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segunda-feira, outubro 26, 2026

CINCO MIL KWANZAS E UMA CONSCIÊNCIA TRANQUILA

O telefone tocou. Do outro lado, uma voz aflita, quase suplicante, tentava explicar o inexplicável.

— Bom dia, mano! Peço-lhe, pelo amor de Deus, que me ajude. Fiz uma transferência de cinco mil kwanzas para um familiar no Wambu, mas enganei-me num dígito do número de telefone. O dinheiro foi parar à sua conta. Preciso que me devolva, por favor!
Confesso: fiquei desconfiado. Nos tempos que correm, a fronteira entre um pedido legítimo de ajuda e uma tentativa de burla é tão ténue que até a boa-fé precisa de documentos de identificação.
— Como é que eu sei que não está a tentar burlar-me? — perguntei, num tom pouco amistoso.
— Não, mano! Juro que não! Foi um engano. Só quero o meu dinheiro de volta. Peço-lhe, por favor!
Ainda o ameacei. Afinal, quantas vezes não somos incomodados por vozes que invadem a nossa paciência, explorando a confiança alheia? Não queria ser mais uma vítima.
Mas havia qualquer coisa naquela aflição que me fez hesitar.
Decidi conferir as minhas contas. Percorri os movimentos, confrontei os valores e, finalmente, lá estava o registo: uma entrada de cinco mil kwanzas. O dinheiro tinha, de facto, caído na minha conta.
Era Alberto Kakumba. Um homem que eu não conhecia, mas cuja aflição acabara de ganhar uma prova concreta.
Peguei no telefone e liguei-lhe.
— Senhor Alberto, já confirmei. O dinheiro está aqui. Foi mesmo parar à minha conta.
Do outro lado, senti que a respiração se aliviava.
— Graças a Deus, mano! É mesmo meu. Enganei-me no número quando estava a fazer a transferência para o meu familiar no Wambu.
— Está bem, senhor Alberto. Vou devolver o dinheiro.
— Muito obrigado! Nem imagina o alívio que me está a dar. Que Deus lhe pague!
Fiz a transferência de volta. Cinco mil kwanzas saíram da minha conta e regressaram ao seu legítimo dono.
— Já transferi. Confirme, por favor — disse-lhe.
— Recebi, mano! Muito obrigado. Muito obrigado, mesmo!
Desliguei o telefone e senti-me aliviado. Não pelos cinco mil kwanzas que nunca foram meus, mas por ter conseguido vencer, ainda que por breves instantes, a desconfiança que se instalou entre nós.
Afinal, eu tinha razões para desconfiar. Alberto também tinha razões para suplicar. E ambos éramos vítimas de um tempo em que a desonestidade de alguns nos obriga a suspeitar de muitos.
Não ganhei dinheiro. Também não perdi nada. Limitei-me a devolver o que não me pertencia.
Mas ganhei uma certeza: a prudência é necessária, sobretudo nestes tempos de burlas e artimanhas. Contudo, não devemos permitir que a desconfiança nos roube inteiramente a humanidade.
Alberto Kakumba recuperou os seus cinco mil kwanzas. Eu recuperei, por algumas horas, um pouco mais de confiança nas pessoas.
E, convenhamos, há transações que não aparecem nos extractos bancários. Esta foi uma delas.
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