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sexta-feira, março 22, 2019

ANDANDO ESTRADA A BAIXO

"Walkind down the street/Distants memories are buried on the past/for ever"!.. é trecho da letra de Brian Adams, aqui trazida para retratar o que tem sido minha ocupação nos últimos dias.
Tal como a minha cidade do Zango V, a cidade que me acolhe temporariamente tem condições para caminhar. Passeios com alguma ordem e uniformização, trânsito bem regulado e sol de enegrecer. Espreitando o boletim do Ministério da Administração Interna e Migração li que é visão do o...rganismo "Registar a população e gerir a migração de acordo aos melhores rácios mundiais", sendo missão "gerir o registo da população nacional e facilitar a migração legal".
 
Já que entrei de forma legal, meti-me a fazer contas, enquanto caminhava e reflectia sobre o que me aparecia à leitura. Vejamos:
Angola com seus 1246700 km2 possui uma população de ±30 milhões de habitantes, uma densidade média de 24,06 hab/km2. Parece pouco n'ê?!
O antigo Sudoeste Africano com seus 825418 km2 e uma população de ±2500 assume uma densidade média de 2,2 hab/km2. Nestes termos, a Namíbia tem menos de 10% da população angolana, embora o seu território seja maior do que a metade de Angola. É a inexistência de pressão demográfica sobre a sua capital (e território todo) que justifica a paz social aqui verificada e que a torna um destino temporário ou mesmo definitivo para muitos angolanos cansados de "lenga-lenga" de Luanda.


Imagine que, para uma densidade populacional paritária com Angola, o país ao sul teria uma população de 20 milhões de seres, ao contrário dos seus 2.5milhoes. Pouca gente nê?!
Sim. Andando sem pressa e sem destino certo. Apenais marcar passos até não mais cidade houver pela frente, atingindo um dos várias montes que circundam a cidade, completei o percurso norte-sul do plateau. Cinco mil passos a norte e outros cinco mil a sul, numa distância aproximada de 9km. Falta percorrer a horizontal, nascente-"morrente". Mande-me Ndemufayo é a Avenida que corta longitudinalmente Whindoek.

Publicado no Jornal de Angola de 10.03.19

segunda-feira, março 18, 2019

O CANTO E A POESIA ENTRE OS METODISTAS

"O metodismo nasceu a cantar", atesta Emílio de Carvalho, no seu prefácio ao hinário Povo Catai!, da Igreja Metodista Unida em Angola, 1ª edição, 1982. Concordo com o bispo e acrescento que os metodistas crescem a recitar. Tal exercício de declamar textos bíblicos e artísticos nas "classes e igrejas" acontece desde pequenos e influencia a trajectória dos indivíduos no que concerne ao "encarar a floresta em vez da árvore", na hora da exposição oral.
De uma turma de LP que ministro em um Centro de Formação, os menos tímidos são aqueles que exercita(ra)m a recitação ou o canto em igrejas, destacando-se os da IMUA.
Lembro-me do dia e mês em que cheguei pela primeira vez a Luanda: 18 de Maio de 1984, fugido de refregas entre militares antagonistas. Meus tios, anfitriões, eram crentes Metodistas, na altura única em Angola, frequentando, porém, cargos (congregações) diferentes. Ele na Calemba e ela na Moisés, então recém-emancipada da primeira.
Fui, inicialmente, com o tio à Calemba, próximo do "cemitério novo" ou Sant'ana. Este cargo possuía próximo de casa, no Rangel, a classe João Baptista, no México. Era lá que conheci o velho João Kambundu, de feliz memória, sendo guia o velho Pedro, pai de Keth e Gia Mateus Pedro (meus contemporâneos). Encontrei ainda a família Catumbila, sendo meus coetâneos o Toy e o seu "puto" Jojó Catumbila. O Jeremias, a Fatinha e o Isaías eram já makwenze.
Tendo chegado a Luanda em Maio, a frequência da classe João Baptista não podia ser ainda vésperas de natal,  altura em que os meninos e meninas da metodista ensaiam nas classes o programa de Natal, com cânticos e poesia que nos levavam a "escorregar" pelo corredor ao púlpito. Era característica marcante, e sempre presente nos templos metodistas, o ensino do canto, da poesia e dos jogos orais, quer fosse ou não época de natal, páscoa, EBF ou outra data, como foram os ensaios na Central e Bethel, quando do centenário (1985). Os meninos eram chamados a "seguir a Jesus" como evoca o hino 90 do HPC da IMUA.
Esses ensinemos transformaram positivamente gerações, incluindo a minha. A escrita, a recitação e a música tornaram-se pontos fortes do "povo metodista", quer continue ou não frequentando os templos.
E, 35 anos depois, ainda "oiço" vozes de meninos como a Gia Pedro, Toy Catumbila (Calemba) ou Xico Kitembo e Lurdes (da Moisés aonde me transferi meses depois) cantando na Escola Bíblica de Férias ou nos cultos semanais da classe o "vinde meninos, vinde a Jesus..!"

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 21 de Março de 2019

sexta-feira, março 15, 2019

PERDENDO ARTISTAS E GANHANDO IGNORANTES

Em menos de um mês perdemos os escritores António Panguila e Frederico Ningui, exímios escultores da palavra, notabilizando-se entre finais da década de oitenta e início da década de noventa do século passado. Perdemo-los, num abri e fechar de olhos, sem que nos dessem tempo para um adeus! 

Maior do que a tristeza de já não ter os meus inspiradores (enquanto leitor e frequentador, nos anos 90, dos debates semanais na UEA) é saber que os jovens de hoje pouco ou nada sabem sobre aqueles que deviam ser os seus "modelos inspiradores".
Passei pela Kibala, terra de "Pangila", falei com muitos jovens, alguns a terminarem o ensino médio... Evoquei o nome de António Pangila, que já liderou a ANA Kibala (Associação dos naturais e amigos da Kibala).
- Pangila wamwinjya?
(Conheces Pangila?) 
- Xô! Pangila nyi?
(Não. Quem é Pangila?) 
- Pangila mesene yo sonika. Wahi semana yapiti. Kumwinji?
(Pangila é mestre da escrita. Morreu a semana passada. Nunca ouviste falar dele?) 
-Xô!
(Não!) 
Fiz a mesma pergunta sobre o Reverendo Gabriel Vinte e Cinco, também ele kibalense, com dedos na escrita e voz na pregação do evangelho de Cristo, pela via Metodista Unida. Expliquei que o "mwali-a-kime" foi superintendente distrital da Igreja no Kwanza-Sul. Falei-lhes sobre a famosa igreja "Boa Esperança" , que fica na aldeia de Kimone, a poucos quilómetros da sede municipal. Informei ainda que, não passa um mês, o mais velho lançou um livro "Kwanza-Sul: Conheça-te e faça-te conhecer".
- Sô pastore "Vindi e Cingu" wamwinjya?
(Conheces o Sr. pastor Vinte-e-Cinco?) 
- Xô!
(Não!) 
Não se conhecendo, em uma vila minúscula, dois vultos da literatura nacional, provincial e local, senti-me inibido em perguntar-lhes sobre escritores "mirins", como é o caso do autor dessa prosa. Limitei-me a oferecer os poucos livros que se achavam em sobra na viatura, esperando que alguém se lembre de os ler e falar aos outros no recreio escolar ou entre fimbas e repousos de um piquenique qualquer. 
Não refeito ainda do susto, porque tamanha ignorância assusta, continuo a perguntar-me:
- 0 que ensinam os professores desses jovens?
- 0 que aprendem esses rapazes e raparigas?
- Que conversas fazem parte de suas tertúlias sabatinas?
- Que noticiários ouvem/lêem/vêem esses (des)continuadores de nossas obras?
Não tenho resposta e calculo que você tenha também outras inquietude sobre o rumo que a sociedade está a tomar ou a nossa mania de exigir que os mais novos saibam algo sobre seu passado e presente, permitindo-os, desta feita, erguer um futuro em rocha-firme como aquela em que assentava o fortim da Kibala. 
 
