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segunda-feira, outubro 15, 2018

MALAVU, LUNGILA E MAMÃ ME LEVA

Que haverá em comum entre estas três "pérolas da língua e garganta", consumidas no Uige e em outras terras da imensa Angola?
Em princípio nada. Para adentrar a questão e tocar o seu âmago, precisei de viajar e conhecer Carmona, Uíge anteontem e hoje. General Carmona é uma outra história mais ligada à presença colonial portuguesa.
Antes destes chegarem ao território uigense, já os povos se deleitavam com apetecíveis destilados, fermentados e bebidas naturais como a seiva da palmeira ou malavu.
Aqui, surge o lungila que é um fermentado, à base de sumo de cana-de-açúcar. Traduzido para Português, o termo lungila (do Kikongo) significa "aturem-me". É o que acontece quando alguém se encharca desse produto.
- Vozeira que vozeira, ao ponto de se sentir "o único" na aldeia. - Explica a ancião Nsimba.
Mas no Uige não se fala apenas de lungila.  Poucos saberão disso, sobretudo os mais novos. Quem conta são sempre os mais velhos.
- Com os brancos, surgiu o "mamã me leva". Era um vinho tinto que se produzia (engarrafava) na antiga cidade de Carmona.
O mais velho Nsimba explica o porquê do pomposo nome de "mamã me leva".
- Com um copo a pessoa ficava alegre, bem disposta e mesmo e até o mais tímido já conversava. Se não tinha coragem de se dirigir a uma "pequena" já podia. Com dois copos, aumentava a voz e até os baixinhos pareciam altos no tamanho e da voz. Ao quarto copo, os efeitos se reflectiam sobre os joelhos que ficavam "bwazeza", sem força. Aí o consumidor, sem força nas pernas, a única coisa que conseguia dizer era "mamã me leva".
Há também o nosso secular e sempre presente malavu que é a seiva da palmeira. Quando me contaram que malavu também atacava nas pernas não quis acreditar. Certa vez, ainda éramos jovens, conta o mais velho Nsimba, estávamos a ir a Kimbele. Uma moças bacongo, saídas de Luanda pediram.
- mais velho, faxavori, nos paga só um kabidon de malavu.
- Filha, malavu faz abrir as pernas. - Respondeu o meu amigo Sabichão. Ele gostava mbora de brincar...
- Tio, faxavori. Retorquiu a jovem em tom suplicante, o que levou o Sabichão a pagar um litro de malavu. - Prossegue o narrador. Elas era três e nós duas pessoas na carroça da Peugeot 507. Minutos de pois, a primeira moça começou a reclamar que estava a "caloria em todos os lados". Não te avisei, mbora? Recordou o Nsimba, hoje é mbuta muntu.  Não tardou, quando o carro parou para meter mais gasóleo no depósito,  a amiga dela confirmou o efeito da bebida.
- E o que disse a moça, mais velho Nsimba.
- "Mama me leva". Mas não era do vinho, era do malavu. Disse que estava a sentir as pernas a tremerem. Sabichão, o meu amigo, ainda avançou conversa misturada com malícia.
- Não te disse que malavu faz abrir as pernas? Põe calça jeans e amarra pano por cima! - Falou ele.

Texto publicado no jornal Nova gazeta de 18.10.2018


segunda-feira, outubro 08, 2018

MASA, NGANA!

Assim terão respondido as súbditas de Ngola ao serem abordados por homens brancos que acabavam de desembarcar numa canoa movida a remo e que se fez da Foz à região intermédia entre Kisama e Ndondo.
- Que terra é essa? - Terão questionado os emissários de Sua Majestade, Rei de Portugal, capitandados por Paulo Dias de Novais que travaria, anos adiante, pesadas lutas contra as forças do Soberano Ngola Kilwaji kya Samba, titular dos povos do Ndondo.
- Masa, ngana (é milho, Senhor). - Responderam as akwandongo que se encontravam a moer milho numa pedra, à beira do caudaloso Kwanza. Terão percebido "o que é isso que estais a moer?", emitindo a resposta que se tornou topónimo.
Os livros de História sobre as epopeias do legatário Paulo Dias de Novais e os que narram a resistência dos africanos à presença europeia estão prenhes de cenas sobre os avanços, recuos e até captura e prisão do Português. As confrontações entre lusitanos e holandeses pelo domínio de Luanda também estão retratados em livros.
Até que o brasileiro Salvador de Sá e Benevides apareceu em socorro da "soberania portuguesa", os holandeses se tinham assenhorado de Luanda. Massangano, contam os livros e as lápides, foi o baluarte onde se travaram e se defendeu o brasão das quinas.
Até aqui, bastar-nos-ia a Biblioteca Nacional, o Arquivo Histórico Nacional ou, para os mais afortunados, a Torre do Tombo ou o Arquivo Ultramarino. Mas estaria, mesmo assim, em falta o contacto físico. Pois é, a "cidade" (à época) de Massangano, erguida no Séc. XVI, conserva até hoje as suas planas ruas "arquitectónica ente desenhadas sobre a parede alta do Rio", a Igreja Católica (religião de Estado naquele tempo), Fortaleza com seu longo mastro (sem bandeira alguma), a Primeira Câmara Municipal, a residência oficial do chefe da câmara, o Tribunal e casa de Reclusão, entre outros edifícios em ruínas, todos eles autênticos fortes paleolíticos e já sem a cobertura.
É essa a preciosidade, com valor histórico-cultural e turístico, que o Kwanza abraça no seu descendente leito para o Atlântico e que a inexistência de uma estrada em condições esconde aos curiosos e aos putativos turistas.
Aos aventureiros que se lançam ao desafio de "descoberta", num bom jeep, são "apenas 33 minutos de sacrilégio até encontrar o "tesouro histórico - turístico" que, normalmente, transforma o desconforto e cansaço da viagem em agradáveis momentos de contemplação.
No tempo doutra "divindade", o asfalto fazia-se da rodovia principal, EN 130, ao conglomerado de Massangano. Hoje, porém, são apenas buracos, lamentos e, as vezes, alguns milímetros da antiga negrura do asfalto a contar outra história do valor que já teve Massangano.
Entre desventuras, há também aplausos: a fortaleza é monumento classificado pelo Estado Português, Portaria de 24 Abril de 1923, e devidamente reconhecido Ministério da Cultura de Angola.
É pena que sejam hoje os cabritos que mais o frequentam do que os homens desse tempo. Por lá já chegou a energia eléctrica, saída de Kambambi, faltando apenas o asfalto e a promoção mediática do que o matagal esconde aos homens.
Os candeeiros de azeite e torcida de algodão, que ao tempo se achavam colocados em postes de pedra e cal, cederem lugar às lâmpadas eléctricas. O kakusu (tilápia) e bagre abundantes no Rio e lagoas próximas já podem ser congelados. A vida ganha(ria) vida com asfalto.
É imperiosos contar e mostrar mais a História e as estórias da "primeira capital" da autoridade portuguesa em terras Ngola, que se acha encravada entre a Muxima e Ndondo, pelo corredor do Kwanza.

