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terça-feira, agosto 22, 2017

A CAMINHO DO ALAMBIQUE

Entre Setembro a Abril, bate a chuva e todos curva. Homens, rios, vegetação... Cresce o canavial e o bananal, destacando-se o "dondi". É no kasimbu que tem proveito. O capotar de um camião irrecuperável é festa para o ferreiro-artesão. Tem cano para a canoa que há-de expelir já liquidificado o álcool gasoso que foge do tambor em que se agita o fermentado em fervura.
 
No kasimbu, sim. Os caminhos vão dar ao alambique, à ditenda ou outro código. Uns contam os dias de fermentação da matéria prima: pasta de batata doce, de mandioca, de milho (incrementada se seiva de muxíri ou mbundi que é raiz suculenta de um arbusto), sumo de cana de açúcar, de mamão, laranjas, abacaxi, frutas diversas incluindo silvestres como o maboque. Há quem ouse até transformar maluvu (vinho de palma) em kaporroto! Sete dias para a destilação!
 
Antes, há o catar de lenhas para preparar o produto que entra em fermentação. Depois outras lenhas para a fogueira que há-de expulsar o álcool e transformar o vapor em líquido.

Os kinangambala (os que, por preguiça de lavrar, "cuidam" da aldeia), são guiados pelo fumo negro e quente que no kasimbu abre fenda entre o nevoeiro cerrado. Encimando um montículo, uma pedra ou outra altitude, passeiam os olhos pelos 360 graus da aldeia. Já sabem de quem é a lavra e o alambique. Fazem-se caminho abaixo. As amizades e parentescos também contam para "fiar". E a fabriqueta dispensa assalariados. Ganha braços voluntários que alimentam de lenhas a fogueira  água na "canoa refrigeradora",aguardando pacientes pela primeira gota e primeiro litro: o da "ponteira". Depois enchem-se garrafões. Aos poucos, muitas vezes pelo mesmo copo, vão provando, "fiando" e comprando, se entorpecendo até álcool não mais for expelido pelo cano ligado ao tambor.
 
Fila indiana, já tarde avançada ou noite escura, vasilha na mão, catana noutra mão, seguem a caminho da aldeia, alegres, às vezes cantando, outras vezes discutindo "descoisas". Passou o dia. Outros se seguem. E os alambiques prosseguem a sua função.

terça-feira, agosto 15, 2017

VELHO TRINTA


Caminhávamos em fila indiana pela estrada asfaltada e sob sol ardente. Os homens mais velhos à frente, as crianças descalças pelo meio e as protectoras mamãs à recta-guarda. Antes da fuga, havíamos passado noites a dormitar na mata, embora os dia fossem passados nas lavras. A preocupação pelo que de bom ou ruim nos pudesse acontecer era obra dos adultos. Brincávamos e íamos à escola sempre que o professor, meu primo Jorge Kakonda, entendesse.

Entre os adultos ninguém tinha sido militar, nem sequer conheciam as artimanhas dos Kahuha (assim apelidados os kwaca pelos namibianos da Swapo).

Pensava-se que os homens podiam chegar à madrugada, cercar as casas e levar todos ou quem quisessem. Por isso, as noites, sob frio intenso e chuva, eram na mata com a atenção virada aos sons que podiam vir de cães a ladrar ou galinhas a reclamar liberdade.

Lembro-me da aflição que vivia a minha mãe. A Emília devia ter dois anos e às vezes chorava, como o fazem as demais crianças. Dormir na mata, apenas um pano estendido no solo húmido ou rígido, não tem a comodidade de uma esteira. E diziam à minha mãe:

- O mon'u mubane lyele. Otujibisa! (Põe essa criança a mamar, vai fazer matar-nos!)

Vontade de defender minha mãe, eu filho primeiro, havia. Mas como exercer autoridade? Tal pressão psicológica sofriam também que estivessem engripados ou acometidos de tosse. Tossir? É se os kwaca estiverem por perto e ouvirem?

- Eles vêem melhor de noite e madrugada do que quando há sol. Com UNITA, você não torra farinha quando esteja escuro. - Diziam para nos pôr no lugar.

O Limbe, minha aldeia, era formado por duas comunidades: uma constituída por originários de Mbangu de Kuteka, cujo patrono era Xika Yangu, e outra comunidade da família Trinta. Ficavam distanciadas uma da outra por um intervalo inferior a meio quilómetro.

O dia da fuga, a primeira, foi combinado entre os makota das duas comunidades. Já se tinha "assistido ao accionamento de minas por parte de tractores e viaturas e subiam os rumores de que os kwaca estavam por perto. Já se tinham verificado rastos e algumas lavras aliviadas.

Partimos. Já não me lembro se bem no princípio da manhã ou no fim dela. Porém, aquele sol ardente sobre nossos corpos pioneiris e o alcatrão derretido a travar nossa marcha não me saem da memória.

Os da casa de Xika Yangu e os Trinta, todos estrada a baixo, em direcção às proximidades da sede comunal da Munenga. Era lá que estava a tropas das FAPLA e da Swapo.

Foi durante essa marcha, em 1983, que ouvi o Velho Trinta (já retratado em livro de ficção) a falar do seu "relógio que na verdade era o seu coração que teimava em funcionar.

- Por que não estragas de vez, ó relógio? - Apelava ele, cansado daquela vida de fugas permanentes e dias passadas nas matas, dado o peso da idade que carregava, já acima do dobro do seu nome.

Os Trinta ficaram em Katoto. Na verdade era Sangisa, pois a aldeia original de Katoto ficava mais no interior, próximo do rio Ryaha. Lá fomos parar na fuga posterior que nos levou à Munenga em Fevereiro de 1984.

