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quinta-feira, outubro 01, 2026

A ANGÚSTIA DA REFORMA: QUANDO O TRABALHO SE CONFUNDE COM A PRÓPRIA VIDA

Kujiza dedicou praticamente toda a sua vida ao serviço do Estado. Aos dezassete anos ingressou na Polícia, onde permaneceu até aos vinte e cinco. A sua rotina era marcada pela disciplina rigorosa: farda, paradas, rondas, cumprimento de missões e observância irrestrita das normas dos corpos paramilitares. Aprendeu cedo que, naquele ambiente, a hierarquia não era objeto de discussão.

O seu comandante costumava dizer:
— Ordem de chefe é como lâmina: corta. Por isso, cumpre-se.
E Kujiza cumpria.
Anos mais tarde, ingressou na Administração Pública, onde iniciou a carreira como técnica simples. Graças à disciplina adquirida na vida policial, destacou-se pelo profissionalismo, assiduidade e dedicação. Subiu gradualmente na carreira até alcançar a função de chefe de departamento, uma das mais elevadas da administração intermédia.
A etiqueta da Administração Pública exigia aprumo. Para manter a imagem compatível com as responsabilidades do cargo, Kujiza sacrificou parte significativa dos seus rendimentos em roupas adequadas, acessórios e sapatos de qualidade. O guarda-fatos e a sapateira transformaram-se, para ela, em instrumentos de trabalho tão importantes quanto os processos e relatórios que diariamente analisava.
Durante décadas, o ministério foi mais do que um local de trabalho. Tornou-se a sua segunda casa, ou talvez a primeira. Raramente faltava ao serviço. Poucas vezes gozou férias em condições. Muitas vezes abdicou do descanso, do convívio familiar e dos prazeres pessoais para cumprir as exigências da instituição.
Quando a música da vida profissional parecia mais animada, o sino da idade e do tempo de serviço tocou inevitavelmente. Mais de trinta e cinco anos de serviço prestado ao Estado e sessenta anos de idade. Não havia alternativa. O destino estava traçado: a reforma.
Confrontada com essa realidade iminente, Kujiza reagiu com angústia:
— Por que me querem fora do Ministério? Sempre foi a minha casa. A minha rotina foi vir trabalhar todos os dias sem faltar. Sempre me vesti com aprumo e exemplaridade para que os utentes se sentissem confortáveis e confiantes no meu trabalho e no trabalho da instituição. E é justamente agora, quando alcancei uma chefia intermédia, que me dizem para sair? Onde vou usar os meus vestidos? Onde vou usar os meus sapatos de marca?
Depois de alguns instantes de silêncio, continuou:
— Durante quarenta anos quase não gozei férias em condições. Nem sei o que significa mimar-me com o fruto do meu trabalho. Durante muito tempo nem sequer havia recursos suficientes. Agora que começou a pingar alguma recompensa pelos anos de sacrifício, retiram-me da festa?
As suas palavras não expressavam apenas tristeza. Revelavam uma crise identitária. Kujiza não estava apenas a deixar um emprego; estava a afastar-se de um modo de vida que lhe dera propósito, reconhecimento e sentido de pertença durante décadas.
Situações como a de Kujiza multiplicam-se em muitas instituições públicas e privadas. Muitos trabalhadores chegam ao final da carreira sem preparação psicológica, social, económica e até familiar para enfrentar a vida pós-reforma. Acostumados a horários, chefias, responsabilidades e rotinas diárias, sentem dificuldade em redefinir o seu papel na sociedade.
A literatura científica sobre envelhecimento e reforma demonstra que a transição para a aposentação não deve ser encarada como um acontecimento pontual, mas como um processo que exige preparação antecipada. O sociólogo e gerontólogo Robert Atchley (1976) sustenta que a reforma envolve diversas fases de adaptação e que o sucesso dessa transição depende da capacidade do indivíduo para reconstruir objectivos, rotinas e identidades após o encerramento da carreira profissional.
Por sua vez, Wang e Shultz (2010) defendem que o planeamento da reforma deve abranger não apenas a dimensão financeira, mas também os aspectos psicológicos, sociais e ocupacionais da vida futura. Segundo estes autores, trabalhadores que se preparam antecipadamente apresentam melhores níveis de bem-estar e adaptação após a aposentação.
Mais recentemente, Shultz e Wang (2011) reforçaram a ideia de que a reforma constitui um processo de transição gradual, durante o qual as pessoas precisam redefinir a sua identidade e encontrar novas formas de participação social, produtividade e realização pessoal.
Dessa forma, torna-se imperioso que as instituições implementem Programas de Preparação para a Reforma (PPR). Esses programas devem ajudar os trabalhadores em fim de carreira a compreender o que estão a deixar e, sobretudo, o que poderão vir a fazer. Devem prepará-los para novas rotinas, novos projectos de vida, actividades de empreendedorismo, consultoria, voluntariado, formação de jovens profissionais ou simplesmente para usufruírem, com qualidade e dignidade, da pensão conquistada ao longo de décadas de trabalho.
O grande desafio não consiste apenas em preparar o servidor para abandonar o emprego, mas em capacitá-lo para continuar a viver com propósito. Afinal, quem passou a vida inteira a servir o Estado precisa d3 aprender que a reforma não representa o fim da utilidade social, mas o início de uma nova etapa em que poderá, finalmente, colocar a sua experiência ao serviço de si próprio, da família e da comunidade.
Porque ninguém deveria chegar ao último dia de trabalho perguntando, como Kujiza:
— E agora, quem serei eu sem o meu gabinete, sem a minha rotina e sem o meu trabalho?
A melhor resposta para essa pergunta começa muitos anos antes da reforma. Começa com preparação, planeamento e construção consciente de uma vida que continue a fazer sentido para além do serviço activo.

Luciano Canhanga (MSc em Ciência Empresarial)

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