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segunda-feira, março 27, 2017

O CARNAVAL NO RANGEL E A HOENAGEM A MAN-BRÁS

Vimos desfilar, em com orgulho, no carnaval de Luanda, a soberba actuação do União Sagrada Esperança do Rangel, (agora distrito urbano) que me viu crescer e fazer-me homem. Foi no Rangel, entre a Rua da Ambaca, da Saúde, Comandante Cantiga, Rua do Paraná, entre outras, que tomei contacto com o carnaval luandense, ainda no tempo do já finado “Carnaval da Vitória” que se realizava a 27 de Março para assinalar a saída do último “carcamano sul-africano-racista” do solo pátrio, em 1976, depois da invasão que pretendia inviabilizar a proclamação da independência de Angola pelo MPLA.

Dançávamos ao Carnaval da Vitória com o Grupo Atuzemba, União Estrela do Kaputu (Zona 15), entre outros que animavam o Rangel inteiro, antes e nos dias do desfile principal. Agradava-me assistir aos ensaios e ver aquela gente alegre. Alegria espontânea e não comprada ou a troco de alguma distinção à marginal. E dançávamos eufóricos ao som da ngoma de lata, reco-reco, puíta, chocalho, etc. O rei e a sua rainha vestiam-se à moda angolana e exibiam coroas feitas a base de ferros recortados e outros metais. Era tudo a base do improviso espontâneo.

Mas quem mais alegria dava aos munícipes todos e em especial às mamãs peixeiras e outras quitandeiras da praça das Corridas (hoje mais conhecida como praça do Tunga Ngó) e da Praça Nova (defronte a administração comunal do Rangel) e aos meninos e meninas da minha infância “rangelina” era o Mam-Brás. Exímio vocalista de carnaval e tocador de ngoma, sofria de algum distúrbio mental que não cheguei a definir. Muitas crianças se perdiam por seguirem o Man-Brás que ia cantando, tocando e dançando. Que saudades dos seus toques ímpares!

Man-Brás foi um feitor e zelador do nosso carnaval de bairro. Carnaval alegre, sem preço, sem patrocínios, sem contrapartidas e que não era encomendado por ninguém. Man-Brás corporizava essa alegria de quem estava e sentia-se livre na sua terra.

O Man-Brás que vivia na rua do “ti Avelino” apesar, de sofrer de distúrbio mental, tinha o reconhecimento e respeito de todos. Era prendado pelas mamãs que gostavam do som do seu tambor, da voz do seu canto e dos toques da sua dança, quer na rua ou nos mercados onde preferencialmente se fazia exibir. Nada cobrava. Apenas recebia o que lhe era dado de oferta no momento da exibição e fazendo do seu carnaval, sem época, o seu ganha-pão.

Man-Brás, cujo batuque e canto ainda se fazem ecoar no meu ouvido era a nossa alegria de criança esboçada no refrão: Man-Bragéé-é, Man-Bragéé-é!, É o meu homenageado neste carnaval de 2017. Espero que um dia alguém da APROCAL se lembre dele.
 
Man-Bragéé-é!

Obs: publicado a 16.03.2017 pelo semanário Nova Gazeta

quarta-feira, março 22, 2017

CONFUSOS E PROFUSOS

CONFUSOS E PROFUSOS
Dias inteiros sem energia eléctrica e duas tardes de chuva, em Luanda, foram bastantes para que o ambiente ficasse profuso e as ideias confusas. Entre chuva e estiagem, afina de contas, o que mais nos vale?

Estudei o ciclo da água na terra estudei-o na quinta classe dos anos oitenta do século passado, é mesmo cíclico: água nos rios, mares, lagos e lagoas; evaporação; acumulação de nuvens carregadas de partículas combinadas de hidrogênio e oxigênio; precipitação. E a roda continua a girar. Anos com maior e anos com intensidade. Em Luanda é igualmente assim. O ano de 2016 foi de intensa pluviosidade, trazendo o famigerado "caso Coelho" que este ano se vai, com certeza, aguentar, pois apenas agora a chuva nos visita com "alguma fúria”.

Mesmo sendo filho de camponeses, que por pouco nascia numa fazenda cafeícola familiar, vezes há em que defendo a estiagem para Luanda. Para quem vive os problemas infraestruturais da capital, bastaria chover intensamente no médio Kwanza e ai onde se faz agricultura de sequeiro. Luanda precisa é de água nos rios que a abastecem e de energia que "tudo move".

Apesar do esforço dos últimos tempos em se diminuir ou mitigar o impacto das quedas pluviais nos bairros da capital, são ainda incomensuráveis os efeitos perniciosos sempre que "São Pedro abre as comportas": estradas que deixam de cumprir a sua missão, viaturas e casas soterradas, quando não arrastadas pela corrente e deixando coros profusos de "ais"...
Passei por um grupo de homens e mulheres, à beira da Avenida Deolinda Rodrigues, que clamavam por mais chuva. Não que estivessem satisfeitos pela descarga do dia anterior e outra que se fazia anunciar. Era por que estavam sem como chegar ao local de prestação de trabalho e pior, descrentes em como conseguiriam voltar a casa, a tempo de apanhar os filhos nos centros de ensino.
Afinal de contas, entre chuva e estiagem, o que mais nos vale?
É obvio que essa escolha se torna impossível aos humanos. Só ao ciclo de água na terra e sua sazonalidade diz respeito. Mas continuo a pedir, sempre que falo com o altíssimo, que nos dê tantas bênçãos como chuva em Kangandala, porém menos chuva em Luanda.

quarta-feira, março 15, 2017

DESANUVIANDO NO KM 32

"O mar é bom. Tira stress, cura sarna, mata piolhos e muito mais. Mas também dá más notícias. Quando não une famílias pelo convívio as separa do convívio" (in Mangodinho).
 