Os da casa de Xika Yangu avançaram até Fuke, junto ao Ngana Mbundu, na margem do rio Mukonga. Ernesto Kapitia, irmão de Xika Yangu e primo de meu pai já finado naquela altura, era motorista do alemão (Walter Kruk ou Ngana Mbundu). Ali ficamos uma semana.

sábado, agosto 12, 2017

VIAGEM AO PASSADO


Monte Kanzangiri. Munenga/Libolo
- Kanzangiri em chamas?
- Não! É nevoeiro pela manhã.
- Então é isso que faz o cimo das montanhas ter sempre vegetação verde, mesmo em tempo seco?
- Sim. Já sabes que quer chova quer não, lá, no topo, há sempre humidade que se farta para manter vivas e verdinhas aquelas árvores que estendem as suas raízes em pequenas camadas de terra sobre pedras.
- Há bichos e pessoas por lá?
- Pessoas a morar não. Apenas canta-pedras e outros bichos de pouco valor.
- E canta-pedra é o quê?
- São pequenos animais mamíferos, não muito pequenos. Assim do tamanho de... de um coelho gordinho. Têm pêlos, pele mais resistente do que a do coelho, três dedos apenas, roedores, frutívoros e insectívoros. Vivem entre pedras e cantam ao alvorecer.
- Ah! Então são bichos que cantam entre pedras, não é?
- Pois, sim. Emitem sons ímpares à madrugada.
- E a montanha chama-se Kanzangiri porquê?
- Os locais de referência têm sempre nomes. Os montes, as montanhas, os rios, as coutadas, os cruzamentos de caminhos, etc. são referências que ajudam a situar as pessoas. Imagina que sais de Kalulu à Munenga pela primeira vez. Tenho de te dizer, para te situares ao chegar, que a lavra do Soba Kavindi Tungunu fico em Kanzangiri, montanha paleolítica que se acha à direita do teu caminho. Posto lá, em Kanzangiri, é só perguntar que as pessoas mostram a lavra do regedor.
- Ah, agora percebo, tio. E esses nomes são novos ou antigos?
- São antigos. Muito antigos. Há estórias já perdidas sobre a nomenclatura. Tentei, certa vez, perguntar sobre a origem de alguns topónimos e fiquei sem explicação.
- Mas como, sem explicação, tio, se as pessoas ainda vivem aqui?
- Sim. Vivem. Mas há uma grande dificuldade em descortinar a origem de todos os nomes. Os mais velhos não registavam por escrito os acontecimentos. Depois, houve um tempo em que os jovens deixaram de especular sobre o que lhes aparece à volta. Quem devia perguntar não o fez. Quem devia explicar também não. As pessoas estavam preocupadas em salvaguardar a vida do que a herança histórico-cultural.
- Foi no tempo da guerra não é?
- Sim. E muita nossa história ficou prejudicada. Para a recomposição histórica vamos precisar de muitos mais recursos e técnicas como o recurso à Arqueologia, Antropologia, Literatura Oral, que está a ficar escassa, etc.
- É por isso que, onde o tio pára, fica sempre a perguntar e a tomar notas?
- Sim, sobrinho. Temos de fazer a nossa parte, por mais ínfima que seja, para permitir que os verdadeiros investigadores encontrem alguma pista. Temos de fazer o mínimo possível...
- Obrigado tio.
E seguiram viagem...

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta, 03/08/2017

terça-feira, agosto 08, 2017

EMBOSCADO EM KASANJI

Dois ataques principais levaram-me a procurar refúgio em Luanda.
Primeiro em 1984, quando me encontrava na sede comunal da Munenga. Fiquei na capital do país até 1997, saindo daí para a sede municipal do Libolo, Kalulu, onde permaneci até Junho de 1990.
Em 1992, fruto do cessar-fogo e a sua "mini paz", que era tanta para a nossa vida de guerras sem fim, desloquei-me, em férias intermédias, à Pedra Escrita (Libolo) e depois à aldeia de Kizowo, Kibala, onde residia Luciano Fernando Dambi, irmão do meu pai. Eu gostava de bicicletas. Pegava em quadros simples e, peça a peça, fazia daquele esqueleto emergir uma "Bina". Peguei um quadro e, de regresso à Pedra Escrita, pendurei-a no ombro. A mochila repousava nas costas, assim como caminham os militares. Era adolescente pleno a espreitar a juventude. Corpo sarado e bem estruturado, 1,74m de altura.
Caminhava sozinho perto de 25 quilómetros. Carros não havia. Muitas pontes ainda partidas por reconstruir. A descer a aldeia de Kasanji (Lususu-Muxixi) Kalumbungu, chefe da UNITA e sua tropa, fazem-me uma emboscada. À distância terão enxergado "um militar com mochila às costas e PKM nas mãos". Cinco homens de farda verde oliva a mostrar o desenho dos genitais, barba por arranjar, irromperam sobre a estrada manipulando em simultâneo. Não entrei em desespero. Entrevistaram-me e expliquei de onde vinha e para aonde ia. Conheciam meu padrasto que era soba da Pedra Escrita. Minha permanência na Pedra Escrita foi apenas de um dia pois, tinha certeza que os tipos, que andavam desconfiados que eu era anti-motim, lá iriam para me incomodar. E a minha mãe informou-me, tempos depois, que mal me retirei os homens apareceram perguntando aonde me encontrava.

terça-feira, agosto 01, 2017

BALA NA CÂMARA: MÃOS AO AR

A paz de Bicesse, 31 de Maio 1990, tinha permitido realizar as primeiras eleições em Angola, de 27 a 29 de Setembro de 1992, classificadas como livres e justas.
Eu estava inscrito no Instituto Nacional de Petróleos e, em Janeiro de 1993, deveria ir ao Sumbe saber dos resultados e eventualmente estudar Geologia e Minas.
Em Dezembro de 1992, desloquei-me à Pedra Escrita, a fim de pegar um saco de macroeira que me permitiria comprar roupas novas e sapatos para aguentar o ano lectivo. No segundo dia da minha estada por aquela aldeia, que tinha a Unita sempre por perto, fui alvo de uma emboscada.
Eu trajava calças jeans blue, camisola da CNE e, por cima, um casaco avermelhado. Os homens que haviam negado a lisura do processo eleitoral e os seus resultados, terão chegado à aldeia no dia anterior e acompanhado todos os meus passos.
Eu ia à lavra, a pé, acompanhado de dois rapazes, meus paarentes: o Segunda Africano e o Daniel.
Na primeira descida, em direcção a Luanda, EN240, a olhar para a pedra, os homens saíram da mata. Crá-crá. Bala na câmara.
- Mãos ao ar.
Obedeci. Um esboçou posição de atirador. Deu uns passos à recta-guarda.
- Ainda tira o casaco. - Ordebnou arrogante.
Obedeci sem me acobardar.
Veio outro para reparar ao detalhe as inscrições na camisola, tendo anunciado depois:
- Ainda pensamos que era a cara do "Enduarto Sando". Se era ele, íamos disparare só na "fodografia" que está no peito. Ainda o maninho pode ir na (à) lavra. Mas se te darem camisola do "Enduarto Sando" nó usa. Doutor Savimbi não lhe gosta!
Quase ri. Estava já avisado que, embora tivesse propaganda do MPLA, não devia exibi-la naquele território. Um dos putos que me acompanhava não conseguiu conter o mijo. Fê-lo nos calções. Era tanto o medo que a presença dos homens e aquela acção impunham.
Segui o meu caminho, atrevido como são os adolescentes e os jovens de primeira viagem, até à lavra onde me encontraram, horas depois, para mais provocação.
Chegaram uns miúdos, FALA pequenos, irrompendo sobre a horta. Eu cuidava do bananal. Gosto de bananas e aprendi a cuidar de bananeiras. Os miúdos armados de kalachenikov pediam tudo o que viam: cana, mamão, mandioca, bombô demolhado, banana, etc. Quando eu ia já ficando fulo, a minha mãe apareceu e deu o que queriam. Ela leu o cenário mais cedo.
De regresso à aldeia, coloquei umas tantas canas na bina que me fora emprestada por um primo. Pelo caminho, fui novamente interpelado pelos kwaca (Unita) a pedir cana e demais produtos. Sabia que pretendiam um subterfúgio para lançarem toda a sua ira contra mim. A contragosto, não ofereci resistência.
Posto em casa, aturaria outras humilhações, pedindo que eu e tantos outros "kinangambala" fossemos catar lenhas para a sua habitual fogueira nocturna.
Para escapar, tive de me socorrer das que a mãe tinha na sua cozinha
...

