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quarta-feira, janeiro 15, 2020

MANGODINHO PRA CÁ - MANGODINHO PRA LÁ

Já se tinha notado a sua altivez de fingimento na cerimónia civil do casamento da prima. Mangodinho era único. Fato cinza axadrezado e camisa também axadrezada de gola excessivamente larga. Na cabeça, nem um fiozito de cabelo e a barriga mostrava querer fugir-lhe da camisa. Mangodinho, no assento traseiro, repetia os ditames do conservador.
- Quem casa quer cá?
- Casa. - Completava.
Na capela da ngelú, já tarde feita, Mangodinho, enfrascado, poros abertos, em clima de exigir casacos com sobretudo, meteu-se num dos bancos do meio, a exalar o que lhe estava no estomago, a correr pelo sangue e entrar-lhe ao cérebro.
- Ess'homem caloria assim, tipo lhe atiraram balde de água?- Ouviu-se entre os presente, sem ele fazer caso.

Ora seguia trôpego as melodias do cancioneiro católico, arrastando e pronunciado alto palavras inexistentes, ora seguia a homilia com assobios. Nele, estavam mirados todos os olhos e cochichos.
À hora da comunhão, Mangodinho foi também, sendo o penúltimo na fila. Aprumados, crentes, descrentes e ele, animista, ensaiavam gestos para receber a hóstia. Uns com a mão esquerda sobreposta a direita (para receber em mão). Outros com as duas mãos  sobre o peito (para receber pela boca). Ele, Mangodinho, um antigo militar emprestado às forças para-militares, nem postura, nem palavras responsivas sabia.
- Corpo de Cristo! - Evocou o padre, aguardando pela resposta correspondente.
- Ordem, sua excelência! - Retribuiu Mangodinho convicto de ter dado a melhor resposta.
O padre, alto, franziu o rosto e olhou à multidão, a ver se lia neles alguma sugestão. Nada!
Baixou os olhos a Mangodinho, a quem endereçou o sinal de que não  receberia a hóstia.
Todo o resto, até no repasto que fechou o casamento da Adi Carlos Victorino, foi só "Mangodinho pra cá e Mangodinho prá lá".

quarta-feira, janeiro 08, 2020

BALANÇO? SÓ NO FIM!

Em todos os tempos é preciso ter um projecto e uma causa.
A causa é a mesma: continua.
O Projecto (Kam&mesa) também continua.
Balanço só em 2022 e 2027, respectivamente!

quinta-feira, janeiro 02, 2020

AO TRABALHO: DEPOIS DO BOM-ANO

- Bom dia kota Mangodinho. Entraste como?

- Xê miúdo. Cuidado com as palavras. Entrar aonde?
- Entrar mesmo, kota... - Miúdo Russo ficou engasgado, pois, em vez da resposta costumeira "entrei bem", seguida de um apertado kandandu, Mangodinho respondeu com disparo.
- Hei, cuidado. Os mais velhos , as vezes inauguram o ano entrando e saindo, podendo resultar em aumento populacional, em Outubro. Por isso quando pergunta tem de perguntar bem. Entrar no novo ano ou entrar aonde?
- Pronto já, kota Mangodinho. Aprendi mais uma coisa. Já agora, como foi a transição do Mangodinho para 2020?
- Ah, assim é que se pergunta, miúdo Chico. Transitei bem. Bem acordado para que ninguém me contasse. Não chupei e comi à hora. Felizmente, a vida agora está nos carris. Os fazedores de barulho, pensando que exibir posse de aparelhagem chinesa é barulhar, estão a deixar o mau hábito. As ruas estão limpas. parece que as pessoas deixaram de comprar caixas e latas, ou a deixarem já as caixas e as latas nas lojas. A Elisal está como menos trabalho. Os bebedores sem escrúpulos também diminuíram lá um coxito. ou estão a beber e esconder os carros ou estão a conduzir sem beber. Afinal, o país tem carris. Possas, pá!
- E, assim, o Mangodinho vai trabalhar?
- Eu não vou ao trabalho. Já estou a trabalhar. Passar casa em casa, saudar, orar, perguntar se há saúde, aconselhar se deixaram um pouco de dinheiro para matricular as crianças na escola e comprar a roupa do dia de estreia, ver se dinheiro dos comprimidos não foi metido na cápsula de kapuka, tudo isso é trabalho. E você, miúdo Chico, está com essa cara de kimbonzado porquê? Conselho na tua cabeça não se fixa? Fidacaxa, pa!
- Não, Mangodinho. É só mesmo cara de sono. Desde ano passado que se cortei mô inimigo com katula mbinza. Já não estamos a se entender e lhe falei: você na minha goela já não passa. Assim, mesmo, Mangodinho, confiança com álcool é só mesmo já na ferida.
- Ainda bem, miúdo Russo. Árvore cresce com as os ramos e as folhas. Pessoa cresce com juízo. Se teu patrão te dispensou hoje, ajuda o tio a visitar as casas. Eu dou conselho nos mais velhos e você dá nos jovens iguais.

domingo, dezembro 29, 2019

VOLTA-E-MEIA: TÍTULOS NA GAVETA, APENAS MUSSUNDA!