Publicado no Caderno Fim-de-semana,Jornal de Angola, 19/08/18, pg.10.

segunda-feira, outubro 01, 2018

AO PÉ DA ESTRADA

É indubitável. Para quem lê a história da distribuição agrícola pelo país, Libolo, Aboim Uije e Golungo Alto são "terras do café".
No passado, as margens das estradas e das picadas estavam cobertas do arbusto que, em Novembro, engalana-se de um branco de cheiro inigualável, sendo Julho o mês em que o vermelho toma conta das fazendas. É o bago vermelho. Assim ficou registado na literatura histórica e na mente de quem, a partir da cidade, pensa e decide o campo.
O café robusta, plantado em terreno alto e de nevoeiro permanente, demanda sombra frondosa, sacha, poda e colheita com maior intervenção humana do que mecânica. É diferente da espécie arábica: plantas expostas ao sol, regadas a jacto, inundação ou conta-gotas, com passagens para tractor agrícola e labuta facilitada.
As ladeiras das estradas e picadas do Libolo, Golungo Alto e Aboim têm hoje mais bananeiras e palmeiras (resistentes) do que cafezal que se esconde na profundidade do matagal robusto e opaco.
Muitos se perguntarão "por que razão o café vai, aos poucos, cedendo espaço à mandioqueira, ao canavial e, sobretudo, ao banana?".
Pois, não será muito difícil aferir que o quilograma de café não anda acima de duzentos kwanzas, mesmo contando com o enorme trabalho que há entre plantar o arbusto até colher o bago, seca-lo, ensacá-lo e armazená-lo. Tem pelo meio a sacha, poda, desinfestação, o feijão maluco a complicar a vida do recolector e a cobra a amedrontar os noviços na arte da apanha do grão-ouro.
A bananeira é oportunista e afasta a erva daninha. Dispensa a poda e qual to mais rebentos houver maior será a colheita. A banana pode ser comida ainda verde (fervida) ou madura. Quando putrefacta, é submetida à destilação por processo artesanal, resultando em apetecível "das ponteira".
Um cacho de banana ou uma pilha de cana dão um lucro mais imediato e a custo resumido de produção do que um quilograma de café. É só por isso que os pequenos camponeses vão substituindo os cafeeiros que ladea(va)m as nossas estradas nas famosas zonas cafeícolas por plantações de bananal e canavial.
De terceiro maior produtor mundial do bago vermelho, em 1973, quando imperavam as monoculturas obrigatórias para os nativos e facilitadas por trabalho semiescravo ou mão-de-obra ultra barata para os colonos, Angola terá que "pedalar" até à exaustão se pretender ascender a um décimo posto desse campeonato mundial de café.
O pequeno agricultor já não se contenta única e exclusivamente com o café. A renda não aguenta doze meses. E, se comprador no houver, como às vezes dizem acontecer, pior ainda!

 

sábado, setembro 29, 2018

PENSANDO EM CACHIMBADAS ELECTRÔNICAS

 Mangodinho, nessa vida , já viajou que baste. À pé, de troli, de bicicleta, de moto, de tractor (na carroceria e na máquina agrária) de canoa e de barco também, de comboio e, finalmente, de avião. O pássaro de ferro que gira o mundo e faz das distâncias uma criança. A primeira vez em que corpo dele saiu de um sítio para outro, sem ver o capim ou a água a correr para trás, foi aos 18 anos quando foi rusgado, manhã cedo, no Kuteka, para a vida kwemba. No avião, espanto era espanto e, se as moscas não sentissem medo dos miúdos em desgraça, mas determinados em ir cumprir uma missão patriótica, se teriam alojado mesmo em sua cavidade bocal. É verdade. Avião é outra coisa. Pior ainda para quem só o via passar a milhares de milhas.
- A pessoa fica quilómetros acima do chão e o "bicho" sempre a batalhar contra os ventos, contra a força de gravidade que quer derruba-lo para baixo, a escorregar parece bagre que pessoa quer pegar para logo mais fazer enfeite no prato do jantar e ele, o bicho do avião,  a dizer "quero voltar na água lamacenta que é meu habitat". Não! Avião é coisa. É invento grande! - Cogitou.
Mangodinho, dessa vez, de novo no pássaro de metal. Espanto já não lhe vem à cabeça. Somente a imaginação de quanto tempo os "caravelistas da metroia" faziam para vir colocar feitorias comerciais e colónias na distância (hoje) de dez horas num assento flutuante. Quase verbalizou mas se conteve e pensou.
- Esses gajos vão pensar é primeira vez. Não. Nando Pessoa já é meu colega na arte de escrevinhar e Bismark também na arte de politicar. Ainda estou a ir "lhe" visitar no país que o Hitler, anexou à Alemanha do sô Marque.
 

Puxou da sacola que já repousava na bagageira um livro, o seu predileto "Arte da Guerra". Pensou em cachimbar como sempre faz às horas esquivas, no seu kapredito, mas ouviu a "aérodona" a dizer "não se fuma, nem mesmo que seja um cigarro electrónico".
- Porra! Esses gajos também, pá! Então a música electrónica já substituiu a acústica. Agora, um gajo também se quiser fumar é já na electrónica? Assim, sai mesmo fumo de phango ou makanya tratado junto da fogueira branda? Inventem outro avião que pode me levar ao Kuteka, mesmo sem aeroporto. Poupem ainda inteligência e dinheiro. Lá, onde me queria autarcar também estão a precisar de viajar sem sentir a rabujice dos buracos na coluna gasta dos idosos. Fumar na electrónica, ando a ouvir e ver nas noites da Ngimbi, mas eu, Mangodinho de Kuteka, é mesmo pelo cachimbo que não vou exibir apenas por respeito à norma e à tradição.
Mais velho não fuma cigarro de adulto no meio de noviços!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 5/7/2018



sábado, setembro 22, 2018

PELAS ESTRADAS DA TERRA

Bem o título podia ser "pelos estradas rebatidos da vida" ou "neve de poeira". Cada viagem é única, singular, prenhe de descobertas. Luanda ao Dondo já deu azar e prazer. Curto prazer nos poucos dias em que se aproximava à via expressa com separador no eixo central. Sol de pouca dura. Voltaram ao "ais" do antigamente. Gritos de homens torturados pelos equilíbrios e desequilíbrios da máquina resmungante e "ais" do carro que se bofoca e tritura. Até a terra, triturada pela passagem sem fim de viaturas, também solta seus gritos em busca de socorro. E me vem à memória o motorista filipado das FAPLA que ignorava o buraco na precaução de evitar um explosivo. Felizmente, já não se cantam nem contam minas. Foram apagadas do vocabulário politico-mediático. Apenas as estradas sugadoras de dinheiro nosso e vidas nossas.
Outro troço digno de anotação é o que nos leva de Kalulu à Kibala, paralela à EN240. Maior inteligência teve quem o traçou e quem decidiu, nos tempos de vacas hordas, alcatroá-lo, conferindo-lhe dignidade de via secundária de grande utilidade. Facilitaria a vida de que se fizesse do Sul ao Norte, sem ter de passar pelo Dondo. Kibala-Kalulu-Kabuta-Ponte Filomena-Ndalatandu-Etc. Uma boa agropecuária demanda estradas, uma circulação segura e rápida também. As estruturas metálicas para as pontes ganham ferrugem. As bases prontas para receber alcatrão ganham buracos. O tráfego que já foi fácil é sacrilégio. E, como poucos decisores por lá passam, nem o recado da estrada aos gabinetes chega.
Foi adentrando tal "atalho" entrecortado, "kabucado asfalto, resto poeira, se revezando", que matei a curiosidade de há já quarenta anos, quase. Sempre me fiz à pé ou em meio rolante do Limbe (aldeia hoje inexistente) ao Lussusso (12 km) e do Limbe ao Desvio para Munenga - Kalulu (26km). O que há em comum são os 42 km que separam o desvio da Munenga e o do Lussusso para Kalulu.
- Mas os brancos, quando construíram a vila, medida as distâncias e meteram no meio a aldeia que cresceu para Vila ou foi mera coincidência?
A pergunta dos tempos de undenge persiste na cabeça de outros tundenge de hoje. A idade e a possibilidade apenas permitiram-me conhecer a estrada na qual (Lussusso-Kalulu) nunca havia circulado. E deu para aferir quanta serventia tem e virá a ter quando ela for valorizada e concluída. Há dinheiro apodrecendo à beira dos rios!


Publicado pelo Jornal Nova Gazeta, Agosto 2018
 

quarta-feira, setembro 19, 2018

SODRASTA QUEM É?

Sodrasta é um termo (inventado por mim) para designar a mulher madrasta de marido. O masculino é sodrasto, à semelhança dos termos madrasta e padrasto.

