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quarta-feira, fevereiro 22, 2017

MAKA NA SANZALA


Os três primeiros dias foram de experiência e não havia limitação de acesso. Homens e mulheres trilharam o caminho da piscina fluvial que dista a meio quilómetro da aldeia. Porém, ninguém retirava as roupas para provar a água, com excepção das crianças que não se coibiam em mergulhar, mesmo vestidas, ludibriando os mais velhos que não saiam do ver e imaginar aquele tanque a amansar o corpo ardente em dias de calor intenso. Enquanto o Mangodinho não tocasse o apito de partida, os homens e as mulheres adultas ficavam só a nadar com os olhos.
Festa grande acontecia mesmo no coração de Mangodinho que no seu canto festejava o feito que quase lhe custou o epíteto de louco.
Com os homens já a frequentar regularmente o sítio, algumas mulheres decidiram experimentar também a piscina, se bem que à revelia.
- Mana Cati, fica na montanha a ver se vem alguém. Se estiver a vir homem, assobia. Depois será a tua vez de experimentar a lagoa do Mangodinho. - Combinaram as mulheres que tinham Kilombo na linha da frente.
Mangodinho até estava a pensar em estabelecer horários para homens e mulheres frequentarem a e limparem a piscina, mas, aquelas fraldas deixadas às pressas por mulheres que se foram lavar no sítio dos homens deixaram-no enfurecido.
- Possas, esse abuso não. Essas senhoras, assim, na capital não vivem. São corridas. Um gajo tenta civilizar e ainda recebe "adubo" de agradecimento? - Vociferou. - Miúdo Russo, você viu a chacota que me fizeram. Todos me diziam "Zequeno é xoné". Você, por me apoiar, também apanhaste por tabela. Agora que o lugar está bem, surgem cavalonas a deixar porcaria na "peixina" e, ainda por cima, a mandar vir? Escreve só, por favor, nessa chapa o que te vou ditar.
Foi assim que Mangodinho pregou a chapa no barrote que plantou a trinta metros do rio, concretamente, no sítio em que as mulheres faziam plantão para espionar se vinha homem da aldeia. Mas as mamãs da OSA, organização das senhoras angolanas, queriam "tratamento igual".
- Não pode ser. Ou as mulheres frequentam a piscina de manhã: tomam banho, lavam os filhos e vão cuidar dos maridos e dos velhos ou os homens tomam banho à tarde, quando vêm dos seus afazeres. O Estado já disse que os direitos têm de ser iguais, senão vamos 'se' queixar no Quem-de-direito. - Ameaçou Kilombo, a senhora coordenadora da OSA.
Toneco Avelino, o responsável máximo da aldeia, a quem se deviam "subordinar" todas as organizações sociais, tinha um assunto bicudo.
Mangodinho tinha razão dele. O próprio Toneco tinha depositado algum descrédito quando lhe foi apresentada a ideia da lagoa. Apenas deixou acontecer para não refrear as ideias quentes que o homem trouxe da Ngwimbi e não prejudicar a revolução na aldeia. Era lema dele. Toneco apelava sempre “quem vai a uma terra distante, mais avançada do que a nossa, tem de trazer outras ideias que nos façam evoluir”. Dizia também, não sei quem lhe pôs tal ideia na cabeça, que “mesmo Luanda, quando começou, também era uma aldeia como a nossa. Apenas as pessoas é que evoluíram e começaram a fazer coisas novas e bonitas”. Por isso, deixou o Mangodinho avançar com a ideia dele da piscina no rio.
- No dia em que encontrou fraldas à beira da piscina e outros filtros usados somente pela camada feminina, esses objectos foram-me apresentados e estão devidamente registados e depositados em sítio localizável. Está a camarada Kilombo a solicitar reunião urgente. Que fazer? Assim digo que o Mangodinho tem razão dele ou as mulheres é que reclamam com razão?
Toneco foi dormir com cabeça quente. Tem de se acalmar para resolver o assunto que está a dividir a mana Kilombo, o Mangodinho e todos os apoiantes de cada ala.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

A FORÇA DAS IDEIAS

Fazia calor intenso. Era Março chuvoso. O capim já alto, com orvalho carregado às manhãs, fazia dos atalhos interiores autênticos desfiladeiros. Caminhar, tirando na estrada asfaltada, era apenas coluna por um.

Mangodinho foi receber o soba Toneco que acabara de chegar de uma reunião na comuna.

- Hoj'etu! - Saudou Mangodinho, que se antecipou as tradicionais três rajadas de palmas triplas.

Toneco apenas sorriu e bateu-o no ombro.

- Epá, estás bem, Manzequeno. Já te disse, somos amigos. Hoj'etu vou só te responder quando me substituíres no sobado. Falavam descontraidos. Toneco estava também expectante quanto ao que Zequeno proporia como inovações na aldeia, regressado de Luanda.

- Ó Manzequeno, já viste a diferença entre a nossa aldeia e as outras à volta?

- Sim, Mantoneco. É a força das ideias.

- Camarada secretário, orientaram-nos fazer latrinas para prevenir doenças da pela e bichas que fazem inflamar as barrigas das crianças. - Informou o Soba.

