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segunda-feira, março 10, 2008

TRANSFORMAR ARMAS EM ARADO

(Crónica de viagem)

Lembranças tristes da guerra para que servem?
Em museus talvez tenham alguma utilidade histórica, mas quando estendidas aos ventos, aos sóis e às chuvas, para quê mais cantar vitórias e chorar derrotas enterradas?

-Assim mesmo, procedem os ferreiros, serralheiros, funileiros e outros que se dedicam à transformação dos restos da guerra em algo valioso para a vida.

São incontáveis os carros militares, tanques e outras peças de artilharia pesada que os combates deixaram para trás e que seriam o constante cartaz de boas vindas àqueles que (re)descobrem as estradas d’Angola profunda.

Até a bem pouco tempo o cenário que nos era mostrado era exactamente este: Carros queimados, tanques destruídos, e outras peças de artilharia pesada ladeando as estradas de metro a metro e quilómetro a quilómetro, uma situação que tende a desaparecer.

Primeiro, pela acção positiva dos “homens das artes”. Funileiros, serralheiros, bate-chapas, entre outros que reaproveitam o que é possível retirar destes antigos meios de guerra, transformando-os em objectos de paz.

Estes homens, muitos deles levados às actuais profissões pela carência de quase tudo, não têm medido esforços, para com as chaparias de tanques e carros fabricar: arados, portas e janelas; com os chassis as pontes para transpor rios, entre outros fins. É no fundo também uma forma de aplicar os RRR: Reduzir - Reutilizar – Reciclar.

Uma forma inteligente de nos desfazermos das recentes tristes lembranças e tocarmos o barco para frente. Outra contribuição têm dado as construtoras das estradas que afastam estes pesadelos para longe da visão ou mesmo enterrá-los.

Bem haja ferreiros!

Luciano Canhanga

quinta-feira, março 06, 2008

DE LUANDA AO HUAMBO/KUITO

RASGANDO A SELVA I
Uma viagem inédita por terra, percorrendo centenas de quilómetros em estradas asfaltadas, terraplanadas e outras muito danificadas pela guerra e inacção humana, só se pode chamar aventura sobre rodas. Aliás, à primeira ideia de a fazer, o conselho foi desfavorável:

_ Toninho, vai de avião!

Teimoso, apanhei o autocarro Luanda/Huambo para depois fazer o Huambo/Kuito, num percurso total aproximado a 800 km.

Luanda/Maria Teresa (K-Norte) em Boa estrada, diga-se, foi o primeiro trecho a que se seguiu Maria Teresa/Dondo em estrada “andável” (muito estreita, porém já sem os buracos e em alargamento). O futuro pode torná-la numa “pista”, dizem os que a frequentam com regularidade.

Dondo/Kibala (K-Sul) é um trecho igualmente impecável sob responsabilidade da brasileira QG e que trás à memória dos mais velhos os tempos da “Junta”. Para os mais novos a lembrança é das manutenções que nos idos de 1980 trabalhadores afectos ao MCH efectuavam.

E seguimos viagem. Pelo caminho algumas paragens obrigatórias montadas pela polícia e sem explicação aparente. Zenza do Itombe, Desvio da Munenga/Calulo, só para citar exemplos. O pretexto é único: Dinheiro para alimentar os caprichos dos agentes da corporação.

-Sete mil. Pagar ou deixar a carta e apanhá-la em Calulo, disse descaradamente um sargento da corporação ao motorista, no desvio da Munenga.

Pretendendo evitar outros 42 km que levam à sede municipal do Libolo e o azar de encontrar o banco sem sistema para o pagamento da suposta multa, “paga” lá entregou o motorista a solicitada quantia aos resmungos.

A viagem retoma. Por enfrentar ainda os controlos do Kizouo e Nhia, antes do Waco Kungo. O sol atinge o “ponto G”, a traça apodera-se do estômago e a conversa bocal é sucedida pela conversa do motor a diesel até Kibala onde termina o novo asfalto. À música automóvel junta-se agora a dança dos buracos. Estamos a caminho do Waco.

