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segunda-feira, junho 26, 2017

A TODOS O SOL

Uns procuram sol para acrescentar luz ao seu brilho
 

Outros reclamam sol para acelerar a sua putrefacção.
 

Dai a todos sol!

quinta-feira, junho 22, 2017

PENÚLTIMO RECÚO

Depois de terem "varrido" literalmente o Kisongo, Kisala e cercanias, roubando o gado que puderam levar, devastado lavras, raptado jovens para ingressar suas fileiras, violado e esposado forçosamente raparigas, deixando as aldeias despovoadas, pois o povo começou a recuar, em finais de 1983 chegou a desgraça às aldeias da comuna libolense da Munenga.

Depois do ataque a viaturas junto à fazenda Kangulu, e accionamento de mina por parte de um tractor a serviço da Estalagem Boa Viagem-Lususu, procedente do Alto Dondo, levando à morte o nosso benquisto Santos Kajamba, começamos a recuar. Inicialmente para Fuke, junto à fazenda e Motel do alemão Walter Kruk (raptado após ataque à Munenga), onde permanecemos uma semana. O trajecto de aproximadamente 20 quilómetros era feito a pé, pés descalços, em atalhos abertos na densa vegetação ou sob o sol escaldante que derretia o alcatrão na rodovia asfaltada.

Chegou o mês de Fevereiro de 1984. Saídos do Limbe, próximo da actual aldeia de Pedra Escrita, estávamos "RECUADOS" (deslocados) uma semana nas lavras de Katoto, margens do rio Ryaha, antes de emprestar as suas águas ao Sangisa.

O percurso fora feito a pé, seguindo o leito caudaloso do rio Ryaha para não deixar trilho que desse pistas a quem fugíamos (UNITA). Eramos seis ou sete famílias mal acampadas. Uma semana depois, os víveres foram escasseando e a paciência dos que nos acolhiam (da parte de uma nora) se ia esgotando. Não havia como tal não acontecer.

Os mais velhos (papá Xika Yangu à cabeça) iam fazendo uns raids ao Limbe em busca de comida. Outros iam à caça. Porém, António Neto, o seu irmão mais novo Sabalu e um primo foram raptados e, tempos depois nas bases da UNITA, apenas o Sabalu regressou. O irmão mais velho e o primo foram mortos por alegada tentativa de fuga.

Sem comida de origem vegetal e sem que os mais velhos pudessem ir à caça, os cabeça-de-família resolveram que deveríamos "recuar" um pouco mais, desta vez para a sede comunal da Munenga. A comitiva fugitiva abrigar-se-ia em casa de Manuel Albano, um parente que se achava em condições mínimas de nos receber e suportar por algum tempo, até que a situação na procedência normalizasse.

No dia da chegada, Manuel Albano havia conseguido apanhar nas suas armadilhas um veado macho. Ao jantar, saboreámos a jinginga (miudeza) e a carne ficou em defumação para que não se estragasse. Seria consumida nos dias vindouros. Para além da carne, havia na cozinha, onde o mano Sabalu-a-Soba e eu dormitamos, óleo de palma e outros mantimentos trazidos e encontrados. Calculo que kapuka também.

Na mesma tarde, um sanitário da Swapo que ajudavam na guarnição do vilarejo fez-me curativo a uma ferida na perna que já ia deitando odor estranho. De recúo em recúo não havia atenção para pequenos detalhes e até a saúde ficava em plano secundário. Tive um tratamento único: desinfecção com álcool, mercurocromo, antibiótico e um penso. A ferida secaria dias depois.
Naquela dia em que aportámos à Munenga nada fazia adivinhar um ataque rebelde. Vivia-se em paz, apesar dos zum-zum. A guerra dos nossos ouvidos e conhecimento era no Kisongo, Kisala e Kariangu. Pensava-se que a presença dos rebeldes nas cercanias de Lususu era por causa do gado trazido pelos recuas das aldeias já devastadas. Na Munenga, as pessoas andavam e conversavam sem grandes receios. Pelo menos as crianças estavam inocentes.
Na noite que antecedeu os acontecimentos, as luzes no comissariado estavam acesas. À madrugada, o tiroteio começou pelos lados do comissariado. Tiros de pistola, inicialmente. Depois, armas ligeiras de maior calibre. rajadas de cortar a respiração. Depois obuses fazendo soltar mijo aos medrosos. As FAPLA e SWAPO resistiram até onde puderam. Os rebeldes tinham chegado em maioria de homens e força. Havia mulheres que batucavam enquanto os homens faziam rajadas contra tudo. A guarnição do comissariado recuou. Seguiu-se fogo e fumo. Todas as casas foram, depois, passadas "à revista". Mortes, raptos e choros tomaram conta do ambiente. O ataque estava consumado. Os que sobraram vivos fizeram dois caminhos. Munenga ficou evacuada para o Dondo e Samba Karinje (a caminho de Kalulu) onde ficamos recuados mais um mês, tendo o pão como principal alimento, até que a farinha de trigo se esgotou.
As mamãs e papás, havia pouco tempo abastados, viram-se forçados a trabalhar por comida em lavras de aldeões locais.
Luanda seria o próximo recúo. temerosos, voltámos ao Limbe para reunir apressadamente as condições mínimas de viagem. Chegou Maio de 1984 deixei o Limbe, Munenga e Libolo, depois de termos ido a Kalulu pedir guias de marcha para a capital do país...

