segunda-feira, setembro 26, 2016

A ORAÇÃO DO KAPITIA


A amizade que carregam, há mais de meio século, dá-lhe a ousadia para falarem de tudo e sobre tudo. Entre eles, nada é segredo. Apenas há segredos que desvendam só quando a fila ande. Aí sim. Abrem um espaço nos epitáfios e levam ao conhecimento dos parentes mais chegados as extravagâncias inauditas do de cujus.

Chegados da Kibala, Kitembo e os amigos Kanhanga, Kilole e Kapitia notaram a ausência de Kandungu. O homem tinha o telefone desligado, não mandava os habituais recados aos manos da sua geração e igualhagem, nem pedia dinheiro para a cura de reumatismo que ardilosamente desviava para as "baixinhas espumosas", como gostava de tratar as cervejas de garrafa curta.

- Compadres, o gajo deve ter ido para a pior ou a caminho disso. Depois do culto, é melhor irmos espreitar, se ainda encontramos o corpo quente. - Kanhanga aos coetâneos que depressa concordaram.

Juntaram moedas, as que haviam sobrado de um domingo de muitos balaios: fundo de construção, acção de graças, dízimo do Senhor (roubará o homem a seu Deus? Questionara o pastor para melhor penetrar-lhe o cérebro e a algibeira), oferta dominical, etc. Tinha sido uma fina peneira, mas, mais-velho é já mais velho, tem sempre reserva estratégica. E foi com o sacudir dos kafokolos, onde normalmente fica enfiada a reserva estratégica, que fizeram a vaquinha com que se meteram a estrada, ao encontro de Kandungu.

Encontraram-no vivo, mas degradado. Isso mesmo degradado e em estado lastimável. Os saltos, provocados pelos buracos na via que separa a capital da sede de Kibala, haviam debilitado a sua coluna de sustentação. Os antibióticos e analgésicos para afugentar as artrites foram substituídos pelas "pequenas espumantes". Encontraram um amigo vivo mas transfigurado. Mais morto do que vivo.

Primeiro entrou Kitembu, amigo e tio, embora dois anos mais novo do que Kandungu. Seguiram-se-lhe Kanhanga e Kilole. Kapitia chegaria meio atrasado, pois fora ver a filha nas cercanias.

- Boa tarde sô Kandungu. Esta hora já estás calibrado? - Saudou, gozão, Kitembu.

- Não brinques assim. Se me encontraram com vida é já sorte. Quanto à bebida com que sempre te embirras, hoje só bebi mesmo uma. Estou mesmo a morrer e nem sei porquê que Deus não me leva já. - Respondeu Kandungu, resmungão e com a voz trémula, como se lhe faltassem apenas instantes para transitar para outra dimensão da vida.

- Mas ó Kandungu, é mesmo morrer que queres, quando pessoas com noventa fogem da morte como satanás foge da cruz? - Indagou Kilole?

- Sim, mano Kilo. Aqui já não está a dar certo. Sofrimento é muito. Morrer é descansar.

Os amigos, algo co condoídos, algo chateados, com o indivíduo que degradou o corpo por livre vontade, decidiram retirar-se e voltar no dia seguinte. Eram todos reformados e Kitembu tinha um bom jeep em que se faziam transportar, quando não fosse na carrinha de dupla cabina que Kanhanga acabara de receber de oferta do filho.

- Vamos. Quando voltarmos trazemos outras ideias e esperamos não te encontrar mais nesse leito e nessa desgraça. - Disse Kitembu a despedir-se e puxando pelos amigos.

Kapitia, que acabara de chegar, tentou ainda convencer Kandungu para se livrar da ideia de se eutanasiar.

- Mas, ó mano Kandungu, ainda a semana passada que choramos o irmão Domingos João, até as lágrimas nos olhos ainda não se secaram, você quer já nos deixar?

- Sim, Kapitia, é melhor eu partir. Se vocês acham que estou a brincar, amanhã mesmo não vão mais me encontrar.- Disse Kandungu com as últimas forças que lhe restavam.