Sodrasta/sodrasto vêm assim substituir as expressões sogra-madrasta/sogro-padrasto, aglutinando o conceito em uma só palavra.

sábado, setembro 15, 2018

NO VATICANO O AMOR GRITOU ALTO

Os sinos, primeiro, anunciaram bem alto, ritmados, convidativos... Mpã, Mpã, mparãm, mpãm, Mpã, Mpã, Mpã, pã-pã-pã-pã!
Na porta de entrada, um jovem garbosamente vestido e com gestos polidos, a lembrar-me um gentleman francês, indicava à rapariga, garbosamente avermelhada no seu vestido longo e justo, os parentes e as correspondentes mesas.
- Esse é o meu tio Luciano e vem com a esposa. Leva-os à mesa dos tios.
Antes de a jovem que fazia o protocolo para os "Ver'importante parents" fazer a vênia, confirmei a saudação ao Leo com um aperto de mão e batimentos leves mas rápidos no lado do seu coração.
- Boa noite Leo. Irlanda, o Leonel é meu primo, filho do finado Gasolina, portanto, irmão do noivo. - Apresentei.
- É, por que te chamam por tio se são teus primos?
- Eu era amigo do meu tio e, se calhar, tenho autoridade de tio.
O moço que conferia os convites fez o registo e a "moça que fazia protocolo" esticou-se toda numa vênia nunca vista. Acompanhamos e dividimos a mesa com os parentes da noiva, vindos aparentemente do Huambo, a confiar nos discursos e nas localidades que descreviam.
Dudu, o primo Dumilde, barba a Pedalé, kambutice e corpice também. Até nas mawanas, o filho da tia "Enfica" ou Linda João, se parece ao finado Ministro da Defesa Pedro Pedalé. Nas nossas festas de família, é o "gajo" que cuida de impor respeito. Aliás, você vê o moço e o respeito te vem já à cabeça, tipo aquela reverência que os Kwemba (tropas) e os fugitivos da vida militar faziam ao camarada pedalé. O gajo é um kambuta que impõe respeito!

Noutro lado estavam as "miúdas". A Fina e o barão, a Miulk e a kota dela Dilma, a minha prima "brasileira". O Dino também. Discreto, o gajo, a dar uma de kasule da Linda, mas a criar já barba de mais velho que o não deixa discreto entre os imberbes de sua idade.
Epá, família toda. Alegria toda. Todos aqui reunidos pelo Vá e noiva. O Santo João, da lavra do  comandante Infeliz, apareceu também no seu fato axadrezado. Kambuta bangão, de mawanas também. Meu primo era único. E a autora principal da festa, a mãe do Vá...
- Ó Carlota Toala, estás deslumbrante minha tia. Obrigado. Muito obrigado pelos primos que tenho.
Ela, toda encabulada, minha ti'amiga, quase sem voz para as palavras que lhe vinham na mente. Agarrou-me num abraço.
- Sinta-te à vontade sobrinho. Ainda bem que não viajaste. Deu para estarmos juntos...
Insinuoso, o "didjei" músicava melodias e misturas "saborosas" , ao repasto multigostos.
- Vinde testemunhar. Vinde deleitar-vos. Vinde imitar (boa imitação faz bem)... Era o falar da aparelhagem sonora, cuspindo ritmos pelo salão.
Depois foi a vez de os nubentes fazerem - se à pista. No boda do  Vaticano foi assim.
Vaticano já é Senhor. Valdane João [Jorge Castro] está casado!

Publicado no Jornal Nova Gazeta de 4 de Outubro 2018

sábado, setembro 08, 2018

ESCOLAS, PROTÓTIPOS E INOVAÇÕES

A presente (re) flexão (leiga) surge a propósito do que se vem assistindo quanto ao surgimento e lançamento no mercado de novas instituições de ensino, sejam elas universitárias ou de níveis inferiores.
Entrado na Kabunga em 1981, frequentei uma turma que terá sido a terceira, na aldeia de Kalombo. Até aqui nada de especial, senão o facto de ter sido no ano em que os pais decidiram colocar "carteiras fixas" plantadas no chão cru da sala única da "escola" que se achava bem próximo do chafariz comunitário.
Os anos lectivos subsequentes foram todos vividos em turmas de "reajustes e inovações" nas escolas que frequentei até ao ISCED de Luanda, onde fui cursar Didáctica de História, em 2000. Não sendo turma primeira, pouco terão os professores de lembrança, embora alguns se tenham despontado, mesmo sem terminar o curso, como o amigo Bayo Vunge que fui reencontrar "inaugurador do Curso de Comunicação Social", no ISPRA, em 2003.
Ali sim. O Bayo e seus colegas eram "estudantes-laboratório", fundadores de um novo e primeiro curso no país. Enfrentaram as maiores dificuldades materiais e pedagógicas para que o curso vincasse. Eu não. Cheguei um ano mais tarde. Já não era o da implantação, mas o dos ajuste e ou inovações ao protótipo. Alguns professores haviam sido substituídos e alguns métodos melhorados. Até o apuramento de novos estudantes e a relação desses com a instituição estavam em mutação. O protótipo tem o seu valor e a sua história, assim como os ajustes e inovações ou réplicas.
Olhe agora para as demais organizações pioneiras e atribua-lhes os quesitos.
Quantas vezes, no caso das académicas, se tornaram mais conhecidas pela força inventiva e destemida de seus estudantes associados do que pelo próprio marketing comercial?
Voltemos ao ISPRA. Ao tempo, tinha uma forte equipa de basquetebol, liderada por um intrépido estudante de metro e meio, Yuri Simão, o meu "amigo kambuta". Foram tantas glórias que alguns jovens e adolescentes, em fim de ensino médio, escolheram a instituição como destino para o desejado curso superior. O marketing desportivo foi grande e catapultou a instituição, apesar dessa ter apostado e espalhado diversas bolsas entre jornalistas de então.
Tal caminho me parece estar a ser seguido pelo instituto superior do "Bairro Militar" que tem apostado no trabalho com a associação de estudantes. Essa, ao que contam, é forte no desporto universitário (organizado pela FANDU) e em actividades de beneficência, competentemente apadrinhada pela instituição. E o nome vai voando, se espalhando.
A última organização, da associação estudantil, foi um curso sobre Documentos Administrativos do interesse do jovem estudante. Sem a mediatização que se esperava, sabe-se que a mensagem contada de boca em boca e replicada de face em face book ou reencaminhada de what em whatsapp atinge um universo inimaginável. Afinal de contas os jovens em idade plena são dos que mais usam, hoje, as redes sociais, sendo concomitantemente grandes consumidores dos produtos universitários.
A todos os "estudantes laboratórios" e aos que se lhes seguem, nos tempos dos ajustes, o meu BEM HAJA INOVAÇÃO!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 23 Agosto 2018

sábado, setembro 01, 2018

PARTILHANDO SABEDORIA E CONHECIMENTO

- Os jovens estão hoje melhor qualificados tecnicamente... Dizia o Mais velho que me chamou ontem para uma conversa profissional e "familiar".
Agradeci e retorqui que os jovens, nós, precisamos de nos sentar mais vezes com a geração de nossos pais e deles beber experiências e sabedoria. A academia apenas nos dá conhecimentos.
O mais velho, a quem trato carinhosamente por papá, abanou a cabeça, em gesto de aprovação, e prosseguiu, visitando a sua rua rica e sábia memória.
- Na nossa tradição bantu, uma conversa tem sempre introdução (yalakuhu em Kikongo e mahezu em Kimbundu). Assim é também na vida profissional (as partes de um documento/exposição são: introdução, desenvolvimento e conclusão ou fecho).
- Quem atravessa um rio, por meio de uma canoa, não deve defecar no ponto de partida. A canoa pode avariar trajecto, regressar, e o individuo ter de suportar o cheiro da defecação (por outras palavras, não discuta com o soba no dia em que pretendas mudar de bairro. Podes voltar...).
- A barriga pede sempre mas nunca agradece. A vida não é apenas a barriga. Por isso, é preciso empreender. O Mais velho contou bons exemplos de lutas travadas pela vida que resultaram em sucesso profissional e bem-estar familiar.
- Para viver em paz, acrescentou, é preciso não gritar. Citou a experiência de um psicólogo francês e exemplificou. Quem mais grita entre o grilo e a formiga? Quem mais incomoda quem dorme? Quem mais é perseguido por via da sua gritaria?
- Humildade e honestidade são importantes na vida que dá muitas voltas. Os pais passam e os filhos ficam. Há que deixar boas referências.
- Educação e formação é obrigação de um pai. Filho com bons princípios tem uma estrada aberta, lisa e longa pela frente.
Obrigado papá "MasCa" pela sabedoria e conhecimentos com que me tem brindado. Ntondele!

