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quinta-feira, outubro 15, 2020

ÚBEKA*

Revisitando a memória e o costume dos povos libolenses e circundantes, chega-se à conclusão de que o chamado "chá-de-panela" não é nada mais do que um peditório pré-matrimonial que visa dotar a pré-nubente de utensílios domésticos para colocar-se em condições de poder receber visitantes.

Tal peditório visa angariar, sobretudo, utensílios de cozinha, entre louça, talheres, toalhas de mesa e de loiça, fogão, bilha de gás e outros adereços.
Na tradição bantu-libolense o peditório tem o designativo Kimbundu de úbeka.
A pretendida (noiva), antes do kixobo**, passa pelas casas de tias e primas, já casadas, que oferecem tantas peças quantas possíveis do seu enxoval à futura "dona de casa". É um acto encarado com normalidade e naturalidade que não se submete à chacota.
Olhando para o moderno e urbano "chá-de-panela", trata-se tão somente da urbanização ou renovação de um hábito secular bantu que ainda tem pernas no interior libolense.
Ao inovador "chá-de-panela" segue-se o "chá-de-bebê" outro peditório que visa angariar de parentes e amigas chegadas roupas de recém-nascido que seus filhos tenham descartado.
É também assim no Libolo.

* Peditório
** cerimónia matrimonial

quinta-feira, outubro 08, 2020

BATATEIRA DESFOLHADA

O dia nasceu nublado. Nem o avançar da hora para perto das oito fazia o sol se erguer com pulungunza de quem fumou bob marley.

Esses, os apreciadores da fumaça, eram os únicos que pululavam as ruas da cidade, ora biscateando na rega dos jardins nascentes, ora dirigindo-se aos empregos formais.

Entre o frio e a necessidade de dar vida à vida, lá estava também eu, fumador passivo da kangonya do motoqueiro que recolhia o lixo do quarteirão P do Zango 5. Mangueira na mão e pá à porta do quintal,  eis que me visita um jovem alto e magro, em passo apressado.

- Bom dia boss. Posso arrancar a rama?
- Arrancar? Como assim?
Pensei que fosse brincadeira. Só podia ser. Como é que um gajo lúcido vem, manhã cedo à minha porta e a propor arrancar a batateira que me tem custado água e esforço, para além de dar vida ao canteiro que relegou ao passado o castanho da terra?
- Sim boss. É mesmo através da fome. Trabalho no fomento (fundo de fomento habitacional). Assim, o outro está a me esperar para lhe render. Se o boss me fizer já boa vontade, vou me apresentar e volto arrancar para fazer o almoço.
- Ah! Vamos lá ver. Mas você precisa das folhas ou dos caules também?
- Boss, é mesmo para comer.
- Sim. Já percebi. Você quer a rama. Mas precisa também de levar os troncos? Pois se arrancar vai levar tudo e quando a fome voltar não haverá mais nem para mim tão pouco para você.
- Não kota, me atrapalhei ao pedir. É mesmo só as folhas para acompanhar os jovens do prenda (kabwenya).
- Está bem. Pode levar a rama. Mas eu quero que você as corte agora que estou a regar para me assegurar que não vai arrancar as plantas inteiras.
O jovem agachou-se e foi desfolhando a batateira até parecer que foi visitada por uma herbívoros ruminante.
- Boss, faxavor! Pode me dar um saco? - Voltou a pedir.
- Porra, você é que sabe pedir. Já queria a rama e os troncos todos. Agora quer saco. Não tenho. Deixa a rama no canto e depois vem buscar ou leva-a na sua mochila.
Conselho acatado, o jovem pôs força nas pernas e foi marcando passos, desfazendo-se na distância e na neblina matinal.

quinta-feira, outubro 01, 2020

QUEM DISSE QUE HOMEM ADULTO (NÃO) CHORA?

A fila não era longa. A manhã é que já levava quilómetros.

Chamados a provar o que os próprios cientistas reconhecem "haver erros recorrentes em resultados apresentados", lá estavam lideres e liderados. Um dúzia e meia entre falsos sorrisos e receio aparente. Todos apreensivos quanto ao método e resultado.
- Será?
- E se for?!
- Bem. Sandinga. Se for será. Se não for melhor! - Atirou 2Tempos, um dos melhor graduados daquela esquadra.
Não demorou a chamada. Primeiro para o alistamento e, depois, para o tira teimas.
O exame consistia em fazer "endoscopia" sem gritar, nem lacrimejar.
- Está tudo bem, senhor? - Indagou a médica.
- Está bem. Mas se lhe disser que está tudo bem estaria a mentir. É um desconforto esse tubo dentro de mim.
- Realmente. Mas isso passa. O mais importante é o resultado. Pode sair, sô tor 2 Tempos.
- Obrigado pelas palavras. Estou apenas a endireitar o rosto para não aparecer à tropa com lagrimas visíveis.
- Ah! Um homem chefe também chora?!
- Deixa, Cda. médica. Para mim, o choro são as palavras exteriorizadas. Sei guardar a angústia para o momento privado.
E foi saindo e se endireitando ao encontro da "tropa" que aguardava notícias. O teste era inédito.
- Chefe, doeu?
- Não. Até dá prazer em bisar. É como amêndoa. Lembram-se das vacinas em que davam amêndoas? Nada de medo. Está e vai estar tudo bem! - Concluiu 2 Tempos, fazendo a curva para apanhar a viatura que deixara desguarnecida na rua do Giraflor.

