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domingo, janeiro 15, 2017

A "PEIXINA"

 
O tio de Mangodinho é um homem grande. Um chefe na antepenúltima patente da sua corporação. A casa dele é também uma casa à maneira. Um kaprédio de três pisos, incluindo a "sala de cinema" no terraço.
O cimento, o mosaico, os tijolos e todas as imbambas que sobraram foram confiadas a Mangodinho que teve direito a regressar à sua banda com um camião carregado. A parte dele também não era pouca e foi dela que se serviu para construir a sua mui desejada "piscina fluvial" no dizer de Phande-a-Umba, um jovem nascido na região, mas há mais de trinta anos a conhecer o país.
Miúdo Russo era o principal apoiante de Mangodinho nessa ideia.
Precisaram de três sábados para escolher o local, escavar o tanque e passarem a cobertura do fundo e das paredes com cimento e tijolos. No final, um tanque recordava os antigos bebedouros para bois. Mas estava funcional. A água entrava e saía. Uma pequena escada dava acesso ao tanque de 3mx5mx1,2m. Para os homens da aldeia, crédulos e incrédulos na ideia, era uma festa. Subiam e desciam para o banho de toalhas penduradas ao ombro.
- Mangodinho é um gênio. - Diziam os mais jovens.
- Mas esse rapaz, tirou daonde essa ideia? - Questionavam-se também ,com júbilo, os anciãos da aldeia.
Só uma placa mandada colocar pelo secretário da aldeia dividia a comunidade. "Proibida a frequência feminina de mulheres", lia-se na tabuleta pregada a um barrote enfiado no solo húmido, a trinta metros do tanque-piscina.
Para as senhoras a curiosidade era tanta. Aquelas mais atrevidas, que haviam cruzado o local, em dias de pesca ou caça colectiva, quando todos os homens se ausentam, tinham verificado a vantagem de elas também terem um tanque idêntico e cuidarem melhor da sua higiene íntima e da higiene dos filhos.
- Porquê eles tomam banho bem e nós é que ficamos à tomar banho com os animais? - Reclamou Kilombo, a coordenadora do núcleo feminino. - Esse Mangodinho vai ter de se ver connosco!
 
...

domingo, janeiro 08, 2017

PRECONCEITOS MORTAIS


Sandro é um trabalhador empenhado, daqueles que mesmo adoentado se esforça em comparecer e despachar os assuntos muito importantes e muito urgentes.
 
- Copos só à sexta-feira para que consiga descansar ao sábado e, se a ressaca persistir, ter ainda o domingo para estabilizar a "máquina".- Assim de gaba e faz religiosamente.
 
Em casa, Sandro usa de um copo de vinho à refeição. Normalmente só ao jantar e não tem amigos de rua ou de bairro. Os seus Kambas São de infância, adolescência e outros do instituto e universidades. Conserva os vínculos mas a idade, o tempo e os afazeres levou-os a viver em zonas diferenciadas, sendo os encontros sazonais.
 
Na última quadra festiva, que abrange o natal e passagem de ano,  Sandro ficou acometido de uma "apertada gripe" que lhe "roubou" a voz. Alguns membros da família que o visitaram, no início do novo ano, ao verem-no afónico, logo associaram aquela maleita à excessivas gritarias na "noite da virada". Deu pouca importância. Os filhos defenderam-no.
 
- O papá está doente de verdade e nem sequer usou do álcool. Nem mesmo foi ver o lançamento de fogo de artifício.
 
Porém, o preconceito de associar doenças pré e pós-festivas  a excessos ficou por aí. No dia segundo do mês primeiro, Sandro, como sempre fez nos inicio de cada semana laboral, fez-se ao local de trabalho. Os colegas de outros departamentos trocavam "kandandos" vocalizados. Menos ele que acrescentava ao abraço o que a voz não lhe permitia.
 
- O Dr. Sandro é que teve festa de verdade. Já viram como está a voz dele?! - De uma suposta brincadeira mal intencionada, passou-se a uma apreciação geral em todo o edifício. Até os que podiam ajudar, deixaram-se levar pelo preconceito e aconselham "mais whisky para o desencarceramento da garganta".
 
