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sexta-feira, dezembro 08, 2017

VOX POPULI VOX DEO

É assim. Quando o povo fala, falou mesmo. Se dá nome, esse nome pega. Discutir porquê?
Os autocarros de transporte público são novos. Novinhos em folha, ainda. Chegaram no memento em que os angolanos se preparavam para ir a voto. Quem ganhou as eleições, quartas em Angola, já ganhou a fama de os ter trazido para resolver uma das grandes carências que o povo tinha.
Os machimbombos são vistos todos os dias a circularem limpos, cheinhos e organizados. Nas paragens, voltaram as filas, quase sempre ordeiras, tirando umas três senhoras (tratadas por cavalonas) alí pelas partes do Kilamba, que quando chegam atrasadas à paragem fazem kavuanza até desestruturarem as filas que encontram organizadas. Essas "tias"são bem conhecidas e mal-amadas dos estudantes das escolas do Kilamba que tanto delas reclamam como as conhecem nominalmente.
Os utentes dizem que os novos autocarros (um deles na imagem) são melhores e os seus supervisores são ágeis. Não demoram muito para encher e partir. Também atribuem nomes a outras transportadoras, mas hoje escrevo somente sobre os chamados "Jey Ló". Pronto. Foi o povo quem os apelidou de "Jey Ló". Em respeito ao nosso dirigente máximo, só nos resta preservar o que custou dinheiro ao Estado para que dure mais tempo. Nada de kavuanzas e boa viagem.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

FATO E GRAVATA: APENAS FORMALIDADE*


Fato e gravata afinal de contas é somente uma questão de gosto e formalidade
Apesar de carregar responsabilidades acrescidas e bastantes pesadas às costas, numa instituição que por sinal também tem sido “a menina dos olhos do País”, o Dr. Luciano Canhanga mostrou-se disponível em receber-me naquele que tem sido por muito tempo o seu habitat.
Na verdade, julguei que seria um processo muito burocrático como tem-se visto por aí com líderes de algumas instituições. Pelo cargo que ostenta, tive a percepção que, para aquele líder, o fato e gravata é meramente uma questão de gosto e formalidade, fazendo prevalecer a questão da liderança e competência vingar.
Como um bom líder que é, deu-me a liberdade de trata-lo como quisesses sem desprimor a ética, civismo e o respeito mútuo. Afinal para Canhanga, como tem sido tratado por muitos que fazem parte do seu ciclo profissional, o título não tem sido tão relevante. Prova disso, constatei que um líder que se prese precisa muito dos seus liderados, estou a querer referir-me quando decidiu realizar uma tarefa que sozinho estava com alguma dificuldade, sem receio algum resolveu pedir o apoio de suas subordinadas, de modo descontraído realizaram-na com profissionalismo.
O encontro com o Dr. Canhanga veio reforçar o velho ditado de que o “conhecimento não tem limites”, a minha ida para o encontro foi na perspectiva de abordar questões relacionadas ao trabalho, todavia acabei saindo daí com conhecimentos sobre a vida. Em suma, foi um momento bastante proveitoso e repleto de alegria, em que mesmo na condição de visitante não colocaram-me de parte, senti-me em casa.
*Texto de Marcílio Von-Haff (23.11.2017)

sexta-feira, dezembro 01, 2017

MEMÓRIAS DO IMEL

IMEL, 1994
 
Ao entrar para o IMEL, em 1994 (testes realizados no ano anterior) eu encontrava-me mais roto do que vestido e mais descalço do que calçado. Concomitantemente,  mais faminto do que alimentado. Quando não era "arroz com qualquer coisa" podia ser um "chefé com pão burro ou nada", como podia ser uma ngongwenya. Porém, era portador de bases académicas (tinha estudado no Libolo, numa sociedade ainda sem vícios nem corrupção) das mais sólidas do que muitos dos que, de soslaio, me/nos olhavam com desdém.
Vivia no gueto. Com os colegas do gueto convivia. Os da cidade eram doutros grupos estratificados de acordo as posses, zona de residência e escolas frequentadas. Estes, pareciam arrotar leite bife e bacalhau. Não podendo universalizar, havia, porém, entre os da cidade alguns "camaradas" (raparigas e rapazes) como o L. Pedrada que estavam entre os do gueto e os da cidade, davam-se com todos como mandam os bons ensinamentos. 
 
Como vinha a contar, no fim do ano lectivo, tinha saído a pauta  do II Semestre. Parecia que todos choravam ou pelo menos tinham vontade disso: uns de alegria pelos resultados conseguidos. Outros com cara de quem esperava por represálias ao chegar a casa ou quando os progenitores/tutores se apercebessem da fraca produtividade. Quando fazia as minhas anotações sobre onde devia melhorar no ano seguinte, eis que surgiu ao meu lado uma adolescente. Alta, magra,  morena e linda que apresentou um falar curto e altivo:
- Então tens muitas rubras?
(Confesso. Ainda não constava do meu dicionário a cor rubra. Só a pensar nas palavras da mocita me dei conta que podia ser vermelha. Chegado à casa, tive mesmo de tirar dúvidas com o mestre mudo).
Nem olhou para mim e foi-se embora. Fiquei a contemplar a sua alegria que não era melhor do que a minha. Entre negativas (votadas para 10) e recursos, eu somava zero.
 