- Ainda bem, nosso Soba. - Respondeu Mangodinho. Essa é uma das ideias que trouxe e já a comunique ao povo para pensar enquanto o Soba estava ausente.

Os dois marcaram passos pelo terreiro da casa de Toneco. Mutúmbwa, esposa do Soba. colocou duas cadeiras debaixo da árvore e Toneco serviu um pacote de vinho que acompanharia a conversa e aligeiraria as ideias.

- Ó Manzequeno, notas a diferença entre a nossa aldeia e as outras à volta? Até o camarada administrador reconheceu e pediu outros sobas e secretários a nos visitarem nos próximos dias. - Informou o régulo.

- Sim, Mantoneco. Quando o Soba é bom professor, bom pai, bom conversador as coisas acontecem. É a força das ideias.

- É, à propósito, já nos habituaste trazer ideias. Sabes, que quando os outros vierem vão fazer tudo igual, e nós temos de lhes passar à frente. Na tua bagagem veio o quê dessa vez?

- Já lhe falei da ideia das latrinas. Vamos fazer uma comunitária ao lado da árvore das reuniões. Cada pai de família vai também fazer a sua. Minha ideia é darmos prazo de um mês e meio.

- E que medida vamos propor a quem não cumprir? - Questionou o Soba.

- Bem, acho que vamos, propor para todos fazer em adobes queimados ou trabalhar na lavra comunitária.

Toneco, sacudia o pacote que reclamava por outro substituto, enquanto Mangodinho levava as últimas gotas do tinto à garganta. Da cozinha era o cheiro à galinha kabiri temperada que se fazia anunciar.

- No campo das ideias, professor Toneco, pensei também fazermos já uma casa para o posto médico. Se nós construirmos já é depois formos pedir enfermeiro, acho que vamos conseguir. Se não nos darem também tenho outra ideia.

Toneco na expectativa, a boca era banquete para moscas. Quase, quase.

Vamos pedir para cada pai fazer duzentos adobes queimados. Mas a planta que trouxe para a latrina só vai gastar setenta e cinco ou cem. O resto vai para o posto. Também já estou a sondar dois miúdos que vamos mandar na Huíla fazer curso de enfermeiro. O meu pai vai patrocinar viagem deles e curso lá. Assim, se o administrador não nos dar doutor nós mesmos vamos resolver o problema.

- Boas ideias, Manzequeno. Boas ideias. Amanhã vamos convocar o povo para saber das recomendações do Sô administrador e das novas ideias do Sô secretário.

Mutúmbwa mandou Zezito, filho kasule, exibir a senha.

- Papá, o tabaco está a queimar. - Rapaz, rápido nas corridas, Zezito enfiou-se de novo na cozinha.

Toneco puxou pela mão do amigo e foram à sala almoçar. Era cabidela regada com um vinho português. As ideias continuaram a correr. Tal chuva, tal rio repleto de água farta.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

A UNIÃO DOS REENCONTROS

Já foi assim no tempo de férias, quando frequentávamos o ensino médio no IMEL. Ir às tertúlias na União dos Escritores Angolanos era um dever quase sagrado. Primeiro, para atender a professora Gaby que fazia questão de lá ver os seus alunos. Depois, tornou-se moda e aqueles que, sem justificação plausível, faltassem aos debates na União eram alvo de chacota  entre os colegas. Assim, os do meu tempo ganharam o gosto.
 
O tempo foi passando. Corrida para conseguir emprego, empenho para convencer o empregador e o chefe, busca de maior e melhor remuneração, etc. e o tempo foi escasseando até às idas à União se tornarem numa intermitência. Mas a UEA está ali, no mesmo lugar, desde os anos subsequentes à emancipação de Angola. Ali, no largo das escolas.
 
E foi numa dessas idas intermitentes, quando do lançamento do "Economia informal: o caso de Angola" e "O homem que cultivava pedrinhas", livros de Francisco Queiroz e F. Tchikondo, que partilham o mesmo homem intelectual, que voltei a sentir o sabor do reencontro. Reencontro com o tempo e com os amigos.
 
Um rapaz, bem vestido e bom falante, exibindo sólidos conhecimentos sobre economia e aparentando não ter andado em uma universidade qualquer abordou-me dizendo que eu era tio dele e devia recorda-me do seu nome. Um trabalho de memória. Supliquei que reconhecia o rosto mas não me vinha o nome. Mas ele, meio teimoso, não se apresentava. Passados minutos de debate e abrir o guardador de memórias Lá descobri que é o primo Vaticano, filho do meu tio "Gasolina" (Augusto João, já finado).
 
Depois foi o Bino Carlos, meu professor na Universidade Privada, a tratar-me por confrade. 
 
- Das letras (ele também é escritor) ou do professorado? - Interroguei-me em silêncio enquanto aprontava o merecido kandandu. Professor Bino, muito prazer em estar contigo!
E ele, sempre bem disposto e esbanjar charme e sorrisos.
 
Sentado no meio da "floresta humana", reparo à frente: carnes, um pouco avantajadas, de um antigo colega do ISCED.
 
