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sexta-feira, maio 22, 2026

HOMENAGEM AOS MÁRTIRES DE BATEPÁ

A 30 de Abril de 2026, diante do monumento de Batepá em Mé-Zóchi, senti que cada pedra guardava o eco de um grito silenciado em 1953. O massacre, conduzido pela administração colonial portuguesa, ceifou centenas de vidas santomenses acusadas injustamente de preparar uma revolta. Prisões arbitrárias, torturas e execuções sumárias transformaram aquele episódio num marco da resistência contra a opressão.  

Ali, a memória dos mártires parecia dialogar com outras páginas da história africana. Recordei o 4 de Janeiro de 1961, na Baixa de Kasanji, em Angola, quando trabalhadores do algodão foram massacrados por reivindicarem dignidade. Dois povos, duas geografias, mas uma mesma realidade: a violência colonial e a coragem dos que ousaram resistir.  

As palavras da poesia vieram à mente como testemunho. Alda do Espírito Santo escreveu: “Batepá não é apenas sangue derramado, é raiz que germina na terra da liberdade.” Por seu turno, Conceição Lima recorda: “Os mortos de Batepá caminham comigo, lembrando que a pátria nasceu do seu silêncio.” 

Do lado angolano, Agostinho Neto eternizou Kasanji em versos: “Aqui onde a terra se abre em sangue, aqui nasceu a liberdade.” Essas vozes literárias não apenas narram, mas transformam dor em consciência, memória em futuro.  

O monumento de Batepá é hoje espaço de reflexão, tal como Kasanji permanece vivo na poesia e na memória angolana. A literatura e a arte cumprem o papel de preservar a memória coletiva, de desafiar o esquecimento e de ligar histórias que, embora ocorridas em diferentes geografias, fazem parte de uma mesma luta.  

Assim como o 4 de Janeiro é celebrado em Angola, o 3 de Fevereiro em São Tomé e Príncipe é o Dia dos Mártires da Liberdade. Essas datas não são apenas recordações de tragédias, mas símbolos da resistência que culminou na independência de 1975.  

A ponte entre Batepá e Kasanji mostra que a luta anticolonial foi continental e que recordar esses episódios é reafirmar a dignidade conquistada pelos povos africanos. Gostaria que eu complemente esta crônica com uma reflexão sobre o papel da poesia na independência africana?

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