quarta-feira, agosto 29, 2018

A HISTÓRIA QUE (NÃO) SE APAGA


A caminho da sede do Sporting de Luanda, que já foram Leões no Girabola, há uma amostra da antiga ferrovia que saia do Mbungu, espraiava-se pela Marginal e rasgava a cidade baixa até à Mayanga. Outro ramal, saído do Porto, ia "visitar" a Ilha de Luanda. São tempos que apenas a idade avançada dos que o viram descreve ou os livros quase já sem cor.
Outra rota, não menos importante, passava pela Boa Vista e rumava à Funda. Pelas bandas da Petrofina ainda conheci, nas traquinices dos anos oitenta, os carris que, aos poucos, foram sendo recolhidos para suportar as coberturas de casas precárias.
Da Estação do Museke, entre Rangel e Kazenga, partia um outro ramal que seguia ao Kikolo, sendo o seu término a moagem de trigo. Nesse comboio, com suas carruagens de madeira, ainda viajei variadas vezes em busca de "sabão cocó", restos da Induve que os aldeões (à data) recolhiam, fundiam e acrescentavam um pouco de água para conferir-lhe uma forma mais aquosa. Chegou a ter vedação até à cervejeira do " cuco". Porém invadido pelos deslocados , em 1992 e anos subsequentes, foi completamente desmantelado, dando lugar à casebres e edifícios no seu traçado. Não resta sequer história para contar aos filhos de hoje.
Entre o nó rodoviário Ndalatandu-Ngulungu partia outro ramal. Tinha como vocação o transporte, essencialmente, de café que se colhia a toneladas vastas por aquelas paragens.
À semelhança do homólogo Caminho-de-ferro do Amboim, que partia do Porto Amboim à Gabela, o ramal do Ngulungu vai desaparecendo do mapa visual. Hoje, os carris e travessas são, semanas sim meses também, roubados para suportar os tectos das mabatas e ou vendidos aos sucateiros de Luanda. Daqui a nada, se nada mais se fizer, para impedir que a história se apague, nada sobrará, à semelhança dos ramais do Kikolo, Mayanga, Ilha de Luanda e Funda.
Uma atenção é reclamada ao oficialmente extinto Caminho-de-ferro do Amboim (ainda constava dos manuais do ensino primário da década de oitenta), cuja visita e retrato me estão na vontade e pela garganta.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 02/08/2018 e Jornal de Angola de 26/08/18

quarta-feira, agosto 22, 2018

PUMBA: ARTEFACTO DE CAÇA ENTRE AMBUNDU DO KWANZA-SUL

Um dos artefactos de caça usado pelos angolanos das aldeias interiores é a pumba. É à volta da lavra, para impedir a invasão de pacas, coelhos javalis e outros animais devastadores, que se coloca(va) uma cerca, normalmente feita de galhos de árvores. As pumbas eram/são colocadas em aberturas deixadas a propósito, como portas de entrada, transpondo a cerca.
 
Essas armadilhas também pod(iam)em ser montadas em caminhos habituais dos animais. São construídos com pedaços de troncos de árvores dispostos paralelamente, suportando uma carga que é detonada pela piscadela dos animais num gatilho colocado à superfície. O kabolo, entre os ambundu do Libolo e Kibala (pumba) não escolhe o animal alvo. Basta exercer pressão sobre o gatilho. O cão pode ser vítima. A cobra também. O termo "unyuna" significa visitar as armadilhas, algo que normalmente acontece manhã cedo. É uma tarefa diária que envolve percorrer a fronteira sertaneja da lavra para visitar todos os artefactos. E quando a colocação de artefactos/armadilhas vai para além das cercanias do campo cultivado, a visita é mais extensiva e demorada. E há/havia dias excelentes em que a kizaka (folhas de mandioqueira) ficava aposentada por alguns dias ou mesmo semanas.
 
Para além da pumba, existem um outro artefacto maior e com mesmas funções. É a chamada "kindamba". É quadriculada, mais larga e com mais peso. Colocada onde normalmente os animais vão roer terra por alegadamente conter NaCl (sal). O artefacto quadriculado suportado por uma baliza (dois paus verticais e um transversal com duas varas que se estendem da "baliza" ao gatilho, na parte inferior traseira. 
 
Para que a frequência dos animais não cesse, normalmente os mais velhos costumam deitar água salgada ou mesmo sal nos locais onde os animais vão roer terra, alegadamente por conter sal. O engatilhamento é semelhante ao da pumba.
 

quarta-feira, agosto 15, 2018

DELEITANDO A PAZ DE KILOMBO

"Mana Minga mukulu mwengi, mana wavala mona omusasa..!"
Na paz proporcionada pela exuberante vegetação, no jardim botânico de Kilombo, Ndalatando, todos cantam e dançam. As árvores, nos reencontros facilitados pelo vento, cantam uns gemidos e dançam, soltado folhas-estrume que as alimentam e dão de comer a outras nascentes.
A água, cálida, límpida, descendo preguiçosa, mas sempre vistosa, canta seus versos nos reencontros intermináveis com as pedras em pequenas cascatas.
Os bichos, os insectos, apito na boca, piiiiiiii, piiiii. Um interminável coro, às vezes chegando à orquestra.
Os pássaros, senhores das copas e dos ramos intermédios, um chilrear sem fim. O botânico do Kilombo é uma festa. Será por isso que "Mano António dya Mulawla" gostava de visitar o espaço em suas férias presidenciais? E tinha suficiente razão. Precisavam os akwaxi em gozo de férias de ir à metrópole beber vinho quando o maluvu do Kilombo é dos mais doces e gaseificados?
Voltemos à música. Kujiza vinha da lavra, Kilombo afora. Kinda à cabeça onde carregava pepino silvestre, batata, vassoura e outros mimos para os twana em casa. No sangue carregava assinaláveis ml de álcool. Kapuka ou maluvu não se descortinou.
- Mano meu nome é Kujiza. Você está a se fotografar, me fota também.
Enquanto rolava a prosa, da kinda ainda na cabeça veio um som. O rádio que carregava entre os mantimentos decidiu tocar e de lá saiu uma música das terras vizinhas de Malanje:
"Mana Minga mukulu mwengi, mana wavala mona omusasa" (mana Minga antigamente era diferente quem fazia filho criava-no).
E como o Kilombo é uma festa, saiu uma masemba até a música deixar outro recado.
"Mukulu, kuvala kitadi, lê-lo ke Kima" (antigamente, devido à lavoura, quem mais braços tivesse mais cresceria a sua lavra, os filhos eram por isso tidos como dinheiro, hoje não têm o mesmo valor, façam-se, portanto, poucos filhos, para que possam ser criados com dignidade). Quem não ouviria e cantaria uma mensagem assim?
De regresso, ainda no centro do Kilombo, um artesão faz dinheiro com bambus, fazendo lindos vasos e levando souvenirs à casa dos que se fazem ao botânico. Rosas de porcelana ou um broto da planta para decorar o quintal e nunca mais faltarem rosas também há. Diligentes, os guardas e os agro-gerentes estão sempre prontos.
- A rosa, cem kwanzas. A roseira, quinhentos. O vaso e os jarros de bambu variam de quinhentos a mil. - Anunciam.
Já á porta, prontos para o bye bye, de novo outro segurança.
- Gostou, mukwaxi? Volte sempre. Pela próxima venha acompanhado, assim demora e desfruta mais. Não deixe de falar sobre as belezas do Kilombo e aconselhar visitas. A entrada, como viu, custa apenas cem kwanzas!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 13 de setembro de 2018

quarta-feira, agosto 08, 2018

ÑANA KAKUNGU E ÑANA ÑUNJI

Afluente Kasonge dirigindo-se ao Longa rasgando zona plana
Reza a oratura que ... Existiu em terras de Kuteka, Lubolu (Libolo), entre os anos 1870 - 1930, um cidadão de nome Kabanga "Soba Ñana Kakungu", originário de Banza de Mukongu, de onde fora enviado para a região de Ndala-ya-Xipo (Dala-Caxibo), Kibala, onde desencadeou lutas expansivas do "reino" e contra a presença europeia. Esse, sempre que voltasse vitorioso, trazia como trofeu uma esposa. Era, por isso, senhor de muitas mulheres e muitos filhos.
Quando se dá a sua morte, por traição, na comunidade de Mbanze-yó-Teka (Banza ou capital de Kuteka), Munenga, as suas várias esposas foram distribuídas pelos sobrinhos (kulundula ou levirato), para que dessem continuidade à criação dos irmãos (primos) e à sua campanha expansionista e defensiva em relação ao branco. A tradição oral narra que a sua cabeça foi decapitada e levada por militares portugueses à Fortaleza de Luanda. Soba Ñana Kakungu ou Kabanga tem muitos homónimos (consanguíneos ou não) sendo alguns de sua descendência António José Cabanga (ex-árbitro de futebol em Luanda) Jacinto Abreu "Cabanga", o Cabanga que é soba da aldeia de Muxinda, em Malanje, entre outros homónimos de ascendência libolense.