-"Olha ainda atrás, ó sô tor". - Disparei para ele uma mensagem telefónica, ao que me mandou, no seu lugar, "um cumué, Fixe?~
 
Quando parecia ter revisto todos os amigos e conhecidos, eis que me aparece um dos mais cotados juristas da actualidade com suas "memórias do IMEL"
-Star, estás bem? 
 
Naquele lugar e naquela hora só podia ser alguém do "meu tempo".
 
Virei o pescoço e lá estava o bom do Solano, o nosso Varito, que agora é doutor Evaristo Solano. Soltou um kandandu apertado e cheio de recordações.
 
Quem me dera poder estar em todas as quartas na União?!

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

SEGUNDA VOLTA


Cici ou Alcínia era uma jovem solteira vivendo sozinha, na nova cidade da capital. Era a forma encontrada para rentabilizar a casa que o pai estava a comprar com ajuda do Estado onde trabalhava e dar maior à vontade para se dedicar ao seu curso de medicina. Os objectos pessoais de alguma valia como mesa, cadeiras, sofá e até algumas peças de roupa tinham sido oferecidos a Mangodinho para "levar às tias no mato". Por outro lado, a carta dele Remetida via face book do primo Carlos Júnior, tinha chegado e sido bem interpretada. Mangodinho era daqueles que onde estivesse só fazia rir. Era "uma piscina de alegria", como dizia o seu tio. Por isso ao regressar da Ásia, as lembranças não faltaram. O dinheiro que habitualmente se aplicava em compras para a jovem finada foi usado para atender a carta de Mangodinho, um cinquentão.

- Zequeno!

- Pai!

- Abre essa mala e aproveita o que gostares. - Disse-lhe o tio.

Zequeno, o meu Mangodinho, tratava-o por pai por ser homónimo do seu. Mas na verdade a relação parental era de tio e sobrinho.

Óculos de sol, ray ban. Sapatos pretos, um par. Sapatilhas um par. Sandálias idem. Jeans, dois pares, relógio de marca, um. Camisas e t-shirts, boa quantidade. Ao regressar ao seu Libolo, Mangodinho era um "homem lavado". Cabelo cortado, barba aparada, sapatos: um espelho nos pés, relógio Calvin Klein, fato azul escuro, nem já um administrador. Na carrinha que o levava, ele no banco traseira, ocupava o lugar protocolar. Na carroceria se acomodava a sua moto de três rodas e carroça e outras imbambas. Vinho e gasosas não faltaram. Afinal, ela era um "quase doutor" e tinha um pai pesado e de "muito bom coração".

A mulher que tinha 'sengado' voltou. E ele a recebeu com deferência. Todos se rejubilam com o crescimento de Mangodinho, intelectual e material. Já tinha a casa reparada e com janelas de vidro espelhado, como a casa do miúdo Russo. A alfabetização dos adolescentes, jovens e adultos tinha passado para ele. Borracha, o professor enviado pela comuna, e Mangodinho eram os mais iluminados, sem ofuscar o brilho do soba

Toneco Avelino que era o pilar de sustentação da aldeia e a fonte de equilíbrios. A OSA de Kilombo e Cati estava também com ele e trabalhavam juntos na sensibilização da comunidade para que todos construíssem uma latrina.

- Fezes espalhadas pelo mato, não é bom. -Dizia nas suas preleções. - O que deitamos destapado no mato volta ao nosso corpo.

- Como assim, Manzequeno, se os porcos, normalmente e aqueles bichos que enterram a porcaria fazem trabalho deles? - Katembo, apesar de mulher mais instruída da aldeia, duvidou.

- Pois é, Mana Katembo. Veja: O porco come o que nós descarregamos e depois comemos o porco. Outras vezes o porco que sai da lixeira, e porque cada porco conhece casa do seu dono, ele vai também 'funhatar' na comida para as pessoas. Outro problema são os ratos. Eles passam no lixo e vem viver connosco. Temos ainda a chuva. Vivemos na montanha. Aqui é alto é o rio está na baixa. Todo o lixo fecal é arrastado para o rio onde retiramos a água para consumo. É por isso que tenho três projectos ligados à saúde comunitária.

- Mostra, mostra, mostra. Fala, fala, fala. - O povo, já conhecedor de suas ideias inovadoras, apressava-se em saber quais seriam esses projectos, que benefícios trariam aos homens e mulheres e qual seria o comprometimento de cada um. Mas Mangodinho não falou ainda, pois o Soba estava ausente e a situação, embora abordada com o professor da aldeia, merecia o veredicto da autoridade máxima.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, janeiro 29, 2017

DIA DE REUNIÃO


Era sábado de um ano bissexto. A aldeia de Pedra Escrita tinha deixado de ser um amontoado de gentes de várias origens e começava a se tornar numa comunidade homogénea. Toneco, o coordenador, recebera a missão de fazer daqueles retalhos, juntados à força de balázios pelo Comandante Infeliz, um conglomerado comum, vivendo as pessoas em harmonia. E já eram mais de mil e quinhentas vidas, distribuídas por não menos de duzentos lares. Contados os que emigraram para longas e curtas estadas, estariam aí umas duas mil almas.