Texto publicado no Jornal de Angola a 02.12.2018

sexta-feira, março 08, 2019

AQUILO QUE NÃO ERA QUILO


A presente narrativa tem enquadramento nos anos oitenta do século XX, em Luanda. O bairro é Rangel, ao Kaputu, rua de Ambaka,congregando catetenses, há muito instalados; Kwanza-sulinos, novos e antigos no bairro; malanjinos e kwanza-nortenses contados a dedos. Nortenses do Uije e Zaire não havia. Se houve, eram muito insignificantes.

A actividade principal das senhoras era ser "dona de casa", algumas com registo no Bilhete de Identidade como profissão, e revender géneros alimentícios adquiridos em primeira instância nas "lojas do povo" ou na kandonga dos desviadores de "géneros do povo".
 
E nós, crianças desse tempo, vivíamos a nossa época do melhor jeito que ela permitia: corridas de jante e de pneus, jogar e caçar castanhas de caju, caça de "gaffas" junto à linha férrea, recolha de cereais perdidos pelo comboio do Mbungu-Kikolu para alimentar os pombos e apanha de metades terminais de cana vinda de Malanje e outras paragens desconhecidas. Não preciso de citar, dentre os deveres, a escola obrigatória, a explicação para alguns e enfrentar as filas dos "supermercados", depósitos de pão, talhos, peixarias, lojas do gás, entre outros serviços delegados pelas mães, que se ocupavam da venda, e pelos papás que trabalhavam na baixa e noutras paragens para garantir o cartão de abastecimento mensal (era amarelinho, com os doze meses registados e uma lista de bens perecíveis, não perecíveis e os electrodomésticos que nunca vinham).
 
É na venda e revenda, entre lojas e bancadas, que surgia aquilo que não era quilo.

A balança calibrada e fiscalizada tinha ficado encerrada na cantina do colono expulso. O que surgia "era tudo do povo". O povo mandava e desmanchava. O povo era quem mais ordenava e as coisas (algumas do tempo da senhora expulsa) estavam sendo ignoradas, pois algures se dizia que "o homem novo traria coisas novas". Daí que as lojas tinham balanças para o povo ver e nos mercados e bancadas fazia-se a vida com latas e kandimbas para o povo medir.
 
É assim: nas lojas, as balanças faziam o "faz de contas". Os ensacáveis como arroz, açúcar, sal, feijão e outros cereais, quando os houvesse, era encontrados já nas montras com a indicação de xis quilos. Muitas vezes não correspondiam, mas eram os quilos declarados e levados pelo comprador. Era a loja do povo e ponto final.
Um pouco mais realistas eram as mamãs das kitandas e das bancadas à porta. A lata de óleo vegetal, alta e mais estreita; a lata de margarina, mais curta e mais larga; a quadriculada de azeitonas ou a circular de chouriços tanto serviam para "aviar" o cliente de fuba (milho, bombô ou trigo), sal, açúcar, feijão, jinguba, feijão, arroz, etc. Todas essas canecas/latas tinham apenas algo de comum. A designação. As quantidades que podiam carregar eram variáveis, embora comummente se tratasse aquela quantidade variável por "quilo". Assim comprávamos o "quilo" de arroz ou de sal medido em lata de 900 gramas de onde se tinha consumido a margarina.
Mais exacta, pelo menos em termos de volume, pois o peso varia sempre em função da densidade, era a kandimba. Essa sim. A kandimba era a lata de leite moça. Quando fosse para se usar a unidade imediatamente inferior àquilo que não era quilo, usava-se a kandimba ou ainda a latinha de massa-tomate. A kandimba, unidade de peso para os que menos podiam comprar ou menos precisassem naquele dia, era exacta. Medida única em todos os mercados e bancadas. Menos na loja. Desapareceu (in)felizmente.

 - Ó tia, quanto é a kandimba de arroz, avia bem, faxavor, mama disse é sua comadre!

sexta-feira, março 01, 2019

BALABANDI

Em tempos fui a uma instituição pública tratar uma demanda de ordem jurídica. Olhando de soslaio, atento ao que me estava à volta, mas sem pretender que fosse descoberto, verifiquei que os processos, muitos já acastanhados e carcomidos, eram perfurados e amarrados com uma linha que seguia uma agulha também grossa.
Desde que abandonei o interior e o Roque Santeiro foi extinto que já não via nem a linha nem aquela agulha que na fazenda servia para atar os sacos de café... ou de macroeira. Veio-me à mente a palavra, "balabandi". O termo, pronunciado no meu Kimbundu materno, já leva mais de quarenta anos de distância. Era ouvido na infância e sempre acorrentado a estórias e crendices que apontavam para manufacturas ou engenhos movidos a braços e por forças ocultas repousando em duas caveiras de "mbalundu" decapitados por brancos impiedosos, para fazer as máquinas funcionar.
E tais máquinas, nas zonas de Ngulungu, Lwati, Kimbirima, etc. não processavam outra coisa que não fosse o balabandi que, mais tarde, cheguei a saber que não era mais senão o sisal. Havia no território do Lubolu, em tempos idos, "infindáveis" campos de sisal, cuja corda, levada ao beneficiamento, resultava em tapeçaria, sacaria para acomodar o café dos terreiros, cordas e linhas diversas para fins incontáveis, utensílios domésticos e outras benfeitorias.
O balabandi para fins industriais, no Lubolu, é hoje cultivado apenas na memória dos vovós que regaram os campos e as fabriquetas de fiação com o suor de sua juventude e poucos quarentões, crianças de então, que frequentaram o njangu onde as estórias desfilavam no meio da história contada de boca em boca. Fora disso, são apenas raríssimas plantas que resistem ao fogo de todos os anos e alguns rebentos que se colocam à beira das lavras para impedir a intrusão de javalis, pacas e outros impostores.
Se há uns vinte anos ainda se fiavam manual e artesanalmente algumas cordas para as pequenas armadilhas, hoje que a "caça pequena" e a recolecção deixaram de fazer parte do dia-a-dia do homem rural, para que mais serve o balabandi?
Sumiram as fábricas de fiação nas pequenas e grandes cidades. O café pouco reclama a ausência do saco confeccionado com fios de sisal. Os tapetes vêm da China. As cordas também. Os campos, sem quem receba a matéria-prima, deixaram de produzir sisal.
Os dólares que o balabandi poupava, quando não tínhamos petro-diamantes, são hoje exportados para coisas menores: linhas, esfregonas, cortinas, agulhas e botões para camisas. Que tal poupá-los para replantar balabandi (sisal) que pode ressuscitar a indústria de ficção e sacaria?
São apenas cogitações leigas!


Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 8.11.2018
 

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

KALUMBU AO PÔR-DO-SOL

(Tentativa de descrição) 
Kwanza preguiçoso de tanta caminhada, Citembu-Lwanda-Atlântico. Distância já pouca. À beira, riqueza também pouca, apesar de margens largas, humificadas e propícias à agricultura e pecuária. É assim, do Dondo, velha cidade por muitos descrita e de muitos conhecida, ao desembocadouro.
Kalumbu assiste ao pôr do-sol de um dia de Fevereiro, antecedido por farta chuva. Sobre as águas translúcidas do Kwanza, uma porção, não pequena,  de plantas aquáticas (herbáceas), que quando paradas escondem peixes e jacarés, desliza flutuante, rio a baixo.
- Quê aquilo?
- É ngandu
- Nûé ngandu. É capim!
- Capim, assim enrolado? Toma cuidado. Às vezes inimigo se esconde no capim para jantar pessoa.
Lá, mais ao fundo, era outro o diálogo. Gentes doutra margem, Kis(s)amistas, negócio aviado. Ao fim da tarde é só despacho.
- Canoa te cobra na vinda, pessoa e produtos. Canoa te cobra "igualimente" no regresso, pessoa e sobra de produto, que às vezes preço da travessia e ida e volta, duas vezes, é maior do que preço da venda. Despachei só já  "numa" mana que também tinha cara de sofrimento.
Para as vianenses o dia tinha acabado. 
- É hora de voltar e fazer a janta dos filhos e do pais deles.
Para os da margem kis(s)amista do Kwanza, o coração que é só um pensa na canoa e no preço da travessia, no jacaré que gosta se esconder no erva aquática que flutua sobre a corrente do rio calmo. Pensa ainda, o mesmo coração nos filhos das traquinices, se alguém "se aleijou" e pensa também no marido que pode encontrar já sem camisa, pronto "a se ignorar", depois de avultadas doses de katula mbinza.
Só as manas e mamãs, umas aproveitáveis conselheiras nas igrejas, outras desaproveitáveis e perdidas na cerveja barata, dizia: só as mamãs e manas de Kalumbu é que não se agitam com o morrer do sol, pois conhecedoras do wenji daquela praça, aproveitam comprar barato das senhoras da Kisama e revender às manas retardatárias de Luanda, hoje à noite, ou amanhã  de manhã, antes das agricultoras de verdade pousarem os kingombo, idingo, madimá, jimbiji nyi ima yoso!

Publicado no jornal Nova gazeta de 28.02.19

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

CHUVA NO MUSEKE É TAMBÉM alegria DO POVO

Quando chove, a avó pega o seu branquinho de três pernas, que chama de "mocho", e fica num canto a cachimbar ou a visitar as malambas acumuladas nos oitenta e tal anos que armazena no seu cabelo de algodão.
Avó Maluvu, manhã cedo, café simples, forte-fervido, açúcar kabucado, nem palavra nem sílaba. Apenas o branco do fumo que se dilui na brancura dos seus "jinvi".
Palavras, apenas quando o neto Miguelito lhe vem chatear com conversa fiada de "avô, chuva é crugulema?" E a avó passeia pela memória para formular uma resposta repleta de imagens amontoadas ao longo do tempo, desde a sua meninice aos dias de hoje, já sem força nas inama, mas com nguzu ainda no cérebro. E pensa:
- Tirando o barramento da passagem nos becos estreitos e os carros que, às vezes, sujam quem de roupa branca se dirige à igreja Tôco, quem que disse que chuva nos musekes só trás problemas? Quem quenhê que disse?
Então aquela "divertição" de ver as moças bangonas nos outros dias, a não dar confiança nem na mãe que lhe lavou machachala, nos rapazes do bairro já é mais pior. - Xê, num falo contigo, se cunhecêmos aondiê?! Dizia, quem que disse é problema ver aquelas moças todas, com mataku enfiados nos calções das irmãs kasule, a acarretarem água dos quintais para deitar nas ruas; as mamãs, com os panos até ao diafragma, a sufocarem as mamas xuwetadas, tipo chinelos que esqueceram no óbito, também ajudando ou avançando com o matabicho de peixe matona com batata doce; os papás com calções de ténis a dar ordem aos mizangala para tapar os buracos nas ruas ou a remendar as casas "prejudicadas" pela chuva nocturna ou ainda a podar as trepadeiras que lhes cercam os quintais...
- Quenhê que disse que chuva no museke não trás alegria aos kanuku que jogam a bola de trapo ou borracha, despreocupados com a surra por vir, depois de anodoar a camisola da igreja ou rasgar os sapatos da escola? Quenhê que disse, menino?! CHUVA NO MUSEKE É TAMBÉM alegria DO POVO!
Publicado no Jornal de Angola a 03.03.19

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

MORNA PAIXÃO


 Nas terras de Chernenko, Staline, Lenine e Putin, os amores são sempre à primeira vista. As pernas negras do underwear (meias de vidro) sobreposto à carne amarela duma "donzela" fazem pensar numa negra da Kibala, recortada como viola que alimenta noites dançantes de xirimina.
A comida nos restaurantes também. Cereais que nos levam ao Kunene da masambala (milho miúdo) tem mesmo sabor de arroz e dizem ser do melhor que há em emprestar saúde ao corpo africano dilace...rado de maleitas e pragas.
O pão banhado em leite e passado na frigideira, sem óleo, é outro encanto... Mas então, o que não encanta aqui se a matemática aplicada à construção é à medicina (quem diria?) também faz milagres e motiva estudos para melhor compreensão e, quem sabe, réplica, lá na banda?
Tudo encanto para quem desfila a praça pela primeira vez, excepto os brutamontes de alguns czarianos que se julgam seres superiores na nossa idiossincrasia de pensar.
É cultura deles, cultivada já séculos, no relacionamento com outros. Até nos edifícios são imponentes e mostram essa grandeza de estar e de Estado. Apenas o tempo nos leva a entranhar essa forma de estar, pensar e agir e copiar-lhes os bons modos, aqueles aplicáveis à nossa secularidade, aos nossos mores.
Mas voltemos ao amor e paixão à primeira vista. Quem nunca a sentiu? Se ainda, tem tempo e não precisa ter pressa. Camões, o kawoyu da nossa metróia, escreveu "a paixão é como fogo" porém ela queima sem mostrar chama. Sim, isso mesmo. O duro é quando essa paixão começa a perder o furor, a chama... O que era doce perde a sacarose, depois ganha sabor acre e salgado. Assim está o pitéu. Um desencanto ao quarto dia. O estômago começa a inviabilizar o desfile. É outra a praça querida. É preciso andar, mudar a rota, buscar por ofertas alteres ou encontrar outros gostos, antes que a Sibéria tome conta do rol.


