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segunda-feira, junho 01, 2020

O HOMEM QUE ME SALVOU

Mostrada a cicatriz abdominal, o "kimbanda kya Putu" voltou a questionar: E qual dos pés sofreu cirurgia?
Nascia o mês de junho de 2005. Viana, Terraço, tinha sido o destino depois de uma semana repleta de trabalho. Três colegas de serviço, em companhia da irmã de uma das colegas voltavam a Luanda sonolentos e cansados. O Vemba tinha aproveitado fazer as suas sempre oportunas reportagens que alimentavam a sua página cultural nos noticiários nocturnos da LAC. A viagem de ida, o convívio até ai corriam à feição.
- Sigam com calma e não ultrapassem os cem quilómetros horários. A voz soberana fazia-se ouvir apesar de meio turva dada a madrugada. Reclamava caldo regadio para às seis abrir a emissão da estação Azul, também baptizada por 955.
Já a primeira das duas viaturas se tinha afundado no horizonte visual. A cidade sonhava ainda antes de acordar.  Mal se fizeram anunciar as luzes da Avenida Deolinda Rodrigues, o Kia Avla, em que seguiam os quatro, decidiu ziguezaguear, levando-os à mortífera árvore que de sangue engordava nas barbas do que é hoje o Comando Provincial da Policia de Luanda.
Era ainda no tempo das vias estreitas entremeadas por um largo e longo "chourição" arborizado que separava os veículos a caminho de Catete e aqueles que visitavam a capital. Do outro lado da via, qual Lucifer vestido de branco, com os braços abertos, aguardava-os a Snt'Ana sepulcral com seus lúgubres lençóis.
- Sono? Embriaguez? Imperícia? Outra coisa não verbalizada? - As perguntas gritantes e mudas permanecem. Quem as podia responder já cá não está. Apenas a embriaguez e outras coisas meditadas em surdina posso descartar.
De repente, tão rápido quanto o acidente, curiosos, polícias, bombeiros e jornalistas fizeram-se ao local, qual maratona sabática em dias de campanha eleitoral. Choveram apelos na rádio Kyanda para que se mobilizassem meios e homens para salvar os infelizes.
- São jornalistas. Salvem os nossos colegas. - Verberou-se suplicante nos 999 de frequência e nas bocas atónitas dos presentes e ausentes preocupados.
Juntaram-se sinergias para o desencarceramento dos ocupantes do veículo encolhido abraçado à árvore máscula. Três dos quatro corpos ensardinhados suplicavam socorro às vidas que rapidamente eram sugadas pelo abismo faminto.
Machados, serras, tudo que os bombeiros usam e o povo guarda, pouco servia para cortar o volante, o tejadilho e desfazer as portas. O motor recuado no embate contra a árvore arrastou tudo para trás.
- Por favor, estiquem o carro porque temos os pés longe dos corpos. - A voz soberana, ainda distante do seu estado físico real, foi ouvida.
O Avla teria de ser esticado, amarrado de frente, à mesma árvore que também sangrava, e puxado pelo camião dos bombeiros.
Antes de terminar o desencarceramento, já um dos sinistrados, Vemba,  desfalecia no terreno. Não se ouvira dele sequer um ai.
Chegados ao Maria Pia, levados em duas viagens pela carrinha da patrulha policial, primeiro os ocupantes do lado esquerdo e depois os do lado direito, encontrariam Leonardo Inocêncio, jovem chegado das terras de Fidel, mãos afinadas no bisturi, sem ordenado ainda, mas com a mente casada com Hipócrates, mostrava aí a sua proeza altruística.
- Doutor será que ainda viverei? - Perguntou-o o Soba preocupado, depois de confirmar o finamento do colega e amigo Vemba.
- Vives, meu amigo. Vives, podes crer. - Respondeu convicto no fim do seu trabalho.
Dez anos depois, sem que as imagens faciais pudessem ser revisitadas, ei-los, 23 dias, a frequentar um mesmo curso destinado a administradores da Função Pública. Em "conversa puxa conversa", médico e paciente revivem o dia do acidente e de imediato se identificam.
- És tu que estavas naquele acidente de jornalistas?
- Sim. Sou eu doutor. Éramos quatro. Morreram duas pessoas e sobreviveram duas. - Explicou o sobrevivo.
- Por favor, vamos sair e mostra a cicatriz. - Orientou o cirurgião com a mesma autoridade que usa no Hospital perante os pacientes.
- O esquerdo, Dr. Inocêncio. - Confirmou o Soba, mostrando também a cicatriz na perna que tinha o tornozelo quebrado.
- Pois é. És tu mesmo. - confirmou o médico.
- É meu paciente. É verdade. - Disse Leonardo à vintena de colegas que aguardavam pela perícia. - "A ferida é minha". Conheço as minhas impressões. - Ironizou.
Abraçaram-se perante o olhar pasmado da turma. Choveram agradecimentos e recomendações ao médico anestesista que com Leonardo trabalhou na madrugada daquele primeiro  de junho.
- Obrigado Dr. Leonardo Europeu Inocêncio, por ter, com sua perícia, impedido que o abismo me sugasse ao seu leito negro.

PS: completam-se hoje 15 anos

domingo, maio 31, 2020

DIA D (XI)

Tudo como previsto.  Pouca Sorte, saído de Luanda, foi ver a Libertação de Kalulu. Coluna de Libertação de Kalulu, procedeu tudo quanto fora planeado. Os homens do Comandante Infeliz, conhecedores do terreno, foram à frente. No meio posicionaram-se os de Kara-Podre. O Grosso de Luanda, com toda a fúria e fogo, posicionaram-se na recta-guarda, como quem diz "Aqui, a ferro e fogo, ninguém recua".
- É retirar o galo da capoeira e má-nada! - Dizia o comandante Bonifácio nas recomendações finais.
Os primeiros foram pela Kakula. Os segundos entraram por Kibuma, Os terceiros subdividiram-se em três subgrupos coordenados no espaço e tempo: A saída pelo Kisongu, sendo inatingível, estava sob a alça-de-mira da artilharia pesada, fazendo com que quem lá estivesse ou procurasse fuga tivesse como alternativa adentrar a vila. Um pente fino se fazia pela estrada de Mukongu-Longolo e outro não menos apertado por Kabuta.
-  É morrer ou se entregar! - Gritou furioso o Comandante Infeliz, ao reentrar no seu quartel das mangueirinhas, de onde fora desalojado, havia uma semana, no dia de natal.
- Lupuka, lupuka, twendi.- Gritavam os desalojados, carregando o que podiam.
As milícias sobreviventes, já sem farda e sem armas deixadas na atrapalhação, tiveram, na fuga, de se juntar ao povo que procurava por abrigos mais seguros aos morteiros que caiam como chuva de Abril.
                                              ...

