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quarta-feira, maio 13, 2026

LEVE-LEVE: ENTRE A SERENIDADE E O DESAFIO DO DESENVOLVIMENTO EM STP

Durante uma semana em São Tomé e Príncipe, tive em Arlindo Fernando mais do que um guia e motorista. Foi um intérprete silencioso de uma forma de viver. 

Logo no primeiro encontro, impôs-se uma evidência que foi a ausência de pressa. Não era desorganização, nem desleixo. Era outra relação com o tempo.

O Arlindo não se irritava com os condutores excessivamente lentos, nem com as manobras feitas em locais impróprios que, em qualquer outra geografia, provocariam buzinas e gestos de impaciência. Em SãoTomé, nada disso. A progressão faz-se ao ritmo possível, não ao ritmo desejado. 

No segundo dia, combinámos que me recolhesse às 9 horas. Chegou largos minutos depois, já após uma chamada imlaciente de minha parte. Ao ritmo de Angola, cada minuto perdido é valioso. Sem constrangimento, como se o tempo fosse maleável, Arlindo chegou bem humorado como quem diz: “tudo se pode fazer” nos instantes ou dias seguintes.

Essa experiência não foi isolada. Ao longo da estadia, percebi que, com excepção de algumas populações mais ao norte, como em Neves, o santomense evita o atrito. Prefere a paz à confrontação, a concórdia ao conflito. Fala de política, sim, mas sem acidez; expressa desejos de melhoria de vida, mas sem agressividade reivindicativa. Há uma aceitação tranquila do presente, uma espécie de pacto tácito com a realidade.

É neste contexto que emerge o conceito de “leve-leve”.

O que é, afinal, o “leve-leve”?

Mais do que uma expressão, o “leve-leve” é uma filosofia social. Traduz uma forma de estar baseada na calma, na tolerância e na recusa do confronto desnecessári. É uma ética de convivência que privilegia o equilíbrio emocional, a harmonia comunitária e a adaptação ao fluxo natural das circunstâncias.

Não significa necessariamente preguiça ou indiferença. É, antes, uma escolha cultural. É viver sem pressa, sem tensão permanente, sem dramatizar os obstáculos.

As virtudes de uma vida sem antagonismos

As vantagens desta filosofia são evidentes.

Desde logo, a coesão social. Num ambiente onde o conflito é evitado, as relações tendem a ser mais estáveis e respeitosas. A convivência diária ganha em leveza.

Depois, o bem-estar psicológico. A ausência de pressa reduz o stress, melhora a qualidade de vida e cria espaço para relações humanas mais genuínas.

Há também uma dimensão cultural importante: o “leve-leve” preserva uma identidade própria, resistente à lógica acelerada e muitas vezes desumanizante do mundo contemporâneo.

Mas há um outro lado, menos confortável.

Quando o “leve-leve” transborda para as esferas institucional e económica, pode traduzir-se em lentidão decisória, baixa produtividade e ineficiência. A tolerância excessiva pode degenerar em complacênci. A ausência de conflito pode inibir a exigência.

Num país que precisa de “acertar o passo”, desenvolver infraestruturas, melhorar serviços e criar oportunidades, a inação, ainda que pacífica, tem custos elevados.

O risco maior não é a calma em si, mas a sua transformação em imobilismo. A questão central (que coloco) não é rejeitar o “leve-leve”, mas reinterpretá-lo.

É possível e desejável manter a serenidade nas relações humanas, a tolerância e o espírito conciliador, ao mesmo tempo que se introduz maior rigor na gestão, pontualidade nos compromissos e sentido de urgência nas políticas públicas.

O desafio está em construir um novo equilíbrio que passe pela calma no trato e firmeza na acção.

O “leve-leve” é uma riqueza cultural de São Tomé e Príncipe. Explica, em grande medida, a paz social e a qualidade humana que se respira no arquipélago. Mas, num contexto de desenvolvimento, exige um ajuste fino.


Talvez o futuro passe por um “leve-leve” consciente. Não como sinónimo de adiamento, mas como base de uma sociedade que sabe viver em paz e sem abdicar de avançar.

Arlindo, com a sua calma inabalável, não é apenas um personagem desta narrativa. É o símbolo de um país que precisa de encontrar o seu próprio ritmo, sem perder a alma, mas também sem perder o tempo.

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