A mesma QG e outras empreiteiras se esforçam em cumprir os prazos dados pelo governo, mas a chuva impede o andamento acelerado da empreitada. E as bocas voltam a ter motivos para comentar. A velocidade diminui e o sol acelera o seu passo para o poente. Passa-se pelo Waco, atravessa-se a ponte sobre o Queve e retoma-se a negrura asfáltica. Dizem os conhecedores da zona que assim seria até ao Alto Wama, Comuna do Londuimbali/Huambo, passando por Kassongue, Vila Franca, Ngalangue, entre outros aglomerados do Kuanza-Sul.

“Daqui também se vai ao Kuito passando por Bailundo”, aconselha uma nativa. Mas o anoitecer convida-nos, eu e meu tio Alberto, a seguir ao Huambo, cidade mais segura em termos de dormitório. A intuição transforma-se em razão, pois já passava da hora 22 quando o autocarro, com avarias pelo caminho, escalou a antiga Nova Lisboa, também em franca reconstrução.

E as primeiras informações davam-nos conta da paralisação da cidade no dia anterior, devido ao funeral do empresário Amões que morrera num acidente de aviação. Ele, contavam, era o maior investidor da província e da região central.

Entre sonhos e insónias a noite foi passada numa pensão citadina, com direito a pequeno almoço à saída (foi pena termos saido às cinco da manhã).

Já na sexta-feira 25 de Fevereiro, a maratona para o Kuito começou com os kupapatas (moto-taxi), do albergue à paragem dos carros.

Do Huambo à Vila Nova e Tchicala Tcholoanga a ferrovia de Benguela e os eucaliptos, que o ladeiam, apresentam-se como agradáveis companheiros de viagem que se prolonga até ao Katchiungo e Chinguar, perfazendo os primeiros 75 km do percurso, em estrada terraplanada. Daqui em diante, outros 75 km em território bieno.

A viagem mostra-nos obras e também desilusões. Muito ainda há por fazer. Caia chuva e a velocidade de 60/80 km/H reduziu-se para 20/30. Os buracos falam alto e o corolla quase rastejava. Precisamos de 3 horas para chegar ao Cisindo onde fomos acolhidos em apoteose pela família Salongue.

Luciano Canhanga

quarta-feira, março 05, 2008

DEMOCRACIA BI-PARTIDÁRIA

(Crónica de viagem)

Diz a teoria da comunicação que a Propaganda e o Marketing diferem uma da outra porque a primeira impõe conduta/comportamento e pretende objectivos a curto prazo.

Porém, ao longo do interior do país, sobretudo na região central de Angola, as duas formas de comunicação parecem estar casadas. Ou seja, a propaganda é também Marketing, na medida em que ela é feita não apenas para o hoje, mas também para colher amanhã.

As bandeiras partidárias, colocadas em quase todas as aldeias, têm como fim dizer a quem nasça e quem passe o que e quem elas representam, no caso o partido X ou Y, "marcando uma presença mental".

É assim que Mpla e Unita tentam perpetuar os seus nomes, suas marcas e seus ideais entre as populações da área mais habitada do país, o planalto, disputando (mesmo mudos) espaços territoriais e aglomerados populacionais. Nalguns casos esta disputa muda é notável em cada muro, faixada, rua, aldeia, lavra e até mesmo em descampados. Tudo serve para içar uma bandeira. Estacas, montanhas, cubatas, currais, etc. Quem viaja pelo interior contempla a beleza e assiste igualmente a esta luta fria de gigantes. Apenas os dois.

Mpla e Unita, poder e oposição, unicamente sós, num pais de duzentos partidos. Doutras cores, apenas tímidas aparições em cidades e vilarejos, sempre de forma envergonhada num mundo bi-polar.


Luciano Canhanga

terça-feira, março 04, 2008

KUITO/BAILUNDO/ALTO WAMA/LUANDA

RASGANDO A SELVA II

O regresso a Luanda foi surpreendente. Previa um trajecto semelhante ao anterior, revendo o troço Huambo/Alto Wama que a noite e o cansaço não permitiram ver. Mas quis o condutor da Hiace encurtar o caminho, para o gáudio da maioria, e contornar o Huambo. O meu objectivo era também ver coisas novas para contar, nada mal, e concordei.

Sete horas e trinta minutos. A mulher acompanha-me ao Cisindo, 2 ou 3 km da Cidade. Aqui, viaturas para Luanda, Huambo e outros destinos, aguardam paciente e ordenadamente por passageiros. A ordem de chegada é cumprid
a pelos condutores.