Comandante, Boni, infelizmente não temos almoço.
- O quê? O TêCê Infeliz mentiu?
-Não chefe. Não é o comandante que mentiu.
- Então quê que se passa para o comando não ter almoço? Falta arroz e lataria?
- Chefe, me perdoa só. Fizemos funji. Já está mesmo pronto. Só que na hora de ver onde estava o conduto, sentimos que o óleo estava misturado com gasóleo?
- E porque não matam o cabrito que disseram que estava a morar no palácio?
- Chefe, o cabrito também fugiu!

O quadrúpede que já se tinha habituado com os invasores e ocupantes temporários do Palácio que aí o levaram, ao vê-los em debandada, meteu-se também a fresco, indo pastar o mais distantes possível, na baixa do Kambuku, caminho da Kibuma, onde fora "raptado".
 

quinta-feira, maio 28, 2020

GRANADA ENCRUSTADA (X)

Era já tempo de paz. daquela mini-paz que se seguiu às maratonas negocistas em Portugal entre os donos das balas. Os homens que mandavam nas minas, não aquelas em que o individuo ou o carro acciona e morre, não! minas onde se extraem recursos. Dizia, os homens decidiram revitalizar a área e escolheram, uma do sul do país. A comitiva era grande. Homens, mulheres e alguns adolescentes que não se desgrudavam dos papás-mandões. Uns eram geólogos e outros eram apenas leigos que aproveitavam conhecer ou colecionar ajudas de custos que, quando bem usadas, podiam superar a avença mensal. Entre eles, Ngandu, antigo militar que emprestava força à extração de pedra que embelezava sumptuosas mansões nas grandes cidades da Europa e América.
Quando o grupo começou a se desintegrar em pequenos aglomerados de especialistas em qualquer coisa, sendo os líderes seguidos por curiosos e coleccionadores de afirmações alheias, eis que no meio da multidão surge um vozeirão:
-Aqui, há granada.
- O quê, chefe?! - indagou, com elevado espanto, um dos assistentes que tinha o corpo na mina e pensamento naquela enorme montanha plana que se fazia sobressair no meio dum mato desértico.
- Sim. Há granada no meio do mármore! - Clarificou o geólogo Ndandi.
- Granada que mata? Porra! Fujam. Pode explodir! - Gritou Ngandu, o ex-militar, tomando a dianteira dos pé-no-ngimbu.
Num abrir e fechar de olhos, a mina de mármore, calma em todos os dias de sua vida, tornou-se num corre-pr'aqui, corre-pr'ali, com homens e mulheres imitando cabras que se precipitam ante a presença de um felino.
-É mina que s'expludiu. - Açucarou  Kuribota, uma senhora de falas largas, aumentando mais ainda a tensão.
 
Noutra mina, não distante da exploração de pedra branca, viu-se pedra, fumo e ruído projectados para o ar.
- Bum!- Explosão foguenta e ensurdecediora.
- Wawéee?! Morri! - Um grito, mais um grito, mais outros. Pânico geral.
Um dos fugitivos, sem saber, arrastou o cordel detonador na exploração periférica que se dedicava à exploração de gness para pavimentação rodoviária.
O Ngandu, que de minuto a minuto se gabava "herói de muitas batalhas do tempo colonial e pós colonial", era um homem-pedaços borrifado por um misto de mijo e detritos alimentares.
Procuram-se ainda os fugitivos do "kibidi" e os que se decidiram, ali mesmo, se apresentar à contra-parte.
- Camarada terrorista, faz favor. Não me mata só. Apenas vim lhes acompanhar. Também fui raptado. Nunca andei com eles, nem sei o que é ser tropa. - Atirou dona Kuribota, prostrada ao vento, sentindo-se agarrada pelas costas.
Os espinhos duma árvore nua e sedenta impediram-na prosseguir o caminho da fuga, prendendo o seu largo casaco.

segunda-feira, maio 25, 2020

BALÁZIOS NATALINOS (IX)

Em Luanda, era festa de natal. Pouca Sorte, Sabalu (o desmobilizado), outro Sabalu (o kaynga) e mais outras famílias de sangue tinham juntado tudo o que conseguiram para viverem uma festa ímpar de suas vidas.
- Até água-ardente bagaceira havia. - Contou Kiteta, anos depois, aos sobrinhos reunidos para rememorar.
Kiteta era o anfitrião dos Sabalu e Súmbula, todos sobrinhos. Entre eles estava o Etelvino, afilhado do casal hospedeiro que decidiu passar a quadra natalina com a madrinha de quem era muito chegada.
- Amo mais a minha madrinha do que a mamã que me bate bwé. - Dizia ele quando questionado por que era mais visto em casa dos padrinhos do que na de seus progenitores.
Etelvino era hiperactivo, razão que levava sua mãe constantemente aos arames.
- Meu filho num põe pé no chão. Vida dele é só andar, é só mexer. Pessoa num tem descanso, toda a hora é progulema aqui, é receber parte ali. Esse filho lhe faço mais como então, vizinha Bela? Me fala você que nasceu e criou dez e é nossa mãe aqui no bairro. Me dá só conselho, faxavor!- Suplicava Manda-dya Xicu.
Etelvino, na escola, pioneiro esperto. Primeiro nas perguntas e nas contas. tarefa ele sempre faz antes de ir para casa. Rapaz inteligente, olho aqui, outro olho ali, tirou as medidas da rua e do bairro. A madrinha entretida nos bolos e os padrinho na caneca. Jorravam vinho, gasosas, kisângwa, cerveja pomba branca, Havana Club e água-ardente bagaceira. Os homens estavam no desfrute. Etelvino foi medir a rua que estava larga, decorada com fitas que suspendiam tiras de papel, de dez em dez metros. Havia farra de canudo e gira-discos e alguns simbas com cassete dos Kassav.
Etelvino com lápis e caderninho anotava tudo que via e ouvia para contar ao professor e colegas, na redacção encomendada sobre as festas de natal e ano-novo.
Chegou o casamento dos ponteiros do relógio. Meia-noite. os tiros começaram em todos os quintais onde houvesse militares, kayngas, desmobilizados ou refractários armados.
- Trá-tra-trá-tra-ta-ta-ta!. - Muitas rajadas a saírem de todos os lados e a pintarem de vermelho o céu. Assim se comemoravam os acontecimentos de grande importância, fazendo recurso ás armas-de-fogo que quase todos tinham. Tiros ao ar, bastantes até o carregador declarar secura, era sinónimo de festa ou vingança. Mas o dia era de festa nalguns lares.
Kiteta, a mulher e demais convivas, até os pais de Etelvino, estavam nas engordas, a comemorar mais um natal.
- Acudam, socorro, faxavor! É um pioneiro! - O grito replicado de gente que se divertia, fez despertar o bairro.
De repente, a rua ficou apinhada. Era pioneiro desconhecido. Não tardou, chegaram os padrinhos, também movidos pela curiosidade, apenas para ver e não esperar pelo disse-que-disse do dia seguinte. Olho de mulher é tipo de lince. Dina Santos, olho atento nas vestimentas do pioneiro tombado.
- Wawé, kokolo dyami! Wawé, Etelinoé! Falo quê na tua mãe, mô afilhado?! - O choro desesperado de Dina prolongou-se durante a manhã toda e toda a semana. O Etelvino fora atingido por uma balça perdida que se alojou no seu crânio.

