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quinta-feira, agosto 15, 2019

O KASIMBU DA MINH'INFÂNCIA

Naquele tempo, Setembro era o mês do retorno à escola, depois de três meses de "licença". Por isso, Maio, mês do início do Kasimbu (cacimbo ou estação seca) que se estende até Agosto, era o mês das provas finais de conhecimento e exames. 

Chegado o mês das férias prolongadas, os que atingissem a idade da circuncisão (no Libolo, era normal dos cinco aos dez anos, podendo acontecer, excepcionalmente, antes ou depois desse intervalo) estariam a contar os dias (se cônscio disso) ou à espera de serem surpreendidos pela chegada do "mestre da faca afiada". Os mais crescidinhos, já talhados para a caça, começavam a preparar os instrumentos de caça (por queimada de capim), a alimentar os cães e a consertar as alparcatas. Nalgumas casas e famílias, kasimbu é período de conduto abundante, dado que os rapazes estão libertos da escola e empenhados em mostrar toda a sua mestria na fabricação e montagem de engenhos ardilosos para capturar tudo o que se mova e que os hábitos alimentícios admita à mesa: puku, ngwari, kandimba, hima, xiwe/kambwiji, ngwingi, hala, kezu, ngulungu, kyombo, moma e toda a sorte de viventes terrestres, aéreos e aquáticos.

Os que se tenham dado bem na escola, alguns eram presenteados com viagens a uma aldeia mais vistosa ou a uma capital qualquer: a sede comunal, a sede municipal, a capital provincial e, se os pais mais pudessem e quisessem, a capital do país. E quando voltassem à aldeia natal, era recorrente dos viajantes a expressão:

- Ewo, mu Luanda Uwabeee! (quão linda é Luanda!)

E contavam-se cenas de roer as unhas para quem nunca tinha deixado a aldeia nativa, umas verdadeiras e outras de enfeitar a línguas e os ouvidos da audiência. Faziam-se círculos, dias sim, dias sempre, para ouvir os aguçadores de curiosidades contarem estórias até que outras cenas ou motivos se sobrepusessem.

- Quão linda é a cidade!

Na estação seca, rios com menos água e menos alimentos para a vida aquática, mais faina nas nassas (muzwa) carregadas de dendém e outros restos que atraem os cardumes às armadilhas. Outras quantas vezes, rios barrados ou recortados pela escassez de pluviosidade, cestos preparados. Mulheres, crianças e adolescentes valentes. Os homens adultos têm a caça, numa comunidade com papéis socias bem distribuídos, como actividade distribuída. Cascas de árvores trituradas e ervas ou folhas entorpecentes como "twa" ou "kalembe". E o peixe em área delineada e circunscrita de um trecho de rio ou lagoa flutua ébrio para garfadas alegres, noite adentro e manhãs seguidas.

Com a realização das picadas à volta das fazendas e das lavras (para que fogo posto ou acidental não devore o fruto do trabalho árduo de todos os tempos) e depois das queimadas, iniciava-se a preparação do ano agrícola.
 Preparar o "kibembe" (terreno que esteve em sistema de pousio) para o milho, a batata-doce, o feijão e a jinguba. 

Ainda durante o kasimbu (cacimbo) os deltas dos rios e outras partes mais baixas (sem que haja rios) chamadas "kitaka ou naka" ganhavam o verde da rega. O cultivo de hortaliças acontece com maior intensidade no período de estiagem para os campos altos e rega nas zonas ribeirinhas. E o milho, a jinguba, a batata, o tomate, a cebola e alho, enfim... tudo volta, mesmo sem chuva!
 
Publicado no Jornal de Angola de 09.06.19

quinta-feira, agosto 08, 2019

A ORIANA DE ENTRECAMPOS

A Camponesa é uma "tasca de esquina" (Av. 5 de Outubro, 347, 1600-035, Lisboa), cuja sinalética aponta como sendo "Pastelaria, Cafetaria e Snack Bar". Localizada em Entre Campos, a casa está sempre apinhada, apesar de ter (diga-se) espaço de acolhimento interior minúsculo (para o número de frequentadores), mas sempre bem arrumado de forma a poderem nele caber mais pessoas sentadas.
À entrada, no largo passeio a olhar para a estação de comboios, um sombreiro acolhe os utentes que preenchem outras mesas com cadeiras. É, normalmente, aqui que se sentam os fumadores e aqueles que ficam por uma bica.
Mas quem faz "A Camponesa" encher o recinto e os bolsos?
Há uma jovem que trata todos os angolanos que adentram o espaço por tio. A jovem simpática que corre de um lado ao outro, conversando e atendendo com mestria, é Oriana e é angolana. Ela sabe quando intervir e quando deixar os clientes em paz. Conhece as dores e, às vezes, age como bálsamo.
Diz que "ganha pouco" mas a sua simpatia cativante, que faz o espaço encher, proporciona-lhe alguns cêntimos de euros que, ao longo do dia todo, podem pagar uma refeição.
Quando perguntada "se não se cansa e não tem tido dias tristes", Oriana apenas responde:
- Gosto do que faço e com o sorriso que vocês dizem que esboço encapuzo as minhas mágoas.
Essa jovem angolana, há mais de 15 anos em Lisboa, habituada a ter o cliente como a razão do seu trabalho e de seu sustento, bem podia ser modelo para muitos empregados em hotéis, restaurantes e similares em Angola, que fingem trabalhar ou que erradamente pensam que fazem favor ao utente/cliente. É uma pena que Lisboa "fica longe" e a Oriana uma apenas, embora se possam encontrar em Portugal outros bons profissionais do ramo da hotelaria, idos de Angola, dada a vocação turística do país.
Pessoas como a Oriana devem ser contratadas para formar (formal ou informalmente) angolanos que trabalhem no nosso país nesse segmento de negócio, de modo a conferir qualidade ao serviço que as nossas casas prestam. É que há muito a ciência empresarial comprovou que para ter uma boa clientela (grande e regular) não basta a qualidade inferida do produto. O serviço tem de ser de elevadíssima qualidade, sendo que esse desiderato é atingível apenas com pessoas que tenham vocação, formação, que gostem do que fazem e que estejam comprometidas com o trabalho.
A Oriana mostrou que um bom atendedor de cafés pode, ao fim da jornada, ganhar mais do que um Ministro ou Deputado à Assembleia do Povo!