domingo, junho 18, 2017

IMUA-CALEMBA Vs IECA

Que há em comum?
 
Gostaria de perceber melhor a ligação (in)existente entre aquela casa de adoração cristã dos Metodistas Unidos, a igreja/templo ou cargo pastoral de Calemba e a cristã IECA (Igreja Evangélica Congregacional de Angola).
 
Quando em 1984 cheguei a Luanda, o meu tio Ferreira Nganga frequentava a Metodista de Calemba, no bairro do "cemitério novo". Só depois passei ao templo Moisés, antiga classe (Kwanza-Sul) da Calemba que acabara de se autonomizar em Setembro do ano anterior.
 
Hoje (18/06/17) fui a uma IECA e senti-me como se estivesse na Calemba. O entoar dos hinos, os adornos interiores, as vozes arrastadas das mamães de origem ovimbundu, etc. tudo parecido, até o recitar do "Pai Nosso e Credo Apostólico". Fui à IECA mas senti-me no templo Calemba da Igreja Metodista Unida.
 
Em tempos, não muito recuados, os pastores de ambas as congregações (IECA e IMUA) frequentavam mesmos institutos teológicos como o Emmanuel Unido, no Dondi (pertencente à IERCA) e Quessua, em Malanje (pertencente à IMUA). Foi-me contado que o Bispo emérito da IMUA S. Reverendíssima Emílio de Carvalho já foi professor e reitor do Seminário Emanuel, na Missão do Dondi Angola (1965-1972).
 

Reacções
 
R1:"Meu irmão Canhanga, na verdade, a Igreja (Metodista Unida) de Calemba pertencia à IECA. Devido a localização das sedes da Metodista em Luanda e IECA talvez em Benguela, o secretário geral da IECA tinha pedido ao Bispo Emílio para superintender a igreja Calemba em Luanda. Com passar do tempo e porque o Bispo Emílio nomeava pastores Metodistas para (Calemba/IECA) a mesma automaticamente passou a ser Metodista. Com alguns (eventuais) erros essa é parte da história que sei em relação a esse assunto" (Francisco Quitembo).

R2: Caro Canhanga, em 2008, no âmbito da escrita da história da Igreja Moisés, havia questionado o Bispo Emílio de Carvalho sobre a relação da Igreja Metodista Unida Calemba com  IECA, tendo respondido: "a IECA nunca teve congregações na cidade de Luanda antes de 1974. Nesse ano, havia apenas três igrejas de expressão 'umbundu' em Luanda -Calemba, Nova Estrela e Betânia. Quando nesse mesmo ano essas três igrejas, em carta de 15 de Maio de 1974 assinada pelos seus pastores e leigos, pediam que as congregações desta expressão e seus três pastores fossem autorizadas a pertencerem ao Conselho das Igrejas Evangélicas de Angola Central. Esse pedido  nunca foi autorizado pela Igreja Metodista Unida de que eram e são parte. Um dos seus pastores pertencia a esta Igreja (IECA), outros dois haviam sido solicitados pela IMUA para virem a Luanda a fim de ministrarem aos Metodistas de expressão 'umbundu', dado os acordos de cooperação já existentes entre ambas Igrejas: a Igreja de Calemba nunca foi parte da Igreja Congregacional em Angola". Espero ter contribuído para o esclarecimento, de forma documental, desse equívoco (Carlos Cabombo).
 