Cinco e meia da manhã. Kilombo, a coordenadora da OSA, e Cati, sua adjunta, estavam a rondar o terreiro das reuniões comunitárias. Os olhos distribuíam ora para a casa de Toneco ora para a casa de Mangodinho. As reuniões aconteciam ao raiar do sol, seis ou sete horas, a depender do sinal do Soba ou, no caso deles que não têm ainda soba, quando o secretário mandar tocar o sino. Depois são mais dez minutos para a concentração dos adultos.

Antigo homem de reconhecimento, nas FAPLA, Toneco parecia adivinhar a intenção das mulheres. Lembrou-se dum Lema de então é pô-lo em prática: "se o adversário madruga eu não durmo". Passou pela porta traseira e foi avisar o Mangodinho que também estava desperto.

- O mano se ausenta por uns instantes. Pode ir à lavra comunitária. Vamos medir a temperatura cá dentro e depois mando-o chamar. - Apelou Toneco.

Enquanto isso, no terreiro já era alta a temperatura. Kilombo e Catarina agitavam as bandeiras.

- Esse Mangodinho e o comparsa dele Toneco, só porque querem se distribuir os cargos de soba, estão a querer nos atrofiar? Não pode ser! Cati, vais ver, min´rmã. Comigo, nenhum homem desta aldeia torra farinha. Vamos se destapar e ver se é homem que fez mulher ou mulher que nasce homem. Isso é abuso. É discriminação. Isso não é lei. Quem é que disse que onde toma banho homem não toma banho mulher? - A voz de Kilombo era audível em quase todo o bairro. Tamanha era a fervura da mulher.

Cati, mais branda, entretanto, ia também, de quando em vez, alimentando aquela fogueira de palavras.

- Lhes deixa, Mana Kilombo. Se não nos deixarem frequentar a tal lagoa vou lhes rogar uma praga que a água toda vai secar. - Ajuntou.

- Xê, Mana Cati, escolhe outra praga. Essa de secar a água vamos ter fome. Vem só chuva grande de arrastar o tanque e ponto final. A Banga deles acaba, sacanas de merda, e ficamos todos como no antigamente.

As duas abraçaram-se por instantes, sem desarmar a vigília ocular que mirava a casa de Mangodinho e a de Toneco que estava de ouvidos ao terreiro e de lápis sobre o papel.

Às seis e meia, já o sol rasgava a montanha de Manyangwa, aquela que viaja norte-sul, barrando a visão leste-oeste.

- Ndrim, ndrim, ndrim... - Rapaz Cordeiro, sobrinho de Toneco, tocou o sino.

A comunidade, homens de um lado e mulheres de outro, formaram duas alas. O centro foi alargado para couberem quatro cadeiras: a do Secretário Toneco, as dos arguentes Kilombo e Mangodinho, mais uma de reserva.

- Isso é abuso. Já estão a ver? Como é que o gajo do Zequeno não vem, se nós já estamos aqui desde as cinco horas? - Atirou Kilombo que se preparava para o ir buscar à força.

- Não faz isso, mana Kilombo. Manzequeno também tem família. Tem mulher e filhos. Você não sabe o que se passou em casa dele. Como é que falas assim do outro? - Acudiu Katembo, uma senhora de quarta classe do tempo de Agostinho Neto.

Toneco pediu licença para mandar ir buscar uma lapiseira. Na verdade, era para mandar um rapaz correr até à lavra comunitária e avisar a Mangodinho que quando lhe fosse dada a palavra começasse por reportar o estado da lavra e o dia da chegada do professor.

- Bom dia minha comunidade! - Cumprimentou Toneco.

- Bom dia nosso secretário. - Respondeu a multidão.

- Bem. Camaradas, irmãos, meus conterrâneos. A terra é nossa, a aldeia é nossa e os problemas também são nossos. Somos nós que temos que resolver para ver se nossa aldeia vais mais à fren...?

- À frente. - Completou o povo.

- Bem. Estamos aqui chamados pela mana Kilombo que está à frente das mulheres organizadas da nossa aldeia. Isso é bom quando a voz da mulher se faz sentir na hora dos assuntos. Mas a mulher, mesmo em casa, tem que saber gritar. Gritar bem para não espantar os filhos nem a aldeia. Não é assim?

- É assim mesmo. - Respondeu a assistência.

Lá atrás ainda se ouviu uma voz a resmungar: E reclamar é mal? Mas foi abafada por outras mulheres que pretendiam ouvir. O sol estava a subir e era hora de dar matabicho às crianças.

- Pois é. - Continuou Toneco. - O mano Zequeno teve um assunto urgente, mas não tarda ele estará aqui. Podemos já ouvir a mana Kilombo e quando ele chegar falar também o que estiver na cabeça dele. Em princípio, o problema todo está aqui. Toneco exibiu um saco preto amarrado o que levou estupefação à assistência.

- Como é que o problema do acesso das mulheres à piscina fica num saco? - Questionaram-se.

Kilombo falou. Volteou tanto que acabou baralhando até as suas apoiantes. Toneco teve de manda-la parar. Mangodinho chegou, saudou e expôs também.

- Queridas irmãs e irmãos. Atrasei-me porque as aulas dos nossos filhos e irmãos recomeçaram segunda-feira. O professor vem no mesmo dia. Temos de lhe mostrar a escola reparada que está aí e a lavra que fui ver. Se fuba vamos continuar a contribuir, as verduras não precisamos mais. Lá já tem tudo.