Publicado no jornal Nova Gazeta de 25.04.19 e JA de 19.05.19
 

quinta-feira, agosto 01, 2019

UM BIENO NA EUROPA

Enquanto escrevo essa prova, estou a pensar num jovem do Bié ensinado e educado a cumprimentar tantos quantos encontre.
Wandalika está no aeroporto de Viena, à tarde um formigueiro, a cumprimentar tudo e todos quanto vê, até estátuas e manequins nas boutiques.
- Mboa tarde, mano!
- Mboa tarde, mana!
Não atentos e nem habituados a tal, todos quantos percorriam os terminais do aeroporto pareciam-lhe mal humorados e deseducados.
Wandalika não deixava, entretanto, de os saudar amistosamente, tão pouco de reclamar pelo silêncio que recebia em troca:
- Ainda aqui são assim mal 'indixipilinados' por cá-di-quiê? Pessoa 'combrimenda' com toda vontade e ninguém 'arresponde'? Kalye aniña, pa!

segunda-feira, julho 29, 2019

UMA TARDE À BOLA

O futebol é-me uma praia alheia. Tirei, porém, uma tarde para ver jogar os meninos do Barreirense contra seus coetâneos da academia do Sporting (11anos, escalão de formação). Zélio Mambo Sebastião, cujos pais visitei estaria em campo.
- Vou ver o sobrinho a jogar e preparar o coração para as suas participações no CAN e Mundial (caso os tugas não o "comprometam", pois nasceu no Barreiro). - Disse para mim mesmo, alinhando, depois, para a academia leonina.
E foi muito bom ver a forma tão íntima como os rapazes cuidam da bola. No final, Sporting 2-Barreirense 12.
Outro dado que me escapava é o facto de todas as equipas dos melhores clubes serem "autênticas selecções dos melhores de cada tempo e idade".
- Todos os anos é assim. As pequenas equipas são desfalcadas a favor das grandes. Vivemos a formar e a perder jogadores em todos os escalões. - Disse-me o pai de Caio, orgulhoso de seu filho, por ter marcado mais do que metade dos golos do Barreirense.
E os treinadores da "selecção do Sporting" não só tomavam notas sobre o desempenho dos seus meninos como também redobravam a atenção aos meninos da equipa convidada.
Apesar de benfiquista, foi bom estar em Alcochete, a 10.03.19.

segunda-feira, julho 22, 2019

CONTANDO A HISTÓRIA DA MANGUEIRA (IV)

Em 1987, Junho, regressei ao Libolo (tendo como destino inicial a aldeia de Perda Escrita, recém criada), procedente de Luanda.
Na mesma semana plantei um abacateiro no alambique (lavra do Limbe) e o "pai Raimundo" (Manuel Carlos da Silva) plantou a mangueira no terreiro de sua casa. Ainda ajudei a regá-la até que parti para Kalulu, onde permaneci até 1990, deslocando-me parcas vezes à Pedra Escrita em ocasiões de férias escolares. A mangue...ira, única árvore de longa vida que se vê na aldeia, ainda está aí, a reclamar companhia de outras frutícolas.
É debaixo dela que os meus familiares se reúnem. Afinal a velha Nzumba (Alcinda Cazenza, na foto) é a matriarca da família.
Na aldeia, para abordar assuntos comunitários, como sempre, beneficiei, mais uma vez, da sombra dessa árvore e perguntei-me (a mim mesmo): por que não se plantam mais árvores, tendo as crianças como padrinhos?
Se assim se fizer, a aldeia ganhará vida. Pois água não falta (apesar dos cabritos que ameaçam as plantas de pouca altura).

segunda-feira, julho 15, 2019

PORTUGUESES, ANGOLANOS, EUROPEUS E NEGROS

Homenagem aos calceteiros de Lisboa
Durante as minhas caminhadas matinais, e sempre a falar com os botões, fui desmontando e montando cenários.
Nem todos os negros são angolanos, havendo mais negros não angolanos do que deste pais.... Tal se explica por confluírem emigrantes de várias nacionalidades afro-lusófonas e não lusófonas, como acontece em todos os demais países europeus e do mundo.
Nem todos os negros são africanos, pois alguns, e já não são poucos, nasceram em Portugal e ou noutros países da Europa, Ásia e América.
Nem todos os brancos e ou mestiços são portugueses ou europeus, pois alguns deles, e são em número considerável, nasceram em países africanos, asiáticos ou americanos.
Há grande tendência para que nos próximos vinte anos a população negra e mestiça supere a branca, tendo em conta a elevada taxa de crescimento populacional entre esses dois grupos, em desfavor da cada vez mais envelhecida população branca.
Com isso, a "relação de força" e até política acabará por mudar, tendo em conta que o negro deixará de ser sinónimo de africano e decidirá, em maioria, sobre questões políticas (de nações) europeias.
A população branca pode passar à minoria e deixar de se alcandorar como o (único) "dono (do país) da Europa".
Pelas ruas e transportes públicos de Lisboa discute-se, de forma aberta ou em surdina, se qual é a cidadania que mais predomina naquele país, se PORTUGUESES, outros europeus, angolanos ou africanos (aqui a olhar para a pele mais enegrecida).

