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quarta-feira, agosto 15, 2018

DELEITANDO A PAZ DE KILOMBO

"Mana Minga mukulu mwengi, mana wavala mona omusasa..!"
Na paz proporcionada pela exuberante vegetação, no jardim botânico de Kilombo, Ndalatando, todos cantam e dançam. As árvores, nos reencontros facilitados pelo vento, cantam uns gemidos e dançam, soltado folhas-estrume que as alimentam e dão de comer a outras nascentes.
A água, cálida, límpida, descendo preguiçosa, mas sempre vistosa, canta seus versos nos reencontros intermináveis com as pedras em pequenas cascatas.
Os bichos, os insectos, apito na boca, piiiiiiii, piiiii. Um interminável coro, às vezes chegando à orquestra.
Os pássaros, senhores das copas e dos ramos intermédios, um chilrear sem fim. O botânico do Kilombo é uma festa. Será por isso que "Mano António dya Mulawla" gostava de visitar o espaço em suas férias presidenciais? E tinha suficiente razão. Precisavam os akwaxi em gozo de férias de ir à metrópole beber vinho quando o maluvu do Kilombo é dos mais doces e gaseificados?
Voltemos à música. Kujiza vinha da lavra, Kilombo afora. Kinda à cabeça onde carregava pepino silvestre, batata, vassoura e outros mimos para os twana em casa. No sangue carregava assinaláveis ml de álcool. Kapuka ou maluvu não se descortinou.
- Mano meu nome é Kujiza. Você está a se fotografar, me fota também.
Enquanto rolava a prosa, da kinda ainda na cabeça veio um som. O rádio que carregava entre os mantimentos decidiu tocar e de lá saiu uma música das terras vizinhas de Malanje:
"Mana Minga mukulu mwengi, mana wavala mona omusasa" (mana Minga antigamente era diferente quem fazia filho criava-no).
E como o Kilombo é uma festa, saiu uma masemba até a música deixar outro recado.
"Mukulu, kuvala kitadi, lê-lo ke Kima" (antigamente, devido à lavoura, quem mais braços tivesse mais cresceria a sua lavra, os filhos eram por isso tidos como dinheiro, hoje não têm o mesmo valor, façam-se, portanto, poucos filhos, para que possam ser criados com dignidade). Quem não ouviria e cantaria uma mensagem assim?
De regresso, ainda no centro do Kilombo, um artesão faz dinheiro com bambus, fazendo lindos vasos e levando souvenirs à casa dos que se fazem ao botânico. Rosas de porcelana ou um broto da planta para decorar o quintal e nunca mais faltarem rosas também há. Diligentes, os guardas e os agro-gerentes estão sempre prontos.
- A rosa, cem kwanzas. A roseira, quinhentos. O vaso e os jarros de bambu variam de quinhentos a mil. - Anunciam.
Já á porta, prontos para o bye bye, de novo outro segurança.
- Gostou, mukwaxi? Volte sempre. Pela próxima venha acompanhado, assim demora e desfruta mais. Não deixe de falar sobre as belezas do Kilombo e aconselhar visitas. A entrada, como viu, custa apenas cem kwanzas!

quarta-feira, agosto 08, 2018

ÑANA KAKUNGU E ÑANA ÑUNJI

Afluente Kasonge dirigindo-se ao Longa rasgando zona plana
Reza a oratura que ... Existiu em terras de Kuteka, Lubolu (Libolo), entre os anos 1870 - 1930, um cidadão de nome Kabanga "Soba Ñana Kakungu", originário de Banza de Mukongu, de onde fora enviado para a região de Ndala-ya-Xipo (Dala-Caxibo), Kibala, onde desencadeou lutas expansivas do "reino" e contra a presença europeia. Esse, sempre que voltasse vitorioso, trazia como trofeu uma esposa. Era, por isso, senhor de muitas mulheres e muitos filhos.
Quando se dá a sua morte, por traição, na comunidade de Mbanze-yó-Teka (Banza ou capital de Kuteka), Munenga, as suas várias esposas foram distribuídas pelos sobrinhos (kulundula ou levirato), para que dessem continuidade à criação dos irmãos (primos) e à sua campanha expansionista e defensiva em relação ao branco. A tradição oral narra que a sua cabeça foi decapitada e levada por militares portugueses à Fortaleza de Luanda. Soba Ñana Kakungu ou Kabanga tem muitos homónimos (consanguíneos ou não) sendo alguns de sua descendência António José Cabanga (ex-árbitro de futebol em Luanda) Jacinto Abreu "Cabanga", o Cabanga que é soba da aldeia de Muxinda, em Malanje, entre outros homónimos de ascendência libolense.


Kilombo Kye'Tinu, filha de Ñana Ñunji
Antes da sua aventura militar, pelo Kuteka (comuna de Munenga), Ñana Kakungu trabalhou como contratado na fábrica de pólvora, em Luanda, cuja experiência permitiu-lhe fabricar armas rudimentares (kanyangulu) com que procurou contrapor a ocupação colonial e estender a sua influência (dos Lubolu) na região de Ndala-ya Xipo.
Enquanto pertencente ao grupo de ascendência Ngola, a história de Ñana Kakungu assemelha-se à dos Reis Nzinga e Ngola Mbandi. Portanto, não se trata de um soba qualquer.
Kitinu Kanyanga ou Ñana Ñunji (o Senhor Suporte/Guardião), seu sobrinho, substituiu-o no trono em Mbaze-yó-Teka (capital de Kuteka), vindo a dirigir aquele povo até vésperas da Independência de Angola.
Inicialmente, era uma espécie de substituto imediato na "gestão administrativa" do território quando o tio se ausentava. "Provou do poder e não mais o quis perder. Inaugurou o sobado em Mbangu-yó Teka (Mbangu de Kuteka), aldeia que era dependente de Kuteka, onde o tio era Senhor. Por essa façanha, conta-se, inicialmente mal interpretada, tio e sobrinho estiveram temporariamente de relações azedas, normalizando-as com o passar do tempo e verificação da fidelidade de um para com o outro. A morte do tio elevou Ñana Ñunji à cadeira de Kañane |uyala uñana| (rei) da região de Kuteka". Morreu em 1974 (seu neto Soberano Kanyanga nasceu enquanto decorria o óbito).

Sobas de Mbangu-Kuteka

» Ñana Phutangongo (originário de Mbangu-ya Koma)
» Ñana Kisabo Mungohuta (rainha gigante e destemida)
» Ñana Ndombo
» Ñana Luxande (Alexandre) Kingonde: pai de Januário Raúl e Makongo Kambundu)
» Ñana Ndemba
» Ñana kyombe: pai de Karyiongo ka Kyombe, Fernando Kwanza e Raúl Kita
» Ñana Kimbombo: pai de Alberto Matabicho
» Soba Kiñendu (Quinhentos): avô materno de Gilson Bondondo
» Soba Xika Yango/Manuel Carlos da Silva ou ainda Raimundo: pai de Arnaldo Carlos
» Soba Tumingu (Domingos) Mungongo: Pai de Rodrigues Mungongo
» Soba Manuel Nganga

MBANZE DE KUTEKA (KAÑANE)
 » Ñana Kakungu
» Ñana Ñunji: avô materno de Luciano Canhanga
» Ñana Ngolombole Kakulu:
» Ñana Kibele : pai de José Gabriel
 
Fonte: Recolha oral na região de Kuteka com José Kilombo Albano/2018
Obs:
1- Texto em permanente actualização
2- Ñana=Ngana: título nobilístico entre os ambundu, atribuído aos reis e ou equiparados, abaixo destes está o soba.3- Uyala uñana= entronizar-se rei
 

quarta-feira, agosto 01, 2018

EXAME COM FEITIÇO

Para os filósofos, a tentativa de buscar uma explicação sobre os fenómenos à volta do homem levou os pensadores clássicos a inventarem mitos ou primeiras tentativas de descrição e explicação racional. Mas não era ainda razão pura. Com os mitos, surgem também as crenças metafísicas, religiosas ou divindades. Umas monoteístas, como os Judeus e “maometanos”, e outros politeístas, como os helénicos. Mas não era ainda razão pura. O povo bantu transporta e conserva ainda (em certa dose) as crenças no além, mesmo entre os alfabetizados e diplomados. “A crença no feitiço (para os Tucokwe, por exemplo) é um dado da realidade material e espiritual: todo mal ou doença, toda morte tem como causa o feitiço (Manassa, 2011:54).