sábado, julho 29, 2017

KITOTA NA MUNENGA


Naquele dia do ataque à Munenga, em Fevereiro de, parecia que até os cães se tinham aposentado de ladrar. Ou estava tudo muito calmo ou eu não tinha reconhecido o suficiente aquele vilarejo.

À madrugada, os kwaca (cuacha) que gostavam da alvorada, atacaram.

- Avança, kovaso (covasso), agarra, kwata... Verberavam em meio a cânticos e batucadas do pessoal de rapina.

Balas perfurantes sobre a pobre cozinha em que Sabalu-a-Soba e eu dormitávamos. Ele, meu primo mais velho, apertou-me junto do seu colo.

- Não grita. Não chora. Ordem de mano. - Cumpri.

Um Kwaca entrou armado. Roubou o cobertor que usávamos. Levou o recipiente que continha óleo de palma. Levou, acto contínuo o veado que defumava. Vasculhou outras coisas. Parecia não nos ver. Confesso que não viu. Ainda bem que só tinha olho para comida e vestuário.

Depois vieram outros. Um deles, chefe com duas estrelas ao ombro, botas lusidias e acastanhadas. Falava bom Português ao meu ouvido de então. Depois, quando toda a nossa família alargada já se achava encostada à parede frontal da casa que nos acolhia (Manuel Albano), sem sabermos qual nosso destino (uns já carregavam imbambas e cerveja roubada do bar do Sangue Frio em direcção ao Ngana Mbundu), eis que o kwaca-chefe sacou de sua “kilera” uns papéis e mandou meu mano Sabalu lê-los. Ele que já frequentava o III nível na Kwame Nkrumah, em Kalulu, leu como esperado ou terá ultrapassado a expectativa. Era em Francês. Espantado, o Kwaca-chefe teve de simpatizar-se com ele.

- Já não vais connosco. Ficas aqui a responder pela jura (algo que não sabíamos o que era).

E para mim, virou-se em tom ameaçador: e tú, ó menino, sabes ler?

- Sim mano. Estudo a terceira classe.

- Pois é. Então ficas aqui com o teu mano. A partir de hoje és da alvorada. - Ordenou o Kwaca-chefe.

Assim, ficámos sãos e salvos, enquanto outros jovens, adolescentes e crianças que foram surpreendidos nas suas casas tiveram de "acompanha-los", carregando fardos. Uns seriam soltos. Outros seguiram para nunca mais voltarem. Ngana Mbundu e sua tia (madame Lina, também conhecida por Senhora Kasenda) foram raptados. Os alemães eram já idosos. Consta que as filhas, Érika e Mónica, tudo fizeram junto do governo racista da África do Sul que mandava na Njamba, mas debalde. Nem ossadas foram devolvidas.

segunda-feira, julho 24, 2017

AO ENCONTRO DA "MISSÃO SUBMERSA" DE MBANGU WANGA

Em 1878, pela vez primeira, pastores protestantes Baptistas surgiram em terras angolanas, através do Noqui e foram estabelecer-se perto de uma velha missão católica abandonada em S. Salvador do Congo.
 
Em 1880, surgem na faixa litorálica e nos subplanaltos e planaltos angolenses os missionários da Junta Missionária Americana que se estabelecem em Benguela, no Bailundo e no Bié ensinado a prática da agricultura, música, leitura, artes e ofícios, etc. Dizia o conselheiro Guilherme Augusto de Brito Capelo, em 1887 que «O procedimento destes missionários é irrepreensível e muito diferente do dos que estão em S. Salvador e noutros pontos da costa do Norte. Dedicam-se ao ensino, estudam o modo de se tornarem simpáticos, respeitam a autoridade constituída, e não consta que promovam a intriga…». Tratam-se dos percursores da IECA.
 
Em 1885 estabelecem-se os Metodistas — enviados pela Igreja Metodista Episcopal da América — em Luanda, donde irradiaram para Malange e Nova Lisboa. O pessoal desta consiste em dois homens e duas mulheres, com casas filiais no Dondo, Nhangue-à-Pepe, Pungo-Andongo e em Malange. Tanto numas como noutras o missionário mantém-se por si mesmo, quer professorando, quer trabalhando de ofício. Alguns apresentam diplomas de médicos, e nos pontos onde não há facultativo oficial, vão exercendo a sua profissão com grande contentamento dos habitantes. O ensino é em português, mas leccionam também francês, inglês e alemão». (CAPELO, Brito: Relatório cit., p. 84).

Em "Oiço passos de milhares", Emílio de Carvalho narra a expansão do Metodismo angolano chegado em Março de 1885, por obra do americano Willian Taylor, fazendo-se do mar ao interior, através do Kwanza. O autor assinala importantes Missões evangélicas "protestantes" como: Dondo, Nyanga-a-Pepe, Quiôngwa, Quessua e Quela, para além de Luanda, a "Missão-mãe".
Apesar desse roteiro (sintético), outros pontos de evangelização e até mesmo Missões terão sido criados ao longo do rio Kwanza, nas suas duas margens. O Bispo Gaspar Domingos, em entrevista a Angop (http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/minuto-a-minuto.html) diz que "outras pequenas missões  foram surgindo na área do Libolo e nos Dembos".
Uma visita que efectuei ao Kisongo, comuna do Libolo, onde a chama do Metodismo Unido se mantém acesa, apesar das peripécias vividas pela comunidade religiosa de Cambulungo, levou a revelações até então incógnitas por muitos irmãos metodistas de Angola.