Kapitia, entre sarcasmo e compaixão, decidiu solicitar uma oração, mesmo Kandungu não sendo mais membro da igreja, ao que todos concordaram, até o inferno que se achava sem forças para se pôr em pé.

- Oremos: " Pai nosso, nosso Senhor, Deus que dá a vida e que a retira quando quer, estamos aqui perante nosso irmão que jazz nesse leito, mais pra lá do que cá. A vida que o irmão Kandungu leva é de muito sofrimento e miséria, pai. Já que ele mesmo está a pedir, por que é que o pai não manda essa noite seu anjo busca-lo? Ao menos ele descansa perto ou longe do Senhor, em função das suas obras no mundo. Que assim seja. Ámen!

- Ámen! - Confirmaram os amigos.

Kapitia ainda não tinha terminado a oração é já Kandungu se sacudia de pé, entre os amigos. Afinal, não era a morte que precisava.

segunda-feira, setembro 19, 2016

O MUNDANO E O "MONDANO"

Conversavam cinco idosos da Kibala, todos septuagenários.
Kitembu e Kanhanga frequentam a igreja desde pequenos. Conheceram-se na Escola Bíblica de Férias, o primeiro levado pelo irmão Domingos João e o segundo por Beto Pequenino. Os tutores eram também amigos desde garotos.
 
Em termos de frequência da antiga Missão Evangélica Americana, hoje Igreja Metodista Unida, Kitembu nasceu mesmo na igreja, pois, quando ele veio ao mundo, seu pai já ocupava cargos na Metodista. Kanhanga começou mais tarde, aos sete anos. Iniciou-se na "Cheia", aonde fora levado por um primo, ainda no Kwanza-Sul. Chegado a Luanda, foi levado pelo tio que era da "Protestante" como também era conhecida a confissão cristã trazida pelo americano Willian Taylor.
 
Kapitia e Kilole, outros dois amigos, converteram-se ao cristianismo já jovens e foram levados pelos primeiros de quem são amigos desde tenra idade.
Kandungu é o único entre os cinco que, ao contrário dos quatro contemporâneos, aos domingos, troca a bíblia e o hinário pelo copo de cerveja.

Cruzaram num óbito, na Kibala, terra de origem comum. Uns nasceram em Luanda mas são de filhos Kwanza-sulinos. Outros foram a Luanda em busca de estudos e profissões e acabaram por lá ficar até aos seus dias de cabelo branco.

Kitembu tinha perdido o irmãos mais velho e os amigos foram levar consolo. Depois do funeral, e para enfrentar um tempo friorento, os cinco amigos falavam sobre as coisas boas do mundo, aquelas que Kandungu ainda persegue cegamente, e as coisas excelentes dos Céus ou a vida ultra-tumba, que Kitembu, Kanhanga, Kilole e Kapitia procuram atingir com a sua entrega abnegada à causa de Cristo.
- Ó Kandungu, você sabe qual é a duração da vida do homem na terra? - Indagou Kitembu.
Kandungu, meio surpreendido, procurava buscar uma resposta que fosse de encontro à sua idade e experiência. Como um carro sem arranque, começou a resposta pelos soluços, enquanto coçava a barba, toda ela algodoada.
- Já viu o quê que os copos faz no homem? O "ngajo" parece já esqueceu tudo. Setenta anos, que vem na Bíblia, já não sabes? - Atirou Kilole, provocante.
- Sim. São setenta anos para que o homem se sinta com força e saúde. Fora disso, a pessoa volta a ser como criança. Mesmo uma vala de metro e meio, que a gente pulava sem recuar atrás para apanhar balanço, você já não pula mais. - Complementou Kanhanga.
- É verdade compadres. - Kitembu voltou à conversa. - E parece que aqui o mano Kandungu, que é também meu sobrinho, apesar da idade dele ser mais do que a minha, já não consegue pular nem meio metro. No sangue dele só lhe corre já espuma de cerveja!
- Ei, ó Kitembu, atenção ao respeito. Tio é tio, mas quem nasceu primeiro também merece respeito. - Reclamou Kandungu, em jeito de brincadeira. Na verdade, os cinco galhofavam.
Kapitia que até aí se mantivera apenas a seguir a conversa, ora abanando a cabeça para a frente, em jeito de aprovação do que se ia dizendo, ora fazendo-os companhia nas rizadas de mostrar o espaço deixado pelo último molar, colocou um subtema novo.
- Vocês sabem qual é a diferença entre o Kandungu e nós?
- Ele bebe, nós não. No domingo, ele abraça a caneca e nós a Bíblia e o Hinário. - Responderam quase em uníssono Kitembu, Kanhanga e Kilole. Só Kandungu se manteve na defensiva.
- Vocês "num" disse tudo. - Corrigiu Kapitia, 77 anos no lombo. - Nós todos que vai "no ingreja" é mundano. Mas ele não. Ele é "mondano".
Uma estupefação se apossou dos quatro, Kandungu incluído, que pretendiam saber o significado da nova palavra enunciada pelo amigo que era o mais velho do grupo.
- Ó mano Kapitia, você pode explicar "no" Kandungu o significado de mundano e "mondano"? Eu também só sei que ele é mundano porque deixou de ir "na" igreja. Tanto que lhe ando a dar conselhos, mas não me está a dar ouvidos. - Disse Kitembu solícito.
- Pois, então, oiçam bem: todos que vivem no mundo, se vai "na" igreja ou não, são mundanos. Pessoa como o irmão Kandungu, que "num" vai "na" igreja, que pecado dele se amontoa, é "mondano". O termo "mondano" vem de "mondanha" (montanha). Pecado dele é como uma "mondanha" porque ele não vai à igreja diminuir. - Kapitia terminou o seu sermão com assobios e rajadas estridentes de palmas doadas pelos amigos.
Assim fizeram o seu segundo serrão, em homenagem a Domingos João António, até que o último galo se aposentou de cantar.

segunda-feira, setembro 05, 2016

O RECÚO DA MONOCULTURA NO AMBOIM

 
Reza a nossa História económica de Angola que em 1973 o nosso território era o quarto maior produtor mundial de café. Das centenas de milhares de toneladas que eram exportadas, despontava o robusta do Amboim. Tanta importância teve o café na balança económica e no desenvolvimento da região que uma linha férrea foi construída, ligando o Amboim (cuja cidade capital é Gabela) ao seu Porto, ex-Benguela Velha.

Imperava a teoria económica do " retirar o máximo aproveitamento das vantagens competitivas do mercado", tendo o regime colonial imposto as monoculturas a muitas áreas e povos. Argumentava-se, que com a renda procedente da monocultura, nesse caso o café, comprar-se-ia o que mais se precisasse ou faltasse.

Visitei as duas cidades (Porto Amboim e Gabela), no afã de explorar o turismo rural e o regalo que a Binga, Kwanza-Sul, e suas cachoeiras nos oferecem. Duas notas importa partilhar: se na Binga a falta de instalações hoteleiras no espaço adjacente à maravilha natural, eleita uma das sete melhores do país, "corre" com os turistas idos de longe, limitando-se a umas selfies, já no trajecto que nos leva à Gabela e CADA, é a progressão do bananal que desponta, num território montanhoso em que o café se apresentava com o verde das ramagens, o vermelho do bago maduro, bem como o sabor único e adocicado do fruto seco e torrado.

Os montes, cobertos de árvores altas e frondosas que davam sombra aos arbustos de café, são hoje invadidos pelo bananal que vai pleiteando e progredindo a desfavor da chávena quente no restaurante e do dólar fresco no BNA.

Por que será? Interroguei-me ao longo da viagem, sem ter de necessitar de um agrónomo ou economista para a resposta.

