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sexta-feira, novembro 08, 2019

LIVRARIAS, MUSEUS E FRESCOS


Mui provavelmente, depois de Cairo, que possui um Museu do Papiro que dá ao visitante a experiência de vivenciar a confecção do papiro (papel), tendo como matéria-prima as herbáceas aquáticas com que na "banda" se confecciona o lwandu e a esteira, Viena deve acolher o segundo ou o mais rico Museu do Papiro. E lá não está depositada somente a história do material de suporte à escrita, como também antecedentes (peles, pedras, madeira) e peças de ar ...te representando Ramsés e outras coisas e loisas da História Egípcia que tive o privilégio de estudar com o Professor MSC Luís de Barros (ISCED/Luanda, 2000).
Depois do Museu do Papiro, por si um grande encanto, também conheci o Museu do Livro, situado no mesmo edifício. Isso mesmo. Museu do livro. E a história é contada em Séculos, da antiguidade clássica aos nossos tempos, com livros editados em cada um dos séculos.
Momentos antes, no mesmo dia, adentrei a Biblioteca da OPEP, que junta mais de 20 mil exemplares, entre literatura sobre bio-combustíveis energia e tecnologia à volta. A organização fundada em 1960 dá assim um grande contributo ao conhecimento, sua concentração e perpetuação, colocando o seu acervo à disposição de quem queira saber mais sobre o "mundo energético".

Quem nos dera que tivéssemos também os nossos museus e, sobretudo, erguer edifícios que por si sós contassem outras Histórias como é o caso dos frescos que se dão à mostra no Museu do Livro de Viena?
Museu do livro
Quem nos dera!


sexta-feira, novembro 01, 2019

KALUNGA DE CÁ E DE LÁ

Entre os ambundu do Kwanza-Sul, Kalunga é um antropónimo feminino que personifica morte, abismo, sem esperança de sobrevivência. Tal designação é atribuída á menina, recém-nascida, que sucede a outros nado mortos ou que tenham falecido prematuramente.
No sentido mais lato, Kalunga é abismo, morte, mar (vastidão), infinito.

No Brasil, Calunga (grafam com C) é o nome dado ao espírito ou divindade que se manifesta principalmente através da Umbanda. Estas entidades são popularmente conhecidas como “pretos-velhos”, e possuem um amplo conhecimento sobre diversos assuntos.
Lê-se no Wikipédia que "a principal característica de um calunga é a sua sabedoria". De acordo com a crença umbandista, lê-se ainda na página acima citada, essas entidades são harmoniosas e dotadas com uma grande vontade de esclarecer os problemas do quotidiano das pessoas.

Eventualmente tenha sido essa última caracterização que levou
Damian Garcia a fundar em 1972 a A Kalunga Comércio e Indústria Gráfica Ltda, rede brasileira de produtos de materiais de papelaria e artigos de informática contando com 204 lojas em 20 estados brasileiros.
No dizer dos seus colaboradores, "a Kalunga esclarece e resolve os problemas do quotidiano das pessoas...".

Certa vez, em visita a São Paulo, Estado Brasileiro, adentrei, em companhia de outro angolano e kimbundófono, uma loja kalunga onde encontrámos uma senhora que acabara de comprar um telefone.
- Sabe, a senhora o significado de Kalunga?, questionou Kizwa.
- Não, senhor. O senhô, pode explicá? deve ser nome bacana! exclamou ela curiosa.
- Kalunga é morte.
- Não senhô. Só pode estar do gozo comigo, retorquiu a senhora, fazendo cara de quem chupou limão.
- Sim. Nós em Angola, numa língua chamada kimbundu, Kalunga é morte… Espero que não esteja a levar Kalunga para casa, atirou jocoso, Kizwa que não a olhava nos olhos.
Contrariamente, eu estava atento aos dois e ao jovem atendedor que se manteve sem fala.
A senhora, apavorada com as palavras de Kizwa, quase abandonava a compra, pondo-se a correr. Faltava pouco para ver fantasmas ao seu redor e ver Kalunga na sua acepção Kimbundu.
Foi então que o moço da loja balbuciou umas palavras tentando parar o Kizwa e acalmar a cliente que, por pouco, pedia de volta a sua "grana", abandonando o aparelho de telefone que comprara para (ao que disse) "uma pessoa que guardava no peito".
- Kalunga é, em Kimbundu, língua angolana, morte. Mas tem outros significados como imensidão e nfinito (amor, bondade, sabedoria, etc.). Veja por exemplo a expressão "Kyadi kalunga=o amor/compaixão (dela) é infinito". É, portanto, importante traduzir kalunga em suas múltiplas dimensões e significados, Conclui, apaziguando uma e outros.