segunda-feira, julho 08, 2019

O SILÊNCIO E A PAZ DOS OUTROS

 Oitavo andar de um edifício hoteleiro, no pais que fica a sul da terra de Bismark. Pela enorme janela que acompanha a parede do quarto, dá para reparar o que se apresenta à frente, num ângulo de aproximadamente 90 graus, e dá também para ouvir o barulho inexistente, quando o relógio caminha apressado para as nove da manhã. É domingo.
Na banda, minha banda amada, pois não tenho outra, estaria o vizinho a afinar os altifalantes da sua igreja, com os seus "aleluia igreja, amém!".
Aqui, vi muitas kirtchen, sobretudo as Nova Apostólicas. Eles também oram muito e são fervorosos. Mas sabem que Deus, o altíssimo, ouve tudo "até os pensamentos dos nossos corações ", por isso, não gritam, não incomodam, nem montam "igrejas de dinheiro" em qualquer esquina. Cada coisa deve estar no lugar certo e sempre sob o olhar da autoridade competente.
Aqui, seria dificílimo aquele vizinho, que atravessou a fronteira norte de Angola, chegar, ocupar terreno e instalar, no meio do bairro civilizado, uma igreja construída apenas com simples folhas de chapas metálicas. De onde lhe sairia a coragem?
Os de cá, tal como amam o desporto, a exercitação física e o bem-estar entre os cidadãos, promovem o silêncio e respeitam o descanso alheio. Nada de kavwanzas como em Viana, Mabor ou Katambor. Viena é outra coisa! Preferem passear, andando ou pedalando. Os carros, poluidores por excelência, só mesmo quando necessário e vão dando lugar a outros movidos à energia eléctrica.
Entre nós, mwangolês, infelizmente, até se promovem concursos "do carro do mais barulhento do bairro, do cão que mais ladra, do galo que mais canta, do gato que mais mia, do filho que mais grita quando arreliado pelo pai e do batuque da igreja que mais incomoda o vizinho que queira dormir". E chamamos a isso e muito mais de "normal".
- Que se retirem os incomodados, nê?! Não é assim que nos respondem quando reclamamos?
Mas quem instituiu a convivência sadia, pensou e sabe porquê. Eles, os povos há muito civilizados, também tiveram uma vida parecida à selvageria. Tiveram de, durante muito tempo, reflectir e encontrar antídotos. Criaram campanhas de educação cívica a que se seguiram campanhas ou operações de repreensão e até repressão aos incumpridores do que ficou legislado e violadores do que ficou convencionado como "moral pública ".
E nós?
O tipo, come banana e joga as cascas na rodovia.
O carro de recolha de lixo, sem rede protectora por cima do amontoado sobre a carroça, espalha o quanto pôde pelo trajecto. A festa de aniversário do bebê conta com mais álcool do que sumos e é motivo para encerrar a rua que se torna local de festa. Ai do vizinho que pretenda sair com a viatura e "importunar" os convivas autoproclamados donos da rua.
- Tem inveja! Atestam.
Para mim, o nosso "Resgate" não devia ter tréguas para não engordar os vícios nem permitir que os inventores de más práticas produzam outros males sociais maiores do que já assistimos com o "quem de direito" ainda impávido.
Só opinei.

segunda-feira, julho 01, 2019

MALAMBANDO DISTANTE

 Em Viena, onde o frio e o silêncio se casam e cantam mais alto, Mangodinho é campeão dos solilóquios, a provocar inveja aos maus alunos de Sócrates, o filosofo helênico que amava a pergunta e auto-resposta como forma de "cavar" o conhecimento da cosmovisão.
- Então, Mangodinho, desde as onze e trinta que desceste do quarto, sempre nessa cadeira da recepção do hotel, não te vais embora?
- Desci apenas para evitar que me debitem mais uma diária no já parco orçamento que tenho disponível. A diária termina ao meio-dia, mas como esses gajos estão sempre com o olho no relógio e no dinheiro, preferi descer mais cedo.
- E por que não pões à guarda deles as tuas imbambas e vais sacudir um pouco as pernas, andando por aí?
- Xê, te mandaram ou quê? Aqui, a polícia é rigorosa nas multas. Andas só um pouco a toa, já te vêm em cima.
- Como assim, Mangodinho? Polícia põe ordem ou fica a atrapalhar a vida dos cidadãos?
- Ordem deles é, para nós, uma ditadura. Então veja só: doutra vez, quase me multaram por ter atravessado a passadeira, em sinal vermelho, mesmo sem vir carro em nenhum dos lados.
- O pólice estava por perto ou quê, Mangodinho? O que aconteceu para te identificarem?
- Aqui é já regra deles, se alguém notar alguma anormalidade qualquer, pensando na cultura e nos hábitos que eles meteram em suas cabeças, dizia, esse alguém pode ligar à polícia e essa, no palavra-passa-palavra, via rádio, chegar ao denunciado.
- Mas como é que te atuaram então? Foste acusado de quê, Mangodinho?
- Veja. É tempo de frio. O queixoso terá pensado: esse preto para atravessar assim, deve estar coado. Ligou à polícia. O carro mais próximo foi ao encontro e fez o resto. Só ouvi já: "DEUTCH OR ENGLISH"?
- Português. -  "Se" complicamos ainda um bocado. Depois começamos mesmo a soletrar na língua intermediária, o inglês, até darem conta que não estava coado, mas me encurralaram na travessia.
- Passport, please.
- Entreguei.
- Visa, please?
- Mostrei-o ao magala que tinha dado quatro voltas ao documento sem encontrar o visto.
- Where is your hotel?
- Near. Aqui próximo. Mostrei.
- What are you doing here?
- Looking for my dad who is dead a long time in Angola.
Essa parte já é que meteu os três gajos enfurecidos, ao ponto de me exibirem a caderneta das multas: thirty euros!
- Porra! Tudo isso?!

- Yá. Mais ou menos assim. Quando chegar à Ngimbi vou passar a dica aos nossos polícias para incluírem nos seus conselhos úteis ao cidadão a cultura da denúncia dos vândalos e outros actores da incivilidade. 

Texto publicado no Jornal de Angola de 14.04.19

sábado, junho 29, 2019

UM OLHAR AO EMPREGO TEMPORÁRIO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

A resolução do problema da falta de emprego, sobretudo para a juventude, é um Grande Desafio para o Presente Executivo, sendo uma questão que depende da combinação de múltiplas variáveis como a promoção do empreendedorismo, aposta na indústria extractiva e de transformação, nos serviços, etc. Para se atingir tal desiderato, acções concretas estão a ser tomadas, de modo a promover o investimento no país, propiciador de postos de trabalho.
A criação de postos de emprego, a meu ver, não deve ser pensada a olhar somente para a Função Pública, de si já muito pesada e lenta. Aliás, ela nem é atractiva do ponto de vista salarial.
No "antigo regime", foram tomadas algumas medidas "paliativa" que reclamam agora por uma solução definitiva e urgente e coerente. Alguns jovens (e nem todos com Conhecimentos Habilidades e Atitude), foram acomodados em algumas instituições públicas para, em tempo determinado por Lei, "realizar trabalho temporário e específico" (pelo menos assim devia ser), nalguns casos, ao arrepio da legislação aplicável, esses cidadãos permaneceram nas instituições mais do que o Decreto Presidencial 104/11 de 23 Maio (Art. 10º) permite.
Não havendo vagas e não podendo as instituições realizar concursos de ingresso, esses cidadãos têm, técnica e juridicamente, os seus contratos findos (são apenas 12 meses não renováveis). Aqui, surge o busílis da questão.
- Como manter em tais nos organismos públicos capital humano não contemplado no fundo salarial da função pública?
- Como manter funcionário sem contratos válidos e sem vínculo permanente com a Administração Pública?
- Que trabalho sazonal e específico é esse (para qual foram contratados) e que perdura, às vezes, mais de cinco anos?
Alguns líderes de instituições que se encontram na situação em narração que tomaram a decisão de dar fim a esses contratos (alguns feitos para mera acomodação de parentes, ressalvando-se alguns excelentes quadros e sem parentela nas instituições contratantes), são tomados como os "maus de uma fita" que há muito vinha riscada de imperfeição/ilegalidade.
A correcção de práticas e procedimentos errados exige coragem e determinação. A chantagem, com supostas cartas a Instâncias Superiores, atirando culpas ou acusando de insensibilidade a quem nada tem a ver com "maracutaias" e pretendendo somente REGULARIZAR o capital humano nas instituições que dirigem, é perpetuar um cancro que pode ser debelado e com menores prejuízos.
O emprego, sobretudo para os jovens, está dificílimo. Disto sei e confirmo. Porém, repito, a solução não passa pelo refúgio ou aglomeração na Função Pública. É preciso olhar para além da ponta do nariz.
É preciso pensar juntos e encontrar soluções definitivas e eficazes. Por mais que haja trabalho por fazer, sem que haja dinheiro, não se fazem contratos e, ao existirem contratos, têm de ser feitos em obediência à lei que contratados e contratantes devem dominar e respeitar.
Sou (ainda) um jovem. Felizmente empregado desde os 22 anos, tendo passagens pelo sector empresarial privado, aliás onde tenho feito o meu percurso profissional. É para lá que devemos mirar.
Ao Estado cabe promover boas políticas que fomentem a produção e o emprego. Não nos devemos envergonhar de trabalhar numa "usina" que obrigue os seus integrantes a usar fato-macaco ou uniforme. O fato e gravata, muito apreciados entre os jovens de hoje, podem esperar por nós quando atingirmos a maturidade técnica e profissional, mais adiante. Há exemplos bastantes de pessoas que começaram a partir caroços e que se tornaram em homens respeitados e gerindo Grandes organizações.
Pensemos também fora de caixa. Quem sabe, assim ajudemos os dirigentes que pretendem corrigir os erros do passado e fazermos de Angola um país onde impere a ordem e a lei?