1- A "Igreja" Cambulungo não é recente e já existia no tempo colonial, estando ligada à Missão de Mbangu Wanga, na margem Libolense do rio Kwanza, território do Quissongo/Kisongo (Artur Cussendala).

2- A referência à Missão de Mbangu Wanga é novidade, visto que a literatura conhecida sobre a expansão do Metodismo não se refere a ela.

3- A toponímia Angola confirma a existência da aldeia de Mbangu Wanga, na margem direita do Kwanza, tendo nela existido uma "pequena Missão protestante/metodista" que tomava o nome da comunidade.

4- A população da aldeia de Mbangu Wanga e demais circundantes foi realojada em outro local, seguro, dada a construção da hidroeléctrica de Lawka que inundou o espaço em que se achavam "as comunidades de Quissaquina, Bango-Wanga, Ginguri, Ulumbo, Quinguenda e Dala-Quiosa, que haviam sido implantadas nas margens do Kwanza" (http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/sociedade/2015/7/32/Cuanza-Sul-Mais-200-familias-serao-reassentadas-Quienha,0cc24609-b71c-4680-a7f9-7392b5a56d16.html).

5- Em contacto mantido com o empresário libolense  José Carlos Cunha, que frequenta aquela região, fiquei a saber da existência da Associação de Naturais de Mbangu Wanga.
 
6- João Francisco (62 anos), Carlos Correia (64 anos) e Júnior Armando (70) anos, todos naturais de Mbangu Wanga e membros da associação, confirmam o relato sobre a transladação da aldeia que guarda(va) os restos da Missão, sendo que "nos terrenos da antiga missão criou-se uma cooperativa agrícola".
 
Falta desvendar quando a "Missão" de Mbangu Wanga foi implantada na margem direita do Kwanza, em território do Libolo. Porém, já há suficientes vozes concordantes de que a mesma foi encerrada em 1961, depois de muitos dos seus integrantes (pastores, obreiros e crentes metodistas) terem sido alvo de perseguições e mortes pela PIDE.
 
Dada a "missão despertadora do homem angolano", os evangélicos ou metodistas foram tidos pela autoridade portuguesa como instigadores do nacionalismo, portanto, catalogados como "terroristas".
Depois de actos repressivos contra missionários e seus prosélitos, os alunos que ficaram sem mestre receberam um professor enviado pela Missão Católica de Calulo, leccionando apenas até à terceira classe, tanto aos estudantes abandonados da Metodista quanto aos da própria Católica.
 
Consta que dentre os que estudaram em Mbangu Wanga o destaque vai para o Eng. Bernardo Campos, sendo mestre Baptista Pedro Gabriel.
 
Hoje, a aldeia de Mbangu Wanga não tem sequer uma Classe (espécie de capela) Metodista. Apenas a aldeia de Quienha, que dista aproximadamente quinze quilómetros (comuna do município de Moussende) mantém acesa a chama e a obra evangelizadora Metodista.
 
Da antiga "Missão" de Mbangu Wanga ainda restam, segundo meus narradores (Júnior, Correia e João) escombros do que foi a igreja-escola e a casa pastoral, tutelados, na altura, por pastores negros, recebendo visitas regulares de missionários americanos que se encontravam na Missão de Quiôngua (margem esquerda do Kwanza, Malanje), sendo, à data, André Dias dos Santos o tradutor dos missionários americanos que para lá se deslocavam periodicamente.
Para além dos equipamentos imobiliários acima citados a "Missão" também possuía lavras que atendiam o sustento dos missionários.

Texto publicado no Jornal Cultura (Angola) edição de 15 a 28 de Agosto/2017 

quinta-feira, julho 20, 2017

VIAGEM AO QUISSONGO

"Se for contra LCB num aguenta. A unita só tem boca no Quissongo!" . Já são poucos os que ainda recitam essa canção do meu tempo de meninice, em Kalulu (Calulo), nas décadas de 80 e 90 do séc. XX.

O Quissongo, zona recôndita do município do Libolo, era intransponível, dada a sua localização geográfica e ocupação pela rebelião armada, na altura, fazendo daquela sede comunal o seu bastião no tempo da guerra fria e conflito pós-eleitoral.
Conheci a sede comunal do Kissongo a 15 de Julho/2017. O Quissongo é o reflexo do Libolo mais profundo e (ainda) "original" com a sua cultura, ritos e actos de passagem em estado puro. A sede comunal é uma (antiga) vila no meio da vegetação encontrando-se, aos pedaços, devido à acção humana e desgaste do tempo... vai havendo remendos ao que sobra e tímida inovação, mas faltam dois catalisadores fundamentais: estrada e telecomunicações.


São perto de trinta e cinco quilômetros que gastaram não menos de duas horas ao volante de um 4X4 em excelente estado técnico. A picada que separa Kalulu do Quissongo é sofrida, estreita com declive acentuado, curvas apertadas, buracos, crateras e pedras no traçado (para piorar)...

À entrada da circunscrição, um túnel natural. Árvores que ladeiam a picada fazem arco, procurando abraçar-se, o que representa um regalo a quem vai ao Quissongo. O chafariz "dia-e-noite", cuja captação vem da montanha, resiste às intempéries e aos desmandos dos homens. A água só falta se alguém sabotar o tubo. Porém, a bela tem senão:
Mal o sol se esconde atrás da cordilheira montanhosa e paleolítica, a escuridão canta alto. O gerador de electricidade, pertença da administração comunal, há muito que não é ligado por falta de dinheiro para a compra do gasóleo. Como consequência, a televisão inexiste, assim como a comunicação telefónica. O sistema comunitário "liga-liga" (funciona por meio de antena receptora de sinal por via satélite) também engorda de poeira. O Quissongo, apesar da vontade de seus aldeões em ser cidadãos do mundo, continua" distante". Pior ainda porque, conforme se conta, "o empresário que estava a financiar a montagem da antena de uma operadora de telefonia móvel também desistiu devido à crise financeira.
A antiga vila tinha mais infraestruturas e serviços concentrados do que a sede da comuna da Munenga, também no Libolo. A Direcção dos Serviços de Agricultura e Florestas (DSAF) estava representada no Quissongo. As casas eram bem concebidas, feitas de tijolos e cobertas de telhas, possuindo no passado água canalizada.
No Quissongo ainda falta o comércio que pode ser despertado pelo asfalto. "Temos de pensar no país que é eterno, assim como os colonos vindos de longe construiram no meio do mato aquelas estruturas que olham silenciosas para nós com pena".
Estamos convictos de que "a estrada aproxima e as telecomunicações integram aos localidades e os povos ao mundo".
- Camarada chefe, aqui não há luz. Dinheiro também não há. O divertimento dos miúdos e dos jovens é só mesmo jogar a bola e beber makyakya. Manuel Sende, o meu interlocutor, é um jovem ainda cheio de esperanças.
- Estamos a esperar que reparem a picada e a energia chegue também aqui. Os mais velhos dizem que no tempo colonial nem Kalulu torrava farinha com o Quissongo! Terminou com um sorriso ténue.
Do ponto de vista político-partidário, vi mais propaganda do MPLA e do seu candidato. Dos antigos ocupantes, apenas uma solitária bandeira na sede comunal. Outra trémuma e quase já sem cor respondia pela coligação casa-ce. Dos demais concorrentes às eleições de Agosto, nem ouvir falar.
- Agora, os garimpeiros estão também a apanhar tareia no seu antigo "acampamento". Confidenciou um aldeão, com ar sisudo quando perguntado sobre a oposição política.
- Eles atrasaram o Kissongo. A nossa vila está em pedaços. Prosseguiu o mais velho para rematar: - Sabemos que vamos ganhar as eleições, até aqui no Quissongo, mas temos de ter coragem e pensar no país que nunca acaba. Temos de fazer como os colonos que, mesmo saídos de longe, construíram no meio da mata coisas que duram até hoje. Essas casas, se fossem pessoas, estariam a nos olhar com pena de não termos acrescentado nada ao que recebemos na independência.


 

 


 
 


 


 



 


 
 
 
 




 





 

sábado, julho 15, 2017

APANHEM O ANTI-MOTIM

Oliver Ngoma, músico gabonês de feliz memória, apresentava-se em palco com um casaco preto, com ou sem mangas. O "casaco Oliver Ngoma" tinha sido uma febre entre a juventude de Luanda e de outras paragens angolanas. Eu tinha votado nas eleições de Setembro de 1992, um jovem portanto.
 
As antigas TGFA tinham uma farda malhada, distinta entre os uniformes militares usados pelas FAPLA. Foi uma dessas camisas que, sendo alfaiate, adaptei um "Oliver Ngoma" sem mangas. A escassez aguça o engenho. Não tinha meios para comprar um "origon". Desmanchei-o e voltei a costurá-lo, invertendo as faces: a malhada que mostrava as características típicas de uniforme militar ficou por baixo. A simplesmente verde ficou por cima. Os bolsos eram todos cheios. Dava gozo usá-lo por cima de uma tshirt.
 
No defeso de 1993 fiz-me à aldeia de Pedra Escrita. Os kwaca do bairro viram o meu Oliver Ngoma estendido e descobriram que tinha sido uma peça adaptada de uniforme militar.
 
- Esse gajo é anti-motim. - Sabularam em Umbundu, esquecendo-se que a minha mãe percebia e experimentava aquela língua nacional, dado o convívio prolongado com os falantes da mesma.
 
Quando foram para "rusgar" o casaco e o dono, a peça já se encontrava enterrada, sem o meu conhecimento. Doeu perdê-lo. Tinha me consumido várias horas de labor na OLIVA 50 do tio Ramos Ngunza Mungongo, em Luanda. Não foi fácil desmanchar todas as peças e as recompor. Porém, a minha mãe salvou-me do "subterfúgio contundente" de que andavam a procura para me "despacharem" ou torturarem. Era no tempo em que o chefe máximo dos kwaca gritava a todos os ventos que "os anti-motim estavam a apanhar no focinho".
 
Terá sido a última peripécia. Foi subindo a idade e a responsabilidade para com a própria vida. Dai em diante, o meu combate passou a ser político, na Jota do Rangel, contribuindo na desacreditação dos "homens da guerra". Enquanto jornalista, anos mais tarde, fiz algumas amizades com militantes esclarecidos daquela formação política, porém, os factos vividos mantêm-se intactos na memória e cada um que saiba e queira lê-los pode daqui tirar suas ilações.
Guerra jamais!

sábado, julho 08, 2017

MODA DE RUSSOS E CUBANOS

Terminava 1993, a guerra civil, depois das primeiras eleições multipartidárias, estava no auge. Em Lusaka tentava-se salvar o que restava do acordo de Bicesse. Porém, só em Novembro do ano seguinte o ministro Venâncio de Moura e Manuvakola assinariam o acordo de Lusaka que também não veio a funcionar como se expectava.
Até então, nunca a UNITA tinha estado em tanto lugar como depois das primeiras eleições.
 
Não pude estudar Geologia e Minas, no Sumbe, nem pude ir ao Quéssua fazer agronomia. O IMAQ, "irmão gémeo do IMEL", financiados pelo BAD, tinha acabado de abrir as portas mas, aos tiros e emboscadas, seria missão impossível ir a Malanje com a família espalhada entre Pedra Escrita (Libolo) e Luanda. Até Sumbe, em ambiente de guerra, ficava longe. Decidi fazer um curso de informática e aprimorar conhecimentos de electricidade de baixa tensão. Já era um alfaiate, quase. Os dois anos com o kota Goncha, em Kalulu, e outra temporada em Luanda com o kota Ngunza Makongo permitiam-me biscatear sem dificuldades.
 
Chegadas as inscrições para testes de aptidão no IMEL, curso de Jornalismo, consegui passar no exame. Surge daí uma nova necessidade em termos de atavios para iniciar a temporada académica em princípio de 1994.
 
Em Dezembro, fui à Pedra Escrita para mais um saco de macroeira. Andava-se por cima de camiões e muitas das pontes que haviam sido recuperadas para permitir a livre circulação de pessoas e bens, antes das eleições, estavam novamente debaixo d'água. A que fica depois do desvio de Kalulu, na EN 120 e a do Longa, depois de Lususu, são exemplos.
 