Kilombo Kye'Tinu, filha de Ñana Ñunji
Antes da sua aventura militar, pelo Kuteka (comuna de Munenga), Ñana Kakungu trabalhou como contratado na fábrica de pólvora, em Luanda, cuja experiência permitiu-lhe fabricar armas rudimentares (kanyangulu) com que procurou contrapor a ocupação colonial e estender a sua influência (dos Lubolu) na região de Ndala-ya Xipo.
Enquanto pertencente ao grupo de ascendência Ngola, a história de Ñana Kakungu assemelha-se à dos Reis Nzinga e Ngola Mbandi. Portanto, não se trata de um soba qualquer.
Kitinu Kanyanga ou Ñana Ñunji (o Senhor Suporte/Guardião), seu sobrinho, substituiu-o no trono em Mbaze-yó-Teka (capital de Kuteka), vindo a dirigir aquele povo até vésperas da Independência de Angola.
Inicialmente, era uma espécie de substituto imediato na "gestão administrativa" do território quando o tio se ausentava. "Provou do poder e não mais o quis perder. Inaugurou o sobado em Mbangu-yó Teka (Mbangu de Kuteka), aldeia que era dependente de Kuteka, onde o tio era Senhor. Por essa façanha, conta-se, inicialmente mal interpretada, tio e sobrinho estiveram temporariamente de relações azedas, normalizando-as com o passar do tempo e verificação da fidelidade de um para com o outro. A morte do tio elevou Ñana Ñunji à cadeira de Kañane |uyala uñana| (rei) da região de Kuteka". Morreu em 1974 (seu neto Soberano Kanyanga nasceu enquanto decorria o óbito).

Sobas de Mbangu-Kuteka

» Ñana Phutangongo (originário de Mbangu-ya Koma)
» Ñana Kisabo Mungohuta (rainha gigante e destemida)
» Ñana Ndombo
» Ñana Luxande (Alexandre) Kingonde: pai de Januário Raúl e Makongo Kambundu)
» Ñana Ndemba
» Ñana kyombe: pai de Karyiongo ka Kyombe, Fernando Kwanza e Raúl Kita
» Ñana Kimbombo: pai de Alberto Matabicho
» Soba Kiñendu (Quinhentos): avô materno de Gilson Bondondo
» Soba Xika Yango/Manuel Carlos da Silva ou ainda Raimundo: pai de Arnaldo Carlos
» Soba Tumingu (Domingos) Mungongo: Pai de Rodrigues Mungongo
» Soba Manuel Nganga

MBANZE DE KUTEKA (KAÑANE)
 » Ñana Kakungu
» Ñana Ñunji: avô materno de Luciano Canhanga
» Ñana Ngolombole Kakulu:
» Ñana Kibele : pai de José Gabriel
 
Fonte: Recolha oral na região de Kuteka com José Kilombo Albano/2018
Obs:
1- Texto em permanente actualização
2- Ñana=Ngana: título nobilístico entre os ambundu, atribuído aos reis e ou equiparados, abaixo destes está o soba.3- Uyala uñana= entronizar-se rei.

Publicado (parcialmente) pelo jornal Nova Gazeta, 6/9/18
 

quarta-feira, agosto 01, 2018

EXAME COM FEITIÇO

Para os filósofos, a tentativa de buscar uma explicação sobre os fenómenos à volta do homem levou os pensadores clássicos a inventarem mitos ou primeiras tentativas de descrição e explicação racional. Mas não era ainda razão pura. Com os mitos, surgem também as crenças metafísicas, religiosas ou divindades. Umas monoteístas, como os Judeus e “maometanos”, e outros politeístas, como os helénicos. Mas não era ainda razão pura. O povo bantu transporta e conserva ainda (em certa dose) as crenças no além, mesmo entre os alfabetizados e diplomados. “A crença no feitiço (para os Tucokwe, por exemplo) é um dado da realidade material e espiritual: todo mal ou doença, toda morte tem como causa o feitiço (Manassa, 2011:54).

Conta-se que, numa aldeia de Kisama, margem esquerda do manso Kwanza. À direita Katete e seus verdejantes campos de sisal e algodão, no tempo de outra senhora. A frequência da escola se tinha tornado obrigação para os mancebos. A igreja protestante ali implantada apelava aos pais, dias sim, semana também, que “kubeza Nzambi nyi kudilongesa kutanga nyi kosoneka ufolo wakadyanga” (louvar a Deus e aprender a ler e a escrever é libertar-se).
Entre os instruendos havia os aplicados, já mais crentes em Deus do que em deuses e em feitiço. Miguel, porém, tardava em libertar-se do que os seus amigos chamavam crendice.
- O feitiço fala alto, até no silêncio das águas do Kwanza. - Dizia Miguel. Assim, enquanto seus amigos se aplicavam na escola, ele procurava por adivinhos e adorava amuletos, sendo o de sua preferência e a quem prestava cultos diários, o “deus da sabedoria". Atestava que “com um bom feitiço nenhum aluno precisaria de estudar para fazer o exame da quarta classe”. Assim pensou e assim procedeu.
Depois da quarta classe feita no posto de pregação da Igreja Protestante Americana, os rapazes foram todos instados a requerer o exame extraordinário ao Secretário de Educação da Província Ultramarina de Angola. Decorria o ano de 1959. A vila de Katete ficou pequena, ante a presença de jovens e adolescentes que procuravam pela quarta classe que os habilitaria a serviços menos penosos nas roças e nos serviços públicos.
- Ter quarta classe é ascender à vida de muitos brancos e poucos pretos.- Dizia-se. O individuo, num posto em que o administrador é semi-kifofo, é pessoa de respeito. Na roça, você já não apanha chicote de branco iletrado e nos serviços públicos, você é mesmo kilamba. Ter quarta classe é como atravessar o Kwanza a nado, sem precisar canoa. Dizia o missionário Tailor Mulawla.
Miguel, astuto, sempre entre a ciência dos missionários e o oculto dos avoengos das bwalas de Kixinge, também requereu o exame. Antes de amarrar a trouxa com os mantimentos e as roupas de saída que usaria no dia do exame, fez-se ao interior. Tinha parentes em Ndemba Xyo e Kixinje, velhos afamados em imobilizar leões e elefantes por força de feitiço.
- Meu avô fala e o mais feroz dos leões da Kisama se ajoelha, deixando-o passar. - Gabava-se. Foi por isso dormitar em casa do avô Kateko que lhe pediu uma lapiseira que passaria a noite nos mahamba. Era BIC azul.
- Mulawl’ami, ambule ngo (deixa só, meu neto). – Dizia ele no seu Kimbundu refinado. – Os outros vão fazer exame e vão xumbar. Esses brancos são malandros. Você não vai precisar se amassar. É só sentar, pousar lapiseira sobre o papel que te derem e as respostas virão com a força e o conhecimento dos nossos antepassados. A caneta é que se vai levantar e escrever sozinha.
Os coetâneos de Miguel esmeraram-se na preparação e responderam o que sabiam. Hora e meia para exame. Lá fora, a multidão assistia a todos. Pais, irmãos, tias expectantes, muita gente a assistir e proclamar aos seus, ávidos de que transitem para a categoria de “gente de respeito”. Outros continuariam na bwala a criar porcos, a apanhar chicotes na tonga. Uns poucos, os teimosos de sempre, preparar-se-iam, nos intervalos que o pouco tempo de um campestre não permite, para se mais um exame.
Miguel fez-se também à sala do exame. Calções limpos, brancos. Únicos de saída que não usava nem mesmo para o culto religioso em que era um pisca-pisca. Folha de perguntas por cima da carteira, o tempo foi passando por ele. Dez, vinte, trinta, sessenta minutos. Miguel nem letra A tinha rabiscado. Na cabeça apenas a recomendação do avô Kateko: “A lapiseira vai levantar para escrever as respostas na folha branca que te derem”. Esfregava as mãos como um envergonhado que busca pela coragem. Lá fora, expectantes, e vendo outros meninos já saído meio satisfeitos pelo desempenho, os parentes de Miguel gritavam.
- Escreve Miguel, escreve! Miguel soneka kya, itangana yala ubita (o tempo está a passar)!
Miguel deixou o tempo passar por ele. Era tanta a ansiedade que ficou sem as unhas de tanto as roer. Às tantas, ficou mesmo com a impressão de que a esferográfica se movimentava, aos poucos, saída da posição horizontal à oblíqua. Ledo engano. Apenas ilusão de óptica. Continuava estática, no lugar em que fora depositada. Quando pensou em desistir da possibilidade de o feitiço resolver as equações e inequações matemáticas, já nem dez minutos lhe restavam. Censurado por todos, apenas o pranto lhe fez companhia na travessia do Kwanza caudaloso. Tal como a bíblia cristã, que conhece, atesta que "... assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tiago 2:26), Miguel compreendeu que nenhum feitiço lhe valeria se não se aplicasse na revisão da matéria. Foi para casa, desolado e passou a prestar mais atenção à ciência que seus amigos e coetâneos haviam abraçado há tempo.
...
Uma semana depois, Miguel foi tirar esclarecimentos. Encontrou o avô Kateko abusivamente kapukado mas com a força do costume.
- Avô, porque me intrujaste com aquele feitiço de pimpa? Os outros se tornaram gente e só eu, em mesmo Miguel, é que fico já kinangambala?
- Estás falar quê, ó mulawla Miguel? 'Fitiço' num deu certo ou você é que num deu certo no estudo e na fé?  A culpa é tua, sô indisciplinado. Coisa de branco é de branco e de ambundu é de ambundu. Como é que você leva um segredo nosso, coisa que vêm desde os nossos trisavôs e conta a pessoas estranhas? Você creu pouco, destarte o brune encravou. A força do "fitiço" que entrou na lapiseira ficou congelada. Você nunca ouvir falar mundele nzambi? - Defendeu-se o velho, deixando o neto mais irritado ainda... Por pouco saia kibetu de chagar bichos, mas avisados pela fúria de Miguel e bebedice de Kateko que não poupava nos impropérios contra o neto, os aldeões, em geral, e os parentes, em particular, se fizeram cercar dos contendores e puxaram cada um ao seu canto até a ira se esfumar.
Adaptado de estória contada por Silva Candembo e publicado pelo Jornal de Angola a 15/07/18 