Conta-se que, numa aldeia de Kisama, margem esquerda do manso Kwanza. À direita Katete e seus verdejantes campos de sisal e algodão, no tempo de outra senhora. A frequência da escola se tinha tornado obrigação para os mancebos. A igreja protestante ali implantada apelava aos pais, dias sim, semana também, que “kubeza Nzambi nyi kudilongesa kutanga nyi kosoneka ufolo wakadyanga” (louvar a Deus e aprender a ler e a escrever é libertar-se).
Entre os instruendos havia os aplicados, já mais crentes em Deus do que em deuses e em feitiço. Miguel, porém, tardava em libertar-se do que os seus amigos chamavam crendice.
- O feitiço fala alto, até no silêncio das águas do Kwanza. - Dizia Miguel. Assim, enquanto seus amigos se aplicavam na escola, ele procurava por adivinhos e adorava amuletos, sendo o de sua preferência e a quem prestava cultos diários, o “deus da sabedoria". Atestava que “com um bom feitiço nenhum aluno precisaria de estudar para fazer o exame da quarta classe”. Assim pensou e assim procedeu.
Depois da quarta classe feita no posto de pregação da Igreja Protestante Americana, os rapazes foram todos instados a requerer o exame extraordinário ao Secretário de Educação da Província Ultramarina de Angola. Decorria o ano de 1959. A vila de Katete ficou pequena, ante a presença de jovens e adolescentes que procuravam pela quarta classe que os habilitaria a serviços menos penosos nas roças e nos serviços públicos.
- Ter quarta classe é ascender à vida de muitos brancos e poucos pretos.- Dizia-se. O individuo, num posto em que o administrador é semi-kifofo, é pessoa de respeito. Na roça, você já não apanha chicote de branco iletrado e nos serviços públicos, você é mesmo kilamba. Ter quarta classe é como atravessar o Kwanza a nado, sem precisar canoa. Dizia o missionário Tailor Mulawla.
Miguel, astuto, sempre entre a ciência dos missionários e o oculto dos avoengos das bwalas de Kixinge, também requereu o exame. Antes de amarrar a trouxa com os mantimentos e as roupas de saída que usaria no dia do exame, fez-se ao interior. Tinha parentes em Ndemba Xyo e Kixinje, velhos afamados em imobilizar leões e elefantes por força de feitiço.
- Meu avô fala e o mais feroz dos leões da Kisama se ajoelha, deixando-o passar. - Gabava-se. Foi por isso dormitar em casa do avô Kateko que lhe pediu uma lapiseira que passaria a noite nos mahamba. Era BIC azul.
- Mulawl’ami, ambule ngo (deixa só, meu neto). – Dizia ele no seu Kimbundu refinado. – Os outros vão fazer exame e vão xumbar. Esses brancos são malandros. Você não vai precisar se amassar. É só sentar, pousar lapiseira sobre o papel que te derem e as respostas virão com a força e o conhecimento dos nossos antepassados. A caneta é que se vai levantar e escrever sozinha.
Os coetâneos de Miguel esmeraram-se na preparação e responderam o que sabiam. Hora e meia para exame. Lá fora, a multidão assistia a todos. Pais, irmãos, tias expectantes, muita gente a assistir e proclamar aos seus, ávidos de que transitem para a categoria de “gente de respeito”. Outros continuariam na bwala a criar porcos, a apanhar chicotes na tonga. Uns poucos, os teimosos de sempre, preparar-se-iam, nos intervalos que o pouco tempo de um campestre não permite, para se mais um exame.
Miguel fez-se também à sala do exame. Calções limpos, brancos. Únicos de saída que não usava nem mesmo para o culto religioso em que era um pisca-pisca. Folha de perguntas por cima da carteira, o tempo foi passando por ele. Dez, vinte, trinta, sessenta minutos. Miguel nem letra A tinha rabiscado. Na cabeça apenas a recomendação do avô Kateko: “A lapiseira vai levantar para escrever as respostas na folha branca que te derem”. Esfregava as mãos como um envergonhado que busca pela coragem. Lá fora, expectantes, e vendo outros meninos já saído meio satisfeitos pelo desempenho, os parentes de Miguel gritavam.
- Escreve Miguel, escreve! Miguel soneka kya, itangana yala ubita (o tempo está a passar)!
Miguel deixou o tempo passar por ele. Era tanta a ansiedade que ficou sem as unhas de tanto as roer. Às tantas, ficou mesmo com a impressão de que a esferográfica se movimentava, aos poucos, saída da posição horizontal à oblíqua. Ledo engano. Apenas ilusão de óptica. Continuava estática, no lugar em que fora depositada. Quando pensou em desistir da possibilidade de o feitiço resolver as equações e inequações matemáticas, já nem dez minutos lhe restavam. Censurado por todos, apenas o pranto lhe fez companhia na travessia do Kwanza caudaloso. Tal como a bíblia cristã, que conhece, atesta que "... assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tiago 2:26), Miguel compreendeu que nenhum feitiço lhe valeria se não se aplicasse na revisão da matéria. Foi para casa, desolado e passou a prestar mais atenção à ciência que seus amigos e coetâneos haviam abraçado há tempo.
...
Uma semana depois, Miguel foi tirar esclarecimentos. Encontrou o avô Kateko abusivamente kapukado mas com a força do costume.
- Avô, porque me intrujaste com aquele feitiço de pimpa? Os outros se tornaram gente e só eu, em mesmo Miguel, é que fico já kinangambala?
- Estás falar quê, ó mulawla Miguel? 'Fitiço' num deu certo ou você é que num deu certo no estudo e na fé?  A culpa é tua, sô indisciplinado. Coisa de branco é de branco e de ambundu é de ambundu. Como é que você leva um segredo nosso, coisa que vêm desde os nossos trisavôs e conta a pessoas estranhas? Você creu pouco, destarte o brune encravou. A força do "fitiço" que entrou na lapiseira ficou congelada. Você nunca ouvir falar mundele nzambi? - Defendeu-se o velho, deixando o neto mais irritado ainda... Por pouco saia kibetu de chagar bichos, mas avisados pela fúria de Miguel e bebedice de Kateko que não poupava nos impropérios contra o neto, os aldeões, em geral, e os parentes, em particular, se fizeram cercar dos contendores e puxaram cada um ao seu canto até a ira se esfumar.
Adaptado de estória contada por Silva Candembo e publicado pelo Jornal de Angola a 15/07/18 

