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terça-feira, janeiro 15, 2019

A LOIRA DE ABCÁSIA

Igual a ela só aquela kapequena que numa mota pequena de rodas gordas levou seu admirador de Kibala a Cela.
Vou contar a estória. Seguia Miguel no seu turismo vermelho, acabado de comprar e rodagem por concluir. A viatura era virgem imaculada ainda, tal qual parecia a miúda da Kibala.
Ia Miguel de vagar, vagarinho, apreciando as árvores e a escassa relva, as pessoas, as galinhas e os cabritos que se faziam à beira da estrada asfaltada. As cabras estavam no ...pasto.
Ia a pequena Mingota vagarosa, garbosa, lindamente, vaidosamente na sua Piaggio de rodas gordinhas, avantajadas como aquelas ancas delgadas e aquela perna de pensar num torresmo pecaminoso.
E os dois, Miguel e Minhota, iam se digladiando com olhares disfarçados, tendenciosos, desejosos, sem que ela parasse a mota ou que ele a ultrapassasse e adiante parasse, foram seguindo. Seu destino era o Gango, caminho de Mussende, mas a menina meteu-se a caminho de Cela. Miguel na ilharga, Mingota na contemplação e na acção. Distância abatida por desejos recíprocos...
- Segue-me meu panku, pitéu de mais logo, sem milongo.
- Abranda, pára meu encanto, que te conduzo a um canto para delirares sem prantos.
Em soslaio repletaram a imaginação, quase auto-atendendo a procriação.
Soprou um vento. FORTE como a corrente que os amarrava. Espontâneo como a paixão. Num fechar de olhos, a estrada estava escura. Sem mais tempo, Mingota precisou de refúgio. Miguel parou adiante. Baixou a cadeira, abriu a porta traseira. Chegou chuva na estrada antes poeirenta. É água agora.
Quando se preparava para estender os braços e acolher a musa, verificou que estava na Cela, quando era outro o seu destino. Assim são as moças de Abcásia. Quantas vezes o africano encantado perde paragem no autoeléctrico ou metrô?
Possuidoras de química, física e matemáticas ligadas à biologia, levam sempre o estranho-viajante a percorrer suas geografias corporais. E não foram poupadas em teor. Autênticas minas inspiradoras. Ricas de preencher as vagas das tabelas periódicas de Ruberford e Mendeleyev, encantos de química fundida em física e geografia humana. Mulheres de Abcásia como elas só as morenas da Kibala.


Texto publicado no semanário Nova Gazeta/2018

terça-feira, janeiro 08, 2019

CIDADE DA PIETRA

Verona. Será vero? Sim. Cidade da pietra é. Basta ver os edifícios clássicos e medievais carregados de sumptuosidade no seu interior. Palácio-fortalezas conservando história de povos e homens. Aqui, onde a civilização saxônica e sua extrema - direita são visíveis, é a pedra quem mais fala nas ruas calçadas, nos passeios de "pietra" e na feira anual. Mas as noites também têm mística. Há um largo que não dorme. Restaurantes atendem gostos múltiplos, sem parar, ...os comensais de todas as proveniências ao olho, sempre atento, da "Armata" as FAA daqui.
A cortar o subsolo, cochicha o metro, ao passo que o nosso gás de cozinha e que na banda atende o roncar de potentes geradores é combustível para autocarro articulado. Quanta saudade do "wawa 33", articulado, do Nzamba 1 ao Beleizão?! Mas aqui os machimbombos são mesmo movidos a gás natural que se prepara para ceder lugar à energia eléctrica como já vai acontecendo na próxima Alemanha.
De dia e de noite, o largo adjacente à "câmara comunal", sempre cheio com acrobatas e homens de afinados instrumentos de percussão, cordofones e aerofones.
Ao sol enfrenta o monumento secular de pietra, Anunciando de metro a metro que estamos em Verona.
Um rio sem pressa, vinhas à volta, e inúmeros ramais para irrigar os campos, corre cidade abaixo, espalhando ao longo do seu leito beleza inigualável, repartida com sumptuosos palácios rurais, periurbanos e citadinos. Só encantos de promover sono de pedra lançada ao poço!
Quanto a mim, com a infância rodeada de rio e florestas, nunca, em minha vida lúcida, tive uma noite assim, dormir que nem pedra em "uma floresta" e não ouvir sequer o chilrear de um pássaro, o cantar de um galo, o apitar incómodo e estridente de um grilo ou mesmo o miar de uma gata no cio.
Paz excessiva? E os bichos do mato? Os hóspedes de casa? Ah! Cansaço talvez. Há duas semanas que parte da vida tem sido (des)feita em aviões. Sonos por dormir. Pratos por comer. Bebidas por sorver e até massagens por conferir. O país aos seus bons filhos tem negado pausa laboral. Há muito que ficou por ser feito e que tem de ser feito agora, sem mais demora. Entre beleza, requinte no acolhimento e falência do carpo, sim, Verona pôde dar-me uma noite de paz. Um desligamento total sem memória.

Publicado pelo Jornal de Angola, 07 Outubro 2018

terça-feira, janeiro 01, 2019

PEDRA, CAL E ARGILA


Em conversa, no whatsapp, com meu kota Zuzé Lubanu, sobre a historicidade das comunidades angolanas, esse explicou que "entre 1985-86, quando esteve em Belgrado, desceu para Liubliana (hoje capital da Eslovênia) onde pôde conhecer, à distância, a casa familiar de um dos apóstolos de Cristo, em Trieste, norte de Itália, através de um observatório". Sendo amante do seu Kuteka, perguntava se "não seria tão bom [para a recomposição histórica] chegar ao Kuteka e encontrar as casas dos antigos habitantes, nossos ancestrais?
O assunto trouxe-me à memória outras estórias do mesmo período em que o mano Zuzé Lubanu viu Trieste por via de binóculo. Os meus primeiros anos de Luanda foram 1984-86. Foi nesse período que conheci os makotas Adão e Rufino que eram cunhados e mizangala, vivendo na Rua de Ambaca, ao Kaputu. Hábeis em contornar becos, a fugir às rusgas dos PCU, os dois podiam sair do Cazenga ao São Paulo, só a andar pelos becos. Na travessia de uma rua, para se enfiar em outro beco, costumavam, antes, confirmar dos putos que encontravam a brincar se "os mwadyés da kanga não estavam por aí". E assim seguiam a suas rotas até proximidades do "prédio da fenú", mais tarde conhecido como "prédio dos Assuntos Sociais" ou, mais tarde ainda, como "prédio do Alpega".
 
De viagem em viagem, percorri mais uns metros até ao Zé Pirão, largo em que se cruzam duas "grandes" avenidas de então. A Avenida Brasil, vinda do Cazenga, e a rebaptizada Hô-Chi-Mim. O Zé Pirão era e é cidade pura e quem trabalhasse naquelas imediações já dizia "trabalho na baixa", embora não seja ainda cidade baixa que é Mutamba e cercanias.
No Zé Pirão, começava uma linda calçada nos passeios, que fazia desfilar um calcário branco com recortes cinza ou negros da pedra huilana. Fiz-me a deslizar aquelas "pedras ornamentais" várias vezes, sempre que ia com o tio Nganga à casa do Governador do BNA, onde ele jardinava. Isso é, até à Mutamba e depois calcorreava uns metros da hoje Amílcar Cabral, a espreitar a Oliva de Angola.
Ao que se diz, as calçadas em pedra são quase de "vida eterna", se bem colocadas e se não sofrerem intrusões de condutas rebentadas ou cabos eléctricos por remendar no subsolo. Hoje, o que os meus olhos mais vêem é cimento e blocos de cimento sobre os passeios. A pedra abundante é, ao que dizem, "sem clientes por cá" e nem nas calçadas a encontramos em maioria.
  
O que se passa então? A experiência do Largo 1° de Maio não pode ser replicada em quantidade e qualidade?
Reclamar das calçadas em pedra traz-me à memória outra reivindicação dos extractores de pedra ornamental.
Ora porque os "clientes internos são poucos", ora porque "os materiais substitutivo ou alternativos são mais baratos e abocanham os clientes todos, sobretudo os com poucas posses". Ara xisa, pá!
Então custa muito incutir o gosto pela coisa nos coisos?
Custa dizer a todos os ventos que "o barato das peças quadriculadas que vêm da Ásia dura pouco e pode sair caro ao longo da vida, cada vez mais longa, que vamos tendo"?
Custa tanto assim anunciar com as verdades que a ciência ensina e não com as mentiras do leva gato que se parece com lebre?
E, já sem mais indagações, voltei à conversa com o mano Zuzé Lubanu, para concluir que se os nossos ancestrais tivessem usado pedra, cal e argila para as suas construções, elas estariam ainda aí intactas, contando a história na primeira pessoa, como em Trieste, Roma e Grécia.
É uma pena que tenham, até os reis e notáveis, erguido casas de adobe e palhotas de pau-a-pique cobertas de capim. A chuva e os ventos levaram consigo a história que o primo Nelson Cabanga bem precisa de conhecer.
Foi uma pena!

Publicado no Jornal de Angola de 06.01.19

sábado, dezembro 29, 2018

NO REDUTO DE BEN BELLA

FANTASTIC! A expressão não é minha, nem serve para adjectivar o que pude ver. Apenas um letreiro que me cruzou os olhos quando percorria a cidade que se estende longitudinalmente pelo mediterrâneo, mirando de longe as homólogas europeias de França, Itália e Espanha, de quem rouba e dá a roubar o engalo, a beleza e a limpeza.

Argel tem uma marginal que conta a história de um passado berbere, colonial francês e luta pela independência conseguida à força do fuzil. Comandou a epopeia Ben Bella.

Em relação a Luanda, entre plágios e semelhanças, há também analogias. Em Argel, o comboio, paralelo à avenida marginal, é metro de superfície. As carruagens são limpas. Nas paragens há ordem e a ilustração conta história. Os capinzais recebem tratamento permanente. Os descampado de Luanda, são, em Argel, hortas para levar legumes à mesa. A cidade cresce. Vê - se. Túneis, undergrounds, novos viadutos, tijolos a desafiar em os céus, e muito mais. Os zungueiros inexistem. O mercado está regulado e formalizado. As árvores, muitas, recebem todos os dias o rei sol que obriga lentes com filtro. Há porém engarrafamentos em horas de ponta matinais e vespertinos, apesar de abundantes nós rodoviários, passagens superiores para pedestres, túneis, viadutos estradas largas (se comparadas as luandenses) e conservadas.
- Por que será? Deficiente rede de transportes públicos o que faz com que muitos tenham de se deslocar aos seus afazeres usando carros particulares?
- É e não é. Os munjahidines (antigos Combatentes) estão a promover uma manifestação e a condicionar o tráfego. É uma das causas. Porém, o congestionamento também faz parte de nossas vivencias", razão pela qual, todos os anos há novas soluções para descongestioná-lo. - Respondeu-me o jovem chauffeur.
Um simples detalhe salta à vista: enquanto eles, há muito, vêm combatendo os buracos para que os "turismos não se vejam impossibilitados de trafegar pelos buracos, os nossos pensadores do passado, alguns com passagens por Argélia de Mohamed Ahmed Ben Bella, optaram por comprar carros cada vez mais robustos e de cilindrada elevada para contornar buracos. Coisas d'aqui!


Publicado pelo Jornal de Angola, Out./2018

sábado, dezembro 22, 2018

OS SEM PASTA NO EDIFÍCIO PÚBLICO

 Há dias em que o indivíduo não precisa abrir a boca, nem aprimorar a audição para ouvir "ouvir" coisas.
Acordou cedo, não tanto cedo quanto habituara a sua família, mas os galos ainda se desafiavam no canto.
Abriu a banca e o primeiro documento que lhe apareceu pela frente foi um antigo cartão de visita com mais de 15 anos. Passeou nele os olhos, quase soltou lágrimas de saudade, e recebeu a negação.
- Não és mais editor dessa rádio, faz tempo.
Desconfortado, abriu a segunda gaveta onde normalmente ficavam as esferográficas. A mão foi ter a um crachá.
Puxou-o lento. Evitou lê-lo mas a mensagem já estava descodificada.
- Chefe de...
- Chefe de quê? Eu? Beliscou-se. Quase a perder ânimo, pegou uma velha agenda e meteu-se a caminho da garagem. Qual seu espanto ao abri-la?
Um cartão de visita, de uma empresa falida, apregoava:
- Sócio...
-Não. Não pode ser. Hoje deve ser dia de azar!
Ligou o carro. Quase sem ânimo, ajeitou o cartão no casaco. Os olhos voltaram a anunciar o que menos pretendia ouvir. Era um papel que atestava a quem o carro fora emprestado.
- Director de...
- Director de quê? Não sou mais. O ministério inexiste!..
E agora?!
Meteu-se pensativo pela estrada. A primeira saudação que recebeu de alguém, numa superlotada paragem para táxis, foi "bom dia chefe, uma boleia, se faz favor!"
Imobilizou a viatura dez metros depois para despistar a multidão que julgava ser daqueles nganduleiros desavergonhados.
- Carro do Estado não é para kandonga. Pensou e acabou mesmo por dizer, ao ver viaturas top de gama, eventualmente pertencentes a órgãos da administração ou empresas públicas em serviço ocasional de táxi.
Negou aos outros interessados na viagem a preço e levou a colega.
- Bom dia chefe, mais uma vez. O director é hoje minha tábua de salvação. A chefe está má. Só tolera trinta minutos de atraso. Aquela senhora deve estar a entrar para a menopausa. Está muito ranhosa e eu que também sou outra prefiro cumprir o que ela quer. - Boatou a senhora.
- Bom dia dona Kuri. Grato pela saudação e pela preocupação em atender o que diz a legislação da função pública. Um dia será também chefe. Aliás, já foi chefe de repartição e deve saber como fica o líder com processos pendurados, o chefe imediato a buzinar e os liderados ausentes. Já esteve nessa pele, com certeza!
- É por isso mesmo que já não quero ser chefe de nada. O importante é a minha subida de categoria. Já estou na carreira de técnica superior. A diferença de salário com os chefes não é muita.
- Ainda bem que assim pensa. Influencie positivamente os seus colegas. Não desista nunca de praticar o bem. Basta pensar no que sofre quando vai procurar outros serviços. Isso é que temos de mudar.
- Obrigada meu director. Você é muito boa pessoa. No trabalho e fora dele. Muitos assim, desculpa ainda, Director, são poucos com juízo e capacidade de dar conselhos até às mais velhas. Espero que fique muito tempo connosco e suba na chefia.
-Muito obrigado dona Kuri. É uma pena que o ministério que me contratou foi extinto. Ganha-se pouco financeiramente, mas aprendo muito com as pessoas com quem trabalho e interaja todos os dias. Já não sou director de nada. Sou apenas um técnico comprometido com a coisa pública, com a mesma motivação como se fosse o meu primeiro dia de trabalho.
- Mas os outros que até são do quadro já não estão a trabalhar e esperam por segundas ordens em casa.
- Sim. Noto. Mas eu vim com uma missão. Trabalhar. Não posso ser devolvido aonde fui requisitado com atestado de incompetência ou irresponsabilidade. É isso que chamo Espírito. De missão. Sua preocupação em chegar cedo e "aturar a chefe" é também espírito de missão. É o que dizemos quando saímos de casa: "o papá ou a mamã vai trabalhar". E os filhos orgulham-se disso.
-É verdade, chefe. Com cargo ou sem cargo, aqui ou noutro lugar, você é pessoa que inspira.
Oito e um quarto. Chegaram ligeiramente atrasados. Mas foram os primeiros a transpor o portão do edifício.