Sandro está há uma semana sem voz, trabalhando, entretanto. Aos colegas que o abordam só lhes ocorre o excesso festivo. Infelizmente, "Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito" (Albert Einstein).
 

domingo, janeiro 01, 2017

CONTEMPLANDO A PISCINA


Era pescador, embora não fosse a única profissão dele, pois os homens nascidos à beira do rio Longa tinham decidido ter três ocupações fundamentais: a agricultura em que se destaca a mandioca, a pesca do 'kikele" (peixe que se assemelha a tilápia, mas com escamas em cartilagens) e a caça. Um "homem de verdade", irrejeitável por uma garota, devia se aprimorar nessas três "profissões" ou em pelo menos duas delas.

Zequeno ou Godinho era era um "homem completo". Agricultava, caçava, pescava e nadava como ninguém. Dizem que até os jacarés o conheciam e com ele "mimicavam" no fundo d'água.

A rede que mais usava era a de arremesso, embora usasse também a de recolha, semelhante a um cesto preso a uma vara. A segunda é a raspadeira ou "kikoyona", enquanto a primeira é tratada carinhosamente pelo vocábulo ambundu de "wanda" (rede).

Mangodinho, para os mais novos, estava em Luanda. Primeiríssima vez.

Na casa do tio onde se hospedara, os olhos sempre na rede que cobria a piscina. Os ouvidos na electrobomba que rosnava incessantemente. Nos ouvidos dum campestre aquilo parecia o apitar de um grilo dos brancos. Era tanto o uso da água que fazia a bomba electrica não descansar.

Sempre atento e desperto, Mangodinho viajou ao Kuteka, sua terra natal, e à sua caixa de conhecimentos e experiências. A caminho de cinquenta anos, na sua aldeia natal, já tinha visto tudo, até elefantes, menos uma represa cuja água entrava e saia sem que houvesse um rio que a alimentasse. Ainda mais a "lagoa" com uma rede por cima.

- Não terá peixe? E porque não se pesca, se está tudo aí, em casa? Porque se compram malas de peixe para alimentar os que choram connosco, se a lagoa tem rede e não se conhecem rios caudalosos sem peixe?

A cabeça de Mangodinho era uma fábrica de inquietações, mas respostas claras não encontrava. Nem pessoa disponível para partilhar seus pensamentos.

Viveu a aflição semana e meia até que surgiu a oportunidade de desabafo. Chegou o Mbondondo, amigo de infância. Anos longos de convívio, desafios de mergulho e maior tempo debaixo de água, no caudaloso Longa. Mondondo abandonou a aldeia, faz tempo, mas a amizade carregada de laços parentais não se esvaiu.

- Epá! - falava Mangodinho em Kimbundu - Viste aquela lagoa lá dentro? Parece mesmo lagoa de rio com peixe, jacaré e tudo. A água está a ferver!

- Sim, Zequeno. E assim estás a pensar o quê?

- Epá! Só me estou a imaginar na banda. Já tem "wanda" por cima e só falta pôr "matadi" (esferas de argila queimada que permitem dar peso e fundear a rede depois de arremessada ou armadilhada para a faina no dia seguinte). Acho mesmo que deve ter peixe!

Mbondondo na gargalhada. Mergulho profundo. Nem uma nem duas.

- Ó Zequeno, acorda. Piscina é só para tomar banho e a rede é para ninguém cair dentro dela. Acorda Zequeno, não fica burro, estás em Luanda!


Texto publicado pelo Jornal Nova Gazeta

quinta-feira, dezembro 29, 2016

MANGODINHO NO ISTIMO


O óbito da prima Cici, falecida aos 22 anos, quando frequentava o quinto ano de medicina geral, tinha sido menos demorado do que o habitual nas comunidades rurais. Enorme que foi a perda, o casal decidiu espalhar o mais cedo quanto possível os familiares que tinham viajado de longe e se esforçarem a encarar aquela dura realidade. Sendo do ciclo familiar mais próximo, Mangodinho ficou mais umas semanas em Luanda, ajudando aqui e acolá, na recomposição da casa.