De aldeia em aldeia, a banana está sempre exposta à venda. Dá sustento imediato. Se não dá dinheiro, mata a fome. O café não. As plantas precisam de ser podadas, as picadas e acessos requerem limpeza todos os anos. O bago maduro não alimenta o estómago vazio. Precisa de ser colhido, depositado no terreiro para a seca que leva semanas. Depois de seco, tem de ser ensacado, transportado para o armazém, descascado, reensacado, vendido a poucos Kwanzas por cada quilo e exportado para proporcionar dólares ao país e enfeitar a chávena num restaurante além-mar.

Deve ser por isso que vamos tendo pouco café para exportar!

Nota: Texto publicado pelo semanário Nova Gazeta de 08.09.2016.

domingo, agosto 28, 2016

NA FRONTEIRA ENTRE KAMBAMBI E LUBOLU

Essa é a nova ponte sobre o rio Kwanza, o mesmo que separa Kambambi (KN) do Lubolu (KS). Ei-la comprida e majestosa. inigualável no seu desenho e contornos. Até porque rio Kwanza naquele espaço só há um!
Sobre ela, ainda em construção, já havíamos escrito nessa tribuna e também no www.mesumajikuka.blogspot.com, com direito a publicação no Semanário Angolense.
 
Foi erguida à montante devido a elevação do dique da barragem de Kambambi que vai aumentar a albufeira e, concomitantemente, puder submergir a ponte do Kyamafulu.
 
Disseram-me os polícias que o posto policial instalado na nova ponte herdou o nome. Não é a mesma coisa.
Kyamafulu tem estórias e História.
 
O Kwanza
Lembro-me, em 1990, terem mandado pular do IFA todos os homens, quer fossem velhos, crianças ou jovens abrangidos pelo serviço militar obrigatório. Até deficientes foram obrigados a pular do alto do veículo carregado de sacos de macroeira. A aferição de documentos seria no chão.
 
Quem fez trajectos Lubolu-Kambambi (Ndondo) e vice-versa sabe bem o que escrevo.
 
Kyamafulo só há um. O da velha ponte!

sexta-feira, agosto 19, 2016

A FESTA E AS LÁGRIMAS DO VIAJANTE


Comiam, bebiam e dançavam descontraídos. O líder tinha sido eleito havia pouco tempo e se colocava à frente de uma equipa multirracial há muito desavinda com ostracização de uns por outros, sendo ele pertencente ao grupo dos que durante décadas estiveram do lado dos "sem culpa mas também sem nada, tirando perseguições, prisões e mortes".

- Senhora, esse teu vestido e esse teu gingar trazem-me luz à noite escura, lá fora. - Disse o cavalheiro, entre pura simpatia carregada de humor e galanteio, no fraco perceber da mulher.

A dama tanto transpirou que acabou por se sentir molhar por completo. Enorme era aquele simpático elogio e, ainda mais, vindo de um cavalheiro que era o líder supremo da nação. Não se conheciam de nenhum lugar antes daquele momento. E o cavalheiro não era um qualquer. Até porque estava apenas "casado com os assuntos do Estado" e separado da família restrita.

- Estou encabulada, Tata, e nem sei que lhe dizer. - Atirou ela, gingona e com um largo sorriso na boca a mostrar o último molar.

- Sabes, o meu pai foi Xhosa e, como tal, era polígamo. Mas eu, felizmente, não sou e já estou acima dos sessenta anos. Porém, olhando para si, fico até com inveja do meu pai. Voltou a prosear o mais velho.

Tuto o que leu até agora, trata-se apenas de um breve trecho do filme Invictus que retrata a vida de Madiba. A longa metragem retrata o esforço que Madiba teve em juntar os retalhos humanos (sociais e psicológicos) em que se tinha traduzido a África do Sul dilacerada pelo apartaid, cuja machadada final foi dada por Frederik de Klerk e Nelson Mandela.