Publicado no Jornal de Angola de 28.10.2018

sábado, dezembro 15, 2018

MANGODINHO NO L'AMITIE

Antes mesmo de Mangodinho ser a pessoa que é hoje, dotada de esperteza, sabedoria ancestral e conhecimentos da ciência moderna, o homem já teve umas "burrices" de lhe espetar uns cafriques em dias de hoje. Valeu-lhe a esperteza que os indivíduos do Lubolu nascem com ela, desde o ventre, pré - Kabanga até à universidade da vida.
No ano em que a OUA decidiu fazer um encontro entre as comunidades que mais conservam os (mores) hábitos e costumes, Angola fora seleccionada a enviar participantes ao evento, representando diferentes regiões e ambientes etno-culturais. A Mangodinho, que ainda nem sonhava sonho de ser soba, calhou a sorte. Foi representar o Kuteka, cuja realeza lhe está também no sangue.
Viagem de Lwanda à Njamena e depois ao Mali foi num avião grande que levava pessoas que falavam alto, sem travão naquelas bocas, e sem asseio no se apresentar. Pareciam nossas Kitandeiras das kapracinhas nocturnas, nas bwalas de Lwanda. C(h)ikwanga e peixe seco a entrar nas bagageiras, com cheiro de provocar vomitação e alguns passageiros mesmo com cheiro de vómito ou de kimbonza por curar. Mangodinho, primeira viagem dele num avião e, ainda mais para o estrangeiro, foi só.
Na boca dele de desbotado meteu fita cola que lhe veio na ideia e suportou só as vozes de bairro, em ambiente de gente chic de cidades, com governantes do "não-me-toques" ali misturados mas não na igualhagem.
- Cheiro de pessoa com banhos em atraso, cheiro de kimbombeiro que não lavou a boca e cheiro de kangonheiro ou vomitador, tudo é cheiro. Deixou a viagem terminar para passar um pano húmido nas extremidades do corpo e sprayar o seu perfume sobre o corpo antes de se fazer ao hotel "D'amizade" de Bamako. Único que, à beira do Níger, esticava o seu "pescoço de girafa" para se mostrar a toda a cidade, cercanias e povos do plano e seco além rio.
Ao todo, as ligações ou recolha de passageiros de Lwanda a Bamako eram quase dez. Parecia kandongueiro de dois eixos e quatro rodas fazendo Rocha-Kikolo.
Chegou já noite. Luzes, poucas acesas. Poeira muita à volta. Um rio, tipo o nosso longa ou a tentar aproximar-se ao Kwanza, cortava o bairro que chamam de "notre capitale".
- Coment s'apelle votre capitale? Indagou para confirmar.
- Cité de Bamako, terre de notres ancients. - Respondeu-lhe o jovem que se fazia transportar em uma carroça puxada por um burro. Veio a descobrir que era um guia turístico, algo que eles já tinham à data e nós ainda nem sonhámos com turismo.
O jovem que falava Espanhol, língua prima do Português que Mangodinho falava, acompanhou-o à recepção e ajudou a fazer o Check in.
- Votre nom si'll vous plait!
- Mangodinho, de Kuteka, filho de Zé Godinho e Kabezo...
Chegou a hora dos manjares, sem o guia e amigo de ocasião. Mangodinho na fila dos pedidos. Olhou os piteus que saiam, tudo diferente dos que conhecia. Olhou à volta, ouviu as vozes que falavam com mais civilização e não lhe chegou nem primo de Kimbundu nem primo de Putu.
- Estou fodido! Desabafou inaudível. Que fazer?
A moça do atendimento, atrevida nas perguntas. Chega um pergunta, ele responde e passa para o colega. Mangodinho ainda na dúvida sobre o melhor janguto.
O décimo da contagem dele pediu "poulet grillé avec pommes de terre frite".
Puxou da kaximónia e juntou os farrapos: batata frita com galinha grelhada. Só pode ser. Anotou na memória.
- Nada melhor para começar a noite. Disse a esfregar as mãos.
No dia seguinte, a cena repetir-se-ia pois o pequeno dicionário Português-Francês-Português que levava tinha de tudo menos a tradução dos manjares.
- Porra, pá! Estou tramado. Que faço para comer? Desabafou em solilóquio.
Pensou na táctica. O tempo pela frente fazia prever uma semana difícil. De novo ao dicionário: o mesmo=la même chose.
Dirigiu-se ao petit dejeneur, matabicho de lá. Viu um indivíduo com pão, ovo batido e uma caneca de leite com café. Ergueu o corpo, esticou o braço e pronunciou, desta vez audível.
- La même chose.
Funcionou. Ao jantar, viu, de novo, alguém comendo galinha grelhada com batata frita. Gritou "la même chose" e a coisa funcionou. No dia seguinte, uma moça pediu bife com arroz ajindungado. Mangodinho não sabia que naquelas bandas o kahombo e o arroz conversavam juntos na panela a dor que infligir iam ao comensal. Repetiu a frase e lá veio o "la même chose".
Ao chegar na banda, depois de beber do que os outros fazem para manter intacta a cultura, abrindo brechas para expurgar as práticas erradas à L'humanité moderne e deixar entrar as coisas boas que vêm do ocidente, contou as peripécias, primeiro aos amigos e depois à população que o enviou e recebeu orgulhosa da sua primeira internacionalização.
- Mangodinho, como é que são lá as coisas, conta-nos. O pitéu, as mboas, as avenidas, os passeios, os aviões, as manas da zunga e as kapracinhas da noite, conta tudo.
No seu quinto trago de destilado etílico à base de banana dondi, Mangodinho respondeu:
- Falar-vos-ei amanhã, antes da assembleia que o soba vai convocar. Por enquanto, é tudo la même chose!

Publicado pelo Jornal de Angola de 30.12.2018

terça-feira, dezembro 11, 2018

TELEFONE KAYTELE!

 
Ele mesmo cantou: Kapake itima ku mulu (3x), ku lwanda kitoka! (Prestei toda atenção ao norte e a coisa veio do sul). Assim foi a morte deste insigne filho da Kibala e de Angola. Toda atenção virada para idosos doentes, a má nova veio surpreendente. KAHINZA WAHI!
Atenção, partiu um "artista menor". Apelei que cantássemos e não chorássemos, quando recebi a triste notícia da partida do líder do grupo folclórico do Kwanza-Sul, Kumbi Li Xya, KAHINZA de sua graça.
- Cantemos, recordando canções como: "telefone ya Sumbe kaytele", tio ngunga ku Uiji watundu, muhapila nengosu, mbila mu Kwanza-Sulu!", entre outras quetas épicas e repletas de estórias e vivências Kwanza-Sulinas. - Apelei numa conversa com EC.
Porém, fui dos primeiros a chorar ao me aperceber que uma jornalista se apercebendo do infausto acontecimento informou ao realizador de um noticiário sabatino, a fim de ser levado ao mundo a má nova.
- Informei antes do Jornal começar, porém, a notícia sobre o calar da voz do grande artista que foi KAHINZA não passou. - Disse constringida e contrariada a jornalista.
E, ao que soube, naquele magazine de uma hora, foi dito tudo, menos a morte de KAHINZA. Terá sido considerado um "artista menor"?
Terá sido impopular ao não cantar os ritmos da "metrópole angolana"?
Terá desencantado mais do que cantado? Ou da venda de seus discos, sempre no Katinton, terá descontado poucos?
Partiu o autor de "umbumba kumbumba, kumbondo kutundu nyañwa", "mona way mwangope, kuwana omala kê way", ou "viva a paz, Angola está unida" ou ainda "Ki kwitena kwayaxike", só para lembrar. Ou terá sido a "sembização" da música angolana, que ofusca olhar para o lado e enxergar outras realidades e outros ritmos, que impediu o hierarquizar noticioso de pensar que não há arte regional (música, pintura, dança, literatura, arquitectura, cinema, teatro, moda, etc.) nem cultura menor?
KAHINZA, quanto a mim, era um artista de viola e voz firme. Suas canções levantaram poeira e continuarão a fazê-lo nos quintais do Prenda, Dangereux, Rangel, Kikolo, Rocha Pinto, Saneamento, e em todos os bairros e aldeias de Angola onde habitem Kwanza-sulinos e apreciadores do cancioneiro popular.
Assim como os políticos e os jornalistas são excelentes no que fazem, independendo do lugar geográfico em que tenham nascido ou vivam, tal são os músicos do povo que cantam a vida e as malambas do povo. KAHINZA foi um deles. É uma pena que o seu "telefone" não esteja mais a receber chamadas. Telefone kaytele!

Publicado no Jornal de Angola, a 16.12.18 e Nova Gazeta, 20.12.18

sábado, dezembro 08, 2018

QUANDO A FOME SURPREENDE A MUMWILA

- Amigo, dá só cem para comprar pão, mumwila tem fome.
O apelo da jovem, alta, esbelta no seu habitat, seios divididos em duas porções, eventualmente, por uma corda ou um cinto que a t-shirt azul escondia, foi "ordem emocional". Olhei-a nos olhos. Eram brilhantes. Os dentes também brilhavam na boca e estavam aguçados, um procedimento cultural. Dizem que "permite cortar melhor a carne", uma estória ainda por pôr a limpo.
- Mana, não tenho dinheiro. Vou ao multicaixa ver se o patrão já pagou.
- Então, vou esperar. Faz favor, mumwila tem fome. Só cem para comprar pão.
Voltei a reparar com mais detalhes. Baixei os olhos. A mulher ela longa. Um metro e oitenta ou mais. Andava descalça e tinha as pernas todas adornadas de metal reluzente em forma heliocêntrica. Mais atento, vislumbrei outras duas companheiras sentadas no lancil, provavelmente cansadas ou aguardando igualmente por um promitente ajudador. Tinham todas garrafas de plástico carregadas de substâncias licorosas. Chamam-nas "óleo mupeke" que as kalwandas gostam para fortificar e fazer crescer a "kindumba".
Aturada a fila, conclui que o ATM não tinha valores. Mal ergui os olhos, estavam as senhoras na mira, distraídas ou falando sobre coisas suas. Mas aguardavam pelos cem kwanzas para comprar pão, pois a "mumwila tem fome".
Vieram-me instantaneamente as fomes que senti, quando era garoto ou jovem procurando pelo primeiro emprego, e sem que muitos se predispusessem em ajudar com uma "magoga" daquele tempo.
Aumentou a minha responsabilidade e pesou a promessa que não fiz.
- Vou-me embora, sem que ela dê conta, ou revisto o carro a ver se encontro uma moeda?
A segunda ideia ganhou forma. Abeirei-me delas e pedi que me acompanhasse à viatura.
- Amiga, multicaixa não tem dinheiro. Não sei se o carro tem moeda. Você me acompanha?
A mulher franziu ligeira e visivelmente o rosto, desconfiado que não conseguiria o intento, depois de um quarto de hora à espera. Mas seguiu-me quase a reclamar.
- Amiga está triste? -,Indaguei para a acalmar.
- Mumwila tem fome. Aquele falou "Xipela". Cem num tem. Amigo também falou "xipela", pão num tem. - Respondeu tímida e suplicante.
Via-se cansaço e fome no rosto dela, mas uma pujante força de viver, mesmo que a vender óleos cosméticos tradicionais ou a pedir pão quando a fome chegasse mais cedo do que as clientes. Senti ainda mais a aflição da senhora. Lembrei-me de umas moedas que a minha filha me havia devolvido. Falei alto e convicto.
- Vamos. Tenho moeda no carro. Só uma.
A jovem mumwila endireitou o rosto. Caminhou com mais vigor, enquanto as amigas se lhe seguiam pachorrentas. Por sorte, eram duas moedas, uma de cem e outra de cinquenta.
- Ndapandula enene. Mumwila vai comer.
Fiquei aliviado. Melhor pedir do que ladroar.
Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta a 26/07/18

