Translate (tradução)

segunda-feira, janeiro 15, 2018

UM KWANZA AGRICULTADO: QUE BOM SERIA!

No topo da imaginação e de um monte que me serve de miradouro vejo o Kwanza, maior rio nascido e que desagua em Angola, descendo curvilíneo e preguiçoso, de Dondo a Foz em Luanda, deixando pelo caminho dezenas, senão mesmo centenas de ilhas e ilhotas, umas permanentes e outras temporárias e sazonais. Vejo também nesse delta bi-lateral verdejante o depósito permanente de húmus, de planton arrastados por dezenas de afluentes a montante que cortam savanas, florestas e rasgam montanhas, dando de comer vegetação, animais e  peixes, sendo destes que o homem se faz vivo.
 
E penso nos milhares de quilómetros por agricultar com o dinheiro "preguiçoso" de quem o adquiriu sem muito bregar e o guardou longe do olhar nacional. Quão bom seria se às estruturas de engenharia agrárias deixadas no Bom Jesus, à data da independência, fossem preparadas e agregadas outras de igual ou maior valor. Quão bom seria se todo o vale, bi-lateral, do Dondo à foz do Kwanza, tivesse uma barreira contra inundação e se pudesse agricultar de forma intensa em toda extensão.

Quão bom seria se cada metro quadrado tivesse utilidade agrícola e as águas servissem à navegação turística, à pesca fluvial e ainda à criação de peixe em cativeiro no próprio leito.
 
Que bom seria, se aqueles que têm e podem visitassem o delta no Nilo, no Egipto, que já não é distante, e fizessem do delta do Kwanza um "Nilo" que é, desde a antiguidade, o garante do trigo, demais cereais, pastos para o gado e hortofrutícolas, não deixando o povo egípcio reclamar  de pão. E sobre a força do Nilo, no Egipto, e as potencialidades do delta do Kwanza, em Angola, há muito por contar!
 
Quem bom será, quando as margens agricultadas do Kwanza chegarem, um dia, ao patamar do delta do Nilo. Havemos de lá chegar(?)!

Publicado no jornal Nova Gazeta de 30/11/17, pg. 4

segunda-feira, janeiro 08, 2018

DE EX-LÍBRIS A DEPÓSITO DE LIXO







Contam os mais velhos que "até 1975 o Edifício que suportava a antiga açucareira do Bom Jesus já foi o ex-libris da localidade", ou seja o seu cartão postal.
- Aqui, todos os que vinham para a agricultura e trabalho nas plantações, fossem brancos, patrícios ou contratados do sul, todos, a primeira coisa que pediam para ver era a fábrica da açucareira", conta o septuagenário Domingos Bandeira cuja família aí aportou para trabalhos na construção civil e depois nas plantações de cana-de-açúcar e outras que foram existindo, depois da paralisação da açucareira.
Erguido cuidadosamente com pedra e cal e com alguma variação de tijolo maciço e cimento, a edificação de dois pisos e um sopé de madeira fora projectado para resistir ao vento e à água, contando também com prováveis inundações. A rua, principal, é a da marginal do Bom Jesus, uma barreira de terra criteriosamente seleccionada e compactada, misturada com rochas neolíticas de maior resistência. A parte traseira conservava as máquinas e os fornos, hoje votados ao abandono. Nem só um contador de história no local para animar turistas que muito perguntam sem respostas sábias e prontas.
Verdade ou não, também se conta que, "antes de se edificar o edifício naquele espaço, a natureza oferecia uma nascente de águas termais que foi, entretanto, extinta por acção humana".
Hoje, as ruínas clamam por alguma atenção "museológica" ou similar para manter a memória da serventia que tiveram num passado de glória não muito distante. No espaço contíguo à fábrica foi erguida uma processadora de água, uma assinalável mais valia, tendo em conta a criação de postos de trabalho e o relançamento da industria na região.
O edifício de paredes "fortes e robustas" é hoje um "fraco" a desabar aos poucos, transformado em depósito de lixo e com as mulembas a cuidarem das suas paredes.
E como quem se previne evita males piores, demolição é o que mais se sugere, antes que haja azar para quem por aí passa regular ou sazonalmente instalado na sua viatura ou os tundenge que brincam inocentemente na ternura da sombra do imóvel abandonado.
Algum'alma atenta para ver o que se passa e sugerir alguma serventia? É que mais a baixo, uma já bem conhecida firma agropecuária transformou "terra parada" em verdejantes campos de bananal, videiras e outras culturas, enquanto que na zona norte florescem pujantes indústrias de bebidas.