domingo, julho 29, 2018

AS COREIAS, A PAZ & CORAGEM IRMÃO

O mundo vem assistindo e aplaudindo, nos últimos trinta dias, a reaproximação entre as duas Coreias separadas há sessenta anos, sendo os americanos, os russos e os chineses os padrinhos do acto em que "se cortaram mô inimigo". Por mais incrível que pareça, o "puto reguila ou explosivo", da Coreia do Norte, é quem entra para a História, pois, pôde estender a mão ao vizinho e parente do Sul da península e fazer uma selfie com o "Kota bidon", dos EUA, com que se "kandandeou" na Malásia.
Enquanto isso, aqui nas  barbas da nossa Ngimbi, em Viana, André Soma, o administrador, teve de somar paciência para pôr fim ao acto de "mô inimigo" que duas comunidades,  entre Zango V e Kalumbu" decidiram "se cortar" e prolongar, 16 anos depois da "paz do Kamorteiro".
Soube pela pena da diligente directora de comunicação institucional de Viana, a intrépida Elizabeth Smith, quando em uma das saídas para falar com os munícipes, André Soma, que vem adicionando popularidade, se deparou com o que terá considerado insólito na governação da edilidade. O que mais o chamou a atenção foi o facto de haver tribalismo e divisão entre os bairros Coragem Irmão e o  da Paz.
Durante a sua visita àquela zona, conta Elizabeth, André Somou conhecimento que nenhum morador do bairro Coragem Irmão passa pelas ruas do bairro da Paz e vice-versa. Perante o que viu e ouviu, Soma não fez mais do que orientar aos residentes a pautarem por uma boa convivência e a pararem com o tribalismo, tendo mesmo posto sentados os "cabecilhas" das duas "Coreias vianenses", como quem puxa à orelha a duas crianças, e dizer-lhes que "somos um só povo e uma só nação".
Enquanto o muro de Berlim já passou à história, Cuba e Estados unidos já bebem Havana Club juntos, as Coreias já falam em "reunificar-se", depois do abraço entre o "puto reguila e o kandenge do americano" e agora a selfie entre o "puto reguila e o Kota do vizinho", ainda ouvimos na nossa Ngimbi cenas de "Irão-Iraque", faixa de Gaza-Israel ou Jamba-Luanda doutros tempos, onde a tacanhez dos que têm o povo sob seu comando faz do bairro Paz um inferno? Já imaginou ter de evitar "cortar" um bairro só porque você comprou a casa no bairro vizinho com o qual os moradores não "torram farinha"? Ainda bem que Soma é pastor e, em vez de os apresentar à justiça, decidiu perdoá-los antes, para que, de imediato, se perdoem e retomem as relações que, pela socialização humana, pertença à mesma edilidade, província e país, nunca deviam ter sido cortadas. Afinal, até as Coreias já falam de paz. Quanto mais os bairros Paz e Coragem Irmão?!

 

domingo, julho 22, 2018

A CANOA QUE SE QUER BAGRE

Reza a tradição oral entre os ambundu do Kwanza-sul, sobretudo os do "desfiladeiro Kibala" que, no tempo das caravanas do centro ao norte, os mbalundu costumavam ir ao Libolo permutar óleo por feijão e outros produtos, como também iam a Kambambi (Dondo) permutar cera. Era na Kibala, ponto de passagem e de paragem para descanso, onde trocavam mimos com os locais a quem "improperiavam" por ló ngoia (avarentos, glutões, bárbaros), dado que os Kibala não se prestavam a alimenta-los. A expressão ngoya, para quem fala Umbundu tem esse sentido pejorativo e os Kibala com juízo não perdoam esse dislate.
Porém, nos anos 80 do século passado surgiu na rádio VORGAN um programa designado "em língua ngoya" cujo orador glosava a variante Kibala do Kimbundu. Mais tarde, 1993 foi a vez da rádio Kwanza-Sul que ignorou o instituto nacional de línguas e criou o tal "programa em ngoya". A rádio Ngola Yeto seguiu o mesmo caminho, uma década depois. Daí em diante, só ngoya em todo o lado, mesmo ao arrepio da ciência e da oralidade. Sendo que quem tenha menos de quarenta anos, pode cogitar a existência no mapa etno-linguístico de Angola de um povo ngoya. É aqui que surge a "canoa que quer ser bagre".
Vinte e cinco anos. É exactamente esse o tempo em que se tenta "transformar a canoa naufragada em bagre". Ou seja, que se propaga que os povos do Kwanza-sul, com excepção dos do Seles, Kassongue e Sumbe (Ovimbundu, segundo um mapa) falam uma língua distinta do Kimbundu a que atribuem o pejorativo designativo de ngoya.
Se a existência de um programa cuja mensagem é passada no idioma que se fala na parte esverdeada do mapa foi um bom exercício, o mesmo não digo em relação à designação inventada para a língua de matriz ambundu (Kimbundu). 
Peço argumentos técnicos e científicos dos reclamantes da suposta "língua ngoya" e não os vejo/leio/oiço, com abundância e profundidade, para além de desculpas de que "...pretendem destruir um trabalho que leva duas décadas e meia..."
O programa estará aí para a "eternidade". Só a suposta "língua ngoya" é que (ainda) não existe, pois não tem nem agrement da maioria dos falantes, nem dos órgãos que tutelam as questões que têm a ver com as línguas em Angola.
É inegável o poder de persuasão da rádio, sobretudo num meio onde ela não tem a concorrência da TV e de jornais e numa sociedade que crê na rádio como se de uma fé se tratasse, sendo os radialistas "semi-deuses da verdade". A rádio e sua propaganda podem  minar mentes e levar muitas pessoas a negar a verdade em detrimento do que é muito apregoado. Pergunte-se, pois, os idosos que língua falavam antes de surgir a rádio (programa na rádio). Antes de se popularizar o termo ngoya, via rádio, que nome atribuíam à língua que sempre falaram. A resposta simples e corajosa, será, com certeza, distinta do "bagre sem vida" que se acha no fundo das águas do Longa, nyiha e Keve.

Não está em causa o idioma. É o novo nome que está em discussão.
Continuemos a discutir, com cordialidade, atacando os argumentos e não as pessoas. Para os bakongo, jamais a canoa vira bagre, por mais tempo que permaneça de baixo d'água.
Mahezu, ngana!

Texto publicado no jornal Nova Gazeta.

domingo, julho 15, 2018

SONHO DE MARINHEIRO


O desabafo bruto e cru daquele homem de meia idade tinha deixado meio mundo boquiaberto. Melhor porque foi em mar abeto. Na terra, uma tirada como aquela e saída da boca de quem saiu teria um imediato catálogo herege.

O barco em que seguiam andava à deriva havia já muitos pares de anos. Todos os avisos das cercanias e de radares externos tinham sido pura e simplesmente ignorados. Embarcações em situações análogas há muito tinham afundado ou mudado de comandante. Navio como aquele e tripulação como aquela já se contavam aos dedos de uma mão pelo mundo oceânico, onde os ventos turbulentos coligavam com os tubarões de todos os dia.
Martins, o homem do desabafo, era marinheiro há já três décadas. O seu apego pelo mar é natural. Nasceu à beira duma ria e cedo seus pais se mudaram para uma ilhota do Índico, até que, numa noite de poucas estrelas, o mar rugiu e fez juntar as águas de todos os lados. A casota de palhas de palmeiras e mafumeiras foi abraçada pela água furiosa. Martins perdeu o irmão das brincadeiras e a mãe dos fervidos e assados. Viu-se apenas ele e o pai flutuando sobre o mar deserto, apoiados em velhos destroços duma antiga piroga.
- Papá, o mar atingiu-nos. – Disse Martins tão logo se deu conta da situação calamitosa em que se encontravam.
- Sim meu filho. O mar atingiu indelevelmente nossas vidas. Comparado a isso foi apenas o fascismo do início do século. - Respondeu José, o pai.

Vivia-se o século vinte. Bem no começo da segunda metade. Os náufragos lutaram contra as águas raivosas e o vento furioso e um sol assador, até que ao cabo de sete horas sobre aquele dilúvio fizeram-se à terra firme. Eram heróis aos olhos do povo que perfilava a costa e que já tinha preparado oferendas à Kianda, mãe de todas as sereias  daquele mar agitado.  Era a forma habitual de impedir que mais mortes acontecessem.
Lukinda, de seu nome de nascimento, viu-se apelidado por Martins, uma corruptela de “mar tingiu-nos”. E assim ficou conhecido e reconhecido agora como marinheiro de incontáveis milhas.