Mandela fez da diferença entre os brancos e negros e dos antagonismos entre ambos uma oportunidade para unir o país, fazer a reconciliação e criar uma Nova Nação, a Rambow Nation (país do arco-íris). E dizia ele que não importava a cor da lepe nem a língua que cada sul-africano falasse. Importava sim o seu esforço e o seu saber para agregar valor ao produto final que era um país para todos. Para unir uns e outros, buscou do que mais representava os brancos, a selecção de râguebi, e a apoiou fortemente até vencer o campeonato do mundo realizado em seu país.

Serviu-se do exemplo, a partir do seu gabinete presidencial, juntando na sua equipas de segurança aqueles que tinham prestado serviço ao antigo regime de De Klerk e os da sua nova equipa. Usou a simplicidade nos relacionamentos políticos e pessoais e esteve à frente do seu povo e de todo o processo de pacificação mental e coesão nacional entre grupos (negros que se digladiavam entre si, por um lado, e negros contra brancos ou o inverso, por outro lado).

Esse filme, servido pela TAAG nas suas rotas internacionais, e que vi pela terceira vez, não me poupou lágrimas de emoção, roubando-me ainda, de pausa em pausa, largos minutos de reflexão sobre como podemos usar o nosso capital moral e intelectual para galvanizar as nossas equipas no Trabalho, na Faculdade, nos grupos sociais, etc. É pelo exemplo que se consegue a adesão do grupo, sendo o líder o primeiro na assumpção do risco e nos desafios inadiáveis das nossas vidas enquanto colectividade.
 
Já que a observação é das grandes escolas para o homem, aconselho que (re)assista ao filme Invictus e retire dele exemplos que lhe serão úteis à vida toda.

domingo, agosto 14, 2016

A PONTE ANTIGA, A PEDRA SANTA E O MONTE KALIMATUJI

À chegada dos primeiros portugueses, a estrada Munenga-Kalulu passava pelo Dambu, cortando o Kambuku, abaixo da actual ponte que fica nas encostas do monte que serve de ex-libris de Kalulu.
 
Revisitei, a 09.07.2016, a ponte antiga, local por onde passei variadíssimas vezes, sempre que me dirigi ao sítio de "banho dos homens", no rio Kambuku, bairro Musafu.

Mais erosão ou menos erosão e mais casas do que matagal, o espaço continuava o mesmo. Apenas as casas de adobe e a lutar contra o desabamento forçado pelas correntes pluviais haviam ganhado energia eléctrica da Ende.
 
Como no passado, o tempo é de hortas em toda a extensão do Kambuku e seu afluente que vem da zona do velho Duas Horas. Cebola, couves, tomate e outras hortaliças e leguminosas crescem no verde campo que ladeia o rio.
Pedra Santa de Kakulu
 
É já a regressar à parte urbana de Kalulu que paro num local que sempre foi de pausa obrigatória: Pedra Santa.
 
Por que será Pedra Santa? Haverá uma estória ou história oculta que levou a tal designação?
 
Ex-Libris de Kalulu
Na ausência de anciões para desvendar o enigma, contentei-me com a exuberante paisagem que a natureza colocava ao meu dispor: monte Karimatuji é claro!






Texto publicado, a 22.09.2016, no Nova Gazeta

sábado, agosto 06, 2016

A RUA DE QUE NADA SE FALA

Quem sai do Lwati em direcção a Kabuta ou Munenga é capaz de pensar que Kalulu tem apenas uma rua longitudinal. Mas engana-se.
Quem passa por Kalulu, saindo de Kabuta ou Munenga e se dirija ao Lwati, Kisongu e ou Lususu verifica, ao chegar ao Jardim, que há uma Alameda que se "esconde" nas traseiras da "Rua Principal", a longitudinal que corta a vila pelo meio. Essa Alameda parte da Administração Municipal (com sentidos separados), passando pelo Bairro Azul, até à Escola Kwame Nkrumah e Hospital Municipal, onde se junta à rua principal.
 