Publicado no Jornal de Angola, Caderno Fim-de-semana, 26/11/17, pg 10

 
 

segunda-feira, janeiro 01, 2018

ENTRE SETE E SETENTA


Entre as memórias que conservo da primeira urbe da minha vida, Calulo, sede do Libolo, uma delas é, indubitavelmente, a moagem do "velho" Manuel Cunha. É lá que, ainda pequenos, íamos trocar, isso mesmo, trocar milho por farinha do mesmo cereal. E éramos atendidos sem demora. Dependia da coloração do cereal a depositar, geralmente medido em baldes, recebendo, também em baldes, quantidades semelhantes de farinha.

Já em Luanda, a capital das capitais, conheci, tempos depois, a casa setenta de seu filho Oka. Um restaurante famoso por acolher espectáculos musicais, num palco onde já desfilaram vedetas de topo do musicall nacional e mundial.

Tempos depois, de volta a Calulo, onde a moagem do "velho" Cunha não resistiu as intempéries do tempo e à acção vandalizadora dos homens do gatilho, Oka, o filho, ergueu no espaço da antiga moageira uma esplanada, concorrendo, com enorme sucesso, com os restaurantes da pensão e do hotel que ficam a não mais de cem metros. Muitos que adentram aquele espaço, ao se aperceberem de quem é o proprietário, não se coíbem em apelidá-lo de "casa sete". E, por mais incrível que pareça, essa casa está sempre bem frequentada. Muitos e interrogam “onde estará o segredo para tantos fregueses?

Oka, o José Carlos Cunha, mediu o bolso dos seus clientes que com grãos fazem salários de outros conterrâneos que labutam na casa que "olha" para a fortaleza de Kalulo, centro turístico de referência da pequena urbe .

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta a 11.01.18

sexta-feira, dezembro 29, 2017

PÁGINAS RASGADAS DA ESTÓRIA

- É minha, é minha..!
A disputa  pela "Mina" parecia animada por crianças ainda lactentes. Aos ouvidos de gente sensata não passaria de briga por uma bola ou uma boneca. Mas era mesmo gente de barba rija na jogada e corpos ninfáticos em disputa.
- Aquela é minha. Eu já a acompanho desde os ensaios e investi bastante para que tivesse esse formato!
A noite levava horas. Quase madrugada. A gala aprazada para as 21 horas estava atrasada por conta do governante máximo que tivera uns encontros fora da agenda. Todavia, nem o atraso diminuíam o frenesim lá dentro. As meninas, todas "trabalhadas a preceito" afugentavam o fantasma da "inexistência de matéria-prima local e natural com atributos para ganhar os concursos nacionais de beleza feminina". Esse era o argumento dos organizadores do concurso anual que se viam forçados a pescar na mesma lagoa e a enfeitar com escamas rãs e raias para se parecerem a peixe. Outros defendiam que "nos tempos do make up só existiria feiura onde inexistisse dinheiro. "Tudo se inventa e recria. Até a beleza", argumentavam.
Entre os notáveis e os que só iam para comer sem pagar, os números de presenças eram gordos. Enquanto o "povo em geral" se contentava com a bancada, as mesas ocupavam a zona mais baixa do salão, concomitantemente, a mais próxima do espectáculo. Aqui, a visão era tridimensional. Mesmo assim, duas das mesas dianteiras corriam sempre risco: a do júris e a da entidade organizadora que ladeavam a cabeceira da pista, enquanto a dos governante de topo ficava frente-a-frente com o desfiladeiro onde músicos e candidatos iam fazer vénia antes e depois da apresentação. O júris e os organizadores eram, regra geral, gentes do povo que levavam a vida, no seu dia-a-dia, a tratar por chefe e sua excelência um bom punhado de pessoas com os verbos ser e ter.
-Sabes quem sou eu? - Ameaçou, certa vez, um detentor de café aos ombros.
- Sim chefe. Peço desculpas a vossa excelência, por ser o presidente do Júri, pois é mesmo para vós que julgareis as qualidades e requisitos inseridos no manual, que foi colocada essa mesa lateral dianteira. - Ironizou o jovem, medroso mas polido.
O homem da habitual farda com riscos verticais encolheu os ombros que lhe transportam as divisas de café mas não desistiu. Foi tentar a mesma sorte junto da comissão organizadora onde encontrou passividade e ali se acomodou. E não era o único da sua classe. Anos passavam e anos vinham. O cenário sempre o mesmo. Os que podiam lá estar marcavam presença na fila dianteira, numa das mesas que configuravam a cabeceira da pista. Os outros, ausentes ou impossibilitados,  mandavam olheiros. Todos com uma missão. Ser o dono da Miss. Não importava se a vencedora ou a derrotada. Bastava passar pelo palco e desfilar nos três ou quatro trajes: biquínis, tradicional e vestido formal, quando não houvesse o fio-informal.
E assim, para muitas raparigas desnorteadas bastava deixar de fazer chichi-na-cama para subir à cama do chefe e se transformar também em "chefa" no gabinete, no quartel, no partido e na praça do arreió-arreió. Felizmente, esses tempos não têm volta porque lugar de criança é na escola e de adultos sem juízo é na cadeia!