quinta-feira, junho 15, 2017

A REVOLUÇÃO COM PEIXE E FUBA

Quando Phande e a mãe Katumbu chegaram a Luanda, em Maio de 1984, "recuados" da guerra no Lubolo, ela  vendia fuba à porta de casa, na rua de Ambaca, no espaço conhecido como Kalisange. O produto tanto servia para confeccionar a janta, como dava o dinheiro para comprar peixe, conduto vendido na praça das Corridas e ou no Tunga Ngó. A primeira praça ficava no Rangel, junto ao Supermercado Nzala Ikola e a segunda em território doCazenga, pois encravava-se entre a linha férrea e o quintal das Oficinas Gerais, a espreitar a Escola nº 5. A praça do Tunga Ngó era informal, sem bancadas e com "gregos" à mão de semear.
 
Katumbu, a caminho dos quarenta anos, viúva refugiada, quatro filos menores, ia manhã cedo com as colegas depobreza a uns armazéns onde se vendia (desviava) milho e masa-a-mbala. Ao filho mais velho, Phande, cabia levar os grãos à moagem de onde vinha a confundir-se com a própria fuba. 
 
Vezes tantas ele "aviava" também a negócio da mãe quando essa fosse comprar outros grãos  e não fosse dia ou hora de escola. E quando os odepés e bepevês faziam as suas rusgas para levar o ganha funge da família, a astúcia de levantar a bacia e correr para o quintal estava-lhe nas pernas. Phande era como o sardão que não anda às voltas.
 
Aos sábados, dia de honga, caminhavam, mãe e filho, a pé. Rangel, Karyangu, Palanca, Sanatório, Kapolo, até  chegarem à honga, campo agrícola, na zona militar do Kapolo, onde se  cultivavam mandioca, batata-doce, abóboras, jinguba, kingombo (quiabos), makunde (feijão frade), feijão, jimboa, etc. Parte da colheita  ia ao estómago e outra trocada por dinheiro. 
 
A apanha de katatu (lagartas) em folhas de ditumbate era a brincadeira que Phande mais gostava nas idas à honga. Também escalou peixe e cuidou dele para que secasse e fosse enviado ao Libolo de origem onde era  trocado com macroeira.
 
Fubeiras e peixeiras, grandes lutadoras doutro tempo contra a fome e a mendicidade, criaram filos e ergueram casas sem nunca vender o "templo sagrado da mulher". E eram tempos de aperto e muitas bichas nas lojas do povo, onde só se comprava o que havia e não o que se pretendia. Os empurrões e kisendes não escolhiam nem poupavam idosos, grávidas e crianças, confundindo-se homens e pedras que representavam homens nas longas filas nos "supermercados" de então.
Peixe sardinha frito no pão e um chafé? Bem-vindo ao estômago que não escolhia!

Com fuba e peixe frito também se fez Revolução(?)!

Publicado pelo jornal Nova gazeta, 22/06/17

quinta-feira, junho 08, 2017

"NGELA" AOS MEUS OUVIDOS


A primeira vez que a guerra chegou aos meus ouvidos foi em 1983. Recuados da Kisala e cercanias chegavam com manadas de bois. Descansaram dias ou mesmo semanas na antiga Fazenda Israel onde havia tanques para abebeiramento e banho dos bovídeos. Porém a devastação das lavras dos aldeões locais, inexistência de pastos preparados para o efeito e a proximidade do asfalto os terá levado a procurar por outra área que já teve mesma serventia. A caminho do Kuteka, entre os rios Sangana e Bango, depois da9 Fazenda Costa Campos, estavam instalações pecuárias abandonadas por Manuel Pires. Lá se instalaram mas tiveram avultadas perdas. Cansaço do gado, falta de cuidados médicos, ausência de pastos, falta de sal entre outras maleitas. Em pouco tempo as mandas ficaram reduzidas a nada e os pastores tiveram de voltar às proximidade da Fazenda Israel, emprestando sua força à lavoura.

Depois começaram as implantações de minas na rodovia e ataques a viaturas.

O primeiro veículo a accionar uma mina foi em 1983, junto à Fazenda Kangulu. Foi numa tarde. O veículo procedente do Dondo fazia-se a caminho da Kibala. Nós residentes no Limbe pernoitamos na mata, a caminho do rio Lyaha. Os zum-zum sobre passagem da Unita e até mesmo reencontros fez-nos recuar pela primeira vez para o Fuke, aldeia contígua à estância hoteleira de Ngana Mbundu (Walter Kruk), onde ficamos uma semana. Regressados ao Limbe, os recuos se seguiriam mês após mês ou mesmo semana sim, semana não.