Sobre estrada esburacada e poeirenta, mas com asfaltagem à porta, transpomos marcos importantes. Primeiro o desvio para Chitembo/Kuando Kubango. Antes, passamos por uma ponte provisória que obriga o condutor a uma perícia. Um buraco ao longo da travessia tem de ser acertado ao meio da largura dos eixos.

O rio chama-se Kukema e lembra terríveis combates entre as forças governamentais e da rebelião nos idos anos de 1993 e 1997. Dos dois lados da rodovia objectos de guerra legados à história lembram combates mortíferos que nos levam à reflexão sobre o quanto perdemos ao longo de anos inglórios.

Os nativos esforçam-se em esquecer as mágoas e não comentam. Os visitantes também não perguntam , embora curiosos, evitando que alguém lance farpas. A única voz que se sobrepõe é a do motor diesel da viatura Hiace.

Mais adiante está o Chinguar. Aqui passará o comboio, na sua ligação ao Kunje, (outra localidade que a guerra tornou famosa) para abastecer a cidade do Kuito. São apenas 2 ou 3 km do Kuito ao Kunje.

Na vila do Chinguar o mutismo desaparece e contam-se pequenas estórias sobre os benefícios da paz e sobre as casas velhas que a juventude reclama a todo o custo para reabilitar, mas que o governo não dá.

Atravessa-se a ponte ferroviária e sugam-se mais alguns quilómetros. Não muitos e entramos na vila de Katchiungo, município da província do Huambo.

Aqui a construção de uma grande obra a mando do Ministério da Educação ressalta à vista.

_Um Instituto Médio, se calhar. Murmura-se.

A estrada não pára, nem o carro. Entre buracos e asfalto vai-se alterando a aceleração e o percurso conduz-nos ao Bailundo e não mais à capital do Huambo. O percurso é para mim novidade.

Por embalas e comunas, fazendas e casas de pequeno comercio rural ganham rostos.

De metro a metro estacas delimitam a nova largura da estrada. Dez metros de plataforma ao invés dos actuais oito. Reconstrução da via em curso até que atingimos um trecho da via pouco maltratado pelo tempo e inacção humana. Uma senhora da casa dos 35 solta a voz e resmunga no seu “portumbundu”.

-É graças ao mano Mais Velho que esta estrada ficou assim boa.

Insulto para alguns e elogio para outros. O auditório prefere que o vento se encarregue das palavras, o mesmo vento que leva a música tocada por um rádio tosco.

Terminado o bendito trecho, novamente se dança aos saltos. Adiante se vislumbra uma clareira.

_ É a pista do Bailundo, alertou o motorista, pelo que me lembrei lá ter estado por duas vezes.

No Bailundo contam-se também pequenas estórias sobre a pista, a morte de Valentim Amões que tanto investiu naquela circunscrição e que podia ali aterrar o avião que o matou, se a montanha não se tivesse antecipado. Fala-se ainda sobre o Bunker de Savimbi (na foto), e eu falo sobre a História da criação deste reino do Mbalundu: “foram os nossos ancestrais da Kibala que o fundaram”.

Uns crentes e outros descrentes, o vento mais uma vez se encarrega das palavras.

No largo cívico da municipalidade três placas indicam os destinos: Huambo, Mungo e Alto Wama.

Tomamos o destino frontal que vai ao Wama. De repente o telefone toca. Entre companheiros de viagem fazem-se caras dóceis e outras inamistosas. Levanto o rosto e cruzo olhares com uma bandeira da Unita. O toque de chamada do meu telefone era o hino do Mpla e entendi a mensagem.

A mulher que me pedira para que a pontualizasse sempre que chegasse a um sitio com sinal telefónico perguntou pela minha localização e o porquê do silêncio.

Argumento que no Bailundo só havia Unita (Unitel), telefone que estava sem saldo. O Mpla (Movicel) tocaria no Alto Wama uma hora depois.

ALTO WAMA/PEDRA ESCRITA

O 4 de Fevereiro estava ao meio. Mal entramos para a novel estrada, negra de riscas brancas no meio e laterais, o polícia mostra ser a sua vez de “matar a sede”. Pedem-se documentos do condutor e da viatura mas parecem dizer menos do que mil kuanzas. O motorista desfaz-se dele “pagando”.

Era a segunda vez naquela viagem e outras tantas se seguiriam no Waco, Kibala e desvio da Munenga. Desta vez fico na aldeia de Pedra Escrita onde reside a minha mãe.

O relógio marcava 16 horas. Cheguei. Meu espanto foi que o bairro estava reunificado. É hoje apenas uma unidade que dizem ter sido nada fácil. A minha curiosidade procura pela escola e o centro médico que julgava existirem e a população responde que não havia.

Enquanto aguardo pelo regresso da “minha velha” que foi à lavra, recordo os anos da minha primária, dos quilómetros percorridos à pé, das escolas construídas com adobes feitos pelos alunos mais velhos e pelos pais, das carteiras de munzaza, das lavras dos professores que cultivávamos e das palmatórias na hora da tabuada, e resmungo.

-Como isso regrediu! Bons valores diluíram-se com a guerra e já ninguém quer saber do futuro!

Luciano Canhanga

domingo, março 02, 2008

OS SENHORES DA OBRA

RASGANDO A SELVA III

QG, MC21, CIF, BCOM, entre outras construtoras, são nomes que fazem estórias e que deixarão história sobre a reconstrução das estradas angolanas.

De Luanda ao Dondo, do Dondo à Kibala/Waco Kungo/Alto Wama/Huambo/Bié, enfim, toda Angola, até onde pára a "civilização universal", são milhares de quilómetros em reconstrução e construção, serpenteando a selva.

Montanhas rasgadas, margens fluviais unidas ou reunidas, enhãlas (anharas) ou prados cortados, planaltos trepados, enfim. Uma Angola que ajudam a reencontrar-se.

Assim é a reconstrução do país saído de uma guerra de 41 anos (1961/2002) sem grandes obras e em muitos casos sem manutenção sequer. Uma reconstrução que se canta e conta sob várias versões e em várias línguas que a assiste.

O objectivo maior é fazer e refazer, permitir a comunicação e juntar povos. Aldeias antes ilhadas estão hoje unidas e fornecem ajudantes para as grandes obras de restauro. “Serão os mestres do amanhã e que garantirão a manutenção e continuidade da empreitada”, desabafa um encarregado brasileiro abordado sobre a mão de obra local.

Pois é. É a mais valia que se espera da cooperação estrangeira. Para quem tem 1.246.700 km dilacerados pelo conflito é tanta empreitada para poucos obreiros.

Bem haja!

Luciano Canhanga

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

PEDRA ESCRITA (LIBOLO): NOTAS ESPARSAS I


Aldeia de Pedra Escrita, 279 Km de Luanda, Estrada Nacional 120, há meio caminho entre Dondo e Kibala.

O fim da guerra serviu para juntar os vários povoados que se espalhavam pela região, numa extensão de aproximadamente 10 Km. A fusão é atribuída ao Tenente Coronel Infeliz, n’altura Comandante do Regimento das Forças Armadas estacionadas no município.

  • Conta-se que os aldeões foram forçados a abandonar as residências permanentes nas lavras e formar uma aldeia unificada, o que por si só pode resultar em muitos ganhos colectivos. Hoje, todos se orgulham deste facto, na altura mal encarado.

  • Habitantes de aldeias mais distanciadas da estrada asfaltada seguiram o exemplo dado pelos seus familiares, ainda nos anos oitenta do século XX, fazendo da Pedra Escrita uma das maiores aldeias da Comuna da Munenga, Município do Libolo.
  • Cálculos demográficos apontam para cerca de mil famílias que multiplicado pelo número de agregado, variável entre 5 a 7 indivíduos, nos dá a ideia de poder contar com uma média de 5 a 7 mil habitantes.
  • Para quem viveu na Pedra Escrita ou que lá tenha nascido, mas que há muito deixou de lá viver, o reencontro com a comunidade é sempre motivo de regozijo, quanto mais reencontrar uma aldeia que cresceu demográfica e economicamente. O fim da guerra e a consequente sedentarização permite hoje às famílias construir casas semi-permanentes, juntar alguns recursos e adquirir meios como: chapas de zinco, móveis, electro-domésticos, geradores, motorizadas e até viaturas, algo inimaginável no passado.
  • Porém, se nesse aspecto a comunidade parece ter evoluído, há aspectos em que a colectividade regrediu. Reporto-me à educação, cuidados médicos e sanidade do meio e outras preocupações comunitárias. É que não existem escolas, posto médico, latrinas nem espaços de lazer público.

    No passado, a que assisti como beneficiário, eram as comunidades que construiam a escola, cabendo ao comissariado comunal a indicação do professor que pelo facto de a sua actividade permanente ser o ensino, era alimentado pela comunidade.

  • E mais. Enquanto as nossas mães contribuíam com alguns alimentos, nós os alunos efectuávamos campanhas aos sábados na pequena lavra do professor, encurtando desta feita a sua dependência alimentar da comunidade.

  • Hoje, mesmo com a aldeia triplicada, estas iniciativas desapareceram. Escola, posto médico, Jango comunitário, fontanário, casas de banho e latrinas familiares e ou colectivas afiguram-se como necessidade urgente para diminuir doenças como as diarreias, bilharzioze, entre outras, educar as crianças, alfabetizar os adultos e tratar dos detritos, etc. Iniciativas comunitárias podem encorajar ONG e outros doadores à causa.

  • Repousam-me ainda na memória os quilómetros percorridos, à pé, da Fazenda Israel ao Calombo, do Rimbe à Fazenda Israel, do Rimbe ao que é hoje a aldeia de Pedra Escrita, entre outras peripécias, sempre à procura do aprimoramento intelectual. São distâncias que as crianças de hoje não têm necessidade de percorrer,dada a fusão dos aglomerados populacionais que circundavam a Fazenda Israel. Porém, falta a organização que tiveram os pais do antigamente, já que hoje, os mais pequenos perdem a possibilidade de usufruir de um dos seus direitos mais elementares, a educação.

  • Os pais de ontem já estão sem forças ou já se foram. E por incrível que pareça, os pais de "hoje em dia" esqueceram-se que têm de dar formação aos seus rebentos, sentam-se à sombra da bananeira apreciando um "bom" Kaporroto de dondi.
  • É pena que falte por lá quem provoque um debate e se encontre, sobretudo, "quem coloque o sino ao pescoço do gato". Enfim, falta organização e iniciativas por parte dos aldeões, um facto que deixa entristecido quem por lá tenha nascido e ou vivido e que, por amor ao cordão, anseia por uma vida digna aos seus.

  • Luciano Canhanga

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

LIBOLO: NOTAS ESPARSAS

Um município que se desenvolve e uma vila (Calulo) que cresce.

Libolo, província do Kuanza-Sul é circundado pelos municípios de Kambambe (K-Norte) Cacuso (Malange), Quissama (Bengo) e Quibala e Mussende (K-sul).

Quem vai hoje ao Libolo, quer seja no sentido Dondo/Kibala ou inverso, encontra um município em franco desenvolvimento e crescimento económico.

A Estrada Nacional 120 que o corta pelo meio está toda reabilitada e reasfaltada. Muitas antigas infraestruturas destruídas pela acção da guerra foram ou estão a ser reerguidos, enquanto que outras novas crescem em todas as comunas e aldeias.

Dizem uns que é por custa do Higino Carneiro, um filho da terra e que tem a seu leme o Ministério das Obras Públicas, depois de ter passado pelo Governo da Província do Kuanza-Sul.

Verdade ou exagero , melhor oportunidade não teriam os mona bata de ver a sua "motherland" a mudar a olhos vistos.

Passei pelo Libolo numa viagem ao Kuito/Bié (ida e volta) entre 24 Jan. e 6 Fev. tendo voltado à aldeia de Pedra Escrita e Calulo no dia 15 de Fevereiro.

O que pude ver é, deveras, impressionante. Na vila o asfalto foi estendido até a zonas nunca antes pensadas. O castanho pueril cedeu ao negro asfáltico em todas as ruas da pequena urbe, que se alarga com a construção de novos condomínios e asfaltagem de ruas antes entregues à progressão de ravinas (Rua da Missão, Estrada da Cabuta, Bairro Azul, etc.). E como que a pintar de colorido a nossa capital municipal foi construído de raiz um estádio de futebol ao caminho do Kassequel e com as ruas de acesso também asfaltadas.

