"Somos Todos Primos", 5 de Maio, 2026_ A manhã trouxe chuva breve, mas suficiente para lavar o pó e suavizar o calor habitual de um país equatorial. O ar, ainda húmido, parecia fresco, convidando a passos leves ao longo do curso do rio Água Grande. Chamam-lhe “grande rio”. Cada povo orgulha-se do que tem de maior e melhor. Para nós, Angola, habituados ao Mwanza, Zenza, Nyiha, Kotofe ou Mukonga em tempo chuvoso, o Água Grande mais se assemelha a um riacho ou uma ribeira. Compará-lo ao Longa ou ao Kuvu seria exagero poético.
Mas a beleza natural não resiste ao descuido humano. Ao longo do seu percurso urbano, o rio vai recebendo resíduos sólidos, testemunho da fragilidade da educação e gestão ambiental. Paradoxalmente, a população de São Tomé mantém o hábito de varrer em frente às casas e negócios, como se fosse ritual de dignidade. Os contentores, porém, transbordam, aguardando recolha que tarda. A cena lembra os bons costumes da Luanda periurbana dos anos 1980, quando o gesto de varrer era comum. Só falta ajustar a responsabilidade da câmara em recolher os contentores cheios sempre que se ache pertinente.
As ruas, por sua vez, contam histórias de algum descaso. Buracos escavados pelo tempo e pela chuva convivem com outros abertos sob pretexto de reparações de fibra óptica, condutas de água ou energia, com direito a debate parlamentar. O resultado é um cenário que traz à memória os passeios de vilas angolanas, deixados à espera de renovação, depois da partida do construtor primário.
Caminhar pelo curso urbano do Rio Água Grande depois da chuva é, portanto, um exercício de contemplação e melancolia. Entre o frescor da manhã e o peso do lixo acumulado duranteo fim-de-semana, entre o orgulho do nome e a pequenez do curso, revela-se a contradição de uma cidade que guarda hábitos de cuidado, mas carece de atenção institucional. O rio segue, leve-leve, como quem carrega tanto a esperança quanto o descuido dos homens.


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