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segunda-feira, maio 04, 2026

O SOM DA BUZINA EM BOA MORTE

São Tomé, 4 de Maio de 2026. O sol de Maio espalhava-se sobre a ilha como um véu luminoso. Era o antepenúltimo dia da estada e já se insinuava o gesto de arrumar as imbambas, como quem se despede devagar de um lugar que se entranhou na pele. Procurava lembranças que não se gastassem com o tempo, e o coqueiro, erguido como símbolo da ilha, foi a escolha.


Revirara o país de ponta a ponta: ao sul, até Porto Alegre e Ponta Baleia, onde o asfalto se rende ao chão batido e a estrada termina diante do mar; ao norte, até o túnel de Santa Catarina, limite extremo, onde o caminho se estreita e o oceano se impõe como muralha infinita. Nessas margens, o tempo corre mais lento, e cada curva guarda uma revelação.

Foi no bairro Boa Morte, a caminho de Mesquita, que ouvi o som de uma buzina. Por instantes, temi presságios: seria pelo nome do bairro? Haveria morte boa e morte má? Mas logo percebi que não havia mistério, apenas o aviso prudente de um automobilista a prevenir outros na curva. A vida, aqui, é feita de gestos simples que se confundem com poesia.

No dia 4 de Maio, a busca era por mudas de coqueiro. A zona escolhida foi Mesquita, onde se ergue a BECAF — Base Experimental de Culturas Alimentares e Frutícolas. Entre viveiros e ensaios agrícolas, encontrei a promessa de levar comigo não apenas uma planta, mas um pedaço vivo da ilha.

São Tomé revelava-se assim: buzinas que não anunciam tragédias, mas prudência; bairros de nomes fortes, aldeias onde termina o asfalto; despedida e permanência. O coqueiro, escolhido como lembrança, tornou-se metáfora de raiz e de retorno, lembrando que cada viagem é também um reencontro futuro.

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