terça-feira, setembro 29, 2020

QUERO-VOS PERNAS!

Há duas semanas que vou fazendo a pé o percurso Zango V vs entroncamento com a Estrada Kalumbu-Via Expressa, ora de manhã, ora ao dealbar do dia.

Na última rotunda, antes da cidade, aí onde desembocam os rejeitados da ETAR, em direção a Kalumbu-Kwanza, há uma bifurcação em forma de tomada para futura estrada e um andarilho frequentado por gente que só aparece de carro e bem aparentada, cujo destino se perde na distância do devoluto.
Aldeia à frente não se vislumbra. Fazenda ou quinta quiçá. Porém, as vestes contrastam com o estilo de vida ou ambiente campesino.
Que haverá de enigmático por trás do "montulho"


de terra vermelha saída da vala que transporta as águas podridas do Zango V?
Entre contemplações e curiosidade, perguntei aos membros locomotores:
- Podem levar meus olhos até próximo do enigma?
- Estamos sem força, mestre! - Responderam a teketar*, carregando já perto de dez mil passos.
Quem sabe um dia ganhem forças bastante para levar-me a descrever aonde vão aquelas senhoras de idade e bem nutridas, vezes sós e outras vezes acompanhadas por moços pulungunzeiros?!**

*tremer.
** cheios de força, vigorosos.

terça-feira, setembro 22, 2020

AMBULÂNCIA NO BAIRRO

- Xê, sabes duma coisa, Joana?

- Coisa de quê então, Belucha? Me conta então.
- Falaram então aquele vizinho acusou.
- Lhe acusaram quê? Assim já é fitiço nê?
- Não lhe acusaram feitiço, sua distraída.
- Então fez quê, roubou ou meteu filho na mulher do outro? Também da maneira que bebe e pega nos rabos das mulher'alheia não s'esperava outra coisa.
- Joana, você és mesmo distraída. Parece ainda estás em Kangandala. Abre o olho, pá.
- Mas, ó Belucha, você conversa que inicias nunca terminas. Assim eu é que vou adivinhar o teu mahezu. Começa então ja a boatar você que te nasceram na cidade. Mesmo aquele tô bairro Kangambo de Malanji também é quê? Comparando com Kangandala onde me nasceram ainda é mais melhor. Vai conta já.
Belucha mão na bochecha e outra nas costas, como que aquecendo o mona que trepidava de frio. Caminhavam ao chafariz.
- Pronto já Joana. Só não te arrespondo mais porque eu é que dei iniciada de abusar teu bairro. É assim. Estás a ver o vizinho Januário, nê? Disseram ambulância foi em casa dele lhe buscar.
- Belucha, assim é quê? Será que fez acidente? Nós, em Kangandala, se pessoa vê ambulância foi socorrer acidente na via.
- Mas aqui é Luanda, Joaninha. Não andas a ouvir Covid? Disseram acusou!
- Má, má, má! Belucha, faz favor. Viste bem? Ouviste mesmo bem ou estás só incriminar homem lheio?
- Vi a ambulância, Joaninha. Também ouvi aqueles moços que ficam na rua a falarem que agora quando ambulância te vai buscar é porque acusou covid-19.
- Belucha, sei mesmo que você estudaste mais do que eu que parei na terceira classe e também vieste já há muito tempo em Luanda. Mas vou te dizer, minha irmã. Discriminar as pessoas é crime. Pior do que isso é estigmatizar que tem doença que não foi buscar. O tal corona não é como a sida. Às vezes lhe encontrou mbora no trabalho, assim como pode ser mentira.
- Tens razão, mirmã. As pessoas, às vezes exageram.

terça-feira, setembro 15, 2020

UM VIVER RURAL À VOLTA DO ZANGO V

Sem as obras invasoras de um terreno que devia ser reserva da cidade ou tampão e sem o táxi colectivo azul-e-branco, o percurso da mae e seus quatro filhos podia enquadrar-se em um "caminho do mato" onde o atalho estreito não permite andar lado a lado.