Continua a Wikipédia que: etimologicamente, este termo se originou a partir do quimbundo ka’lunga, que significa literalmente “mar”, mas também pode ser usado para transmitir a ideia de “imensidão” e “grandeza”. Os negros utilizavam este nome para se referir ao deus dos missionários católicos (Deus), pois consideravam-no vago como a imensidão do mar.
Através desta explicação, é comum associar as entidades calungas com os orixás ligados às águas do mar, como Iemanjá, por exemplo. No Brasil, alguns etimologistas ainda consideram a diferença de significados entre os termos kalunga e calunga, sendo o primeiro relativo às entidades espirituais e crenças religiosas, e o último referente ao que é pequeno e inferior, sendo também um termo bastante empregado durante a escravatura para se referir aos negros, visto que eram considerados “pessoas inferiores”.
Os calungas também são conhecidos como os descendentes de escravos fugitivos e libertos que formaram uma comunidade autossuficiente na região atualmente conhecida como o estado do Goiás, no centro do Brasil.

terça-feira, outubro 29, 2019

UM'ANGOLA QUE ACONTECE

Diz Moisés Malumbo, no seu livro "Os ovimbundu do planalto central", que a economia desses povos é "fundamentalmente agrária" sendo as propriedades classificadas em três tipos :
Cumbo (tchumbo) que fica atrás da casa, normalmente plantam - se hortaliças e outras verduras de busca e consumo imediato; naka (horta) que se faz junto às ribeiras ou em terrenos baixos inundados em tempo chuvoso; epia (lavra), a unidade maior que garante o sustento familiar e o excedente para permuta e ou venda.
Sendo dos povos que mais migraram, forçosa ou espontaneamente, os ovimbundu levaram aos destinos a sua língua e vocação agrícola. São eles ou seus descendentes já culturalmente a mestiça dos que continuam a desbravar vários campos, alimentando bocas. À entrada de Ngulungu Alto falei com camponesas de ascendência ovimbundu e camponesas ambundu. Revivi jornadas homólogas nas baixas do Rio Kambuku, em Kalulu e na extinta aldeia de Limbe, na Munenga.
Há, por essas bandas muito café que me recorda a fazenda Kitumbulu de meu avô paterno Fernando Ndambi e as numerosas fazendas cafeícolas libolenses que pertenceram às empresas estatais Libolo I, II e Libolo III, nos tempos da matrícula AAK.

"QUEM VAI COLHER O CAFÉ, ESTE ANO?"
O título é trecho do poema de Carlos Cabombo, retratando o medo que apoquentava os LIBOLENSES no tempo de guerra. O café, produto para exportação, colhido nas fazendas de Musende, Lwaty, Cabuta, Kisongo e Munenga era "a principal riqueza" até aos anos oitenta do século XX. A guerrilha estava dias sim, semanas também nas cercanias da vila, ocupando vastos territórios, sobretudo as zonas cafeícolas.
Café maduro/Avermelhado/Bagos doces/Reclamando cesto e o terreiro/Para secar e escurecer/Aguardando-lhe o descasque e torrefacção/Aqui sim/Fica negro/Na boca deixa amargo/Amargura sentida pelo negro/"Negro da cor do contratado"/ (como escreveu o Ngulungense António Jacinto).
Na fazenda Sta. Luísa, Ngulungu Alto encontrei um fortim. Ao que podemos aferir, tratou-se de edifício administrativo da fazenda, com guaritas/sentinelas no topo.
Escombros de outras habitações que terão servido de acampamento para os contratados mbalundu são vislumbrados na parte traseira, sendo o pátio, vasto, ocupado hoje por um bananal que reclama por gotas de água.
Os tijolos das edificações vão sendo roubados um a um. Se para erguer outras casas ninguém informou e é pouco crível. O mais provável é que seja para servirem de assentos nas cozinhas cobertas de capim e enfeitar o cimo das campas que se acham à beira da rodovia.
Há sim, fora da Mutamba, Luanda, um país que ACONTECE!