Texto publicado no Jornal de Angola, Caderno Fim-de-Semana de 12/11/17

sexta-feira, dezembro 22, 2017

CORRIDA DE JANTE

Enquanto a idade de montar numa Belita ou Caloy 28 não chegava, o sonho circunscrevia-se a ver a "bina" decomposta e herdar uma ou senão mesmo as duas jantes. A jante personificava tudo: a bicicleta, a motorizada e até mesmo o tractor ou o carro. Por isso, enquanto corríamos atrás da jante verbalizávamos um som onomatopeico de equipamento a motor movido a combustível. E correr atrás de jante, com um caniço como volante que empurrava o meio, tanto podia dar alegria nos concursos realizados com os amigos da aldeia como podia custar dolorosas reprimendas das mães de mãos leves às queixas da vizinhança.
- Andar a correr pela estrada, com tantos carros, é perigoso. Você já não ouve por quê, kokolo dyami?
Seguia-se o puxão de orelhas e o choro só para pedir clemência e sair a correr na próxima oportunidade.
- Mana Maria, esse miúdo parece é borracha ou carne do mataku. Você fala não ouve. Pessoa com raiva bate e menino nem chora. Assim "lhe" faço ainda "comué"? mana me dá ideia.
- Joaninha, "lhe" deixa só assim. Um dia vais "lhe" matar por engano, na hora da porrada. Se não estás a "lhe" conseguir, "lhe" leva no pai dele.
- É, mana. Vou mesmo seguir teu conselho. Kimbito lhe "desconsegui". Vai só me trazer azar.
Enquanto as mamãs punham conversa em dia, para a garotada era corrida de jantes ou pneus e ir à caça de kiberra, uns gafanhotos verdes e compridos, que eram amarrados a linhas finas e longas, deleitando a criançada com os seus voos rápidos e curtos.
A jante, porém, tanto fazia sofrer como servia de mimo "na hora de filho querido", sobretudo naqueles dias em que se devia levar um recado urgente à tia próxima ou mesmo ir ao mercado comprar o emergencial em falta.
- Kimbito, meu filho de homem, vem cá kasule!
- Mamã!
- Vem. Vai "na" tia fulana, "lhe" fala mamã vai trançar o cabelo às cinco e meia da tarde. Vai, filho corre e não demora. Leva a jante.
- Mamã "num mi" bateu há pouco por causa da jante?
- Filho vai só. Quando a mamã te bate é para cresceres.
Será? Mas íamos empolgados. Correr autorizado atrás da jante sabia à dádiva.
Grande esperteza das mães daquele tempo. Para realizar tarefas urgentes davam a jante. Para brincar com os amigos era perigoso!
Mas lá estávamos nós. Uns com as suas jantes e outros com os pneus recuperados de recauchutagens.
Sempre correndo até que a puberdade rendeu os tempos de undenge. Para novas corridas, surgiram as ilumba.
- Moça, quero falar contigo uma coisa muito séria. Vou procurar-te às vinte e trinta, na hora em que o teu pai  assiste ao telejornal. Serás assim: tipo estou a passar, vou riscar no vosso portão e tu sais. Combinado?
- Sim, Manelito.
Na hora acordada, Manelito, caderno de improviso na mão. Se aparecer o pai ou a mãe da Kavunji apresenta o caderno.
- Boa note, Tio Martins. Desculpe, pedi o caderno para copiar a matéria de Biologia e vim já devolver.
Quando a Kavunji sai sem ser vista, o truque é uma perna no beco e outra perna no quintal. Para Manelito os quedes sempre bem atados e pernas afinadas para a corrida e contornar o beco escuro.
- Manelito fala rápido, assim mesmo, a minha mãe já está a me procurar e pode sair.
Manelito sem jeito, bate uma mão sobre a outra cerrada. Puxa conversa de encher saco: aula de História, Química e Física. Nunca de Biologia e Anatomia que é seu engodo. E o tempo passa. Mais um dia sem a Kavunji que fica apenas para o sonho no escuro do quarto sem lâmpada ou com lâmpada sem energia. E sonha jurando amor a Kavunji.
Chega a juventude. Árdua e responsável com outras pressas. Com ela a vida Kwemba... Melhor foi o tempo da jante!