Conheço e frequento as praias atlânticas, junto a costa de Luanda desde 1984. Naquele tempo, todas as instâncias balneares  eram públicas. Bastavam umas moedas para o autocarro 33, 43 ou 45 e chegava-se ao largo da Amizade (Baleizão), caminhando depois para a Chicala ou mesmo adentrando a Ilha do Cabo.
 
Com o andar do tempo, o crescer do cimento privado sobre a costa fez com que só quem tenha dinheiro para desfrutar do luxo alheio possa frequentar as praias do istmo luandense. E, assim começaram as viagens ao sul: Corimba, Morro dos Veados, Museu da Escravatura, Km 27, Km 32, Ramiro, Foz do Kwanza, sempre a descer.

A maka dessa prosa tem a ver com as cobranças que uma dita Comissão de Bairro faz aos banhistas que se fazem transportar em viaturas para aceder à praia do Km 32. O cidadão encontra uma corda esticada, na altura de um metro, atravessando a picada. É preciso desembolsar Kz 200,00, ao que se diz, para limpar a praia que tem mais lixo do que limpeza.
São se discutiria a pertinência da ideia se as praias fossem limpas. Seria uma forma de ajudar a edilidade. Sobretudo, se esse dinheiro fosse devidamente controlado e depositado em erário de onde sairia para ajudar quem administra a fazê-lo melhor.

A questão é que as fichas de cobrança atestam uma "contribuição mínima de kz 200" e as mesmas não se acham numeradas para permitir um maior controlo. Outra suspeição que se levanta vem do facto de os talões serem passados pela "Comissão de Moradores" e não por um órgão da administração legalmente mandatada para o efeito.

Não haverá aí um "ChicoEsperto" querendo colher onde nunca semeou? E que tal se esse dinheiro, bom nos tempos que correm, fosse atender o que falta às nossas praias (higiene e segurança), mas passando por uma regulamentação e sendo cobrado pela administração tributária ou outro órgão afim? Por que não é canalizado para a CUT (Conta Única do Tesouro) e dá sair a percentagem devida à administração local?

Não sendo a praia do Km 32 distante de Luanda, quem tiver dúvidas pode ir ver e aproveitar fazer um banho de água salgada que a água está quente e convidativo. Mas deve levar um saco para acondicionar os descartados!

Obs: publicado pelo Jornal Nova Gazeta

terça-feira, março 14, 2017

PENSANDO IMAGEM INSTITUCIONAL

Nenhum dinheiro particular,
Nem a soma de tod'os ordenados é mais importante do que a imagem da Organização.
Pense nisso.
SC

Esta mensagem aqui colocada, não obteve nenhum comentário até 17.03.2017. Porém, quando enviada, via whatsup, a duzentas e cinquenta pessoas, entre eles jornalistas, juristas, gestores públicos, gestores empresariais de topo e média escala, produziu diversas reações, dentre elas:
 
a) Entendimento e concordância e agradecimento pela reflexão (a maioria eram gestores de empresas e de comunicação institucional);
b) Desconhecimento e desenquadramento (resultando em questões como: qual organização, que ordenados, de quem te referes, etc. Alguns até eram formados em comunicação social);
c) Incómodo e azedume (pessoas há, entre os gestores públicos de topo e intermédios de empresas, que ligaram para mim, procurando por esclarecimentos, demonstrando estar ofendidos).
 
Aqui chegados, só podemos concluir que:
Ou temos de difundir cada vez mais a necessidade de todos os gestores (de alguma coisa) e funcionários em geral conhecerem o VALOR DA IMAGEM DAS ORGANIZAÕES,  a começar pelas famílias, ou há gestores que se assustam por nada, demonstrando ter alguma fraqueza pelo alheio.
   

quarta-feira, março 08, 2017

PESQUIZANDO NAS MARGENS DO RIO

Conta a lenda: duas manas, Kimone e Samba, saídas das terras banhadas pelas águas do Lukala e Kwanza, lá pelas bandas de Kakulu nyi Kabasa, decidiram distanciar-se e constituírem seus “reinos”. Kimone correu em direcção à rota do Sol e fixou-se no médio Kwanza. Samba foi para sul, percorrendo a rota oposta à trajectória do sol, e encontrou terras vastas com vegetação farta que indiciavam ser de elevada fertilidade. Encontrou também sossego entre o Longa e Nyiha. Fazendo-se ao centro daquele território de água e caça abundantes, fixou nele a sua morada.

