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quinta-feira, outubro 15, 2026

FORTALEZAS DO KWANZA-SUL: REABILITAR A MEMÓRIA E PRESERVAR A HISTÓRIA

No seu Discurso sobre o Estado da Nação, proferido a 15 de Outubro de 2026, o Presidente da República, João Lourenço, anunciou a reabilitação de importantes fortalezas históricas da província do Kwanza-Sul, nomeadamente as de Kalulu, Kibala e Kikombo. A iniciativa insere-se no esforço de valorização do património histórico-cultural nacional e representa uma oportunidade para recuperar monumentos que testemunham diferentes períodos da história de Angola, desde a ocupação colonial e a resistência dos povos locais até aos processos de transformação política e social ocorridos ao longo do século XX.

Mais do que simples estruturas militares, estas fortalezas constituem marcos materiais de um passado complexo, cuja preservação permitirá às gerações actuais e futuras compreender melhor os acontecimentos que moldaram a identidade das comunidades locais e a própria formação do Estado angolano. 

Entre estas infra-estruturas históricas, a Fortaleza de Kalulu assume particular relevância por estar intimamente ligada à história da resistência das populações do Lubolu à penetração colonial portuguesa.

Situada no novo município de Kalulu (região do Lubolu), a Fortaleza de Kalulu foi construída em 1897, por iniciativa do tenente Albano Augusto Pais Brandão, num período em que as autoridades coloniais portuguesas procuravam consolidar a sua presença no interior de Angola. A região do Lubolu era então palco de sucessivos confrontos entre as forças coloniais e as populações locais, que resistiam à ocupação estrangeira e à imposição da administração portuguesa.

A construção da fortaleza obedeceu a uma lógica essencialmente militar. A sua finalidade era garantir a defesa das posições portuguesas, assegurar as linhas de comunicação e servir de base para as operações destinadas à ocupação efectiva do território. A fortificação tornou-se, assim, um dos símbolos da presença colonial na região.

Albano Augusto Pais Brandão ocupa, por isso, um lugar destacado na história da fortaleza. O seu envolvimento nas campanhas militares portuguesas está documentado no Relatório da Coluna de Operações à Sanga, elaborado entre Outubro de 1903 e Fevereiro de 1904 e conservado no Arquivo Histórico Militar português. O documento descreve operações militares realizadas em localidades do Lubolu e evidencia a persistência dos esforços portugueses para subjugar grupos que resistiam à autoridade colonial.

Contudo, a história da Fortaleza de Kalulu não pode ser contada apenas do ponto de vista da ocupação colonial. Ela está profundamente ligada à memória da resistência das populações do Lubolu, que durante décadas se opuseram à presença portuguesa.

Os conflitos iniciados na década de 1890 prolongaram-se pelos primeiros anos do século XX, culminando em importantes episódios de contestação, entre os quais se destaca o levantamento de 1917. A resistência das comunidades locais constitui um elemento fundamental da identidade histórica da região e permanece viva na memória colectiva das populações.

Neste contexto, a Pedra Escrita do Lubolu (Ndala Uzu), actualmente classificada como património histórico-cultural nacional, assume um significado particular. Associada às memórias das guerras de resistência contra a ocupação colonial, este local complementa simbolicamente a Fortaleza de Kalulu. Enquanto a fortaleza testemunha a implantação do dispositivo militar português, a Pedra Escrita (junto à aldeia de Ndala Uzu) recorda a persistência e a determinação dos povos locais na defesa da sua autonomia.

Durante a luta de libertação nacional, entre 1961 e 1975, Kalulu permaneceu sob administração portuguesa, acompanhando a evolução do conflito que conduziria à independência de Angola. Embora não existam evidências documentais que atribuam à fortaleza um papel específico em operações militares decisivas desse período, a sua origem mantém-na associada à história da presença colonial na região.

Após a independência, o Lubolu voltaria a viver tempos difíceis. No contexto da guerra civil angolana, Kalulu foi invadida em 5 de Setembro de 1983, 25 de Dezembro de 1989 e depois, durante o conflito pós-eleitoral que se seguiu a 1992, por forças da UNITA, episódios que provocaram, mortes e ferimentos de civis, deslocações de populações e profundas perturbações na vida económica e social do município. Tal como acontece relativamente ao período colonial tardio, não existem elementos suficientes para determinar de forma rigorosa a utilização operacional específica da fortaleza durante esses acontecimentos, daí que toda a narração em primeira pessoa de militares e comissários do período republicano é bem-vinda.

Reabilitar para conhecer e preservar

O anúncio presidencial da reabilitação da Fortaleza de Kalulu representa, por isso, muito mais do que uma simples obra de recuperação física. Trata-se de uma oportunidade para transformar o monumento num espaço de conhecimento, reflexão e valorização da memória colectiva.

A intervenção deverá ser acompanhada por investigação histórica, recolha de testemunhos das comunidades locais, levantamento documental e instalação de conteúdos interpretativos que permitam contextualizar os diversos momentos da história da região. Dessa forma, será possível apresentar aos visitantes uma visão equilibrada e abrangente do passado, reconhecendo simultaneamente a presença colonial, a resistência das populações do Lubolu e os acontecimentos posteriores à independência.

A Fortaleza de Kalulu poderá, assim, afirmar-se como um importante pólo de memória histórica do Kwanza-Sul, integrado no conjunto de fortalezas que o Estado angolano pretende preservar e valorizar. Mais do que recuperar pedras e muralhas, a sua reabilitação permitirá conservar a memória plural de um território cuja história foi marcada pela resistência, pela ocupação, pela luta e pela permanente capacidade de renovação do povo angolano.

Fontes

  1. Arquivo Histórico Militar de Portugal, Relatório da Coluna de Operações à Sanga, elaborado por Albano Augusto Pais Brandão (1903-1904);

  2. Decreto Executivo n.º 136/19, de 12 de Junho, relativo à classificação da Pedra Escrita do Libolo;

  3. Discurso sobre o Estado da Nação, Presidente da República de Angola, 15 de Outubro de 2026;

  4. Eduardo Ferreira dos Santos, Tese de Doutoramento, Universidade de São Paulo, 2015;

  5. Kindala Mabuel, Jornal Cultura, 2 a 15 de Janeiro de 2018.

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