O segundo recúo deu-se no mesmo ano, 1983, depois do accionamento de nova mina no mesmo local da primeira, próximo da Fazenda Kangulu. Caminhando pelo sertão, chegamos a Kandemba, onde minha mãe tinha um tio, o velho Alfredo. Três dias foi nossa permanência naquela aldeia. De Kandemba a Munenga foi um passo. Mas as peripécias naquele ano e ano seguinte não mais parariam. Tempo depois, não muito tempo, um tractor carregado de cerveja, procedente do Alto Dondo, com destino ao Lususu acionaria uma mina, entre o rio Kazondo e a Bica d'Água. Perdemos o Santos Kajamba e o Zé Manel, que vim a conhecer mais tarde em Luanda, onde fomos vizinhos, perdia um dos pés. Primeiro recuo.

quinta-feira, junho 01, 2017

CÁRCERES E BAILES

Durante aqueles dias de cativeiro em que todos os acessos e saídas estavam controlados pelos kwaca (Unita), repletos de coisas roubadas em Kalulu e outras rapinadas pelas aldeias em que mantinham controlo, face ao processo de reagrupamento e reorganização que as FAA estavam a viver, a receita aos aldeões de Pedra Escrita era vezeira.
As mulheres deviam contribuir, todos os dias fuba e sacafolha/kizaka. Os homens com força de ir à caça ou à pesca deviam levar carne e ou peixe. Chamavam a isso de contribuição. Quando esses condutos faltassem eram as crias da aldeia que faziam o lugar. Os adolescentes iam à cata de lenha que alimentava uma grande fogueira junto a casa do soba.
A farra começava ao anoitecer. Homens de um lado: aldeões e militares olivados. As mulheres, também misturadas, posicionavam-se em outro lado do terreiro. No centro ficava o chefe que ditava os procedimentos e depois libertava o espaço para o baile.
Cabia às mulheres escolherem os parceiros para a dança. O inverso era reprimido. Os chefes dançavam até se fartarem, pois a eles se dirigiam quase todas as mulheres, de música em música.
Os jovens da kangonya eram reprimidos com severidade. Kandambalas sem dó. Mas havia uns atrevidos que confiavam na velocidade de suas pernas e na sagacidade de espiar o espião.
O agrupamento musical era deles. Chamavam-no "vozes negras". Eventualmente uma versão do outro que divertia os homens na Njambaba e Likwa. As violas eram eléctricas e batuques normais com microfone embutido. Usavam também um amplificador e colunas de som e canudos, do tempo antigo. A energia era gerada por um dínamo de bicicleta acoplado a um quadro com uma jante apenas. Os jovens e adolescentes da aldeia revezavam-se a rodar manualmente o pedal e accionar o mecanismo gerador de electricidade. Era aparentemente pacífico mas com represálias à espera, caso não colaborasse. A propagação do som, à noite, atingia um raio de cinco ou mais quilómetros. E o som da batucada não era apenas sinónimo de recreio. Era também aviso a outras aldeias do raio de que os kwacas estavam por perto e podiam ser visitados a qualquer instante.
Homens e mulheres vindos das matas, fardados ou não, cantavam eufóricos: Njmba, ponto de partida. Luanda, ponto de chegada.
 
As mulheres, servis, inebriadas pela propaganda mande in USA, entoavam ainda: "ocapitale onjamba, onjamba! Onacionale Likwa, Likwa!
Nunca aceitei ir apanhar lenhas e por isso fui catalogado por anti-motim ou com ideias empelistas. Aos bailes, ia apenas quando houvesse uma espécia de recolher casa a casa. Porém, na primeira oportunidade de fuga, quando a música se tornava ópio, retirava-me para casa e trancava a porta até ao dia seguinte, coleccionando na memória os detalhes daquele cárcere de cerca de um mês (1993).
Ainda sobre mim, os maninhos procuravam por um subterfúgio contundente para "me despacharem" ou, em sede de alguma clemência, ser "kandanbalado" (chicoteado simultaneamente por muitos). Gostavam, porém, do facto de ser o mais culto da aldeia, depois do meu primo Goncha, que era professor, amigo de copo e refilão. Esse acabou sendo raptado, meses depois para as matas, tendo reaparecido apenas depois da "Paz do Kamorteiro".
 