sábado, dezembro 01, 2018

NAMBI KO EKOVONGO

(óbito no Ekovongo)
- Mano André, "nó" serve "ansim". Todas as partes boas da galinha é p'ra ti e os outros, que até contribuíram no óbito, vão se lamber só nos dedos e partir ossos? Na hora da contribuição ainda o mano estava a se esconder entre as mulheres, a fingir lágrimas que não vimos. - Desabafou audível a prima Miquilina que fora avisada por uma sobrinha sobre o comportamento incivilizado de um tio.
Ekovongo é a aldeia mãe do Kwitu, capital do Vye (olongombe vye). Dizem que "o branco, quando veio do Putu, com Silva (do) Porto à cabeça, primeiro ficou no Ekovongo e depois é que foi para a urbanidade criada pelo Silva".
A embala estava em óbito. Pessoa grande, de respeito na aldeia, na "kacidade" de Kwitu e na "kicidade" de Loanda, onde quem lá brilha, na embala é tipo sol.
O finado Ekofika fez-se homem entre Ekovongo, missão de Kamundongo onde estudou bem, Kwitu onde trabalhou e Loanda onde se reformou a constituiu bens. Mas o óbito foi levado mesmo (pela menos na imaginação) à aldeia natal.
Partiu numa terça-feira de sol envergonhado, depois de muito bregar para adiar a morte. Filhos, sobrinhos, primos, amigos de todos os tempos, todos procuraram tê-lo mais tempo em vida e, por isso, ajudaram nas contribuições. Ekofika foi buscar saúde ao estrangeiro, à faca se submeteu, mas, em vão. Partiu mesmo.
- Quando Jesus te chama, você pode mesmo ir "no" melhor professor dos médicos, os anjos não te largam. - Dizia-se eufemisticamente para aliviar a dor dos filhos e da família próxima.
- Mas o mano Ekofika combateu um bom combate. Assim, a oração "venha agora o teu reino e seja feita a tua vontade", que temos orando na IECA, foi mesmo cumprida. - Desabafou outro presente também condoído.
Mano André, do prato cheio, estava ainda calado, quando essas cenas todas começaram a ser narradas. Para ele, trabalho no óbito era apenas controlar a logística e encher a pança de boa cabidela e bom vinho.
- Comigo, é médico mesmo que me disse, vinho só tinto de garrafa. Pacote "nó" entra, nem "ngalinha" da loja. - Dizia, a mostrar os dentes todos na boca.
Se cá fora eram tertúlias, contribuições para alimentar e dar de beber às visitas, lá dentro, com a coitada da viúva, também havia trabalho. As civendji (tchivendji), senhoras que fazem companhia à viúva, tinham a missão de a distrair e com ela chorarem à chegada de um familiar próximo ou amigo importante do de cujus. Imaginavam momentos passados com o falecido Ekofika, para puxar compaixão e lágrimas, e atiravam uma expressão de todos conhecida.
- E agora, mano fulano, o Ekofika nos deixou. Twasala ulika!
Outras civendji que não tinham convivido o suficiente com o finado recordavam seus entes partidos há muito e soltavam, à memória, choros acompanhados, às vezes, de lágrimas fartas. Ser civendji não é "fácii", diria a minha sogra Buenos Aires.
Ao sétimo dia, as civendji são libertadas, em parte. Confinadas ao quarto da viúva, durante aquele período, são finalmente alimentadas abundantemente. Servem-lhes, por isso, bebidas e carne (aquela que sobra dos comensais, não restos, não senhor!), dão-se-lhes passagem e se dispersam, ficando apenas duas ou três, as mais chegadas à viúva, para fazer-lhe companhia nos dias vindouros, até se colocar perante facto consumado e se reerguer para a nova vida sem o companheiro.
Segue-se a reunião familiar. Filhos de todas as "cavalarias" são chamados a participar. Quem não estiver, "ngongo yaye". Descreve-se aos participantes o ambiente que circunscreveu e levou à morte o finado, no caso o mano Ekofika. Contam-se os bens materiais e imateriais produzidos (com sua ndona) e deixados pelo de cujus. Enumeram-se as dívidas contraídas e por saldar. Os credores são chamados para se pronunciarem e reclamarem dos haveres. Uns preferem perdoar os valores ou bens por receber. Às vezes, até mesmo o adversário inveterado faz-se amigo. Acabou o campeonato! Apresentam-se as contribuições recebidas para os gastos durante o nojo, sobras, etc. É assim no Ekovongo. É assim entre os ovimbundu.

Publicado pelo Jornal Cultura, edição referente a 11-24 Set/18

quinta-feira, novembro 29, 2018

UM PASSEIO A KAXITU

Viajar, nos dias de hoje, de Luanda para outras províncias, por estrada, é preciso rezar ao terço, ganhar coragem e inspiração. E quando o objectivo da viagem é visitar um ente enfermo em hospital, "a pessoa vai já com o coração 'ensalsado'", como apimentam as nossas mamãs. Luanda a Kaxitu são uns, às vezes,  nada fáceis sessenta e tal quilómetros que levam a enfrentar táxi apertado, onde haja obras, taxistas barulhentos com suas músicas dislateiras sempre em volume alto, lotadores-bandidos-kibioneiros, etc. "Só Jesus na causa"!

No táxi, um coumbi de nove lugares adaptado para o dobro, a algazarra de vozes nos remete ao interior do mercado Roque Santeiro, no seu auge. Uns discutindo inteligência entre angolanos e zairenses, outros esperteza entre os catetenses e outros povos e outros ainda "mangando" a passividade dos ovimbundu e sua propensão para a migração interna e adaptação à trabalhos agrestes. Tudo como que procurando o sexo dos anjos, conversa só para encurtar distância e dar alguma utilidade à função bocal de falar.
- Xê, nós de Catete não gostamos abuso. Quem abus'apanha. - Atirou uma jovem, nos seus vinte e poucos anos.
- Mô marido é de Malanje, "malanjinho" num paga renda. - Ripostou outra.
Xê, você falá zazá é boelo. "Jurro com dieux", angolano "no" matemática num apanha langa. Langa, língua lingala e francês fala bem. Vocês matemática, cabeça água-água. - Defendeu-se um jovem em tom alto para se fazer ouvir numa algazarra de vozes desencontradas. Mas não era tudo ainda.


De paragem em paragem uns saiam e outros entravam. Quando a vítima da estiga se ausentasse outro cobria-lhe o lugar para sofrer ou defender a honra maculada. E, se razões para mais "consumição", inexistissem, alguém inventava algo.
- Ei mano, você que "entraste" agora, és do "sulu", não é?
- Sim, mana, sou de Kamakupa.
- Mostra ainda o teu Bilhete.
O jovem vasculhou as algibeiras todas e a mochila. Dos papéis que ocasionalmente lhe saiam dos bolsos, nada se parecia a bilhete de identidade ou sua réplica.
- Mana, bilhete, assim no táxi, é então p'ra quê? - Procurou defender-se.
- Num vos disse, os do "sulu" quando vêem aqui, primeiro emprego deles é trabalhar na fábrica de blocos. Nem bilhetes não têm. O único documento deles são cópias de facturas dos clientes. - Estigou a moça que se dizia de Luanda.
 
Um riso total instalou-se na multidão. O moço preferiu manter-se em silêncio até que as plaquetas das gargantas dos estigadores ficaram ressequidas e os estômagos dos que riam desalmadamente doridos. Respondeu depois.
- Mana é a situação. Mas se ainda "nó" sabe, vou lhe dizer que gente do sul, mesmo velho que se arrasta, sabe ler e escrever. Nos lá no centro, que vocês analfebisticamente chamam sul, toda gente andou na escola e na igreja e, por isso, aprendeu a respeitar os semelhantes, os animais e a própria natureza.
Foi o remate final e a conversa mudou de rumo. Eventualmente, cada um daqueles afoitos estigadores se perguntasse, no seu íntimo, o que significava analfabetisticamente e mais outras loisas disparadas num português cantado como hino religioso. A romaria católica à Muxima, própria de Setembro, preencheu o espaço percorrido até à paragem final. Seriam outras gentes, outras falas e outras cenas...

Chegado a Kaxitu, tempo ainda de adentrar o hospital, em hora recomendada para visita, vestido de pano até ao joelho, como mandam os bons costumes (mulher não deve expor zonas púdicas ou íntimas em público), surge pela frente o "camarada segurança" a travar a marcha.