O navio já levava anos à deriva no Índico. Martins era capitão. O comandante era Sam Téh. Homem hábil nos tempos que já lá se foram, mas que se apresenta agora com o cérebro calvo e fragilizada pelas calemas que sempre o apoquentaram durante os dois séculos cruzados pela sua vida. Embora Martins fosse pessoa influente e homem de argumentos que incentivavam os co-viajantes a se manterem no barco até às últimas calemas, era Sam Téh que tomava as decisões e a quem todos deviam obediência.
Sam era duma crueldade que alimentava os tubarões com os seus marinheiros revoltosos. Em terra firme a capitania já o teria apeado do leme. Mas em alto mar, e com o navio sem bússola e sem terra à vita, a ninguém mais Sam prestava atenção senão ao seu próprio ego. E não foram poucos os capitães promovidos e despromovidos por erros do Comandante mas sempre imputados a Martins e pares.
Na sua vida de marinheiro, Martins já fora herói e vilão. Soube sempre coabitar com o mel e fel naquele navio. Em tempos de bom vento, fora inclusive elevado à categoria de Vice-Comandante. Foi descendo, descendo, devagar, devagarinho até se deparar com a condição de simples passageiros. Era isso que não entendia por mais esforço que fizesse.
- Está difícil manter o Estado neste barco. – Desabafou Martins perante a multidão que planejava a destituição do Comandante e encontrar um comandante que os levasse a porto algum.
- Mas ó camarada Martins, você não faz parte da tripulação? - Questionou  Taci, um crónico insatisfeito.
- Não meu senhor. Já fiz o que pude fazer enquanto achei que alguma terra nos pudesse acolher. Com o actual estado de coisas, tudo o que pretendo é que passe por cá um barco ou helicóptero que nos socorra e nos salve desta aventura samtsetiana, disse entre dentes, antes de se retirar.
Mal tinha colocado o pé na porta do seu aposento, o seu desabafo já se tinha convertido em assunto para reflexão e debate.
Primeiro perguntou-se a autoria do seu nome e depois o significado daquele “está difícil manter o Estado neste barco”. Ninguém conseguia perceber o alcance daquelas palavras tão simples quanto profundas como o Índico que os mantinha cativos entre a vida e a morte.
Sá Lutenda, um vidente, sabia do que lhes esperava. Sabia também que caminhos tinha trilhado Martins e que ideias lhe invadiam a alma. Mas não o disse de imediato. Deixou que a discussão atingisse o auge.
- Eu sou contra o Martins e deve ser levado à razão. – Defendiam os aduladores do Comandante.
- Acho que o Martins está cheio de razão. Embora ache que não seja ele a quem de deva confiar o comando do Navio é importante que se dê oportunidade a pessoas do mar ou que ,no mínimo, se deixe os marinheiros trocar ideias. - Defendeu Lamba, o mais idoso da tripulação.
Lamba, talvez devido ao peso dos seus anos, costuma dizer que já foi árvore, já foi lenha, já foi carvão e agora é cinza. Diz as coisas sem peneira e de acordo ao seu conhecimento e experiência. Goza por isso de aceitação e é reconhecido como grande marinheiro, embora nunca tenha chegado ao leme.
- O mar é complexo e cada um tem uma experiência que pode ser partilhada. - Continuou Lamba que foi molhado com assobios elogiosos.
 - Mas, ó kota Lamba, você que tem mais idade do que este navio, você que conhece todos os comandantes, capitães e marinheiros, pode nos explicar quem na verdade é o Martins? - Questionou Lunga Mana, o mais jovem dos passageiros.
- Olha, meu jovem marujo, podes anotar na tua caderneta mental. O chefe Martins é um homem que já esteve próximo daquele leme. Alguém que já fez muito para que o navio continuasse flutuante, embora à deriva. Martins é um jovem que entrou no navio cheio de vida como tu. Que foi subindo e acertando as velas ou colocando lenha na caldeira. Já puxou demasiado cabo e descamou demasiado peixe até chegar à direita do Comandante. Também desencalhou o navio por diversas vezes. E por diversas vezes prejudicou a si e aos seus para manter a reputação do Comandante que, apesar de tudo… - Lamba puxou da mutopha carregada de kangonha de Kalandula para pôr mais ar no peito que já lhe ia rareando vezes sim, vezes sempre. E continuou: - O Martins é um homem que se deu conta que a seguir o Comandante como às vezes se segue, aplaudindo e remendando os seus erros de miopia, morremos todos e ninguém encontrará sequer os destroços da embarcação.
Mais palavras não houve. Apenas um forte ruído motivado pelo casamento entre o mar, o navio e a rocha. Bummmmmm!!!!
O choque do incauto motorista de Hiace contra uma árvore que repousava já meio século no passeio da rua da Missão, acordou Benedito que seguia embalado no seu sonho de marinheiro.
Publicado pelo Jornal de Angola, caderno Fim-de-semana, de 8/4/18, pg.10.

sexta-feira, julho 13, 2018

ALUGA-CÊ CAZA DE CUARTO E SALA


Epá! No Cazenga, no Palanca e, sobretudo, na Vila da Mata e arredores são só lamentos e choros mesmo de babar ranho.
- Roubaram a nossa filda, que sempre foi nossa desde o tempo colonial, tempo de Agostinho Neto, tempo de José Eduardo e até tempo das rusgas dos PCU e ST, de cavalo e chicote na mão, a endireitar "bicha" de visitantes, de biscateiros e de carteiristas. As casas ficaram, sem portas nem janelas, mas a filda andou. - Choram.
As moças, bonitas de ocasião e de um Português que denuncia o lápis desafiado, ficaram penduradas.
- Quem qui vá nos dá dinhero pá matabichá? Quem? Nossos portuga lhis levaram longe porcá di quê?
Mano Rafael, força de elefante, conhecido na rua da conduta como "Faz Tudo", tinha já o seu kangulu preparado, desde que ouviu o anúncio na radio "filda começa dia dez e acaba sábado, catorze". Na sua cadeira de fitas, à moda 80, pensou:
- Desde que Luanda é Luanda, toda a filda é no mesmo local.- Oleou o eixo, depreende os músculos e os preparou para a labuta vizinha.
Aliás, para ele e para muitos, FILDA é local, tal como esteve grafado até há bem pouco tempo nas instalações que se enfiam entre a frescangol e a BCA, deixando infiltrar-se no meio a Deolinda Rodrigues de Catete. Filda noutro lugar que não seja no da FILDA é impensável em muitas cabeças.
Faz Tudo, "pensamentoso", não sabe se vende a casa na Vila da Mata, para arrendar outra nas proximidades da Zona Económica Especial ou se deixa o ofício de biscateiro.
- E, se ano que vem, o Estado decide levar a feira para outro lugar, a pessoa fica gira-bairro por causa do biscate de uma semana?
Na sentada com Mangololo, outro kipá dele das couboiadas, a conversa ficou a rolar meia hora, parecia disco riscado de sungura antiga. Mangololo era pela mudança imediata do bairro e seguir a exposição. Argumentava que em uma semana o biscate na Filda dava mais dinheiro do que onze meses.
Faz Tudo, a pensar pensamento de homem, não se deixou dobrar pelo argumento simplista do amigo.
- Esse Estado é "fodido". Assim que lhe aborreceram aqui na FILDA, com o roubo e desmantelamento de quase tudo que o colono deixou, se lhe aquecem a cabeça, lá na Zona Económica, pode levar a exposição para Catete ou Funda. Assim a pessoa fica andar à toa nos mabululo onde não há biscate nem de desentupir fossa ou consertar fogão?
Foi isso que o travou, mas o amigo dele, Mangololo, já tinha colado papel quadriculado na porta do chimbeco e forçado Minga dya Mbaxi, a mulher, e os twana a arrumar as imbamba.
 - Aluga-cê essa caza de cuarto e sala. - Lia-se a bom rir dos mizangala mais acanetados da Vila da Mata.
- Ó ti Mangololo, alugar não é com cê de cebola, é com esse de sapato, depois de aluga. - Tentou emendar a sobrinha Kabwiza que estudava a terceira classe na explicação do Tony Mulato.
-Cala-te boca, mijona. Quando entrei na escola nem a burra da tua mãe tinham lhe engravidado, pá. Se as pessoas estão a perguntar preço é porque leram e entenderam. Você, tua casa está aonde, pá. Vai só mazé me comprá cigarro e não me mete mais atrapalhação nas ideias. - Resmungou malicioso.
Ele, mano Rafael Barata, homem alheio de Malanje, foi a casa dele de sofrimento que o prendeu. Decidiu consertar sapatos até que a filda volte à FILDA. Quem sabe um dia?!


Publicado no Jornal de Angola de 05.08.2018

sábado, julho 07, 2018

A ÁGUA DA INDEPENDÊNCIA

Noutros tempos, naqueles idos em que a empresa de captação, tratamento e distribuição mais prometia do que fazia, houve uma semana em que os arredores do Largo da Independência ficaram literalmente secos. Só poeira. Parecia a Namíbia em tempo de estiagem. Faltou água para a rega, para a limpeza dos lares e dia carros e, por pouco, faltaria para o estômago. Os repuxos juntos à estátua do Kilamba ainda funcionavam e os vijús lavadores de carros encontraram ali uma oportunidade para continuar o seu negócio acrescido de um apelo especulativo:
"Kota, água está difícil, mil não vai dar".
Foi semana e meia a acarretar com baldes, bacias e latas, até que os tanques secaram. Foram outros tempos e, por isso, outros factos. Hoje, talvez porque quem capta e distribui a água fá-lo com regularidade, a boca de chegada nunca se desliga. Jorra que jorra, fazendo os mesmos lavadores e outros frequentadores das cercanias apelidaram o "rio" que se faz todos os dias e todas as horas ao asfalto de "água da independência".
Os repuxos, na verdade, já não funcionam mais. Extinguiu-se a beleza provocada pelo efeito da água bombeada verticalmente, caindo prazerosa para o arco-íris. Já lá não facturam os fotógrafos. Já lá não se dirigem os noivos, nem os namorados frequentam os acentos imitando poesia lírica de Neto. Os buquês deixaram de entrar. Apenas os manifestantes e revús levam ao Kilamba as suas súplicas.
A água jorra sem cessar. Os tanques gritam uma secura sem par. O asfalto molhado e inundado já chama buracos apressados. E o nosso Kilamba, ali em pé, a olhar Angola, apelando à união, mas também à acção. Ouço-o silencioso a gritar, já sem voz, "coloque cada um, um pedaço de pedra nesse alicerce para que mereça o seu pedaço de pão". Quem deve reparar aqueles repuxos é que ainda não o ouviu. A água (no monumento a Neto, no Largo) da independência deve ter fim.

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta em Julho/2018

domingo, julho 01, 2018

MANGODINHO NA NGELÉ

Os desistentes, os faltosos e os trancadores de frequência

Mangodinho, crente de sua igreja desde pequeno, dez anos acabados de fazer, naquele ano que precedeu o centenário do "nossa igreja come mbora cem anos sem parar", há bons meses que não pisava o pé no templo, embora se considere e se gabe a todos os ventos "crente confesso". Em andanças profissionais, cruzou com Adão Kalongo de quem recebeu crítica aberta e construtiva de um amigo e coetâneo, embora frequentando outra "paróquia", queixando-se de suas ausências prolongadas aos cultos. Para persuadir o amigo, Adão  exemplificou um caso de "alguém que trocou de confissão religiosa, já em fase avançada de idade, sendo que no funeral apareceram menos de vinte pessoas".
- Já viste, Mangodinho? - Prosseguiu Adão. - Os amigos, contemporâneos e tudo, na igreja, também contam. Se ele não tivesse desistido, teria recebido toda a graça no último dia. Pensa bem.
- Compadre, não sou desistente. Apenas faltoso. Tu que és professor, analisa bem a situação do desiste que pode ou não procurar "outra escola" e do faltoso que tem direito a exame especial ou recurso. Eu nunca saí e jamais sairei. - Defendeu-se prometendo que seria visto no domingo que vem.
Sete dias depois realizou a promessa. Prometido e feito. Mangodinho, para não dar nas vistas e evitar saudações com sabor a cobranças, preferiu o penúltimo banco. Penúltimo porque nem o antepenúltimo e nem o último estavam ocupados. Apenas seria visto na hora do ofertório e de saída.
- Se o indivíduo vem é destaque. Se não vem também é notícia. É preciso ficar na penumbra e executar a retirada estratégica, sem dar nas vistas. Eles vão comentar. Depois tudo se ajusta, naturalmente. Aqui é como nos óbitos, o indivíduo não anuncia que vai. Ao sair também não precisa despedir. - Monologou.
Mas quando fazia a última curva, já hora de saída, as atenções estavam voltadas para ele. Fora, em tempos ainda de juventude plena, um dos incontornáveis daquele templo.
- Irmão Mangodinho, boa tarde e bom regresso à sua casa. Por ventura, veio visitar-nos ou veio, desta vez, para ficar? - Indagou irónico um coetâneo de boa amizade mas de poucos reencontros.
- Boa tarde irmão Noé. Nunca desisti. Pense nas quatro condições de estudantes que temos: o que frequenta assídua e pontualmente as aulas, o faltoso intermitente, o desistente que já não virá mais e aquele que trancou a matrícula. Eu, irmão Noé, nunca desisti. Tenho direito a recurso e exame especial!- Defendeu-se argucioso.
Noé, ainda a pensar no que acabara de ouvir, puxou os olhos para outro lugar, momento que o irmão Godinho aproveitou, com destreza, para pôr o ngimbu e o pé a fazerem parelha.

Publicado na edição de 31/05/2018 do jornal Nova Gazeta

sexta-feira, junho 29, 2018

O NEGÓCIO DOS TPA

Já havia "descoberto" e relatado como decorria o "negócio dos borderaux" que se desenvolve dentro ou próximo de algumas repartições públicas que têm o utente como foco. Na altura em que publicámos o texto nessa coluna, o nosso apelo foi para que houvesse terminais de pagamento nas lojas de registo civil e similares, para que se pusesse cobro ao "negócio dos borderaux". Incógnito restava ainda "o negócio dos tpa" que descrevemos abaixo.
A fome, quando aperta, é como a chuva que não avisa nem escolhe quem molhar, quando ela "decide" cair. Basta estar desprevenido. 
O local de concentração  predileta desse novo negócio são aos mercados paralelos, oficiais e semi-oficias, onde existam vendedeiras de comida feita e algo para saciar afugentar a sede. Muitos são os cidadãos que, famintos ou acossados pela sede, se dirigem às barracas para atender a necessidade fisiológica sem que tenham as cédulas físicas, exibindo, para o efeito, o cartão de débito, também conhecido como cartão multicaixa ou multibanco. Em presença de negócio formal, nada haveria de especial, senão o acto de "riscar" o cartão na maquineta, descontar o valor correspondente e cada um seguir o seu propósito.
Porém, tratando-se de mercado muitas vezes informal, é aqui que se juntam o empresário "falido" ou aquele que tenha invertido o cor business e aqueles que apenas querem satisfazer a necessidade do momento e partir para a vida que resta viver.
Na ilha de Luanda, por exemplo, encontramos em vários locais portadores de tpa que nada vendem. Servem apenas de facilitadores, possuindo um terminal automático de pagamento (tpa) e algumas reservas em dinheiro físico. Como funcionam as operações?
Quando o comprador de produto ou serviço não tenha dinheiro físico e o fornecedor de produto ou prestador de serviço não possua terminal de pagamento, surgem os "negociantes dos tpa". Estes prestam-se em autorizar o desconto por via da sua "maquineta, obtendo uma comissão do comprador e outra do fornecedor, embora a factura total, quase recaia exclusivamente a quem esteja forçado pela necessidade de compra.
Por exemplo, numa barraca de venda de peixe, à Chicala, o individuo pede uma refeição ao custo de Kz 2500. Não tendo ele dinheiro físico, nem a vendedora um terminal de pagamento automático, o  proprietário do mecanismo cobra Kz 500 pela operação, valor que  pode ou não ser partilhado pelo comprador e fornecedor do produto.
Ao que pude apurar, esse negócio não se fica por aí. "Há zungueiros que já usam tpa nas suas transações, assim como meretrizes que também usam esse sistema de pagamento", disse Manuel Kissari frequentador da chamada praça do peixe, à Chicala.
Quando a necessidade se junta ao engenho, uns ganham mais e outros não permitem que a fome se acerque deles.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 07.06.2018

sexta-feira, junho 22, 2018

NADAR E VOAR


Dois conhecidos, já na terceira idade, homem e mulher, cruzaram na Ilha de Luanda, num "amistoso" daqueles que se organizam para se sair da mesmice do bairro. O homem foi com seus amigos e ela estava a procura de emprego. Ainda nem tinham acabado de matar a saudade, nem ela tinha explicado ao curioso do André o que a levara al´, de concreto. A saliva e os suores dos beijos estampados em rostos húmidos ainda nem haviam secado. De repente, ouviu-se um grito saído de não muito longe, à beira-mar .
- Ai Wé, socorro, wé! Moça stá se afogá. Alguém que acode só?
A mana Belita olha para o compadre dele e diz.
- Compadre vai lá salvar a moça. Imagina é tua filha a precisar de socorro. O mano mesmo que nasceu aqui na ilha fica mbora assim zututu, não vai lá ajudar? Tira a camisa e as calças e nada.
André olhou para Belita e, não querendo enfrentar a desaprovação colectiva emitiu um muito baixo murmúrio:
- Belita, não sei nadar.
- O quê, compadre André? Isso é gozo ou quê? Você que nasceu e mora na ilha não sabe nadar? Anda a fazer então quê só nesse mundo?
André, sorvia o seu terceiro trago de usabem (walende das ponteiras feito de usambe). Empurrou com pressa o que restava na caneca, e como que toma a decisão de fazer o que dele se solicitava, ergueu o peito, amaciou com saliva os lábios, olhou para Belita e retorquiu.
- Comadre Belita me diz ainda. Tu que nasceste e vives ao lado do aeroporto, por ventura, sabes voar? Me diz ainda!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 22/03/18

sexta-feira, junho 15, 2018

QUATRO NOTAS PARA PERCEBER A LINGUA DOS KWANZA-SULINOS

Quando a 9 de junho de 2012 o político Serafim Maria do Prado, nas vestes de governador do Kwanza-sul, escreveu à Ministra da Comunicação Social, Carolina Cerqueira, hoje titular da Cultura, solicitando intercedência desta junto da RNA para proceder a troca da designação erroneamente atribuída à variante Kimbundu falada no Kwanza-Sul, nas rádios provincial e Ngola Yetu, não o fez sem razão. Havia sido realizados, sob sua governação, dois encontros em que se discutiu a problemática linguística na província.
Serafim do Prado, na sua missiva, sugeria que os aludidos programas tivessem a designação "Kimbundu Kyetu"(nosso Kimbundu) ou Kimbundu do Kwanza-sul, indo de encontro àquilo que a população autóctene responde quando perguntada "eye oji lyahi wondola?" (Que língua você fala?). A esse questionamento, a resposta é sempre: Kimbundu ngondola/Kimbundu Kyetu/ Kimbundu ky'Epala...(FALO KIMBUNDU, FALO O NOSSO KIMBUNDU, KIMBUNDU DA KIBALA).

Na senda do debate que vimos provocando nas redes sociais e nos jornais convencionais (Cruzeiro do Sul, 3-10 Maio 2008, Jornal Cultura, 2016, www.olhoensaios.blogspot.com, etc),  o meu conterrâneo Tony Mora, avisado por um outro "conterra" e amigo comum, reagiu com hombridade aplausível, por me ter notificado, a que retiro e partilho 4 pontos para uma nova reflexão. Diz, o Tony Mora, no texto que me remeteu que:
1- O ermo ngoya, como designativo da língua falada em grande de parte do KS, foi introduzido na rádio provincial em 1993.
2- As Tentativas para gravar o programa com a designação Kimbundu não surtiram efeito.
3- Sob a governação de Serafim do Prado, realizaram-se dois encontros para analisar as línguas faladas no Kwanza-Sul.
4- ... Kanyanga (um intruso no debate?) surgiu apenas em 2018...
Perguntas:
1- a) Por que omite a primeira rádio a emitir um programa com esse nome que foi a VORGAN em finais dos anos 80 do século XX?
b) Que estudos fizeram na altura do lançamento do programa para concluir que a língua não era Kimbundu mas sim ngoya?
c) O Ministério que atende pelas questões linguísticas foi ouvido em 1993?
2- a) Por que não conseguiram, em 1993, lançar o programa com a designação Kimbundu?
b) É a rádio quem determina a autonomização das línguas em Angola?
3- a) Sabia que Serafim do Prado escreveu, a 9 de Junho de 2012, à Ministra da Comunicação Social (a mesma pessoa que atende hoje pelo pelouro da Cultura), pedindo a troca da designação do Programa, retirando a expressão ngoya, por considerara que ela não era aceite?
4-a) É a idade que determina o conhecimento?
b) A discussão sobre a designação da língua que se fala no Kwanza-Sul é matéria exclusiva dos que surgiram em 1993?
5- Não estaremos perante um caso de "investigar" para justificar o nome (ngoya) quando a investigação devia ser prévia à criação do programa?

Sem demérito àquilo que os signatários do “anguoia que significa vai por aqui”(?), publicam no Jornal de Angola e retomado pelo Portal de Angola a 15/07/2011, uma melhor compreensão do assunto passaria por fazer um levantamento com metodologia aplicável à ciência social nos municípios do norte e centro do Kwanza-Sul, como o fizeram Héli Chatelain, Maia, Redinha, Vinte e Cinco, entre outros. Ademais, toda a ciência que envolva a antropologia, história e etnografia deve sempre ter o campo como ponto de partida.

O dinamismo das línguas pode levar algumas variantes à emancipação, aí onde as correntes forem mais heterodoxas do que ortodoxas. Porém, todo nome tem de ter um sentido etimológico e semântico, o que me parece não existir no caso dos proponentes do ngoya para a designação de uma suposta língua (que pretendem autónoma do Kimbundu) falada no território norte e central do kwanza-sul. Há, por isso, que separara as águas e definir o que se pretende: autonomização ou redesignação?