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 29.11.18

quarta-feira, junho 26, 2019

CONTANDO ESTÓRIAS PARA AJUDAR A CRESCER (III)

 Quando menino, entre 1980-84, passei várias vezes pelo local onde surgiu o conglomerado habitacional de Pedra Escrita (1986_7). Era de imensa vegetação nativa (entre árvores, arbustos e capinzais) que foram desaparecendo aos poucos, fruto da acção humana.

As árvores nativas foram cortadas para "dar lenhas" ou campos agrícolas, sendo que outras não foram plantadas. Hoje, a aldeia e sua envolvente apresentam-se completamente desarborizadas, não abonando a uma vida sadia.
Sempre que nos deslocamos à região, os nossos reparos e sugestões têm sido para, pelo menos, serem plantadas árvores com utilidade alimentícia, cuja acção seria antecedida de campanhas de sensibilização da população (com ênfase nas crianças, adolescentes e jovens) sobre as vantagens (económicas, sanitárias, ambientais, paisagísticas e outras) da arborização.
 
Tal sentimento levou-nos a plantar uma árvore frutícola no acto que marcou aquilo que seria o "lançamento da primeira pedra" para a construção da "biblioteca comunitária" de Pedra Escrita (Libolo, Munenga, EN240).
A cajá-mangueira é uma planta tropical, oriunda do Brasil, e que, com certeza, se vai adpatar às "terras lubolenses".

 Uma das vantagens para se poder desenvolver projectos sustentáveis na aldeia em referência é a receptividade dos aldeões que aspiram pelo crescimento da sua comunidade.
São, por isso, convidados todos quantos possam fazer alguma coisa inovadora na aldeia de Pedra Escrita na região.

terça-feira, junho 25, 2019

CONTANDO ESTÓRIAS PARA AJUDAR A CRESCER (II)



Ainda em meados da primeira década deste século, estávamos, por via da página www.mesumajikuka.blogspot.com, a fazer advocacia para que a aldeia de Pedra Escrita (Libolo, Munenga, EN 240) pudesse ter uma escola e uma Posto Médico. Para o efeito, gritámos alto (escrevendo) e apelamos, inclusive, a ONG como a ACM (liderada pelo Ernesto Cassinda) sem que tivéssemos logrado. Veio a pré-campanha para as eleições e a aldeia (com perto de... mil habitantes) foi inscrita no PIP (Projectos de Investimento Público) municipal, com escola de três salas, um Posto Médico e um fontanário (água não tratada).
Os aldeões contam que "naquele ano, rir era só rir" quando comparada a aldeia a outras que não tinham ganho nenhuma obra.
"As obras começaram juntas, mas só a escola e o chafariz terminaram", conta um dos anciães da aldeia.
A escola foi projectada para três salas de aulas, um gabinete, uma arrecadação e dois lavabos. Porém, não sendo a aldeia autónoma em termos de professores e técnicos de saúde, "demandava uma casa para professores e outra para enfermeiros", tão logo terminassem as obras, conta ainda o interlocutor.
Inaugurada em 2012, deparámo-nos com a falta de material de leitura para os alunos. Procurámos angariar livros, tendo recebido por parte do General Rui Ramos resposta promissora, "desde que a escola tenha espaço para guardar os livros e colocação de mesas e cadeiras".
Vimos que nada disso havia e fomos alimentando a ideia de construirmos (nós mesmos) uma sala para acolher os livros e os leitores e depois pedirmos os livros para as crianças e os adultos letrados que se vão transformando em analfabetos funcionais.
Entre a ideia e o início da sua materialização transcorreu algum tempo, pois a acção envolve dinheiro e uma caminhada (que pode ser) a solo.
Em Maio deste ano (2019), fizemos o anúncio público (Jornal de Angola e Face Book) da decisão de erguer naquela comunidade a "biblioteca comunitária" e já começamos a juntar os blocos, a que seguem a areia e o cimento para o início efectivo da obra. Antes disso, falámos com a comunidade, que acolheu a ideia, e endereçámos ao administrador comunal da Munenga uma carta a formalizar contactos orais. O terreno indicado é o adjacente à escola, devendo a "biblioteca" posicionar-se entre o Posto Médico (inconcluso) e a escola.
O projecto arquitectônico está sob responsabilidade de Mohamed Canhanga (finalista de Arquitectura e dono da Arquitect'Art 97).

Nota-se que a "área nobre" em que foram projectados os equipamentos sociais como escola, Posto Médico, Jango comunitário (também já existente) e fontanário carece de vedação ou delimitação que evitasse a sua ocupação pelos aldeões e consequente subaproveitamento. A invasão (in)voluntária do espaço na "zona nobre" da aldeia levou-nos a encarar alguma dificuldade em "assentar" o projecto da biblioteca já que era intenção do projectista que a biblioteca não prejudique visual e esteticamente o Posto que, ao ser concluído, ficará na parte traseira.