sexta-feira, maio 22, 2020

BAZUCA PERDIDA (VIII)

A guerra civil estava no auge. As rusgas, os anúncios nas rádios sobre soldados tombados, capturados, velhas violadas, crianças mutiladas na fuga eram conversas do dia-a-dia e que nunca faltavam nas bichas nas lojas de qualquer coisa.
- Kalulu estava tomada pelo "inimigo". A vila tinha resistido durante setenta e duas horas, mas, sem apoio da aviação, nada mais havia por fazer. Era evacuar as mulheres, os velhos, os feridos, queimar o armamento que não dava para levar, desmontar as agulhas das armas e deixar os gajos entrar. - Era essa a conversa dos mais velhos.
Uns tinham sido já militares como o Sabalu Kambota, o Kiteta e o Kwanza e outros como o Pouca Sorte tinham conhecimento de guerra verdadeira vivida no terreno. Mas outros, guerra deles era só mesmo nos noticiários e nas conversas de kotas que voltavam de férias, feridos, evacuados ou que tinham fugido a tempo da vida militar.
Matoumorro era ainda kandenge e, embora apreciasse as estórias, compondo um filme imaginário, idade da tropa, para ele e Etelvino, ainda não tinha chegado.
- Depois de três dias nas mãos dos "inimigos", a vila de Kalulu seria finalmente recuperada. - Era o que a rádio e o jornal diziam.
Deixado o vilarejo de Munenga, quem sobe em direcção à Vila, ao descrever a Curva do Aníbal, a coluna descobriu que um grupo "inimigo" preparava-se, junto de Lussussu, para ir reforçar os ocupantes de Kalulu que desconfiavam "poder ser regados pela aviação" ou ser atacados a partir da entrada da Ponte Filomena, à Kabuta.
- Ngandu!
- Chefe!
- Presta atenção e toma nota: atirar há trinta quilómetros. Posição sul, latitude 14 graus e longitude 21 graus. Duas batatas. - Ordenou o comandante da Coluna de Libertação de Kalulu, saída de Luanda, o coronel Bonifácio.
Havia já cinco dias de movimento com paragens e avanços coordenados a partir do Estado-Maior General.
- Senhor coronel, só no dia D-1 se avistará com o comandante Kara Podre que está de momento a fazer pente na região à volta para impedir reagrupamentos de pequenas bolsas e reforço ao nosso alvo. O comandante Infeliz e a tropa que lhe sobrou dizem também que estão com moral elevada e prontos a integrar a CLK, no dia D-2. - A ordem do operador de rádio, às ordens do general Dilaji, indicava ainda uma paragem no campo da Eka e uma marcha de cinco quilómetros em direcção a Kazengu. Uma intromissão no sistema de comunicação inimiga seria feita apontando a progressão naquele sentido, ao que a coluna recuaria ao Alto Dondo e apanhar a EN 120 que conduz à Munenga e desta para o objectivo. A ordem dada ao coronel Boni rezava ainda:
- Efectuar paragem no horizonte C3/D-2 e integrar o efectivo recuado.
Ngandu, bússola à frente, mapa na mão, calculou a distância, introduziu as coordenadas, soltou um curto alarme e soltou um morteiro e mais outro. Apenas os soltou sem saber o que havia no destino.
- Bum! - Rebentou o primeiro no meio do aquartelamento precário.
- Bum! Rebentou outro com maior intensidade, pois calhou numa pedra plana que levou estilhaços de aço e de brita ao encontro da companhia de civis armados na aurora para irem "fazer barulho com disparos" ao lado dos homens do Man-Babas.
Ao segundo rebentamento, a companhia ficou desfeita.
- Ai wé, ndifa! - Gritou o chefe atingido, provocando a dispersão do povo-armado que voltaria às suas aldeias do makyakya e xilimina de todas as noites.
- Quando a morte te pode visitar a qualquer hora, todo o instante de vida deve ser festa. - Dizia-se pelas aldeias visitadas pela guerra e por isso, fosse em presença de forcas armadas do povo ou do inimigo, o povo comia o que conseguia, bebia se walende e fazia xilimina, folguedo com batuques e guitarras de fabrico artesanal.
Depois do lançamento das batatas, a Coluna de Libertação de Kalulu continuou a marcha. Infeliz, Kara Podre e suas tropas, todos conhecedores da geografia e das aldeias com propensão para acolher e apoiar logisticamente a rebelião, já estavam integrados na CLK.
Enquanto os comandantes da região faziam o balanço e o ponto de situação no terreno, bem como confirmavam as cartas trazidas por Bonifácio, Ngandu apensava no que podia ser a consequência ou a perda material daquelas duas bazucas perdidas.
- Aonde foram? O que encontraram? E se uma tiver caído na kinda duma velhota a caminho da lavra? E se outra matar um boi, quem vai se aproveitar da carne? E se cair na lagoa de um rio, quem vai recolher o peixe? - Era a última paragem. Aproximava-se o Dia D.

Publicado no Jornal de Angola de 01.09.19

terça-feira, maio 19, 2020

BALAS CRUZADAS: E AGORA (VII)

Quando chegou a febre do Hi5, Keci Mandumbu conheceu Fafá, sem que os nomes apontassem para alguma proximidade familiar. Kitumba Keci Mandumbu, como se apresentava na rede social substituída pelo facebook, nasceu e sempre viveu no Kwandu Kuvangu.
 
- Meu pai, andou por cá, nos tempos da guerra de Mavinga e Kwitu Kwanavale. Deixou-me, talvez, na barriga de minha mãe e com as confusões que se seguiram, eles nunca mais se encontraram. Nem telefone havia, naquele tempo e carta também não tinha destino certo nem portador. - Narrou, acrescentando acreditar que tenha perecido nas refregas do 23 de Março de 1987 ou nas guerras que vieram depois da mini-paz de Maio de noventa. - Minha mãe conta que ele era destemido. Nome dele era Sabalu e era infanteiro. Nada mais sei sobre ele e mesmo que apareça pouco ou nada acresceria à minha pobre vida, pois até sou mais conhecido por "Sem Família", que na nossa língua nativa é Keci Mandumbu.
- Meu pai também andou naquelas paragens como jornalista militar e conta várias cenas de combates que dizimaram muitas pessoas e desestruturam famílias.   
 
