Translate (tradução)

segunda-feira, maio 25, 2026

O ASSISTENTE E O MESTRE


Naquela rádio — a primeira comercial da grande cidade — Phande trabalhava havia seis meses. Madrugador, pontual, percorria diariamente o quilómetro e meio que o separava do local de recolha. Desde cedo aprendera que o caminho faz-se andando e que a entrega ao trabalho é a melhor escola.  

Durante meses, conheceu os equipamentos de rádio, um a um, descobrindo-lhes a utilidade e a serventia na construção do “edifício sonoro”, esse som que chega ao ouvinte por via de um receptor.  

Ora na sonoplastia, ouvindo e escolhendo os trechos mais impactantes dos áudios; ora na redacção, sugerindo a palavra certa ou levando apressadamente à cabine de locução o guião cuspido pela Olivetti, que tictava sons melodiosos ao ritmo vigoroso do editor José Rodrigues.  

Em casa, a mãe aguardava ouvir o nome do seu querido Phande na ficha técnica, lida no início e no fim do noticiário. E chegou o dia em que o ajudante passou a constar:  

Edição: Zé Rodrigues  

Cuidados sonoros: Sebastião dos Santos  

Técnica final: Agostinho Vanda  

Assistência: Phande-a-Umba  

Apresentação: Mário Guerra

Na primeira vez, foi gáudio na redacção da Emissora Comercial e em casa. Cada vez que o nome de um estagiário entrava na ficha técnica ou apresentava uma pequena peça, os neófitos reuniam-se no fim do turno para comemorar. Em casa, amigos e familiares rejubilavam.  

— Agora o meu filho é mesmo jornalista. Falaram o nome dele na rádio — comentavam as mães.

O tempo passou. Phande consolidava a aprendizagem e já lia pequenas peças e até sínteses de notícias, regra geral telex seleccionados da Agência Nacional. Todavia, em casa, a mãe passou do júbilo à preocupação. Um dia, ao chegar, foi chamado pela progenitora:  

— Phande, senta aqui. Desde que começaste a trabalhar na rádio já vamos a caminho de nove meses. Às vezes ouvimos a tua voz, outras vezes pronunciam o teu nome. Aqui em casa todos ficamos contentes, mas há uma coisa que me preocupa — disse Kilombo Ky’Etinu, pausada, afectiva.  

— Sim, mãe. O que te preocupa então? Será o facto de eu sair sempre muito cedo, quando todos ainda dormem?  

— Não, meu filho. É que os teus colegas têm tarefas. Ouvimos todos os dias no noticiário. O que dizem de ti é que apenas ficas a assisti-los. Mas é mesmo isso, filho? Só ficas a assistir os outros a desempenharem as suas tarefas e não fazes mais nada?  

Phande riu, pousou o braço no ombro da “sua velha”:  

— Calma, mãe! Assistência, em rádio, é ajudar. Eu estou no estágio, o meu trabalho é de ajudante!

***

Vinte e trê anos depois, Phande já era homem grande na profissão e na idade. Dera-lhe netos, casa e felicidade. Kilombo Ky’Etinu contraíra cegueira irreversível, mas apurara a audição e o humor. Phande ausentara-se do país para defender o Mestrado. Ao regressar, a mãe chamou-o:  

— Phande, senta aqui. Como correram os estudos que foste fazer?  

— A defesa correu bem, mãe. De zero a vinte obtive dezasseis.  

— Oh! Dezasseis para vinte, só faltaram quatro pontos. Muitos parabéns! Mas diz-me uma coisa: agora qual é a tua classe?  

— Sou mestre, mãe.  

A anciã franziu a testa:  

— Como assim mestre, se já eras doutor? Então esses pedreiros que fazem parede torta é que são da tua igualhagem? Não pode ser. Estás a mentir-me, filho!

Sem comentários: