Translate (tradução)

domingo, maio 17, 2026

LEVE-LEVE NA MARGINAL


Na Avenida Marginal de São Tomé, o “leve-leve” deixa de ser apenas expressão e torna-se paisagem. Ganha corpo enquanto as pessoas ganham o mar. Há um compasso invisível que regula passos, conversas e silêncios — e ninguém parece disposto a contrariá-lo.

Revezam-se a velha calçada, gasta pelo tempo e pelas ondas perenes com o seu muro antigo, estreito e curto, que vai cedendo lugar ao novo, mais robusto, mais alto, mais afirmativo. Logo adiante, a pedra calçada substitui o betão cansado, como se a cidade decidisse, pouco a pouco, reencontrar a sua forma. Nada se faz de rompante. Tudo acontece “leve-leve”.

Ali perto, junto à zona da cooperativa, um barco há muito encalhado vai entregando o seu corpo ao mar. A madeira e o ferro, outrora tensos e funcionais, abriram-se em cavidades que hoje abrigam peixes e pequenos organismos marinhos. O que foi instrumento de trabalho tornou-se refúgio de vida. Não houve pressa em salvá-lo, nem urgência em retirá-lo. O mar encarregou-se do resto. E com paciência infinita.

É também ali que se alinham pequenos kaiês, construções simples, feitas de madeira, zinco e engenho, onde se vende peixe, se conversa, se descansa. Mais do que barracas, são pontos de vida. Lugares onde o tempo não se mede em relógios, mas em marés e histórias. O kaiê é, em miniatura, a própria filosofia santomense: funcional, comunitária e descomplicada.


A Marginal, na sua forma mais antiga, remonta ao período colonial português, com traços que se consolidaram entre as décadas de 1940 e 1960, quando a cidade de São Tomé se expandia voltada para o mar com muitas portas. Era uma frente simples, prática, mais pensada para servir do que para encantar. Com o tempo, o desgaste das marés e a pressão urbana tornaram inevitável a mudança.

Já no século XXI, surgem intervenções de requalificação, incluindo o início de uma nova calçada sobre a baía, pensada para proteger a orla e oferecer outro desenho à cidade. A pedra regressa, substituindo o betão, e o muro cresce. Não apenas em altura, mas em intenção e futuro. É um gesto de modernidade, ainda em curso, que convive com o passado sem o apagar.

A Marginal acompanha bairros que contam, à sua maneira, a história da cidade até ao Porto de Ana Chaves. São zonas onde viveram pescadores, estivadores, pequenos comerciantes,gente que fez do mar sustento e horizonte. Bairros de mistura, de circulação, onde a cidade respira de frente para a água.

E, no entanto, apesar das transformações, algo permanece inalterado: o ritmo. Aqui, o tempo parece inesgotável. Não há urgência que domine, nem ansiedade que dite regras. É a paz e a calma que mais ordenam.


O “leve-leve” não impede que a cidade mude. Apenas exige que mude ao seu modo.

E talvez seja esse o maior ensinamento da Marginal: entre o velho que cede e o novo que se levanta, entre o barco que se desfaz e a vida que nele nasce, há uma certeza tranquila. Tudo acontece, mas nada se precipita.


Soberano Kanyanga, STP, 3.5.26

Publicado pelo Jornal de Angola a 10.05.2026

sexta-feira, maio 15, 2026

ÑATUNU NVUNDI LYI SANGA: O JURAMENTO NO LUBOLU

No kimbundu do Lubolu, a expressão “Ñatunu nvundi lyi sanga” constitui um juramento solene, utilizado sobretudo em situações de acusação grave — como injúria caluniosa, furto, roubo ou adultério. Quando o acusado se considera injustiçado ou falsamente acusado, pronunciar esta fórmula equivale a afirmar publicamente a sua inocência, oferecendo a sua palavra de honra, que é tomada com grande seriedade pela comunidade.  