A piscina, sua "lagoa imaginativa", precisava de ser esvaziada e limpa. O jardim, verde florescente dias antes, reclamava por rega, poda e limpeza. As paredes interiores, brancas de neve, apresentavam marcas de pés descalços e até mesmo sapatões poeirentos e ou lamacentos. Havia resto de qualquer coisa em algum lugar.

Foi já a fechar a metade do mês que recebeu o convite do coetâneo Mbondondo para conhecer o istmo de Luanda.

Num velho Corolla, que andava resmungão, cortaram a cidade toda pelo meio, até se enfiarem numa língua de terra abraçada pela água salgada. Mangodinho sentia o cheiro à maresia mas não divisava o mar que, à noite, camaleava do azul para negro.
 
- Zequeno, ouviste falar sobre a ilha que levou a nossa prima, não é? É então aqui. Chegamos.

- Ó primo, Mbondondo, ilha é aqui mesmo? E água de sal então está aonde?

- Calma, Zequeno. Não fala alto, porque aqui tem pessoas importantes e podem pensar que somos do mato.

- Mas ser do mato é mal? Então, quando eles vão ao mato, também não nos costumam perguntam "aquela camontanha nome dele é qualé? Aquele rio nome dele é quê?" É mal perguntar em Luanda?

Mbondondo na defensiva, magicava respostas equilibradas. Procurava mostrar aos que os rodeavam que ele era já quase um Kalu. Procurava também não ofender a honra do amigo que tinha uma visão do mundo diferentes dos kaluandizados.

- Mas ó Mbondondo, então, aqui na ilha também tem aldeias muito escuras tipo no mato?

- Como assim, ó Zequeno, se as ruas todas por onde passamos estão iluminadas e o bairro tem energia? Onde é que você viu escuridão?

Mangodinho, o Zequeno, levantou a cabeça e com o braço direito esticado levou o seu interlocutor a esticar a cabeça para a mesma direcção do "infindável" Atlântico.

- Epá, olha: essa aldeia aí se parece com a nossa Pedra Escrita. Só tem uma casa com gerador!

Um navio, ao Largo, aguardava ordem de atracar no Porto Comercial de Luanda. Erá único no mar do horizonte visual.

- Zequeno, fica espero. Tudo isso que te parece mata é mar. É só água com sal. Água do mar, kalunga-Lwiji. É um rio sem fim. O que estamos a ver é barco longe, no mar. Não é casa com gerador.

Entraram numa tasca e beberam do que o bolso permitiu. Quando o álcool começou a falar mais alto do que todas as vozes juntas, abraçaram-se e choraram juntos.

- Esse é o mar, dá alegria aos caluandas a quem tira stress, aquele cansaço da cabeça de quem trabalha no escritório. Tira sarna às pessoas que vêm da bwala. Mas também dá tristeza. Água do mar é pesada e tem kalema que enrola pessoa, mesmo nadadora famosa no Longa como nós. Kalunga é alegria e morte. - Explicou Mbondondo ao seu coetâneo Zequeno que bebeu mais um trago e adormeceu.