Parte dos Mussund'Amigos
A conversa, uma de muitas que eles mantêm quando se encontram, começou assim:

- Ó Ceita, aceitas ser o padrinho do KR?
Havia quase fila para abraçar a Celi que é madrinha do KR. O afilhado,  nos seus quase dois metros e corpo de imbondeiro bem enxuto, estava colado a ela e de olhos nos que se aproximavam dela.
- Não. Só vim mesmo cumprimentar e nada mais. - Respondeu  o Ceita, depois de receber um olhar fixo e determinante do KR.
Possas, na vida, afinal, há dessas coisas. A Celi é uma moça, já senhora na casa dos 40 anitos, que conserva uma "boniteza" que não quer ir embora, acrescida de naturais e bem prendados glúteos. "Monumental, parece obra de arte"! - Ouvia-se aos murmúrios.
- Mas ó Ceita, - continuou o PCA Star - só querias mesmo cumprimentar a Celi, nem abraçar nem nada?
- Porra! Com aquelas toneladas de fibra do KR a proteger a Celi, querias mais o quê? Sabes lá se têm contrato de não aproximação?
O Ceita estava já a "dar costas" ao casal de colegas, quando o PCA Star foi ter com ele.
- Epá, isso vai sair na crónica!
- Possas, queres que saia? Então que saia, pá. Tu vês, nê? É que quando a madrinha é boa, todos querem dar um abraço. Às vezes, na rua, vemos mulheres de silhueta incomum e da boca nem brota o simples atrevimento de uma saudação.

Mas aqui a colega é nossa. El'ê nossa kamba, nossa Mussund'amiga de todos nós e de todos os tempos. Só mesmo aquela corpulência de pugilista do KR é que aos tímidos desencoraja o abraço.
Os Mussunda, como eles se tratam, já levam, para todos os efeitos, mais 26 anos. São ex-colegas do Curso Médio de Jornalismo ministrado no IMEL e que mantêm os vínculos de amizade que chega à irmandade.
Não se constituindo em uma organização formal, com registo cartorial, são tão organizados e unidos que
PCA Star e Amilcar
metem inveja a muitas ONG e similares.  Quando decidem reencontrar-se, não medem distâncias nem circunstâncias e transformam o local do encontro numa grande maratona festiva com manjares, muitos falares e frascos moderados. Foi assim, mais uma vez, no último sábado de 2019.
Capitaneados pelo Star (o gajo tem a mania de ser PCA) e Jack Nicholson, o administrador "ejonera" que põe ordem no grupo, os Mussunda aproveitaram juntar à fome a vontade de comer.
Um seu correligionário (JPCL ou Kamba João) acabara de ser nomeado ao posto de Secretário de Estado.
Às lembranças de tempos vividos no IMEL juntou-se o Sílvio Costa, professor de Língua Portuguesa, na nona classe daquele tempo.
- Como é prof°, ainda se lembra da sua primeira aula? - Indagou o Kamba Jõao.
- Eu não. Só me lembro que fui bem acolhido como professor e hoje como vosso amigo. Isso sim. Fizemos família! - Respondeu o irmão de Don Kikas (músico) e ex-seminarista.
Kamba João, o historiador do grupo, fez gala à sua memória e descreveu o primeiro exercício dado pelo professor Sílvio na sua primeira aula, em Janeiro de 1994.
...
Profº Sílvio


Todos recuaram, 25, 26, 27 e 28 anos para os "mais antigos combatentes". Mas a procissão ainda não chegara ao adro. O assunto do dia, já comentado durante semanas, era a declaração no Armandinho à Lalê.
- Sabes, Lalê, quando não te vejo, o meu coração troveja à mesma velocidade que meus olhos chovem lágrimas fecundas. - Atirou ele, seguido por aplausos. Era tudo na galhofa.
E a Lalê, que fez olhos de boneca perdida, fingiu que se entregava desalmada ao seu cumprido e corpo de pouca força, quando, na verdade, era ao "segurança da madrinha" que empreendera atenção nos tempos de "amor platônico".
- Posso declarar?
- Pode! - Responderam todos.
- Posso escolher? - Voltou a gritar a Lalê (eram tantas vozes e tantas conversas periféricas que só os gritos permitiam se impor).
- Escolhe. - Voltaram a vozeirar os que estavam atentos ao assunto.
Olho no Armandinho e mente no KR, Lalê anunciou a segunda opção.
Ouviram-se palmas e gritos.
O último evento, último mesmo, foi a reedição do trabalho final, também despedida de jovens e adolescentes, hoje formados e prendados, recitando, sob a batuta de Maninho e Kimbito, o poema Renúncia Impossível de Agostinho Neto.
Caíram lágrimas de emoção, bateram-se rajadas de palmas e, em uníssono, estalaram o último "tchim-tchim".
Como os Mussunda, já os galos estavam roucos de tanto cantar!

quinta-feira, dezembro 19, 2019

A MIRA DO KAWISU

Sobrinho Victor, apenas quarenta e três anos no corpo alto e esguio. Na boca muitas estigas e anedotas de fazer todos rir. Disseram que até na igreja e no trabalho era assim. Homem que recebesse uma tampa de uma dengosa menina a abanar o xarope acabava esquecendo a desfeita. Mulher sengada se esquecia de ter voltado à casa da mãe e a viver no "quarto do quintal" cantado por uma artista de Luanda. Victor bazou. Deixou-nos assim, sem poder mais fazer rir até lacrimejar com as fortes e picantes cenas que só ele e Zunga Laka, o Poupa-a-Língua, sabiam apimentar.
Ainda continuamos a chorá-lo, ja sem lagrimas que ele ajudou a verter com as estigas e piadas do seu passado vivo.
- Ó meu sobrinho, Zunga Laka, ainda bem que te encontrei. Sabes que lá no Kuteka tu és herdeiro do trono real, nê? Prepara-te. Nesses tempos de enfrentar o comissário e dizer-lhe, olho-no-olho, ó chefe, as coisas que você anda a pensar não se coadunam com as nossas necessidades, é pessoa como o sobrinho que tem de tomar o poder. Saimos todos da mesma beixiga, Kitinu, teu avô, e Gabriel, meu pai e substituto do teu avô. O Kuteka é teu e todos somos teu povo. - Atirou Zé Gabriel, o principe.
Homem sério nas palavras. Coitado, Zé Gabriel não bebe nem fuma.
- Mas ó sobrinho, kenhêsse que está sentado aí sem abrir a boca, cabelo preto tipo carvão, mas com idade de mwaryakime?
- É o tio Zé Kinhemdu, irmão mais velho da mãe do finado Victor, tio. - Respondeu-lhe Zunga Laka.
-Xê?! O Zé Bangão que engraxava os sapatos de cinco a cinco metros? Coitado, ficou velho e até a banga bazou! Quantos filhos conseguiu produzir? Olha, eu te dei muitos primos e primas. Vais lhes conhecer...
- Tio Zé Gabriel, o filho dele é aquele que está ali. O Kawisu é único, desde que ele saiu do mato. Nunca mais arranjou mulher ou alguma mukherbo tenha arranjado. Kawisu! Vem para te apresentar o tio Zé Gabriel, filho do avô Kañane de kuteka.
Lavado por muitas canecas e saquetas, o Kawisu estava em estado de quase overdose. Era um barril de pólvora caso uma fonte incadescente dele se abeirasse.
- Poupa Língua, te ouvi a falar do papá. Como é que vocês dão confiança a um tropa que deita fora a arma em pleno combate? - Atirou Kawisu, em jeito de provocação ao progenitor.
Ao que se diz, o incorformismo de ele ser filho único e ter de lutar sozinho em todas as frentes perante um pai que se ausentou da aldeia quando apenas tinha poucos dias de vida faz dele uma fábrica de lamentações.
- Kawisu repete. É o quê mesmo que o meu primo fez? - Indagou Zé Gabriel, de olhos postos no seu primo Zé António que se contorcia para ajeitar os atacadores dos sapatos já gastos e envelhecidos.
- Yá, tio. Papá uta wembilaxi (o papá desfez-se da arma).
- Mas qual arma ou rapaz? - Atirou Zé Gabriel curioso e brincalhão.
- Ó tio, você tem quantos filhos? Eu, pelo menos, já fiz catorze. Sete são meus, outros sete fiz na conta dele. Mas também só me ficaram quatro. O feitiço na banda é demais! E teu primo não me deixou eu sozinho? Assim fez o quê? Não é arma que deixou perder na guerra?
As conversas, sempre a mudar de temas e de rumos continuaram noite adentro. Ora recordando recortes de pesca no caudaloso Longa, ora sobre a caça por armadilhas, flexas e tiro. Foi nessa última modalidade em que Kawisu desvendou a sua pérola.
- Ó primo Poupa Língua, eu, na mira, ninguém torra farinha comigo. O macaco pode estar escondido numa árvore no Rocha Pinto, se largae a cauda e eu vir, tiro certeiro.
- Comué que você abate macaco da Frescangol ao Rocha? É com missil? - Perguntou Kalitozu.
Kawisu é assim. Em tudo quanto narra há uma dose de hipérbole. E continuou a elevar o tom de voz, os frascos e saquetas até cair e virar mero objecto de tropeço para outros alcoolizados. Cada um dos parentes ainda chora o Victor como pode. Aconteceu há dois dias.

Texto publicado pelo Jornal de Angola de 22.12.19

domingo, dezembro 15, 2019

MANGODINHO NO KALIFADO

O passo lento de quem demonstra cansaço e sonos adiados contrasta com as ideias que lhe correm como rajadas de tornados que derrubam árvores, barcos e agitam mares. O aeroporto do  kalifado ficava a meia hora.

 - Viagem longa e distante faz-se madrugando pelo caminho. Diz sempre que viaja. Por isso cumpriu.

Mangodinho, sacola às costas, mala grande à direita e a menos pesada à esquerda. Na cabeça, um mar de pensamentos.

- Aquela dama, toda totosa deve ser moçambicana! Disse ao amigo com quem caminhava.

- Aié? Então ataca. Quem sabe tenha o mesmo destino que nós e nos faça serventia? - Afiançou Niva, ao que Mangodinho atendeu.

- Boa dia senhora dona oriunda dos mares indico-africanos de Mosa Al Bike. - Atirou como pescador lazerento que joga despreocupado o anzol ao rio, esperando que alguma viv'alma, não interessando o nome, lhe morda a isca. Desconfiada ou não, da senhora, Mangodinho apenas obteve silêncio.

Feito o check in, Mangodinho, ainda com os olhos na kindoza que não se desfizera do seu horizonte visual, voltou a magicar outras ideias, recitando uma música dos anos 80 do seu século:
-Ai se te pego Maria!..

- Oh Mangodinho, veja bem. A "tua" moçambicana deve francófona. Quem sabe, em francês ela te responda? - Incitou novamente Niva.

E foi a passar por ela, "negra, recortada como cadeias montanhosas que se espraiam à beira-mar", aos olhos torpes do galanteador-mor, que se ouviu a segunda recitação:
- Bonjour madame!

Mangodinho e seu anzol, desta vez ainda mais carregado de humor e vontade de pescar, voltaram a levantar silêncio.

Desanimado e como se a ausência de respostas lhe tivesse aumentado a fadiga, Mangodinho meteu os glúteos secos no assento, procurando assentar as ideias e partir para outra investida linguística.

Niva, seu colega de trabalho e de viagem, procurou descontraí-lo e incitá-lo à mais  uma derradeira tentativa para a prossecução do intento paquerístico.

- Avança, Mangodinho, avança. Você é poliglota, se Português e Francês não serviram, fala inglês!

Mangodinho, em toda a sua história, não é homem de fracos fracassos. Abeirou-se do local onde a senhora acomodava as últimas imbambas compradas com as moedas devolvidas pelo taxista. Tentou soltar umas palavras mas se conteve. Ele, normalmente, pensa em Português ou Kimbundu e depois traduz para a língua de reserva.

- You are... - Tentou mas engasgou-se, ficando-se por aí.
- Que foi, Mangodinho? Provocou Niva, meio a gozar.
- Tu sabes, Niva. Tu sabes. Por que insistes?
- Sei o quê, Mangodinho?!
- O Meu inglês. Já alguém  me disse que ele afugenta convidados!


Publicado pelo Jornal de Angola de 27 Setembro 2019 

domingo, dezembro 08, 2019

NGANZA SEM FIM

- Porra, pá! Boas-vindas desse gajos é assim, bwe de cheiro de tabaco no 4 de Fevereiro deles? Não imagino se fossem malanjinos, pá!
- O quê? "Malanjinos" já não fumam capim. É só sementes e bwe de balázios. Aquilo parece fogo de artifício...
A conversa, assim mesmo iniciada, rolava entre dois colegas e amigos que adentraram Viena....
A cidade, limpa e linda, tem esse senão de seus moradores. Uso ostensivo do tabaco.
E procuramos saber por que sendo eles acérrimos defensores da saúde e da vida, com inscrições das mais inibidoras sobre os maços e volumes de cigarros, se esquecem que "smoking is very dangeroux".
- Aqui os invernos sao muito frios e o cigarro aceso dá uma sensação térmica apreciável e irresistível. Pode haver outros motivos mais atropologicos e ou historicos mas esse é o que me está mais à mão. - Explicou um vienense.
- Mas estamos no verão... - Rotorqui.
- Sim verão quente. Tens razão. - Prosseguiu. - Mas temos de combinar dois factores que fazem com que o cigarro aceso esteja a andar em paralelo, hoje, com o telemóvel. Hábito e vício. O fumo, o cheiro e o ter cigarro aceso na boca ou na ponta dos dedos tornaram-se inseparáveis para alguns. É isso que faz a saída/entrada do aeroporto vienense um "incinerador de tabaco".
Phande e Man Gaspa olharam-se nos olhos e rápido viajaram de volta a Malanji.
- Porra, já imagisnaste isso em Malanji, Man Gaspa?
- Xtou a pensar. Seria nganza de todos os dias, sem fim!

domingo, dezembro 01, 2019

A FOTO CODIFICADA

Quem viveu ou vive numa comunidade rural, entre Lubolu e Kibala, já terá ouvido a associação da fotografia e da carta aos actos de "phanda", ou seja, de infidelidade conjugal.
No tempo em que vivi na comunidade rural, diga-se, não havia telefones. Isso é verdade.
Tambem, nas aldeias rurais, dada a coesão social e extensão familiar, os passos e os contactos presenciais são muito "vigiados", ou seja, a noção de segredo quase inexiste. Os caminhos são poucos e os mesmos. Os lugares (para cuidar da higiene, acarretar água, cultivo, pesca, etc.) são comuns, fazendo com que um cidadão contemporâneo e urbano se sinta "vigiado" pela comunidade. Tal, evita contactos mais ousados entre pessoas de sexo oposto que não sejam cônjuges ou que (pelo menos a mulher) não esteja à disposição de poder ser galanteada.
Apesar desse "big brother" involuntário e imposto pela própria organização social, casos de "jiphanda" ocorrem na versão consumada ou tentada por via de um "intermediário comunicativo". Surge aqui a eufemística "foto e a carta".
- A fulana lhe apanharam (foi encontrada) com foto do fulano e, por isso, o marido (ou ex-marido de quem a separação ainda não transitou em julgamento e dada a união como dissolvida) pediu reunião com o soba para cobrar "phanda".
- O sicrano mandou carta na (à) fulana que foi interceptada e o marido está a pedir "phanda" (multa).
"Foto e Carta" numa comunidade fechada... Sem que o indivíduo tenha ainda o discernimento necessário para as correctas leituras, se pode inferir tratarem-se de objectos/veículos de comunicação. Apenas isso. Assim ainda estarão alguns a pensar, pois assim também pensava eu na infância, sempre que me chegassem ao ouvido relatos dessa natureza.
Mas que utilidade teria uma foto alheia (de homem alheio), numa comunidade em que as pessoas se vêem todos os dias sempre que queiram e onde muitos nem bilhete de identidade têm?
Que utilidade e que mensagem teria uma "carta" remetida por um analfabeto a uma analfabeta, sendo eles moradores de uma aldeia onde o canal de comunicação mais eficaz é o oral?
Carta ou foto é forma metafórica ou eufemística de designar um acto que constringe a comunidade e que, se menos percebido pelos neófitos, melhor será para a preservação dos bons costumes.
A foto ou a carta não são mais do que o adultério na sua forma materializada e comprovada! Note-se que até a expressão menos eufemística para designar adultério no Kimbundu do Kwanza-Sul é "usuñina", literalmente seroar ou permanecer em serão (acordado, conversando até altas horas).
Em casos de adultério, acto repudiado pela comunidade, regra geral, é punido o homem envolvido com uma multa ao ofendido, retornando a mulher ao cônjuge. Tratando-se de uma relação em que a mulher não tenha ainda devolvido (simbólica ou totalmente o alembamento à família do marido de quem se separou ou finado) a multa é paga ao marido ou sua família, tornando-se ela livre para amancebar-se com o autor da "delícia" da qual foi flagrada ou acusada, podendo ainda adquirir apenas a condição de "mulher livre/legalmente separada" e puder partir para outra gida conjugal.
As multas variam de aldeia em aldeia e de família em família, podendo envolver pecúnia, animais vivos, alimentos, bebidas alcoólicas e, algumas vezes, algumas palmatória ao ofensor. O ofendido ou sua família (se distante ou finado), o soba e a comunidade beneficiam-se, em porções distintas, dos bens pagos pelo "beneficiário da flagrante delícia".

Publicado no Jornal de Angola de 03.11.2019

quinta-feira, novembro 28, 2019

AMERICANOS E HAVAIANOS DE ANGOLA


Tente pronunciar as palavras Kalulu e Honolulu. Algo lhe soa parecido? Então acompanhe a crónica. 
Quando Mangodinho e Kizwa se conheceram, nada indicava que viessem a ser amigos e quase kisoko (quissoco). Cruzaram numa repartição pública e o desabafo, em kimbundu, de um despertou a atenção do outro, começando, ambos, a desabafar e reclamar, naquela língua, o serviço precário e a desatenção com que eram brindados pelos servidores públicos.
- Eye, ukwa Catete we? -  Perguntou Kizwa.
- Kaná kamba dyami. Angivalela ku Lubolu. - Respondeu Mangodinho, levando Kizua a buscar outro esclarecimento, já na língua que faz a nação. 
- Mas, ouve. Vocês não falam ngoya? Como é que tens um kimbundu tão refinado quanto o de um americano? - Indagou Kizwa (Dias no BI).
- Bem, fazendo as "contas", eu, nato libolense, sempre falei Kimbundu. Isso de ngoya são invencionices desses tempos em que a boca de quem tem microfone na mão vira lei e ciência. No meu tempo, você perguntava no vovó que língua se fala, ele respondia mesmo é Kimbundu, assim mesmo conforme estamos a dialogar. Mas o mano colocou outra questão...
- Questão qual, camarada Mangodinho?
- Aquela de americano. Será que quis comparar o catetense ao americano dos Estados Unidos da América?
- Ah! Sim. Você sabe que para nós, tudo que existe na América aqui também tem equivalente? Veja ainda:
Quando nomearam Gorge Washington presidente americano, aqui os papás daquela era disseram "é nosso filho". Traduziram para Jorge waxingi Tonho.
Quando mataram Bin Laden, os mais velhos também disseram "coitado também era nosso filho Abílio Adá".
O Adan Smith também é nosso. É Adá Ximá. É por isso que os catetenses se acham americanos. E tu, que dizes ser igualmente  americano, qual é a relação? Conta ainda camarada Mangodinho. 
Entre conversa de fazer o tempo voar e busca efectiva de parentesco etno-linguístico entre os Ctts e Lubolu, Mangodinho proseou assim:
- Nós do Libolo, somos americanos do Pacífico. Vês que não gostamos de jivunda, nê? Somos pacificos, ou melhor, do Pacifico, assim como os havaianos. O Barack Obama que nasceu em Honolulu, Havaí, é nosso. Retém ainda o som de Honolulu e Kalulu. É ou não parecido? É por isso que Catete e Libolo são como Nova Yorque e Havaí. É mesma nação. Quer seja Abílio Adá, Adá Ximá, Gorge Waxingi Tonho ou Mbalá Wabama (Barack Obama) são todos nossos, da nação Kimbundu!
O povo que estava na administração e que prestara atenção à troca de argumentos brindou-lhes como uma ensurdecedora rajada de palmas.
Kizwa e Mangodinho abraçaram-se demoradamente e selaram um pacto de kimbundearem sempre que se encontrem.
Afinal Catete e Libolo são apenas dois Estados da Nação Kimbundu. Proclamaram.

sexta-feira, novembro 22, 2019

CONTRA A FEROCIDADE CAPITALISTA UM ÓPIO


No "capitalismo liberal", segundo politólogos, impera a soberania do mercado e do eleitor.
Por outras palavras, há liberdade e sem intervenção política na economia que é "governada pela lei do mercado de bens e serviços. Quem escolhe os políticos é o cidadão eleitor. 

Quando o político não intervém, prosseguem os pensadores políticos modernos, é um "laissez fair" que "obriga" o político a pensar no legado para a próxima geração em vez de pensar na próxima reeleição. 

O sistema capitalista, mesmo que liberal, tem, porém, seus males. Os ricos (detentores do capital), com a exploração dos pobres (força de trabalho), tornam-se mais ricos e os outros (explorados) mais pobres. Isso leva as pessoas a olharem simplesmente para si e não para os outros.

A aposta em programas sociais ou de nivelamento social é fraca ou inexistente, resultando em muitos indigentes. É o que constato nas ruas de São Paulo.

Entretanto, perante situações dessa natureza, é preciso encontrar mecanismos para entreter ou distrair aqueles que, sem oportunidade de mudar o quadro, se entregam ao proxenetismo, ociosidade por falta de ocupação, mendicidade e outros males. Surgem os "ópios" sociais.

A Avenida Paulista, que abre aos domingos, das 10h00 às 18 horas, é um desses meios para distração/lazer/turismo. Aos que sobrevivem, é um ópio. Aos que vivem, proporciona lazer. Aos visitantes de outros Estados, é espaço para lazer, sendo toda ela, nos seus perto de 3 quilômetros de extensão, uma festa no horário acima apontado.

E o pobre, que já é pobre, queima as únicas moedas que serviriam para a poupança, o pão ou mesmo o transporte para nova e penosa jornada da segunda-feira imediata.