Publicado pelo jornal Nova Gazeta 2018

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

UMA VISITA INUSITADA

Que as abelhas seguem perfume, já é há muito sabido. Por isso, os prospectores mineiros devem ser parcimoniosos no uso de perfumes, evitando os odores mais activos, para não atrair o insecto do mel.
Conta-se que numa mina de Moçambique, as abelhas não deixavam entrar os prospectores africanos recém-licenciados na Europa, por estes pretenderem apresentar sempre "bem-cheirosos" e distintos do normal operário que sempre habitou o interland. É outra conversa.
Do que não sabemos ainda, é o que as rãs seguem dos homens. Será o seu espaço invadido? O conforto da temperatura alterada por meios artificiais, em contraposição ao clima natural e exterior?
O hotel em que decorre a prosa é zambiano, na zona chick que acolhe os hotéis mais vistosos e visitados, chopings e outras valências modernas como o Chicago, um casino-bar que acolhe noctívagos e apreciadores de "boas carnes" e quejandos.
O andar, para espanto, é o quarto. Estamos a falar de 12 metros, mais ou menos. A entrada do hóspede foi às 22horas. Se quem entra move a maçaneta da porta, a partir do corredor, é líquido que o batráquio, às 22 horas não estava lá atracado. Só podia tê-lo feito no silêncio da madrugada.
Foi ao sair que me deparei com o que outros chamaram de "inusitada brincadeira entre eu e o jovem da limpeza".
Aberta a porta do interior do quarto ao exterior, é ao fechá-la que me deparo com o que se parecia a um boneco de borracha em forma de rã. Aproximei-me, sem medo de bicho qualquer, e reparei que  "a borracha"respirava. Era sim uma rã viva e saudável que brilhava à luz artificial no corredor alcatifado.
- Porra! Que brincadeira é essa?! - Soltei malicioso sem se fazer ouvir.
Subi ao nono andar, para o matabicho carregado, para não mais o estômago reclamar almoço. Desci novamente ao quarto andar, apenas para confirmar se o visitante se tinha ido embora ou se aguardava por uma outra diligência menos amistosa.
Chegado  à porta 433, lá estava ele, o batráquio, quieto como criança sonolenta. Foi então que chamei pelo jovem que cuidava da limpeza.
- Hello! Please, come here to see any thing. (Bom dia, venha cá, por favor, para ver uma coisa).
Aliás, o jovem já tinha  limpado todos os quartos anteriores e posteriores, deixando o meu por limpar.
- Então, jovem? Já viu o que está na porta? Falei num inglês arrojado.
- Yes I saw. I think it was a toy and you did not wanted be disturbed (sim, eu vi. Julguei que fosse um brinquedo a indicar que não queria ser perturbado).
- Leve, seu bicho, por favor. - Ordenei em meio de um sorriso leve.
Depois de umas tantas voltas, verifiquei que a área frontal e lateral do imóvel hoteleiro era propícia a acomodar rãs e semelhantes, dada a relva e humidade. Porém, a parte traseira do edifício era cercada por lojas cobertas de chapas metálicas, que elevavam o calor.
Ela só podia estar a seguir a regulação do calor por via induzida. E, sendo a rã um bicho de salto alto, era normal que num só esforço atingisse o quarto andar!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 15.11.18

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

PITÉUS NA SOYUZ

Entre "kudyatende e katleta" é melhor pedir SPACIBA.
A falar Português, ainda consegui passar o "tira água". Já no inglês, estava no "mais pior". Quanto ao Russo, makanya. Não passava do "piva, karashô, nasdaróvia, rhui, kurva, samalhiot e pravda. Em Moscovo para passeio, nessas maluquices que, às vezes invadem a cabeça de pobre com dinheiro, Manelito meteu-se num restaurante. Chique de roer e lamber os dedos na hora da janta. Uma kindoza, já de idade um pouco avançada, fazia gemer com seus dedos delgados o piano que se achava na sala, vasta, arejada e redonda. As melodias não conhecia, porém, a harmonia fónica fazia-o viajar por todos os lugares de elegância refinada que ia conhecendo. Manelito já nem sabia onde estava, se em Paris, Veneza, Nova Yorque, Macau, Tóquio ou Abu-Dabi. Viajava a cada dedilhar da velhota. E não era só no pensamento. Era mesmo o corpo todo a experimentar a contemplação do belo que era aquela polifonia.
Na hora do pitéu, sem a utilidade do seu Kimbundu materno, sem um dicionário que lhe quebrasse o galho, olhou à direita, à esquerda e aos jovens atendedores, garçon e garçonete, com finura no falar e até no andar.
- What is this? - Indagou.
- Kudyatende. - Recebeu oralmente.
- Kudya kê? Comer ditende, eu?... (comer lagarto, eu?) Entre pura coincidência fonética e ou semântica, preferiu guardar a indignação.
- É melhor ir perguntando. Quem sabe dessa língua escura na interpretação apareça algo que dê jeito?! - Continuou, já agora, a olhar para a garçonete:
- Please, what is this? Perguntou, olhando para um manjar acabado de servir a um vizinho de mesa.
- Katleta. - Respondeu ela, toda delgada.
- Atleta pequeno?! Na minha banda o "ka" é diminutivo. - Pensou. Assim isso que parece carne moída, forrada com pasta de ovo é carne de atleta ou para atleta? Ficou só pelo pensamento pois receava haver na vasta sala um lusoglosador que podia chacota-lo. Ficou-se pela sopa, que sabia pronunciar, seguido de um "Spaciba!"

Publicado no jornal Nova Gazeta de 21.02.19 
 

terça-feira, janeiro 29, 2019

O LADO DA DISTRIBUIÇÃO E DA RECEPÇÃO

Se quem está no "lado da distribuição" deve olhar para o bem-estar daqueles que recebem, tb é lídimo que quem recebe olhe para as dificuldades de quem distribui.
É que nem sempre quem distribui tem o que se pede, muito mais num ambiente em que a distribuição ficou "parada".
Isso leva-me a revisitar a célebre frase de A. O. Salazar que nossos papás encontravam nas caserna militares....

"Se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida!"

terça-feira, janeiro 22, 2019

A VILANIZAÇÃO DA VÍTIMA E HERONIZAÇÃO DO VILÃO

Reli, em tempos, não mais de duas semanas, as tácticas de Goebels, ministro da propaganda de Hitler, e um dos pontos era exaurir o inimigo até à estopinha.
"Seleccionar os inimigos, um de cada vez, e acabar com toda a sua imagem e reputação, ao ponto de sere completamente indigesto por quem oiça pronunciar seu nome"...
Trazendo isso à esfera político-militar de infeliz memória, assistimos a dois palcos que consistiam na vilanização do adversário/inimigo. Apenas não sabia que tal se podia estender a outros segmentos do agir e fazer humano.
Conta-se, não tenho provas, que certos ataques militares inimigos foram permitidos/consentidos para acirrar a ira dos populares infelizes, de modo a  vilanizar, até tornar intragável, o nome do adversário/inimigo.
Já imaginou o motorista saber que a estrada está minada e mesmo assim levar o carro carregado de gente a accionar a mina para buscar a condenação máxima do autor do engenho? Podia ter evitado o pior. Sim ou não?
Que tal levar isso a outras realidades? Qualquer semelhança com factos concretos da nossa sociedade é mera coincidência.
Há casos em que, com a conivência de quem sabe e pode evitar o pior, o vilão se torna herói e a vítima vilanizada!
 
Texto escrito a 04.11.18

terça-feira, janeiro 15, 2019

A LOIRA DE ABCÁSIA

Igual a ela só aquela kapequena que numa mota pequena de rodas gordas levou seu admirador de Kibala a Cela.
Vou contar a estória. Seguia Miguel no seu turismo vermelho, acabado de comprar e rodagem por concluir. A viatura era virgem imaculada ainda, tal qual parecia a miúda da Kibala.
Ia Miguel de vagar, vagarinho, apreciando as árvores e a escassa relva, as pessoas, as galinhas e os cabritos que se faziam à beira da estrada asfaltada. As cabras estavam no ...pasto.
Ia a pequena Mingota vagarosa, garbosa, lindamente, vaidosamente na sua Piaggio de rodas gordinhas, avantajadas como aquelas ancas delgadas e aquela perna de pensar num torresmo pecaminoso.
E os dois, Miguel e Minhota, iam se digladiando com olhares disfarçados, tendenciosos, desejosos, sem que ela parasse a mota ou que ele a ultrapassasse e adiante parasse, foram seguindo. Seu destino era o Gango, caminho de Mussende, mas a menina meteu-se a caminho de Cela. Miguel na ilharga, Mingota na contemplação e na acção. Distância abatida por desejos recíprocos...
- Segue-me meu panku, pitéu de mais logo, sem milongo.
- Abranda, pára meu encanto, que te conduzo a um canto para delirares sem prantos.
Em soslaio repletaram a imaginação, quase auto-atendendo a procriação.
Soprou um vento. FORTE como a corrente que os amarrava. Espontâneo como a paixão. Num fechar de olhos, a estrada estava escura. Sem mais tempo, Mingota precisou de refúgio. Miguel parou adiante. Baixou a cadeira, abriu a porta traseira. Chegou chuva na estrada antes poeirenta. É água agora.
Quando se preparava para estender os braços e acolher a musa, verificou que estava na Cela, quando era outro o seu destino. Assim são as moças de Abcásia. Quantas vezes o africano encantado perde paragem no autoeléctrico ou metrô?
Possuidoras de química, física e matemáticas ligadas à biologia, levam sempre o estranho-viajante a percorrer suas geografias corporais. E não foram poupadas em teor. Autênticas minas inspiradoras. Ricas de preencher as vagas das tabelas periódicas de Ruberford e Mendeleyev, encantos de química fundida em física e geografia humana. Mulheres de Abcásia como elas só as morenas da Kibala.


Texto publicado no semanário Nova Gazeta, 17.01.2019

terça-feira, janeiro 08, 2019

CIDADE DA PIETRA

Verona. Será vero? Sim. Cidade da pietra é. Basta ver os edifícios clássicos e medievais carregados de sumptuosidade no seu interior. Palácio-fortalezas conservando história de povos e homens. Aqui, onde a civilização saxônica e sua extrema - direita são visíveis, é a pedra quem mais fala nas ruas calçadas, nos passeios de "pietra" e na feira anual. Mas as noites também têm mística. Há um largo que não dorme. Restaurantes atendem gostos múltiplos, sem parar, ...os comensais de todas as proveniências ao olho, sempre atento, da "Armata" as FAA daqui.
A cortar o subsolo, cochicha o metro, ao passo que o nosso gás de cozinha e que na banda atende o roncar de potentes geradores é combustível para autocarro articulado. Quanta saudade do "wawa 33", articulado, do Nzamba 1 ao Beleizão?! Mas aqui os machimbombos são mesmo movidos a gás natural que se prepara para ceder lugar à energia eléctrica como já vai acontecendo na próxima Alemanha.
De dia e de noite, o largo adjacente à "câmara comunal", sempre cheio com acrobatas e homens de afinados instrumentos de percussão, cordofones e aerofones.
Ao sol enfrenta o monumento secular de pietra, Anunciando de metro a metro que estamos em Verona.
Um rio sem pressa, vinhas à volta, e inúmeros ramais para irrigar os campos, corre cidade abaixo, espalhando ao longo do seu leito beleza inigualável, repartida com sumptuosos palácios rurais, periurbanos e citadinos. Só encantos de promover sono de pedra lançada ao poço!
Quanto a mim, com a infância rodeada de rio e florestas, nunca, em minha vida lúcida, tive uma noite assim, dormir que nem pedra em "uma floresta" e não ouvir sequer o chilrear de um pássaro, o cantar de um galo, o apitar incómodo e estridente de um grilo ou mesmo o miar de uma gata no cio.
Paz excessiva? E os bichos do mato? Os hóspedes de casa? Ah! Cansaço talvez. Há duas semanas que parte da vida tem sido (des)feita em aviões. Sonos por dormir. Pratos por comer. Bebidas por sorver e até massagens por conferir. O país aos seus bons filhos tem negado pausa laboral. Há muito que ficou por ser feito e que tem de ser feito agora, sem mais demora. Entre beleza, requinte no acolhimento e falência do carpo, sim, Verona pôde dar-me uma noite de paz. Um desligamento total sem memória.

Publicado pelo Jornal de Angola, 07 Outubro 2018

terça-feira, janeiro 01, 2019

PEDRA, CAL E ARGILA


Em conversa, no whatsapp, com meu kota Zuzé Lubanu, sobre a historicidade das comunidades angolanas, esse explicou que "entre 1985-86, quando esteve em Belgrado, desceu para Liubliana (hoje capital da Eslovênia) onde pôde conhecer, à distância, a casa familiar de um dos apóstolos de Cristo, em Trieste, norte de Itália, através de um observatório". Sendo amante do seu Kuteka, perguntava se "não seria tão bom [para a recomposição histórica] chegar ao Kuteka e encontrar as casas dos antigos habitantes, nossos ancestrais?
O assunto trouxe-me à memória outras estórias do mesmo período em que o mano Zuzé Lubanu viu Trieste por via de binóculo. Os meus primeiros anos de Luanda foram 1984-86. Foi nesse período que conheci os makotas Adão e Rufino que eram cunhados e mizangala, vivendo na Rua de Ambaca, ao Kaputu. Hábeis em contornar becos, a fugir às rusgas dos PCU, os dois podiam sair do Cazenga ao São Paulo, só a andar pelos becos. Na travessia de uma rua, para se enfiar em outro beco, costumavam, antes, confirmar dos putos que encontravam a brincar se "os mwadyés da kanga não estavam por aí". E assim seguiam a suas rotas até proximidades do "prédio da fenú", mais tarde conhecido como "prédio dos Assuntos Sociais" ou, mais tarde ainda, como "prédio do Alpega".
 