Nos julgamentos perante o soba ou em encontros colectivos na aldeia, este juramento funciona como um acto de máxima responsabilidade. O costume dita que quem o profere está a comprometer-se diante dos presentes e dos espíritos que regem a vida colectiva.  

Contudo, se posteriormente se comprovar que a acusação era infundada, ou, pelo contrário, que o juramento foi enganoso, o líder comunitário ou a família convoca novamente os presentes para uma cerimónia de “desjuramento” — a anulação formal do juramento. Este rito é indispensável para que, segundo a tradição, “os espíritos que controlam a vida colectiva se apartem do caso e deixem a vida prosseguir o seu curso”.  

Assim, entre os povos do Lubolu, o juramento não é visto como simples palavras lançadas ao vento, mas como um compromisso espiritual e social de grande peso. Ele traduz a ligação entre a palavra, a honra e a ordem comunitária, sendo considerado “algo muito sério”, capaz de influenciar tanto a reputação individual como o equilíbrio colectivo.


quarta-feira, maio 13, 2026

LEVE-LEVE: ENTRE A SERENIDADE E O DESAFIO DO DESENVOLVIMENTO EM STP

Durante uma semana em São Tomé e Príncipe, tive em Arlindo Fernando mais do que um guia e motorista. Foi um intérprete silencioso de uma forma de viver. 

Logo no primeiro encontro, impôs-se uma evidência que foi a ausência de pressa. Não era desorganização, nem desleixo. Era outra relação com o tempo.

O Arlindo não se irritava com os condutores excessivamente lentos, nem com as manobras feitas em locais impróprios que, em qualquer outra geografia, provocariam buzinas e gestos de impaciência. Em SãoTomé, nada disso. A progressão faz-se ao ritmo possível, não ao ritmo desejado. 

No segundo dia, combinámos que me recolhesse às 9 horas. Chegou largos minutos depois, já após uma chamada imlaciente de minha parte. Ao ritmo de Angola, cada minuto perdido é valioso. Sem constrangimento, como se o tempo fosse maleável, Arlindo chegou bem humorado como quem diz: “tudo se pode fazer” nos instantes ou dias seguintes.

Essa experiência não foi isolada. Ao longo da estadia, percebi que, com excepção de algumas populações mais ao norte, como em Neves, o santomense evita o atrito. Prefere a paz à confrontação, a concórdia ao conflito. Fala de política, sim, mas sem acidez; expressa desejos de melhoria de vida, mas sem agressividade reivindicativa. Há uma aceitação tranquila do presente, uma espécie de pacto tácito com a realidade.

É neste contexto que emerge o conceito de “leve-leve”.

O que é, afinal, o “leve-leve”?

Mais do que uma expressão, o “leve-leve” é uma filosofia social. Traduz uma forma de estar baseada na calma, na tolerância e na recusa do confronto desnecessári. É uma ética de convivência que privilegia o equilíbrio emocional, a harmonia comunitária e a adaptação ao fluxo natural das circunstâncias.

Não significa necessariamente preguiça ou indiferença. É, antes, uma escolha cultural. É viver sem pressa, sem tensão permanente, sem dramatizar os obstáculos.

As virtudes de uma vida sem antagonismos

As vantagens desta filosofia são evidentes.

Desde logo, a coesão social. Num ambiente onde o conflito é evitado, as relações tendem a ser mais estáveis e respeitosas. A convivência diária ganha em leveza.

Depois, o bem-estar psicológico. A ausência de pressa reduz o stress, melhora a qualidade de vida e cria espaço para relações humanas mais genuínas.

Há também uma dimensão cultural importante: o “leve-leve” preserva uma identidade própria, resistente à lógica acelerada e muitas vezes desumanizante do mundo contemporâneo.

Mas há um outro lado, menos confortável.

Quando o “leve-leve” transborda para as esferas institucional e económica, pode traduzir-se em lentidão decisória, baixa produtividade e ineficiência. A tolerância excessiva pode degenerar em complacênci. A ausência de conflito pode inibir a exigência.