É o ópio que faz olvidar a própria existência humana!

sexta-feira, novembro 15, 2019

VULAMISA DE 5 ANOS

O frio de kasimbu (cacimbo) e o vento oeste-leste a quebrar o capim denso da savana e a recolher as folhas secas dos arbustos faziam, naquela manha de sol envergonhado, as pessoas se "amontoarem em grupinhos para se emprestarem calor. Alguns homens, sobretudo os fumadores, encontravam no cigarro autênticos elevadores térmicos. As mulheres sem samarras ou casacos elevavam acima das vestimentas os panos que, normalmente, usam como reserva facilitadora para manobras de satisfação de necessidades fisiológicas em terrenos sem os necessários lavabos.
Nas casas de "ciwnda", nos bairros da cidade e nas repartições publicas ou das poucas empresas privadas o ambiente friorento e de aproximação, quase que íntima, entre as pessoas, indistintamente do sexo, era o mesmo.
No aeroporto Deolinda Rodrigues, a conversa entre Lawa, Lamba e Walya, colegas de serviços distintos, era sobre pessoas que se instalavam na cidade fundada por Henrique Carvalho, sobre os emigrantes e sobre aqueles que, sendo "akwakwiza", findavam as suas missões de serviço àquela terra.
- Mwata Kamanga kaneza. - Disse Walya.
(O senhor Kamanga está a chegar)
- Sério? - Perguntou Lamba, quase admirada pelo que ouvira da amiga, pois o dito cujo era conhecido de ambas e se fazia ausente do seu convívio havia perto de cinco anos.
- Yá. Lhe vi mesmo com aquele chapéu dele que tem marca dele de fumar cachimbo.
- Mas veio, então pra voltar de novo e ficar ou veio só de visita?
A conversa entre Walya e Lamba ganhou o apimento de Lawa que entre elas fora a mais próxima do dito cujo com quem partilhava experiência profissional.
- Vocês sabiam que há vulamisa que actua de imediato, outro que faz um ano e ainda o que actua só depois de cinco? Há quanto tempo o mwata Kamanga deixou Sawlimbu? - Questionou Lamba às amigas.
- Quatro ou cinco anos. - Respondeu Lamba.
- Viram a kamala dele? Pessoa que viaja e que não tem mais casa aqui vem assim, só kamalita de mão? - Atirou novamente, provocadora, Walya.
- Também estou a achar um pouco estranho. Retorquiu Lamba Lyeza, acompanhada gestualmente por Walya.
- Pois é. Apontem só nos vossos corações. - Acresceu Lawa. - Assim mesmo que veio com essa kamalita é para ficar. Homem que lhe dão vulamisa de 5 anos, manda já comprar as coisas, e quando vem de volta ao sitio em que lhe amarraram o coração é tipo rapaz que sai de casa para ir jogar à bola. É só quedes nos pés e mais nada. Controlem agora em que casa vai entrar.
Lamba Lyeza e Walya Zoloka ficaram ainda a pensar no alcance da última tirada da amiga dos serviços de informação enquanto essa,
cultora de conversas cabeludas, montou a sua mota-rápida, fazendo-se à cidade para seguir a viatura que transportava o tão famoso mwata. Pelo trajecto, Lawa ia anunciando às outras amigas, via sms, a notícia do dia.
- Mwata Kamanga kaneza. Lhe deram vulamisa de cinco anos. Lhe controlem onde vai entrar!
Notas:
. Vulama ou vulamisa é a expressão atribuída, no nordeste angolano, a supostos remédios que, uma vez administrados por uma concubina a um forasteiro, fazem-no esquecer a procedência e família.
. Ciwnda=aldeia rural; akwakwiza=forasteiros; mwata=senhor; kamala/kamalita=diminutivo de mala.  
. Qualquer semelhança com facto ou nome real é, neste caso, mera coincidência.  

Publicado pelo Jornal de Angola de 16.06.19

sexta-feira, novembro 08, 2019

LIVRARIAS, MUSEUS E FRESCOS


Mui provavelmente, depois de Cairo, que possui um Museu do Papiro que dá ao visitante a experiência de vivenciar a confecção do papiro (papel), tendo como matéria-prima as herbáceas aquáticas com que na "banda" se confecciona o lwandu e a esteira, Viena deve acolher o segundo ou o mais rico Museu do Papiro. E lá não está depositada somente a história do material de suporte à escrita, como também antecedentes (peles, pedras, madeira) e peças de ar ...te representando Ramsés e outras coisas e loisas da História Egípcia que tive o privilégio de estudar com o Professor MSC Luís de Barros (ISCED/Luanda, 2000).
Depois do Museu do Papiro, por si um grande encanto, também conheci o Museu do Livro, situado no mesmo edifício. Isso mesmo. Museu do livro. E a história é contada em Séculos, da antiguidade clássica aos nossos tempos, com livros editados em cada um dos séculos.
Momentos antes, no mesmo dia, adentrei a Biblioteca da OPEP, que junta mais de 20 mil exemplares, entre literatura sobre bio-combustíveis energia e tecnologia à volta. A organização fundada em 1960 dá assim um grande contributo ao conhecimento, sua concentração e perpetuação, colocando o seu acervo à disposição de quem queira saber mais sobre o "mundo energético".