Publicado no jornal Nova gazeta de 30 de Agosto/2018

sexta-feira, outubro 25, 2019

ENTRE A PRIMEIRA E ÚLTIMA VEZ

Retrógrado. Dir-me-ão, alguns, no final da prosa.
Não sou de ir muito ao Brasil, embora nutra uma proximidade cultural com o pais de Salvador Correia de Sá e Cia.
A primeira vez que fui ao Brasil, São Paulo, foi há 13 anos e o país era governado pelos esquerdistas capitaneados pelo presidente operário-sindicalista Lula da Silva. Estava no seu primeiro mandato e procurava implementar as políticas socialistas de "maior previdência social e busca de equilíbrio entre os que tinham muito e aqueles que nada tinham".
Limpava-se o "lixo social" deixado nas ruas pela ferocidade do capitalismo. Era início de uma era que foi aplaudida por uns e repudiada por outros, os que estão hoje no poder, olhando para o bolso e não se importando com os que encontram consolo apenas na benevolência da rua e seus transeuntes. É assim o capitalismo. "Não há pão para malucos"!
A minha segunda ida ao Brasil, como disse acima, acontece sem Lula, sem Dilma (deposta pelo capital) e sem os socialistas/esquerdistas. Muitos assobiaram para o lado, quando a política distributiva foi deitada pelo ralo. Alguns regaram-na com rebuscados dislates, antes de atearem fogo sobre ela e cantaram encômios ao retorno do "salve-se quem puder"!
E é o que pude assistir. Com os impostos, de que a direita nunca abdica, as ruas estão limpas, com poucos descartáveis (tirando bitucas de cigarros). Porém, um olhar atento leva a concluir que há mais vida humana mendigos do que antes. Esse "lixo social" não descartável, pois é vivente e pensante, precisa ser solucionado com políticas sociais que olhem para os que pouco ou nada têm. Há gente que, empurrada para a indigência, "única contribuição válida que tem (de momento) é gerar prole" para uma sociedade (urbana) que pisca ao envelhecimento. Ao mínimos, dêem-lhes tecto e comida para produzirem seres humanos em local com dignidade. Encontrar famílias habitando ao relento, na Avenida Paulista, devia, no mínimo, ser considerada "uma vergonha nacional" da direita governante.
Não basta, digo, retirar das ruas sacos e papéis. É preciso também cuidar dos pobres e mendigos que aumentam dia após dia, com a "morte do socialismo!"

terça-feira, outubro 22, 2019

NÓS, NO MATO, NÃO MATABICHAMOS À NOITE!

Naquela guerra de 1993 que quase não poupou nenhuma bwala, nem vila, nem cidade, Miguelito, os seis irmãos e os primos foram "empurrados" para Luanda. A vida de dormir dia sim, semana também na mata, debaixo de pedregulhos, feito canta-pedra ou homem das cavernas, estava custosa para Sá Zefa e Sô Manel que tentaram, ainda, mandar os filhos e sobrinhos à tia Tonha, irmã kasule de Sô Manel, conhecida por todos como "a tia única, em Luanda, de bom coração".
E todos, naquele tempo de comida difícil, foram se amontoar em casa da tia que já tinha suas quatro bocas e, ainda por cima, com marido que não tinha voltado da tropa, não se sabendo se sobrevivo ou já defunto. Mas ela, tia Tonha, coragem no negócio da kapracinha era só dela, mesmo com a vida difícil, a pôr os filhos a dormir com os primos debaixo da mesa, que recebia as cadeiras  depois do jantar, amparou-os  e coabitaram aquela casota de pau-apique de apenas dois minúsculos compartimentos.
A latrina era única, num quintal comum de 5 famílias e perto de 50 pessoas. Quando chegasse o momento de esvaziar a bexiga ou ir "às sentinas" era bicha e, muitas vezes, o bacio de lata de leite, com todas as suas consequências odorentas numa casa pequena, era a solução.
Todos já conheciam a situação e perdoavam-se mutuamente. Às vezes, um vizinho entrava para o banho e o outro tinha emergência estomacal. Soltava a senha, um assobio, e o outro dispensava a latrina. Até os vizinhos do outro quintal também já conheciam a senha para evacuar a "casa das sentinas" e facilitar o aflito. Por isso, todos cooperavam.
- Mana Tonha, tanto sofrimento então, marido da tropa ainda não veio, embora os outros tenham sido já desmobilizados, essas crias todas que te chegaram são de quenhê? - Indagava a vizinhança, sobretudo aquela que só ouvia falar de guerra na rádio, nos filmes do Cine Ngola e na Televisão de ir se apertar na salinha do vizinho Bernardo. 
- São filhos do môrmão mais velho. São mô sangue puro. - Dizia, quando questionada sobre onde saira aquela "creche".
Certo dia, o negócio não tinha dado lucro. Pior, não tinha recebido compradores e, para matar a fome, só mesmo pão com chá e óleo de chouriço.
- Sobrinho Miguel, você que é o mais velho, acende o carvão para fazer chá. Hoje o jantar é pão com chá.
- Pão com chá, tia?!
- Sim, pão com óleo de chouriço e chá. Ferve já a água e se ajeitem com, o bocado que há.
- Ó tia, se for só pão com chá, sem funji, deixa estar. Nós, no mato, não ándamos matabichá à noite!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de  14.02.19