Texto publicado no Jornal Cultura, Dezembro 2017

sexta-feira, dezembro 15, 2017

PROCURANDO POR MABUBAS

ou
APRECIANDO A BELEZA DE "SUNDI"
Deixando Caxito, invertendo a marcha a caminho do Uije, quem atravessa o Rio Dande é atraído por uma cascata. Os curiosos que adentram a picada só se dão conta que é artificial, depois de conferirem o engenho humano casado com a obra da natureza. Julgava ser a barragem das Mabubas que fica a montante da cascata em descrição.
Depois da foto, básica, sem tempo para "explorar" o espaço, cavei, de regresso à açucareira. Mas, não distante ainda da represa, a curiosidade gritou alto em mim e perguntei a dois transeuntes:
Jovens, boa tarde. Como se chama esse local?
Eram rapazes, entre a adolescência e a juventude plena. Respondeu um deles, o mais descomedido.
- É sundi, kota.
Fiquei a matutar. Sundi? Pronto. É sundi. É ele quem mora aqui.
- E, Mabubas onde fica? Indaguei, algo inconformado com a resposta recebida.
- É mais em cima. Respondeu diligente o muzangala.
No caminho, entre a represa que humedece a vila e os campos agrícolas nela inseridos, só "sundi" me girava à cabeça. Nenhum outro vocábulo que lhe fosse parecido ou próximo na língua dos portugueses. Aventei apenas uma proximidade com um dislate em língua Ucokwe. Mas a descontinuidade geográfica desaconselhou ir por aquele caminho.
De novo na açucareira, e já com o bom do meu amigo António Quino, a conversa sobre o ponto visitado tangencialmente naquele curto intervalo voltou à mesa.
- Epá, dizia ele, temos, aqui no Bengo, uma localidade designada Nsudi mas, pelas referências que me dás e pelo pouco tempo que fizeste em regressar, só podias estar no açude!
E não é mesmo que estive no açude?!
Em dívida fica a promessa e o desejo de visualizar a barragem hidroeléctrica das Mabubas que fica a não muitos quilómetros do açude, à montante, onde não pude entrar por se aguardarem "segundas ordens superiores". As primeiras, para não permitir a entrada de visitantes, disseram, "eram recentes". Porém, de lá saí com a boa nota sobre a cidade que aos poucos se ergue à volta do empreendimento. É zona arejada, imprópria para inundações, própria para um escoamento hídrico sem muitas engenharias e carestia.
Até já, Bengo Bangão.

Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 21/09/2017

sexta-feira, dezembro 08, 2017

VOX POPULI VOX DEO

É assim. Quando o povo fala, falou mesmo. Se dá nome, esse nome pega. Discutir porquê?
Os autocarros de transporte público são novos. Novinhos em folha, ainda. Chegaram no memento em que os angolanos se preparavam para ir a voto. Quem ganhou as eleições, quartas em Angola, já ganhou a fama de os ter trazido para resolver uma das grandes carências que o povo tinha.
Os machimbombos são vistos todos os dias a circularem limpos, cheinhos e organizados. Nas paragens, voltaram as filas, quase sempre ordeiras, tirando umas três senhoras (tratadas por cavalonas) alí pelas partes do Kilamba, que quando chegam atrasadas à paragem fazem kavuanza até desestruturarem as filas que encontram organizadas. Essas "tias"são bem conhecidas e mal-amadas dos estudantes das escolas do Kilamba que tanto delas reclamam como as conhecem nominalmente.
Os utentes dizem que os novos autocarros (um deles na imagem) são melhores e os seus supervisores são ágeis. Não demoram muito para encher e partir. Também atribuem nomes a outras transportadoras, mas hoje escrevo somente sobre os chamados "Jey Ló". Pronto. Foi o povo quem os apelidou de "Jey Ló". Em respeito ao nosso dirigente máximo, só nos resta preservar o que custou dinheiro ao Estado para que dure mais tempo. Nada de kavuanzas e boa viagem.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

