[Em nossa terra nunca compraria rama de batata.]
Era o retrato da perda de autonomia, da dependência forçada, da ruptura com o chão que sustentava a vida.
Hoje, sem guerra que empurre para o êxodo, muitos continuam a migrar para os centros urbanos, mas a cidade, que parecia promessa, revela-se dura e cruel: falta de habitação, desemprego, carestia, falta de solidariedade dos parentes e dos vizinhos. Perante um mar de carências, o sonho urbano, muitas vezes, se transforma em desencanto.
_ Vizinha Katembo, em Luanda não se pede sal nem óleo _ responde a vizinha.
_ Vizinho Maventa, papá pediu para emprestar só a catana para cortar lenha _ anuncia o infante.
A resposta nua e ríspida não se faz rogada.
_ Bebeto, diz ao papá que quem sai do mato para Luanda tem que trazer catana dele. Aqui, cada um por si. Quem se aleja se cura. Se não está a conseguir, volte para a aldeia.
A canção nos lembra que a dignidade começa na terra e que o verde ao redor das casas, nos quintais e nos espaços urbanos, pode devolver autonomia e esperança.
Plantar jindungu, hortelã, alecrim, mamoeiros e outras culturas frutícolas e hortícolas é mais que prática agrícola: é acto de resistência, de memória e de futuro.
Nos vasos e pequenos canteiros podem crescer alface, couve, salsa, cebolinha, tomate cereja, pimento, gengibre, manjericão e cenoura, sem exigir grandes espaços.
Nos quintais urbanos, sem descaracterizar as habitações e a cidade, podem florescer mangueiras, goiabeiras, limoeiros, maracujazeiros, bananeiras, abacateiros e papaieiras, árvores que oferecem sombra, beleza e alimento.
Não se deve abandonar as aldeias sem reflexão e estruturação. Aproveitar os espaços urbanos e domésticos para cultivar, capitalizar recursos, reduzir custos e construir vida melhor são caminhos de sustentabilidade e dignidade.
Que cada quintal seja lavra, cada varanda seja horta, cada comunidade seja jardim. Assim, a memória se transforma em prática e a prática em futuro seguro.
(Título) publicado no jornal Pungo a Ndongo a 19 de Junho de 2026.

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