Desci na Munenga e segui a pé até Pedra Escrita. Era um jovem atrevido e destemido. Ignorava que os homens estivessem por perto. E chegaram dois dias depois. Alguns já me conheciam. Desta vez, os carrascos eram os meus ex-colegas da pré e primeira classe, pessoas com quem brinquei na infância, convertidos em kwaca de última carruagem. Esses chegava a ser mais perigosos dos que os Unita originais.
O kota Goncha fazia suas costuras: bainha a um pano, remendo por cá, recostura acolá. Eu ajudava o meu mestre e aproveitava uns biscates quando fosse possível.
Os homens da UNITA encontraram-me uma tarde a costurar, em casa do Velho Xika Yangu, e exigiram que eu devia diminuir o tamanho da minha "jens buluada" (azul e larga). Neguei fazê-lo. Foram buscar um alfaiate deles e quando regressaram eu havia desmontado a máquina e despido as calças.
Diziam ser moda de russos e cubanos e que o doutor deles se opunha àquela forma de vestir. Trungunguei. Não aceitei que diminuíssem a largura e o tamanho da boca das minhas calças de eleição. Porém, enquanto não completava o saco de macroeira, tive de abdicar de usar aquelas calças, até retornar a Luanda onde, se dizia, estavam na moda.

sábado, julho 01, 2017

KALULU: NOVO ATAQUE DEPOIS DE SET/83


Corria Dezembro e corria o ano apressado. Naquela semana era só sobre o natal que se falava e "mánada", embora rumores sobre passagem de kwacas por certas aldeias, raptos e saques soavam cada vez mais intensos e próximos. Era um roncar permanente nos ouvidos de todos kalulenses: O horroroso ataque dos unitas à vila de kalulu, perpetrado a cinco de Setembro de 1983, podia repetir-se mais dias, menos dias, caso a guarda não fosse reforçada e com vigilância redobrada. 

Para refrear o temor, e conferir tranquilidade o batalhão de Luta Contra Bandidos reforçava a preparação combativa e cantavam manhã cedo:

"Wazala kiba kyongo/Savimbi wakizalesa/wazala kiba kyongo/ Savimbi wakizalesa, nzaye!
...
Ó Savimbi, ó Savimbi tundako/ó Savimbi, ó Savimbi tundako ko Kisongo!"

Os estudantes da escola do II e III níveis Kwame Nkrumah de Kalulu já gozavam férias natalícias. Eu era aluno alojado no internato e muitos que se encontravam na minha condição já tinham partido ou arrumado as malas para ir gozar o natal com seus familiares. kota Ngunza-a-Xika que durante dois anos fora meu tutor estava naquele ano a leccionar na Munenga. Tinha abandonado a vila. Estava porém na vila e no dia de Natal partiríamos juntos para Munenga e depois à Aldeia de Pedra Escrita, aonde se tinham aglomerado os aldeões da extinta Limbe. Estávamos em Dezembro à porta do natal, também dia festivo dos kwaca.

E parece que estavam sem logística para a comemoração ou queriam aproveitar-se da festa para impor o luto e roubar os parcos haveres dos kalulenses.

Estávamos no Musafu (Mussafo), entre a padaria e a Missão. Madrugada de natal. Alvorada no dizer deles. Os tiros começaram pela Banza, Depois pela Kapopa, um pouco também pelo lado das mangueiras, onde estava uma guarnição das FAPLA (LCB) e pelos lados do velho Duas-Horas, à saída para Vila Flor e Ndala Usu. Só não entraram pela Kibuma e foi lá que nos refugiamos entre pedregulhos na montanha. As balas assobiavam nervosos quando não pelejavam com as cadeias paleolíticas, terminando aí a sua fúria.

As LCB pelejaram até onde as forças permitiram, mas tiveram de desmontar o gatilho do "grau de um pé" e outras peças médias de artilharia. A vila estava tomada. Seguiu-se fogo, sangue e fumo.

Partiram o tribunal, a conservatória dos registos, a polícia, entre outras instalações. Mataram dirigentes e civis indefesos. Raptaram jovens para reforçar suas fileiras e sexuar forçosamente as raparigas como era seu costume. Roubaram sal, peixe seco, roupas e tudo. Desta vez não os vi, não. A experiência da Munenga me tinha alertado para fugir ao lado seguro. Ao mato ou morro.

Ficamos na mata e morro até os kwaca abandonarem a vila em chamas e choros. Partimos, a pé, seguindo atalhos até proximidades da Banza de Musende, a caminho da Munenga. Lá pernoitamos e no dia seguinte fizemos o resto dos 40 quilómetros até à sede comunal para mais uma noite. No terceiro dia Ngunza e eu completamos a distância de mais 26 quilómetros até Pedra Escrita onde três dias depois os Unitas nos encontrariam. Tive de procurar refúgio na aldeia natal de minha mãe, Mbangu-Kuteka, fazendo mais trinta quilómetros a pé. Lá fiquei até Finais de Março de 1990.

De regresso à Pedra Escrita, deparei-me novamente com os Kwacas que ali haviam feito morada. Até Munenga, de regresso à vila de Kalulu, fui acompanhado pelo soba, bem relacionado aos Kwaca, que comigo não frocou sequer uma palavra durante o tempo que durou a marcha de 26 quilómetros.

À chegada, já o sol visitava as traseiras das montanhas. Arrebol. As populações começavam a retirar-se para Kanzangiri. Sorte minha, o chefe Gika (oficial da segurança do Estado) que me conhecia bem, vinha de moto do Dondo e decidiu levar-me até Kalulu. Já as aulas levavam três meses e o meu nome estava riscado da lista.

Consegui justificar as ausências e tive de aplicar a quinta mudança para recuperar as aulas perdidas. Por sorte, na fuga eu tinha esquecido a roupa e levado os livros. Valeu-me ter suportado o peso até Mbangu de Kuteka, pois lia e exercitava.

Quando saiu a pauta, apto, pedi certificado e guia de transferência para Ngola Mbandi, em Luanda, onde fiz o III nível.

 

 

quinta-feira, junho 29, 2017

MBANZA-A-KONGO: MEMÓRIAS DE REPÓRTER

MEMÓRIAS DE REPÓRTER

Março, 31, de 2005. Samakuva vai a Mbanza a Kongo em actividade político partidária. Cacique Pena, seu director de Protocolo convida a média para acompanhar a delegação. Folha 8, LAC, jornal de Angola, entre outros media dizem sim. Chegados à antiga cidade de São salvador do Kongo, já tarde avançada, a única pensão, que chamavam de hotel, estava com os quartos todos ocupados. Disseram aos jornalistas que foi uma "partida" montada por um rival político.
 
Sem espaço no "Hotel Kongo" tivemos de nos contentar em conhecer  o Yalakuhu e o Nkulumbibi que ficam aí ao lado e sermos, depois, alojados num albergue duma bwala qualquer onde as camas eram feitas de paus e os cobertores repletos de percevejos. Aquilo era insuportável e tivemos de voltar ao "hotel" e ocupar os sofás da sala de recepção e outros que se achavam nos corredores da instituição.

