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sexta-feira, outubro 23, 2026

DAS DERROTAS SUCESSIVAS À «QUERIDURA» DE LULA

(Uma análise do tempo no poder, das vitórias eleitorais e da popularidade presidencial no Brasil)

Na democracia, perder eleições não significa necessariamente perder o futuro. Por vezes, a derrota prepara o regresso; a persistência transforma um candidato em líder nacional, e o tempo pode converter a confiança eleitoral em popularidade duradoura. A trajectória de Luiz Inácio Lula da Silva ilustra esse fenómeno de forma singular na história política brasileira.
SETE CANDIDATURAS, TRÊS VITÓRIAS E UMA ESPERANÇA
Luiz Inácio Lula da Silva concorreu à Presidência da República em seis ocasiões, entre 1989 e 2022. Perdeu as três primeiras eleições e venceu as três seguintes.
1989 — derrota: perdeu a segunda volta para Fernando Collor de Mello.
1994 — derrota: perdeu para Fernando Henrique Cardoso, eleito no primeiro turno.
1998 — derrota: voltou a ser derrotado por Fernando Henrique Cardoso, reeleito.
2002 — vitória: venceu José Serra na segunda volta.
2006 — vitória: derrotou Geraldo Alckmin na segunda volta e foi reeleito.
2022 — vitória: venceu Jair Bolsonaro na segunda volta, regressando à Presidência após doze anos fora do cargo. Obteve 50,90% dos votos válidos, tornando-se o primeiro presidente eleito para um terceiro mandato não consecutivo na história republicana brasileira.
2026 — derrota no 1º turno frente a Flávio Bolsonaro, Lula da Silva tenta, neste domingo, 25, a reviravolta, para totalizar a quarta eleição ou a quarta derrota.
Esta sequência ajuda a explicar a singularidade de Lula: não chegou ao poder à primeira tentativa, nem desapareceu depois de três derrotas consecutivas. Persistiu, ampliou a sua base eleitoral e conquistou, por três vezes, a confiança necessária para governar o Brasil. A sua terceira vitória foi particularmente simbólica, por representar o regresso de um antigo presidente num contexto de forte polarização política.
QUEM MAIS GOVERNOU ENTRE OS PRESIDENTES ELEITOS?
Considerando o período democrático iniciado com a redemocratização, em 1985, e as eleições presidenciais directas, três nomes merecem especial atenção: Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff.
Luiz Inácio Lula da Silva — três mandatos
Eleito em 2002, reeleito em 2006 e novamente eleito em 2022, Lula iniciou o terceiro mandato em Janeiro de 2023. Se concluir o mandato em Janeiro de 2027, terá acumulado cerca de doze anos de exercício presidencial, somando os oito anos do primeiro ciclo aos quatro do actual mandato. Caso vença o segundo turno dessa eleição poderá ficar até 2031, somando 16 anos como presidente.
Fernando Henrique Cardoso — dois mandatos completos
Eleito em 1994 e reeleito em 1998, Fernando Henrique Cardoso governou de Janeiro de 1995 a Janeiro de 2003, totalizando oito anos de mandato. Foi o primeiro presidente brasileiro a beneficiar da reeleição consecutiva, após a alteração constitucional que a permitiu. A estabilidade monetária alcançada pelo Plano Real foi um dos factores centrais do seu sucesso eleitoral.
Dilma Rousseff — um mandato completo e outro interrompido
Eleita em 2010 e reeleita em 2014, Dilma Rousseff governou de Janeiro de 2011 até Agosto de 2016, quando perdeu o cargo na sequência de um processo de impeachment. Exerceu, assim, cerca de cinco anos e oito meses de Presidência.
A comparação mostra que Lula se destaca pelo número de vitórias presidenciais e pelo tempo acumulado no cargo entre os presidentes eleitos directamente no período democrático posterior a 1985. Não se deve, porém, confundir essa posição com o recorde de toda a história brasileira: Getúlio Vargas governou durante muito mais tempo, em períodos distintos, incluindo uma fase de natureza autoritária.