Com o correr do tempo, a saudade, quer de uma quer de outra, foi aumentando, chegando quase à exaustão. Recadistas não havia e aqueles que transmitiam “mensagens de ouvir contar” também rareavam. A travessia dos rios, em tempo chuvoso, era penosa. Kimone, a irmã mais velha, possuída de saudade, fez-se ao sertão, à procura da irmã. Terá sido em tempo de queimadas, normalmente entre Agosto e Outubro. Viam-se as planuras, as montanhas, os contornos dos rios, e os animais ferozes estavam distantes de terrenos lavrados pelo fogo.

Quando se achavam próximos da aldeia fundada pela irmã, Kimone mandou um emissário confirmar se o povoado à vista era o de Samba, ao que ergueu uma tenda onde aguardou pela resposta que veio afirmativa.

Samba, o emissário de Kimone e mais uns tantos aldeões saíram carregados de presentes e ali mesmo, onde Samba mandara erguer uma tenda para descansar e aguardar pela confirmação, se fez uma grande festa de recepção.

Para levar à posteridade aquele momento ímpar, no local foi construída uma casota que evoluiu até se constituir em aldeia, ganhando o nome da irmã visitante.

Kimone permaneceu na aldeia fundada pela irmã mais nova algum tempo. Dizem mesmo que foi quase um ano, nova época de queimadas, até afogar a saudade.

De regresso à casa, quando perguntada sobre "onde estivera todo aquele tempo", ela simplesmente respondeu:

- Ngwe(nde)le kumona ipala kya Samba (fui ver o rosto de Samba).

A terra conquistada por Samba ficou conhecida, até hoje, por Kipala-kya-Samba (Kibala). No local onde Kimone descansara surgiu uma aldeia registada com o seu nome. Antes da vila da Kibala (Quibala) está a aldeia de Kimone que possui um templo da Igreja Metodista Unida em Angola, baptizado por Boa Esperança-Kimone.

NB: Texto recriado. Publicado pelo semanário Nova Gazeta.

quarta-feira, março 01, 2017

A REVOLUÇÃO NA ALDEIA

- Ndjuce, Sami, Russo, Katambi! Acordem, rapazes. Acordem.

Mangodinho, cinco e meia, parecia louco na aldeia. Enxada na mão, picareta no ombro, o homem estava decidido.

- Temos de evoluir. Luanda é linda, mas toda aquela boniteza é por causa da nossa burreza. Nós vamos lá, estranhamos. Em vez de fazer também aqui, não! Ficamos só assim na saudade, juntar macroeira e voltar a Luanda. Nossos filhos que estamos a fazer aqui para ficarem espertos têm também de ir à capital? Vamos trabalhar.

Os rapazes, aqueles convocados em primeira instância e outros que se juntaram ao chamamento, fizeram uma roda em torno de Mangodinho.

- Estão a ver essa lagoa no quintal do meu pai? - Exibiu a foto. - Nos também aqui podemos ter. Lá a água sai de um tanque, tem máquina que a manda à lagoa e sai. Se parece lagoa de um rio. Nós aqui vamos fazer directamente no rio.

- Fazer lagoa que não é de Deus no rio, Tizequeno? - Kabari, dúvida era como água do rio em tempo de chuva.

- Deixa ainda o tio falar e vamos sentar para ver o que dá para fazer. Ajudou o Russo, rapaz esperto que também conhece cidade. Tinha ido duas vezes a Tabela e Waku Kungu. Russo já era visto como um rapaz de visão. A casa dele é a única que se apresenta rebocada, dentro e fora,  e com janelas de vidro, mesmo sendo feitas de adobos. As pessoa que passam e até se perguntam: essa casa, no meio da aldeia, não é desperdício? Mas não é, não. As pessoas da Ngwimbi com casa tipo estão no mato, essas é que deviam voltar e o miúdo Russo ficar no lugar deles na cidade.

Pois é. Mangodinho continuou a explicar aos jovens:

- Vejam só. A pessoa vai ao rio tomar banho, nesse tempo, água que passa é bocado. Não estou a falar do rio grande, o Longa. Estou a falar desse karriacho aqui. - Apontava. - Se pegarmos enxadas, pás, picaretas, kangulos, etc., podemos abrir, tipo um tanque. De lado, vamos pôr tijolos com cimento. A água fica com um sítio de entrar e sitio para sair. Não acham que fica mais melhor?

- Fica tio. Afinal o Tizequeno viu boas coisas na capital. Eu também já vi coisa igual na televisão. - Disse Kabari.

- Eu, no Amboim, também já tomei banho nesses tanques que o tio mostrou na foto e que chamam "peixina". - Complementou o Russo.

- Mas, tio, se construirmos ao lado do rio, não no próprio rio a descer. Se construirmos de lado, dez metros fora, se metermos um tubo que faz a água entrar e outro que faz a água sair não fica mais melhor? - Perguntou Sami.

- É. Miúdo Sami. Afinal teu juízo não é de gafanhoto. Fica melhor, porque quando o rio estiver cheio, com a chuva, não vai arrastar a nossa piscina. - Já viram que vocês todos estão a evoluir? Vamos fazer a nossa lagoa de banhos, dez metros fora do rio Kisela. - Orientou Mangodinho.

Os rapazes já se preparavam para completar o material de construção. Era sábado, dia de trabalhos comunitários. Mas, Mangodinho entendeu expor outra ideia.