A rua em referência (na imagem) é paralela à Principal do Zango 5, como é tratada.
Não pude ver o rosto da senhora, senão a silhueta captada distante pela objectiva do meu telefone.
Fez recordar-me a avó Kilombo, nos anos 80 do século XX, após perder o marido numa batalha contra uma doença de fórum respiratório. Tinha quatro filhos, sendo que uma estava à guarda de um "irmão", em Luanda, vivendo com o 1°, a última e mais uma.
Sem marido e sem ninguém adulto para cuidar dos outros, durante suas ausências de curta duração, a avó Kilombo, ao tempo ainda trintona, "viajava" com seus três filhos, sempre que tivesse necessidades. E o cenário era exactamente como mostra a foto: a kasula no colo e outros dois irmãos se revezando em pegar o pano da mamã.
Caminhavam. Ela com uma kimbamba à cabeça e a kasule ao colo. Os infantes, cada com o seu peso: afome, a sede, a distância, a ferida do sapato apertado ou pé descalço, uma galinha para ofertar o anfitrião, uma garrafa de água ou kisângwa ou outra coisa útil à viagem. Também podiam ser dez ou mais quilos de macroeira à cabeça do filho primeiro.
A "mamã do campo" não só me levou ao Libolo dos anos 80. Fez-me também viajar pela Lunda e pelo aforismo "kusema ca ndemba", onde o galo fecunda e vai cuidar unicamente de si, enquanto a galinha, coitada da "calhi", cuida dos pintainhos!
E, vamos ainda tendo o "mato" a viver na cidade, dada a prevalência dos hábitos e costumes campestres de pessoas forçadas a viver na grande cidade!..

terça-feira, setembro 08, 2020

NGOYA: CONSTRUTO INACABADO OU ADIANTAMENTO NA ACULTURAÇÃO?

Um dia depois do Live no Kubico que juntou Kumbi Lixya, Man-Prole e Bessa Teixeira, um dos programas de entretenimento da Televisão que "É nossa" estendeu o sinal ao Sumbe para perguntar ao jornalista local sobre o impacto do Live na capital cwanza-sulina, tendo a jovem apresentadora iniciado por perguntar "como se dizia boa tarde em língua local".


O jovem, sem pestanejar ou recorrer ou que já teria ouvido bastas vezes, atestou que "em ngoya é mesmo mboa tali" , quanto a mim, uma kimbundizacão de boa tarde (Pt).
Perante tal desfeita aos mais velhos, cultores de nossas línguas (principal elemento dignitário de um povo), aos investigadores e cientistas das línguas; tal "desfeita" e tão banal quanto foi só me pode levar às seguintes hipóteses:
a) Que a língua ngoya que se apregoa existir no Sumbe, e que pelas ondas da RNA pretendem tornar extensiva a todo o Kwanza-Sul, é uma invenção inacabada, portanto, inexistente;
b) Que, caso mui remotamente tivesse existido, seria a língua angolana mais avançada na sua perda de identidade ou acomodação de lusitanismos, ao ponto de deixar de conter no seu léxico uma simples saudação; ou, na pior das hipóteses;
c) Que tal povo e língua "ngoya" são pós-dependência de Angola e a tatear ainda na construção e composição do seu "corpus identitário" em que se posicionam a língua autónoma e demais elementos identitários periféricos.

Uma casa inacabada é um projecto que pode dar em casa ou em nada. Portanto, não façam os incautos "pescar" um pedaço de canoa náufraga, confundindo-o com bagre. As línguas têm léxico próprio, têm vida...

Eme nganange. Eye phe? 

Muphe nga, kwimuna kwi?

terça-feira, setembro 01, 2020

EUFEMISMO, DISFEMISMO E JORNALISMO

Só para situar: eufemismo e disfemismo são figuras de estilo ou de retórica. A primeira visa encontrar palavras brandas para descrever uma situação cujo impacto pode ser alarmante. A segunda é o oposto. Sem ser hipérbole (exagero), amplia a intensidade da ocorrência, dando-lhe maior impacto "sentimental".

O jornalista que faz jornalismo é aquele mano ou mana que deve evitar adjectivos, eufemismos e disfemismos, servindo-se da linguagem coloquial.
Depois de nossas autoridades sanitárias se terem servido de disfemismo, em relação àquilo que seriam, eventualmente, os casos de covid-19 a essa altura, o que felizmente não está a acontecer, optaram por um eufemismo para se referir aos perecimentos causados por essa pandemia. Surgiu a expressão "foi a óbito de covid-19" que tem soado "foi ao óbito ..."
Dai que, de tanto ouvir "foi ao óbito" a septuagenária Kilombo, invisual mas atenta à televisão e que se gaba de "ouvir como se estivesse a ver", se tenha perguntado.
- Mas então o mesmo governo que proíbe ir aos cemitérios é o mesmo que permite as pessoas ir procurar óbito? Andam a ir procurar comida ou bebida?!
Tem razão, a meu ver.
Na conferência de imprensa diz-se ou pelo menos ouve-se "foi ao óbito de covid-19" e alguns jornalistas, sem olharem pora aquela regra que manda "falar barato sem cair no populismo", também vão reproduzindo "foi ao óbito".
- Mas foi lá fazer o quê com essa doença perigosa que anda a matar muita gente?! - Questionou-se ainda a velha Kilombo.
Então: morreu, faleceu, pereceu, ou "foi ao óbito"? Já não basta a "kikonda" perdeu a vida?