- O Dr. Savimbi gosta de pessoas estudadas como o maninho, só que tem de deixar esses hábitos de Luanda e essas ideias do Enduarto Sando. - Diziam para mim, em tom firme.
 
Volto com mais uma.

segunda-feira, maio 29, 2017

ALFARRABISMO E KISALU DAS LETRAS: UM RESGATE NECESSÁRIO

Por: Soberano Canhanga, 2012
 
Ela é paciente. Está todas as noites, das 18 às 22horas, no pátio da escola do II nível de Saurimo onde a Escola Superior Politécnica da Lunda Sul (unidade orgânica da Universidade Lweji A Nkonde) tem salas emprestadas para estudantes nocturnos. Paciência Sanâmbua sabe que os estudantes universitários têm uma carga de conhecimentos muito diminuta devido à falta de bibliografia, aliada à inexistência de hábitos de leitura. Ela não só vende livros, como também aproveita retirar deles o conhecimento que têm.
Na sua bancada, Paciência expõe livros de escritores e autores angolanos editados pela Mayamba. É única em Saurimo a fazer este negócio. A cidade dispõe apenas de uma livraria situada em local de difícil reconhecimento. Não há divulgação/publicitação da mesma e acções tendentes a elevar os níveis de literacia são desconhecidas. Os alfarrabistas inexistem. Feiras de livros e outras artes também são inexistentes na cidade. Os leitores são poucos. Pouquíssimos. “vendo por dia (noite) entre 3 a 5 livros ou menos do que isso”, diz ela rasgando um sorriso característico de quem gosta do que faz. É como quem corre por gosto (não se cansa) e por isso Paciência não desiste da venda de livros.
Alguns professores, preocupados com as causas do tão fraco nível de conhecimentos dos estudantes, vão apelando à leitura e recomendando livros (gramáticas, dicionários, romances, contos, livros técnicos em função da especialidade, etc.). Uns, que já deram conta do quão atrasados estão e vão aplaudindo aos conselhos e adquirindo livros para a elevação do seu nível intelectual. Outros fazem “ouvidos de mercador”, mas é assim a vida. “Nem todos estão atrás do conhecimento”, como desabafou um dos meus estudantes preocupado com os colegas que, mesmo estando na universidade, desconhecem a definição do que é o sujeito de uma oração. “Uns querem apenas obter os certificados para serem chamados de doutores ou para terem os salários elevados”, rematou o insigne estudante.
"É o conhecimento que difere o doutor de fato e o Dr. de facto", tenho dito aos meus amigos, em todas as salas por onde ministro.
 
E, aqueles que pretendem ter um “canundo” cheio de conhecimentos têm de ir à barraca da Paciência e outras barracas/livrarias (quitandas das letras) para enriquecerem as luzes/pistas que os professores dão sobre o conhecimento científico.
* Kisalo: o mesmo que kitanda em kimbundu (mercado em português)


Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 01.06.2017

quinta-feira, maio 25, 2017

PESQUIZANDO MINHAS ORIGENS


Muitas vezes fui abordado, por cibernautas e amigos reais, por que adoptei o pseudónimo literário de Soberano Canhanga?

Quanto à minha origem materna já escrevi e expliquei. Faltava o lado paterno, pouco divulgada nos meus escritos.

A minha mãe (Maria Canhanga) conta que o meu avó Ñana Muryangu (Fernando Ndambi como ficou registado no civil) era procedente de Karyangu, aglomerado populacional que conheci aos 39 anos.  

- Kukwi mungwa mbonge Yaryangu!- Diz sempre que questionada sobre o assunto (vosso avô era procedente da sede de Kariangu).

Lendo http://francismundo.comunidades.net/origem-dos-kibala-1sintese (01.02.2017), sobre a origem e alguns ritos dos povos Kibala, cheguei a algumas conclusões, não pouco importantes, sobre aquele que terá sido Fernando Ndambi, bem como algumas práticas por ele evidenciadas.

Vejamos:

“Sempre que um homem tomava uma mulher, era aconselhado ir viver num outro ponto do território para terem filhos e formar uma família lá, criando tribos e clãs com o prepósito de expandir o reinado de kipala o “Ñana Inene” e o seu povo. Não há evidência de que este povo era tributário há um determinado reino”...