A aldeia de Pedra Escrita (Libolo, Munenga, EN240) clama ainda pela conclusão do Posto Médico, casas para enfermeiros e professores que fizeram dos lavabos da escola seus dormitórios e precisa também de educação ambiental, pois verificámos uma gritante ausência de arborização na comunidade.

domingo, junho 23, 2019

CONTANDO ESTÓRIAS PARA AJUDAR A CRESCER (I)

O menino (na foto) estuda a segunda classe e não tem o que ler. Quando não vai à escola, frequenta a lavra ou brinca com os amigos usando o seu "hola-hola" (trotinete rudimentar) que também o ajuda a carregar mantimentos da lavra à aldeia de Pedra Escrita (Libolo). Como ele, estão dezenas de outros rapazes e raparigas que nem jornal encontram para adestrar as práticas de leitura que os professores vão tentando transmitir nas aulas de ...Língua Portuguesa. A falta de material de leitura faz com que os mais velhos, há muito alfabetizados, se tornem também analfabetos funcionais, por falta de exercitação da leitura e da escrita.
- Hoje, com os telefones, nem bilhetes se escreve e quem sabe ler e escrever está empatado com aquele que não sabe. Todos se limitam a ligar e falar. - O desabafo é de Gonçalves Carlos, antigo professor que, impossibilitado de retornar à educação, depois de anos de calvário, preferiu cuidar do campo.
Se a educação vai como vai, a saúde "está no chão". A construção do que viria a ser o Posto de saúde foi abandonada em 2011.
- Era para ser Posto. Estávamos já todos contentes, mas só terminaram a escola. - Narra um aldeão que acrescentou: por favor, sei que você, para além de nosso irmão, é jornalista e escritor. Não põe meu nome no jornal nem no livro. Aqui no mato as coisas mudam muito.
O Posto Médico ficou pela décima fiada (viga geral) e, passados 8 anos, "nunca mais o empreiteiro apareceu", nem a edilidade municipal, responsável pelos programas de investimento público, vulgo PIP.
Sem quem cuida dos doentes, as doenças todas possíveis, sarna, "lombrigas" (oxiúros), anemia, paludismo, incluindo tênue desconfiança de cegueira dos rios, fazem morada, sem que a aldeia, com mais de mil almas suplicantes, possa ser socorrida em tempo e de forma permanente.
Essas estórias reais (nuas e cruas) visam tão somente despertar quem, para essas gentes do Libolo (comuna da Munenga, EN240), possa "mover uma palha".
Quase tudo é necessário e urgente.
O autor dessa prosa já iniciou a concentração de material para a construção de uma Biblioteca Comunitária.
São chamadas as ONG para acudirem a questão da saúde e dormitórios para os professores (contratados de localidades distantes) que ocuparam os 2 wc, fazendo com que as meninas e os meninos se desfaçam do "incômodo estomacal" na mata.

sábado, junho 22, 2019

PARTILHANDO & COMPARANDO

 
Para mim, nunca será inoportuno recapitular. Quando ainda garoto, a entrar para a puberdade, ouvia falar da célebre "Escola Superior do Partido", também conhecida como "Universidade do Katambor". Era famosa por bons e maus motivos. Uns atestavam que "os quadros do Glorioso eram tão experientes e competentes que só precisavam de uma espécie de 'agregação académica', outorgada depois de uma curta passagem pela Escola do Partido".
Outros, os que me pareciam mais comprometidos com o saber académico, argumentavam que "de lá saiam 'doctores de fato' que nem sequer (?) sabiam noves fora".
Com ou sem razão, a escola inexiste hoje, pelo menos na sua anterior concepção e vocação de formar "técnicos superiores partidários em ciências sociais".
Aqui, ao lado, o partido "homólogo" fundado por Handimba, Nujoma e parceiros, em 1960, conserva a sua. E foi adentrando o pátio da referida instituição que tomei as seguintes notas:
Ovamboland é terra dos três presidentes do país, que somam 90, 84 e 77 anos respectivamente, sendo eles Samuel Nujoma, Lucas Pohamba e Hage Geingob.
O País, cujo lema é Igualdade, Liberdade e Justiça, tem como hino nacional "Namíbia terra dos bravos" . E os murais da escola contam a história desse povo bravo, formado por várias etnias, sendo das mais representativa os Owambo que possuem ±700 mil falantes, entre o sul de Angola e norte da Namíbia (terra dos Khoisan, Damara e Namaqua).
O País, independente desde 21 de Março de 1990, tem de extensão territorial 825418 Km2 e uma população estimada em (apenas) 2500000 habitantes, sendo 2,2hab/km2, com um Índice de Desenvolvimento Humano MÉDIO.
Fundada em 1890, Whindoek, sua capital, possui perto de 230 mil habitantes, distribuídos em 645 Km2, tendo, portanto, uma densidade de 357hab/km2.
Ao menos estivessem lá os murais (na Escola do Katambor), ajudando turistas e curiosos a conhecerem um pouco da História do GLORIOSO ou mesmo ensinar a trajectória política e militar do MPLA-movimento-partido aos inúmeros militantes de última carruagem que pouco ou não sabem sobre o partido que "representam" em várias esferas do país.
Voltei à SWAPO PARTY SCHOLL, vi, li e gostei.

Publicado no jornal Nova Gazeta de 07.03.19 

sábado, junho 15, 2019

CADÁ: KEN'TE VIU E KEN'TE VÊ?!

Diz a oralidade, mais vale tarde do que nunca. CADA, no Amboim, foi sempre um nome audível e pelas melhores referências, no meu tempo de undengue. Avós e papás que lá haviam trabalhado ou passado ou ouvido falar replicavam aos mais novos o que de bom o homem tinha implantado, transformando a virgem natureza em exuberantes campos de café, fábricas transformadoras e processadoras, luxuosas vivendas e escritórios a que se acresciam os acampamentos para negros contratados de terras distantes do planalto e capatazes brancos de chicote leve na mão pesada de pouca instrução. As escolas, com destaque a S. João de Brito, o monumental hospital, a barragem, a sede administrativa da Cooperativa, etc. eram contados e recontados nas noites de serão quer houvesse ou não luar. E o njangu repletava-se de estórias de fazer história. Os jovens enchiam-se de ideias, de ilusões. Memorizavam e imaginavam aquilo que era a "grande cidade" com brancos de barriga cheia, mandões, e sua esposa a ordenarem às empregadas negras:
-Maria!
- Xinyola!