- Ó miúdos, esperem ainda. Nessa ideia já se entendemos. Falta só uma. Chamem o secretário do bairro para fazer uma carta bem escrita ao administrador comunal. A minha segunda ideia é ele mandar vir cá dois professores: um é para nós os mais velhos termos aulas de alfabetização. as aulas serão aos sábados e domingos naquela  capela da Igreja "Cheia". O outro professor é para as crianças. Vamos ajudar a construir a escola. Minha ideia é que cada pai ou irmão mais velho  vai fazer cinquenta adobes. Eu vou contribuir com as dez chapas de zinco que sobraram da cobertura da minha casa.

Katambi estava na zuna em direcção à casa do secretário. Era ele quem levava os assuntos da aldeia ao administrador comunal, já que a comunidade estava sem soba. No jango das conversas, o debate continuava. Ao grupo se tinham juntado outros jovens e adolescentes. As mulheres afinavam os ouvidos para se aperceber do que os homens estavam a tratar, mas não eram para lá chamadas, contentando-se com o que o vento arrastava e lhes chegava.

- E onde vão dormir os professores que o camarada comissário vai enviar, ó Tizequeno? - Indagou Kime que acabara de chegar.

- Olhem rapazes. A união faz a for... a força! Vamos construir um quarto e uma cozinha em anexo para eles. E, como todos nós somos camponeses, podemos fazer uma escala para darmos mandioca, jinguba, kizaca, rama de batata, fuba, mengeleka e outros comidas para que não passem fome, até que eles consigam ter as suas próprias lavras.

- Boa ideia, Mangodinho. – Comemoraram, antes mesmo de chegar o secretário a quem passaram todas as ideias.  

terça-feira, fevereiro 28, 2017

A COMUNICAÇÃO COMO POTENCIADOR DA MOTIVAÇÃO

 Numa dada comunidade, viviam três famílias: uma Rica, uma Média e outra Pobre. Cada família tinha um filho e esses eram amigos. Mané, Dodó e Jojó, apesar de diferenças económicas viviam no mesmo bairro e frequentavam espaços e brincadeiras comuns.
A família rica abastecia, conforme as suas enormes possibilidades, o seu filho único e explicava o fazia para ter os bens e o dinheiro de que dispunham, ensinando ao filho como proceder para duplicar e triplicar os haveres. Fruto dessa comunicação permanente, o Jojó conhecia as rotinas e esforço empreendido pelos pais para ter o que usufruía.
Por seu turno, Dodó, nascido em família pobre a pobre, não passava do bombo com jinguba ao matabicho. Mesmo assim, os pais de Dodó explicavam as desgraças por que haviam passado, o esforço que faziam para viver e se recompor, enfatizando também quanto ganhavam e o que pretendiam para o futuro do filho. Dodó, pobre, ouvia, acatava e compreendia. Sabia que tinha menos do que Jojó, cujos pais eram abastados. Tinha consciência de que apesar de ter um amigo resmungão, também tinha menos que Mané, o filho do comerciante Manuel Silêncio, que vivia permanentemente a reclamar dos pais.
Manuel Silêncio era um comerciante com posses médias. Talvez por causa do tempo que não tinha ou por ser sua natureza, poucas vezes se sentava à mesa com o filho, explicando o que fazia, o ganhava e o que podia gastar. A falta de informação fazia de Mané um permanente insatisfeito, mesmo quando os país proporcionassem para ele alguns bens que podiam ser extravagantes para o pobre do Dodó.
Mané pensava que até Dodó vivia melhor do que ele pois nunca reclamava dos pais enquanto brincavam.
Sabe onde reside a diferença entre estes três meninos?
Diálogo. Comunicação entre os integrantes da organização ou família.
Quando não se informa o que se tem e como se obtém, até os ganhos são colocados no "saco das perdas". É preciso ressaltar os ganhos mantidos e ou agregados nesse tempo de crise, a fim de serem conhecidos pelos integrantes da organização e servirem de elementos potenciadores de motivação.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