Fora essa, contam-se ainda as transversais: da Pedra Santa ao Campo da Revolução; do ex-mercado municipal (Ex-ETIM) à Ex-Jota (hoje delegação da Unita); do Campo da Revolução à Delegação da Saúde; do desvio para Kabuta à Missão Católica; do Jardim à Igreja de S. António de Kalulu, entre outras de menor extensão.
Um pouco mais de asfalto pode conferir à vila, sede do Libolo, maior extensão urbana e um rosto mais lavado.
 

segunda-feira, agosto 01, 2016

MEMÓRIAS DO KWAME NKRUMAH DE KALULU

O nome do estadista Ghanense foi atribuído à escola do II e III níveis de Kalulu.
A primeira foto mostra o anexo em que estava instalado o laboratório de biologia (anatomia).
Embora não tenha usado o laboratório, pois usá-lo-ia na sexta classe, em 1990, caso tivesse professor de Laboratório de Ciências da Natureza, foi a única escola das que frequentei que tinha laboratório.
 
Infelizmente, em Dezembro de 1999, a rebelião armada destruiu o laboratório da "escola preparatória" de Kalulu.
 
Quando entrei para a quinta classe, em 1988, fui colocado na turma K que frequentava aulas na cave do laboratório. No segundo semestre, passei para a turma dos meus coetâneos e fui para a B.
Na sexta classe integrei a turma D, passando depois, com as desistências provocadas pelo ataque da Unita, em Dezembro de 1989, à sexta turma A (1989-90).
 
Lembro-me do meu primeiro dicionário de LP que comprei por mérito, ao tempo do director Narciso Francisco da Cruz. Só os da sexta classe tinham acesso à aquisição do dicionário.
 
Em visita a Kalulu, não adentrei as instalações mas fiquei a contempla-lo muro afora e a catar lembranças duma infância marcada por livros, lavoura e alfaiataria com o mestre Gonçalves da Silva.
 
A bola, no Kambuku
Futebol Club (antes e hoje Clube Recreativo e Desportivo do Libolo), era duas vezes por semana, no Campo da Revolução, que fica à sombra da Fortaleza da Liberdade.

segunda-feira, julho 25, 2016

METÁFORA E EUFEMISMO NO GLOSAR KIBALÊS

- Kandonika wahi.
- Kihi kyamunzipi?
- Ngostu!
[A Antonica morreu.
De que pereceu?
De gosto!]
 
Gosto=SIDA
 
Metáfora=comparação aproximada entre entes e ou ideias com alguma semelhança (o pé da mesa é comparação).
Eufemismo= dizer por palavras brandas ou doceis aquilo que podia ser duro (ele foi para junto do pai em vez de morreu).
Aqui o termo "ngostu" pode ser enquadrado nas duas figuras de estilo da regra portuguesa:
1- SIDA emana do prazer ou gosto. Há breve comparação.
2- Morreu de SIDA é uma expressão dura. Substitui-la por "ngostu" é mais brando (eufemístico). Soa mais pomposo.
3- "Ngostu" é sinónimo de "ulesuka"= assanhadice que tb pode levar à morte consequente ao prazer.

segunda-feira, julho 18, 2016

EMPRÉSTIMOS, ADOPÇÕES, REJEIÇÕES E DISPENSAS


Como locutor atento de Kimbundu (Lubolu) vou notando que muitas palavras utilizadas hoje para designar ideias, coisa...s e sentimentos/estados não existiam há trinta anos, assim como algumas que ouvi pronunciar na infância estão hoje no armário.

Isso acontece com todas línguas vivas. Há gírias, calões e neologismos que quando popularizados são inseridos "naturalmente" no léxico e outras que, caindo em desuso, se tornam de u...so restrito/erudito ou passam para o arquivo.
A propósito disso, uma jovem universitária que estuda "as intrusões de linguas bantu na L.P. em Angola" escolheu como obra o meu "O Sonho de Kauia", livro rico em expressões Kimbundu, Umbundu e Ucokwe.
Perguntava-me se qual era a origem de uma lista de palavras retiradas do texto, mesmo aquelas que têm significado em rodapé.
Depois de uma analise, a conclusão só podia ser esta: alguns lexemas constantes do referido livro e apontados pela estudante foram emprestados/tomados do kimbundu mas são gírias e calões daquela língua, podendo, por isso, ser desconhecidos por alguns falantes do kimbundu noutras regiões.
Viva o dinamismo das línguas. Sou pela autonomização de qualquer variante de uma Língua, desde que a sua evolução natural a torne diferente daquela que a deu origem, e crie para si mesma uma NORMA
(Texto publicado originalmente a 06.07.2014, em Saurimo).

segunda-feira, julho 11, 2016

RETRATOS DO LIBOLO: APRESENTAÇAO DA OBRA


Quando somos dos últimos a falar, ou acertamos, completando o que não foi ainda dito, ou corremos o risco de ser redundante que deve ser a figura em que mais me enquadro. Porém, é também sabido que "o que ambunda não prejudica".
 
Senhoras e Senhores,
Excelências
É com grande honra que subo a esse palanque para uma missão difícil que é a de tentar apresentar o segundo volume da Obra Retratos do Libolo, inserida no "Projeto Libolo". Na verdade a obra já foi apresentada pelos autores e tudo o que farei será apontar alguns tópicos para aguçar a curiosidade de quem quem o vai ler.
 
Mais difícil ainda se torna a minha missão, por secundar uma figura incontornável da nossa literatura e intelectualidade libolense e nacional, o escritor Jaques Arlindo dos Santos.
Relutante, mas honrado, acedi ao convite e ao desafio, pois sou filho dessa terra e por ela também me tenho esforçado em dar-lhe a visibilidade e o conhecimento que merece na esfera nacional e internacional.
Carlos Filipe Guimarães Figueiredo é um amigo que a Ciência e as redes sociais me apresentaram. O Libolo, nossa terra, é apenas o ponto de partida e de chegada.
Imaginem, prezadas Senhoras e Senhores, ele em Macau ou Brasil e eu num distante Catoca, Lunda Sul, onde prestava Serviço.
A abordagem de temas comuns sobre a angolanidade e o nosso Libolo fez-nos próximos e aqui estamos.
Em Retratos do Libolo, Carlos Figueiredo que de forma destemida e desapaixonada (¿) palmilhou o território que se encontra entre os rios Luinga, Longa e Kwanza bem como a Estrada Nacional 120, apresenta-nos aspectos como a Geografia,  o relevo a Hidrografia e seus recursos, o clima, o solo, a fauna e a flora, o café do Libolo, e até insectos típicos.
No livro, encontramos ainda aspectos sociológicos, e históricos. Foi bom ler, por exemplo, que os nossos ancestrais foram os últimos a ser vencidos (mas não convencidos) pelos colonizadores. E já ia a findar a I Guerra Mundial.