Num país que precisa de “acertar o passo”, desenvolver infraestruturas, melhorar serviços e criar oportunidades, a inação, ainda que pacífica, tem custos elevados.

O risco maior não é a calma em si, mas a sua transformação em imobilismo. A questão central (que coloco) não é rejeitar o “leve-leve”, mas reinterpretá-lo.

É possível e desejável manter a serenidade nas relações humanas, a tolerância e o espírito conciliador, ao mesmo tempo que se introduz maior rigor na gestão, pontualidade nos compromissos e sentido de urgência nas políticas públicas.

O desafio está em construir um novo equilíbrio que passe pela calma no trato e firmeza na acção.

O “leve-leve” é uma riqueza cultural de São Tomé e Príncipe. Explica, em grande medida, a paz social e a qualidade humana que se respira no arquipélago. Mas, num contexto de desenvolvimento, exige um ajuste fino.


Talvez o futuro passe por um “leve-leve” consciente. Não como sinónimo de adiamento, mas como base de uma sociedade que sabe viver em paz e sem abdicar de avançar.

Arlindo, com a sua calma inabalável, não é apenas um personagem desta narrativa. É o símbolo de um país que precisa de encontrar o seu próprio ritmo, sem perder a alma, mas também sem perder o tempo.

domingo, maio 10, 2026

APELO AOS PARENTES E AMIGOS

Chamo às nossas actuais demandas de “escravatura pós-moderna”.

Somos formalmente livres, mas vivemos sem liberdade real. Sem tempo, sem dinheiro e, mesmo entre os que têm, sem desfrute. Esta condição afasta-nos dos nossos parentes e amigos.


O mais cruel é quando cessamos funções: o tempo volta, mas os afectos não nos recebem como antes. A liberdade que nos prometem é apenas uma pausa entre obrigações.

sexta-feira, maio 08, 2026

SOMOS TODOS PRIMOS!


São Tomé e Príncipe tem esse dom de transformar encontros em reencontros, como se o tempo fosse apenas uma pausa entre conversas. Cinco de Maio de 2026, a manhã prometia uma entrevista com Hermínia das Neves, jornalista de voz firme e presença incontornável na Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe (RNSTP). Chefe do Departamento de Programas, Hermínia é há mais de quatro décadas uma referência da rádio, conduzindo debates sobre saúde, sociedade e o papel da mulher. Desta vez, porém, a conversa seria diferente: em torno da minha carreira literária e do livro Amores de Mel’aço, que lhe entregara na véspera para leitura e inspiração. 

 A entrevista não aconteceu. Uma plenária da Assembleia Nacional exigia transmissão em directo. “Quando há plenárias colocamos a emissão à disposição e a equipa de reportagem faz conexão automática”, explicou Hermínia. A rádio, fiel ao seu papel institucional, cedeu espaço à política.  

Enquanto aguardava, descobri que no piso superior do mesmo edifício funciona a Agência de Notícias de São Tomé e Príncipe (ANSTP-Press). A rececionista da rádio, simpática e profissional,  contou-me que Manuel Dênde, mesmo aposentado, ainda frequentava a Agência. Esperei quase uma hora, entretendo-me em diálogo com o novo diretor da ANSTP, até que Dênde chegou. O reencontro foi emotivo: vinte e um anos depois da formação em Lisboa, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Universidade Católica, estávamos novamente frente a frente.  