Quem nos dera que tivéssemos também os nossos museus e, sobretudo, erguer edifícios que por si sós contassem outras Histórias como é o caso dos frescos que se dão à mostra no Museu do Livro de Viena?
Museu do livro
Quem nos dera!


sexta-feira, novembro 01, 2019

KALUNGA DE CÁ E DE LÁ

Entre os ambundu do Kwanza-Sul, Kalunga é um antropónimo feminino que personifica morte, abismo, sem esperança de sobrevivência. Tal designação é atribuída á menina, recém-nascida, que sucede a outros nado mortos ou que tenham falecido prematuramente.
No sentido mais lato, Kalunga é abismo, morte, mar (vastidão), infinito.

No Brasil, Calunga (grafam com C) é o nome dado ao espírito ou divindade que se manifesta principalmente através da Umbanda. Estas entidades são popularmente conhecidas como “pretos-velhos”, e possuem um amplo conhecimento sobre diversos assuntos.
Lê-se no Wikipédia que "a principal característica de um calunga é a sua sabedoria". De acordo com a crença umbandista, lê-se ainda na página acima citada, essas entidades são harmoniosas e dotadas com uma grande vontade de esclarecer os problemas do quotidiano das pessoas.

Eventualmente tenha sido essa última caracterização que levou
Damian Garcia a fundar em 1972 a A Kalunga Comércio e Indústria Gráfica Ltda, rede brasileira de produtos de materiais de papelaria e artigos de informática contando com 204 lojas em 20 estados brasileiros.
No dizer dos seus colaboradores, "a Kalunga esclarece e resolve os problemas do quotidiano das pessoas...".

Certa vez, em visita a São Paulo, Estado Brasileiro, adentrei, em companhia de outro angolano e kimbundófono, uma loja kalunga onde encontrámos uma senhora que acabara de comprar um telefone.
- Sabe, a senhora o significado de Kalunga?, questionou Kizwa.
- Não, senhor. O senhô, pode explicá? deve ser nome bacana! exclamou ela curiosa.
- Kalunga é morte.
- Não senhô. Só pode estar do gozo comigo, retorquiu a senhora, fazendo cara de quem chupou limão.
- Sim. Nós em Angola, numa língua chamada kimbundu, Kalunga é morte… Espero que não esteja a levar Kalunga para casa, atirou jocoso, Kizwa que não a olhava nos olhos.
Contrariamente, eu estava atento aos dois e ao jovem atendedor que se manteve sem fala.
A senhora, apavorada com as palavras de Kizwa, quase abandonava a compra, pondo-se a correr. Faltava pouco para ver fantasmas ao seu redor e ver Kalunga na sua acepção Kimbundu.
Foi então que o moço da loja balbuciou umas palavras tentando parar o Kizwa e acalmar a cliente que, por pouco, pedia de volta a sua "grana", abandonando o aparelho de telefone que comprara para (ao que disse) "uma pessoa que guardava no peito".
- Kalunga é, em Kimbundu, língua angolana, morte. Mas tem outros significados como imensidão e nfinito (amor, bondade, sabedoria, etc.). Veja por exemplo a expressão "Kyadi kalunga=o amor/compaixão (dela) é infinito". É, portanto, importante traduzir kalunga em suas múltiplas dimensões e significados, Conclui, apaziguando uma e outros.

Continua a Wikipédia que: etimologicamente, este termo se originou a partir do quimbundo ka’lunga, que significa literalmente “mar”, mas também pode ser usado para transmitir a ideia de “imensidão” e “grandeza”. Os negros utilizavam este nome para se referir ao deus dos missionários católicos (Deus), pois consideravam-no vago como a imensidão do mar.
Através desta explicação, é comum associar as entidades calungas com os orixás ligados às águas do mar, como Iemanjá, por exemplo. No Brasil, alguns etimologistas ainda consideram a diferença de significados entre os termos kalunga e calunga, sendo o primeiro relativo às entidades espirituais e crenças religiosas, e o último referente ao que é pequeno e inferior, sendo também um termo bastante empregado durante a escravatura para se referir aos negros, visto que eram considerados “pessoas inferiores”.
Os calungas também são conhecidos como os descendentes de escravos fugitivos e libertos que formaram uma comunidade autossuficiente na região atualmente conhecida como o estado do Goiás, no centro do Brasil.

Publicado pelo Jornal de Angola de 15.11.19