quinta-feira, dezembro 22, 2016

NA HORA DA JANTA

A família, os parentes mais chegados, aqueles que faziam o vem e volta, e os amigos chegados que estavam aí para dar força e encorajar o casal e a filha intermédia, ocupavam três mesas: uma era a do pai com os seus. Falavam conversas de homens que iam da política externa, interna e outras coisas para amenizar o peso do tempo pachorrento. A mãe da jovem de cujus ocupava igualmente uma mesa de dez lugares e falavam coisas suas de mulheres. Na terceira estava a filha, quase a atingir a maioridade, as amigas, colegas e primas. Falavam sobre escola e juventude, não faltando assuntos sobre redes sociais.
Mangodinho preferia um lugar mais discreto. Ora se juntava aos seguranças ora às tias que se abrigavam na parte frontal da casa.
Jantar à mesa, pratos, cubas gasosas, vinho, água.
Mangodinho atento aos movimentos dos ocupantes da mesa masculina. Cada servia uma porção de vinho e bebia com preguiça.
- Mas, esses estão sem vontade ou o vinho que bebem não lhes cai bem? - Ficou a pensar, antes de engendrar a sua táctica do rápido entorpecimento.
Chegou-se à mesa, meio afastado. Serviu comida, o seu funje preferencial. Baixou vinho da garrafa à caneca. Simulou que provava mas deixou o líquido escorrer-lhe a garganta até sentir a última gota. Rondou o ambiente, e viu que não tinha palavras para aquela assembleia.
- Colicença, pai. - Saiu, inclinando o tronco para frente, em forma de vênia, marcando passos a recta-guarda.
Mangodinho não era homem de desprezar o vinho é dormir lúcido. Informou-se sobre a chave da cozinha.
- Está aberta. Disse-lhe a tia.
- Vou buscar água para o motorista que está aí atrás.
A tia aprovou, com o norte-sul da cabeça.
Caneca na mão. O vinho em pacotes de que as mulheres se serviam para temperar estava à mostra. Sacou o canivete da algibeira e fez o corte. Puxou o banquinho, tranquilo. Caneca na pacote na mão. Olhou à volta e ninguém olhava para ele. Os vidros eram espelhados, excepto um que deixava fugir a sua imagem para fora. Estava na direcção do tio, o dono de casa. Encheu a primeira, largou-a goela abaixo. Limpou a boca com a ponta da camisa. Girou a cabeça para se assegurar que estava tudo conforme. Ainda não sentia a casa a se mover nem as estrelas correr. Espiou, de novo, os que ocupavam as mesas no quintal. O tio sempre de olho nele. Menos ele que não o via. O vidro espelhado estava invertido. Repetiu a procissão: caneca na mão, pacote na mão. Um, dois, três, levou o líquido à boca e, sem pausa, tragou a uva.
O tio sempre a seguir-lhe os movimentos. Pôs-se em pé e volteou a casa, regressando por outro caminho até à porta da cozinha.
Mangodinho preparava a terceira e última caneca. Distribuiu olhares para as três mesas e não viu nada que o impedisse.
- Eles estão mbora a conversar coisas deles de Luanda. Vou aproveitar.
Quando a terceira caneca, repleta de vinho, se encontrava entre o chão e a boca, o tio aproxima-se sem que ele se apercebesse.
- Quem está a beber vinho tipo água?
Em contramão, a boca perdeu a agilidade de falar, mas a mão já levava força para a boca. Vinho foi água no corpo de Mangodinho.
- Vai já tomar banho, seu indisciplinado. Vinho aprecia-se. Não é água e não precisas te esconder para beber. Toma banho e vai à mesa que há vinho que chega para te afogares!

quinta-feira, dezembro 15, 2016

MANGODINHO COM NOVAS IDEIAS

Três semanas na Ngwimbi não são vinte e um dias quaisquer. De volta à aldeia, Mangodinho é um homem transformado. À mesa só com garfo e faca, embora garfo à direita e faça à esquerda. Vinho ou caporroto só no copo. A caneca era para outras bebidas. A barba e o cabelo estavam arranjados. As moças da Pedra Escrita, que há muito viam Mangodinho como um velho, têm-no agora como o "jovem mais organizado". Afinal, idade são apenas números. Juventude é o estado de espírito. O sentir-se à vontade, respirar sangue puro, mesmo como oxigénio escasso. Mangodinho deixou de ser tratado por tio. Agora é mesmo Manzequeno pra cá e Mangodinho pra lá.
Entre os pares e coetâneos, Zequeno é quem mais fala. Tem as estórias frescas. Tem as ideias mais brilhantes.
- Epá, quando um gajo chega na Ngwimbi, pode mesmo ter estudado muito, mas fica ainda um pouco atrapalhado. - Dizia ele. - Aqueles carros todos, o falar afinado das pessoas, a vaidade que têm no andar e no vestir, as coisas que até os pobres têm nas suas coisas e tudo mais fazem um vivo daqui virar piolho. É verdade mesmo.

Os amigos, viajados ou não, todos na estupefação.

- Mas, Mangodinho, aqueles filmes que andamos a ver sobre Luanda é verdade ou é mentira? - Perguntou Ndjuce, rapaz de dezoito anos que se achava à volta de Mangodinho regressado de Luanda.

