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sexta-feira, maio 08, 2026

KI KUMBALAYETU KINGISUMBU KINDOMBO

[Em nossa terra nunca compraria rama de batata.]

Esta frase, em kimbundu lubolense, nascida da dor dos recuados de então (como eram chamados os deslocados), recorda o tempo em que famílias inteiras, obrigadas a abandonar as aldeias, as lavras e quintas, se viram privadas até daquilo que antes brotava naturalmente da terra. 

Era o retrato da perda de autonomia, da dependência forçada, da ruptura com o chão que sustentava a vida. 

Hoje, sem guerra que empurre para o êxodo, muitos continuam a migrar para os centros urbanos, mas a cidade, que parecia promessa, revela-se dura e cruel: falta de habitação, desemprego, carestia, falta de solidariedade dos parentes e dos vizinhos. Perante um mar de carências, o sonho urbano, muitas vezes, se transforma em desencanto.

_ Vizinha Katembo, em Luanda não se pede sal nem óleo _ responde a vizinha.

_ Vizinho Maventa, papá pediu para emprestar só a catana para cortar lenha _ anuncia o infante. 

A resposta nua e ríspida não se faz rogada.

_ Bebeto, diz ao papá que quem sai do mato para Luanda tem que trazer catana dele. Aqui, cada um por si. Quem se aleja se cura. Se não está a conseguir, volte para a aldeia.

A canção nos lembra que a dignidade começa na terra e que o verde ao redor das casas, nos quintais e nos espaços urbanos, pode devolver autonomia e esperança. 

Plantar jindungu, hortelã, alecrim, mamoeiros e outras culturas frutícolas e hortícolas é mais que prática agrícola: é acto de resistência, de memória e de futuro. 

Nos vasos e pequenos canteiros podem crescer alface, couve, salsa, cebolinha, tomate cereja, pimento, gengibre, manjericão e cenoura, sem exigir grandes espaços. 

Nos quintais urbanos, sem descaracterizar as habitações e a cidade, podem florescer mangueiras, goiabeiras, limoeiros, maracujazeiros, bananeiras, abacateiros e papaieiras, árvores que oferecem sombra, beleza e alimento. 

Não se deve abandonar as aldeias sem reflexão e estruturação. Aproveitar os espaços urbanos e domésticos para cultivar, capitalizar recursos, reduzir custos e construir vida melhor são caminhos de sustentabilidade e dignidade. 

Que cada quintal seja lavra, cada varanda seja horta, cada comunidade seja jardim. Assim, a memória se transforma em prática e a prática em futuro seguro.


(Título) publicado no jornal Pungo a Ndongo a 19 de Junho de 2026.

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