Fafá, a jovem, é de Luanda, entrou na casa dos dezoito e é filha de Pouca Sorte, o jornalista de mochila e arma.
Pouca Sorte e Sabalu eram primos. O Hi5 fê-los criar paixão um pelo outro, sem que soubessem do parentesco. Avançam ou param?

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sábado, maio 16, 2020

TIROS MADRUGADORES EM NHUNDU (VI)

Certo dia, a coluna militar de reabastecimento que progredia de Savate a Nhundu, na EN 140 paralela ao rio Kuvangu (Cubango na língua dos outros), teve de pernoitar. Andar com luzes acesas era dos maiores perigos, tendo em conta a vigilância dos "mirages" carcamanos. O comandante ordenou paragem, ocultação dos objectivos e dispersão. Fez as leitura das permissões e, sobretudo, das proibições.
- Não foguear, nem fumar. Não se movimentar de trás para frente. Atenção à senha e contra-senha. Atenção à voz de comando...
Os soldados que não conheciam a zona e os novos na coluna, como foi o caso de Pouca Sorte, foram aconselhados a sinalizarem o nascer e pôr-do-sol como possível orientação de posicionamento em caso de ataque.
É certo que "as FAPLA não dormiam" mas o inimigo atacou a coluna à madrugada e à distância, criando pânico na coluna motorizada da BTR.
- Bum, bum, bum. - Foram três bujardas apenas.
- Apenas? Você que nunca foi tropa de verdade diz apenas?
Toda a tropa acordou a dispara instintivamente a toa. As kalashenikov, sempre à mão, já estavam abastecidas e oleadas desde o momento da partida. O primeiro minuto foi de "fogo de presença e para medir força". Cada disparava aonde lhe pareciam terem saído aquelas "batatas". Depois surgiu o comandante a orientar o posicionamento táctico do fogo, em caso de necessidade de resposta ao inimigo.
Foram muitas balas disparadas. Muitas delas dispersas que poderão ter atingido alguém, um ser vivente com sangue ou simplesmente se enterrado na terra, numa árvore ou ainda na água abundante de rios caudalosos.
Pouca Sorte ficou a pensar noutras guerras mais prazerosas do que violentas que os soldados e jornalistas militares tiveram ao longo de uma vida inteira. Lembrou-se de seu primo Sabalu Kambota, militar da 108 brigada de infantaria e assalto. Contara-lhe, em carta, que tinha passado, mata-a-mata, pelo Lunge-Bungu, Longa, Luxazes, Kamanonge, Mavinga e Kwitu Kwanavale.
- Já depois de recebermos as medalhas dos cubanos pela defesa de Mavinga, e contençãodo inimigo e sua derrota no Kwitu Kwanavale começamos a sair do quartel para as bwalas disparar a arma encravada pela solidão nocturna de todos os dias. Foi assim que conheci uma pioneira filha de um criador de gado com a qual deixei um filho que dei nome do teu primo Kitumba. A vida de tropa tem dessas, meu primo. Uma dia, se a paz chegar e a estrada permitir, vamos lá recuperar a tua cunhada e o teu sobrinho. - Sabalu falava com nostalgia e decisão.
É pena que tenha morrido ingloriamente como civil desmobilizado e que a aldeia e o nome da mulher não tenham sido clarificados. Mas o Facebook ou outras técnicas que os homens gostam de parir ainda são esperança para recuperar Balas Perdidas..!

quarta-feira, maio 13, 2020

BALA PROVOCANTE (V)


Já não sei quem era o aniversariante. O quintal estava requintado em manjares e pessoas que há bom tempo não se viam. Ramos de palmeira e até mesmo de cedro engalava os cantos, segurando balões e outros adereços.
- Quenhê, então que está a despejar água da cozinha p'ro quintal - Indagou dona Tetê, a esposa de Pouca sorte, que recebia e acomodava os convidados e vizinhos chamados pelo cheiro e pelo entra-e-sai de pessoas e coisas de ver de-vez-em quando.
- É ninguém, mamã. Respondeu Rosalina, uma das sobrinhas de casa, convidada para dar sangue à confecção de salgadinhos e outros acepipes que os homens em falas altas e galhofa, no quintal, apreciavam com paladar aguçado.

Tinham passado trinta e picos anos desde o último pingo de água, na torneira instalada entre a porta da cozinha e o quintal que estavam agora cimentados, ao contrário do ano de 1983. 

De repente, o quintal se transformou em uma cacimba, obrigando os mais velhos, dentre eles o anfitrião Pouca Sorte, a encolherem sucessivamente os pés, as pernas e a mesinha que carregava os comíveis e bebíveis.

Na cozinha, as mulheres pensavam numa borrada dum homem qualquer que tivesse as canecas já acima do limite. No quintal, os homens botavam, silenciosos, as culpas nas mulheres que estavam na cozinha, até que Pouca Sorte mandou-lhes um grito de homem.

- Mas, vocês aí então na confecção alimentar, qual é o azar desta água. Alguém falhou na panela e entornou no chão? Passem pelo menos uma vassoura e um pano-de-chão!

- Não é aqui, ti Pouca Sorte. A água está a sair mesmo aí, no quintal. Também já se perguntamos quenhê o tio que em vez de entornar cerveja na boca serviu 'mbora no cimento do quintal. 

A afirmação de Rosalina fez Pouca Sorte viajar no tempo. No tempo em que a casa era um cubículo, sendo o beco mais largo. Era ainda tempo de água abundante nos quintais de pau-a-pique e quintais feitos de aduelas. As kavwanzas e os kangonyeros eram poucos e as balas disparadas podiam ser contadas em número e recontadas em estórias. Lembrou-se, pois, daquela briga com o diamporô Matengó disparando um balázio que se enterrou no chão. Nem aquela casa ainda era dele. Viajou ainda mais aos detalhes e locou soltou em solilóquio:
- Só pode ser. Será que encontrou alojamento na conduta que atravessa o quintal? Só pode ser.- Finalizou ... 
E não é que ninguém imaginava o disparo de há trinta e tal anos? Nem mesmo ele, Pouca Sorte, fazia ideia!

domingo, maio 10, 2020

BALA PERDIDA ESTÁ FORMADA (IV)