Falámos de tudo: jornalismo e jornalistas, política e democracia, liberdades e pactos de nação. O tempo parecia insuficiente para tantas memórias e reflexões. O angolano profissional sente-se bem em São Tomé, e eu percebi que aqui, mais do que em qualquer outro lugar, a expressão ganha corpo: “Somos todos primos!”

quarta-feira, maio 06, 2026

ENTRE BAMAKO E O RIO DA ÁGUA GRANDE


Conheci São Tomé em 1998 por acaso, vindo de Bamako. O destino era Luanda, mas o voo da Air Gabon não apareceu, ou melhor, sumiu sem esperar pelos passageiros saídos de Bamako. Sem visto para entrar no Gabão, em plena época de eleições, vi-me diante da possibilidade de ficar uma semana retido no aeroporto. A solução surgiu inesperada: comprar uma passagem para São Tomé, país que já então dispensava os angolanos de visto prévio. A entrada era concedida no aeroporto mediante o pagamento de 50 dólares. Assim, desembarquei na ilha.  

Recebidos pela Embaixada, Manuel Correia, do Jornal de Angola, e eu fomos alojados no Café Baía, à beira da Baía de Ana Chaves. Não era apenas um espaço de hospedagem: era uma verdadeira casa de encontros, onde política e quotidiano se misturavam. Tive o privilégio de ver ali o então Primeiro-Ministro de São Tomé e Príncipe, Major Raúl Bragança Neto, que, sempre que podia, ensaiava uma prosa com o proprietário — companheiro de percurso político e cúmplice de memórias partilhadas. O Café Baía, mais do que paredes e mesas, era um palco discreto de diálogos que moldavam o país.  

Ali, o Rio da Água Grande desagua no mar, cortando a cidade e servindo de testemunha silenciosa às histórias que se cruzam na capital. O rio, que nasce no interior verdejante da ilha, atravessa São Tomé e termina junto ao mar, como se quisesse lembrar que toda viagem tem um destino, mesmo quando começa por acidente.  


Volto vinte e oito anos depois. Encontro um país que carrega dificuldades económicas, mas também sinais de esperança: a marginal está a ser reparada e prolongada, o Banco Central ergueu um novo edifício, alguns largos ganham nova vida. Outros, porém, aguardam melhores dias. A função pública segue o ritmo das 08h00 às 16h30. No primeiro dia, percorro o Largo da Cultura, onde se acham o Cinema, o Arquivo Histórico, a Biblioteca Nacional e um espaço público próximo da Embaixada de Angola.  

A árvore da fruta-pão, tão comum em São Tomé como a mangueira em Luanda, brota em cada esquina. Contei ao Arlindo, motorista que me apoia, que levei 27 anos para conseguir um exemplar em Angola, comprado por 50 dólares. A resposta veio rápida e irónica: “Daqui você leva 50 mudas!”  

Entre memórias e reencontros, o Rio da Água Grande permanece como metáfora da própria ilha: atravessa o coração da cidade e, ao chegar ao mar, mistura-se com o mundo. Tal como eu, que chego por acaso e saio com histórias que o tempo não apaga. O resto é “leve-leve”, como se diz por cá. Uma vida sem pressa, sem estresse para o turista e, talvez, também para os nativos e moradores.  

Leve-leve. Vamos contar estórias de São Tomé, país que tem preços estipulados em Dobras (moeda local) e Euros.  

— E o Kwanza?  

— O Kwanza é bom, mas aqui ainda não estamos a receber — respondeu-me a bela do aeroporto.

=

Publicado pelo Jornal de Angola, 03.05.2026

terça-feira, maio 05, 2026

SANTOMENSES LÊEM SOBERANO KANYANGA












Em visita à ilha de São Tomé, eu, Soberano Kanyanga, autor dos livros Amores de Mel’aço e Lubolu & arredores, publicados em abril último, ofereci quatro exemplares da minha já extensa produção literária à Embaixada de Angola em São Tomé e Príncipe. Entre os títulos entregues constam Kitotas: recuos e avanços, A falta de motivação e o impacto nos colaboradores – Estudo de caso no Ministério de Geologia e Minas, Lubolu & arredores e Amores de Mel’aço.  