Meu avô, já em terceiras núpcias, abandonou o seu homeland e migrou para a região de Kuteka, onde já tinha alguns parentes também eles migrados. Mas não se juntou na comunidade parental. Procurou um sitio com mata serrada e água abundante, atraindo caça, local propenso ao desenvolvimento de uma agricultura que propiciasse boas colheitas. Ao rio Kitumbulu, que encontro sem peixe, fez questão de povoar, pescando no Sangana e descarregando os peixes à montante do Kitumbulu.

“... Kipala Kia Samba teve 15 filhos, dos quais seis (06) eram com sua primeira mulher “Nzumba Muriango, muñambo-a-Čipalá”. Cada filho ia tomando a sua mulher conforme os rituais e a levava já concebida a uma outra terra para formar a sua família... Depois da morte de seu marido passou a ser chamada de Nzumba Čipalá, fazendo papel de rainha”...

O sobrenome Muriangu que configurava o título nobilístico de meu  avô, indicia ter descendido directamente da linhagem de Nzumba Muryangu ou Nzumba-Epala (Nzunba-esposa de Cipala). Pois o título nobilístico de Ñana Muryangu, nunca viria do nada e jamais lhe seria atribuído e reconhecido, se não fosse do grupo dos herdeiros de Cipala kya Samba saídos do ventre de Zumba Muryangu.

Portanto, sou um libolense, de Kuteka, onde meu avô materno, Ñana Ngunji,(Canhanga) era o regedor (soba grande) do Kuteka (margens do Longa), e sou igualmente descendente da nobreza de Cipala kya Samba (Kibala).

 

segunda-feira, maio 22, 2017

MALAVU OU LUNGILA?

Essa é uma pergunta comum quem visita as aldeias interiores do Uige. O café também conhecido como bago vermelho é, sem dúvida, o ex-libris do Songo e outros municípios do Uije. Mas, não é tudo. No Songo, por exemplo, também se vêem montanhas que desafiam os céus como na aldeia de Zulumongu (o céu é a montanha) e se bebe malavu (designação do vinho de palma em Kikongu)ou lungila (aturem-me em Kikongu) que é um fermentado a base de sumo de cana de açúcar.
- Então, vai uma bebida?
- Sim. Sirva Lungila!
Nesta viagem turística e exploratória sobre os usos e costumes dos nossos povos, também pude constatar que os topónimos, no Uige, regra geral emergem de hidropónimos, de antropónimos de fundadores das comunidades ou de eventos sociais, culturais ou naturais relevantes, uma característica que se pode dizer: geral em Angola, sem muita margem de erro.
 
Exemplos:
Zulumongu (o céu é montanha), Uije.
Kipala kya Samba (rosto de Samba), Kwanza-Sul.
Kambambi (friozinho), Kwanza-Norte
Baixo Longa (rio Longa) no Kwandu nyi Kuvangu
Ngonguembo (Ngonga yo wembu) Kwanza-Norte
babaera/Ovav'ayela (água límpida/cascata) Ganda/Benguela
Pedra Escrita (anúncio publicitário feito em pedra deu nome à aldeia) no Libolo), etc.

Outra constatação, cuja reflexão se espera melhor desenvolvida e fundamentada, tem a ver com as línguas faladas na extensão do Uije e as zonas de "penumbra linguística". Busco aqui uma analogia com a física, uma ciência da natureza para procurar explicar o que se passa com as imagináveis fronteiras linguísticas cujos marcos (inexistentes) nada têm a ver com as fronteiras político-administrativas. Se para separar os territórios das aldeias, comunas, distritos urbanos (têm estatuto semelhante às comunas rurais), município e províncias servem como separadores as ruas, avenidas, elevações, rios, cadeias montanhosas, etc., com as línguas, seja no Uije ou outro território, acontece de forma diferente. Não há fronteiras tangíveis. no Negaje, por exemplo fala-se Kimbundu! No Noroeste do Uije locuciona-se em Ucokwe ou língua aparentada. Na zona de fronteira imaginária entre dois grupos etnolinguísticos há sempre uma zona de transição que é, nada mais do que, a fusão de elementos lexicais dos dois grupos predominantes, sendo que essa "penumbra" se vai dissipando enquanto mais nos aproximarmos do núcleo de uma determinada língua.

Por isso, política é política. Entre os do Uije nem todos são bakongu!


Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta, 11.05.2017

segunda-feira, maio 15, 2017

UMA “CARTA” AO FUNCIONÁRIO PÚBLICO


Desde Frederick Taylor, considerado "o pai" da Administração Científica, que a ciência da administração e da gestão de pessoas no trabalho vem sofrendo uma evolução sem precedentes.