De viagem em viagem, percorri mais uns metros até ao Zé Pirão, largo em que se cruzam duas "grandes" avenidas de então. A Avenida Brasil, vinda do Cazenga, e a rebaptizada Hô-Chi-Mim. O Zé Pirão era e é cidade pura e quem trabalhasse naquelas imediações já dizia "trabalho na baixa", embora não seja ainda cidade baixa que é Mutamba e cercanias.
No Zé Pirão, começava uma linda calçada nos passeios, que fazia desfilar um calcário branco com recortes cinza ou negros da pedra huilana. Fiz-me a deslizar aquelas "pedras ornamentais" várias vezes, sempre que ia com o tio Nganga à casa do Governador do BNA, onde ele jardinava. Isso é, até à Mutamba e depois calcorreava uns metros da hoje Amílcar Cabral, a espreitar a Oliva de Angola.
Ao que se diz, as calçadas em pedra são quase de "vida eterna", se bem colocadas e se não sofrerem intrusões de condutas rebentadas ou cabos eléctricos por remendar no subsolo. Hoje, o que os meus olhos mais vêem é cimento e blocos de cimento sobre os passeios. A pedra abundante é, ao que dizem, "sem clientes por cá" e nem nas calçadas a encontramos em maioria.
  
O que se passa então? A experiência do Largo 1° de Maio não pode ser replicada em quantidade e qualidade?
Reclamar das calçadas em pedra traz-me à memória outra reivindicação dos extractores de pedra ornamental.
Ora porque os "clientes internos são poucos", ora porque "os materiais substitutivo ou alternativos são mais baratos e abocanham os clientes todos, sobretudo os com poucas posses". Ara xisa, pá!
Então custa muito incutir o gosto pela coisa nos coisos?
Custa dizer a todos os ventos que "o barato das peças quadriculadas que vêm da Ásia dura pouco e pode sair caro ao longo da vida, cada vez mais longa, que vamos tendo"?
Custa tanto assim anunciar com as verdades que a ciência ensina e não com as mentiras do leva gato que se parece com lebre?
E, já sem mais indagações, voltei à conversa com o mano Zuzé Lubanu, para concluir que se os nossos ancestrais tivessem usado pedra, cal e argila para as suas construções, elas estariam ainda aí intactas, contando a história na primeira pessoa, como em Trieste, Roma e Grécia.
É uma pena que tenham, até os reis e notáveis, erguido casas de adobe e palhotas de pau-a-pique cobertas de capim. A chuva e os ventos levaram consigo a história que o primo Nelson Cabanga bem precisa de conhecer.
Foi uma pena!

Publicado no Jornal de Angola de 06.01.19

sábado, dezembro 29, 2018

NO REDUTO DE BEN BELLA

FANTASTIC! A expressão não é minha, nem serve para adjectivar o que pude ver. Apenas um letreiro que me cruzou os olhos quando percorria a cidade que se estende longitudinalmente pelo mediterrâneo, mirando de longe as homólogas europeias de França, Itália e Espanha, de quem rouba e dá a roubar o engalo, a beleza e a limpeza.

Argel tem uma marginal que conta a história de um passado berbere, colonial francês e luta pela independência conseguida à força do fuzil. Comandou a epopeia Ben Bella.

Em relação a Luanda, entre plágios e semelhanças, há também analogias. Em Argel, o comboio, paralelo à avenida marginal, é metro de superfície. As carruagens são limpas. Nas paragens há ordem e a ilustração conta história. Os capinzais recebem tratamento permanente. Os descampado de Luanda, são, em Argel, hortas para levar legumes à mesa. A cidade cresce. Vê - se. Túneis, undergrounds, novos viadutos, tijolos a desafiar em os céus, e muito mais. Os zungueiros inexistem. O mercado está regulado e formalizado. As árvores, muitas, recebem todos os dias o rei sol que obriga lentes com filtro. Há porém engarrafamentos em horas de ponta matinais e vespertinos, apesar de abundantes nós rodoviários, passagens superiores para pedestres, túneis, viadutos estradas largas (se comparadas as luandenses) e conservadas.
- Por que será? Deficiente rede de transportes públicos o que faz com que muitos tenham de se deslocar aos seus afazeres usando carros particulares?
- É e não é. Os munjahidines (antigos Combatentes) estão a promover uma manifestação e a condicionar o tráfego. É uma das causas. Porém, o congestionamento também faz parte de nossas vivencias", razão pela qual, todos os anos há novas soluções para descongestioná-lo. - Respondeu-me o jovem chauffeur.
Um simples detalhe salta à vista: enquanto eles, há muito, vêm combatendo os buracos para que os "turismos não se vejam impossibilitados de trafegar pelos buracos, os nossos pensadores do passado, alguns com passagens por Argélia de Mohamed Ahmed Ben Bella, optaram por comprar carros cada vez mais robustos e de cilindrada elevada para contornar buracos. Coisas d'aqui!


