No 1º de Maio, o escritor Soberano Kanyanga partiu rumo ao Norte de São Tomé, guiado pelo solícito Arlindo, que lhe servia de motorista e intérprete da paisagem. À entrada do quartel militar, o guia apontou à esquerda:
— Aqui está o Condomínio da Sonangol. Vivendas inconcluídas, obra abandonada. É desperdício.
Kanyanga apenas meneou a cabeça, como quem guarda silêncio diante da evidência. A estrada resselada corria entre um mar de verde. Bananeiras, cajamangueiras, cacaueiros, abacateiros, jaqueiras, fruta-pão, palmeiras, mamoeiros, gajajeiras, mangueiras, coqueiros, figueiras e goiabeiras, misturadas a árvores não frutícolas, compunham um cenário de floresta tropical que parecia respirar eternamente.
— Este clima é bálsamo para os olhos e descanso para o coração cansado de Luanda — murmurou o escritor.
No Bairro Santo Amaro, distrito de Lobata, Arlindo mostrou a central eléctrica. Casas de madeira surgiam no meio da floresta, erguidas sobre estacas, como se a arquitectura dialogasse com a natureza.
— De tanto que nos falta, temos pelo menos a madeira. Essa é nossa — disse o guia.
A vida pacata confundia-se entre rural e urbano, numa simbiose que parecia natural. Arlindo explicou a distribuição dos povos: os forros, descendentes de escravos libertos que se tornaram proprietários; os tongas, mestiços de contratados africanos; os cabo-verdianos, trazidos como mão-de-obra; e os angolares, cuja origem é atribuída a escravos naufragados ou fugidos no século XVI, que formaram comunidades costeiras independentes. Todos se entrelaçam hoje na identidade santomense.
A primeira paragem foi em Fernão Dias, onde em 3 de Fevereiro de 1953 muitos santomenses morreram às mãos da repressão colonial portuguesa, no episódio conhecido como Massacre de Batepá. No local ergue-se um monumento que homenageia os heróis da liberdade, de Abílio Costa a Zinóglio de Ceita, nomes gravados em páginas de pedra. Ao lado, a ponte cais desactivada guarda memórias de embarques e desembarques.
— Querem aproveitar estas condições para um porto de águas profundas — explicou Arlindo.
— Vejo aqui o esboço de uma nova ponte, mais extensa, capaz de receber navios maiores — observou Kanyanga.
Mais adiante, a Praia do Governador, na zona de Micolô, revelava-se diante do Ilhéu das Cabras. A costa pedregosa alternava com praias de areia clara, mais límpida do que a das Sete Ondas.
Seguiram até à Roça Agostinho Neto, antes chamada Rio do Ouro, fundada em 1865 por Gabriel Constantino, português de origem brasileira. Com 16 aldeias, 2.500 serviçais e 75 administradores portugueses, cultivava 5 mil hectares de cacau. Após a morte de Neto em 1979, o presidente Pinto da Costa renomeou a roça em sua homenagem.
Hoje, cerca de mil pessoas vivem ali, descendentes mestiços de contratados de Angola e Moçambique, sobrevivendo da agricultura de subsistência.
Hoje, cerca de mil pessoas vivem ali, descendentes mestiços de contratados de Angola e Moçambique, sobrevivendo da agricultura de subsistência.
À entrada do pátio da antiga roça, a Embaixada de Angola em São Tomé reabilitou o jardim, colocando um busto do patrono Agostinho Neto, relva, sinal de internet e um mural que retrata a liberdade. Os moradores agradecem e atestam:
O guia turístico Willy Mendes, filho de cabo-verdiano e angolana, contou histórias da roça, enquanto Dona Antónia, descendente de cabo-verdianos, relatava sua vida no antigo hospital da roça:
— Vivemos do campo e do suor. Permutamos mandioca, milho e outros produtos, vendendo os excedentes na cidade.
O almoço foi simples e saboroso: concon e fruta-pão, iguarias que resumem a alma da terra.
Seguimos para Neves. Pelo caminho, alguns “micondôs” (imbondeiros) despertavam a curiosidade, junto à Lagoa Azul. A rodovia era contígua ao mar, desenhando-lhe as entranhas e saliências.
Em Neves existiram as roças Planta Caiá, Mira Fontes, Diogo Vaz (felizmente ainda activa e dedicada à produção de cacau e chocolate biológico) e Ribeira Funda, hoje todas abandonadas. O Distrito é Lembá. Se o trabalho escravo do antigamente é desumano e deplorável, o abandono das roças piora o desemprego, reclamam os moradores do Distrito de Lembá, que alberga as cidades de Neves e Santa Catarina. Em Neves fica a cervejeira Rosema e encontram-se instalações de combustíveis da pública angolana Sonangol.
Um túnel, há dois quilómetros, serve de ex-libris: Santa Catarina, última cidade do Distrito de Lembá. De lá em diante, há ondas do mar, vida solitária, sem mais vilarejos urbanos e sem mais asfalto. É o fim da Zona Norte.
Em 21 de Dezembro de 1470, os navegadores portugueses Pêro Escobar e João de Santarém acharam a ilha de São Tomé, no local chamado Anam Bô, distrito de Lembá. É parte histórica da Ilha.
Aqui a maioria são angolares. Pela ginga intimidatória no andar e atitude comportamental, fizeram-me lembrar os gregos do Sambila do antigamente, com quem um não residente não podia “torrar farinha”. Arlindo Fernandes confirmou:
Aqui a maioria são angolares. Pela ginga intimidatória no andar e atitude comportamental, fizeram-me lembrar os gregos do Sambila do antigamente, com quem um não residente não podia “torrar farinha”. Arlindo Fernandes confirmou:
— Chefe, esses são complicados. Se disseres um português que alguém não entender, pode aparecer outro a insinuar que lhe faltou respeito muito.
Além das roças já visitadas, a memória da ilha guarda outras referências incontornáveis: a Roça Monte Café, fundada em 1858, que se tornou o maior centro de produção de café e hoje abriga um museu dedicado à história agrícola; e a Roça Água Izé, fundada em 1854, pioneira na introdução do cacau, que chegou a ser uma das mais prósperas do país. Ambas, ainda que em ruínas, são testemunhos da época em que São Tomé foi chamada “a ilha do cacau”.
Se Porto Alegre é a cidade a sul onde termina o asfalto, Santa Catarina, Distrito de Lembá, é extremo norte. Daí em diante não há veículo que avance. A rodovia foi escavada na encosta curvilínea e alta do Atlântico.






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