- Minha senhora, sem pano por cima não entra- Atirou o segurança, kalashikov na mão, a impor respeito.
- Kokolo dyami, ngi banga kyebi? Assim, então, irmão chefe-segurança, saí de Luanda para visitar parente que lhe internaram aqui, família próxima não tenho, faço o quê, mô deuju?!
- É ordem superior.- Repetiu autoritário o segurança, sem mais nem menos.
- Mas, mano-chefe, esse ordem superior então é quenhê nome dele, se meu vestido é 'mbora mesmo de ir com ele na igreja Católica apostólica romano, vestido que uso na promaica e tudo? Camá odêpê, faxavor, meu irmão. Me mostra com ele, esse ordem superior, para me explicar se Muxima, nossa Senhora, é menos importante que hospital.
Pela ordem superior o segurança ficou. Nem à chefia imediata recorreu para dirimir a (in) conformidade do "pano para todas". À "mamã das perguntas", como ficou conhecida naquele primeiro de Setembro, mês de Neto, apenas uma solução, apenas uma se mostrou. Hipotecar a sua carteira, com telefone e tudo, em troca de uma tira de tecido para reforçar a cobertura do corpo, da cintura ao joelho.
Para piorar a situação de quem já é a azarenta, ao sair da visita, terá passado próximo do hospital Provincial um carro daqueles que carregam fiscais que correm com as quitandeiras de esquina e a mana do pano já lá não estava. Pasta, telefone, dinheiro, tudo foi. Apenas os prantos ficaram. Com os prantos da idosa, a alegria do segurança-chefe e do seu ordens superiores de "pano para todas, sem excepção"!


Publicado pelo Caderno Fim-de-semana, Jornal de Angola, 9/9/2018

domingo, novembro 25, 2018

NA PRAÇA VERMELHA

Já tinha tido antes uma pequena experiência de tentar pôr o coiso na coisa, com cuspo, e, entalado entre os músculos, gritar "ai, xta doce! ", mas sem que algum efeito estranho, prazeiroso ou de acelerar o coração, bombear o sangue e avolumar os músculos fosse verificado. Era apenas uma brincadeira de papá e mamã e foi há muitos anos.
A caminho da adolescência e juventude, o tempo é curto. O sonho é ser mais velho e livre, fazer coisas proibidas pelos makota e ser como eles. Surrar os dikotas malaikes, namorar as moças mais vistosas, mesmo sem o lado lidiminoso apurado ainda, deixar os cocoritos e, às vezes, a porrada de "cagar bichos" que os mais valho nos infringiam com a sua doutrina militarista de "forjar o ferro no fogo do sofrimento" e desgraça. E diziam vaidosos:
_ Sofrimento forja. O suor que se gasta no treino é sangue que se poupa no combate.
Foi nesses termos que atingi o ano 12 da minha existência.
A minha prima Fátima estava casada com um tropa da FAPA-DAA. Vivia no bairro popular e ele no Huambo onde pilota a helicóptero. A sua mãe, acometida de uma patologia que me escapa, vivia na rua 10 da Comissão do Rangel. Momentos após ao seu passamento, meu tio foi cuidar da casa que se achava desocupada. Anro 5-A, junto ao beco longitudinal que cortava a urbanização em quatros blocos, pois a escola ocupava o quarteirão todo e interrompida o beco. A moradia de dois quartos é sala, construída em placas de betão pré-fabricadas, tinha anonácea pequena, trepa deitas de flores vrrmelha à volta do quintal, goiabeira pequena e uma mangueira já grande e que dava fruta duas vezes por ano. Verdes ou maduras, a árvore tinha sempre mangas. Era nela que me divertia, quando não tivesse aulas ou antes delas. Imitando simios, pulava de ramo em ramo, provando se as mangas estivessem ou não prontas para a colheita.
Na parte traseira da nossa casa vivia um casal de Nguengo. O pai era ausente. A mãe, cabelos longos e muito simpática, era nossa mana mais velha. Tratava-a por tia Helena, mãe do Feito e outros irmãos, duas eram gémea. O "ti- Fausto", contemporâneo de meus primos já jovens era tio do meu amigo Feito.
A Amélia era vizinha da casa dianteira, casa colada ao beco. A mãe trabalhava na ODP que ficava na ponta da rua, na perpendicular com a Comandante Cantiga e início da Rua de Bissau.
A menina devia ter a minha idade, um ou dois anos mais velha no máximo. Frequentava com regularidade a nossa casa onde o arroz-doce o feijão e as mangas não faltavam. Também fazia pequenos serviços. Ora me ajudando, a meu pedido, ora a pedido do meu primo Zito que era FAPLA em licença de saúde, depois de ter levado uma bala encravada no tornozelo, na célebre batalha que apagou o temível Tembi Tembi.
A amizade entre Zito e ela, Amélia, embora pequena, era muito próxima que a minha amiga deixava de me dar confiança quando ele estivesse em casa.
Pior, foi quando o tempo de licença terminou e decidiu não voltar ao Moxico. Tornou-se caseiro e as minhas brincadeiras com a Amélia mínguaram.
Uma vez estava eu com a panela de arroz-doce no fogão primix (a petróleo com injecção de oxigénio), decidi trepar à mangueira do quintal e colher duas mangas que se mostravam amarela. Entre eu e os passarinhos alguém tinha de chagar primeiro. A Amélia viu-me pela rua e anunciou.
- Posso antrar, não vais me bater?
- Podes.
- Teu primo não está aí?
- Não.
Meu tio e o meu outro primo (a quem até hoje trato por mano Arnaldo) eram trabalhadores. Um na autoprotecção da Enatel e outra na CPPA. Só o Zito, que passou a fugir das rusgas, ficava em casa, mas nesse dia havia saído.
A Amélia entrou e propôs um pacto.
- Vou te ajudar a lavar a loiça e varrer o quintal, desde que partilhes o teu Matabicho, arroz doce, comigo.
Não titubiei. Arroz cozido, arroz partilhado. Depois da refeição outra sugestão.
- Quero descansar. Podes estender o teu luando e dormirmos juntos no vosso quarto?
Eu partilhava o quarto com o meu irmão polícia que não podia saber que uma miúda estranha o adentro. Na inocência, estendi a lona militar, e lá nos metemos.
-Pega também o lençol. - Sugeriu para acrescentar: "Apaga a luz e fecha as portas e janelas".
Obedeci. Momentos depois, ela já percorria toda minha inocente biografia.
- Tira a roupa.
Tirei sem perguntar por quê.
- Vem por cima de mim.
Comecei a sentir estranheza, mas obedeci.
Pegou a minha pistola. Demorou carregar e tal só aconteceu por causa de umas manobras perigosas da inimiga.
- Põe a pistola na trincheira funda da revolução.
Pu-la. Porém, a relva que circundava a trincheira foi um incómodo.
- Faz assim, assim, assim. Mete tua língua na minha boca.
Tudo novo. Cumpri as ordens entre desconforto e curiosidade. Uns passos e vozes conhecidas fizeram interromper a operação. Era o Zito e o Fausto, dois fugitivos da vida militar.
- Amanhã Virei mais. Faz de novo arroz-doce.
Dia seguinte, fui às bombas compara petróleo, acarretei água, preparei o fogão, a panela do feijão que se seguiria ao arroz-doce e, com o arroz a enxugar, trepei a árvore para controlar os movimentos da Amélia e fazer-lhe o convite.
- Podes vir.
Não demorou. Comemos o arroz e momentos depois, na mesma Praça Vermelha, com a cor da revolução, fui comido como no dia anterior. Desta vez, de forma gostosa, pois já sentia algum sangue bom a correr em mim.
Ao terceiro dia, já possuído de lídimo, fiz o convite. Mas na hora dos vamos ver, o meu primo Zito, com dinheiro na mão conseguido num kadyenge qualquer, e talvez farto de arroz com feijão daquela época, manda-me à Praça das Corridas comprar peixe. Fui e voltei a correr, fazendo vênia ao nome do mercado que ficava ao pé do Supermercado Nzala ikola de António Silvestre.
Como manga doce tem sempre pretendentes, ao chegar à casa não vi nem a Amélia, nem meu primo Zito.
Procurei estudar os movimentos dela e nada. Decidi ficar na parte dianteira do quintal que me ajudaria ver a Amélia a passar. Qual meu espanto?
Receoso de que eu descobrisse e eventualmente contasse ao tio ou ao mano, o primo Zito faz a Amélia pular pela janela frontal do quarto, exactamente no sitio onde eu me encontrava. Só tive tempo de falhar-lhe uma galheta, ganhando uma valente sova do primo kwemba filipado, de muitas batalhas militares no leste de Angola, e rebarbado.
Assim fui "deflorado" na praça Vermelha!

quinta-feira, novembro 22, 2018

NGOMA, KISAKA E XOXOMBO

Nasceu Xoxombo. A escola nomeou-o António Silva. Sabe-se lá, por que carga d'água, na adolescência e toda juventude que não viveu completa, ficou mais conhecido pelo nome de nascença. Xoxombo na escola, na aldeia e até n’outras andança pouco conseguidas.