sábado, outubro 19, 2019

EM TERRA DE SHAKA ZULU

Até agora posso gabar-me de conhecer Windhoek,  capital namibiana, cidade construída e a ser ampliada sobre colinas que, em vez de acabarem com o escasso verde natural, associa o betão crescente à arborização.

Joanesburgo e Pretória, cidades sul-africanas, fazem-me recordar Windhoek. Ruas largas, trânsito ordenado, não muito intenso, e um "sol" quente, seco e ofuscante a exigir filtros.

Naqueles tempos da minha meninice, na OPA, seria impensável cá vir parar, a contar pelas elevadíssimas doses de lavagem cerebral embutida em pesadas e medonhas expressões como:
- Regime segregacionista da Africa do sul; Regime de Pretória; Sul-africanos um dia pagarão; e outras loisas.

Oh! quanto eles evoluíram e continuam a evoluir comparados a nós que nos fizemos ficar pelo "sempre a subir, maior de África, povo especial, os melhores, e outros dislates!

Cidade calma, não com a agitação de Cape Town, nem com as "arruaças" de Joanesburgo, aqui estou eu em Pretória!
E, a propósito do lendário Shaka, brinquei que "eu era Zulu de Angola, descendente de Nkosi ya ma nkosi". A primeira pergunta que as senhoras da recepção me fizeram foi.
- How many wifes do you have (quantas mulheres tens)?
- Only one (apenas uma). - Respondi  no meu pobre inglês.
- Zulu must have more than three wifes (Zulu tem de ter mais do que três esposas)!
- Hum?!
Yes (sim)! - Retorquiram, acrescentando:
- If you are really zulu you must marry other wifes (se és realmente zulu, deves casar com outras mulheres).
As manas, bem dispostas num periódo de pouca agitação no hotel, não se ficaram por aí nas suas recomendações.
- If your first wife is from Angola, you must have another from Pretória and the 3rd from anywhere, but only zulu woman (se a tua primeira é  angolana, deves ter uma de Pretória e a terceira de um outro lugar, mas devendo ser mulher zulu).
Sem mais tempo, acalentei-as apenas com simples yes e parti reflectindo no que daria em Angola, se fôssemos maioritariamente zulu?

Pretória, 18 de Setembro 2019

terça-feira, outubro 15, 2019

A FÁBRICA DE NUMERAÇÃO DE CAMISOLAS

Em vida, o nome dele era Geraldo Domingos. Os estudantes do ITEL, aqueles aflitos com a cadeira de Geometria Descritiva de que ele era "barra", tratavam-no por o GD. No bairro, porém, umas tias, por dificuldades de articulação oral, tratavam-no por "Gerardo". Para mim eram mesmo "Geralgo". Explico porquê. 
Antes esmiúço a relação de parentesco entre o Geralgo e eu. O meu tio Ferreira Nganga, em cuja casa eu vivia, era esposo da tia dele Henriqueta Domingos. Por isso, tratávamo-nos por primos e ponto final (as afinidades ficavam omissas).