-Senhora não! Patroa, está bem?
-Si, phatala!
Conheci a cada aos 42 anos (Nov. 2018). Já não é o que era há 42 anos, ou seja em 1976 e muito menos em 1974 quando os mentores da CADA ou seus herdeiros ainda lá se encontravam gerindo com mestria (e alguma repressão aos autóctones) o fruto do seu abnegado trabalho e créditos bancários. Na CADA tudo desandou, com relativa excepção que se encontra hirta mas sem os fiéis de sempre. O comboio há muito deixou de visitar a sua estação terminal. A empresa foi extinta e os carris encontram poiso nos tectos de casas precárias ou mesmo fundidos em siderurgia de Viana, em Luanda. A barragem já não produz energia e a água já não chega aos campos. Das máquinas e equipamentos agro industriais apenas velhas sucatas para oxigenar a memória de um idoso quando convidado a contar historia.
- Canhanga, foste conhecer apenas agora a CADA?


- Foste tarde. Imagino que já não tenhas encontrado nada!

- É verdade, meu kota. Quase nada, tirando escombros daquilo que terá sido uma grande cidade angolana no meio de cafezais.
E os que conheceram CADA no seu tempo áureo repõem as imagens que teimam em permanecer na memória:

Augusto Alfredo, um mumboim assumido, diz mesmo que “Quem conheceu o passado lembra-se das Estradas asfaltadas, jardins zelosamente amparados, hospital, cine-clube, supermercado, escolas com ensino de qualidade, pista de aviação, oficinas gerais, estação de comboios etc. Água canalizada e energia eléctrica. Era um lugar aprazível. Hoje, lamenta, “tudo é saudade! Até a linha de caminho-de-ferro que ligava a Gabela ao Porto Amboim, numa distância de 123 quilômetros, foi desactivado por decisão administrativa. Tudo acabou. O estado actual é de abandono e degradação! Pior, mingua a esperança.

A igreja Católica é, segundo Mazungue, como também se apresenta nas redes sociais, “o raro consolo”. Alfredo prossegue que “em 1973, a partir das 19 horas, era proibida a circulação de estranhos na vila, até foi construída uma estrada em torno para desviar o trânsito que seguia para Boa Altura, Pange, Boa Lembrança e Nova Ereira.

Com recurso à forte memória, Augusto Alfredo “Mazungue”, conta a dedo um a um os serviços e edifícios que frequentou e viu desaparecer. “O cine-clube, o supermercado, escolas com ensino de qualidade, a pista de aviação, as oficinas gerais, a estação de comboios, etc.

Foi a minha única visita e paixão à primeira. Quem conheceu antes, nos tempos áureos da CADA tem, com certeza, vários episódios para contar.

sábado, junho 08, 2019

HÁ DIAS EM QUE A VIDA SE PARECE TEATRO

Hoje* só me veio à cabeça o camarada Robert Gabriel Mugabe. Conheci-o ainda garoto e ele ainda jovem a transitar para o "kotismo". O nome levou-me aos idos de 80, eu  garoto, a ver e ouvir nos noticiários da RNA e TPA a emissão era apenas vespertina) sobre os Países da Linha da Frente e a SADCC que, inicialmente, me parecia ser a cinco: Angola, Zambia, Zimbabwe, Botswana e Moçambique (países que estavam ao encalce dos ataques da "aviação  racista sul-africana", como se dizia na Rádio e Televisão de então).
Enquanto preparava a indumentária para a caminhada, fiquei ainda a pensar:
 
- Será que os kotas, jornalistas de então, viam racismo até nos aviões militares? Não eram apenas as pessoas (algumas), o regime instalado em Pretória, eram também os carros, os navios e os aviões?!

Pois, com Rober Mugabe no pensamento, o kota da ZANU que depois de deixar o palácio viu Grace a voar de sua vida e, ao que dizem, a massa a ser-lhe também roubada, nada mais me ocorria fazer senão percorrer a Avenida que tem o seu nome na capital do antigo Oeste Africano.  Apanhei-a perto do bairro Olímpia, descendo ao Museu Natural, seguindo pelo Museu Nacional, Teatro, Ministerio da Agricultura, Água e Florestas, até ao By pass para Katutura, aonde se dirige.

Ao subir e fazendo a curva para sul, apanhei, posteriormente a Avenida da Independência que também se "afunda" no Katutura, e depois a Hosea Kutako que vai igualmente ter ao Katutura.
Mais adiante, depoos de me embrenhar por algumas streets, apanhei a Mandume Ndemufayo que, ao que pude analisar, tambem vai ao Leste.
- Fogo! Excelente construção rodoviária. - Exclamei audível.
É que todas elas nascem além city, atravessam o centro e vão morrer ou cruzar longe da cidade fazendo distintos círculos entreligados por roads, streets e strasse.
 
Um dia volto para percorrer a Agostinho Neto em toda a sua dimensão.
*27 Jan. 19

sábado, junho 01, 2019

PEP: DE CÁ E DE LÁ

 
O dicionário apresenta o acrónimo como sendo Pessoa Exposta Politicamente, Profilaxia Pós-exposição e outros conceitos. É também a marca de uma cadeia de lojas, essencialmente, de vestuário para crianças, senhoras e homens (em pequena escala). A boa criatividade angolense atesta que PEP é Preço/produto Especial para Pobres" E não é mesmo? Ao olho, pode parecer haver alguma qualidade naqueles produtos a preço de banana (inferida através da relação entre a necessidade e a satisfação dessa) mas, no fundo, é só para o roto se vestir ou o "faminto matar a fome". O pobre fica satisfeito, entretanto, quem pode dar mais por algo diferente, com maior visibilidade, durabilidade e utilidade opta por uma loja "no pep". Essa é uma estória.
 
A outra é que muitas senhoras e senhores que na banda evitam passar, sequer, ao lado de uma porta da pep, como se perto dela se possa contrair alguma doença patogénica, são os primeiros a adentrarem as PEP de outros países. O argumento, segundo ouvi de umas mwangolês, falantes dum Português "aprendido a cabeçadas" e que me confundiam com dâmara, é de que "embora lá na ngumbi não entre em nenhuma pep, aqui que ninguém conhecido me está a ver, vou só comparar umas coisitas para misturar com outras de marca e oferecer a uns sobrinhos e afilhados".
Mas, vocês afinal são assim? Não sabem que os produtos vendidos em lojas pep são os mesmos e que só enfeitam em mãos de comprador(a) pobre e que só embelezam o corpo de utilizador igualmente pobre? Até quando vão conservar essa mentalidade pobre de não entrar, na banda, em uma loja pep, mas carregar todas as bujingangas que vos apareçam pela frente numa pep de Windhoek ou Joanesburgo?
 