FATO E GRAVATA: APENAS FORMALIDADE*


Fato e gravata afinal de contas é somente uma questão de gosto e formalidade
Apesar de carregar responsabilidades acrescidas e bastantes pesadas às costas, numa instituição que por sinal também tem sido “a menina dos olhos do País”, o Dr. Luciano Canhanga mostrou-se disponível em receber-me naquele que tem sido por muito tempo o seu habitat.
Na verdade, julguei que seria um processo muito burocrático como tem-se visto por aí com líderes de algumas instituições. Pelo cargo que ostenta, tive a percepção que, para aquele líder, o fato e gravata é meramente uma questão de gosto e formalidade, fazendo prevalecer a questão da liderança e competência vingar.
Como um bom líder que é, deu-me a liberdade de trata-lo como quisesses sem desprimor a ética, civismo e o respeito mútuo. Afinal para Canhanga, como tem sido tratado por muitos que fazem parte do seu ciclo profissional, o título não tem sido tão relevante. Prova disso, constatei que um líder que se prese precisa muito dos seus liderados, estou a querer referir-me quando decidiu realizar uma tarefa que sozinho estava com alguma dificuldade, sem receio algum resolveu pedir o apoio de suas subordinadas, de modo descontraído realizaram-na com profissionalismo.
O encontro com o Dr. Canhanga veio reforçar o velho ditado de que o “conhecimento não tem limites”, a minha ida para o encontro foi na perspectiva de abordar questões relacionadas ao trabalho, todavia acabei saindo daí com conhecimentos sobre a vida. Em suma, foi um momento bastante proveitoso e repleto de alegria, em que mesmo na condição de visitante não colocaram-me de parte, senti-me em casa.
*Texto de Marcílio Von-Haff (23.11.2017)

sexta-feira, dezembro 01, 2017

MEMÓRIAS DO IMEL

IMEL, 1994
 
Ao entrar para o IMEL, em 1994 (testes realizados no ano anterior) eu encontrava-me mais roto do que vestido e mais descalço do que calçado. Concomitantemente,  mais faminto do que alimentado. Quando não era "arroz com qualquer coisa" podia ser um "chefé com pão burro ou nada", como podia ser uma ngongwenya. Porém, era portador de bases académicas (tinha estudado no Libolo, numa sociedade ainda sem vícios nem corrupção) das mais sólidas do que muitos dos que, de soslaio, me/nos olhavam com desdém.
Vivia no gueto. Com os colegas do gueto convivia. Os da cidade eram doutros grupos estratificados de acordo as posses, zona de residência e escolas frequentadas. Estes, pareciam arrotar leite bife e bacalhau. Não podendo universalizar, havia, porém, entre os da cidade alguns "camaradas" (raparigas e rapazes) como o L. Pedrada que estavam entre os do gueto e os da cidade, davam-se com todos como mandam os bons ensinamentos. 
 
Como vinha a contar, no fim do ano lectivo, tinha saído a pauta  do II Semestre. Parecia que todos choravam ou pelo menos tinham vontade disso: uns de alegria pelos resultados conseguidos. Outros com cara de quem esperava por represálias ao chegar a casa ou quando os progenitores/tutores se apercebessem da fraca produtividade. Quando fazia as minhas anotações sobre onde devia melhorar no ano seguinte, eis que surgiu ao meu lado uma adolescente. Alta, magra,  morena e linda que apresentou um falar curto e altivo:
- Então tens muitas rubras?
(Confesso. Ainda não constava do meu dicionário a cor rubra. Só a pensar nas palavras da mocita me dei conta que podia ser vermelha. Chegado à casa, tive mesmo de tirar dúvidas com o mestre mudo).
Nem olhou para mim e foi-se embora. Fiquei a contemplar a sua alegria que não era melhor do que a minha. Entre negativas (votadas para 10) e recursos, eu somava zero.
 
Essa jovem veio a ser minha colega da 11ª classe, Turma A-JL e no estágio feito na LAC, em 1997, sendo ela a autora do nome do programa que realizámos "Dicas da Cidade".
 