Conhecemo-nos em 1984. Eu vivia no bairro Kaputu e ele na Comissão do Rangel. O Gêdê era irrequieto e sempre a magicar alguma coisa "anormal" para os miúdos de nossa idade e possibilidades. Quando preparássemos jogadores para "boquique" (peças feitas com cápsulas de cerveja ou mecanismos pressorizadores de insecticida, servindo cada uma de jogador), era ele quem numerava e pintava as unidades a que chamávamos por camisolas. Eu era/sou do Petro e talvez ele tenha sido também adepto dessa equipa ou de uma outra que não rivalizava directamente com a minha. 
Com o andar do tempo, as nossas brincadeiras passaram a ser outras: carros de latas de que ele era exímio (re)produtor. O Geraldo era capaz de produzir uma réplica (miniatura) de Volkswagen ou Renault 4 com todas as suas curvaturas e apetrechos exteriores. Quem não  tivesse carro "duzido" pelo Geralgo podia ter "um brinquedo qualquer", mas carros (de lata) mesmo, só os feitos por ele. E não cobrava caro nem demorava muito tempo para executar a empreitada, apesar da sua grande aplicação na escola e na ajuda que dávamos aos pais nos trabalhos de casa como ir às compras em tudo que fosse loja, deposito de pão e até  à Praça  das Corridas que ficava à distância de um assobio. Como compensação, o Geraldo pedia apenas o dobro do material para que ele também ficasse com um carro-de-lata que vendia ou trocava por algo que maior falta lhe fizesse.

Quando chegou a moda de as equipas de futebol, fossem do bairro ou ligadas a uma empresa qualquer, usarem camisolas numeradas, o Geraldo foi dos primeiros, senão o  único na Comissão do Rangel, a "montar" uma "Fábrica de numeração de camisolas".
- Fábrica, Geralgo, não é um nome muito pesado? - Indaguei certa vez.
-Sim, fábrica mesmo.  Assim, as equipas de caçulinhas da Cuca,  da Combal, da  Refrinor, da Bolama, da Panga-Panga, etc. vêm aqui numerar o seu equipamento. O importante é numerar...

O Geraldo, que era bom em desenho, elaborava as placas numéricas em cartolina que sobrepunha, uma a uma, às peças a numerar. Depois, passava a tinta desejada (branca ou preta) e expunha os têxteis ao sol para secar. Parece simples, mas pensado e feito aos dez/doze anos parecia obra de gênio. 
E nos inventos, o Gêdê não se ficou por aqui. Já jovem, talvez a terminar o ITEL (instituto Médio de telecomunicações de que foi aluno da primeira safra), apercebendo-se que a cerveja a copo tinha ganho grande saída, em substituição da decadente kis(s)ara (kimbombo), transformou o seu quintal em bar. Tornou-se a casa mais frequentada da rua 23.

Quem me dera ter até hoje o Geralgo! Perdemo-lo cedo (entre finais dos anos 90 ou princípio do Sec. XX). Estava a entrar para a plenitude da mocidade e, se calhar, com muitas invenções por apresentar. 

Não me restam dúvidas que tão inteligente e inventivo quanto ele era, com o curso de telecomunicações que estava a terminar, teríamos hoje uma ou muitas invenções tecnológicas com a patente de Geraldo António Domingos!

quinta-feira, outubro 10, 2019

A CAMINHO DO CONSTRUCTO

Mangodinho e Man-Barras, amigos de há muito tempo, caminhavam em direcção ao Partido onde participariam de um encontro nacional. Falavam sobre o estado da nação e os desafios para melhorar o que desandou deste o "tunda mindele" aos dias de seus netos. Foi ao passar o prédio dos Assuntos Sociais que Mangodinho desatou uma conversa que há muito incomodavam a sua garganta.
- Oh, compadre Barras, lembras-te, com certeza, tu que és daqui da Ngimbi, naquele tempo, esses prédios eram limpos, passeios sem buracos e na cidade só viviam brancos e poucos pretos civilizados...
- Pois é, compadre. Sabes porque isso ficou assim ou não sabes?- Questionou Barras.
- Sei, pois. Apesar de ter mbora nascido nos mabululu sei um kabucado de Luanda. Víamos no cinema e nos rolos embutidos em binóculos. Bastou os mindele irem embora para militarizar até os pretos que estavam civilizados. Agora está um pouco custoso endireitar isso. Eu até só estou já a pensar nos nossos netos porque a nossa leva, tirado as ideias que estamos a concertar agora, me parece já não ter tempo nem fôlego para a empreitada.
Man-Barras ficou a ouvir na defensiva, ele que é um positivista convicto.
- Compadre, Godinho, encontras aqui um bom tema para reflectirmos no partido. Mas não fica tipo atiraste a toalha ao tapete. Não há nada tão mau que não possa melhorar. Pensa só na Europa que ficou duas vezes partida em vinte e cinco anos. cada um, independentemente da idade, da formação, do cargo e das possibilidades tem de ter ideias do tipo se eu for governante o quê que vou fazer para mudar o que não está bem no meu Sector. Tem de ter uma equipa imaginária para lhe rodearem, se subir, e fazerem boas obras. É preciso reconstruir.
- Sim, compadre Barras. É preciso reconstruir, mas a começar mesmo pelo partido. Já viste aonde é que estamos a ir?
- Mas oh compadre? Estamos a caminho do partido. É ou não é?
- Sim. Disseste bem. Partido. O que está partido não é o destruído que precisa ser reconstruído?. Eu a partir de hoje e com o optimismo que acabaste de me pregar com ele já não direi mais partido.
- Como assim. Então nós não somos membros do partido e estamos a caminho do partido para reunião nacional?
- Pois é. Aí está o problema. Fora queremos reconstruir e construir. Dentro só falámos partido aqui, partido acolá e etecetera? Por que não reapelidar de Reconstruído, Construindo ou Constructo? Eu agora já não pronunciarei o nome partido!
- Ai é? Isso são ideias reacionárias, oh compadre, e muita gente pode não te ver com bons olhos...
- Então tudo pode mudar de nome menos o partido não é? Se assim for, vamos continuar a viver no partido. Para mudarmos o estado da nação que você mesmo acha que não está bom, temos de começar pela reforma interna. Para mim, quem doravante me perguntar aonde vou e onde milito direi sempre que é no CONSTRUCTO. Temos de construir um novo pensamento, como o compadre bem elucidou que é preciso civilizar os militarizados e reconstruir o que ficou partido. É ou não é, compadre?
Man-Barras, vaidoso como ninguém, endireitou o boné e estacionou o pé em uma pedra para remover a poeira no sapato. Mangodinho aproveitou comprar duas garrafas de água e lá foram, sol ardente sobre eles, a caminho do Constructo.


Publicado no Nova Gazeta de 16.05.19 

domingo, outubro 06, 2019

GOSTILIDADES


- Epá! Sabes uma coisa? - Provocou Zeca ao amigo que se tinha baixado para manter o brilho dos sapatos.

 

- Não, Zeca. O que se passa?
- Estás a ver, ontem, na boda, nê? Não é que uma gaja estava a me morrer?
- Mas a te morrer, como assim? Quem foi que te disse? - Era a vez de Venâncio, expectante, a buscar aprofundar a conversa.
- Sim, Man Venas. Descobri, depois de um "podemos dançar"?
- Vindo dela ou de tua parte? - Indagou novamente Venâncio como quem procura a bola escondida num palheiro.
- Epá, dela. Da parte da mboa. Até levei um susto. O mambo era dum volume que jamais a imaginaria hospedada no meu monolugar.
- E foram dançar? Conta mais então, pá.
- Epá, estás a ver, né? Real e geralmente é nessas ocasiões em que "o que lhe morrem e a que lhe morre" se dão encontro corporal, sendo medidor das tendências a forma como ela entrega a carne ao assa+dor.
- Mas…, e então? Ela te abriu o jogo ou tu, te apercebendo do convite, disparaste primeiro a tua prosa?
- Compadre, naquele instante, na dança, nos encontros e reencontros corporais, algumas vezes com ousadia da contra-parte, fiquei momentaneamente contente. Eu era o wi. Só que, de repente, pensei na munzúbya do kubiku. Porra! Lhe avanço ou lhe ignoro? Vieram-me duas ideias: abro as hostilidades ou as gostilidades?
- E tu?
- Evitei as hostilidades em casa. Congelei as gostilidades que até podiam ser momentânea e ocasionalmente boas!