A multidão, Kilombo incluída, fez um interrupção ao discurso e brindando-o com uma estrondosa salva de palmas.

- Obrigado pelas palmas. Mas são do nosso Secretário. É ele o nosso chefe... Sobre o assunto desta assembleia, devo dizer que me chateou o que encontramos na "peixina". Estávamos mesmo a pensar em distribuir horário de banho e de limpeza. Ou então, quem sujou limpa já. Mas, logo no primeiro dia, encontramos adubo. Isso é bom?

O secretário chamou da plateia uma senhora.

- Mana Cati, põe essas luvas e faz, favor. Abre só esse saco.

A mulher ao ver o que havia, no interior, fez meia-volta e pôs-se ao fresco.

- Mana Kilombo, favor nos ajuda. - Pediu Toneco.

Kilombo coçou a nuca, mas fez coragem e calçou as luvas. Porém, ao reparar a fralda de que ela mesma se havia esquecido no recinto de banhos, também recuou.

Toneco, abriu o saco e deixou cair o lixo para que todos vissem. Daí em diante foram só apupos às duas senhoras.

- Pois, mamãs. É esse o problema. Mas vou falar com o Manzequeno, que está aqui, para encontrarmos meio termo. Homem e mulher têm direitos iguais. Até também na valorização do esforço dos outros e na higiene para não atrairmos mais doenças que matam muita gente. Não é assim?

- É assim, mesmo nosso secretário. - O povo respondeu e cada um fez-se a caminho dos seus afazeres, sem que Toneco tivesse a necessidade de bater o martelo. Ponto final.

domingo, janeiro 22, 2017

ENTRE CHORAR E VENDER LENÇOS

Diz um ditado popular que "Em tempo de crise, enquanto uns choram outros vendem lenços!"

Reflectindo sobre o alcance do ditado, no tempo em que nos encontramos, duas lições se podem retirar dessa frase:

1- Ficar parado, a lamentar, não resolve o problema da carência nem repõe o poder aquisitivo perdido pelas famílias. Devemos é pôr as cabeças em ebulição e pensar no que deve ser feito e como deve ser feito para se contornar a situação financeira do pais e das famílias que não é muito boa.
Disse o Ministro das finanças no seu discurso de fim de ano que "Estamos perante um novo normal" que é esse de carências em que "não devemos pensar nem agir como se estivéssemos na situação económica dos anos anteriores à crise do petróleo".

2- A ousadia intelectual, essa sim, faz com que aprendamos com a crise financeira e se faça dela uma oportunidade de fazer mais e melhor, sendo que aqueles que estagnarem "comprarão" os lenços para enxugar as lágrimas.


Estando no início de um novo ano, um novo ciclo, vamos então, em força,  ao trabalho. Vamos inovar no agir e fazer, pois "tolice é esperar por resultados diferentes quando se fazem as coisas do mesmo jeito".
Façamos com nossas equipas "uma chuva de IDEIAS", selecionando, depois, aquelas que nos pareçam as melhor elaboradas e mais arrojadas.

É tempo de planificar. Não vá a reboque das organizações. Seja você a locomotiva!

domingo, janeiro 15, 2017

A PISCINA FLUVIAL

 
O tio de Mangodinho é um homem grande. Um chefe na antepenúltima patente da sua corporação. A casa dele é também uma casa à maneira. Um kaprédio de três pisos, incluindo a "sala de cinema" no terraço.
O cimento, o mosaico, os tijolos e todas as imbambas que sobraram foram confiadas a Mangodinho que teve direito a regressar à sua banda com um camião carregado. A parte dele também não era pouca e foi dela que se serviu para construir a sua mui desejada "piscina fluvial" no dizer de Phande-a-Umba, um jovem nascido na região, mas há mais de trinta anos a conhecer o país.
Miúdo Russo era o principal apoiante de Mangodinho nessa ideia.
Precisaram de três sábados para escolher o local, escavar o tanque e passarem a cobertura do fundo e das paredes com cimento e tijolos. No final, um tanque recordava os antigos bebedouros para bois. Mas estava funcional. A água entrava e saía. Uma pequena escada dava acesso ao tanque de 3mx5mx1,2m. Para os homens da aldeia, crédulos e incrédulos na ideia, era uma festa. Subiam e desciam para o banho de toalhas penduradas ao ombro.
- Mangodinho é um gênio. - Diziam os mais jovens.
- Mas esse rapaz, tirou daonde essa ideia? - Questionavam-se também ,com júbilo, os anciãos da aldeia.
Só uma placa mandada colocar pelo secretário da aldeia dividia a comunidade. "Proibida a frequência feminina de mulheres", lia-se na tabuleta pregada a um barrote enfiado no solo húmido, a trinta metros do tanque-piscina.
Para as senhoras a curiosidade era tanta. Aquelas mais atrevidas, que haviam cruzado o local, em dias de pesca ou caça colectiva, quando todos os homens se ausentam, tinham verificado a vantagem de elas também terem um tanque idêntico e cuidarem melhor da sua higiene íntima e da higiene dos filhos.
- Porquê eles tomam banho bem e nós é que ficamos à tomar banho com os animais? - Reclamou Kilombo, a coordenadora do núcleo feminino. - Esse Mangodinho vai ter de se ver connosco!
 
...

domingo, janeiro 08, 2017

PRECONCEITOS MORTAIS


Sandro é um trabalhador empenhado, daqueles que mesmo adoentado se esforça em comparecer e despachar os assuntos muito importantes e muito urgentes.
 
- Copos só à sexta-feira para que consiga descansar ao sábado e, se a ressaca persistir, ter ainda o domingo para estabilizar a "máquina".- Assim de gaba e faz religiosamente.
 
Em casa, Sandro usa de um copo de vinho à refeição. Normalmente só ao jantar e não tem amigos de rua ou de bairro. Os seus Kambas São de infância, adolescência e outros do instituto e universidades. Conserva os vínculos mas a idade, o tempo e os afazeres levou-os a viver em zonas diferenciadas, sendo os encontros sazonais.
 
Na última quadra festiva, que abrange o natal e passagem de ano,  Sandro ficou acometido de uma "apertada gripe" que lhe "roubou" a voz. Alguns membros da família que o visitaram, no início do novo ano, ao verem-no afónico, logo associaram aquela maleita à excessivas gritarias na "noite da virada". Deu pouca importância. Os filhos defenderam-no.
 
- O papá está doente de verdade e nem sequer usou do álcool. Nem mesmo foi ver o lançamento de fogo de artifício.
 
Porém, o preconceito de associar doenças pré e pós-festivas  a excessos ficou por aí. No dia segundo do mês primeiro, Sandro, como sempre fez nos inicio de cada semana laboral, fez-se ao local de trabalho. Os colegas de outros departamentos trocavam "kandandos" vocalizados. Menos ele que acrescentava ao abraço o que a voz não lhe permitia.
 
- O Dr. Sandro é que teve festa de verdade. Já viram como está a voz dele?! - De uma suposta brincadeira mal intencionada, passou-se a uma apreciação geral em todo o edifício. Até os que podiam ajudar, deixaram-se levar pelo preconceito e aconselham "mais whisky para o desencarceramento da garganta".
 
Sandro está há uma semana sem voz, trabalhando, entretanto. Aos colegas que o abordam só lhes ocorre o excesso festivo. Infelizmente, "Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito" (Albert Einstein).
 

domingo, janeiro 01, 2017

CONTEMPLANDO A PISCINA


Era pescador, embora não fosse a única profissão dele, pois os homens nascidos à beira do rio Longa tinham decidido ter três ocupações fundamentais: a agricultura em que se destaca a mandioca, a pesca do 'kikele" (peixe que se assemelha a tilápia, mas com escamas em cartilagens) e a caça. Um "homem de verdade", irrejeitável por uma garota, devia se aprimorar nessas três "profissões" ou em pelo menos duas delas.

Zequeno ou Godinho era era um "homem completo". Agricultava, caçava, pescava e nadava como ninguém. Dizem que até os jacarés o conheciam e com ele "mimicavam" no fundo d'água.

A rede que mais usava era a de arremesso, embora usasse também a de recolha, semelhante a um cesto preso a uma vara. A segunda é a raspadeira ou "kikoyona", enquanto a primeira é tratada carinhosamente pelo vocábulo ambundu de "wanda" (rede).

Mangodinho, para os mais novos, estava em Luanda. Primeiríssima vez.

Na casa do tio onde se hospedara, os olhos sempre na rede que cobria a piscina. Os ouvidos na electrobomba que rosnava incessantemente. Nos ouvidos dum campestre aquilo parecia o apitar de um grilo dos brancos. Era tanto o uso da água que fazia a bomba electrica não descansar.

Sempre atento e desperto, Mangodinho viajou ao Kuteka, sua terra natal, e à sua caixa de conhecimentos e experiências. A caminho de cinquenta anos, na sua aldeia natal, já tinha visto tudo, até elefantes, menos uma represa cuja água entrava e saia sem que houvesse um rio que a alimentasse. Ainda mais a "lagoa" com uma rede por cima.

- Não terá peixe? E porque não se pesca, se está tudo aí, em casa? Porque se compram malas de peixe para alimentar os que choram connosco, se a lagoa tem rede e não se conhecem rios caudalosos sem peixe?

A cabeça de Mangodinho era uma fábrica de inquietações, mas respostas claras não encontrava. Nem pessoa disponível para partilhar seus pensamentos.

Viveu a aflição semana e meia até que surgiu a oportunidade de desabafo. Chegou o Mbondondo, amigo de infância. Anos longos de convívio, desafios de mergulho e maior tempo debaixo de água, no caudaloso Longa. Mondondo abandonou a aldeia, faz tempo, mas a amizade carregada de laços parentais não se esvaiu.

- Epá! - falava Mangodinho em Kimbundu - Viste aquela lagoa lá dentro? Parece mesmo lagoa de rio com peixe, jacaré e tudo. A água está a ferver!

- Sim, Zequeno. E assim estás a pensar o quê?