Se és pobre, sê onde for que seja, assume-te como "pep user" e nada de grandezas de papel onde até o cérebro é minúsculo. Pior é que mesmo a fingir tanto, na hora de efectuar o pagamento, acabam por solicitar um intérprete para o "she wants to know if can get a special price".
 
E quem é o interprete? Um outro mwangolê que vê ouve e cronica.
Para quê só, minha conterra?!

Publicado no jornal Nova Gazeta de 07.02.19

quarta-feira, maio 29, 2019

NO AERO HOSEA KUTAKO

- How are you (como está)? - Perguntou a jovem do atendimento aos passageiros para emissão da passagem e pesagem das malas e outras imbambas.
- Estou bem, obrigado. And you? - Retorqui, usando a minha habitual língua e experimentando a alheia.
- Brigado. - Respondeu a jovem, 19 ou vinte anos aproximadamente, a olhar para a ferrada fisionomia e curiosidade em aprender "port'angolês".
- Luciano, good name. Are you going do Cabinda? (Luciano, bonito nome. Va...is a Cabinda)? - Voltou a questionar.
- No. Im going to Luanda. Cabinda is far away (Vou a Luanda. Cabinda fica longe). - Respondi-lhe abrincar.
- Até cabinda's people white (Os cabindenses são brancos)? - Voltou a questionar, curiosa.
- No. Cabinda is north of Angola, near Republic of Congo. They are Black (Não. Cabinda é norte de Angola, próximo da República do Congo. Eles são também negros). - Expliquei, ao que a jovem ficou mais curiosa ainda.
- But they look like white. Use then skin cream (Mas eles parecem brancos. Será que usam creme para clarear a pele)?
- Sim, filha. Isso mesmo. Alguns se paculam, mas não são todos. - Respondi, desta vez em "port'angolês".
- And what's paculam (o que é paculam)?
- Its mean that some of then use frequentely cream to clear the skin (significa que alguns usam creme para clarear a pele).
- Thank you mister Luciano. Good trip to Angola (obrigado, Sr. Luciano e boa viagem a Angola)...
Durante a viagem fiquei a "banzelar" no avião. O que levou a moça namibiana a me confundir com os paculados, mesmo depois de ter levado com o sol de Whindoek nas caminhadas matinais de todos os dias durante uma semana?
Pela próxima digo-lhe as respostas que me ficara pela garganta.
- Im from Libolo and we don't use paculation! Those people that use paculation left our contry by Bitcheket post border, in Cabinda, going to RDC (eu sou do Libolo e não uso creme clareante de pele. Aquelas pessoas que se paculam e que dizem ser angolanas de Cabinda, abandonam o nosso país pelo posto fronteiriço Bitchekete, em Cabinda, rumando ao Congo Democrático)!


quarta-feira, maio 22, 2019

DESTIN'OESTE

 Desde que frequentei a quarta classe (1986/7) que interiorizei, de muitas, uma certeza: caminhar para oeste basta ser levado pelo sol. O caminho é onde ele se dirige, deixando que, de manhã, lhe bata ardentemente às costas e, quando já ele se posicionar à frente, lhe ofusque a visão em confronto directo. Foi o que fiz nesta quarta etapa de "descobrimento e comparação" da cidade dos Warriors à nossa "quadricentésimo, quadragésimo terceira aniversariante".
Partindo, como sempre do centro, marchei em direcção à Dr. David Hoseia Meroro Avenue que nos leva a Westline. Há também um shopping por lá. Quando já se viam poucas casas (abro parêntesis para dizer que não vi construção precária nem desordenada como as nossas. Cubatas de chapas, muito menos) apanhei a avenida circular que parte do sul ao norte e que nos leva a Khomasdal e Okahandja, fazendo, à direita, um ângulo inferior a 90° para não colidir com o sol que me fustigava ardente.
Quase sem rumo (conhecido, apenas andar por andar), fiz-me àquela percorrida rodovia, deixando para trás várias estradas perpendiculares de bom recorte técnico-arquitectónico e drenagem.
Outro detalhe: Os canais pluviais estão sempre limpos e com cobertura vegetal. Nem mesmo nos "mabululos" da cidade ousam depositar descartados nas passagens hídricas como acontece na nossa banda.
Já próximo de Khomasdal (menos de meio quilómetro) e quando mais adiante da rodovia os olhos só me mostravam montes cobertos de vegetação espinhosa, decidi apanhar uma perpendicular que me parecia rumar à cidade. Era a Dr. Kuaima Rikuako street e eu já levava nas pernas mais de dez mil passos marcados ainda com vigor.
Confesso, depois de 1990, ano em que os namibianos deixaram Kabuta (Libolo) para virem votar e proclamar a sua independência, nunca mais tinha andado tanto. Uma média de dez quilómetros ao dia, sendo sete dias consecutivos.
No ano da independência deles, a causa foi o ataque da guerrilha (que tem nome) à vila de Kalulu, quando festejámos o natal de 1999. Depois foram caminhadas longas e extenuantes: Kalulu-Mussende-Munenga-Pedra Escrita-Kuteka-Pedra Escrita-Munenga (felizmente, na última etapa, o chefe Gika levou-me na sua mota até Kalulu, aonde em Março fui para terminar o ano lectivo 1989/90).
Desta vez é mesmo caminhar por gosto e nem sei se já percorri tanto assim uma outra cidade, perfurado-a pelos quatro pontos cardeais, ponta a ponta.
A partir da rua Dr. Kuaima Rikuako, já sem o vigor inicial, pois tinha também a sede como adversário, para além do sol que passei a encarar frontalmente, fui pensando na fluidez do trânsito automóvel nesta cidade. Quem não anda e não se apercebe das várias artérias circulares e perpendiculares que a cidade é seu entorno possuem, pode alimentar a ideia de que "a cidade não regista engarrafamentos como os nossos porque tem poucos carros". Seria ledo engano. O que a torna saudável e com um trânsito que corre como sangue num corpo jovem e são é a quantidade e qualidade de artérias. Há muitas viaturas circulando sem cessar, pelo menos durante o dia, mas há avenidas, ruas, ruelas e travessas bastantes para que tudo aconteça sem stress.
Outra constatação é o facto de se poder caminhar em toda a sua extensão.
Será que podemos ainda nos alcandorar a chegar a esse patamar?
- Podemos! Porém, tal como as coisas estão na banda, só chegaremos a esse desiderato com medidas enérgicas e bastante corajosas. Não nos devemos dar por felizes tendo casebres de chapas erguidas sobre rodovias, como acontece nos Zango e noutras paragens. Não nos devemos sentir cómodos com o crescimento desordenado das cidades, sem macro-drenagem, sem que a construção das casas seja fiscalizada pela autoridade competente e sendo ocupadas antes do seu término.
Para mudar o cenário, precisamos de aprender com os outros, mesmo sendo "mais novos", ao risco de nos contentarmos a ser comparados, ad eternum, ao vizinho do Nordeste.