Bernardo Manuel, mão no touch screen do telefone, outra mão no queixo a travar a cabeça. De baixo do boné só pensamentos, a pensar com corrida pensamentos que lhe correm como água rápida do Longa caudaloso no Kabutu.
- Por que Avança avançou com minha descendência de grande parecência sem me avisar? Como lá chegar e como informar a dona Pancha? - Sozinho em casa, Pouca Sorte matutava. Na boca, ora cachimbo, ora katula mbinza para aliviar pensamentos.
Os da escola estavam quase a chegar. Menos a mulher, dona Pancha, que voltava às seis e meia da noite.
- Papá, aquela moça da foto, nome dela verdadeiro é Sputnika Tatiana Manuel. - Informou Faz Tudo, antes mesmo de jogar a mochila sobre o sofá.
- Como assim, Fafá? - Bernardo era único em casa que encontrara um diminutivo para Faz Tudo, um nome que tinha transposto o quintal e o convívio familiar. Era faz tudo p'ra cá e p'ra lá, até na escola. Fátima era só mesmo na hora da chamada escolar ou de viajar, no aeroporto.
- Sim papá. Teclei com ela. Mora mesmo em Luanda e é filha da coronel Avança, da Escola Superior de Guerra. Falei-lhe que quero ser militar como a mãe dela e ela mandou-me procurá-la se acompanhada do papá ou da mamã.
- Mas como é que chegaste a ela? Como? Como é que faço da minha vida?
O questionário de Pouca Sorte seria cortado pela chegada de Ricardo, o filho mais velho, acompanhado de Mendinho, o derradeiro.
- Comué, Bué de Sorte? Conseguiste nos dar uma irmã mais velha?! - Atirou Ricardo, troçando e abraçando o pai.
Faz Tudo tinha, como lhe era hábito, feito tudo. As buscas, o processamento de informações, a hierarquização e a distribuição à mãe e aos irmãos.
Pouca Sorte fingiu um sorriso desconfiado. Olhou para o relógio do telefone e recebeu a informação horária que apontava para a chegada iminente de dona Pancha. Foi à garrafeira e tomou um trago, mais um, mais outro. Katulambiza-das-ponteras, de Malanji, deslizava na garganta como água e coragem de enfrentar caralmente dona Pancha ou se acobardar na kapuka tardava.
Olho na porta, lho no telefone, olho na garrafa. Pouca Sorte, corpo na terra pensamento no ar. Era ao mesmo tempo homem e vento.
- Que direi à Pancha quando chegar? - Murmurou.
- Pum, pum, pum, pum. - Não tardou o bater à porta.
- Quenhê? - Indagou Pouca Sorte, desejoso de encontrar um buraco para se enterrar.
- Dona de casa. A senhora que manda aqui. - Era desse jeito que Pancha respondia quando o inquiridor fosse o marido ou o filho mais velho.
No abre-não-abre, Pouca Sorte ficou-se entre a saída da sala e o portão. Sem forças para caminhar, sentiu-se um papel sem peso.
- Ricardo?! Vai atender a mamã.
O jovem, 20 anos feitos, correu da cozinha à sala como bala.
- Esteja tranquilo, papá. Já preparámos a velha.
- Boa noite senhor Bernardo Manuel, "Muita Sorte". Sabes o que trouxe hoje para ti? Adivinha. - Saudou Pancha que não deu tempo para resposta, exibindo uma revista soviética dos anos oitenta. Era uma Sputnik, coincidentemente o nome da filha até então oculta involuntariamente.
- Lê a revista e prepara os teus filhos para receberem a irmã. Está registada com o teu sobrenome e já tem formação e lar. Sabes como é tratada em casa dela?
- Não, mulher!
Aié? Devias começar a investigar mais. É Bala, apesar de ser Sputnika Tatiana Manuel, no bilhete!

Publicado no JA de 14.07.2019.

quinta-feira, maio 07, 2020

DOIS PERDIDOS: E AGORA? (III)

Quando chegou a febre do Hi-5, Keci Mandumbu conheceu Fafá, sem que os nomes apontassem para alguma proximidade familiar. Kitumba Keci Mandumbu, como se apresentava na rede social substituída pelo facebook, nasceu e sempre viveu no Kwandu Kuvangu.
- Meu pai, andou por cá, nos tempos da guerra de Mavinga e Kwitu Kwanavale. Deixou-me, talvez, na barriga de minha mãe e com as confusões que se seguiram, eles nunca mais se encontraram. Nem telefone havia, naquele tempo e ...carta também não tinha destino certo nem portador. - Narrou, acrescentando acreditar que tenha perecido nas refregas do 23 de Março de 1987 ou nas guerras que vieram depois da mini-paz de Maio de noventa. - Minha mãe conta que ele era destemido. Nome dele era Sabalu e era infanteiro. Nada mais sei sobre ele e mesmo que apareça pouco ou nada acresceria à minha pobre vida, pois até sou mais conhecido por "Sem Família", que na nossa língua nativa é Keci Mandumbu.
- Meu pai também andou naquelas paragens como jornalista militar e conta várias cenas de combates que dizimaram muitas pessoas e desestruturam famílias.
Fafá, a jovem, é de Luanda, entrou na casa dos dezoito e é filha de Pouca Sorte, o jornalista de mochila e arma.
Pouca Sorte e Sabalu eram primos. O HI-5 fê-los criar paixão um pelo outro, sem que soubessem do parentesco. Avançam ou param?

... DEDESENVOLVER TEXTO ...

segunda-feira, maio 04, 2020

BALA ESCONDIDA (II)

- Xê, wi! Cuidado com a boca. Tu não sabes quem sou eu. Se abrires mais essa mandíbula, vô te bondar e vô te cumprir.
- Xê?! O quê? Te duvido. Achas que sou civil ou quê. Vamos se cumprir. Ou melhor, eu te bondo primeiro e te cumpro, sô meu cão de merda.
Já não era o inicio da briga. Era mesmo o meio da confrontação verbal, da troca de argumentos não muito convincentes, e, sobretudo, de músculos e adereços que se achavam à cintura....
Pouca Sorte estava ali ocasionalmente. De passagem para o culto nocturno em sua comunidade religiosa de proximidade que os metodistas designam Classe. Ao passar pelo beco, dois kangonyeros aqueciam os motores com fogo de artifício.
- Pá, pá, pá, pá. -Estoiravam as sementes submetidas a fogo, seguidas de um "passa o mambo" que Matengó, outro transeunte, entendeu ser ordem para desmonta.
- Porra! - Gritou Matengó. - Sou kwemba e já vi muito sangue, mô ndenge. Noutras vandas, já fatiguei muitos putos. Mas aqui, sei que são kandenges da banda.
- O quê, kota? Cuidado, vou te fatigá! - Atirou im dos muzangala, empunhando uma baioneta.
Matengó, mexicano puro, antigo craque no desmobta tia zaikô que se tornou pistoleiro na tropa em Kahama, Kwamato e Xangongo. So faltou-lhe entrar em Môngwa e Ndjiva. Matengó, mesmo desmobilizado da greguice e da tropa, não deixava créditos em mãos de estagiários.
- Porra, pá. Filho da puta! Vais me quê? Eu? Sacou da "sua esposa", a "Tt" que se achava já com a patilha desguarnecida e fez dois balázios a queima roupa.
- -Mãos no ar, filho da puta!
Um dos bandidos que lyambavam no beco pôs-se a fresco. Teve tempo de pular umas aduelas e correr sem norte. Parecia ter sido atingido, mas o disparo de Matengó foi só de controlo. O outro que tentou torrar farinha com o kota estava banhado de mijo.
- Me balaziaste, kota. Só brinquei contigo e me fatigaste já? Assim mesmo está bom, mô kota da banda.
Sem a argúcia que a liamba e a baioneta lhe conferiam inicialmente, Nguma teve de entregar o corpo ao deleite de Matengó que era considerado em todo o bairro do Mexico como "bom em porradar".
Pouca Sorte viu tudo aquilo. Parecia um filme. Desistiu do culto e foi a correr à casa. Felizmente, aquela bala disparada por Matengó se escondeu na terra húmida do Beco 3 do Kaputu. Não estava perdida e não daria a reclamação futura de um ser vivente, senão da conduta de água ausente em que ela se alojou.
Veremos no que dará quando o SMAE, empresa que cuida do abeberamento, reabrir as torneiras.
...