MAKA NA SANZALA


Os três primeiros dias foram de experiência e não havia limitação de acesso. Homens e mulheres trilharam o caminho da piscina fluvial que dista a meio quilómetro da aldeia. Porém, ninguém retirava as roupas para provar a água, com excepção das crianças que não se coibiam em mergulhar, mesmo vestidas, ludibriando os mais velhos que não saiam do ver e imaginar aquele tanque a amansar o corpo ardente em dias de calor intenso. Enquanto o Mangodinho não tocasse o apito de partida, os homens e as mulheres adultas ficavam só a nadar com os olhos.
Festa grande acontecia mesmo no coração de Mangodinho que no seu canto festejava o feito que quase lhe custou o epíteto de louco.
Com os homens já a frequentar regularmente o sítio, algumas mulheres decidiram experimentar também a piscina, se bem que à revelia.
- Mana Cati, fica na montanha a ver se vem alguém. Se estiver a vir homem, assobia. Depois será a tua vez de experimentar a lagoa do Mangodinho. - Combinaram as mulheres que tinham Kilombo na linha da frente.
Mangodinho até estava a pensar em estabelecer horários para homens e mulheres frequentarem a e limparem a piscina, mas, aquelas fraldas deixadas às pressas por mulheres que se foram lavar no sítio dos homens deixaram-no enfurecido.
- Possas, esse abuso não. Essas senhoras, assim, na capital não vivem. São corridas. Um gajo tenta civilizar e ainda recebe "adubo" de agradecimento? - Vociferou. - Miúdo Russo, você viu a chacota que me fizeram. Todos me diziam "Zequeno é xoné". Você, por me apoiar, também apanhaste por tabela. Agora que o lugar está bem, surgem cavalonas a deixar porcaria na "peixina" e, ainda por cima, a mandar vir? Escreve só, por favor, nessa chapa o que te vou ditar.
Foi assim que Mangodinho pregou a chapa no barrote que plantou a trinta metros do rio, concretamente, no sítio em que as mulheres faziam plantão para espionar se vinha homem da aldeia. Mas as mamãs da OSA, organização das senhoras angolanas, queriam "tratamento igual".
- Não pode ser. Ou as mulheres frequentam a piscina de manhã: tomam banho, lavam os filhos e vão cuidar dos maridos e dos velhos ou os homens tomam banho à tarde, quando vêm dos seus afazeres. O Estado já disse que os direitos têm de ser iguais, senão vamos 'se' queixar no Quem-de-direito. - Ameaçou Kilombo, a senhora coordenadora da OSA.
Toneco Avelino, o responsável máximo da aldeia, a quem se deviam "subordinar" todas as organizações sociais, tinha um assunto bicudo.
Mangodinho tinha razão dele. O próprio Toneco tinha depositado algum descrédito quando lhe foi apresentada a ideia da lagoa. Apenas deixou acontecer para não refrear as ideias quentes que o homem trouxe da Ngwimbi e não prejudicar a revolução na aldeia. Era lema dele. Toneco apelava sempre “quem vai a uma terra distante, mais avançada do que a nossa, tem de trazer outras ideias que nos façam evoluir”. Dizia também, não sei quem lhe pôs tal ideia na cabeça, que “mesmo Luanda, quando começou, também era uma aldeia como a nossa. Apenas as pessoas é que evoluíram e começaram a fazer coisas novas e bonitas”. Por isso, deixou o Mangodinho avançar com a ideia dele da piscina no rio.
- No dia em que encontrou fraldas à beira da piscina e outros filtros usados somente pela camada feminina, esses objectos foram-me apresentados e estão devidamente registados e depositados em sítio localizável. Está a camarada Kilombo a solicitar reunião urgente. Que fazer? Assim digo que o Mangodinho tem razão dele ou as mulheres é que reclamam com razão?
Toneco foi dormir com cabeça quente. Tem de se acalmar para resolver o assunto que está a dividir a mana Kilombo, o Mangodinho e todos os apoiantes de cada ala.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

A FORÇA DAS IDEIAS

Fazia calor intenso. Era Março chuvoso. O capim já alto, com orvalho carregado às manhãs, fazia dos atalhos interiores autênticos desfiladeiros. Caminhar, tirando na estrada asfaltada, era apenas coluna por um.

Mangodinho foi receber o soba Toneco que acabara de chegar de uma reunião na comuna.

- Hoj'etu! - Saudou Mangodinho, que se antecipou as tradicionais três rajadas de palmas triplas.

Toneco apenas sorriu e bateu-o no ombro.

- Epá, estás bem, Manzequeno. Já te disse, somos amigos. Hoj'etu vou só te responder quando me substituíres no sobado. Falavam descontraidos. Toneco estava também expectante quanto ao que Zequeno proporia como inovações na aldeia, regressado de Luanda.

- Ó Manzequeno, já viste a diferença entre a nossa aldeia e as outras à volta?

- Sim, Mantoneco. É a força das ideias.

- Camarada secretário, orientaram-nos fazer latrinas para prevenir doenças da pela e bichas que fazem inflamar as barrigas das crianças. - Informou o Soba.

- Ainda bem, nosso Soba. - Respondeu Mangodinho. Essa é uma das ideias que trouxe e já a comunique ao povo para pensar enquanto o Soba estava ausente.

Os dois marcaram passos pelo terreiro da casa de Toneco. Mutúmbwa, esposa do Soba. colocou duas cadeiras debaixo da árvore e Toneco serviu um pacote de vinho que acompanharia a conversa e aligeiraria as ideias.

- Ó Manzequeno, notas a diferença entre a nossa aldeia e as outras à volta? Até o camarada administrador reconheceu e pediu outros sobas e secretários a nos visitarem nos próximos dias. - Informou o régulo.

- Sim, Mantoneco. Quando o Soba é bom professor, bom pai, bom conversador as coisas acontecem. É a força das ideias.

- É, à propósito, já nos habituaste trazer ideias. Sabes, que quando os outros vierem vão fazer tudo igual, e nós temos de lhes passar à frente. Na tua bagagem veio o quê dessa vez?

- Já lhe falei da ideia das latrinas. Vamos fazer uma comunitária ao lado da árvore das reuniões. Cada pai de família vai também fazer a sua. Minha ideia é darmos prazo de um mês e meio.

- E que medida vamos propor a quem não cumprir? - Questionou o Soba.

- Bem, acho que vamos, propor para todos fazer em adobes queimados ou trabalhar na lavra comunitária.

Toneco, sacudia o pacote que reclamava por outro substituto, enquanto Mangodinho levava as últimas gotas do tinto à garganta. Da cozinha era o cheiro à galinha kabiri temperada que se fazia anunciar.