sábado, agosto 29, 2020

O TROÇO DAS CUECAS

 O TROÇO DAS CUECAS

Tenho estado a lutar contra a subida, embora lenta, do meu peso, submetendo-me, sempre que possível, a uma caminhada matinal ou vespertina de aproximadamente dez quilômetros ao dia.

Estando na cidade do Zango V, tenho um itinerário que vai de minha casa, Quarteirão P, ao Zango IV, ligação à estrada Kalumbo-Viana.

É a meio-caminho, imediações da Estação de Tratamento de Água (ainda em construção) que, há dois dias, meus olhos são brindados (involuntariamente) com essas pérolas.

Ontem foi uma cor-de-rosa amarrada. Hoje é esta (na imagem). O que se estará a acontecer nesse espaço?

E, tal como quando se regista um acidente de viação, os transeuntes param alguns instantes para ver, tirar as medidas e reter a "matrícula", seguindo-se a indagação:
- De kenhêsse ruca?!

domingo, agosto 23, 2020

DE OLHOS E OUVIDOS EM TEREMBEMBE

O Sol já não era criança. Era muzangala. Pareciam dez e tal. O frio já estava a se esconder e os kangonyeros já tinham se sacudido, preparando-se para ir embora. Antes, partiram mais umas folhas frescas do "marley" que, com certeza, vão fumar amanhã ou logo mais, ao pôr-do-sol.
As mamãs que procedem à rega das hortaliças à volta da lagoa começavam a substituí-los no campo agricultado à volta do depósito natural e artificial de água que a chuva e vianenses mandam ao Terembembe.
Desta vez, se calhar, com medo da serpente que viu ontem, Madó estava bem fardada. Botas mata-cobra, calças jeans, camisola "mamã-me-larga" e casaco pesado por cima. Numa mão um balde regador e noutra a catana e o sacho. Ao avistar a amiga de adolescência, Madalena abriu o rosário:
- Mãezinha, lebras aquela nossa vizinha que era muito amiga da Joaninha?
- Sim, lembro. É o quê então, Madó?
- Eh, miga! S'ncontrei com ela. Ewa! Num te falo!
- É o quê? Xuxa dela já caiu?
- É isso mesmo que iu te falá. Vinte anos, xuxa tipo nenê de doze? Acho lhe atiraram uma merda.
- Também acho. Rabugisse é demais. Pessoa mesmo que num lhe conheces, nem de cima, nem de baixo, lhe acusas te roubou dinheiro, só porque namoras com polícia?
- Assim lhe atiraram mesmo uma merda. Só falta já ter barriga de água.
- Madó, mi fala. Barriga d'água mais é o quê?
- Estás a ver quando as tias falam está gravida mas nenê num se mexe, nem nada, né? Na barriga é só água. Acho que bruxaria que atiraram na Leninha pode ir nesse caminho. Por isso nessa vida é preciso ter cuidado, Mãezinha.
- E assim estás a ir aonde?
- Estou a ir na Estalagem comprar máscaras. Aquele filadaputa do tô cunhado se embebedou ontem e na minha máscara atirou lá molho de frango. Cão comeu os ossos com o pano que ficou todo roído. Mas vai me sentir, só se não só eu Madó da Carreira-de Tiro.
- Não lhe faz mais confusão. Pára já, Madó. Homem de uma só mulher está difícil. As vezes nós mesmas é que provocamos homem te sengar ou te arranjar ajudante.
- Num me fala mais assim Mãezinha. Ele me acordou os kalundús na cabeça. Mas pronto já. Com o teu conselho, vou só comprar máscara e lhe aprontar o almoço.
À moda de Malanje, Madó e Mãezinha deram-se um "kwata-kwata" e partiram cada uma para o seu caminho.
Mãezinha fez gosto ao pé, em direcção à estrada que conduz carros apressados e homens e mulheres andrajosos na preguiça trazida pelo cansaço das pernas empoeiradas. Madó enfiou o corpo no milheiral que cresce e enverdece com a força do estrume fecal levado pela água urbana à Lagoa do Terembembe.