sexta-feira, maio 01, 2020

BALA PERDIDA (I)

Pouca Sorte era um jornalista militar.
Naquele tempo de guerra apertada, a comer carne humana como porco no farelo, ir às frentes de combate para ver de perto o "ngongo-ya-mona-a-dyala" não era coisa para qualquer um.
Bernardo Manuel, seu nome de bilhete, já tinha sido das BPV e ODP, antes de se alistar nas FAPLA onde foi "transferido" para o periodismo pelos instrutores cubanos. A sua curiosidade aguçada em obter os porquês e a forma suave como arrumava as respostas que obtinha pela observação e fala dos "kwemba" levaram-no à tal "pouca sorte".
Para uns, ser desviado de tropa para jornalista era sorte grande. Porém, para ele e parentes, "jornalista dos tropas é tropa". Por isso, diziam "Bernardo é um pouca sorte", nome que lhe ficou colado ate hoje.
Numa dessas idas às zonas quentes de refregas animalescas, conheceu Avança, uma jovem militar bonita de meter os inimigos a se olharem sem disparar. É pena que não tenha sido fotografada no auge da sua beleza militar.
Conheceram-se numa noite de reabastecimento e de palavra e garfada farta. Com o passar do tempo, nas selvas de Savate, Avança e Pouca Sorte foram trocando uns olhares mais compenetrantes que não se ficaram por ali, até que um dia os seus corpos se tocaram até provocarem uma explosão.
Passou tempo. Muito tempo mesmo sem que Pouca Sorte soubesse das consequências daquele acto bom, de que não se lembra mais se houve ou não intermediação láctica.
As guerras mortíferas terminaram. Felizmente. Chegou o facebook a recordar guerras passadas e reencontrar caras do passado.
Nessas idas ao desconhecido, enquanto dedilhava, encontrou um rosto que lhe fez recordar os nove dias de Savate.
- Essa cara não é estranha. - Vozeirou alto, entre garfo e copo com amigos.
Vasculhou as fotos. Era uma jovem nos seus 30 anos. Avança? Não pode ser. Terá agora 50 anos como eu. Mas a cara é muito parecida. Aguçou a curiosidade e alcançou o ciclo de amizades e as fotos familiares.
Encontrou a imagem de uma mulher fardada, carnes fartas a congestionarem o verde-cinza-malhado que chamava de "coreana". Saltou -lhe o coração.
- É ela. Avança. Deve ser mãe da moça. Só pode ser.
Abandonou o amistoso em que se encontrava com os amigos e foi à casa contar aos filhos o achado.
- Sabem quem descobri hoje?
- Não. Conta, papá. - Pediram os filhos.
Mostrou a foto da mulher-militar, aquilo que ele aconselhava que a filha do meio, a "Faz Tudo", fosse.
Repararam nos detalhes da senhora que em 1984 travava valentemente ventos de morte ao lado de homens que choravam ao sopro de bala.
- Era dama corajosa, papá. - Atestou Faz Tudo.
Encorajado, Pouca Sorte mergulhou nas fotos baixadas no perfil de Avança. Avançou mostrando uma a uma até aparecer a da jovem aparente filha de Avança.
- E essa, quem é, papá?
- Deve ser filha dela. Repara nos traços. A tez, as maçãs do rosto quando ri. Conheci bem a Avança...
- O papá já reparou nos olhos e no nariz da moça? Deve ser nossa irmã. - Faz Tudo desse-lo de forma tão convicta e séria que o coração de Pouca Sorte se aproximou à boca.
- Vossa irmã? Como assim?
- Repara bem, papá. Repara. - Insistiu Faz Tudo, a "Tropa de Casa", como também é carinhosamente tratada.
Pouca Sorte recuou no tempo. Vieram-lhe à memoria os nove dias de Savate e os 12 dias em Nancova, sempre próximos ele e Avança. Cada dia mais próximos avançando-se com Avança. Baixou a cabeça e balbuciou qualquer coisa.
- Só pode ser consequência de Bala Perdida!

Publicado no JA de 07.07.2020

quarta-feira, abril 29, 2020

QUINZE ANOS DE "OLHOATENTO"

Muitos textos,
Outras páginas temáticas emergiram daqui,
Muitos amigos: de Lisboa a Angola e ao Mundo. Estiveram na origem desta página os estudantes do III Curso de Jornalismo e Novos Medias destinado aos PALOP, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e ministrado pela Universidade Católica Portuguesa:
- José dos Santos, Carolina Barradas, Alves Fernandes, Fernando Borges, Pe. António  Estevão (Angola)
- Ouri Pota, Diamantino Mazuze (de feliz memória), Josina Taipo, Pe. Benvindo Tápua e Faruco Sadique (Moçambique)
- Manuel Dênde e Teutônio Menezes (STP)
- Helmer Araújo, Salvador Gomes … (Guiné Bissau)
- Anatólio Lima e Alexandre Semedo (CV)