Como nota final, convido o (a) leitor (a) a colocar aos Kwanza-sulinos (norte e centro) maiores de quarenta anos as seguintes indagações:
1- Ouve rádio com frequência?
2- Ouve a rádio Kwanza-Sul e a rádio Ngola Yetu?
3- Quando começou a ouvir o termo ngoya como língua que se fala no Kwanza-Sul?
4- Antes disso que língua falava?
5- A língua que se fala no Kwanza-Sul (com excepção do Seles, Kassongue e Sumbe) é Kimbundu, Umbundu ou Ngoya?

Resumido e publicado pelo jornal Nova Gazeta de 28 junho/18
 

sexta-feira, junho 08, 2018

ENTRE MANUTENÇÃO E AUTONOMIZAÇÃO: NGOIA DESCONFORTA K-SUL


A 9 de junho de 2012, o militar e político Serafim Maria do Prado, nas vestes de governador do Kwanza-sul, escreveu à ministra da Comunicação social, Carolina Cerqueira, hoje titular da Cultura, solicitando intercedência desta junto da RNA para que fosse revista a designação errônea atribuída à variante Kimbundu falada no Kwanza-Sul, nas rádios provincial e Ngola YETU. O assunto não teve o provimento esperado, pois ao q...ue se sabe, ou o Ministério que tutela a rádio não orientou ou essa não acatou. Estávamos em vésperas de eleições gerais, as terceiras, depois de 1992, 2008.
Serafim do Prado, na sua missiva, sugeria que os aludidos programas tivessem a designação "Kimbundu Kyetu" (nosso Kimbundu) ou "Kimbundu do Kwanza-sul", indo de encontro àquilo que a população autóctone de maior idade responde (ainda) quando perguntada "eye oji lyahi wondola?" (Que língua você fala?). A esse questionamento, a resposta é sempre: Kimbundu ngondola/Kimbundu Kyetu/ Kimbundu ky'Epala... (falo Kimbundu/nosso Kimbundu/Kimbundu da Kibala...).
Canhanga, Vinte e Cinco, A.Felismino, C.Cerqueira e JPedro 
Esse contributo (Canhanga: 2016) recolhido da oralidade nos municípios do norte e centro do Kwanza-Sul deve ser valorizado e adicionado ao que escreveram Heli Chatelain, Redinha, Vinte e Cinco, entre outros. Ademais, nas circunstâncias de Angola em que não abundam os trabalhos escritos, toda a ciência que envolva a etnografia, antropologia e história deve sempre ter o terreno e a oralidade como ponto de partida (laboratório) e o gabinete como fábrica (para multiplicação e difusão do conhecimento experimentado).

Na senda do debate que vimos provocando nas redes sociais e nos jornais convencionais (Cruzeiro do Sul, 3-10 Maio 2008, Jornal Cultura, 2016, www.olhoensaios.blogspot.com, etc),  o meu conterrâneo Tony Mora, avisado por um outro "conterra" e amigo comum, reagiu com hombridade aplausível, por me ter notificado, a que retiro e partilho 4 pontos para uma nova reflexão. Diz, o Tony Mora, no texto que me remeteu que:
1- O termo ngoya, como designativo da língua falada em grande de parte do KS, foi introduzido na rádio provincial em 1993.
2- As Tentativas para gravar o programa com a designação Kimbundu não surtiram efeito.
3- Sob a governação de Serafim do Prado, realizaram-se dois encontros para analisar as línguas faladas no Kwanza-Sul.
4- ... Kanyanga (um intruso no debate?) surgiu apenas em 2018...
Perguntas:
1- a) Por que omite a primeira rádio a emitir um programa com esse nome que foi a VORGAN em finais dos anos 80 do século XX?
b) Que estudos fizeram na altura do lançamento do programa para concluir que a língua não era Kimbundu mas sim ngoya?
c) O Ministério que atende pelas questões linguísticas foi ouvido em 1993?
2- a) Por que não conseguiram, em 1993, lançar o programa com a designação Kimbundu?
b) É a rádio quem determina a autonomização das línguas em Angola?
3- a) Sabia que Serafim do Prado escreveu, a 9 de Junho de 2012, à Ministra da Comunicação Social (a mesma pessoa que atende hoje pelo pelouro da Cultura), pedindo a troca da designação do Programa, retirando a expressão ngoya, por considerara que ela não era aceite?
4-a) É a idade que determina o conhecimento?
b) A discussão sobre a designação da língua que se fala no Kwanza-Sul é matéria exclusiva dos que surgiram em 1993?
5- Não estaremos perante um caso de "investigar" para justificar o nome (ngoya) quando a investigação devia ser prévia à criação do programa?
 
Sem demérito àquilo que os signatários do “anguoia que significa vai por aqui”(?), publicaram no Jornal de Angola e retomado pelo Portal de Angola a 15/07/2011, uma melhor compreensão do assunto passaria por fazer um levantamento com metodologia aplicável à ciência social nos municípios do norte e centro do Kwanza-Sul, como o fizeram Héli Chatelain, Maia, Redinha, Vinte e Cinco, entre outros. Ademais, toda a ciência que envolva a antropologia, história e etnografia deve sempre ter o campo como ponto de partida.
 
O dinamismo das línguas pode levar algumas variantes à emancipação, aí onde as correntes forem mais heterodoxas do que ortodoxas. Porém, todo nome tem de ter um sentido etimológico e semântico, o que me parece não existir no caso dos proponentes do ngoya para a designação de uma suposta língua (que pretendem autónoma do Kimbundu) falada no território norte e central do kwanza-sul. Há, por isso, que separara as águas e definir o que se pretende: autonomização ou redesignação?
Como nota final, convido o (a) leitor (a) a colocar aos Kwanza-sulinos (norte e centro) maiores de quarenta anos as seguintes indagações:
1- Ouve rádio com frequência?
2- Ouve a rádio Kwanza-Sul e a rádio Ngola Yetu?
3- Quando começou a ouvir o termo ngoya como língua que se fala no Kwanza-Sul?
4- Antes disso que língua falava?
3- A língua que se fala no Kwanza-Sul (com excepção do Seles, Kassongue e Sumbe) é Kimbundu, Umbundu ou Ngoya?
 
REDINHA, José (1984). Distribuição Étnica de Angola, 8.ª ed., Luanda, Centro de Informação e Turismo de Angola.
Semanário Cruzeiro do Sul, ed. 3-10 Maio 2008- Língua dos Kibala: Kimbundu ou Ngoya?

Texto publicado pelo Jornal Cultura de 19.06.2018, pg 06.
 
 

sexta-feira, junho 01, 2018

ENTRE O CONSERTO E O DESCARTE


sexta-feira, maio 25, 2018

REVIVER OS "TEMPOS DE NETO"

NO DIA DE ÁFRICA
Mama wadikwata mukondo. Ki ngibanza ngi dila, masoxi moso mabulumuka (vejo a mãe em pratos, quando penso, choro, todas as lágrimas caiem-me). Este é um dos sons que recebem quem passa ou se senta nas "bancadas" da Praça da República, no Memorial António Agostinho Neto. O olhar do Mausoléu estende-se sobre o Atlântico das caravelas e dos tuga-colonos que nos forçaram à luta para a emancipação. Mas o Mausoléu estende também o seu olhar a sul, a este e a norte de Luanda e do país. O seu interior é um museu multidimensional incaracterizável numa coluna e prosa como essa que é de circunstancia. Mas voltemos ao som largado pelos altifalantes que lembram os tempos da mocidade dos nossos pais (para quem já tem mais de quarenta) que dançara "sunguras quenianas" expelidas por gramofones e ou canudos pendurados em árvores ou repousando no telhado.

A música de intervenção daquele tempo, tempo do "injangu a jitambula, mawta a sala nawo", tempos do apelo à revolução contra o velho sistema e busca de um homem novo para criar um mundo novo. Coisas da história que nem todos dominam. Mas vamos voltemos ao Mausoléu de Neto. A paz, a tranquilidade que o local oferece para meditar, refletir, estudar, compreender fenómenos de qualquer índole é inigualável. E os altifalantes "amarrados" aos pilares, como acontecia nos Centros de Instrução Revolucionária (Lumege-Cameia, Capango, Cazaji, etc.), também expelem poesia. Voz igual,  Havemos de voltar, Carta de um contratado, Carta em papel perfumado, e muito mais. No Mausoléu, Neto "chama" os seus contemporâneos e, juntos, cantam o pais que sonharam, contam estórias do nosso povo (da escravidão à liberdade) e criam amor (com os olhos secos).

O Memorial que me recebeu nos festejos dos quarenta anos da independência voltou a acolher-me com o aprazível canto dos passarinhos a Neto e coetâneos. O silêncio dos pardais, quando é hora de reverenciar os que tudo deram, até a vida, para que nos sentássemos livremente na Praça da República, é outra atracção. Os pardais, normalmente não se calam durante o dia. Mas aqui reverenciam.
 
E nesta dicotomia entre o canto e o silêncio, tentei compor uma quadra, porém, nem um terceto consegui. Senti-me pequeno, demasiado pequeno, atingi o zero ao lado de Neto que recitava no altifalante da praça o "Adeus à hora da Liberdade".
Paz e liberdade para estudar e passar com aproveitamento é só mesmo no Mausoléu, à praia do Bispo.
  

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta a 07.06.2018

terça-feira, maio 22, 2018

ANTIGAMENTE NO RANGEL

 O tambor, uma lata de leite de qualquer marca, agredido por um ferro ou uma pedra, gritava ao máximo de sua força. Pá-pá-pá-pá.
Atrás do som, uma, duas ou três senhoras, lábios secos e pés empoeirados de tanto gritar e caminhar, soltavam um coro, alegre para a nossa inocência de tundenge e preocupante para as mamães que podiam estar naquela situação um dia, a contar com as nossas travessuras e o seguidismo ao Mam-Brás, ao cavalo-tica-tica, e, sobretudo no tempo de carnaval. Essas as mamães confirmavam antes a presença dos seus tumbonga é prestavam-se em passar informação e pedir detalhes sobre o garoto ou garota desaparecida.
- Pá-pá-pá... O gritar intrépido da lata já ampliada ia, deixando rasto na rua varrida manhã cedo pelas mamães. Cada uma atacava o seu lado. Lixo tinha lugar, o balde, no quintal, e depois o depósito com ou sem contentor.
Atrás do barulho da lata, ou quase em simultâneo, a manhã aflita e suas companheiras gritavam, quase já sem força. Apenas esperança em reencontrar o filho amado.

- Nanyi wa ngi bongela kambonga Kadyaléééé? E a lata tambor continuava Batucando.
É esse o Rangel do meu tempo, século passado, quarenta anos.
E o som, as trambiquices, as magoelas na carroça do carro do vizinho ou dum visitante qualquer, as pescarias de "bagudas" na vala Senado da Câmara, junto ao Catetão, as cercanias da DTA para apanhar loiça descartável já descartada, os pinos na Chicala e ou na praia do Mbungu, as castanhas de caju que só o comboio permitia chegar ao quilómetro trinta de Viana, tudo isso ainda no ouvido e na memória.
- Vocês, estão a ouvir né? É melhor tomarem cuidado. Se calhar quem se perdeu é vosso amigo da bola ou de brincadeiras. Quando mamã fala não sai é mesmo para não sair.
Qualquer vizinha era tia. Era mamã no aconselhar, repreender se necessário e acarinhar quando injuriado. 
- Filho 'lheio tem 'mbora razão dele. Pra quê só fazer no filho da outra quando você também tem kambonga? - Acudiam.
Hoje, com escolas do povo, colégios privados, ATL e creches para todos os bolsos, media e redes sociais para todos, nem o pregão que procura o filho desaparecido, nem as brincadeiras são as mesmas. Tudo mudou. Até às razões das desaparições dos meninos. Hoje, a atenção redobrada é com raptores de menores. Porque a Televisão, os jogos, as escolas e os quintais murados feitos prisões já não as leva tanto a caçar gafas, apanhar peixinhos para guardar em aquário de garrafão cortado, nadar inocente no perigo da Chicala e Mbungu ou pendurar-se ao comboio para chegar à fonte de castanhas de cajú. São outros os males e os remédios também.

Texto publicado no Jornal Cultura de 22 de Maio de 2018.

terça-feira, maio 15, 2018

MADRES, ROUPAS, TELEFONES E REGUADAS

Na escola, roupas ou vestuário adequado, comunicações ou telefones (para os dias de hoje) e a (im)pertinência de reguadas são temas sempre presentes nas conversas formais e informais dos que labutam e frequentam instituições escolares dos primeiros níveis.  E, quando madres se juntam à escola, a "conversa" ganha mais vida.
Estive (28.02.2015) num colégio gerido por madres, ao Kikuxi, Luanda. Uma boa iniciativa que leva o ensino de qualidade e a bom preço ao museke. As propinas me pareceram modestas, quando comparadas com as praticadas por outros colégios, mas elas, as madres, foram claras em explicar que embora a criança matriculada "não seja culpada pela falta de pagamento dos pais, não devendo por isso ser convidada a abandonar a sala de aulas, a instituição tem trabalhadores assalariados" que devem receber pontualmente os seus ordenados.
A coordenadora da escola chamou também a atenção dos pais para que não viciem as crianças aí matriculadas com dinheiro e coisas extravagantes. "Há pais que dão dinheiro aos filhos. Levem o dinheiro aos pobres ou às cadeias", disse a irmã Leopoldina, realçando que outras crianças vêm com telefones muito sofisticados. "Não viciem vossos filhos com coisas impróprias para a sua idade", rematou a religiosa  que coordena a escola das madres, "S. José do Colouny" do Kikuxi. Para mim, são conselhos que se aplicam a todos os pais e encarregados de educação e a todas as instituições de ensino.
Ainda no campo comportamental, a cristã frisou que está a ser alarmante na  instituição a separação dos pais. "Além dos vossos motivos devem pensar nas crianças. Vemos que uma criança que lia já não lê mais. Umas já vêm sujas porque deixou de viver com os dois e agora está somente com um". Os pais, explicou, devem cuidar também da roupa dos filhos. Não devem usar roupas muito curtas, nem inapropriadas para uma escola (como essa). Vemos mãe e encarregadas de educação que chegam aqui com sainhas e decotes que não se recomendam, lembrou.
Já no fim, quando os pais e encarregados de educação conferiam com os professores o comportamento dos petizes, eis que me surpreende um senhor bem-falante e igualmente bem trajado defendendo castigos físicos aos alunos, comparando o seu tempo de escola com o hodierno. Eu era "um pato naquela ceia", fui apenas procurar o amigo Bernardo Bumba que tinha um cachimbo para me ofertar e enfeitar a minha banga de prosador, mas quase intervi para recordar-lhe das aulas do pedagogo Amós Komenius. 
Surra já era, senhor encarregado. A ciência demonstra que sem ela também se aprende e que violência gera violência. Os tempos mudaram. Senti vontade de lhe dizer tudo isso e mais umas coisas, mas quem interveio a seguir a ele explicou que era professor e que nenhum mestre mudo de pedagogia moderna recomendava as reguadas do "nosso" tempo de kapalandanda.
A "Maria das Dores" que tirava "lágrimas de sangue" ficou no século XIX (XX para nós nascidos antes ou na alvorada da Angola Independente).

Texto publicado no Caderno Fim-de-semana do Jornal de Angola, pag. 10, ed. 11.03.2018