Já naquele tempo, 1994/6, soube que havia alunos cujo castigo, caso reprovassem, era passar férias na África do Sul.
- Se eu passar de primeira irei passar férias em Londres. Se for a recurso o meu pai deixa-me em Lisboa. - Gabava-se o rapaz perante quem conhecia a South apenas pelo mapa mundi.
Quem me dera! - Dizíamos os do gueto.

quarta-feira, novembro 29, 2017

E ASSIM SURRARAM O SIMÃO

No território de Angola, os sobas coabitaram com a colonização que os esvaziou de seu poder ancestral, remetendo-os a meros expectadores e servis dos chefes-de-postos, aos quais tinham de fornecer "peças", quando solicitadas, para as empreitadas rígidas nas estradas, pontes e até mesmo em fazendas de colonos recém-chegados ou já há muito instalados. A recusa em fornecer homens "pagos com a entorpecente água-dente e cobertor e alimentados com peixe e fuba podres" podia resultar em valentes e impiedosas chicotadas, à frente de seus súbditos, ou mesmo a morte por desobediência ao branco-colono.
Chegada a revolução, o soba continuou a coexistir diminuído nos seus poderes. Surgiu uma nova figura na gestão dos assuntos comunitários que foi a do comité que era o dirigente político-revolucionário da sanzala/aldeia tomando as decisões em nome do povo. E assim foi da independência às guerras que se lhe seguiram.
Um dia, quando os valorosos combatentes pela liberdade, aqueles que correram com os colonos exploradores de nossas riquezas, deixaram de se entender, os que optaram pela mata, guerreando seus ex-companheiros de causa, chegaram à aldeia fardados, armados, e diziam-se "chateados com o nguernu e o enduartu". Organizaram, já aurora, uma fogueira com batuque e kisaka (chocalho). Beberam do que encontraram e uns até entraram em xingilamento (transe). Chamaram o povo para falar sobre o que lhes acorria e pedir comida que, no fundo, era o que mais pretendiam. O resto era pretexto.
No final do discurso do chefe deles, um homem alto e fininho como lombriga, alguém quis mandar o povo aplaudir. Lá na parte traseira em que se encontrava, ordenou autoritário e em bom som:
- Mbate simão!
Alguém, dentre os populares era Simão. Todos o conheciam pelas ideias que defendia, pois era o comité da aldeia. Quando não viessem os de verde-oliva, eram os de farda malhada que governavam, os da equipa do Simão. Destarte, foi vítima.
Afinal era para bater as mãos!


 Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta a 14/09/2017

segunda-feira, novembro 27, 2017

COLECCIONANDO PIRILAMPOS

Pe.Dias, S. Canhanga e J. Sipitali
Depois de actividade académico-cultural, em Benguela, regresso a casa (Luanda) alegre, satisfeito, mas ainda com palavras de gratidão na bagagem.
Quis o professor Sipitali do Seminário Propedêutico de Benguela que "Fatosséngola" de Gociante Patissa fosse o livro objecto de estudo na cadeira de Literatura Africana. A boa pena do amigo Patissa fez com que o seu livro estivesse esgotado na loja verde da rede "Desejo", tendo se optado pelo "Coleccionador de pirilampos" que dispunha de "um bom número" de dez exemplares na loja e que serviram os 15O alunos do referido curso.Grato, Patissa, por "me teres, involuntariamente cedido o lugar". Quem te manda ser bom?!
Acto contínuo, o professor Job Sipitali Sipitali, que também tem uma "pena poética" muito afinada, propôs aos estudantes e ao reitor do seminário, o padre Dias, uma conversa presencial entre o autor (eu) e os estudantes, o que veio a realizar-se na tarde de 25.11.17.
 

Haverá como não exprimir palavras de gratidão ao reitor, ao professor e aos diligentes estudantes? Ndapandula calwa!

Outra nota vai para a casa cheia. Epá, 150 é muito. Foi a maior audiência que tive em palestras sobre literatura e afins. E como se estes fossem poucos, ainda recebemos jovens, homens e mulheres, que foram ver e ouvir-nos.

Durante a conversa, intercalada com música e recital de poesia, foram quinze as intervenções/interrogações, todas bem colocadas, sobre o conteúdo, sentido e o alcance da obra.

Entre ficção pura, verdades que serviram de ponto de partida e elementos pedagógicos e reflexivos, fomos explicando sobre a mensagem socio-atropológica e histórica que o livro encerra.
Bem haja e obrigado a todos quantos permitiram materializar tal conversa. Nada anima mais o autor do que obter o feed-back de seus leitores, uma alegria que se agiganta quando se tratem de leitores estudantes de literatura, como foi o caso.
Ndapandula.