- Vocês aqui andam a se perder. Daqui em diante, eu vos digo mesmo, quem tem poder vai. Vejam-me. Você volta leve. Luanda leveda a pessoa. Sarna fica. Piolhos morrem. Matumbice diminui. Você trata o branco por epá.

- É verdade, Mangodinho, até branco você lhe bate nas costas?

- Não fica mais burro. Prepara macroeira e, mês que vem, me acompanha. Vais ver o meu pai a lhes bater no ombro e lhes dar ordens. Diferença está só mesmo no estudo. Se a pessoas estudou mais e é chefe, branco contigo não torra farinha. Eu mesmo estou a pensar me meter na alfabetização. Pelo menos, assim, esses kafussas que andam a vir trabalhar na obra da estrada já não me vandalizam. Temos que crescer. Por hoje chega. Vou planificar algumas coisas que vi lá em Luanda e que podemos também fazer aqui. Vamos descansar e pensar.
 


Nota: texto inserto no jornal Nova Gazeta de 12.01.2017 

quinta-feira, dezembro 08, 2016

SOZINHO EM CASA

MANGODINHO
O casal enlutado tinha saído. Para aonde ninguém soube, nem mesmo eu. As crianças tinham ido espairecer em casa duma tia. Procuravam todos por um clima de descompressão.
- Zequeno, pai!
Estamos a sair por alguns instantes. Os da família, já sabes. Recebe e atende. Pessoas estranhas, conversa um pouco para saber se são da parte da tua mamã. Se for, também acomoda. De resto, é só dizer que os da casa saíram.
- Está bem pai.
Zequeno, o meu Mangodinho, tinha já roupas novas e um cabelo arranjado. Já se parecia a um homem em transição de campestre para urbano. O tio, a quem tratava por pai, tinha decidido melhorar o seu "looking" e ofereceu-lhe as roupas do tempo de magreza que estavam em sobra.
O tempo era de calor, quentura de Novembro com 34 graus. "Esse sol de Luanda até sardinha assa", a expressão foi mesmo dele ao se retirar do quintal, onde apreciava ao detalhe a sua querida "lagoa" e com forte vontade de a adentrar. Apenas o pudor o inibia de tirar as calças e mergulhar na frente de pessoas.
- No mato não é assim. Pessoa vai ao rio e toma banho longe das mulheres e das crianças. Aqui perece que a vergonha lhes fugiu e ficam todos misturados na mesma lagoa. É pai, é filho, é mãe é visita, é tudo. Isso no mato traz reunião dos mais velhos. É mesmo vergonhoso.
Sentado no sofá da sala de cinema, onde o ar frio, expelido por um potente aparelho de AC, substituía o cobiçado banho de água corrente, Zequeno buscava entender cada detalhe daquela moradia de três pisos.
- Possas, Luanda é grande. - Exclamou ao enviar os olhos para os quatro lados que o piso cimeiro e a vidraça permitiam ver. Foi naquele instante que ouviu o telefone fixo tocar na sala de estar.
- Trimmmmm, Trimmmmm.
Mangodinho na dele. Telemóvel já tinha visto de vários tipos e modelos. Ele, inclusive, tem um. Mas telefone fixo nunca ainda tinha atendido. Ficou a pensar como atender.
- Trimmm, trimmm. - O aparelho voltou a tocar e com mais alto volume.
Mangodinho desceu a escada numa corrida de vento. Até hoje se pergunta como não tropeçou. Chegou quase sem ar nos pulmões e decidiu experimentar o atendimento. Estava sozinho e, caso não o fizesse bem, ninguém o saberia. Levantou invertido o microfone-auscultador.
- Alô, alô, alô. Não falas porquê. Liga mais tarde. Os donos de casa não estão.
Sem ouvir quem estava do outro lado, pousou o microfone-auscultador.
Abriu a geleira e sacou uma gasosa. Antes de a abrir, o telefone voltou a tocar.
Trimm, trimmm, trimmm...
- Já te disse, ó senhor, estás a insistir porquê. Os donos de casa saíram. Ou queres então falar com o cão? É único que deixaram a me fazer companhia (tudo expresso em Kimbundu).
Desta vez, tinha usado correctamente o microfone e permitiu o interlocutor ouvir.
Quando os donos de casa voltaram, foram só risos. Tinha sido o tio a ligar para informa-lo que o almoço, em banho-maria, estava na cozinha e podia abrir uma garrafa de vinho.
O infeliz, almoçou pão com gasosa.