A União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé (UNEAST) também foi agraciada com três títulos, assim como jornalistas da Rádio Nacional de São Tomé e da Agência São Tomé Press, além de outros cidadãos com quem interagi durante a minha tournée pela ilha.  

Visitei a Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe e a Agência Nacional de Notícias de São Tomé, onde conversei com profissionais sobre cultura e literatura, tendo oferecido livros de minha autoria a jornalistas como Hermínia das Neves, Manuel Dênde, Hélida Correia, entre outros.  

Durante a minha estada, destaquei o valor da partilha cultural e da cooperação literária entre Angola e São Tomé e Príncipe.
“A literatura é ponte de diálogo e memória entre povos que partilham raízes e horizontes comuns”, defendi.

segunda-feira, maio 04, 2026

O SOM DA BUZINA EM BOA MORTE

São Tomé, 4 de Maio de 2026. O sol de Maio espalhava-se sobre a ilha como um véu luminoso. Era o antepenúltimo dia da estada e já se insinuava o gesto de arrumar as imbambas, como quem se despede devagar de um lugar que se entranhou na pele. Procurava lembranças que não se gastassem com o tempo, e o coqueiro, erguido como símbolo da ilha, foi a escolha.


Revirara o país de ponta a ponta: ao sul, até Porto Alegre e Ponta Baleia, onde o asfalto se rende ao chão batido e a estrada termina diante do mar; ao norte, até o túnel de Santa Catarina, limite extremo, onde o caminho se estreita e o oceano se impõe como muralha infinita. Nessas margens, o tempo corre mais lento, e cada curva guarda uma revelação.

Foi no bairro Boa Morte, a caminho de Mesquita, que ouvi o som de uma buzina. Por instantes, temi presságios: seria pelo nome do bairro? Haveria morte boa e morte má? Mas logo percebi que não havia mistério, apenas o aviso prudente de um automobilista a prevenir outros na curva. A vida, aqui, é feita de gestos simples que se confundem com poesia.

No dia 4 de Maio, a busca era por mudas de coqueiro. A zona escolhida foi Mesquita, onde se ergue a BECAF — Base Experimental de Culturas Alimentares e Frutícolas. Entre viveiros e ensaios agrícolas, encontrei a promessa de levar comigo não apenas uma planta, mas um pedaço vivo da ilha.

São Tomé revelava-se assim: buzinas que não anunciam tragédias, mas prudência; bairros de nomes fortes, aldeias onde termina o asfalto; despedida e permanência. O coqueiro, escolhido como lembrança, tornou-se metáfora de raiz e de retorno, lembrando que cada viagem é também um reencontro futuro.

domingo, maio 03, 2026

O RESGATE DA BANDEIRA


STP, Distrito de Água Grande, 02 de Maio. Destino: Bôbo Forro, local em que foi construído o novo Mercado Municipal, passando por Água-Porta. 

Na via de acesso, o cenário é o mesmo: casas humildes, (Ka)prédios de madeira sobre estacas e muitas árvores frutícolas nos quintais, destacando-se cajamangueiras  e fruteiras (artocarpus altilis).

À volta e no interior do mercado, há lixo por tratar, mas menos lixo do que em mercados angolanos. Curiosidade: algumas vendedeiras usam balanças.

O meu guia explicou que o Mercado Municipal foi movimentado do centro da cidade (Rua Yon Gato) para a periferia, por causa da sujeira.

Andando pelas bancadas, um facto chamou-me à atenção: uma bandeira de Angola estendida no chão e usada como base para a venda de "matabala". Perguntei, discretamente, pela dona do negócio. Precisava de resgatar o símbolo da minha identidade patriótica. Disseram-me que era a Dona Luisa, mas achava-se momentaneamente ausente.

Fernando (o guia) e eu puxámos conversa com duas vendedeiras de trato fácil que prometeram procurar pela Luisa, caso pagássemos duas Rosemas ao preço de 35 Dobras cada. Depois encostou-se a nós a avó Adelaide, assim tratada carinhosamente por outras vendedeiras, uma anciã de 80 anos, boa faladora e conselheira das mais novas, conforme testemunharam. 