Publicado pelo Jornal de Angola, Out./2018

sábado, dezembro 22, 2018

OS SEM PASTA NO EDIFÍCIO PÚBLICO

 Há dias em que o indivíduo não precisa abrir a boca, nem aprimorar a audição para ouvir "ouvir" coisas.
Acordou cedo, não tanto cedo quanto habituara a sua família, mas os galos ainda se desafiavam no canto.
Abriu a banca e o primeiro documento que lhe apareceu pela frente foi um antigo cartão de visita com mais de 15 anos. Passeou nele os olhos, quase soltou lágrimas de saudade, e recebeu a negação.
- Não és mais editor dessa rádio, faz tempo.
Desconfortado, abriu a segunda gaveta onde normalmente ficavam as esferográficas. A mão foi ter a um crachá.
Puxou-o lento. Evitou lê-lo mas a mensagem já estava descodificada.
- Chefe de...
- Chefe de quê? Eu? Beliscou-se. Quase a perder ânimo, pegou uma velha agenda e meteu-se a caminho da garagem. Qual seu espanto ao abri-la?
Um cartão de visita, de uma empresa falida, apregoava:
- Sócio...
-Não. Não pode ser. Hoje deve ser dia de azar!
Ligou o carro. Quase sem ânimo, ajeitou o cartão no casaco. Os olhos voltaram a anunciar o que menos pretendia ouvir. Era um papel que atestava a quem o carro fora emprestado.
- Director de...
- Director de quê? Não sou mais. O ministério inexiste!..
E agora?!
Meteu-se pensativo pela estrada. A primeira saudação que recebeu de alguém, numa superlotada paragem para táxis, foi "bom dia chefe, uma boleia, se faz favor!"
Imobilizou a viatura dez metros depois para despistar a multidão que julgava ser daqueles nganduleiros desavergonhados.
- Carro do Estado não é para kandonga. Pensou e acabou mesmo por dizer, ao ver viaturas top de gama, eventualmente pertencentes a órgãos da administração ou empresas públicas em serviço ocasional de táxi.
Negou aos outros interessados na viagem a preço e levou a colega.
- Bom dia chefe, mais uma vez. O director é hoje minha tábua de salvação. A chefe está má. Só tolera trinta minutos de atraso. Aquela senhora deve estar a entrar para a menopausa. Está muito ranhosa e eu que também sou outra prefiro cumprir o que ela quer. - Boatou a senhora.
- Bom dia dona Kuri. Grato pela saudação e pela preocupação em atender o que diz a legislação da função pública. Um dia será também chefe. Aliás, já foi chefe de repartição e deve saber como fica o líder com processos pendurados, o chefe imediato a buzinar e os liderados ausentes. Já esteve nessa pele, com certeza!
- É por isso mesmo que já não quero ser chefe de nada. O importante é a minha subida de categoria. Já estou na carreira de técnica superior. A diferença de salário com os chefes não é muita.
- Ainda bem que assim pensa. Influencie positivamente os seus colegas. Não desista nunca de praticar o bem. Basta pensar no que sofre quando vai procurar outros serviços. Isso é que temos de mudar.
- Obrigada meu director. Você é muito boa pessoa. No trabalho e fora dele. Muitos assim, desculpa ainda, Director, são poucos com juízo e capacidade de dar conselhos até às mais velhas. Espero que fique muito tempo connosco e suba na chefia.
-Muito obrigado dona Kuri. É uma pena que o ministério que me contratou foi extinto. Ganha-se pouco financeiramente, mas aprendo muito com as pessoas com quem trabalho e interaja todos os dias. Já não sou director de nada. Sou apenas um técnico comprometido com a coisa pública, com a mesma motivação como se fosse o meu primeiro dia de trabalho.
- Mas os outros que até são do quadro já não estão a trabalhar e esperam por segundas ordens em casa.
- Sim. Noto. Mas eu vim com uma missão. Trabalhar. Não posso ser devolvido aonde fui requisitado com atestado de incompetência ou irresponsabilidade. É isso que chamo Espírito. De missão. Sua preocupação em chegar cedo e "aturar a chefe" é também espírito de missão. É o que dizemos quando saímos de casa: "o papá ou a mamã vai trabalhar". E os filhos orgulham-se disso.
-É verdade, chefe. Com cargo ou sem cargo, aqui ou noutro lugar, você é pessoa que inspira.
Oito e um quarto. Chegaram ligeiramente atrasados. Mas foram os primeiros a transpor o portão do edifício.

Publicado no Jornal de Angola de 28.10.2018

sábado, dezembro 15, 2018

MANGODINHO NO L'AMITIE

Antes mesmo de Mangodinho ser a pessoa que é hoje, dotada de esperteza, sabedoria ancestral e conhecimentos da ciência moderna, o homem já teve umas "burrices" de lhe espetar uns cafriques em dias de hoje. Valeu-lhe a esperteza que os indivíduos do Lubolu nascem com ela, desde o ventre, pré - Kabanga até à universidade da vida.
No ano em que a OUA decidiu fazer um encontro entre as comunidades que mais conservam os (mores) hábitos e costumes, Angola fora seleccionada a enviar participantes ao evento, representando diferentes regiões e ambientes etno-culturais. A Mangodinho, que ainda nem sonhava sonho de ser soba, calhou a sorte. Foi representar o Kuteka, cuja realeza lhe está também no sangue.
Viagem de Lwanda à Njamena e depois ao Mali foi num avião grande que levava pessoas que falavam alto, sem travão naquelas bocas, e sem asseio no se apresentar. Pareciam nossas Kitandeiras das kapracinhas nocturnas, nas bwalas de Lwanda. C(h)ikwanga e peixe seco a entrar nas bagageiras, com cheiro de provocar vomitação e alguns passageiros mesmo com cheiro de vómito ou de kimbonza por curar. Mangodinho, primeira viagem dele num avião e, ainda mais para o estrangeiro, foi só.
Na boca dele de desbotado meteu fita cola que lhe veio na ideia e suportou só as vozes de bairro, em ambiente de gente chic de cidades, com governantes do "não-me-toques" ali misturados mas não na igualhagem.
- Cheiro de pessoa com banhos em atraso, cheiro de kimbombeiro que não lavou a boca e cheiro de kangonheiro ou vomitador, tudo é cheiro. Deixou a viagem terminar para passar um pano húmido nas extremidades do corpo e sprayar o seu perfume sobre o corpo antes de se fazer ao hotel "D'amizade" de Bamako. Único que, à beira do Níger, esticava o seu "pescoço de girafa" para se mostrar a toda a cidade, cercanias e povos do plano e seco além rio.
Ao todo, as ligações ou recolha de passageiros de Lwanda a Bamako eram quase dez. Parecia kandongueiro de dois eixos e quatro rodas fazendo Rocha-Kikolo.
Chegou já noite. Luzes, poucas acesas. Poeira muita à volta. Um rio, tipo o nosso longa ou a tentar aproximar-se ao Kwanza, cortava o bairro que chamam de "notre capitale".
- Coment s'apelle votre capitale? Indagou para confirmar.
- Cité de Bamako, terre de notres ancients. - Respondeu-lhe o jovem que se fazia transportar em uma carroça puxada por um burro. Veio a descobrir que era um guia turístico, algo que eles já tinham à data e nós ainda nem sonhámos com turismo.
O jovem que falava Espanhol, língua prima do Português que Mangodinho falava, acompanhou-o à recepção e ajudou a fazer o Check in.
- Votre nom si'll vous plait!
- Mangodinho, de Kuteka, filho de Zé Godinho e Kabezo...
Chegou a hora dos manjares, sem o guia e amigo de ocasião. Mangodinho na fila dos pedidos. Olhou os piteus que saiam, tudo diferente dos que conhecia. Olhou à volta, ouviu as vozes que falavam com mais civilização e não lhe chegou nem primo de Kimbundu nem primo de Putu.
- Estou fodido! Desabafou inaudível. Que fazer?
A moça do atendimento, atrevida nas perguntas. Chega um pergunta, ele responde e passa para o colega. Mangodinho ainda na dúvida sobre o melhor janguto.
O décimo da contagem dele pediu "poulet grillé avec pommes de terre frite".
Puxou da kaximónia e juntou os farrapos: batata frita com galinha grelhada. Só pode ser. Anotou na memória.
- Nada melhor para começar a noite. Disse a esfregar as mãos.
No dia seguinte, a cena repetir-se-ia pois o pequeno dicionário Português-Francês-Português que levava tinha de tudo menos a tradução dos manjares.
- Porra, pá! Estou tramado. Que faço para comer? Desabafou em solilóquio.
Pensou na táctica. O tempo pela frente fazia prever uma semana difícil. De novo ao dicionário: o mesmo=la même chose.
Dirigiu-se ao petit dejeneur, matabicho de lá. Viu um indivíduo com pão, ovo batido e uma caneca de leite com café. Ergueu o corpo, esticou o braço e pronunciou, desta vez audível.
- La même chose.
Funcionou. Ao jantar, viu, de novo, alguém comendo galinha grelhada com batata frita. Gritou "la même chose" e a coisa funcionou. No dia seguinte, uma moça pediu bife com arroz ajindungado. Mangodinho não sabia que naquelas bandas o kahombo e o arroz conversavam juntos na panela a dor que infligir iam ao comensal. Repetiu a frase e lá veio o "la même chose".
Ao chegar na banda, depois de beber do que os outros fazem para manter intacta a cultura, abrindo brechas para expurgar as práticas erradas à L'humanité moderne e deixar entrar as coisas boas que vêm do ocidente, contou as peripécias, primeiro aos amigos e depois à população que o enviou e recebeu orgulhosa da sua primeira internacionalização.
- Mangodinho, como é que são lá as coisas, conta-nos. O pitéu, as mboas, as avenidas, os passeios, os aviões, as manas da zunga e as kapracinhas da noite, conta tudo.
No seu quinto trago de destilado etílico à base de banana dondi, Mangodinho respondeu:
- Falar-vos-ei amanhã, antes da assembleia que o soba vai convocar. Por enquanto, é tudo la même chose!