Para Taylor, a primazia recaía na tarefa. Homem-tarefa-ferramenta. Cada um procurava executar, com o máximo de destreza, a tarefa única que lhe era incumbida, chegando a executá-la de olhos fechados; a produção industrial ganhava corpo. Charles Chaplin satirizou essa época.
Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, e o primeiro empresário a aplicar a montagem em série de forma a produzir em massa automóveis em menos tempo e a um menor custo, encarou o homem como ser pensante, social, com desejos e anseios. Teorizou que o homem devia ser o centro da atenção e não apenas a tarefa e a ferramenta de trabalho.

Já Max Webber,
considerado um dos fundadores do estudo sociológico moderno, foi mais além, afirmando: “O homem formado, capacitado, motivado e remunerado à medida do seu desempenho é factor de produção e criação de lucro que proporciona o crescimento das organizações e das sociedades”. Porém, que tal se os procedimentos para a execução da tarefa fossem descritos em uma pauta, de tal sorte que qualquer que venha contratado possa executar a mesma tarefa sem desperdício de tempo para a aprendizagem e sem margem para grandes erros na execução da actividade que estava acometida a uma outra pessoa? A pauta ou a sistematização de Webber constitui-se num avanço à ciência da administração.

Olhando para esse percurso histórico de mais de três séculos, notamos, entretanto, que todas as teorias não se anulam entre si. Antes, se complementam.

O pensamento moderno leva-nos a valorizar a equipa ou o grupo. Tanto mais que em muitas organizações fazem-se contratos de trabalho em grupo, criam-se organizações que velam pelo grupo, e mesmo na realização de tarefas a primazia vai para o trabalho colectivo, cujo resultado deve ser mais do que a soma de todas as partes (cada uma tem tarefas específicas, interage com outros integrantes da equipa, comparticipa noutras tarefas, sugere, etc.).

Mesmo assim, o foco na tarefa, de Taylor, não ficou ultrapassado, pois, nos dias que correm, escasseiam pessoas que executem tarefas no tempo certo, com o resultado ansiado e sem inundar o líder de exigências e questionamentos prévios.

Essa reflexão induz-nos a revisitar o livro de Elbert Hubbard “Uma carta para Garcia”, que é somente um dos cinco livros mais vendidos em todo o mundo:

“Estava-se em finais do século XIX, e desenvolvia-se a luta pela emancipação de Cuba. Os Estados Unidos estavam em guerra com a Espanha (potência colonizadora de Cuba). Garcia era o general cubano revoltoso contra Espanha, suposto aliado dos EUA que também guerreavam Espanha por uma outra causa. Com a Espanha sufocada, os EUA pretendiam encontrar Garcia que se encontrava incerto nas montanhas interiores da ilha. Que fazer? O Presidente dos EUA precisava de um emissário que levasse a carta a Garcia que se achava em sítio incógnito. O homem que lhe foi apresentado, simplesmente pegou a carta, a impermeou, pegou numa canoa e, onde não pôde navegar, meteu-se no sertão até encontrar Garcia”.
Quantos de nós ainda cumprem tarefas sem questionamentos e exigências prévias?
Homens assim, que “levam a carta ao Garcia”, são ou não imprescindíveis à organização?
“Uma carta para Garcia” é também a nossa sugestão complementar de leitura.
Escrito para e publicado pelo InfoGeoMinas, enquanto Dir do GRH
 
 

domingo, maio 07, 2017

VELHO LUMINGU E NETINHO


Numa comunidade religiosa cristã, dizia o pregador: um jovem, Boss de seu nome, vivia com seu pai que era já muito idoso. Reumatismos e outras maleitas faziam dele franzino e trémulo. À mesa, quase sempre, deixava cair os talheres, os pratos e copos, recebendo desaprovação da nora que se queixava de ver o seu enxoval a diminuir.

Boss tentava encontrar um meio termo. Quando podia comprava louça substituta, porém, a fúria de Queen era tanta.
A conselho da mulher, o jovem Boss entendeu fabricar artesanalmente pratos de madeira e copos de caniço de bambu para o pai.
Velho Lumingu nem força tinha para comer, quanto mais para reclamar. Aceitava pacificamente tudo quanto lhe dessem ou lhe ditassem. A viver aflito encontrava-se Netinho, o filho de Boss e Queen. Acompanhava atento quer ao quebrar da loiça por parte do vovô Lumingu, das arrelias da "filha prendada" de maus ensinamentos que era Queen e  ainda a cegueira daquele jovem próspero, seu pai. E via o vovô Lumingu sempre comendo em prato de madeira e usando copos de bambu.
 