Finalmente, a Dona Luisa apareceu. Para que ela deixasse de estender a bandeira de Angola para a exposição de matabala (tubérculos) era preciso comprar outro pano. Lá começou a negociação. 

Ela, que disse possuir uma outra bandeira de Angola "nova e ainda plastificada", pretendia 100 Dobras em troca e uma Rosema (cerveja nacional). Fomos regateando por uns não menos de 30 minutos. Entre  conversa séria e brincadeira à mistura, venceu o bom senso. O resgate da bandeira ficou por 70 Dobras. A Rosema amenizou a tensão inicial e facilitou a barganha. Outras 30 Dobras foram oferecidas à mamã Adelaide que, na sua missão de conselheira, recomendou as mais jovens a amarem e respeitarem os maridos. 

"Eu já não ando no caminho de homem, mas sei que o respeito é a base de tudo", recomenfou sabiamente.

Foi então que, já mais descontraída, a própria Luisa contou um episódio curioso:  

— Há uma semana, passou por mim uma mulher que demoradamente olhou para a bandeira e para mim. Não me disse nada, mas parecia aflita. Não entendi se era a matabala ou a bandeira em que estas se achavam que a fizeram parar por muito tempo.  

A história ficou suspensa no ar, como um enigma. Talvez fosse apenas curiosidade, talvez fosse a consciência silenciosa de quem reconhece o peso de um símbolo nacional. O olhar daquela mulher, sem palavras, segundo o testemunho da própria Luisa, parecia carregar a mesma aflição que agora me movia: o desejo de ver a bandeira respeitada. 


Antes de deixar o mercado, comprei fruta de cacau, lembrando o pedido do amigo Adebayo Vunge. Saí dali com a bandeira nas mãos e no coração, e com o sabor doce do cacau a selar o gesto de patriotismo.

sábado, maio 02, 2026

ENTRE RUÍNAS E MEMÓRIAS






Dia 1º de Maio de 2026. Parti rumo ao Norte de São Tomé, guiado pelo solícito Arlindo Fernando, jovem santomense nascido na Ilha de Príncipe, que me servia como motorista e intérprete da paisagem. À entrada do quartel militar, Arlindo apontou à esquerda:  
— Aqui está o Condomínio da Sonangol. Vivendas inconcluídas, obra abandonada. É desperdício.  

Apenas meneei a cabeça, como quem guarda silêncio diante da evidência. A estrada resselada corria entre um mar de verde. Bananeiras, cajamangueiras, cacaueiros, abacateiros, jaqueiras, fruteiras (artocarpus altilis), palmeiras, mamoeiros, gajajeiras, mangueiras, coqueiros, caroceiros (figueiras) e goiabeiras, misturadas a árvores não frutícolas, compunham um cenário de floresta tropical que parecia respirar eternamente.  
— Este clima é bálsamo para os olhos e descanso para o coração cansado de Luanda — murmurei.  

No Bairro Santo Amaro, distrito de Lobata, Arlindo mostrou a Central Eléctrica. Casas de madeira surgiam no meio da floresta, erguidas sobre estacas, como se a arquitectura dialogasse com a natureza.  
— De tanto que nos falta, temos pelo menos a madeira. Essa é nossa — disse o guia.  

A vida pacata confundia-se entre rural e urbano, numa simbiose que parecia natural. Arlindo explicou a distribuição dos povos: os forros, descendentes de escravos libertos que se tornaram proprietários; os tongas, mestiços de contratados africanos; os cabo-verdianos, trazidos como mão-de-obra; e os angolares, cuja origem é atribuída a escravos naufragados ou fugidos no século XVI, que formaram comunidades costeiras independentes. Todos se entrelaçam hoje na identidade santomense. 