quinta-feira, dezembro 01, 2016

MANGODINHO NA NGWIMBI

Nome dele, do bairro e das amizades, é Zequeno, um diminutivo de José Pequeno. Mas apelido dele é mesmo Godinho, nome por que passou a ser chamado nos últimos tempos. Quando nasceu? Não se sabe. Calcula-se apenas, rebuscando as idades de seus coetâneos e daqueles que levou às costas como eu.
 
Sonho dele, de muito tempo, Mangodinho, era conhecer Luanda e fê-lo por uma razão de tristeza. As vezes em que podia vir, passear, respirar ar fresco da brisa do mar, visitar largos com jardins e repuxos, essas vezes lhe passaram. Ora era falta de passagem, ora era a ferida no pé, ora era sei-lá-o-quê.

Óbito na família chegada. Menina crescida desapareceu tragicamente numa sexta de praia na Ilha. Luto anunciado ao telefone da tia, no Libolo, Mangodinho veio junto. Calças: um par. Camisa, idem. Um casaco e um par de sapatos. Relógio, já sem ponteiros, no pulso, Man Godinho tipo é homem de verdade. Fez-se à estrada na carrinha enviada para os resgatar.

Na ngwimbi, como dizem as gentes do “nosso mato”, Mangodinho foi contemplando a grandeza das casas à volta, o falar refinado, até das zungueiras, e o andar estiloso, até dos vendedores de Kangonya. Cigarro na boca, sem estilo na mão, um fumar apressado, correndo com o cilindro que fumegava incêndio, posicionou-se num canto da rua. Ao lado, o esposo da tia com quem viajara.

O telefone do tio tocou. Do outro lado, dita-se um número. O tio, sem saber como anotar no aparelho, desenha os números do solo arenoso. Enquanto corre à casa, para sacar a agenda e a lapiseira, o tio incumbe:

- Sobrinho Zequeno, não sai daqui, eu volto já. Controla o número para que não passe carro por cima dele...

 Mangodinho fez-se estátua. Pessoas passavam, cumprimentavam-no, ele sempre de cara para
o chão dos algarismos. Veio o vento, soprou forte. Mangodinho lágrimas nos olhos é água. Chorava a prima finada aos vinte e dois anos, quinto ano de medicina. Mas chorava também o número do telefone que o vento levou.

Caneta partida pela enxada, corrida às pacas e pescarias no Longa. Do chicote do professor Kakonda, herdado pelo mestre Faustino, Mangodinho apenas ténues lembranças do Bê com Â: BÂ. Técnica de redesenhar algarismos na areia movediça não tinha.

- Que direi quando o tio chegar?!

segunda-feira, novembro 28, 2016

ACHADOS E FUTADOS

 
Uma foto, encontrada no face book sobre a fabricação rudimentar de utensílios metálicos, algures na Lunda Norte, fez-me recuar no espaço e reviver o meu tempo de aprendiz de uma velha arte, a da manipulação do ferro em novos utensílios. Assim, revisitando o meu guarda-recordações, deparei-me com algumas nótulas.
Sempre que houvesse um acidente, capotamento por exemplo, sobretudo se fosse de camião, quatro peças do veículo em desgraça desapareciam num abrir e fechar de olhos, na primeira visita efectuada dos aldeões mais próximos.
1- O espelho: serve para manter a "boniteza" em dia. Já vi, mais antes do que hoje, casas adornadas com espelhos retrovisores de viaturas.
2- Cabos de aço flexível que suportam a embraiagem: esses atendiam/atendem uma das actividades económicas do homem do campo, complementar à agricultura e à pesca. A caça. Os laços e outras espécies de armadilhas para animais de médio porte são feitas com esse material de extrema raridade e importância no campo.
3- As molas em barras, também são de capital utilidade para a caça. Servem o ferreiro que, com ajuda do fole, forja as armadilhas (chamadas erroneamente po "ratoeiras"), os machados e machadinhos (nyanga ou kanjaviti), faças, flexas, laças, etc. Já servi de ajudante de ferreiro, antes de atingir a primeira década de vida, e manipulei quer o fole, quer a bigorna, o martelo, o alicate e outros instrumentos.
4- Finalmente, o veio de transmissão: tem uma parte tubular que não é ferro maciço. Essa, depois de cortada pelo ferreiro, vai atender a destilação da "makyakya", kacipembe ou caporroto (o nome varia de região para região), líquido que entorpece mas que devolve alegria aos aldeões depois de muito agricultar, pescar e ou andar atrás de presas que alimentam o estómago.
Cabo de aço flexível, molas em barras, espelho retrovisor e veio de transmissão são peças cobiçadas no campo. Saiba.