Publicado pelo Jornal de Angola de 30.12.2018

terça-feira, dezembro 11, 2018

TELEFONE KAYTELE!

 
Ele mesmo cantou: Kapake itima ku mulu (3x), ku lwanda kitoka! (Prestei toda atenção ao norte e a coisa veio do sul). Assim foi a morte deste insigne filho da Kibala e de Angola. Toda atenção virada para idosos doentes, a má nova veio surpreendente. KAHINZA WAHI!
Atenção, partiu um "artista menor". Apelei que cantássemos e não chorássemos, quando recebi a triste notícia da partida do líder do grupo folclórico do Kwanza-Sul, Kumbi Li Xya, KAHINZA de sua graça.
- Cantemos, recordando canções como: "telefone ya Sumbe kaytele", tio ngunga ku Uiji watundu, muhapila nengosu, mbila mu Kwanza-Sulu!", entre outras quetas épicas e repletas de estórias e vivências Kwanza-Sulinas. - Apelei numa conversa com EC.
Porém, fui dos primeiros a chorar ao me aperceber que uma jornalista se apercebendo do infausto acontecimento informou ao realizador de um noticiário sabatino, a fim de ser levado ao mundo a má nova.
- Informei antes do Jornal começar, porém, a notícia sobre o calar da voz do grande artista que foi KAHINZA não passou. - Disse constringida e contrariada a jornalista.
E, ao que soube, naquele magazine de uma hora, foi dito tudo, menos a morte de KAHINZA. Terá sido considerado um "artista menor"?
Terá sido impopular ao não cantar os ritmos da "metrópole angolana"?
Terá desencantado mais do que cantado? Ou da venda de seus discos, sempre no Katinton, terá descontado poucos?
Partiu o autor de "umbumba kumbumba, kumbondo kutundu nyañwa", "mona way mwangope, kuwana omala kê way", ou "viva a paz, Angola está unida" ou ainda "Ki kwitena kwayaxike", só para lembrar. Ou terá sido a "sembização" da música angolana, que ofusca olhar para o lado e enxergar outras realidades e outros ritmos, que impediu o hierarquizar noticioso de pensar que não há arte regional (música, pintura, dança, literatura, arquitectura, cinema, teatro, moda, etc.) nem cultura menor?
KAHINZA, quanto a mim, era um artista de viola e voz firme. Suas canções levantaram poeira e continuarão a fazê-lo nos quintais do Prenda, Dangereux, Rangel, Kikolo, Rocha Pinto, Saneamento, e em todos os bairros e aldeias de Angola onde habitem Kwanza-sulinos e apreciadores do cancioneiro popular.
Assim como os políticos e os jornalistas são excelentes no que fazem, independendo do lugar geográfico em que tenham nascido ou vivam, tal são os músicos do povo que cantam a vida e as malambas do povo. KAHINZA foi um deles. É uma pena que o seu "telefone" não esteja mais a receber chamadas. Telefone kaytele!

Publicado no Jornal de Angola, a 16.12.18 e Nova Gazeta, 20.12.18

sábado, dezembro 08, 2018

QUANDO A FOME SURPREENDE A MUMWILA

- Amigo, dá só cem para comprar pão, mumwila tem fome.
O apelo da jovem, alta, esbelta no seu habitat, seios divididos em duas porções, eventualmente, por uma corda ou um cinto que a t-shirt azul escondia, foi "ordem emocional". Olhei-a nos olhos. Eram brilhantes. Os dentes também brilhavam na boca e estavam aguçados, um procedimento cultural. Dizem que "permite cortar melhor a carne", uma estória ainda por pôr a limpo.
- Mana, não tenho dinheiro. Vou ao multicaixa ver se o patrão já pagou.
- Então, vou esperar. Faz favor, mumwila tem fome. Só cem para comprar pão.
Voltei a reparar com mais detalhes. Baixei os olhos. A mulher ela longa. Um metro e oitenta ou mais. Andava descalça e tinha as pernas todas adornadas de metal reluzente em forma heliocêntrica. Mais atento, vislumbrei outras duas companheiras sentadas no lancil, provavelmente cansadas ou aguardando igualmente por um promitente ajudador. Tinham todas garrafas de plástico carregadas de substâncias licorosas. Chamam-nas "óleo mupeke" que as kalwandas gostam para fortificar e fazer crescer a "kindumba".
Aturada a fila, conclui que o ATM não tinha valores. Mal ergui os olhos, estavam as senhoras na mira, distraídas ou falando sobre coisas suas. Mas aguardavam pelos cem kwanzas para comprar pão, pois a "mumwila tem fome".
Vieram-me instantaneamente as fomes que senti, quando era garoto ou jovem procurando pelo primeiro emprego, e sem que muitos se predispusessem em ajudar com uma "magoga" daquele tempo.
Aumentou a minha responsabilidade e pesou a promessa que não fiz.
- Vou-me embora, sem que ela dê conta, ou revisto o carro a ver se encontro uma moeda?
A segunda ideia ganhou forma. Abeirei-me delas e pedi que me acompanhasse à viatura.
- Amiga, multicaixa não tem dinheiro. Não sei se o carro tem moeda. Você me acompanha?
A mulher franziu ligeira e visivelmente o rosto, desconfiado que não conseguiria o intento, depois de um quarto de hora à espera. Mas seguiu-me quase a reclamar.
- Amiga está triste? -,Indaguei para a acalmar.
- Mumwila tem fome. Aquele falou "Xipela". Cem num tem. Amigo também falou "xipela", pão num tem. - Respondeu tímida e suplicante.
Via-se cansaço e fome no rosto dela, mas uma pujante força de viver, mesmo que a vender óleos cosméticos tradicionais ou a pedir pão quando a fome chegasse mais cedo do que as clientes. Senti ainda mais a aflição da senhora. Lembrei-me de umas moedas que a minha filha me havia devolvido. Falei alto e convicto.
- Vamos. Tenho moeda no carro. Só uma.
A jovem mumwila endireitou o rosto. Caminhou com mais vigor, enquanto as amigas se lhe seguiam pachorrentas. Por sorte, eram duas moedas, uma de cem e outra de cinquenta.
- Ndapandula enene. Mumwila vai comer.
Fiquei aliviado. Melhor pedir do que ladroar.
Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta a 26/07/18