A primeira paragem foi em Fernão Dias, onde a 3 de Fevereiro de 1953 muitos santomenses morreram às mãos da repressão colonial portuguesa, no episódio conhecido como Massacre de Batepá. Fernão Dias foi o local de depósito de cadáveres saídos de Batepá. No local foi erguido um monumento que homenageia os heróis da liberdade. De Abílio Costa a Zinóglio de Ceita, centemas de nomes gravados em páginas de pedra. Ao lado, a ponte cais desactivada guarda memórias de embarques e desembarques.  
— Querem aproveitar estas condições para um porto de águas profundas — explicou Arlindo.  
— Vejo aqui o esboço de uma nova ponte, mais extensa, capaz de receber navios maiores — observei.  

Mais adiante, a Praia do Governador. A zona chama-sde Micolô, um bom miradouro para o Ilhéu das Cabras. Aqui, a costa pedregosa alterna com praias de areia clara, mais límpida do que a da Praia das Sete Ondas que é bastante concorrida na zona Sul.

Seguimos até à Roça Agostinho Neto, antes chamada Rio do Ouro, fundada em 1865 por Gabriel Constantino, português de origem brasileira. Com 16 aldeias, 2.500 serviçais e 75 administradores portugueses, cultivavam-se 5 mil hectares de cacau. Após a morte de Neto, em 1979, o presidente Pinto da Costa renomeou a roça em sua homenagem.

Hoje, cerca de mil pessoas vivem ali, descendentes amestiçados de contratados de Angola e Moçambique, sobrevivendo da agricultura de subsistência.
_ Aqui já somos mistura. Origem pura já não existe _ Explicou o Willy.

À entrada do pátio da antiga roça, a Embaixada de Angola em São Tomé reabilitou o jardim, colocando um busto do patrono Agostinho Neto, relva, sinal de internet e um mural que retrata a liberdade. Os moradores agradecem e atestam:  
— É um activo turístico onde os visitantes param para fazer foto e se conectarem ao mundo.


O guia turístico Willy Mendes, filho de cabo-verdiano e angolana, contou histórias da roça, enquanto Dona Antónia, descendente de cabo-verdianos, relatava a sua vida no antigo hospital da roça:  
— Vivemos do campo e do suor. Permutamos mandioca, milho e outros produtos, vendendo os excedentes na cidade.  

O almoço foi simples e saboroso: concon e fruta-pão, iguarias que resumem a alma da terra.  

Seguimos para Neves. Pelo caminho, alguns “micondôs” (imbondeiros) despertavam a curiosidade, junto à Lagoa Azul. A rodovia era contígua ao mar, desenhando-lhe as entranhas e saliências.  

Em Neves existiram as roças Planta Caiá, Mira Fontes, Diogo Vaz (felizmente ainda activa e dedicada à produção de cacau e chocolate biológico) e Ribeira Funda, hoje todas abandonadas. O Distrito é Lembá. 
_ Se o trabalho escravo do antigamente foi desumano e deplorável, o abandono das roças piora o desemprego _ reclamam os moradores do Distrito de Lembá, que alberga as cidades de Neves e Santa Catarina. 

Em Neves fica a cervejeira Rosema e encontram-se instalações de combustíveis da  ENACOL, comparticilada pela pública angolana Sonangol. As duas bandeiras flutuam juntas e quem conhece as cores da Sonangol rejubila-se. 

Um túnel, há dois quilómetros, serve de ex-libris: Santa Catarina, última cidade do Distrito de Lembá. De lá em diante, há somente ondas do mar, vida solitária, sem mais vilarejos urbanos e sem mais asfalto. É o fim da Zona Norte.  

Em 21 de Dezembro de 1470, os navegadores portugueses Pêro Escobar e João de Santarém acharam a ilha de São Tomé, no local chamado Anam Bô, distrito de Lembá. É parte histórica da Ilha.