Texto publicado no Nova Gazeta de 10.11.2016

segunda-feira, novembro 21, 2016

KYAMAFULU

Kyamafulu: Assim se chamava o controlo/posto de fiscalização instalado junto à ponte sobre o Kwanza, entre Libolo e Kambambe.
 
Circulavam sobre a Estrada Nacional 120, Kibala ao Dondo. Quissongo, Gango e Quitúbia, regiões com ocorrências diamantíferas, eram inacessíveis para civis que ali não residissem. A guerrilha oposicionista estava no auge.
 
No IFA carregado de sacos de macroeira, pareciam mendigos espalhados pela casa da sopa na hora doze. O relógio até que tinha os ponteiros esticados verticalmente em ângulo de 360 graus. Eram 12h30 momento em que chegaram ao Kyamafulu, depois de duas manhãs e uma noite a transpor 150 km de distância que separava Kibala ao Dondo.
Kapequel era do Sumbe e terminara o seu segundo ano de professor brigadista em Calulo. Kanhanga é do Libolo e fora seu aluno. Manuel Kambuta, natural do Mussende voltava à Gabela, depois de um ano lectivo no internato da sede do Libolo. Era o adeus àquela vila. Havia na viatura tantas outras almas: homens, mulheres e crianças, tinham naquele IFA sem cor e cansado, fumegante e a espalhar cheiro a gasóleo por onde passasse, a solução derradeira para chegar à civilização que era Luanda. Uns chegariam vivos e saudáveis. Outros talvez estropiados por um arbusto pendurado à estrada e outros ainda, os homens saudáveis abrangidos pelo serviço militar, com o coração na mão. Guia de marcha, adiamento ou passaporte de disponibilidade, documento de invalidez, cartão de escola, bilhete de identidade, entre outros documentos deviam estar previamente arrumados antes de se chegar ao purgatório.
_ A ponte sobre o Kwanza, separando Kambambe e Libolo, é já ali. - Avisou uma senhora viajada e avisada das contrariedades que podiam encontrar.
Kanhanga ignorava o "pente fino" pois julgava-se ainda desabrangido pela vida Kwemba. Mas os mais adultos, os seus professores e colegas de último percurso não se cansavam de comer os dedos, roídas que estavam as unhas. O carro, que resmungava a cada salto na estrada esburacada, levava umas trinta pessoas distribuídas pela carroceria repleta de carga.
- Todos que usam calças devem pular e conferir as "cadaplas" aqui em baixo.- Atirou o soldado com a boina a encobrir-lhe os olhos e carregado de mau-humor.
Uns ainda tentaram fingir não ter ouvido, mas não tardou o soar da bala ao ar. O homem parecia disposto a alimentar os crocodilos de carne quente.
Todos: jovens, idosos, crianças e até mulheres de calças fizeram-se carga abaixo.
Era a vida do viajante homem, quando chegasse ao controlo militar na ponte sobre o Kwanza, em Kambambe. Kyamafulu (bicho mau) era assim.
Passei pela nova ponte erguida à montante. Linda e longa, mostrando o Kwanza a esticar-se preguiçoso para oeste, sem os rápidos da ponte antiga e sem a grande lagoa que surgiu por causa da hidroeléctrica de Kambambe. Um novo posto policial foi erguido acomodando também o corpo de bombeiros. Disseram designar-se também Kyamafulu.
- Kyamafulu, senhor polícia? Não pode ser. Aqui não há história que se conte nem estórias de roer as unhas. - Repliquei.
Kyamafulu só há um!