Veja aqui: http://m.portalangop.co.ao/angola/pt_pt/noticias/educacao/2007/11/50/Portugal-Jornalistas-angolanos-concluem-formacao,7af5ee4c-9602-4c5e-8d80-ad696a84bfcf.html

quinta-feira, abril 23, 2020

À CHEGADA DAS COMPRAS

- Mangodinho, Mangodinho, no Dondo já não encontrámos loja aberta. Polícia está mesmo a levar kuzu quem lhe apanham a vender fora do horário. Chegamos até Luanda e nos falaram as ventoinhas contra Covid-19 são outras, tipo é computador, e não essas de se soprar com ele no calor. - Atirou Madalena, perante o espanto de Mangodinho que tinha conferido tudo, menos os ventiladores.
- Não pode. A ministra disse mesmo ventilador e eu ouvi bem. Como é que de pé pra mão o produto muda de nome?
- Sim. Disseram que os tais ventiladores só pode haver nos hospitais e manuseados por médicos cubilas. Por isso é que voltámos de mãos à banana. - Acrescentou Sembe.
- Não é de mãos à banana, seu banana. É mãos a abanar. - Corrigiu Mangodinho. Mas continuem. E assim como é que vamos fazer para correr com o coronavírus?
- Sembe, você que estudou enfermagem conta tim-tim-por-tim-tim. - Pediu Madalena.
- Bem, Mangodinho, é assim. Os ventiladores são equipamentos electrónicos que ajudam a pessoa doente a respirar. Só podem ser instalados nas salas de cuidados intensivos dos hospitais e manuseados por especialistas qualificados. Disseram que nós nem temos ainda pessoas em quantidade e qualidade para trabalharem com os tais respiradores.
- E assim?
- Pois é, Mangodinho. Assim, voltámos com algum dinheiro. A outra parte comprámos, sabão azul, álcool e baldes com torneiras para colocar em todas as casas.
- Está bem. Descansem. Amanhã vamos informar a aldeia. O nosso foco deverá ser mesmo lavar as mãos.

segunda-feira, abril 20, 2020

A LAGOA DE TEREMBEMBE

Gosto de apreciar a lagoa (inicialmente natural) e aproveitada para destino das águas pluviais e da macrodrenagem da Cidade de Viana. A sete metros de altura, a partir do meu terraço, a lagoa e sua cercania parecem, a olho despreocupado, um manto de capim verde e vida aquática por baixo, destacando-se tilápia e bagre. Podia ser um encanto, mas não é, pois a pensar na sua evolução histórica o alerta bate.

O jornalista Luis Carlos Fernandes Lousada  descreve Terembembe da sua infância:
"A lagoa de Terembembe, da minha infância, ficava no mato, aquela área de Viana (entre o motel Montes Claros e a Comarca) já se podia chamar mato.  
Ao seu redor havia muitos gingongonos que são uns frutos silvestres que, quando estão maduros, têm a cor das uvas. São muito doces e quando os retiras do arbusto (com espinhos) este deita um líquido da cor de leite. 
A lagoa só ficava cheia nas grandes chuvadas (de Abril). Ficava tudo lavado e, de repente, apareciam milhares de sapos a coaxar.  Também chegavam os pássaros e até os patos bravos. É nesse tempo que aparecem os pássaros, sipaios amarelo e preto que pousam nos papiros que crescem  na margem da lagoa, os cardeais de 12 rabos de cor negra, com umas manchas amarelas perto das suas 12 penas que formam a cauda e os bengalinhas amarelo. Na borda da lagoa havia sempre vestígios de se terem feito as chamadas mesa da kianda. Todas estas lagoas têm a sua sereia e os cultores da kianda: metem toalhas com pratos e comida.
Nós só víamos os vestígios dos pratos partidos e alguns utensílios de cozinha. É o tempo mais bonito porque o capim e as kissassas (folhas) estão todas lavadas e o seu verde resplandece ao sol.
Na lagoa de Terembembe até tartarugas havia e, às vezes, apareciam as cobras ( jiboias) que metiam medo e mesmo as cuspideiras, de uma cor negro azulada. Quando eu e o meu irmão Zeca tomávamos banho, depois da chuva, com a lagoa cheia, a água ficava muito limpa, às vezes tínhamos que retirar os sanguessugas que se colavam às pernas. 
Era o tempo bom para a caça com fisga e com uma pressão de ar que tínhamos, ficávamos debaixo das mubangas à espera dos rabo-de-junco, das rolas e dos pimplaus. Foi o melhor tempo da minha vida.
Mas a lagoa é ainda muito mais do que isso! Antigamente, em Viana, as pessoas bebiam a água das lagoas/cacimbas que era filtrada pela pedra de Sanga...".
Hoje, poucos conhecem o nome da lagoa e nem está escrito o seu passado. O que se vê e se vai sabendo é que Terembembe vai recebendo, sem cessar, a água repleta de imundície que Viana inteira lhe dá. Já não aquela água limpa. É assim, dias sim, meses também. Sem outro destino para as descargas pluviais e águas residuais colhidas pelas sargetas, seria bom se fosse conferida maior profundidade à lagoa, bermas e "braços" pavimentados e uma utilidade ´lúdico-turística. Deixaria de ser uma simples entrada de água e lixos sem fim e os mais velhos do tempo do Lousada reviveriam as estórias que só Terembembe e uns poucos como o Lousada conservam.

quinta-feira, abril 16, 2020

OS VENTILADORES E AS VENTOINHAS


Quando viu e ouviu a Ministra da saúde a falar sobre a importância dos ventiladores na recuperação dos doentes da covid-19, Mangodinho não se deixou ficar atrás. Homem avisado, filósofo e previdente, para o seu povo, decidiu tomar a dianteira.
- Esses nossos governantes também metem pena. Como é que num país como o nosso, que já vai tendo energia mas com hospitais sem janelas, os ventiladores já desapareceram? Uma ventoinha custa comprar? Custa caro para termos só uns cento e tal ventiladores de Kabinda ao Kunene e do Lupito ao Lwaw? - Questionou-se para depois chamar o povo.
Não tardou para que o terreiro tivesse representantes de cada agregado familiar. Ao lado dele estavam o puto Sembe e a miúda Madalena. Esses já tinham estudado mais do que Mangodinho e eram os que ajudavam nos trabalhos de sensibilização comunitária.
- Bom dia meu povo. A nossa conversa de hoje é curta. Antes vamos aos procedimentos de distância. Quem já foi tropa sabe do que vou orientar e quem nunca foi olha-me com atenção e faz o mesmo:
- Volta inteira volver, err!
O povo girou o corpo em 360 graus e posicionou-se no mesmo lugar.
- Contem agora: um, dois; um, dois. Apenas os que calharam com dois vão se movimentar. Assim, abriremos espaço de dois passos entre as pessoas.
- Atenção, número dois executar dois passos à direita, err!
Os presentes executaram o movimento r ninguém ficou colado ao outro.
- Marcar círculos no lugar e puxar cadeira.
Executados os procedimentos de distanciamento, Mangodinho puxou a conversa do dia.
- Bem, vocês devem ter ouvido na rádio e visto na TPA (por lá tudo que seja televisão é TPA). Os ventiladores, disseram, são arma de combate à covid-19. Ou melhor, quem tem ventilador, a doença até lhe salta. Temos que nos prevenir. É ou não é?
- É. - Respondeu a assistência.
- Quem tem ventilador em casa?
- Eu tenho uma ventoinha.
- Eu tenho duas: uma boa e outra estragada.
- Eu tenho, mas já não sopra bem. -  Disse Sembe, secretário da aldeia.
Bem, temos que ter ventiladores. Hoje (sábado) e amanhã as pessoas podem se deslocar um bocado. Quem tem possibilidade manda já comprar ventiladores. Deve ser cinco ou dez mil kwanzas. Vamos aproveitar antes de acabar e antes de voltarem a fechar os caminhos. Vou passar declaração de viagem para compras. Passem na Munenga para pôr carimbo da Administração. O destino é Dondo. Se não houver, cheguem mesmo a Luanda. Tragam os ventiladores e a gasolina para o gerador comunitário. Sembe, pega a carrinha. Madalena, avisa o marido. É missão comunitária importante. Levem também  alguns produtos do campo. Quem tem galinha, põe galinha. Quem tem mamão, põe mamão. Cada um de acordo as possibilidades do momento. Cada casa tem de ter no mínimo um ventilador!

quinta-feira, abril 09, 2020

A ÚLTIMA LUTA DE PAULO KAMBANGELA

Em Kitumbulu dos anos setenta (fazenda, algures no Libolo), Paulo Kambangela era ainda miúdo que seu padrasto (avô paterno de Matouymorro) mandava correr com os macacos que davam cabo do milho.
O nome Kambangela (cigarra) está ainda por descortinar. Se calhar, quando nenê, gritava que nem uma cigarra estendida ao sol ardente do meio-dia. Quem é do campo já ouviu o grito estridente de uma cigarra.
Matoumorro, nascido depois do 25 de Abril (aquele Abril de setenta-e-quatro) conheceu Kambangela já aos 15 anos, embora soubesse da relação entre seu avô Ngana Muryangu com a velha Lulu, mãe de Kambangela.
Esguio, de altura média e com bom jogo de pernas e truques com as mãos que deixavam embasbacado o adversário da peleja, Kambangela ganhou, nos anos noventa (estamos a falar do século vinte) a fama de melhor lutador da aldeia de Kuteka. Que jovem não o reverenciava?
Kambangela, no dizer dos luandenses daquela época, "fazia ponta". Isto é, numa casa, podia surrar do mais novo ao mais idoso. À astúcia na peleja, juntava aspectos sádicos e virulentos.
- Éh, luta do mano Paulo só acaba quando ele ganhar. Se você lhe bate e foge ele te persegue ou te faz uma emboscada até te tirar sangue. É por isso que toda a gente lhe tem medo.- Diziam os púberes de então.

Por razões que nunca explicou, Kambangela nutria nutria um ódio visceral contra o seu antigo padrasto Ngana Muryangu, avô de Matoumorro. Assim foi que ao se terem avistado, em 1990, quando Matoumorro se refugiara na aldeia de Bango-de-Kuteka, fugido do ataque da Unita a Kalulu (25 Dez 1989), o lutador-mor encontrou no neto do antigo padrasto uma oportunidade de vingança.

Matoumorro, nos seus 15 anos, já era costureiro, profissão que aprendera dois anos antes com um primo com quem viveu em Kalulu. Estava, por isso, em casa do Ngunza-a Mbondondo, ajudando-o a colocar bainhas em alguns panos. Quando Kambangela, que era "kiphá" (contemporâneo) de Mbondondo, o viu começou a disparar em jeito de provocação.
- Xê, seu burro de merda, vais estragar a máquina de coser.
- Se o kota não saber, aprendi com o grande mestre Nguza-a-Soba e o kota Nando Mbondondo só me chamou porque sabe que posso ajudá-lo. Defendeu-se Matoumorro.
- Disseste o quê, neto de feiticeiro? Hoje vais me sentir que até o teu avô vai ressuscitar para te acudir.

Matoumorro ainda tentou justificar-se mas os cinco dedos calejados de Kambangela já tinham deixado marcas no seu rosto.

A audiência, conhecedora da malvadez do agressor, se conteve, embora reconhecendo que o rapaz nada fizera de errado para merecer tamanha agressão.
- Não te fiz, nada kota. Se me deres mais vou ter de me defender. - Atirou o rapaz, cujos nervos subiam à epiderme.
Ouvido isso, primeira vez em que Kambangela fora desafiado, o lutador da aldeia queria fazer do rapaz seu batuque.
- Lelo ngumuxika (hoje vou batucá-lo)! - Disse à plateia que aumentava minuto a minuto. Uns tentando acudir mas sem pretender se comprometer e outros com sede de ver sangue e um julgamento posterior na grande árvore do soba Mungongo.

Para o impedir de fugir, Kambangela pressionou Matoumorro pelos ombros, impossibilitando-o de se levantar da cadeira. Jamais tinha imaginado que o seu peso diminuto era vantagem para o adolescente que se pôs em pé com o adversário pendurado às costas.
Kambangela parecia estar lyambadu. Seus olhos eram sangue. Espumava pela boca à medida que rebuscava o mais profundo disparate contra o avô, o pai e a mãe de Matoumorro, por sinal sua parente.
Já fora da sala, levado às costas pelo adolescente, Kambangela tentou usar a sua táctica de sempre. Jogo de pernas, como fazem os pugilistas, e batimentos no peito que terminavam, sempre e certeiramente, com um golpe ao adversário.
Atento e já destemido, Matoumorro agarrou-o pelos ombros e espetou-lhe uma valente cabeçada que atirou o "Golias" ao solo rígido.
- Ewe?! - Gritou a plateia entre júbilo, pela derrota de kambangela, e medo do porvir.
- Corre. Vai. Fecha-te em uma casa. O Kambangela vai te matar. - Aconselharam outros.
A Cena seguinte foi Matoumorro a correr, seguindo os conselhos dos familiares mais directos e Kambangela a correr em direcção à sua casa, como se fosse em busca de algo contundente para se desforrar. Já não foi visto naquela tarde e noite.

No dia seguinte havia uma caçada pelas montanhas de Kitumbulu (junto à fazenda do avô paterno de Motoumorro (ex padrasto de Paulo Kambangela).
Não vai. Quando voltarmos vamos associar carne para ti. O mano Paulo pode te flechar. - Desaconselharam o rapaz a sair de casa.

Sem medo e com o atrevimento da idade, Matoumorro meteu-se a caminho do sertão, mesmo sem zagaia e flechas. Evitaram-se durante a caçada que durou 6 horas. Foi mais Kambangela quem andou distante do infante. De lá para cá nunca mais Paulo Kambangela lutou e ficou desfeito o seu mito de lutador invencível do Kuteka.