Dia seguinte, 01 de Abril, viagem a Cuimba, município interior. A picada, acidentada e lamacenta, era um "cemitério" para os carros. Dois camiões militares de marca URAL seguiam um à frente, para puxar as viaturas ligeiras que atolassem, e outro seguia à retaguarda para a mesma empreitada.
Pelo caminho, não foram poucas as intempéries. Chuva farta, lodaçal, carros que ficavam pelo caminho, mas a comitiva fez-se ao Cuimba onde os políticos se explicaram e prometeram o que levavam na bagagem.

Quando o sol se despedia, Samakuva e a sua equipa também se despediam do Cuimba, tendo como cicerone Marques Ntiama que chefiava o galo negro no Zaire.
Pior do que a ida foi o regresso. Metade da "frota" ficou pelo caminho, atolada na lama. Um dos camiões de marca URAL que serviam para arrastar os ligeiros que se atolassem também ficou encalhado na lama. Nas subidas, as Pickup pareciam bagres deslizando em ziguezague sobre o solo escorregadio. Passageiros de viaturas deixadas para trás arrojavam-se ao colo de outras pessoas nas carroças fustigadas pela chuva intrépida. Gripe? Sim senhor. Gripe, outras dores e tristezas viriam mais tarde.

No dia seguinte, 02 de Abril,  recebíamos a má nova sobre a morte  do papa João Paulo II.

Texto publicado no jornal Nova Gazeta, 06/07/17

segunda-feira, junho 26, 2017

A TODOS O SOL

Uns procuram sol para acrescentar luz ao seu brilho
 

Outros reclamam sol para acelerar a sua putrefacção.
 

Dai a todos sol!

quinta-feira, junho 22, 2017

PENÚLTIMO RECÚO

Depois de terem "varrido" literalmente o Kisongo, Kisala e cercanias, roubando o gado que puderam levar, devastado lavras, raptado jovens para ingressar suas fileiras, violado e esposado forçosamente raparigas, deixando as aldeias despovoadas, pois o povo começou a recuar, em finais de 1983 chegou a desgraça às aldeias da comuna libolense da Munenga.

Depois do ataque a viaturas junto à fazenda Kangulu, e accionamento de mina por parte de um tractor a serviço da Estalagem Boa Viagem-Lususu, procedente do Alto Dondo, levando à morte o nosso benquisto Santos Kajamba, começamos a recuar. Inicialmente para Fuke, junto à fazenda e Motel do alemão Walter Kruk (raptado após ataque à Munenga), onde permanecemos uma semana. O trajecto de aproximadamente 20 quilómetros era feito a pé, pés descalços, em atalhos abertos na densa vegetação ou sob o sol escaldante que derretia o alcatrão na rodovia asfaltada.

Chegou o mês de Fevereiro de 1984. Saídos do Limbe, próximo da actual aldeia de Pedra Escrita, estávamos "RECUADOS" (deslocados) uma semana nas lavras de Katoto, margens do rio Ryaha, antes de emprestar as suas águas ao Sangisa.

O percurso fora feito a pé, seguindo o leito caudaloso do rio Ryaha para não deixar trilho que desse pistas a quem fugíamos (UNITA). Eramos seis ou sete famílias mal acampadas. Uma semana depois, os víveres foram escasseando e a paciência dos que nos acolhiam (da parte de uma nora) se ia esgotando. Não havia como tal não acontecer.

Os mais velhos (papá Xika Yangu à cabeça) iam fazendo uns raids ao Limbe em busca de comida. Outros iam à caça. Porém, António Neto, o seu irmão mais novo Sabalu e um primo foram raptados e, tempos depois nas bases da UNITA, apenas o Sabalu regressou. O irmão mais velho e o primo foram mortos por alegada tentativa de fuga.

Sem comida de origem vegetal e sem que os mais velhos pudessem ir à caça, os cabeça-de-família resolveram que deveríamos "recuar" um pouco mais, desta vez para a sede comunal da Munenga. A comitiva fugitiva abrigar-se-ia em casa de Manuel Albano, um parente que se achava em condições mínimas de nos receber e suportar por algum tempo, até que a situação na procedência normalizasse.

No dia da chegada, Manuel Albano havia conseguido apanhar nas suas armadilhas um veado macho. Ao jantar, saboreámos a jinginga (miudeza) e a carne ficou em defumação para que não se estragasse. Seria consumida nos dias vindouros. Para além da carne, havia na cozinha, onde o mano Sabalu-a-Soba e eu dormitamos, óleo de palma e outros mantimentos trazidos e encontrados. Calculo que kapuka também.

Na mesma tarde, um sanitário da Swapo que ajudavam na guarnição do vilarejo fez-me curativo a uma ferida na perna que já ia deitando odor estranho. De recúo em recúo não havia atenção para pequenos detalhes e até a saúde ficava em plano secundário. Tive um tratamento único: desinfecção com álcool, mercurocromo, antibiótico e um penso. A ferida secaria dias depois.
Naquela dia em que aportámos à Munenga nada fazia adivinhar um ataque rebelde. Vivia-se em paz, apesar dos zum-zum. A guerra dos nossos ouvidos e conhecimento era no Kisongo, Kisala e Kariangu. Pensava-se que a presença dos rebeldes nas cercanias de Lususu era por causa do gado trazido pelos recuas das aldeias já devastadas. Na Munenga, as pessoas andavam e conversavam sem grandes receios. Pelo menos as crianças estavam inocentes.
Na noite que antecedeu os acontecimentos, as luzes no comissariado estavam acesas. À madrugada, o tiroteio começou pelos lados do comissariado. Tiros de pistola, inicialmente. Depois, armas ligeiras de maior calibre. rajadas de cortar a respiração. Depois obuses fazendo soltar mijo aos medrosos. As FAPLA e SWAPO resistiram até onde puderam. Os rebeldes tinham chegado em maioria de homens e força. Havia mulheres que batucavam enquanto os homens faziam rajadas contra tudo. A guarnição do comissariado recuou. Seguiu-se fogo e fumo. Todas as casas foram, depois, passadas "à revista". Mortes, raptos e choros tomaram conta do ambiente. O ataque estava consumado. Os que sobraram vivos fizeram dois caminhos. Munenga ficou evacuada para o Dondo e Samba Karinje (a caminho de Kalulu) onde ficamos recuados mais um mês, tendo o pão como principal alimento, até que a farinha de trigo se esgotou.
As mamãs e papás, havia pouco tempo abastados, viram-se forçados a trabalhar por comida em lavras de aldeões locais.
Luanda seria o próximo recúo. temerosos, voltámos ao Limbe para reunir apressadamente as condições mínimas de viagem. Chegou Maio de 1984 deixei o Limbe, Munenga e Libolo, depois de termos ido a Kalulu pedir guias de marcha para a capital do país...

domingo, junho 18, 2017

IMUA-CALEMBA Vs IECA

Que há em comum?
 