domingo, julho 29, 2018

AS COREIAS, A PAZ & CORAGEM IRMÃO

O mundo vem assistindo e aplaudindo, nos últimos trinta dias, a reaproximação entre as duas Coreias separadas há sessenta anos, sendo os americanos, os russos e os chineses os padrinhos do acto em que "se cortaram mô inimigo". Por mais incrível que pareça, o "puto reguila ou explosivo", da Coreia do Norte, é quem entra para a História, pois, pôde estender a mão ao vizinho e parente do Sul da península e fazer uma selfie com o "Kota bidon", dos EUA, com que se "kandandeou" na Malásia.
Enquanto isso, aqui nas  barbas da nossa Ngimbi, em Viana, André Soma, o administrador, teve de somar paciência para pôr fim ao acto de "mô inimigo" que duas comunidades,  entre Zango V e Kalumbu" decidiram "se cortar" e prolongar, 16 anos depois da "paz do Kamorteiro".
Soube pela pena da diligente directora de comunicação institucional de Viana, a intrépida Elizabeth Smith, quando em uma das saídas para falar com os munícipes, André Soma, que vem adicionando popularidade, se deparou com o que terá considerado insólito na governação da edilidade. O que mais o chamou a atenção foi o facto de haver tribalismo e divisão entre os bairros Coragem Irmão e o  da Paz.
Durante a sua visita àquela zona, conta Elizabeth, André Somou conhecimento que nenhum morador do bairro Coragem Irmão passa pelas ruas do bairro da Paz e vice-versa. Perante o que viu e ouviu, Soma não fez mais do que orientar aos residentes a pautarem por uma boa convivência e a pararem com o tribalismo, tendo mesmo posto sentados os "cabecilhas" das duas "Coreias vianenses", como quem puxa à orelha a duas crianças, e dizer-lhes que "somos um só povo e uma só nação".
Enquanto o muro de Berlim já passou à história, Cuba e Estados unidos já bebem Havana Club juntos, as Coreias já falam em "reunificar-se", depois do abraço entre o "puto reguila e o kandenge do americano" e agora a selfie entre o "puto reguila e o Kota do vizinho", ainda ouvimos na nossa Ngimbi cenas de "Irão-Iraque", faixa de Gaza-Israel ou Jamba-Luanda doutros tempos, onde a tacanhez dos que têm o povo sob seu comando faz do bairro Paz um inferno? Já imaginou ter de evitar "cortar" um bairro só porque você comprou a casa no bairro vizinho com o qual os moradores não "torram farinha"? Ainda bem que Soma é pastor e, em vez de os apresentar à justiça, decidiu perdoá-los antes, para que, de imediato, se perdoem e retomem as relações que, pela socialização humana, pertença à mesma edilidade, província e país, nunca deviam ter sido cortadas. Afinal, até as Coreias já falam de paz. Quanto mais os bairros Paz e Coragem Irmão?!

 

domingo, julho 22, 2018

A CANOA QUE SE QUER BAGRE

Reza a tradição oral entre os ambundu do Kwanza-sul, sobretudo os do "desfiladeiro Kibala" que, no tempo das caravanas do centro ao norte, os mbalundu costumavam ir ao Libolo permutar óleo por feijão e outros produtos, como também iam a Kambambi (Dondo) permutar cera. Era na Kibala, ponto de passagem e de paragem para descanso, onde trocavam mimos com os locais a quem "improperiavam" por ló ngoia (avarentos, glutões, bárbaros), dado que os Kibala não se prestavam a alimenta-los. A expressão ngoya, para quem fala Umbundu tem esse sentido pejorativo e os Kibala com juízo não perdoam esse dislate.
Porém, nos anos 80 do século passado surgiu na rádio VORGAN um programa designado "em língua ngoya" cujo orador glosava a variante Kibala do Kimbundu. Mais tarde, 1993 foi a vez da rádio Kwanza-Sul que ignorou o instituto nacional de línguas e criou o tal "programa em ngoya". A rádio Ngola Yeto seguiu o mesmo caminho, uma década depois. Daí em diante, só ngoya em todo o lado, mesmo ao arrepio da ciência e da oralidade. Sendo que quem tenha menos de quarenta anos, pode cogitar a existência no mapa etno-linguístico de Angola de um povo ngoya. É aqui que surge a "canoa que quer ser bagre".
Vinte e cinco anos. É exactamente esse o tempo em que se tenta "transformar a canoa naufragada em bagre". Ou seja, que se propaga que os povos do Kwanza-sul, com excepção dos do Seles, Kassongue e Sumbe (Ovimbundu, segundo um mapa) falam uma língua distinta do Kimbundu a que atribuem o pejorativo designativo de ngoya.
Se a existência de um programa cuja mensagem é passada no idioma que se fala na parte esverdeada do mapa foi um bom exercício, o mesmo não digo em relação à designação inventada para a língua de matriz ambundu (Kimbundu). 
Peço argumentos técnicos e científicos dos reclamantes da suposta "língua ngoya" e não os vejo/leio/oiço, com abundância e profundidade, para além de desculpas de que "...pretendem destruir um trabalho que leva duas décadas e meia..."
O programa estará aí para a "eternidade". Só a suposta "língua ngoya" é que (ainda) não existe, pois não tem nem agrement da maioria dos falantes, nem dos órgãos que tutelam as questões que têm a ver com as línguas em Angola.
É inegável o poder de persuasão da rádio, sobretudo num meio onde ela não tem a concorrência da TV e de jornais e numa sociedade que crê na rádio como se de uma fé se tratasse, sendo os radialistas "semi-deuses da verdade". A rádio e sua propaganda podem  minar mentes e levar muitas pessoas a negar a verdade em detrimento do que é muito apregoado. Pergunte-se, pois, os idosos que língua falavam antes de surgir a rádio (programa na rádio). Antes de se popularizar o termo ngoya, via rádio, que nome atribuíam à língua que sempre falaram. A resposta simples e corajosa, será, com certeza, distinta do "bagre sem vida" que se acha no fundo das águas do Longa, nyiha e Keve.