- Epá! Só me estou a imaginar na banda. Já tem "wanda" por cima e só falta pôr "matadi" (esferas de argila queimada que permitem dar peso e fundear a rede depois de arremessada ou armadilhada para a faina no dia seguinte). Acho mesmo que deve ter peixe!

Mbondondo na gargalhada. Mergulho profundo. Nem uma nem duas.

- Ó Zequeno, acorda. Piscina é só para tomar banho e a rede é para ninguém cair dentro dela. Acorda Zequeno, não fica burro, estás em Luanda!


Texto publicado pelo Jornal Nova Gazeta

quinta-feira, dezembro 29, 2016

MANGODINHO NO ISTIMO


O óbito da prima Cici, falecida aos 22 anos, quando frequentava o quinto ano de medicina geral, tinha sido menos demorado do que o habitual nas comunidades rurais. Enorme que foi a perda, o casal decidiu espalhar o mais cedo quanto possível os familiares que tinham viajado de longe e se esforçarem a encarar aquela dura realidade. Sendo do ciclo familiar mais próximo, Mangodinho ficou mais umas semanas em Luanda, ajudando aqui e acolá, na recomposição da casa.

A piscina, sua "lagoa imaginativa", precisava de ser esvaziada e limpa. O jardim, verde florescente dias antes, reclamava por rega, poda e limpeza. As paredes interiores, brancas de neve, apresentavam marcas de pés descalços e até mesmo sapatões poeirentos e ou lamacentos. Havia resto de qualquer coisa em algum lugar.

Foi já a fechar a metade do mês que recebeu o convite do coetâneo Mbondondo para conhecer o istmo de Luanda.

Num velho Corolla, que andava resmungão, cortaram a cidade toda pelo meio, até se enfiarem numa língua de terra abraçada pela água salgada. Mangodinho sentia o cheiro à maresia mas não divisava o mar que, à noite, camaleava do azul para negro.
 
- Zequeno, ouviste falar sobre a ilha que levou a nossa prima, não é? É então aqui. Chegamos.

- Ó primo, Mbondondo, ilha é aqui mesmo? E água de sal então está aonde?

- Calma, Zequeno. Não fala alto, porque aqui tem pessoas importantes e podem pensar que somos do mato.

- Mas ser do mato é mal? Então, quando eles vão ao mato, também não nos costumam perguntam "aquela camontanha nome dele é qualé? Aquele rio nome dele é quê?" É mal perguntar em Luanda?

Mbondondo na defensiva, magicava respostas equilibradas. Procurava mostrar aos que os rodeavam que ele era já quase um Kalu. Procurava também não ofender a honra do amigo que tinha uma visão do mundo diferentes dos kaluandizados.

- Mas ó Mbondondo, então, aqui na ilha também tem aldeias muito escuras tipo no mato?

- Como assim, ó Zequeno, se as ruas todas por onde passamos estão iluminadas e o bairro tem energia? Onde é que você viu escuridão?

Mangodinho, o Zequeno, levantou a cabeça e com o braço direito esticado levou o seu interlocutor a esticar a cabeça para a mesma direcção do "infindável" Atlântico.

- Epá, olha: essa aldeia aí se parece com a nossa Pedra Escrita. Só tem uma casa com gerador!

Um navio, ao Largo, aguardava ordem de atracar no Porto Comercial de Luanda. Erá único no mar do horizonte visual.

- Zequeno, fica espero. Tudo isso que te parece mata é mar. É só água com sal. Água do mar, kalunga-Lwiji. É um rio sem fim. O que estamos a ver é barco longe, no mar. Não é casa com gerador.

Entraram numa tasca e beberam do que o bolso permitiu. Quando o álcool começou a falar mais alto do que todas as vozes juntas, abraçaram-se e choraram juntos.

- Esse é o mar, dá alegria aos caluandas a quem tira stress, aquele cansaço da cabeça de quem trabalha no escritório. Tira sarna às pessoas que vêm da bwala. Mas também dá tristeza. Água do mar é pesada e tem kalema que enrola pessoa, mesmo nadadora famosa no Longa como nós. Kalunga é alegria e morte. - Explicou Mbondondo ao seu coetâneo Zequeno que bebeu mais um trago e adormeceu.