Essa jovem veio a ser minha colega da 11ª classe, Turma A-JL e no estágio feito na LAC, em 1997, sendo ela a autora do nome do programa que realizámos "Dicas da Cidade".
 
Já naquele tempo, 1994/6, soube que havia alunos cujo castigo, caso reprovassem, era passar férias na África do Sul.
- Se eu passar de primeira irei passar férias em Londres. Se for a recurso o meu pai deixa-me em Lisboa. - Gabava-se o rapaz perante quem conhecia a South apenas pelo mapa mundi.
Quem me dera! - Dizíamos os do gueto.

quarta-feira, novembro 29, 2017

E ASSIM SURRARAM O SIMÃO

No território de Angola, os sobas coabitaram com a colonização que os esvaziou de seu poder ancestral, remetendo-os a meros expectadores e servis dos chefes-de-postos, aos quais tinham de fornecer "peças", quando solicitadas, para as empreitadas rígidas nas estradas, pontes e até mesmo em fazendas de colonos recém-chegados ou já há muito instalados. A recusa em fornecer homens "pagos com a entorpecente água-dente e cobertor e alimentados com peixe e fuba podres" podia resultar em valentes e impiedosas chicotadas, à frente de seus súbditos, ou mesmo a morte por desobediência ao branco-colono.
Chegada a revolução, o soba continuou a coexistir diminuído nos seus poderes. Surgiu uma nova figura na gestão dos assuntos comunitários que foi a do comité que era o dirigente político-revolucionário da sanzala/aldeia tomando as decisões em nome do povo. E assim foi da independência às guerras que se lhe seguiram.
Um dia, quando os valorosos combatentes pela liberdade, aqueles que correram com os colonos exploradores de nossas riquezas, deixaram de se entender, os que optaram pela mata, guerreando seus ex-companheiros de causa, chegaram à aldeia fardados, armados, e diziam-se "chateados com o nguernu e o enduartu". Organizaram, já aurora, uma fogueira com batuque e kisaka (chocalho). Beberam do que encontraram e uns até entraram em xingilamento (transe). Chamaram o povo para falar sobre o que lhes acorria e pedir comida que, no fundo, era o que mais pretendiam. O resto era pretexto.
No final do discurso do chefe deles, um homem alto e fininho como lombriga, alguém quis mandar o povo aplaudir. Lá na parte traseira em que se encontrava, ordenou autoritário e em bom som:
- Mbate simão!
Alguém, dentre os populares era Simão. Todos o conheciam pelas ideias que defendia, pois era o comité da aldeia. Quando não viessem os de verde-oliva, eram os de farda malhada que governavam, os da equipa do Simão. Destarte, foi vítima.
Afinal era para bater as mãos!


 Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta a 14/09/2017

segunda-feira, novembro 27, 2017

COLECCIONANDO PIRILAMPOS

Pe.Dias, S. Canhanga e J. Sipitali
Depois de actividade académico-cultural, em Benguela, regresso a casa (Luanda) alegre, satisfeito, mas ainda com palavras de gratidão na bagagem.
Quis o professor Sipitali do Seminário Propedêutico de Benguela que "Fatosséngola" de Gociante Patissa fosse o livro objecto de estudo na cadeira de Literatura Africana. A boa pena do amigo Patissa fez com que o seu livro estivesse esgotado na loja verde da rede "Desejo", tendo se optado pelo "Coleccionador de pirilampos" que dispunha de "um bom número" de dez exemplares na loja e que serviram os 15O alunos do referido curso.Grato, Patissa, por "me teres, involuntariamente cedido o lugar". Quem te manda ser bom?!
Acto contínuo, o professor Job Sipitali Sipitali, que também tem uma "pena poética" muito afinada, propôs aos estudantes e ao reitor do seminário, o padre Dias, uma conversa presencial entre o autor (eu) e os estudantes, o que veio a realizar-se na tarde de 25.11.17.
 

Haverá como não exprimir palavras de gratidão ao reitor, ao professor e aos diligentes estudantes? Ndapandula calwa!

Outra nota vai para a casa cheia. Epá, 150 é muito. Foi a maior audiência que tive em palestras sobre literatura e afins. E como se estes fossem poucos, ainda recebemos jovens, homens e mulheres, que foram ver e ouvir-nos.

Durante a conversa, intercalada com música e recital de poesia, foram quinze as intervenções/interrogações, todas bem colocadas, sobre o conteúdo, sentido e o alcance da obra.

Entre ficção pura, verdades que serviram de ponto de partida e elementos pedagógicos e reflexivos, fomos explicando sobre a mensagem socio-atropológica e histórica que o livro encerra.
Bem haja e obrigado a todos quantos permitiram materializar tal conversa. Nada anima mais o autor do que obter o feed-back de seus leitores, uma alegria que se agiganta quando se tratem de leitores estudantes de literatura, como foi o caso.
Ndapandula.