Não está em causa o idioma. É o novo nome que está em discussão.
Continuemos a discutir, com cordialidade, atacando os argumentos e não as pessoas. Para os bakongo, jamais a canoa vira bagre, por mais tempo que permaneça de baixo d'água.
Mahezu, ngana!

Texto publicado no jornal Nova Gazeta.

domingo, julho 15, 2018

SONHO DE MARINHEIRO


O desabafo bruto e cru daquele homem de meia idade tinha deixado meio mundo boquiaberto. Melhor porque foi em mar abeto. Na terra, uma tirada como aquela e saída da boca de quem saiu teria um imediato catálogo herege.

O barco em que seguiam andava à deriva havia já muitos pares de anos. Todos os avisos das cercanias e de radares externos tinham sido pura e simplesmente ignorados. Embarcações em situações análogas há muito tinham afundado ou mudado de comandante. Navio como aquele e tripulação como aquela já se contavam aos dedos de uma mão pelo mundo oceânico, onde os ventos turbulentos coligavam com os tubarões de todos os dia.
Martins, o homem do desabafo, era marinheiro há já três décadas. O seu apego pelo mar é natural. Nasceu à beira duma ria e cedo seus pais se mudaram para uma ilhota do Índico, até que, numa noite de poucas estrelas, o mar rugiu e fez juntar as águas de todos os lados. A casota de palhas de palmeiras e mafumeiras foi abraçada pela água furiosa. Martins perdeu o irmão das brincadeiras e a mãe dos fervidos e assados. Viu-se apenas ele e o pai flutuando sobre o mar deserto, apoiados em velhos destroços duma antiga piroga.
- Papá, o mar atingiu-nos. – Disse Martins tão logo se deu conta da situação calamitosa em que se encontravam.
- Sim meu filho. O mar atingiu indelevelmente nossas vidas. Comparado a isso foi apenas o fascismo do início do século. - Respondeu José, o pai.

Vivia-se o século vinte. Bem no começo da segunda metade. Os náufragos lutaram contra as águas raivosas e o vento furioso e um sol assador, até que ao cabo de sete horas sobre aquele dilúvio fizeram-se à terra firme. Eram heróis aos olhos do povo que perfilava a costa e que já tinha preparado oferendas à Kianda, mãe de todas as sereias  daquele mar agitado.  Era a forma habitual de impedir que mais mortes acontecessem.
Lukinda, de seu nome de nascimento, viu-se apelidado por Martins, uma corruptela de “mar tingiu-nos”. E assim ficou conhecido e reconhecido agora como marinheiro de incontáveis milhas.

O navio já levava anos à deriva no Índico. Martins era capitão. O comandante era Sam Téh. Homem hábil nos tempos que já lá se foram, mas que se apresenta agora com o cérebro calvo e fragilizada pelas calemas que sempre o apoquentaram durante os dois séculos cruzados pela sua vida. Embora Martins fosse pessoa influente e homem de argumentos que incentivavam os co-viajantes a se manterem no barco até às últimas calemas, era Sam Téh que tomava as decisões e a quem todos deviam obediência.
Sam era duma crueldade que alimentava os tubarões com os seus marinheiros revoltosos. Em terra firme a capitania já o teria apeado do leme. Mas em alto mar, e com o navio sem bússola e sem terra à vita, a ninguém mais Sam prestava atenção senão ao seu próprio ego. E não foram poucos os capitães promovidos e despromovidos por erros do Comandante mas sempre imputados a Martins e pares.
Na sua vida de marinheiro, Martins já fora herói e vilão. Soube sempre coabitar com o mel e fel naquele navio. Em tempos de bom vento, fora inclusive elevado à categoria de Vice-Comandante. Foi descendo, descendo, devagar, devagarinho até se deparar com a condição de simples passageiros. Era isso que não entendia por mais esforço que fizesse.
- Está difícil manter o Estado neste barco. – Desabafou Martins perante a multidão que planejava a destituição do Comandante e encontrar um comandante que os levasse a porto algum.
- Mas ó camarada Martins, você não faz parte da tripulação? - Questionou  Taci, um crónico insatisfeito.
- Não meu senhor. Já fiz o que pude fazer enquanto achei que alguma terra nos pudesse acolher. Com o actual estado de coisas, tudo o que pretendo é que passe por cá um barco ou helicóptero que nos socorra e nos salve desta aventura samtsetiana, disse entre dentes, antes de se retirar.
Mal tinha colocado o pé na porta do seu aposento, o seu desabafo já se tinha convertido em assunto para reflexão e debate.
Primeiro perguntou-se a autoria do seu nome e depois o significado daquele “está difícil manter o Estado neste barco”. Ninguém conseguia perceber o alcance daquelas palavras tão simples quanto profundas como o Índico que os mantinha cativos entre a vida e a morte.
Sá Lutenda, um vidente, sabia do que lhes esperava. Sabia também que caminhos tinha trilhado Martins e que ideias lhe invadiam a alma. Mas não o disse de imediato. Deixou que a discussão atingisse o auge.
- Eu sou contra o Martins e deve ser levado à razão. – Defendiam os aduladores do Comandante.
- Acho que o Martins está cheio de razão. Embora ache que não seja ele a quem de deva confiar o comando do Navio é importante que se dê oportunidade a pessoas do mar ou que ,no mínimo, se deixe os marinheiros trocar ideias. - Defendeu Lamba, o mais idoso da tripulação.
Lamba, talvez devido ao peso dos seus anos, costuma dizer que já foi árvore, já foi lenha, já foi carvão e agora é cinza. Diz as coisas sem peneira e de acordo ao seu conhecimento e experiência. Goza por isso de aceitação e é reconhecido como grande marinheiro, embora nunca tenha chegado ao leme.
- O mar é complexo e cada um tem uma experiência que pode ser partilhada. - Continuou Lamba que foi molhado com assobios elogiosos.
 - Mas, ó kota Lamba, você que tem mais idade do que este navio, você que conhece todos os comandantes, capitães e marinheiros, pode nos explicar quem na verdade é o Martins? - Questionou Lunga Mana, o mais jovem dos passageiros.
- Olha, meu jovem marujo, podes anotar na tua caderneta mental. O chefe Martins é um homem que já esteve próximo daquele leme. Alguém que já fez muito para que o navio continuasse flutuante, embora à deriva. Martins é um jovem que entrou no navio cheio de vida como tu. Que foi subindo e acertando as velas ou colocando lenha na caldeira. Já puxou demasiado cabo e descamou demasiado peixe até chegar à direita do Comandante. Também desencalhou o navio por diversas vezes. E por diversas vezes prejudicou a si e aos seus para manter a reputação do Comandante que, apesar de tudo… - Lamba puxou da mutopha carregada de kangonha de Kalandula para pôr mais ar no peito que já lhe ia rareando vezes sim, vezes sempre. E continuou: - O Martins é um homem que se deu conta que a seguir o Comandante como às vezes se segue, aplaudindo e remendando os seus erros de miopia, morremos todos e ninguém encontrará sequer os destroços da embarcação.
Mais palavras não houve. Apenas um forte ruído motivado pelo casamento entre o mar, o navio e a rocha. Bummmmmm!!!!
O choque do incauto motorista de Hiace contra uma árvore que repousava já meio século no passeio da rua da Missão, acordou Benedito que seguia embalado no seu sonho de marinheiro.
Publicado pelo Jornal de Angola, caderno Fim-de-semana, de 8/4/18, pg.10.