Gostaria de perceber melhor a ligação (in)existente entre aquela casa de adoração cristã dos Metodistas Unidos, a igreja/templo ou cargo pastoral de Calemba e a cristã IECA (Igreja Evangélica Congregacional de Angola).
 
Quando em 1984 cheguei a Luanda, o meu tio Ferreira Nganga frequentava a Metodista de Calemba, no bairro do "cemitério novo". Só depois passei ao templo Moisés, antiga classe (Kwanza-Sul) da Calemba que acabara de se autonomizar em Setembro do ano anterior.
 
Hoje (18/06/17) fui a uma IECA e senti-me como se estivesse na Calemba. O entoar dos hinos, os adornos interiores, as vozes arrastadas das mamães de origem ovimbundu, etc. tudo parecido, até o recitar do "Pai Nosso e Credo Apostólico". Fui à IECA mas senti-me no templo Calemba da Igreja Metodista Unida.
 
Em tempos, não muito recuados, os pastores de ambas as congregações (IECA e IMUA) frequentavam mesmos institutos teológicos como o Emmanuel Unido, no Dondi (pertencente à IERCA) e Quessua, em Malanje (pertencente à IMUA). Foi-me contado que o Bispo emérito da IMUA S. Reverendíssima Emílio de Carvalho já foi professor e reitor do Seminário Emanuel, na Missão do Dondi Angola (1965-1972).
 

Reacções
 
R1:"Meu irmão Canhanga, na verdade, a Igreja (Metodista Unida) de Calemba pertencia à IECA. Devido a localização das sedes da Metodista em Luanda e IECA talvez em Benguela, o secretário geral da IECA tinha pedido ao Bispo Emílio para superintender a igreja Calemba em Luanda. Com passar do tempo e porque o Bispo Emílio nomeava pastores Metodistas para (Calemba/IECA) a mesma automaticamente passou a ser Metodista. Com alguns (eventuais) erros essa é parte da história que sei em relação a esse assunto" (Francisco Quitembo).

R2: Caro Canhanga, em 2008, no âmbito da escrita da história da Igreja Moisés, havia questionado o Bispo Emílio de Carvalho sobre a relação da Igreja Metodista Unida Calemba com  IECA, tendo respondido: "a IECA nunca teve congregações na cidade de Luanda antes de 1974. Nesse ano, havia apenas três igrejas de expressão 'umbundu' em Luanda -Calemba, Nova Estrela e Betânia. Quando nesse mesmo ano essas três igrejas, em carta de 15 de Maio de 1974 assinada pelos seus pastores e leigos, pediam que as congregações desta expressão e seus três pastores fossem autorizadas a pertencerem ao Conselho das Igrejas Evangélicas de Angola Central. Esse pedido  nunca foi autorizado pela Igreja Metodista Unida de que eram e são parte. Um dos seus pastores pertencia a esta Igreja (IECA), outros dois haviam sido solicitados pela IMUA para virem a Luanda a fim de ministrarem aos Metodistas de expressão 'umbundu', dado os acordos de cooperação já existentes entre ambas Igrejas: a Igreja de Calemba nunca foi parte da Igreja Congregacional em Angola". Espero ter contribuído para o esclarecimento, de forma documental, desse equívoco (Carlos Cabombo).
 

quinta-feira, junho 15, 2017

A REVOLUÇÃO COM PEIXE E FUBA

Quando Phande e a mãe Katumbu chegaram a Luanda, em Maio de 1984, "recuados" da guerra no Lubolo, ela  vendia fuba à porta de casa, na rua de Ambaca, no espaço conhecido como Kalisange. O produto tanto servia para confeccionar a janta, como dava o dinheiro para comprar peixe, conduto vendido na praça das Corridas e ou no Tunga Ngó. A primeira praça ficava no Rangel, junto ao Supermercado Nzala Ikola e a segunda em território doCazenga, pois encravava-se entre a linha férrea e o quintal das Oficinas Gerais, a espreitar a Escola nº 5. A praça do Tunga Ngó era informal, sem bancadas e com "gregos" à mão de semear.
 
Katumbu, a caminho dos quarenta anos, viúva refugiada, quatro filos menores, ia manhã cedo com as colegas depobreza a uns armazéns onde se vendia (desviava) milho e masa-a-mbala. Ao filho mais velho, Phande, cabia levar os grãos à moagem de onde vinha a confundir-se com a própria fuba. 
 
Vezes tantas ele "aviava" também a negócio da mãe quando essa fosse comprar outros grãos  e não fosse dia ou hora de escola. E quando os odepés e bepevês faziam as suas rusgas para levar o ganha funge da família, a astúcia de levantar a bacia e correr para o quintal estava-lhe nas pernas. Phande era como o sardão que não anda às voltas.
 
Aos sábados, dia de honga, caminhavam, mãe e filho, a pé. Rangel, Karyangu, Palanca, Sanatório, Kapolo, até  chegarem à honga, campo agrícola, na zona militar do Kapolo, onde se  cultivavam mandioca, batata-doce, abóboras, jinguba, kingombo (quiabos), makunde (feijão frade), feijão, jimboa, etc. Parte da colheita  ia ao estómago e outra trocada por dinheiro. 
 
A apanha de katatu (lagartas) em folhas de ditumbate era a brincadeira que Phande mais gostava nas idas à honga. Também escalou peixe e cuidou dele para que secasse e fosse enviado ao Libolo de origem onde era  trocado com macroeira.
 
Fubeiras e peixeiras, grandes lutadoras doutro tempo contra a fome e a mendicidade, criaram filos e ergueram casas sem nunca vender o "templo sagrado da mulher". E eram tempos de aperto e muitas bichas nas lojas do povo, onde só se comprava o que havia e não o que se pretendia. Os empurrões e kisendes não escolhiam nem poupavam idosos, grávidas e crianças, confundindo-se homens e pedras que representavam homens nas longas filas nos "supermercados" de então.
Peixe sardinha frito no pão e um chafé? Bem-vindo ao estômago que não escolhia!

Com fuba e peixe frito também se fez Revolução(?)!

Publicado pelo jornal Nova gazeta, 22/06/17