sábado, agosto 08, 2020

O CÁGADO E O CARACOL

HAVIA quatro dias que os dois encarapaçados trocavam mimos, passando pelo meio algumas cajá-mangas que ambos disputavam.
O Cágado, aos meus olhos, chegou primeiro e fez cortes à suculenta e doce fruta que caíra na relva.
Chamado pelo cheiro, o caracol desfez-se da toca e foi também sorver algum melaço.
Quando a fruta acabou, o cágado foi ao encontro do sabor que o caracol escondia por cima e dentro da sua carapaça.
Seguiram-se outros dois dias de brincadeiras de mau gosto. Foi assim:
O cágado queria lamber o melaço de cajá-manga, por cima do caracol e, se possível, comer o caracol.
Esse, já avisado das intenções do vizinho (viviam no mesmo quintal e brincavam no mesmo jardim relvado), procurou esconder-se no mais recôndito espaço, onde a largura e inflexibilidade corporal do cágado não permitia atingido. Assim foram dois dias, ate que:
Chegou o sol. O caracol precisava de aquecer o seu corpo. Saiu da toca e largou o corpo para fora da carapaça. Não tinha visto que o cágado já lá estava à espera de fruta ou de si.
Astuto, o cagado deixou-se confundir com uma pedra, outra toca que bem podia servir de refúgio para o caracol, em caso de perigo redobrado.
Aos poucos, o cágado, já senhor da situação, foi se descompondo. Abriu os olhos, ainda na sua fortaleza corporal. Esticou o pescoço e mediu a distância entre o caracol e a extremidade da relva. Soltou uma perna, depois outra. Largou as membros superiores e foi ao ataque.
Bem que o caracol ainda tentou encolher-se na sua cápsula. Mas uma golpada do atacante abriu-lhe uma fenda a que se seguiram outros ataques.
Hábil a confundir seus predadores, o caracol fingiu-se morto e encolheu-se o máximo que pôde na sua carapaça.
O cágado bem tentou colocá-lo ente as mandíbulas e procurar engoli-lo mas jamais o volume da carapaça do caracol passaria pela sua garganta.
Cansando, o cágado teve de desistir, deixando o caracol ferido, mas vivo!

domingo, agosto 02, 2020

CHÁ DE "MARLEY"

- Wi, o Marley já chegou.
- Fala a sério, kamba dyami. Tens contigo o Bob?
- Sim. Chegou maduro, magro e muito forte. Canta músicas quentes que afugentam o frio.
Quem não domine as falas codificadas dos frequentadores matutinos e vespertinos da Lagoa do Terembembe, em Viana, pode pensar na ressurreição do ícone da música reggae e seu aparecimento em Luanda.
O que acontece, na mais pura verdade, é o uso da substância que se diz ter sido companhia predilecta do jamaicano Bob Marley.
E, na aurora, antes mesmo de o sol se apresentar aos homens, jovens dos 16 aos 35 anos contornam os cantos das casas que "dão" costas à vala e os arbustos para se dirigirem a uma ilha da lagoa, onde dizem afugentar o frio juliano, um exercício para baforadas repetido ao por-do-sol, acompanhado com estorcimento do corpo fumante.
Hoje, manhã cedo, duas vizinhas vozeiravam sobre chás.
Uma delas, a mais velha, estava exactamente a sair do local frequentado pelos amigos de Marley.
- Vizinha Maria foste colher jihasa? Também quero.
- Nada, minha mana. Fui buscar um pouco de chá para as crianças que estão com tosse.
- Oh! Na naka também plantaste chá? É chá de quê mesmo?!
- É Marley.
- Marley, vizinha Maria, é qual'ê tipo de chá?
- Ó mana Guidinha vem ver. Aproxima-te. Tens visto os moços aqui a se kangonyarem, nê? Agora que capinámos e semeamos batata e feijão, as sementes da Kangonya também germinaram e estão a apanhar a água da rega de outras plantas que dão comida.
- Oh, afinal Marley é Lyamba?
- Nunca ouviste os moços a se chamarem e a citarem o nome do artista jamaicano? Quando ouvires Bob Marley fica atenta. É isso. O chá dele é tiro-e-queda contra tosse, pestes animais e pode dar jeito na Covid-19.
Repartiram as folhas, verdes e de cheiro intenso, como manda a vida comunitária, e cada uma delas foi terminar o matabicho para os tundenge. O pão de cada dia ganhou um novo companheiro, o chá Bob Marley.

