Translate (tradução)

quinta-feira, maio 28, 2026

NOITE EM SÃO TOMÉ

São Tomé, 02 de Maio. A noite descia leve sobre o distrito de Água Grande, e o rio Água Grande, que corta a cidade ao meio, entrava mansinho no Atlântico, sem gorgorejos nem reclamações.  

As luzes do Palácio Presidencial refletiam sobre a baía, encandeando preguiçosas, como se trocassem olhares silenciosos com a Sé Catedral. Os sinos, já cansados, pareciam aposentados: apenas uma missa vez ou outra, e o murmúrio das Ave-Marias. No pátio, um cão sem dono marcava passos pelo rossio, farejando restos de comida junto aos contentores transbordantes.  

O Café Baía já era memória. As Linhas Aéreas de São Tomé mudaram de sede, assim como o Banco Central. No Ministério da Saúde reinava calma: nada de ambulâncias, nada de correria. Apenas uma roulote sobre o passeio, servindo caipirinhas e outras bebidas, como se fosse o coração pulsante da noite. 


Uma jovem esbelta passava apressada, falando ao telefone, sem medo e sem tempo para ceder palavra. Outra, avantajada, lançava isco:  

— Cé quer sair com campanhia?  

Mais adiante, uma música em decibéis acima do normal denunciava uma discoteca ou casa noturna. O ritmo escapava pelas paredes, misturando-se ao ar quente da noite. E a pergunta pairava: haveria também casas de alterne escondidas nas esquinas da cidade?  

Mas o que mais impressionava era a segurança. Sem ladrões, sem pressa, tudo seguia leve-leve, sem zangas. A noite em São Tomé parecia caminhar ao ritmo da confiança, como se cada esquina fosse familiar e cada rosto conhecido.  

São Tomé à noite é feita de contrastes: o silêncio do rio, a calma dos ministérios, o brilho imperial da lua-cheia e ao mesmo tempo o bulício das ruas, os convites improvisados, a música que explode sem pedir licença, num e noutro canto. É uma cidade que repousa e desperta ao mesmo tempo, onde cada esquina guarda uma história e cada olhar sugere um segredo.

Sem comentários: