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quarta-feira, maio 27, 2026

UM TOUR PELA ZONA SUL DE SÃO TOMÉ

No dia 30 de Abril de 2026, atravessei memórias e paisagens em São Tomé, guiado por Arlindo, jovem motorista que me oferecia não apenas direcção, mas também palavras que revelavam a alma da ilha.  

Em Pantuf, distrito de Mé-Zóchi, deixei escapar: “Estas ruas estreitas parecem linhas de um poema, e o artocarpus é o refrão que se repete em cada esquina.” Arlindo sorriu e disse: “É verdade. Aqui lutamos para que a beleza da terra não se perca no descuido. O lixo insiste em aparecer, mas nós insistimos em limpar, porque esta é a nossa casa.”  

Segui até Água Izé, onde as ruínas da antiga roça, outrora fábrica de óleo de palma e cacau, erguiam-se como fantasmas. Murmurei: “Este silêncio é pesado.” Arlindo acrescentou: “Os políticos perseguem os antecessores, em vez de trazerem empresários. A juventude cresce, mas os empregos rareiam.” Suspirei: “É como uma terra fértil sem sementes. Há que devolver-lhe vida.”  

Na antiga Base Americana, detive-me. “Aqui a voz da América gritava mais alto do que todos os media santomenses”, pensei, lembrando o eco de uma presença que moldou imaginários e silenciou vozes locais.  

Na praia das Sete Ondas, sorvi água de coco e comentei: “Este sabor fresco é como um poema que se escreve na boca.” À entrada de Mé-Zóchi, provei o doce vinho de palma. “É o sangue da terra transformado em festa”, disse, erguendo o copo improvisado.  

A visita à Roça Monte Café trouxe história. Fundada no século XIX, foi uma das maiores produtoras de café da ilha, símbolo da riqueza colonial. Hoje, é sede de uma cooperativa de exportadores que nada exporta. Observei: “É como um livro de capa dourada, mas sem páginas dentro”, tocando as paredes que guardam memórias de trabalho e exploração.  

No Bairro Batepá, distrito de Mé-Zóchi, o silêncio tornou-se pesado. Ali, a 3 de Fevereiro de 1953, centenas de são-tomenses foram mortos pela repressão colonial portuguesa.  

Diante do monumento, murmurei: “Este chão é sagrado. É o vosso 3 de Fevereiro, como o nosso 4 de Janeiro na Baixa de Cassanje. Dois gritos diferentes, mas a mesma dor.” Arlindo respondeu em voz baixa: “É por isso que nunca esquecemos. O massacre ensinou-nos que a liberdade custa caro.”  

O epílogo da jornada foi na Cascata de São Nicolau. A água caía com força, como se lavasse o tempo. Contemplei e disse: “Aqui a ilha fala na língua da eternidade. Cada gota é memória, cada queda é futuro.”  

Assim terminou o meu tour: não apenas uma viagem por estradas e roças, mas um mergulho na alma de São Tomé, onde se diz "Somos Todos Parentes" e onde cada canto guarda histórias que se entrelaçam com as de Angola, duas geografias unidas pela dor, pela resistência e pela esperança.








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