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domingo, maio 03, 2026

O RESGATE DA BANDEIRA

São Tomé, 02 de Maio, meio da manhã. O sol iluminava Água-Porta, onde o novo Mercado Municipal fervilhava de vida. À volta, casas humildes, prédios de madeira sobre estacas e quintais cheios de cajamangueiras e fruteiras. Dentro e fora do mercado, o lixo ainda se acumulava, mas em menor quantidade do que nos mercados paralelos de Luanda. Algumas vendedeiras, curiosamente, já usavam balanças para que os compradores pagassem pelo peso certo — sinal de organização e respeito pelo cliente. 


Caminhava com Arlindo, meu guia, quando algo me feriu a alma: a bandeira de Angola estendida no chão, servindo de base para a venda de matabala.  

Aproximei-me de duas vendedeiras de trato fácil e perguntei, discretamente:  

— Minhas senhoras, de quem são estas matabalas colocadas sobre a bandeira?  

Mariazinha e Celmira, mulheres entre 35 e 40 anos, responderam quase em coro:  

— É da Dona Luisa.  

Mas antes de se disporem a localizá-la, pediram cada uma uma Rosema.


— Traga-nos duas cervejas e nós chamamos a Luisa. — disse Mariazinha, com firmeza.  

Paguei as duas Rosemas, e elas cumpriram a promessa. Não apenas localizaram Dona Luisa, como também se tornaram vozes decisivas na conversa.  

Quando Luisa apareceu, declarou:  

— Tenho outra bandeira, nova e plastificada. Mas para largar esta, quero 100 Dobras e uma Rosema.  

Seguiu-se uma longa negociação. Mariazinha tomou a palavra:  

— Dona Luisa, isso é desrespeito a Angola. Há países em que a polícia prende quem desrespeita uma bandeira nacional. É diferente de bandeiras de campanha política. 

Celmira reforçou:  

— Não podemos vender sobre um símbolo que representa a pátria. É preciso respeito ao país alheio.  

As palavras das duas ecoaram como um chamado à consciência. A avó Adelaide, anciã de 80 anos, também vendeira, juntou-se ao coro:  

— A bandeira não é pano qualquer. É sangue, é luta, é memória. Quem a pisa, pisa a história de Angola.  

Depois de meia hora de conversa, entre seriedade e brincadeiras, o bom senso venceu.  

— Está bem, 70 Dobras e uma rosema. — cedeu Luisa.  

O acordo foi selado. A bandeira foi cuidadosamente retirada do chão, dobrada com respeito e entregue como se fosse um tesouro. Os 30 Dobras restantes foram entregues à avó Adelaide que aproveitou o momento para aconselhar as mais jovens:  

— Amem os vossos maridos, respeitem os vossos lares. Eu já não ando caminho de homem, mas sei que o respeito é a base de tudo.  

Foi então que, já mais descontraída, a própria Luisa contou um episódio curioso:  

— Há uma semana, passou por mim uma mulher que demoradamente olhou para a bandeira e para mim. Não me disse nada, mas parecia aflita. Não entendi se era a matabala ou a bandeira em que estas se achavam que a fizeram parar por muito tempo.  

A história ficou suspensa no ar, como um enigma. Talvez fosse apenas curiosidade, talvez fosse a consciência silenciosa de quem reconhece o peso de um símbolo nacional. O olhar daquela mulher, sem palavras, segundo o testemunho da própria Luisa, parecia carregar a mesma aflição que agora me movia: o desejo de ver a bandeira respeitada. 


Antes de deixar o mercado, comprei fruta de cacau, lembrando o pedido do amigo Adebayo Vunge. Saí dali com a bandeira nas mãos e no coração, e com o sabor doce do cacau a selar o gesto de patriotismo.

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