Publicado pelo Jornal de Angola de 18.08.19

terça-feira, outubro 01, 2019

O QUE O VENTO PÕE À MOSTRA

Moda é  moda e sempre houve em todos os tempos, levando-me a crer que venha a haver para todo o sempre. Especialistas na matéria apontam que ela se renova e recupera exemplares do passado a cada dez ou vinte anos, com alguns acréscimos e ou decréscimos.
Por outro lado, diferente dos animais irracionais que já nascem vestidos de abundantes pelos, escamas  ou penas, o homem veste-se para realização púdica e alimentação egoística. 
Quem se veste, qualquer que sejam os trajes, quer cobrir o corpo, para que "zonas proibidas" não  sejam vistas, mas quer também mostrar-se ou pôr à mostra o que adquiriu e está a usar, quanto pode e até onde chega o seu bolso. Por este facto, uns, os mais vaidosos, nem sequer se prestam a bisar roupas, gastando fortunas para alimentar esse ego. Alguns (como o autor dessa prosa) fica-se pelo cobrir o corpo  de forma decente e/ou combinar algumas cores, evitando um carnaval de duração anual.
Aos que conjugam o verbo ter, às roupas fazem acompanham uma série de adereços complementares (e pinturas noutros casos), colocando-nos, às vezes, mais próximos de "pessoas esculpidas/trabalhadas" do que de simples seres humanos (mortais) com corpos cobertos por têxteis.
Nos dias que correm, vejo frequentemente senhoras (de baixa, média e outras de alta idade) a usarem saias e vestidos curtos, apertados na zona da cintura (normalmente junto ao umbigo) mas excessivamente largos na zona baixa e propensos a ser levantados pelo vento. E, quando tal (o inesperado?) acontece, fica tudo à mostra.
Umas mais avisadas, embora vaidosas, usam uma "preservante" cinta ou minúsculos  colants para manter a guarda. Outras, mais ousadas, usam tais sainhas e vestidinhos como se estivessem a usar calças ou vestidos longos, numa espécie de "veja tudo" o que quiser. Há quem ainda use em adição blusinhas de alcinhas ou as do tipo "deixa cair".
E quando o vento sopra, cuecas (novas e rotas) é só ver. E os jovens da kangonya que até  pedem para que o vento não dê tréguas?! Bué de cinema sem bilhete!
Por que será?
Será intencional ou as modas são incontornáveis?
Publicado no jornal Nova Gazeta de 06.06.19 

domingo, setembro 29, 2019

E SE EU FOSSE APENAS PROFESSOR?

 Eventualmente, fosse chamado kunanga ou biscateiro.

Certa vez, apresentando-me a uma jovem aparentemente esbelta mas cujo cérebro, cheguei a avaliar, era de gafanhoto, que me perguntou "o que é que eu era" e tendo-lhe respondido 'professor", a "cientista da petulância" teve mesmo a coragem de perguntar:
- Só és professor e não fazes mais nada?!
Tal é a forma mesquinha como os professores são muitas vezes encarados pelos entes sociais. Vamos ao...

s poucos.
Quando era jornalista no activo e ministrava aulas à tarde, a pergunta que as pessoas me colocavam quando se apercebessem das minhas ocupações profissionais era:
- Ah, tu és jornalista e dás aulas à tarde, nê?!
Vejamos: ser jornalista, eventualmente, por ser profissão liberal "equivale", no conceito de alguns, a um "não trabalho", pois para essas mesmas pessoas o trabalho significa passar todo o dia no local da prestação de serviço como o "fazem" os funcionários públicos ou colaboradores de empresas transformadoras/fornecedoras de produtos e de serviços.
Para os tais, ser, por exemplo, estivador no porto, pedreiro algures, desentupidor de fossas (também socialmente úteis) é o que equivale a ser trabalho/trabalhador, sendo o uso da força o maior qualificador profissional.
Em conversa com dois meus antigos mestres, foram unânimes num pequeno detalhe. Diziam eles que "ser professor já foi tido como trabalho de muito respeito e consideração social. Agora, desde que os fugitivos à tropa e outros sem habilidades para coisas mais sérias inundaram a nobre profissão de formar e transformar a nova geração, ela, a profissão, se tornou aos olhos de muitos como uma 'simples ocupação', um biscate ou 'refúgio dos que têm tempo de sobra"', fim de citação.
Já tive um período de aproximadamente cinco anos em que o regime de trabalho, a inexistência de escolas particulares de nível médio e/ou superior com aulas nocturnas e a distância entre o local em que trabalhava/habitava e a cidade mais próxima (Saurimo) me inibiram de "dar aulas". Nessa situação, eu era para as pessoas que retrato um trabalhador. No entender deles, entregava-me cabalmente ao patrão, à semelhança do que dizem fazer os funcionários públicos, bancários e outros.
- O fulano trabalha no banco xis. O beltrano trabalha no Porto do Dande. A sicrana trabalha no Maria Pia (hospital). O André dá aulas.
- A Andreia o quê que faz?
- É jornalista!
Vejamos o que me dizem/perguntam, agora que sou funcionário público e professor.
- Ai é? Trabalhas o dia todo e dás aulas à noite?
Veja bem. No entender deles, enquanto funcionário do Estado (administração pública), trabalho. Já como professor, mesmo que fosse em escola pública, não trabalho. Apenas dou aulas!
Nem juntando ao ofício da educação o de jornalista sou trabalhador...
E se fosse simplesmente professor, ministrando aulas à noite, o que diriam de mim?