- No campo das ideias, professor Toneco, pensei também fazermos já uma casa para o posto médico. Se nós construirmos já é depois formos pedir enfermeiro, acho que vamos conseguir. Se não nos darem também tenho outra ideia.

Toneco na expectativa, a boca era banquete para moscas. Quase, quase.

Vamos pedir para cada pai fazer duzentos adobes queimados. Mas a planta que trouxe para a latrina só vai gastar setenta e cinco ou cem. O resto vai para o posto. Também já estou a sondar dois miúdos que vamos mandar na Huíla fazer curso de enfermeiro. O meu pai vai patrocinar viagem deles e curso lá. Assim, se o administrador não nos dar doutor nós mesmos vamos resolver o problema.

- Boas ideias, Manzequeno. Boas ideias. Amanhã vamos convocar o povo para saber das recomendações do Sô administrador e das novas ideias do Sô secretário.

Mutúmbwa mandou Zezito, filho kasule, exibir a senha.

- Papá, o tabaco está a queimar. - Rapaz, rápido nas corridas, Zezito enfiou-se de novo na cozinha.

Toneco puxou pela mão do amigo e foram à sala almoçar. Era cabidela regada com um vinho português. As ideias continuaram a correr. Tal chuva, tal rio repleto de água farta.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

A UNIÃO DOS REENCONTROS

Já foi assim no tempo de férias, quando frequentávamos o ensino médio no IMEL. Ir às tertúlias na União dos Escritores Angolanos era um dever quase sagrado. Primeiro, para atender a professora Gaby que fazia questão de lá ver os seus alunos. Depois, tornou-se moda e aqueles que, sem justificação plausível, faltassem aos debates na União eram alvo de chacota  entre os colegas. Assim, os do meu tempo ganharam o gosto.
 
O tempo foi passando. Corrida para conseguir emprego, empenho para convencer o empregador e o chefe, busca de maior e melhor remuneração, etc. e o tempo foi escasseando até às idas à União se tornarem numa intermitência. Mas a UEA está ali, no mesmo lugar, desde os anos subsequentes à emancipação de Angola. Ali, no largo das escolas.
 
E foi numa dessas idas intermitentes, quando do lançamento do "Economia informal: o caso de Angola" e "O homem que cultivava pedrinhas", livros de Francisco Queiroz e F. Tchikondo, que partilham o mesmo homem intelectual, que voltei a sentir o sabor do reencontro. Reencontro com o tempo e com os amigos.
 
Um rapaz, bem vestido e bom falante, exibindo sólidos conhecimentos sobre economia e aparentando não ter andado em uma universidade qualquer abordou-me dizendo que eu era tio dele e devia recorda-me do seu nome. Um trabalho de memória. Supliquei que reconhecia o rosto mas não me vinha o nome. Mas ele, meio teimoso, não se apresentava. Passados minutos de debate e abrir o guardador de memórias Lá descobri que é o primo Vaticano, filho do meu tio "Gasolina" (Augusto João, já finado).
 
Depois foi o Bino Carlos, meu professor na Universidade Privada, a tratar-me por confrade. 
 
- Das letras (ele também é escritor) ou do professorado? - Interroguei-me em silêncio enquanto aprontava o merecido kandandu. Professor Bino, muito prazer em estar contigo!
E ele, sempre bem disposto e esbanjar charme e sorrisos.
 
Sentado no meio da "floresta humana", reparo à frente: carnes, um pouco avantajadas, de um antigo colega do ISCED.
 
-"Olha ainda atrás, ó sô tor". - Disparei para ele uma mensagem telefónica, ao que me mandou, no seu lugar, "um cumué, Fixe?~
 
Quando parecia ter revisto todos os amigos e conhecidos, eis que me aparece um dos mais cotados juristas da actualidade com suas "memórias do IMEL"
-Star, estás bem? 
 
Naquele lugar e naquela hora só podia ser alguém do "meu tempo".
 
Virei o pescoço e lá estava o bom do Solano, o nosso Varito, que agora é doutor Evaristo Solano. Soltou um kandandu apertado e cheio de recordações.
 
Quem me dera poder estar em todas as quartas na União?!

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

SEGUNDA VOLTA


Cici ou Alcínia era uma jovem solteira vivendo sozinha, na nova cidade da capital. Era a forma encontrada para rentabilizar a casa que o pai estava a comprar com ajuda do Estado onde trabalhava e dar maior à vontade para se dedicar ao seu curso de medicina. Os objectos pessoais de alguma valia como mesa, cadeiras, sofá e até algumas peças de roupa tinham sido oferecidos a Mangodinho para "levar às tias no mato". Por outro lado, a carta dele Remetida via face book do primo Carlos Júnior, tinha chegado e sido bem interpretada. Mangodinho era daqueles que onde estivesse só fazia rir. Era "uma piscina de alegria", como dizia o seu tio. Por isso ao regressar da Ásia, as lembranças não faltaram. O dinheiro que habitualmente se aplicava em compras para a jovem finada foi usado para atender a carta de Mangodinho, um cinquentão.

- Zequeno!

- Pai!

- Abre essa mala e aproveita o que gostares. - Disse-lhe o tio.