Desde pequeno se revelou inteligente, regatado e pouco dado a traquinices. Não era como o seu puto Sabalu-a-Soba, galão galanteador. Os atributos de XOXOMBO fizeram com que, a entrar para os "meses do acordo de Alvor", que se seguiu ao golpe militar na ‘metroia’, tivesse já a sua quarta classe, do tempo colonial e não doutro tempo qualquer, bem feitinha. Contava uns doze ou treze anos, algo incomum, naquele tempo, sobretudo para um filho de negro contratado, ainda mais filho de um simples tractorista que evoluiu para camionista de patrão alemão.

 Xoxombo estudou mais. Mas, mais e mais, a vida lhe foi agreste. Chegou a guerra pós-independência e teve de empregar-se como professor brigadista da "Comandante Dangereux", ‘combatente da linha de frente’, isento, por dois anos, do serviço militar obrigatório. Aos vinte anos, estava em Luanda, capital de sonho de todo jovem do interior. Era a forma de evitar a farda militar.

No ano em que não lhe foi renovada a licença professoral, teve de voltar à aldeia de Munenga, onde a ausência de "quadros" permitia o ingresso imediato na educação. Contava já uns anitos acima do vigésimo. Sempre jovem polido, trato fino, modos requintados e um português com sotaque saxônico, aprendido dos alemães em cuja casa o pai trabalhava e ele crescera. Xoxombo era, aos olhos das mocitas ardentes de desejos pecaminosos um ‘virgem por deflorar’.

- Mano Xoxombo num me paquera só por cá di quiê?- Questionavam-se sedentas e sedutoras aos olhos cegos de Xoxombo. Só livros. Só debates, só prosa. Xoxombo para as moças, um invisual.

 À roda, no folclore do bairro, à sexta à noite ou noutro dia qualquer luarento, a música era vezeira:

 - Wombela, Wombela, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela.
- Nange, nange, kate okyo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo Wombela!

 Felicidade alheia, tristeza sua. António Silva, o mais culto do vilarejo, afogava as mágoas em destilados etílicos que o levavam a fermentar força de rinoceronte na profundidade das águas do Longa, rio de sua natalidade umbilical. E Xoxombo, já sem o pudor da educação do berço, sem mais o comedimento urbano que muito cultivou, sem mais a paciência que aprendera com os missionários, saia em defesa de sua "dama desonrada". Chamava uns tantos impropérios aos que com gargantas ressequidas continuavam cantarolando. Até que que rouco, como as que o insultavam procurando por uma reacção mais erótica, se cansava e ao quarto, no silêncio da cama solitária, se escondia meio satisfeito e meio envergonhado, ouvindo aquele coro que com o tempo deixaria de ser chacota.

 - Nange, nange, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate kyo wombela!

 (de tanto "secar", Xoxombo-nome masculino- teve de infiltrar-se de soslaio na "kandumba" ou caserna, onde os rapazes mais espevitados de sua idade costumam deleitar-se, à calada da noite, da quentura prazerosa de suas musas).

O terreiro em que se canta é um espaço mais largo, entre várias casotas que variam entre o adobe cru e pau-a-pique, cobertas umas de zinco já acastanhado pelas incontáveis chuvas e calor, outras com colmos de capim que fumegam as nascer e por do sol ofuscado pelo nevoeiro. O chão parece cimentado, de tanto rebatido que está o solo másculo. O folclore é de sempre e já vai na quinta geração. Apenas os executantes é que se revelam de década em década ou mesmo, nos dias que correm, de quinquénio em quinquénio.

Machos, de mostrar o punho e medricas de esconder a espada sempre houve na vida das comunidades. Canções que mantêm a melodia e inovam a letra também. Essa é apenas mais uma. E o sortudo(?) é António Silva, Xoxombo, o professor de feliz memória.

- Wombela, wombela, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo Wombela.
- Nange, nange, kate okyo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela!

A roda progressiva em que dançavam tinha no centro o tocador de ngoma e, à cabeça, a tocadora de kisaka "chocalho". De tão exímios que eram, os maestros  pareciam apenas transmitir aos instrumentos, ngoma e kisaka, sinais recebidos do além. Dizia-se que “tocavam com a sabedoria de seus avoengos já há muito nos ‘malombe’”. Era ritmo e cadência nunca vistos antes.

De repente, o círculo pequeno, no início, abriu-se. Cinco metros de raio e dez de diâmetro a engolir a aldeia toda. Man-Kibyona, afamado trapaceiro, diferente do comedido Xoxombo, meteu-se na dança. Antes, tinha ficado encostado a uma parede a apreciar as dançantes, a comê-las com os olhos. Quando se meteu na roda, as mulheres mais avisadas endireitaram o pudor. A cada aproximação do Man-Kibyona as damas aceleravam o passo para deixar distância à recta-guarda ou davam passo à direita. Isso contribuía também para o alargamento do círculo e a entrada na roda de mais rapazes e raparigas, todos acordadas pelo roncar da ngoma, farfalhar íntimo da kisaka e vozes melodiosas espalhadas pelo vento.

Os passos eram cadenciados, curtos e rápidos, às vezes. Dois ou três à frente e menor número para trás. Não se atropelavam. Os pés estavam poeirentos mas não eram pisadelas. Era a participação do solo naquele convívio dançante e repleto de emoção. E, em solilóquio, Xoxombo tudo ouvia e tudo consentia. Os galanteios e os desvaneios.
 -Wombela, Wombela, Xoxombo wombele; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela!

Um dia sentiu vontade. A coragem terá sido mais forte do que ele fora até à data. Imaginou um quimone apertado, desenhando a mamália. Uns panos riscados e lindos mal amarrados à mbunda que se desprendem do corpo no caminho da dança em que ele era o tocador único de ngoma e ela a tocadora e cantora única de kisaka. Fez do sonho verdade. Ao quinto mês, Kamone era já mulher feita. Nos folguedos com ngoma já o seu dançar era com requinte e discrição. E a chacota encontrou outro personagem.

Publicado pelo Jornal Cultura a 08 de Outubro de 2018

quinta-feira, novembro 15, 2018

O RELÓGIO

Não o do velho Trinta. Refiro-me ao que anda no seu pulso. Marca horas?
Era outra a serventia doutora, quando o relógio suíço, de corda, ainda não eram os a pilha, tinha elevado valor no pulso ou fora dele, dando charme ao homem que o carregava mas dando também horas certas para o trabalho, compromisso com a namorada marcado via bilhete ou telefone fixo. Era outro tempo e outras utilidades.
Com o relógio suíço vieram outros marcas e outros adornos: metal dourado, circunferência ou rectângulo e bracelete diamantados. Os adornos vão, hoje, desafiando a imaginação e o bolso. Quem tem dinheiro tem relógio e quem não tem valores usa qualquer coisa parecida a relógio. Com os adornos vieram outros hábitos. Enquanto periférico para a indumentária de homens e mulheres, o relógio se mantém nos pulsos. Só as horas é que nem sempre mostra. Vejamos:
Homens e mulheres que não se desgrudam dos "dikumbi" quando perguntado "que horas são"? Raras vezes enviam os olhos ao pulso que carrega o telefone. A mão vai ao bolso, saca o telefone e deste lêem a hora.
Muitos utilizadores de hoje ignoram a numeração romana que era (são) frequente nos relógios doutro (e desse) tempo.
Expressões costumeiras como "um quarto para as dez", "cinco e meia" ou "passam cinco das dez" deixaram de ser ouvidas, sobretudo da boca dos mizangala que usam as colecções mais vistosas dos últimos lançamentos das principais marcas de relógios.
Os relógios não desapareceram. As fábricas continuam a produzir relógios com cada vez mais requinte. O seu uso continua a ser apregoado, porém, apenas como adereço decorativo. Já não "emite" horas. Muitos estão avariados e há muito!
Leve agora os olhos ao seu antebraço que transporta o relógio e diga, em voz audível, que horas marca.


Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 16/08/18, pg.4.

quinta-feira, novembro 08, 2018

LUSAKA DOS MEUS OLHOS

- Hei, atenção! Vem carro em alta velocidade na tua direcção.
Não era, não senhor. Simples. O susto seguido de SOS se deveu ao sentido de orientação do trânsito rodoviário, processado no lado oposto ao nosso.
Quem não está habituado, pode ter o coração aos pulos, no primeiro impacto. Refeito do susto, adentramos a cidade. Os territórios encravados (sem mar) têm uma forma própria de ser e estar. A cidade fundada em 1905 por britânicos comandados por Cecil Rodhes não foge à regra. Amplos espaços verdes entre avenidas e instalações habitacionais e ou repartições públicas, limpeza a condizer e ordem, acima de tudo.
- A existência da pena perpétua e pena de morte até há três anos fizeram com que houvesse ordem e moralização. Aqui, conta o angolano residente, "um olhar masculino, se mal interpretado pela destinatária, pode levar à cadeia. Por isso, mwangolês, prudência nos actos". - Recomendou preventivo.
A cidade não tem os "apalpa céus" das cidades litorâneas como Luanda. Tem apenas uns poucos que se contam os andares sem buscar fôlego. Mas em termos de jardins, jardinagem, higiene, limpeza e moralização dos munícipes para cuidar o bem público são eles que arranham os céus da boa cidadania.
Como qualquer outro povo, os cerca de 17 milhões de zambianos têm também suas fraquezas. Bem, fraqueza e pontos fortes que dependem de quem julga e da pauta que orienta o  juízo. Esse juiz acha-os "fracos" em ter carne tenrinha e em abundância a bom preço. Um "T-bone" com xima custa metade um terço do que custaria em Luanda. O mesmo dir-se-ia de outras carnes menos comestíveis, provenientes do vizinho Zimbabué. O consumo de álcool é desincentivado. As festas têm regra. Fazer barulho a céu aberto e por tempo prolongado só pode ser obra de um atrevido destemido. O dinheiro, ao que vi e ouvi, não fala todas as línguas. O Kwacha é mais ou menos estável, perto de $11 por cada dólar, e há bom tempo que não se recordam do exibicionismo de outras paragens conhecidas na África lusófona austral.
Dois anciãos, um homem e uma mulher, são tidos como símbolos da moralidade e da manutenção dos bons costumes. Um é o primeiro presidente, o grande father Kenet Kawnda. Outra é a vice-presidente do Mr. Edgar Lungo, a Senhora Inonge Wina.  E os angolanos que conheci em terras de Kawnda perguntavam "como é que o presidente da República, em vez de pegar um jovem como coadjutor, foi logo encontrar uma velhota?"
Simples. So simple. Se você quer coadjutor que aconselhe, que possa dizer "chefe/filho não vá por esse caminho, vá por aquele outro", encontre quem tenha autoridade moral para o efeito. Queres quem só diga "o chefe está certo?" Pegue um puto da libaju que só queira e saiba conjugar o verbo ter. É como percorrer distâncias. Se é para andar rápido, vá sozinho. Porém, se for um caminho distante e em segurança, só acompanhado!

sexta-feira, novembro 02, 2018

QUANDO SE DESTAPA O VÉU DA FALSA REVERSIBILIDADE DA MORTE

Nas comunidades rurais e periurbanas conservadoras não se permite a frequência de infantes aos óbitos muito menos aos funerais. Morte é bastante dolorosa para que as crianças sejam esposas a ambientes de elevada comoção. Às vezes órfãos menores, e para evitar o choque, eram aclamados com expressões como "seu pai viajou ou sua mãe foi à cidade ver um familiar".
O cidadão educado nessas circunstâncias apenas começa a se aperceber do verdadeiro significado da vida e da morte na adolescência plena ou mesmo a entrar para a juventude.
Nessas idades, certas proibições e inibições se tornam permissões e, às vezes obrigações. Mas o recém entrado ao convívio dos adultos não tem ainda a maturidade suficiente. Não raciocina até ao limite das suas faculdades. Assim, frequentar aos óbitos e funerais são tomados, ainda como se "de diversão se tornasse". Vai para conversar, para se divertir, para ajudar no que lhe for solicitado e, nalguns casos, para comer e beber em fartura, pois os óbitos têm sido locais para que "bons comensais" façam gosto à arte, próprio da juventude que pela libertação de calorias precisa de repor energia em qualidade e quantidade.
Aos jovens não visitados pelo infortúnio, a morte se torna normal, sem dor, apenas um caminho a que todos seguem. Que é, é. Mas... É já quando a emoção dá lugar à razão pura e surge a crítica de tudo quanto nos é posto à frente, que a morte se torna anormal. O nosso subconsciente resiste em aceitá-la. As vezes se conserva o cadáver por tempo considerável, enquanto se fica entre a certeza da morte e a reversibilidade dela. Chora-se a meio gás. Acredita-se e não se acredita no passamento para outra dimensão da vida Apresenta-se a realidade de forma eufemística, como se quem deixou de se mover e de falar recuperasse essas faculdades e com o seu ser e estar de costumes voltasse, mais minutos, menos minutos, ao nosso convívio.
Chega, porém, o dia e a hora em que desaba o tecto dessa "crença miúda da reversibilidade". E aí, caímos na real. O nosso ente já não volta. Nem em parte estará connosco, pelo menos fisicamente. Vamos deixá-lo num campo onde impera o silêncio. Onde não se visitam os entes mas apenas o campo medonho. E o mundo desaba. É o fim que nos leva a reflectir também sobre o nosso fim. Quando chega esse momento, nada mais vale. As flores, a campa de mármore, os adornos, os títulos, as posses conseguidas e aquelas com que é bafejado no último adeus... Nem mesmo as roupas novas o cemitério chick ou a urna cara. Nada mais tem valor.
Aos de bom coração restará apenas agradecer tudo de bom quanto aconteceu. A vida, a amizade, os convívios e até algumas brigas para apimentar as relações. É o que fica na recordação, quando a saudade insistente bater à porta. Nada mais!

Texto publicado pelo Jornal de Angola de 04.11.2018

segunda-feira, outubro 29, 2018

RELATOS A ENTERRAR

 Fazer-se ao interior, partindo da capital de Angola, confere o prazer de mergulhar nas vivências positivas das populações, reviver estórias e História do povo e "coscuvilhar" coisas que a memória perdoa mas teima em não esquecer.
- Boss, esquecer é permitir que volte a acontecer, mesmo estando ainda vivos. - Assim defende Rafael Paca, jovem de Golungo Alto.
Como ele, há muitos angolanos que viveram na alma as agruras da guerra. Rafael diz que já percorreu dezenas de quilómetros à pé, fugindo de tropas dos dois movimentos.
- As primeiras fugas eram no tempo da rusga para a vida militar, mas o sofrimento era tanto que um dia fui me apresentar e fiz tropa no Lukala. - Conta.
Porém, as memórias de Rafael não se ficam por aí.
- Em 1992, naquela mini-paz assinada em Portugal, fui desmobilizado das FAPLA. Aí é que a coisa piorou. Kavulandunge tomou a província e as pessoas fugiram para o Dondo, para Luanda e para as bwalas. Eu, como não tinha possibilidades, fiquei aqui (próximo do entroncamento entre Ndala e Ngulungu). Certo dia, os tropas de Kavulandunge desconfiaram que um jovem, meu amigo e colega nas extintas FAPLA, pertencera ao "Minse-Disa", pura invenção deles para nos cabar. Os homens parecia que tinham sede de torturar. Mandaram-no despir-se, correr para transpirar, e jogar-se a um monte de feijão maluco. Ele coçou que se coçou. Metia dó, que até pediu que o matassem...

Rafael atesta, com as mãos sobre o peito e repetindo vezes sem conta a expressão " palavra d'honra", que assistiu a tudo sem nada poder fazer em prol do amigo e temendo que tivesse a mesma sorte.
- As vezes, se um deles pretendesse a tua senhora inventava já que você é anti-motim ou Minse-Disa e te tiravam a vida já, já.
Foram somente dez minutos de percurso e de conversa até ao montículo que atende quem queira telefonar, deixando o asfalto e adentrando a selva por um atalho de aproximadamente quatrocentos metros. Toda a relva é feijão maluco que obriga "andar com respeito".

segunda-feira, outubro 22, 2018

UM CARRO PRETO NA KIBELA DO KAMBA


Um viandante saído de longe decidiu fazer a merecida vénia ao amigo que junta tostão a tostão para que do simples matagal surja um serviço de grande utilidade aos homens da estrada e da vizinhança.
Na "via da Trombeta", depois do nó Ngulungu vs Ndalatando, o mukwaxi decidiu "enterrar dignamente o seu suor de todos os dias e muitos anos. Já leva uns sete anos a" montar bloco sobre bloco", sacrificando do conforto a mulher e os filhos.
Quem sabe um dia tenham a merecida recompensa?!
Espero que sim.
Quando o espaço estiver aberto, nós os amigos, devemos ser dos primeiros.
A localização é excelente e exuberante. Os quartos são vastos e cómodos. O tanque d'água é "inesgotável". A energia está a um dedo. Há chilrear de pássaros à volta. Há paz que basta e história sobre nacionalismo kwanza-nortenho que o restaurante se prestará a contar todos os dias a todos utentes e clientes. O vizinho do Dani produz "motas 100% angolanas".