Publicado pelo jornal de Angola a 24.02.19

quarta-feira, maio 15, 2019

OS NINGOÇUS À VOLTA DE UM NEGÓCIO

Considero negócio a actividade formal cuja prática, em local apropriado, é reconhecida, geradora de emprego, sustento e imposto para o Estado.
Ningoçu é toda a cadeia informal de negociatas e biscates que possam surgir à volta de uma actividade formal.
Assim, tendo decidido ir desmaiar a fome no "restaurante aberto" da Chicala, ao istmo de Luanda, onde se vende peixe fresco e grelhado, notei, com atenção, a quantidade de pessoas que se movi...mentam naquele espaço, procurando levar "pão para casa" ou, no mínimo, saciar vícios resistentes, mesmo em tempo de crise financeira reconhecida e assumida.
Dentre as "ningocistas", pude anotar: a senhora da jinguba e a do jola myongo; o moço dos discos de música, pen drive, acessórios eléctricos, etc; o rapaz que lava o carro; a interceptadora de possíveis clientes dos "restaurantes"; a mamã do Tpa (sobre ela já dediquei uma crónica); o tio do mictório; o vendedor de kangonya aos pescadores, lavadores de carros e estivadores; a mana que vende bebidas que nada têm a ver com a vendedora do almoço; o rapaz das recargas telefónicas e da graxa para que o funcionário público (normalmente bangão e com ares de bem remunerado) chegue ao local de trabalho com sapatos feitos espelho, dando a entender que sai de um dos restaurantes mais chiques da cidade... São "n" NINGOÇUS.
Feita a observação, algumas perguntas não se fazem calar.
- Por que também não se transformam esses ningoçus em negócios, abrindo esses pequenos serviços periféricos onde se fundem os negócios típicos da cidade?
- Por que não ter um parque para estacionamento e lavagem automóveis em que se pague pela limpeza e segurança?
- Por que não se colocam espaços para a venda estacionária e não ambulante de souvenirs e acessórios diversos?
- Por que não se instalam, mesmo que em regime de franchising, quiosques representando as empresas de telecomunicações ou, no mínimo, seus produtos?
- Por que não se aglutinar aos "restaurantes de peixe" tabacarias, cafeterias e demais serviços úteis?
Teriamos pessoas a se orgulharem de ter um emprego ou de ser empresário, estadas mais cómodas para os frequentadores, mais impostos para o Estado e garantia de um futuro melhor para todos.
São apenas ideias de leigo.


Publicado pelo jornal Nova Gazeta, 31.01.19
 

quarta-feira, maio 08, 2019

CONVERSA ENTRE VELHOS COLEGAS

 
Na Avenida Agostinho Neto, estendi o meu olhar à "Angolan House" com a sua bandeira baixada à meia-haste pela acção incessante do vento.
Sem paragem concreta, segui a Jan Jonker Street, passando pelo "Maerua Mall". Segui, sempre em frente, até encontrar a linha férrea e, com ela, continuei até ao cruzamento entre a Jonker e a Sam Nujoma Avenue. Já não havia cidade a Leste. Apenas montes recheados de arbustos espinhoso, como é natural por essas bandas.
O regalo foi mesmo ver uma cidade de 130 anos, projectada sobre colinas que drenam com imensa facilidade as águas pluviais. É como a nossa cidade do Dundo. É com ela que mais se parece/parecerá a cidade dos bravos (warriors). Vivendas, maioritariamente, e poucos edifícios a desafiarem os céus, contrariando as capitais costeiras que crescem em altitude. Aqui, dizem eles, "há terrenos bastantes para construir em extensão"
De volta ao centro da city, passei pelo National Botanic Garden, até cruzar com a Robert Mugabe Avenue. Mas não contente ainda, segui, um pouco mais a baixo, até encontrar a Avenida da Liberdade e inflectir para norte, até ao Ministério da Igualdade no Género e Proteção da Criança. É assim que se chama o MISFAMU deles. Estavam completados os 10 mil passos que são o propósito diário da caminhada.
Surgiu, então, um novo desafio que era o de elevar essa fasquia (10 mil passos/dia) como média semanal. Ora, no domingo e segunda-feira não tinha passado dos três mil passos. Precisava, por isso, de mais 5 mil passos. Olhando para o pôr-do-sol, marchei uns metros até à Avenida Mandume Ndemufayo (próximo do shoping Vernhill) e inverti para sul, fazendo mais 4 mil passos, até à Autoridade Rodoviária. Aqui, o "INEA deles" parece ter mesmo autoridade pois as vias estão bem conservadas. Pelo menos melhor do que as nossas.
A parte final foi marcha inversa, na mesma Mandume Ndemufayo, em direcção à baixa (Vernhil.). "Varridos" o norte, sul e leste da cidade,  restando-me apenas o pôr-do-sol, pus-me a pensar no que seria a conversa entre velhos amigos de escola.

- Quem me dera que pudesse também, com a mesma facilidade, percorrer as ruas da minha Luanda onde, nos dias que correm a conversa imaginária (tantas vezes real) pode ser essa:
. Epá, lembras-te daquele wi, com facas na cara, que foi nosso colega no IMEL?
. Yá,o Star.
• Star ou Kanyanga?
• É o mesmo wi. Chamávamo-lo por Star. Não é quele que amarrava bwé?
• Yá é o mesmo.
• Mas é o que então?
•Fogo, vi o gajo a andar bwé a pé e a "caloriar" p'ro caneco. Temos que "lhe" fazer uma kixikila. O mwadyé tipo está frustrado ou a sofrer. Tipo perdeu emprego ou coisa parecida.
•Mas, ó wi, estás mesmo a falar do Star? Só pode ser brincadeira. Ele gosta de caminhar. Deixa o popô na baixa para evitar que a barriga lhe roube os músculos das nádegas.
•Aié, então pensei a toa do brother. Mas que estava a caloriar, estava!
Em Luanda, seria essa a conversa de bar entre velhos colegas.

Publicado no Jornal de Angola de 02.06.19