Translate (tradução)

sábado, agosto 01, 2026

A CABEÇADA DE JOSEFA

Na nossa infância, no Kaputu, Rua da Ambaca, os bilos estavam sempre presentes. Era como se fossem pão de cada dia. Faziam parte das brincadeiras e serviam de testes para hierarquizar os grupos.

Um fraco, que não fosse bom de basula, kafrique e outros malabarismos na peleja, tinha de escolher como amigo e protector alguém melhor do que ele e temido em outros quarteirões.

Dentre os poucos reverenciados, o primo Ngoçalo era um dos que batiam, nas brincadeiras de anandenge, outros garotos a quem chamávamos de “nossos tejos do Kilwanje", em que figurava o primo Zé Kandungu.

Eram pancadas de jogos, disputas infantis de liderança, que acabava em estigas, risos e poeira levantada no chão da Rua da Ambaca ou no descampado do Kilwanje. Mas quem batia de verdade era a irmã dele, a prima Josefa.

Certa vez, eu brincava com os amigos empunhando jaja, a fisga minúscula que fazia parte das nossas diversões no bairro. O Miguel, nascido em Luanda e filho de pais procedentes de Katete, sentiu-se ofendido e procurou agredir-me. Empreendi uma retirada apressada, pé no ngimbu, em direcção à zona do Chafariz do Kaputu. O Miguel, ao tentar desferir-me uma rasteira, falhou no meu pé e caiu desalmadamente no asfalto. A sua ira aumentou e, ferido no orgulho, esperou por mim numa esquina até ao entardecer.

Tendo presenciado o ocorrido, a prima Josefa, cujos pais eram de Kalulu, assim como eu, não quis que o mal e a supremacia katetense vingassem naquele dia.

Já fim de tarde, eu caminhava apreensivo. Alguém me tinha dito que o Miguel, morador perto da casa do Nelito Joga Bwé, esperava-me para desforrar a queda que tivera.

A prima Josefa, já informada sobre os intentos do jovem Miguel, interceptou-me antes da curva.
— Luciano, não vás sozinho. O Miguel está à tua espera.
— Mana Josefa, eu não lhe fiz nada. Só estava a brincar com os meus amigos e ele me escolheu para me bater. Quando fugi, ele caiu sozinho.
— Ele não quer saber. Caiu, ficou ferido e está furioso. Agora procura vingança.
— E se me apanhar? — perguntei, com voz trêmula.
— Se te apanhar, não te preocupes. Eu trato disso. Hoje Kalulu se defende.

Respirei fundo. A prima Josefa ajeitou os calções, entregou-me os seus chinelos e sentenciou:
— Não sente medo. Anda como se nada tivesse acontecido. Se ele vier e te tocar, vai me conhecer.

E não tardou. O Miguel surgiu da esquina, escoriado e com os olhos faiscando. Agarrou-me com força pelo braço direito, pronto para a agressão. Mas a prima Josefa avançou como raio. Num movimento certeiro, desferiu-lhe uma cabeçada que ecoou pelo bairro. O agressor cambaleou, viu estrelas e caiu.

Eu, pasmado pela façanha da prima Josefa, só consegui murmurar:
— Mana Josefa, salvaste-me…
— É para isso que servem as manas. Agora corre para casa do tio Ferreira. Se ele te agredir amanhã ou noutro dia, vai a casa me avisar que eu lhe tiro a banga de katetista.

A fama de Josefa espalhou-se. No Kaputu, dizia-se em tom de aviso:
— Não te metas com a Josefa. Vai te tirar dentes com cabeçada. Pergunta ao Miguel!

Foi assim que ganhei uma protectora. Josefa, por sua vez, consolidou a lenda de ser “dona de uma cabeçada estarrecedora”, lembrada até hoje pelos que viveram aqueles tempos na Rua da Ambaca e arredores.
=
Publicado no Jornal Luanda, a 8.6.2026