quarta-feira, julho 22, 2020

QUEIMADAS, PROVENTOS E PREJUÍZOS

A 23.05.2020, alguns bairros de Luanda terão "dormido na escuridão" porque numa subestação da empresa distribuidora houve incêndio "periférico" que destruiu alguns equipamentos (se bons ou sucatas não sei). Tais equipamentos eléctricos, ao que as imagens nas redes sociais mostraram, estavam num vasto quintal e em volto a capim seco. É aqui que surge o tema "queimadas".
Na Kabuta, comuna do município do Libolo, um incêndio causado por queimadas feitas por caçadores locais deixou 44 famílias desalojadas no dia 19 de Julho de 2020.
No sábado, 25 de Julho, o empresário agropecuário José Carlos Cunha "Oka", anunciava um fogo perigoso que lavrava imediações de sua propriedade no município da Kibala, ameaçando animais e campo agricultado. Felizmente, aqui a mestria do empresário que se encontrava no campo, fez com que contra-fogos fossem ateados e impedida queima dos bens. 
No domingo, 26 de Julho, o meu sogro Sabino Salongue, comunicou-me que a sua fazenda no Yeyele, Kwitu, foi vítima de incêndio que lavrou toda a cultura de citrinos. "Toda a fazenda queimou", explicou desolado.
Eu mesmo, sendo natural de uma aldeia do Libolo, aprendi cedo a cuidar e usar o fogo como "fonte" de alimento, de defesa e de higiene.
No tempo seco/kixibo, o lixo e toda a erva seca é queimada. É menos trabalhoso queimar do que capinar.
Chegados os meses de maio e junho (quando o capim ainda não está completamente seco), roça-se/corta-se o capim à volta das aldeias, das lavras e fazendas (picadas) ao qual se joga fogo, para se defender do fogo das caçadas nos meses de Agosto a Setembro. O espaço vazio que se cria entre a habitação ou lavoura e o matagal é chamado de quebra-fogo.
À volta das casas, nas aldeolas, para evitar que cobras e outros predadores se abeirem das pessoas e dos animais domésticos, é o fogo posto que alarga o "espaço vital e visual". Daí que atear fogo à capinzais circunscritos (quintalões) ou não é, para o angolano do interior, uma prática inculcada na psique, agindo de forma costumeira tão logo se depare com capim seco que pode, no seu imaginário, compaginar-se com a oportunidade de: caça, defesa, visibilidade, facilidade agropecuária (nascimento de relva para os herbívoros domésticos, e prática agrícola), etc.
Ainda ontem, 23.05, limpei um dos meus quintais (onde decorrem obras civis) usando a prática da queima do capim seco. E foi mais fácil ter o espaço limpo do que seria se usando a enxada. E mesmo assim, teria ainda de descartar o capim.
Queimada é prática primitiva da agricultura, destinada principalmente à limpeza do terreno para o cultivo de plantações ou formação de pastos, com uso do fogo de forma controlada que, às vezes, pode descontrolar-se e causar incêndios em florestas, matas e terrenos grandes (wikipedia.com, 24.05.2020)

quarta-feira, julho 15, 2020

NESSE TEMPO...

Nesse tempo em que acordar (no mato) é um esforço, pois  o cobertor gélido desaconselha abandonar a esteira/lwandu, é também o tempo em que as formigas mais "caçam", levando às suas tocas toda a sorte de mantimentos para o período de carestia, o kixibo, que "entrou" na terceira semana de Maio.
Nesse tempo, o capim verga-se ao vento, deixando cair as flores (lusoke) com que alguns passarinhos constroem seus abundantes ninhos em colónias. Homens e outros predadores estão atentos às colonias de passarinhos para colherem os mancebos dentro do ninho ou caídos na tentativa do voo inaugural.
Sem chuva, a verdura é escassa. Escassa é também a água nos rios permanentes, dando oportunidade à pesca por armadilha (muzwa) ou intoxicação por folhas, cascas e ou raízes entorpecentes (kalembe, twa e outras).
Aos atalhos interiores, ladeados por capim alto e encurvado pelo vento, voltam as codornizes, que afastam as folhas e flores do capim, fazendo círculos na areia onde brincam ao sol preguiçoso.
Os jipuku, os jingwari, os (ma)bulu, os jimbwiji e outros abeiram-se também cada vez mais das plantações em busca de alimento fresco e saudável. Os peixes e jihala ficam mais expostos, dada a baixa do caudal e ausência de plantôn arrastado pelas cheias do tempo chuvoso.
Que tal reforçar a dieta, sobretudo o acompanhante  (conduto) do fuji/pirão, montando pequenas armadilhas para aves, pequenos animais (roedores), peixes e até mesmo "emboscadas" a antílopes e yombo (javalis) nas nascentes de água?
Como a sociedade e o hábito nos moldam para essas tarefas, eminentemente masculinas, (aprendidas e/ou aperfeiçoadas no acto de iniciação/circuncisão) nenhum frio se torna tão forte ao ponto de deixar o rapaz na "cama" até que o sol levante a cabeça.
Às primeiras horas, sol ainda um semi-círculo amarelo e preguiçoso, os rapazes afiam as catanas, calças as alparcatas ou similares, penduram a salamba (sacola rudimentar para acomodar os animais ou peixe) e põem-se à visita das armadilhas no mato e nos rios. Há vezes que a mãe do filho caçador/pescador infalível prepara atempadamente o funji, contando com o que há de vir da caçada ou da faina.