Obs: texto publicado na coluna "(Re)flexões leigas" do jornal Nova Gazeta, a 13.10.16

segunda-feira, novembro 14, 2016

"ORDENS SUPERIORES" LEVADAS A TEATRO DOMICILIAR

 
Quando os encontrei, era já noite.
Brincavam: uns geriam uma barragem hidroeléctrica. Outros eram os chefes imediatos. Havia os chefes dos chefes e um chefe máximo que baixava ordens a todos. Era o "OS".
Sabendo que eu os mandaria fazer as tarefas escolares, combinaram que alguém ficasse ao lado da barragem (disjuntor), para tão logo recebesse a "ordem superior" do seu chefe, baixasse o interruptor.
 
 
E assim fizeram. Sei lá de onde puxaram a ideia, os meus filhos e sobrinhos. Entre os sobrinhos junto filhos de vizinhos que me tratam por tio.
 
Bastou o meu "boa noite meninos" para ouvir, num canto qualquer da casa, o grito "baixa a barragem, ordem superior".
De imediato, eu que me preparava para, como sempre, manda-los fazer os deveres de casa, fiquei na escuridão.
Muxoxei para a coitada da Ende. Tinha caído num ardil dos infantes.
 
Esses miúdos de hoje em dia são perigosos. Isso mesmo. Perigosos. Inventivos. Custa acreditar. No meu tempo de undengue éramos habilidosos em fazer coisas experimentáveis, objectos. Hoje teatralizam nossas vidas.
 
- Fidacaxa!

segunda-feira, novembro 07, 2016

INSULTOS CONSTRUTIVOS

 
Conversávamos sobre futebol de "primeira água". O Girabola regista uma duas emocionantes corridas, sendo uma para o topo e outra para escapar a despromoção, quando já são conhecidos os novos primodivisionários.
Alguns dos meus amigos, adeptos de outras equipas de futebol que se deslocam a Calulo, dizem-me, a brincar, que os mais ferrenhos adeptos do Recreativo do Libolo, aqueles que, realmente, fazem o Recreativo vencer quase todos os jogos que realiza em casa, nunca se fazem ao campo.
Indaguei, curioso, a um desses amigos por que será que considera ele que o Recreativo do Libolo tenha adeptos ferrenhos que ajudam a vencer os jogos sem que se façam presentes no Estádio Patrício Lumumba, de Calulo?
Paulo, o que mais falava, exibiu a câmara fotográfica e começou por mostra-los um a um, em função da sua "corpulência". Eram, segundo ele, possuidores de "vozeirões", capazes de inibir e cansar, à partida, qualquer adversário da sua amada equipa que se atrevesse a passar por eles. Mesmo assim, depois de vistas as fotos, ainda repliquei.
- Mas, desses "adeptos" temos em todo o país onde se jogue futebol de primeira água. Vá, por exemplo, a Benguela aonde cada girabolista se desloca duas vezes ao ano. Vá à Lunda Sul e Lunda Norte. Vá ao Lubango e Menongue. Vá a N'Dalatando e encontras o mesmo tipo de adeptos.
Paulo olhou-me firme e demoradamente, sem nada dizer, e buscou uma explicação.
- Mas, ó libolense. Sabes que para distâncias mais longas as equipas vão de avião e aqui era de evitar...
- Sim, luandense. Aqui, em Calulo, também temos uma pista de aviação que fica a três quilómetros do hotel e mais um quilómetro para o campo. - Explicitei.
- E achas que os buracos são saudáveis? Achas que a vós faz felizes, ter de viajar por estradas sinuosas, sempre que se desloquem a Luanda? - Voltou a replicar, pretensioso de me "insultar" como fazem sempre os adeptos perdedores.
- A situação é preocupante mas conjuntural. - Rebati. - Sabes que nós, do Recreativo do Libolo, tanto ganhamos em casa como também o temos feito em terreno alheio. Com ou sem adeptos estáticos. Passamos pelos adeptos-buracos e pelos adversários!

Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 20.10.2016