amostrados durante campanhas de prospecção mineral. A análise geoquímica da terra das termiteiras pode revelar a presença de elementos-traço associados a jazigos enterrados, funcionando como indicadores naturais de minerais como ouro, cobre, níquel, diamantes e outros depósitos metálicos. Em diversas regiões de África e da Austrália, esta técnica tornou-se um complemento importante da prospecção geológica convencional.

É curioso pensar que um insecto de poucos milímetros possa auxiliar a ciência na descoberta das riquezas escondidas nas profundezas da Terra. Enquanto as térmitas trabalham para garantir a sobrevivência da sua colónia, acabam por trazer à superfície pistas que orientam o olhar atento dos geólogos.

Talvez seja essa a maior lição das termiteiras. Aquilo que parece apenas um monte de terra é, afinal, um monumento à persistência, à cooperação e ao engenho. Não foi construído por máquinas, nem por arquitectos famosos, mas por milhões de pequenos seres que, sem alarde, transformam grãos de terra em obras que resistem ao tempo.

Na estrada entre Kazombo e Makondo, elas continuam de pé. Umas altas, outras baixas. Umas jovens, outras centenárias. Todas lembrando ao viajante que a natureza também sabe construir monumentos e que, muitas vezes, as maiores maravilhas começam com criaturas quase imperceptíveis aos nossos olhos.

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In: Viagem ao Muxiko Leste

Publicado no Jornal de Angola de 05.07.2026

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