Zequeno, o meu Mangodinho, tratava-o por pai por ser homónimo do seu. Mas na verdade a relação parental era de tio e sobrinho.

Óculos de sol, ray ban. Sapatos pretos, um par. Sapatilhas um par. Sandálias idem. Jeans, dois pares, relógio de marca, um. Camisas e t-shirts, boa quantidade. Ao regressar ao seu Libolo, Mangodinho era um "homem lavado". Cabelo cortado, barba aparada, sapatos: um espelho nos pés, relógio Calvin Klein, fato azul escuro, nem já um administrador. Na carrinha que o levava, ele no banco traseira, ocupava o lugar protocolar. Na carroceria se acomodava a sua moto de três rodas e carroça e outras imbambas. Vinho e gasosas não faltaram. Afinal, ela era um "quase doutor" e tinha um pai pesado e de "muito bom coração".

A mulher que tinha 'sengado' voltou. E ele a recebeu com deferência. Todos se rejubilam com o crescimento de Mangodinho, intelectual e material. Já tinha a casa reparada e com janelas de vidro espelhado, como a casa do miúdo Russo. A alfabetização dos adolescentes, jovens e adultos tinha passado para ele. Borracha, o professor enviado pela comuna, e Mangodinho eram os mais iluminados, sem ofuscar o brilho do soba

Toneco Avelino que era o pilar de sustentação da aldeia e a fonte de equilíbrios. A OSA de Kilombo e Cati estava também com ele e trabalhavam juntos na sensibilização da comunidade para que todos construíssem uma latrina.

- Fezes espalhadas pelo mato, não é bom. -Dizia nas suas preleções. - O que deitamos destapado no mato volta ao nosso corpo.

- Como assim, Manzequeno, se os porcos, normalmente e aqueles bichos que enterram a porcaria fazem trabalho deles? - Katembo, apesar de mulher mais instruída da aldeia, duvidou.

- Pois é, Mana Katembo. Veja: O porco come o que nós descarregamos e depois comemos o porco. Outras vezes o porco que sai da lixeira, e porque cada porco conhece casa do seu dono, ele vai também 'funhatar' na comida para as pessoas. Outro problema são os ratos. Eles passam no lixo e vem viver connosco. Temos ainda a chuva. Vivemos na montanha. Aqui é alto é o rio está na baixa. Todo o lixo fecal é arrastado para o rio onde retiramos a água para consumo. É por isso que tenho três projectos ligados à saúde comunitária.

- Mostra, mostra, mostra. Fala, fala, fala. - O povo, já conhecedor de suas ideias inovadoras, apressava-se em saber quais seriam esses projectos, que benefícios trariam aos homens e mulheres e qual seria o comprometimento de cada um. Mas Mangodinho não falou ainda, pois o Soba estava ausente e a situação, embora abordada com o professor da aldeia, merecia o veredicto da autoridade máxima.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, janeiro 29, 2017

DIA DE REUNIÃO


Era sábado de um ano bissexto. A aldeia de Pedra Escrita tinha deixado de ser um amontoado de gentes de várias origens e começava a se tornar numa comunidade homogénea. Toneco, o coordenador, recebera a missão de fazer daqueles retalhos, juntados à força de balázios pelo Comandante Infeliz, um conglomerado comum, vivendo as pessoas em harmonia. E já eram mais de mil e quinhentas vidas, distribuídas por não menos de duzentos lares. Contados os que emigraram para longas e curtas estadas, estariam aí umas duas mil almas.

Cinco e meia da manhã. Kilombo, a coordenadora da OSA, e Cati, sua adjunta, estavam a rondar o terreiro das reuniões comunitárias. Os olhos distribuíam ora para a casa de Toneco ora para a casa de Mangodinho. As reuniões aconteciam ao raiar do sol, seis ou sete horas, a depender do sinal do Soba ou, no caso deles que não têm ainda soba, quando o secretário mandar tocar o sino. Depois são mais dez minutos para a concentração dos adultos.

Antigo homem de reconhecimento, nas FAPLA, Toneco parecia adivinhar a intenção das mulheres. Lembrou-se dum Lema de então é pô-lo em prática: "se o adversário madruga eu não durmo". Passou pela porta traseira e foi avisar o Mangodinho que também estava desperto.

- O mano se ausenta por uns instantes. Pode ir à lavra comunitária. Vamos medir a temperatura cá dentro e depois mando-o chamar. - Apelou Toneco.

Enquanto isso, no terreiro já era alta a temperatura. Kilombo e Catarina agitavam as bandeiras.

- Esse Mangodinho e o comparsa dele Toneco, só porque querem se distribuir os cargos de soba, estão a querer nos atrofiar? Não pode ser! Cati, vais ver, min´rmã. Comigo, nenhum homem desta aldeia torra farinha. Vamos se destapar e ver se é homem que fez mulher ou mulher que nasce homem. Isso é abuso. É discriminação. Isso não é lei. Quem é que disse que onde toma banho homem não toma banho mulher? - A voz de Kilombo era audível em quase todo o bairro. Tamanha era a fervura da mulher.

Cati, mais branda, entretanto, ia também, de quando em vez, alimentando aquela fogueira de palavras.