sexta-feira, julho 13, 2018

ALUGA-CÊ CAZA DE CUARTO E SALA


Epá! No Cazenga, no Palanca e, sobretudo, na Vila da Mata e arredores são só lamentos e choros mesmo de babar ranho.
- Roubaram a nossa filda, que sempre foi nossa desde o tempo colonial, tempo de Agostinho Neto, tempo de José Eduardo e até tempo das rusgas dos PCU e ST, de cavalo e chicote na mão, a endireitar "bicha" de visitantes, de biscateiros e de carteiristas. As casas ficaram, sem portas nem janelas, mas a filda andou. - Choram.
As moças, bonitas de ocasião e de um Português que denuncia o lápis desafiado, ficaram penduradas.
- Quem qui vá nos dá dinhero pá matabichá? Quem? Nossos portuga lhis levaram longe porcá di quê?
Mano Rafael, força de elefante, conhecido na rua da conduta como "Faz Tudo", tinha já o seu kangulu preparado, desde que ouviu o anúncio na radio "filda começa dia dez e acaba sábado, catorze". Na sua cadeira de fitas, à moda 80, pensou:
- Desde que Luanda é Luanda, toda a filda é no mesmo local.- Oleou o eixo, depreende os músculos e os preparou para a labuta vizinha.
Aliás, para ele e para muitos, FILDA é local, tal como esteve grafado até há bem pouco tempo nas instalações que se enfiam entre a frescangol e a BCA, deixando infiltrar-se no meio a Deolinda Rodrigues de Catete. Filda noutro lugar que não seja no da FILDA é impensável em muitas cabeças.
Faz Tudo, "pensamentoso", não sabe se vende a casa na Vila da Mata, para arrendar outra nas proximidades da Zona Económica Especial ou se deixa o ofício de biscateiro.
- E, se ano que vem, o Estado decide levar a feira para outro lugar, a pessoa fica gira-bairro por causa do biscate de uma semana?
Na sentada com Mangololo, outro kipá dele das couboiadas, a conversa ficou a rolar meia hora, parecia disco riscado de sungura antiga. Mangololo era pela mudança imediata do bairro e seguir a exposição. Argumentava que em uma semana o biscate na Filda dava mais dinheiro do que onze meses.
Faz Tudo, a pensar pensamento de homem, não se deixou dobrar pelo argumento simplista do amigo.
- Esse Estado é "fodido". Assim que lhe aborreceram aqui na FILDA, com o roubo e desmantelamento de quase tudo que o colono deixou, se lhe aquecem a cabeça, lá na Zona Económica, pode levar a exposição para Catete ou Funda. Assim a pessoa fica andar à toa nos mabululo onde não há biscate nem de desentupir fossa ou consertar fogão?
Foi isso que o travou, mas o amigo dele, Mangololo, já tinha colado papel quadriculado na porta do chimbeco e forçado Minga dya Mbaxi, a mulher, e os twana a arrumar as imbamba.
 - Aluga-cê essa caza de cuarto e sala. - Lia-se a bom rir dos mizangala mais acanetados da Vila da Mata.
- Ó ti Mangololo, alugar não é com cê de cebola, é com esse de sapato, depois de aluga. - Tentou emendar a sobrinha Kabwiza que estudava a terceira classe na explicação do Tony Mulato.
-Cala-te boca, mijona. Quando entrei na escola nem a burra da tua mãe tinham lhe engravidado, pá. Se as pessoas estão a perguntar preço é porque leram e entenderam. Você, tua casa está aonde, pá. Vai só mazé me comprá cigarro e não me mete mais atrapalhação nas ideias. - Resmungou malicioso.
Ele, mano Rafael Barata, homem alheio de Malanje, foi a casa dele de sofrimento que o prendeu. Decidiu consertar sapatos até que a filda volte à FILDA. Quem sabe um dia?!


Publicado no Jornal de Angola de 05.08.2018

sábado, julho 07, 2018

A ÁGUA DA INDEPENDÊNCIA

Noutros tempos, naqueles idos em que a empresa de captação, tratamento e distribuição mais prometia do que fazia, houve uma semana em que os arredores do Largo da Independência ficaram literalmente secos. Só poeira. Parecia a Namíbia em tempo de estiagem. Faltou água para a rega, para a limpeza dos lares e dia carros e, por pouco, faltaria para o estômago. Os repuxos juntos à estátua do Kilamba ainda funcionavam e os vijús lavadores de carros encontraram ali uma oportunidade para continuar o seu negócio acrescido de um apelo especulativo:
"Kota, água está difícil, mil não vai dar".
Foi semana e meia a acarretar com baldes, bacias e latas, até que os tanques secaram. Foram outros tempos e, por isso, outros factos. Hoje, talvez porque quem capta e distribui a água fá-lo com regularidade, a boca de chegada nunca se desliga. Jorra que jorra, fazendo os mesmos lavadores e outros frequentadores das cercanias apelidaram o "rio" que se faz todos os dias e todas as horas ao asfalto de "água da independência".
Os repuxos, na verdade, já não funcionam mais. Extinguiu-se a beleza provocada pelo efeito da água bombeada verticalmente, caindo prazerosa para o arco-íris. Já lá não facturam os fotógrafos. Já lá não se dirigem os noivos, nem os namorados frequentam os acentos imitando poesia lírica de Neto. Os buquês deixaram de entrar. Apenas os manifestantes e revús levam ao Kilamba as suas súplicas.
A água jorra sem cessar. Os tanques gritam uma secura sem par. O asfalto molhado e inundado já chama buracos apressados. E o nosso Kilamba, ali em pé, a olhar Angola, apelando à união, mas também à acção. Ouço-o silencioso a gritar, já sem voz, "coloque cada um, um pedaço de pedra nesse alicerce para que mereça o seu pedaço de pão". Quem deve reparar aqueles repuxos é que ainda não o ouviu. A água (no monumento a Neto, no Largo) da independência deve ter fim.

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta em Julho/2018

domingo, julho 01, 2018

MANGODINHO NA NGELÉ

Os desistentes, os faltosos e os trancadores de frequência

Mangodinho, crente de sua igreja desde pequeno, dez anos acabados de fazer, naquele ano que precedeu o centenário do "nossa igreja come mbora cem anos sem parar", há bons meses que não pisava o pé no templo, embora se considere e se gabe a todos os ventos "crente confesso". Em andanças profissionais, cruzou com Adão Kalongo de quem recebeu crítica aberta e construtiva de um amigo e coetâneo, embora frequentando outra "paróquia", queixando-se de suas ausências prolongadas aos cultos. Para persuadir o amigo, Adão  exemplificou um caso de "alguém que trocou de confissão religiosa, já em fase avançada de idade, sendo que no funeral apareceram menos de vinte pessoas".
- Já viste, Mangodinho? - Prosseguiu Adão. - Os amigos, contemporâneos e tudo, na igreja, também contam. Se ele não tivesse desistido, teria recebido toda a graça no último dia. Pensa bem.
- Compadre, não sou desistente. Apenas faltoso. Tu que és professor, analisa bem a situação do desiste que pode ou não procurar "outra escola" e do faltoso que tem direito a exame especial ou recurso. Eu nunca saí e jamais sairei. - Defendeu-se prometendo que seria visto no domingo que vem.
Sete dias depois realizou a promessa. Prometido e feito. Mangodinho, para não dar nas vistas e evitar saudações com sabor a cobranças, preferiu o penúltimo banco. Penúltimo porque nem o antepenúltimo e nem o último estavam ocupados. Apenas seria visto na hora do ofertório e de saída.
- Se o indivíduo vem é destaque. Se não vem também é notícia. É preciso ficar na penumbra e executar a retirada estratégica, sem dar nas vistas. Eles vão comentar. Depois tudo se ajusta, naturalmente. Aqui é como nos óbitos, o indivíduo não anuncia que vai. Ao sair também não precisa despedir. - Monologou.
Mas quando fazia a última curva, já hora de saída, as atenções estavam voltadas para ele. Fora, em tempos ainda de juventude plena, um dos incontornáveis daquele templo.
- Irmão Mangodinho, boa tarde e bom regresso à sua casa. Por ventura, veio visitar-nos ou veio, desta vez, para ficar? - Indagou irónico um coetâneo de boa amizade mas de poucos reencontros.
- Boa tarde irmão Noé. Nunca desisti. Pense nas quatro condições de estudantes que temos: o que frequenta assídua e pontualmente as aulas, o faltoso intermitente, o desistente que já não virá mais e aquele que trancou a matrícula. Eu, irmão Noé, nunca desisti. Tenho direito a recurso e exame especial!- Defendeu-se argucioso.
Noé, ainda a pensar no que acabara de ouvir, puxou os olhos para outro lugar, momento que o irmão Godinho aproveitou, com destreza, para pôr o ngimbu e o pé a fazerem parelha.

Publicado na edição de 31/05/2018 do jornal Nova Gazeta