Nota: Dani Costa é um kamba jornalista que conheci no início de nossos percursos profissionais.

segunda-feira, outubro 15, 2018

MALAVU, LUNGILA E MAMÃ ME LEVA

Que haverá em comum entre estas três "pérolas da língua e garganta", consumidas no Uige e em outras terras da imensa Angola?
Em princípio nada. Para adentrar a questão e tocar o seu âmago, precisei de viajar e conhecer Carmona, Uíge anteontem e hoje. General Carmona é uma outra história mais ligada à presença colonial portuguesa.
Antes destes chegarem ao território uigense, já os povos se deleitavam com apetecíveis destilados, fermentados e bebidas naturais como a seiva da palmeira ou malavu.
Aqui, surge o lungila que é um fermentado, à base de sumo de cana-de-açúcar. Traduzido para Português, o termo lungila (do Kikongo) significa "aturem-me". É o que acontece quando alguém se encharca desse produto.
- Vozeira que vozeira, ao ponto de se sentir "o único" na aldeia. - Explica a ancião Nsimba.
Mas no Uige não se fala apenas de lungila.  Poucos saberão disso, sobretudo os mais novos. Quem conta são sempre os mais velhos.
- Com os brancos, surgiu o "mamã me leva". Era um vinho tinto que se produzia (engarrafava) na antiga cidade de Carmona.
O mais velho Nsimba explica o porquê do pomposo nome de "mamã me leva".
- Com um copo a pessoa ficava alegre, bem disposta e mesmo e até o mais tímido já conversava. Se não tinha coragem de se dirigir a uma "pequena" já podia. Com dois copos, aumentava a voz e até os baixinhos pareciam altos no tamanho e da voz. Ao quarto copo, os efeitos se reflectiam sobre os joelhos que ficavam "bwazeza", sem força. Aí o consumidor, sem força nas pernas, a única coisa que conseguia dizer era "mamã me leva".
Há também o nosso secular e sempre presente malavu que é a seiva da palmeira. Quando me contaram que malavu também atacava nas pernas não quis acreditar. Certa vez, ainda éramos jovens, conta o mais velho Nsimba, estávamos a ir a Kimbele. Uma moças bacongo, saídas de Luanda pediram.
- mais velho, faxavori, nos paga só um kabidon de malavu.
- Filha, malavu faz abrir as pernas. - Respondeu o meu amigo Sabichão. Ele gostava mbora de brincar...
- Tio, faxavori. Retorquiu a jovem em tom suplicante, o que levou o Sabichão a pagar um litro de malavu. - Prossegue o narrador. Elas era três e nós duas pessoas na carroça da Peugeot 507. Minutos de pois, a primeira moça começou a reclamar que estava a "caloria em todos os lados". Não te avisei, mbora? Recordou o Nsimba, hoje é mbuta muntu.  Não tardou, quando o carro parou para meter mais gasóleo no depósito,  a amiga dela confirmou o efeito da bebida.
- E o que disse a moça, mais velho Nsimba.
- "Mama me leva". Mas não era do vinho, era do malavu. Disse que estava a sentir as pernas a tremerem. Sabichão, o meu amigo, ainda avançou conversa misturada com malícia.
- Não te disse que malavu faz abrir as pernas? Põe calça jeans e amarra pano por cima! - Falou ele.

Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 18.10.2018 e no Jornal de Angola de 18.11.18


segunda-feira, outubro 08, 2018

MASA, NGANA!

Assim terão respondido as súbditas de Ngola ao serem abordados por homens brancos que acabavam de desembarcar numa canoa movida a remo e que se fez da Foz à região intermédia entre Kisama e Ndondo.
- Que terra é essa? - Terão questionado os emissários de Sua Majestade, Rei de Portugal, capitandados por Paulo Dias de Novais que travaria, anos adiante, pesadas lutas contra as forças do Soberano Ngola Kilwaji kya Samba, titular dos povos do Ndondo.
- Masa, ngana (é milho, Senhor). - Responderam as akwandongo que se encontravam a moer milho numa pedra, à beira do caudaloso Kwanza. Terão percebido "o que é isso que estais a moer?", emitindo a resposta que se tornou topónimo.
Os livros de História sobre as epopeias do legatário Paulo Dias de Novais e os que narram a resistência dos africanos à presença europeia estão prenhes de cenas sobre os avanços, recuos e até captura e prisão do Português. As confrontações entre lusitanos e holandeses pelo domínio de Luanda também estão retratados em livros.
Até que o brasileiro Salvador de Sá e Benevides apareceu em socorro da "soberania portuguesa", os holandeses se tinham assenhorado de Luanda. Massangano, contam os livros e as lápides, foi o baluarte onde se travaram e se defendeu o brasão das quinas.
Até aqui, bastar-nos-ia a Biblioteca Nacional, o Arquivo Histórico Nacional ou, para os mais afortunados, a Torre do Tombo ou o Arquivo Ultramarino. Mas estaria, mesmo assim, em falta o contacto físico. Pois é, a "cidade" (à época) de Massangano, erguida no Séc. XVI, conserva até hoje as suas planas ruas "arquitectónica ente desenhadas sobre a parede alta do Rio", a Igreja Católica (religião de Estado naquele tempo), Fortaleza com seu longo mastro (sem bandeira alguma), a Primeira Câmara Municipal, a residência oficial do chefe da câmara, o Tribunal e casa de Reclusão, entre outros edifícios em ruínas, todos eles autênticos fortes paleolíticos e já sem a cobertura.
É essa a preciosidade, com valor histórico-cultural e turístico, que o Kwanza abraça no seu descendente leito para o Atlântico e que a inexistência de uma estrada em condições esconde aos curiosos e aos putativos turistas.
Aos aventureiros que se lançam ao desafio de "descoberta", num bom jeep, são "apenas 33 minutos de sacrilégio até encontrar o "tesouro histórico - turístico" que, normalmente, transforma o desconforto e cansaço da viagem em agradáveis momentos de contemplação.
No tempo doutra "divindade", o asfalto fazia-se da rodovia principal, EN 130, ao conglomerado de Massangano. Hoje, porém, são apenas buracos, lamentos e, as vezes, alguns milímetros da antiga negrura do asfalto a contar outra história do valor que já teve Massangano.
Entre desventuras, há também aplausos: a fortaleza é monumento classificado pelo Estado Português, Portaria de 24 Abril de 1923, e devidamente reconhecido Ministério da Cultura de Angola.
É pena que sejam hoje os cabritos que mais o frequentam do que os homens desse tempo. Por lá já chegou a energia eléctrica, saída de Kambambi, faltando apenas o asfalto e a promoção mediática do que o matagal esconde aos homens.
Os candeeiros de azeite e torcida de algodão, que ao tempo se achavam colocados em postes de pedra e cal, cederem lugar às lâmpadas eléctricas. O kakusu (tilápia) e bagre abundantes no Rio e lagoas próximas já podem ser congelados. A vida ganha(ria) vida com asfalto.
É imperiosos contar e mostrar mais a História e as estórias da "primeira capital" da autoridade portuguesa em terras Ngola, que se acha encravada entre a Muxima e Ndondo, pelo corredor do Kwanza.

Publicado no Caderno Fim-de-semana,Jornal de Angola, 19/08/18, pg.10.

segunda-feira, outubro 01, 2018

AO PÉ DA ESTRADA

É indubitável. Para quem lê a história da distribuição agrícola pelo país, Libolo, Aboim Uije e Golungo Alto são "terras do café".
No passado, as margens das estradas e das picadas estavam cobertas do arbusto que, em Novembro, engalana-se de um branco de cheiro inigualável, sendo Julho o mês em que o vermelho toma conta das fazendas. É o bago vermelho. Assim ficou registado na literatura histórica e na mente de quem, a partir da cidade, pensa e decide o campo.
O café robusta, plantado em terreno alto e de nevoeiro permanente, demanda sombra frondosa, sacha, poda e colheita com maior intervenção humana do que mecânica. É diferente da espécie arábica: plantas expostas ao sol, regadas a jacto, inundação ou conta-gotas, com passagens para tractor agrícola e labuta facilitada.
As ladeiras das estradas e picadas do Libolo, Golungo Alto e Aboim têm hoje mais bananeiras e palmeiras (resistentes) do que cafezal que se esconde na profundidade do matagal robusto e opaco.
Muitos se perguntarão "por que razão o café vai, aos poucos, cedendo espaço à mandioqueira, ao canavial e, sobretudo, ao banana?".
Pois, não será muito difícil aferir que o quilograma de café não anda acima de duzentos kwanzas, mesmo contando com o enorme trabalho que há entre plantar o arbusto até colher o bago, seca-lo, ensacá-lo e armazená-lo. Tem pelo meio a sacha, poda, desinfestação, o feijão maluco a complicar a vida do recolector e a cobra a amedrontar os noviços na arte da apanha do grão-ouro.
A bananeira é oportunista e afasta a erva daninha. Dispensa a poda e qual to mais rebentos houver maior será a colheita. A banana pode ser comida ainda verde (fervida) ou madura. Quando putrefacta, é submetida à destilação por processo artesanal, resultando em apetecível "das ponteira".
Um cacho de banana ou uma pilha de cana dão um lucro mais imediato e a custo resumido de produção do que um quilograma de café. É só por isso que os pequenos camponeses vão substituindo os cafeeiros que ladea(va)m as nossas estradas nas famosas zonas cafeícolas por plantações de bananal e canavial.
De terceiro maior produtor mundial do bago vermelho, em 1973, quando imperavam as monoculturas obrigatórias para os nativos e facilitadas por trabalho semiescravo ou mão-de-obra ultra barata para os colonos, Angola terá que "pedalar" até à exaustão se pretender ascender a um décimo posto desse campeonato mundial de café.
O pequeno agricultor já não se contenta única e exclusivamente com o café. A renda não aguenta doze meses. E, se comprador no houver, como às vezes dizem acontecer, pior ainda!
 
Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta de 01.11.2018