O tempo foi passando. O menino, já adolescente, ia ganhando prática em escultura. Trabalhava e talhava a madeira como ninguém da sua aldeia e da sua idade. Era já quase um artista no trabalho da madeira.
 
Certo dia, decidiu dedicar toda manhã à fabricação de utensílios de cozinha. Não tomou sequer o pequeno almoço.
 
Quando o Boss e a Queen, seu pai e sua mãe, foram ter com ele encontraram-no no meio de uma pilha de objectos: garfos, facas, colheres, pratos, copos, etc.
Surpreendidos, perguntaram-no para que seriam àqueles objectos todos.
- Serão para o papá e a mamã quando tiverem a idade do vovô. Pode ser que até lá eu já não tenha a destreza de os poder fabricar.

Atónitos com a resposta do filho, desfizeram-se automaticamente dos objectos de madeira e repuseram a qualidade de vida que haviam usurpado ao velho Lumingu.

Queen e Boss correm hoje para a idade senil e levam para o fim de suas vidas a lição aprendida do filho primogénito. Espalham-na por onde passam, tornando-se palestrantes em várias organizações, explicando a necessidade de os filhos acolherem os progenitores em casa.
- O tratamento que dispensares aos teus progenitores, será, tenha certeza, o mesmo que pedes a teus filhos! - Têm dito nas suas preleções.

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta a 15/06/2017, pag. 06

segunda-feira, maio 01, 2017

MEMÓRIAS DE REPÓRTER

1998
A transportadora aérea nacional reiniciou os seus voos civis para a cidade do Kuito, capital do Bié, depois de um longo cerco e combates rua a rua, homem-a-homem, cidade dividida. Foi depois das eleições de 1992.
 
Do aeroporto à cidade, que eu visitava pela primeira vez, tudo parecia fantasmagórico. Casas todas estropiadas, tropas em todo o lado. Civis também andando e vivendo como militares. Crianças rotas, quase nuas... O PAM (Programa Alimentar Mundial, Órgãos da ONU) parecia ser uma planta divina, comparada ao maná dos tempos de Moisés, no Ermo. Dele "brotavam" o milho, o feijão, a soja e demais mantimentos. Os voos do PAM eram regulares, mas tinham de fazer-se aos céus do Kuito em sistema espiral (várias voltas num raio apertado até atingir a altitude necessária), a aterragem era feita no mesmo sistema. Os ares estavam, até aí vetados aos voos comerciais.
 
- Ó puto, donde provêm o milho? - Questionei, esperando ouvir "do milheiro". Ledo engano. A resposta do garoto, oito anos, mais ou menos, saiu "é no PAME, mano", guardei o sorriso.
 
"Aqui, as forças armadas defendem o povo e o povo se autodefende", fomos informados à chegada no aeroporto por um chefe militar, seguido da questão "quem sabe disparar?", ao que alguns dos jornalistas que foram "cobrir" aquele reinício responderam afirmativo. Eu estava entre os que sabiam premir o gatilho e desmontar a culatra de uma kalashenikov.
 
Postos na cidade, alojados nos anexos da casa do Governador, de onde também era emitida a famigerada "Rádio Kambulukutu" (assim designada porque se diz que o sinal chegava apenas ao bairro Kambulukutu), diviso um clima horrível: canteiros separadores das vias transformados em campas e ao mesmo tempo lavras. Cacimbas que davam água serviam de túmulos. Faltava quase tudo. E o pior, o avião não pôde voltar à procedência, pois tinha registado uma avaria. Como a guerrilha estava a pouca distância, não se podia informar na comunicação social que o aparelho estava na pista, sob risco de bombardearem o aeroporto. E ficamos três dias no Kuito.
 
No dia de regresso, foi quase festa. Sobretudo, quando a cidade já se via "bonequinhos lá em baixo". Só alegria. Quando voltei ao Kuito, em 2004, já decorria o PERMK (Programa Especial de Reabilitação Mínima do Kuito) dando outra alegria às edificações ao longo das ruas principais. O cemitério monumento já era realidade.
Nota: texto publicado pelo semanário Nova Gazeta a 09.03.2017