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quinta-feira, julho 02, 2026

A CASA QUE DESABA

Há imagens que se perpectuam e se renovam quando as colocamos em analogia com outros casos da vida: a choupana na lavra, o casebre na aldeia, a casa colonial na fazenda ou vila do interior e o lar que se fecha.

Do campo da Angola profunda, guardo vivas as lembranças das casas de pau‑a‑pique ou de adobes, erguidas com um espeto vertical que sustentava o colmo feito de capim. Com o passar do tempo, e quando a manutenção falhava, o espeto cedia, o tecto ruía e, assim, a pobre casa perdia a sua “vida”.
Mais tarde, já adolescente e jovem, ao percorrer os longos caminhos de Angola, deparei‑me com outro cenário semelhante: as infra-estruturas habitacionais deixadas pela presença colonial. Com o abandono e ou ausência de manutenção, começava o processo de desventramento: primeiro desaparecia a janela, depois a porta; mais tarde, o barrote que segurava as telhas. A cobertura caía, e as intempéries encarregavam‑se de acelerar a degradação, fazendo crescer vegetação no interior e levando ao desmoronar das paredes.
É o mesmo que acontece num lar quando parte o marido. A casa sofre um abalo. Ficam a viúva e os filhos, tentando remendar ou manter o que é possível, mas a harmonia funcional já não é a mesma. A peça fundamental, o espeto da casa, deixou de existir. E quando a viúva o acompanha, é como se a casa desabasse por completo.
Nesta quarta‑feira, 1 de Julho, perdemos Carla Toala João, viúva do meu finado tio Augusto João “Gasolina”. Era uma tia‑amiga. A nossa relação manteve‑se forte e inquebrantável, mesmo depois de o espeto se ter partido. Hoje, sinto como se a casa tivesse finalmente desabado. Transita em paz, tia Caita!

quarta-feira, julho 01, 2026

DOUTOR MANKENDA E EU EM UM “MATONGÊ” DAS ARÁBIAS

Ponto prévio: Na academia, doutor é quem tenha feito e concluído com aproveitamento os quatro níveis do ensino superior: bacharelato, licenciatura ou graduação, mestrado e doutoramento ou PhD. Todos os demais são tratados de acordo com o seu grau concluído.

Que o indiano é comerciante e emigrante por excelência, já se sabe. Que os “zazás” não lhes ficam atrás na kandonga e na exportação da sua cultura alimentar para onde quer que estejam, também é evidente. A novidade está no “casamento” entre o comerciante indiano e a tia congolaise que confecciona e vende fufu, sakamadeso e makayabu em pleno Dubai.  

O ponto geográfico é Deira, zona comercial comparável ao bairro São Paulo, em Luanda, ou ao Hoji-ya-Henda dos anos 1990/2000. Ali, indianos, paquistaneses e outros “eses” disputam clientes, quase num “chega-chega”, às lojecas, com produtos sem preço fixo, vendidos ao critério da pressa ou da desatenção do comprador — sobretudo na hora da pausa para o almoço ou da reza muçulmana, quando quase tudo fecha. Alguns chegam a trancar os clientes dentro da loja, para melhor os convencer a comprar ou desistirem de procurar preços mais convidativos.  

Mas deixe-me narrar o “matongê de Deira”.  

A fome daquele dia era intensa e não havia mais tempo a perder. Quando o vendedor de periféricos electrónicos nos abordou, apontámos-lhe apenas a boca e a barriga, sinalizando a urgência. Ele percebeu a nossa angústia e, por instantes, desistiu do seu insistente “come in, I’ll give you a very good price”.  

— We want eat, disse-lhe impaciente.  

O homem olhou para a nossa tez amelaninada e mediu o “volume” da fome.  

— Come on. I will show you where you can find what you need, respondeu num inglês arranhado, mas compreensível para um beginner.  

Atravessámos um prédio na diagonal, entrámos noutro, subimos de elevador e, no terceiro piso — que mais parecia uma vivenda improvisada — chegámos a um restaurante sem o cuidado estético que asiáticos e europeus conferem a lugares de comida. Parecia algures no Palanca. Tinha de tudo: cabritê, sakamadeso, mfúmbwa, fufu, makayabu, peit’alto, carne seca e, quem sabe, até carne de “primo” e makoso!  

Por mais caricato que pareça, enquanto levávamos ao estômago as “bolas” de fufu, embrulhadas em folhas de mandioca, o comerciante que ali nos conduzira espreitava de cinco em cinco minutos, apelando para que não esquecêssemos de passar pela sua lojeca de bugigangas e modernices de curta duração. Era como se quisesse deixar claro: mostrei-vos a comida da vossa terra e tendes de deixar moedas no meu mealheiro.  

O episódio foi um cruzamento entre fome e a cultura em territórios de migração e comércio. O “matongê” das Arábias, metáfora da diáspora franco-africana, é uma recriação de raízes em qualquer parte do mundo. O filósofo Michel de Certeau lembrava que “o consumo é também uma forma de produção”.  Aqui, comer fufu em Deira é produzir memória, identidade e pertença.  

Entre o vendedor indiano e a tia congolesa, entre o cliente faminto e o comerciante insistente, há um diálogo silencioso que une comércio, sobrevivência e cultura. No fim, o prato de fufu não foi apenas alimento: foi comunhão, festa e memória. Cada gesto de mastigar, cada gole de bebida, carregava em si o eco longínquo da ancestralidade, da cultura.


Publicado pelo Jornal Pungo a Ndongo a 8.5.2026