quinta-feira, dezembro 22, 2016

NA HORA DA JANTA

A família, os parentes mais chegados, aqueles que faziam o vem e volta, e os amigos chegados que estavam aí para dar força e encorajar o casal e a filha intermédia, ocupavam três mesas: uma era a do pai com os seus. Falavam conversas de homens que iam da política externa, interna e outras coisas para amenizar o peso do tempo pachorrento. A mãe da jovem de cujus ocupava igualmente uma mesa de dez lugares e falavam coisas suas de mulheres. Na terceira estava a filha, quase a atingir a maioridade, as amigas, colegas e primas. Falavam sobre escola e juventude, não faltando assuntos sobre redes sociais.
Mangodinho preferia um lugar mais discreto. Ora se juntava aos seguranças ora às tias que se abrigavam na parte frontal da casa.
Jantar à mesa, pratos, cubas gasosas, vinho, água.
Mangodinho atento aos movimentos dos ocupantes da mesa masculina. Cada servia uma porção de vinho e bebia com preguiça.
- Mas, esses estão sem vontade ou o vinho que bebem não lhes cai bem? - Ficou a pensar, antes de engendrar a sua táctica do rápido entorpecimento.
Chegou-se à mesa, meio afastado. Serviu comida, o seu funje preferencial. Baixou vinho da garrafa à caneca. Simulou que provava mas deixou o líquido escorrer-lhe a garganta até sentir a última gota. Rondou o ambiente, e viu que não tinha palavras para aquela assembleia.
- Colicença, pai. - Saiu, inclinando o tronco para frente, em forma de vênia, marcando passos a recta-guarda.
Mangodinho não era homem de desprezar o vinho é dormir lúcido. Informou-se sobre a chave da cozinha.
- Está aberta. Disse-lhe a tia.
- Vou buscar água para o motorista que está aí atrás.
A tia aprovou, com o norte-sul da cabeça.
Caneca na mão. O vinho em pacotes de que as mulheres se serviam para temperar estava à mostra. Sacou o canivete da algibeira e fez o corte. Puxou o banquinho, tranquilo. Caneca na pacote na mão. Olhou à volta e ninguém olhava para ele. Os vidros eram espelhados, excepto um que deixava fugir a sua imagem para fora. Estava na direcção do tio, o dono de casa. Encheu a primeira, largou-a goela abaixo. Limpou a boca com a ponta da camisa. Girou a cabeça para se assegurar que estava tudo conforme. Ainda não sentia a casa a se mover nem as estrelas correr. Espiou, de novo, os que ocupavam as mesas no quintal. O tio sempre de olho nele. Menos ele que não o via. O vidro espelhado estava invertido. Repetiu a procissão: caneca na mão, pacote na mão. Um, dois, três, levou o líquido à boca e, sem pausa, tragou a uva.
O tio sempre a seguir-lhe os movimentos. Pôs-se em pé e volteou a casa, regressando por outro caminho até à porta da cozinha.
Mangodinho preparava a terceira e última caneca. Distribuiu olhares para as três mesas e não viu nada que o impedisse.
- Eles estão mbora a conversar coisas deles de Luanda. Vou aproveitar.
Quando a terceira caneca, repleta de vinho, se encontrava entre o chão e a boca, o tio aproxima-se sem que ele se apercebesse.
- Quem está a beber vinho tipo água?
Em contramão, a boca perdeu a agilidade de falar, mas a mão já levava força para a boca. Vinho foi água no corpo de Mangodinho.
- Vai já tomar banho, seu indisciplinado. Vinho aprecia-se. Não é água e não precisas te esconder para beber. Toma banho e vai à mesa que há vinho que chega para te afogares!

quinta-feira, dezembro 15, 2016

MANGODINHO COM NOVAS IDEIAS

Três semanas na Ngwimbi não são vinte e um dias quaisquer. De volta à aldeia, Mangodinho é um homem transformado. À mesa só com garfo e faca, embora garfo à direita e faça à esquerda. Vinho ou caporroto só no copo. A caneca era para outras bebidas. A barba e o cabelo estavam arranjados. As moças da Pedra Escrita, que há muito viam Mangodinho como um velho, têm-no agora como o "jovem mais organizado". Afinal, idade são apenas números. Juventude é o estado de espírito. O sentir-se à vontade, respirar sangue puro, mesmo como oxigénio escasso. Mangodinho deixou de ser tratado por tio. Agora é mesmo Manzequeno pra cá e Mangodinho pra lá.
Entre os pares e coetâneos, Zequeno é quem mais fala. Tem as estórias frescas. Tem as ideias mais brilhantes.
- Epá, quando um gajo chega na Ngwimbi, pode mesmo ter estudado muito, mas fica ainda um pouco atrapalhado. - Dizia ele. - Aqueles carros todos, o falar afinado das pessoas, a vaidade que têm no andar e no vestir, as coisas que até os pobres têm nas suas coisas e tudo mais fazem um vivo daqui virar piolho. É verdade mesmo.

Os amigos, viajados ou não, todos na estupefação.

- Mas, Mangodinho, aqueles filmes que andamos a ver sobre Luanda é verdade ou é mentira? - Perguntou Ndjuce, rapaz de dezoito anos que se achava à volta de Mangodinho regressado de Luanda.

- Vocês aqui andam a se perder. Daqui em diante, eu vos digo mesmo, quem tem poder vai. Vejam-me. Você volta leve. Luanda leveda a pessoa. Sarna fica. Piolhos morrem. Matumbice diminui. Você trata o branco por epá.

- É verdade, Mangodinho, até branco você lhe bate nas costas?

- Não fica mais burro. Prepara macroeira e, mês que vem, me acompanha. Vais ver o meu pai a lhes bater no ombro e lhes dar ordens. Diferença está só mesmo no estudo. Se a pessoas estudou mais e é chefe, branco contigo não torra farinha. Eu mesmo estou a pensar me meter na alfabetização. Pelo menos, assim, esses kafussas que andam a vir trabalhar na obra da estrada já não me vandalizam. Temos que crescer. Por hoje chega. Vou planificar algumas coisas que vi lá em Luanda e que podemos também fazer aqui. Vamos descansar e pensar.
 


Nota: texto inserto no jornal Nova Gazeta de 12.01.2017