Aqui a maioria são angolares. Pela ginga intimidatória no andar e atitude comportamental, fizeram-me lembrar os "gregos do Sambila" do antigamente, com quem um não residente não podia “torrar farinha”. Arlindo Fernandes confirmou:  
— Chefe, esses são complicados. Se disseres um português que alguém não entender, pode aparecer outro a insinuar que lhe faltou respeito muito e ser motivo de zanga.

Observei em silêncio. Como estávamos parados junto de uma loja com a designação de Manga Zébê que o Arlindo traduziu para "manga grande", pedi duas Rosemas (cervejas) para amainar o calor.

Além das roças já visitadas, a memória da ilha guarda outras referências incontornáveis: a Roça Monte Café, fundada em 1858, que se tornou o maior centro de produção de café e hoje abriga um museu dedicado à história agrícola; e a Roça Água Izé, fundada em 1854, pioneira na introdução do cacau, que chegou a ser uma das mais prósperas do país. Ambas, ainda que em ruínas, são testemunhos da época em que São Tomé foi chamada “a ilha do cacau”.  

Se Porto Alegre é a cidade a sul onde termina o asfalto, Santa Catarina, Distrito de Lembá, é extremo norte. A rodovia escavada na encosta curvilínea e alta do Atlântico encontra o seu epílogo. Daí em diante não há veículo que avance.

sexta-feira, maio 01, 2026

SOS: ZANGOS FEDORENTOS!

A Lei n.º 14/24, de 5 de Setembro, publicada no Diário da República Iª Série n.º 171, redefiniu a divisão política-administrativa de Angola, criando novas unidades territoriais e elevando o número de províncias de 18 para 21. Entre as alterações mais significativas está a criação da província de Icolo e Bengo, com sede em Catete, e a transferência de Calumbo, antes comuna de Viana, para esta nova jurisdição.  

Com esta mudança, os contratos de recolha de lixo que eram assegurados pelo município de Viana cessaram automaticamente, deixando Calumbo sem cobertura regular. As empresas que operavam na área suspenderam os serviços e, até ao momento, não foi homologada uma nova operadora para assumir a limpeza urbana. O resultado é visível e dramático: bairros inteiros transformaram-se em lixeiras a céu aberto, com resíduos espalhados pelas ruas, passeios e zonas residenciais.  

De “lixeiras no meio do bairro” passou-se a “bairros no meio da lixeira”. As chuvas recentes agravaram ainda mais a situação, formando poças de água estagnada que, misturadas ao lixo, criam condições ideais para a proliferação de mosquitos, vermes, moscas e ratos. Este ambiente insalubre tem provocado o aumento de doenças como cólera, febre tifóide e paludismo, levando os munícipes a recorrer com maior frequência aos centros de saúde e hospitais, que já enfrentam limitações de recursos.  

O administrador municipal de Calumbo reconheceu publicamente que "a paralisação da recolha se deve à cessação dos contratos herdados de Viana" e informou que o governo provincial realizou concurso público para selecionar uma nova empresa de saneamento, mas "o processo encontra-se pendente de homologação judicial". Enquanto isso, brigadas especiais e parceiros locais têm feito recolhas pontuais, claramente insuficientes para responder à dimensão do problema.  

Este manifesto é um apelo urgente às autoridades competentes: visitar Calumbo, constatar a gravidade da situação e adoptar medidas imediatas e estruturais. É imperioso garantir a recolha regular de resíduos, instalar contentores adequados, reforçar campanhas de sensibilização comunitária e acelerar os processos burocráticos que impedem a entrada em funcionamento da nova operadora. A população do município de Calumbo (todos os Zangos) não pode continuar a viver entre lixeiras, exposta a doenças e à degradação da sua dignidade.  

SOS Calumbo: é hora de agir.  

=

Fontes: 

Diário da República Iª Série n.º 171, Lei n.º 14/24 de 5 de setembro de 2024; Declarações do administrador municipal de Calumbo a órgãos de imprensa nacionais.