- Lhes deixa, Mana Kilombo. Se não nos deixarem frequentar a tal lagoa vou lhes rogar uma praga que a água toda vai secar. - Ajuntou.

- Xê, Mana Cati, escolhe outra praga. Essa de secar a água vamos ter fome. Vem só chuva grande de arrastar o tanque e ponto final. A Banga deles acaba, sacanas de merda, e ficamos todos como no antigamente.

As duas abraçaram-se por instantes, sem desarmar a vigília ocular que mirava a casa de Mangodinho e a de Toneco que estava de ouvidos ao terreiro e de lápis sobre o papel.

Às seis e meia, já o sol rasgava a montanha de Manyangwa, aquela que viaja norte-sul, barrando a visão leste-oeste.

- Ndrim, ndrim, ndrim... - Rapaz Cordeiro, sobrinho de Toneco, tocou o sino.

A comunidade, homens de um lado e mulheres de outro, formaram duas alas. O centro foi alargado para couberem quatro cadeiras: a do Secretário Toneco, as dos arguentes Kilombo e Mangodinho, mais uma de reserva.

- Isso é abuso. Já estão a ver? Como é que o gajo do Zequeno não vem, se nós já estamos aqui desde as cinco horas? - Atirou Kilombo que se preparava para o ir buscar à força.

- Não faz isso, mana Kilombo. Manzequeno também tem família. Tem mulher e filhos. Você não sabe o que se passou em casa dele. Como é que falas assim do outro? - Acudiu Katembo, uma senhora de quarta classe do tempo de Agostinho Neto.

Toneco pediu licença para mandar ir buscar uma lapiseira. Na verdade, era para mandar um rapaz correr até à lavra comunitária e avisar a Mangodinho que quando lhe fosse dada a palavra começasse por reportar o estado da lavra e o dia da chegada do professor.

- Bom dia minha comunidade! - Cumprimentou Toneco.

- Bom dia nosso secretário. - Respondeu a multidão.

- Bem. Camaradas, irmãos, meus conterrâneos. A terra é nossa, a aldeia é nossa e os problemas também são nossos. Somos nós que temos que resolver para ver se nossa aldeia vais mais à fren...?

- À frente. - Completou o povo.

- Bem. Estamos aqui chamados pela mana Kilombo que está à frente das mulheres organizadas da nossa aldeia. Isso é bom quando a voz da mulher se faz sentir na hora dos assuntos. Mas a mulher, mesmo em casa, tem que saber gritar. Gritar bem para não espantar os filhos nem a aldeia. Não é assim?

- É assim mesmo. - Respondeu a assistência.

Lá atrás ainda se ouviu uma voz a resmungar: E reclamar é mal? Mas foi abafada por outras mulheres que pretendiam ouvir. O sol estava a subir e era hora de dar matabicho às crianças.

- Pois é. - Continuou Toneco. - O mano Zequeno teve um assunto urgente, mas não tarda ele estará aqui. Podemos já ouvir a mana Kilombo e quando ele chegar falar também o que estiver na cabeça dele. Em princípio, o problema todo está aqui. Toneco exibiu um saco preto amarrado o que levou estupefação à assistência.

- Como é que o problema do acesso das mulheres à piscina fica num saco? - Questionaram-se.

Kilombo falou. Volteou tanto que acabou baralhando até as suas apoiantes. Toneco teve de manda-la parar. Mangodinho chegou, saudou e expôs também.

- Queridas irmãs e irmãos. Atrasei-me porque as aulas dos nossos filhos e irmãos recomeçaram segunda-feira. O professor vem no mesmo dia. Temos de lhe mostrar a escola reparada que está aí e a lavra que fui ver. Se fuba vamos continuar a contribuir, as verduras não precisamos mais. Lá já tem tudo.

A multidão, Kilombo incluída, fez um interrupção ao discurso e brindando-o com uma estrondosa salva de palmas.

- Obrigado pelas palmas. Mas são do nosso Secretário. É ele o nosso chefe... Sobre o assunto desta assembleia, devo dizer que me chateou o que encontramos na "peixina". Estávamos mesmo a pensar em distribuir horário de banho e de limpeza. Ou então, quem sujou limpa já. Mas, logo no primeiro dia, encontramos adubo. Isso é bom?

O secretário chamou da plateia uma senhora.

- Mana Cati, põe essas luvas e faz, favor. Abre só esse saco.

A mulher ao ver o que havia, no interior, fez meia-volta e pôs-se ao fresco.

- Mana Kilombo, favor nos ajuda. - Pediu Toneco.

Kilombo coçou a nuca, mas fez coragem e calçou as luvas. Porém, ao reparar a fralda de que ela mesma se havia esquecido no recinto de banhos, também recuou.

Toneco, abriu o saco e deixou cair o lixo para que todos vissem. Daí em diante foram só apupos às duas senhoras.

- Pois, mamãs. É esse o problema. Mas vou falar com o Manzequeno, que está aqui, para encontrarmos meio termo. Homem e mulher têm direitos iguais. Até também na valorização do esforço dos outros e na higiene para não atrairmos mais doenças que matam muita gente. Não é assim?

- É assim, mesmo nosso secretário. - O povo respondeu e cada um fez-se a caminho dos seus afazeres, sem que Toneco tivesse a necessidade de bater o martelo. Ponto final.