A «QUERIDURA»: QUANDO A POPULARIDADE ATINGE O AUGE
Em Dezembro de 2010, no final do seu segundo mandato, Lula alcançou cerca de 87% de aprovação pessoal, segundo pesquisa do Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A aprovação do Governo atingiu igualmente um nível recorde de 80%.
A popularidade estava associada a uma combinação de factores: crescimento económico, redução do desemprego, valorização do salário mínimo, expansão do consumo e políticas de combate à pobreza.
O programa Bolsa Família tornou-se um dos símbolos desse período de inclusão social e mobilidade económica, embora não seja possível atribuir toda a aprovação presidencial a uma única política pública.
A chamada «queridura» não resultou apenas da personalidade do presidente. Foi também alimentada pela percepção de que a vida de milhões de brasileiros estava a melhorar. Para muitos eleitores, Lula representava a possibilidade de ascensão social e de integração de sectores historicamente marginalizados.
O seu caso demonstra que a popularidade presidencial tende a crescer quando os resultados das políticas públicas são sentidos no quotidiano. O eleitor pode tolerar dificuldades e imperfeições, mas a percepção de progresso material reforça a ligação entre governante e governados.
O TEMPO TAMBÉM DESGASTA
A longevidade política, todavia, tem um reverso. O terceiro mandato de Lula decorre num ambiente muito diferente daquele em que governou entre 2003 e 2010. O eleitorado mudou, as redes sociais transformaram o debate público, a circulação de críticas tornou-se mais rápida e a polarização política continua intensa.
O regresso ao poder não reproduziu automaticamente os níveis de popularidade do passado. A inflação percebida pelas famílias, o custo de vida, as dificuldades económicas, as controvérsias políticas e a avaliação dos serviços públicos influenciam permanentemente a apreciação do Governo.
É neste contexto que se pode falar de fadiga política ou eleitoral: a possibilidade de um líder, mesmo com uma história de conquistas, perder parte da sua capacidade de mobilização devido à permanência prolongada no centro da disputa política.
A fadiga, contudo, não deve ser confundida com rejeição definitiva. A popularidade oscila, e uma avaliação desfavorável do Governo não significa necessariamente que o eleitor tenha deixado de reconhecer o percurso do presidente. Do mesmo modo, uma vitória eleitoral não equivale a uma aprovação permanente de todas as decisões governativas.
SER QUERIDO É DIFERENTE DE VENCER
A história presidencial brasileira permite distinguir três dimensões frequentemente confundidas:
Vitória eleitoral: traduz uma escolha feita num momento concreto, entre candidatos e projectos concorrentes.
Popularidade governativa: reflecte a avaliação que os cidadãos fazem da actuação do Governo num determinado período.
Legado histórico: resulta de uma avaliação mais ampla, construída ao longo do tempo, que pode sobreviver às oscilações da popularidade imediata.
Lula conseguiu reunir as três dimensões em diferentes momentos da sua trajectória, mas elas não caminham sempre juntas. Um presidente pode vencer eleições sem conquistar aprovação generalizada; pode ser muito popular durante o mandato e perder a eleição seguinte; e pode deixar um legado reconhecido mesmo depois de atravessar períodos de forte contestação.
É também por isso que a comparação entre presidentes não deve reduzir-se a uma competição de percentagens. A popularidade depende do contexto económico, da conjuntura política, das expectativas da população e da metodologia das sondagens.
A «QUERIDURA» NEM SEMPRE É ETERNA
A trajectória de Luiz Inácio Lula da Silva é uma das mais expressivas da democracia brasileira: seis candidaturas, três derrotas iniciais, três vitórias presidenciais e um regresso ao poder depois de doze anos. Poucos percursos ilustram tão bem a persistência política e a capacidade de reconstruir a confiança eleitoral.
O seu caso também ensina que a «queridura» popular não é um património adquirido para sempre. Pode atingir níveis excepcionais quando o crescimento económico e a inclusão social correspondem às expectativas dos cidadãos, mas pode diminuir quando os resultados deixam de satisfazer essas expectativas ou quando o desgaste se acumula.
No fim, o tempo no poder é simultaneamente um prémio e uma prova. Prémio, porque traduz a confiança conquistada nas urnas; prova, porque aumenta a responsabilidade, a cobrança e a comparação com o passado.
Lula tornou-se uma figura central da democracia brasileira não por nunca ter perdido, mas por ter conseguido transformar derrotas sucessivas em vitórias históricas. A sua maior lição talvez seja esta: na política, a persistência pode recuperar a confiança, mas só os resultados conseguem sustentá-la.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGÊNCIA BRASIL. Lula encerra governo com aprovação recorde, mostra CNI-Ibope. Brasília, 16 dez. 2010. Disponível em: memória da Empresa Brasil de Comunicação. Acesso em: 22 out. 2026.
G1. Aprovação do governo Lula bate recorde. Jornal Nacional, 16 dez. 2010. Acesso em: 22 out. 2026.
G1. Popularidade de Lula bate recorde e chega a 87%, diz Ibope. Brasília, 16 dez. 2010. Acesso em: 22 out. 2026.
SECRETARIA-GERAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA (BRASIL). Biografia de Fernando Henrique Cardoso. Brasília, 2022. Acesso em: 22 out. 2026.
SECRETARIA-GERAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA (BRASIL). Fernando Henrique Cardoso: dados do ex-presidente. Brasília, 2022. Acesso em: 22 out. 2026.
SENADO FEDERAL DO BRASIL. Lula é eleito presidente da República pela terceira vez. Brasília, 30 out. 2022. Acesso em: 22 out. 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Resultados oficiais da eleição presidencial de 2022. Brasília, 2022. Disponibilizados no portal de apuração eleitoral do TSE

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