Publicado pelo Jornal de Angola de 12.05.19
     

domingo, setembro 22, 2019

EKEPA NÃO É INGLÊS

No centro de Angola, do litoral ao nascer do sol, há um aforismo bem conhecido por todos os falantes da língua predominante, incluindo crianças que já, por algum motivo, se terão atrasado em algum evento de onde teriam benefícios, que reza: "O atrasado come ossos".
Esperando pela veiculação de um anúncio televisivo, atrasei-me ao jantar colectivo. Embora o restaurante tivesse monitores de televisão, a distância entre o quarto e aquele recinto roubar-me-ia mais de um minuto, mesmo que fosse a bom passo e velocidade, correndo o risco de erder a visualização do mesmo, caso passasse naquele intervalo de tempo.
- O spot pode passar nesse instante, enquanto faço a travessia, e não terei como aplaudir ou reclamar. - Pensei, acabando por assistir ao telejornal da televisão pública no aposento. 
Tal, fez-me chegar ao restaurante naqueles momentos em que o funji, pirão por essas paragens, aguarda pelo atrasado sem o respectivo conduto. Nem cabidela de galinha gentia, nem losaka, nem ramas de batata, nem nada. Apenas uns nacos grelhados de "galinha com pai e mãe", umas batatas do reino enfatiadas e fritas e salada que se estendiam sem clientes. E eu que sou "funjívoro"?
- Mano, tem pirão mas o conduto já não. Acabou. Posso pedir jantar "a la carte"? - Indaguei solícito ao jovem que se apresentava de humor ainda aceitável no balcão de atendimento.
  
- Conduto acabou? Como assim? - Retorquiu.
- É verdade. Eu gosto mesmo é de comer pirão e, mesmo que aceitasse galinha do kaputu, que ainda tem grelhada, já não há molho. - Expus.
  
O jovem parou por alguns instantes a procurar por uma resposta.
- 'Stá bem. Vou à cozinha ver o que se pode fazer. 
Passaram-se trinta minutos sem resposta, até que o voltei a chamar.
- Então, o mano não me deu resposta...

- Sim mano, ainda me desculpa. É mesmo um bocado de atrapalhação. A sala encheu. Assim mesmo que não mais importunei o mano, é resposta afirmativa. Ainda aguarda só mais um bocado.

- Bocado vem da boca como punhado deriva de punho. Que de lá surja algo. - Falei com os botões.
 
Não tardou, chegou uma kafeko. Magra e linda, se não fosse aquele cabelo emprestado, seria mesmo uma "amigável" para filho ou sobrinho. Num prato três restos de frango e noutro beringela (losaka).
- Jovem, você é mesmo do Huambo?
  
- Sim, senhor, nasci mesmo aqui no Santo Rosa.
- Sabe o que é ekepa?
- Não senhor. Não falo inglês!
  
Até a vontade de reclamar dos ossos que se estendiam famintos no prato passou-me pala "culatra". Como alternativa ao desejável conduto ausente, tive de os mastigar e aproveitar o molho, também escasso, para empurrar o pirão garganta abaixo, afugentar o bicho e esperar pelo matabicho do dia seguinte.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 09.05.19