Senti saudade, esta manhã, de consertar armadilhas e providenciar conduto para a minha velha. Fui, no devido tempo, pequeno caçador/pescador infalível.

quarta-feira, julho 08, 2020

PREOCUPAÇÃO DA FOME


Nas aldeias, com certeza, a manhã era rociosa, tendo em atenção "o kasimbu que estamos com ele". Nas cidades, nem tanto. Aqui aquece quando se espera pelo frio, como pode rociar quando se aguarda por elevadas temperaturas. Luanda, com o confinamento causado pela Covid-19 e as consequentes restrições das actividades económicas, formais e informais, agudizou o "salve-se quem puder".
Cada um procura o pão da forma como pode. Uns abeirando-se dos contentores repletos de nada, outros fazendo-se aos rossios da cidade ao encontro de quem os chame para um "tira lá isso ou carrega lá aquilo" e eu no vai e vem diário à "casa" do patrão Estado. Siñalywa procurava por quem acossado pela distância, sol e sede precisa-se de seus serviços de moto-taxista, actividade, porém, proibida nos últimos dias. 
Empurrado pela carência, Siñalywa anda preocupado e com algum medo a mistura. Presta atenção aos putativos clientes e aos polícias de quem espera escapar. E como quem muito zela acaba tropeçando, lá foi ao encontro da porta lateral de uma viatura que circulava à velocidade de camaleão.
- Mano me desculpa só. Estou a procura de pão para os filhos. Já sabe, temos de olhar sempre nas pessoas que fazem sinal. Não te vi. Melhor, quando vi o carro, já era tarde. Travão não pegou. - Assim confessou.
- E agora? Quem arranja o estrago?
- Me perdoa só.
- Repara-te ainda se não te feriste e depois vamos acertar. Põe a nora naquela sombra.
Passado o corpo em revista, tentou, com a força que possuía, levar a peça amolgada à posição habitual. Debalde. O estrago era mais profundo do que imaginava e nem a força lhe sobrava. Afinal, gordura nem sempre é energia.
- Mano, por favor, me perdoa só. É mesmo preocupação da fome. Me mostra só uma oficina de bate-chapa. Eu vou na frente e o mano pode me seguir a trás.
No meio rolou a estória do acorrido em Março, no Lubango, em que um motoqueiro embateu contra uma viatura e, na perseguição, o fugitivo acabou colhido mortalmente pelo todo-o-terreno.
- Não, kota. Confia. Não vou fugir. Já sou mais velho.
Lá as duas vítimas (um do acidente e outro da fome) meteram-se à procura difícil até à Sanzala, onde as medidas impostas pela declaração do Estado de Emergência (tal como o distanciamento social) continuam a ser ignorados pelos rapazes biscateiros que "pegam em tudo".
- Kota do obama, nós tudo pêgamo!

quarta-feira, julho 01, 2020

QUEM EVITA POLÍCIA NÃO LEVA REBUÇADOS

Um corpo acima de quarenta, numa quarentena a caminho de quarenta e cinco dias, precisa de exercitação, pois, "músculo que não exercita atrofia".
Assim pensado, decidi retomar os exercícios ligeiros. Tracei o raio, em obediência ao que a legislação determina e iniciei a caminhada numa distância imaginária de dois quilômetros, mais ou menos, a partir de casa, o que, ida e regresso, podia representar quatro quilômetros marchados.
Sozinho, e quando o corpo ganhava rotação e os músculos calcinados a reclamarem menos, eis que dois jovens, "perdidos" no correr, quase me abalroavam.
- Xê, kota, xtás ir na Vila (Viana)? Xtão a borniar. - Alertou um deles correndo desorientado e sem máscara de protecção individuam contra a Covid-19.
Sem mais quês nem porquês, fiz KRF.
- Marido, voltaste tão cedo da caminhada?
- Xtão a dar rebuçados.
- E o papá não recebeu porquê? - Indagou o infante.
- O teu pai evitou a polícia. Assim estão a aporretar quem esteja na rua. - Tentou explicar.
- Aporretar é qué? É dar rebuçados?
- Sim. Porrete é aquilo que os policias levam pendurado ao cinto e com que batem os desobedientes. - Expliquei e completei os 10 mil passos no quintal, dando voltas à casa.
Tal como na economia e consumo em que se encontram produtos alternativos em lugar dos encarecidos ou completamente ausentes do mercado, também é possível evitar o contacto social, encontrando formas alternativas para fazer as coisas de sempre!