As comunas de Kalulu, Kabuta, Munenga e Kisongu bem como as suas principais aldeias foram todas descritas  e fotografadas constituindo-se esse livro num documento de elevada importância histórica, social, antropológica e cultural.
- Haverá em Angola, nosso país, uma região, um município que tenha merecido tão detalhada radiografia?
Os meus conhecimentos, até agora, dizem que não.
E, ainda bem que somos os primeiros, pois sempre estivemos na fila de frente. Na resistência à ocupação colonial, no desenvolvimento das forças produtivas, na luta pela independência e agora na busca do conhecimento e valorização da Nossa Terra.
- Quem de entre vós conhece a Pedra Escrita de Kasala-Sala, com registo histórico, e outra que fica entre a Munenga e Lususu?
- Quem já visitou Kituma, Kuteka, Kabuta, Kitila, Kambaw, Kakulu-Kabasa, a Missão Católica e seu internato e a nossa Fortaleza da Liberdade?
Kalulenses, Libolenses, Kwanza-Sulinos, Angolanos e porque não os nossos amigos brasileiros que nos ajudam a conhecer o Libolo?!
O Libolo hoje é manchete na media nacional e internacional por causa do Clube Recreativo do Libolo, o que nos orgulha. Porém, há muito mais Libolo para a além do Desporto. Há um carnaval histórico. Há arte e imaginação. Há muluvu no Musende, Wala de Muxiri no Kisongu e carne de paca no Mukongu. Em todo o Libolo há um Kimbundu que flui e ritos de passagem para os rapazes. Há caçadas,  há namoro, o mesmo namoro que encantou Viriato da Cruz na sua carta em papel perfumado... Há casamentos e há divórcios também. Divórcio com o pensamento arcaico e despido de verdade científica.
Excelências,
Tudo o que vos disse não representa sequer um milésimo do que a obra nos proporciona, sendo que o melhor mesmo é adquiri-la e, com ela, imergir no tempo, nas comunidades, no chilrear das aves e farfalhar dos matagais.
Eventualmente alguém me pergunte:
- Será que estamos perante uma Bela sem senão?
Aqui, a minha resposta é peremptória: A minha sensibilidade artística e científica não consegue encontrar espinhos entre a Rosa que me foi dada a ler e a apresentar.
- É um trabalho de todo acabado?
A História, a cultura, as artes e tudo mais que envolvem um povo como o nosso, não se esgotam em dois livros. Os jovens nas suas aventuras e trabalhos académicos, os cientistas sociais do Libolo, no Libolo e na sua diáspora, os intelectuais de outros países como os amigos académicos brasileiro e macaenses que já vêm desvendando o Libolo, devem dar sequência. Devem complementar esses estudos que, repito, são de incomensurável valia e relevância.
Permitam-me fazer uma vênia aos patrocinadores cuja aposta propiciou o arranque deste Projecto. A eles se agradece e se pede coragem e continuidade de apoios para que tenhamos mais e melhores conhecimentos sobre o Libolo. Quem sabe, agora mapear e descrever os locais de interesse turístico e outros locais históricos?
E, despeço-me com uma breve que li recentemente, do meu amigo e também Lubolu-descendente, Drumond Jaime: “Enquanto mais conhecemos a Nossa Terra, maior é o orgulho de a Ela pertencermos”.
Muito obrigado pela vossa atenção.
Soberano Canhanga
Kalulu, Lubolu, 10.07.2016

sábado, julho 02, 2016

ESPREITANDO O KATAMBOR


Entre uma cidade (Alvalade) e outra urbanização (Prenda) encontramos um emaranhado de casotas (algumas evoluíram para kaprédios) sobrepostas no morro e com becos em degraus. A água, limpa ou negra, corre cima a baixo. Algumas crianças ainda brincam e correm entre estreitos desfiladeiros. Outras vivem confinadas nos quintais inexistentes.

- As casas iniciais terão sido mesmo feitas a base de chapas de tambores e daí o nome. - Contou-me um ancião que há muito desistiu ...da casota que erguera entre barrocas, num beco de "50cm".
 
Aprecio a alegria estampada nos rostos e nos largos falares (há lá muitos kwanza-sulinos) dos moradores do Katambor, mesmo encurralados (muitos), sem acesso para veículos. Mas, que tal deixar Quem de Direito requalificar a zona quando sairmos do aperto financeiro? Vejam só quão linda está a ficar a Boa Vista, a Kinanga, o Quintalão dos emissores do Cazenga, o Ex-Roque, etc.
- Pessoa morre, corpo já não passa em casa por causa do acesso? - Desabafou o ancião que trocou o Katambor pelo Rocha pinto.
 
Quando erguemos uma casa, mesmo precária ou em local precário, estabelecemos laços afectivos fortes com o imóvel, instituições e pessoas ao redor de quem não gostamos de nos afastar. É verdade. Mas onde ficam a comodidade, bem-estar, acessibilidade, mobilidade e tudo mais?
Desabafei comigo mesmo porque "tenho casas" nos Katambores.