Luanda, 03.05.2020

segunda-feira, junho 29, 2020

ESCAPOU SER NOMEADO

Quando o amigo que trabalha e trafica informações no Gabinete do chefe lhe fwefenhou "vi teu nome, vão te nomear", Ngolombole, contente, como nunca se lhe viu antes, foi à vizinha fazer kilapi de cerveja, cinco caixas; gasosas, três caixas - crianças e mulheres bebem pouco; vinho, um barril de cinquenta; porco, leitão de trinta e cinco quilos; frango e costeletas, duas caixas cada.
- Porra, chegou a vez de quem sempre trabalhou e muito esperou. Disse aos amigos convivas, mesmo com a Covid-19 a colocar-lhes entraves e com a polícia a rondar.
- São invejosos. - Proclamou outro, já encopado.
Na segunda imediata, semana em que a vitrine estaria prenhe de Editais, foi a boutique "Preto-e-fino" e fez "vale" de um fato escuro, como é quase preceito usá-los em cerimónias de empossamento ou outros de equivalente magnitude. Vestimenta completa: casaco, colete, gravata, abotoadeiras, calças, sapatos, peúgas, lenço de algibeira e graxa.
Ao lado da boutique, o ourives, que era seu conhecido, não ficou e adiantou-lhe a crédito uma grossa mascote e uma forte corrente d'Ouro. daí para a barbearia foi meio-caminho. Felizmente, esse foi pago a pronto, pois antes de empunhar a tesoura confirmava sempre o "mbongo na maboko".
No dia do anúncio dos despachos de nomeação, viu-se a preto e branco que, afinal, o seu amigo e informante vira mal.
O nomeado foi Manuel Ngolombole Adão Kambundu e não  ele, Adão Ngolombole.
Como pagar as despesas à vizinhança que já cobra de 12 em 12 horas?

segunda-feira, junho 22, 2020

O PAI, O PADRINHO E O DIREITO DE INFORMAR

Nas famílias estruturadas encontramos as figuras dos pais (progenitores e tutores directos), os filhos e os padrinhos (pais afectivos e, por essa via, conselheiros ou tutores indiretos).
Essa analogia pode ser levada aos organismos públicos cujos órgãos prestam serviço público especializado, possuindo uma tutela "natural" orgânica, administrativa e funcional, e outra metodológica, a que faz com os se usem mesmos procedimentos nos vários serviços públicos.
A presente reflecção visa ajudar aa elucidar quem tem o poder de quê, em relação ao órgão tutelado: de um lado a tutela natural, de que se depende organicamente e de outro a tutela metodológica.
Vezes há em que a segunda tutela (aqui comparada à figura de padrinho) convoca o tutelado sem informar ao organismo homólogo a quem o convocado pertence, criando ruídos na dependência hierárquica e mal-estar que redunda em prejuízo para o convocado, caso não cumpra com os procedimentos de diligência.
É lídimo que a tutela metodológica convoque um órgão de organismo distinto sem que dê a conhecer o superior hierárquico?
A quem cabe o dever de informar à liderança imediata do convocado?
a) O ente que convoca ou o convocado?
Voltando à analogia das famílias estruturadas e organizadas, o padrinho é útil, porém não se sobrepõe aos pais.  Se um afilhado deve pedir permissão aos progenitores, para se deslocar à casa dos padrinhos, é dever dos padrinhos informar e ou mesmo solicitar aos compadres a "convocação" do afilhado.

segunda-feira, junho 15, 2020

A MORTE ENTRE OS AMBUNDU DO LUBOLU E ARREDORES

ÚHA=morte

Em línguas europeias, a morte (do latino mors) refere-se ao processo irreversível de cessamento das actividades biológicas necessárias à caracterização e manutenção da vida em um sistema outrora classificado como vivo. Ao que, após o processo de morte, o sistema não mais vive. Os processos que seguem-se à morte (post mortem) geralmente são os que levam à decomposição dos sistemas.
Já as línguas bantu e concretamente o Kimbudu (variante do Lubolu e cercanias), a expressão morte (úha) tem outras conotações parciais que podem ser somente falências de órgãos parciais e/ou metaforização de objectos sem vida.
Wahi meso = morreram-lhe os olhos (é cego)
Inama kyamuhi = morreu-lhe a perna (contraiu deficiência no pé/perna)
Wahi ilenji = tem a sombra morta (metáfora: perdeu a elevação peniana)
Okalu/dikalu lya muhila munjila = morreu-lhe o carro pelo caminho (avariou-se-lhe o carro pelo caminho).
Mungaj'ê, uwaba kuha! = a beleza da mulher dele é como a “morte” (a beleza dela é infinita)!