Talvez se excedam as más línguas que atribuem todas essas realizações unicamente ao General Higino. Mas de todas as maneiras, foi ele quem levou ao governo da Província Serafim do Prado (do Hammer). Também foi ele, enquanto governador da província, que colocou na administração da municipalidade Luís Carneiro (seu irmão). Foi ainda ele que convidou outros governantes com faro empresarial a investirem no Libolo. Tudo isso são mais valias ...

E os investimentos públicos nas estradas também são visíveis. A EN120 que nos leva ao Huambo, passando por Dondo, Kibala, Waco e Alto Wama, bem como o desvio da Munenga a Calulo tornaram-se pistas que convidam à condução automóvel.

E lembro a passagem curta do Luís Carneiro, em conversa com o meu primo polícia quando dizia: "Aqui a prioridade é para os da terra com capacidade de investir".
E um recado do administrador, Kota "Luizito", pra mim, depois de me ter apresentado como jornalista:
_"Vocês, há os que só falam o que não vêm. Olha bem e escreve ou fala tudo...".
Sejam ou não obras exclusivas do General Higino, bem haja!

Luciano Canhanga

quarta-feira, janeiro 02, 2008

terça-feira, janeiro 01, 2008

UM CIDADÃO DO MUNDO CHAMADO XANANA


Xanana Gusmão, antigo presidente Timorense e actual Primeiro-Ministro daquele país, é sem dúvidas um cidadão do mundo.

Estamos habituados a ver cadastros de homens das artes (cinema, televisão, música, jornalismo, pintura, etc...etc) no Hi5 e noutros locais de relacionamento virtual. Mas Políticos e com estatura presidencial, nunca. Se há, são poucos exemplos e destes poucos, Xanana é um deles.

De principio não acreditei quando vi a foto e o nome. Tive que abrir as fotos e os comentários feitos pelo autor, bem como os outros feitos pelos visitantes, e, concluí que era de facto página do líder timorense.

Xanana, apesar de grandes responsabilidades estaduais, gasta um pouco de tempo com amigos virtuais, respondendo a mensagens e adicionando outros ao seu leque de amigos. Assim mesmo como faz qualquer um cidadão do mundo.

Caso para dizer que Xanana o é, e em nada fica atrás.


Soberano Canhanga

sábado, dezembro 22, 2007

QUANDO A "MINHA PESTE" SARAR...


Desde Outubro último que muitos me vêem como "verme", como infectado por uma peste transmissível e mortal. Tudo devido a uma cabala que me foi montada por gente bem conhecida.

Mas é certo que quando a "minha peste" sarar, e porque sempre terminará, muitos virão procurar-me.

Só espero que não venham com conversa fiada e lágrimas de crocodilo à mistura.


Não tarda volto a ser HOMEM.

Canhanga

terça-feira, dezembro 18, 2007

SE A POLÍCIA NOS DEFENDE DOS BANDIDOS QUEM NOS DEFENDE DELA?



Comandante-geral da Polícia Nacional

ANGOP, 18/12 - O comandante geral da Polícia Nacional, comissário-geral Ambrósio de Lemos, criou hoje, terça-feira, uma comissão para averiguar o registo de incidentes registados em Luanda, que envolveram a utilização indevida de armas de fogo por parte de alguns elementos afectos à Polícia Nacional.

Segundo uma nota do Comando-Geral da Polícia Nacional, como resultado dos incidentes, que chocaram a sociedade e provocaram dor e luto em algumas famílias, dois elementos da corporação alvejaram mortalmente, segunda-feira, dois jovens que se encontravam a encenar, tendo um terceiro ficado ferido.

Hoje, refere o documento, dois outros agentes atingiram mortalmente um jovem ambulante no Mercado do Roque Santeiro, situado no município do Sambizanga (Luanda).

Em ambos os casos, os quatro agentes foram imediatamente detidos e tudo está a ser feito para que se constituam os competentes processos-crime, que transitarão para o tribunal, através do Ministério Público para serem julgados em função dos condenáveis actos por eles praticados, adianta a missiva.

Nesta senda, a comissão ora criada deverá apresentar os resultados do seu trabalho no prazo de oito dias, estando a Polícia Nacional, com essa atitude, a procurar demonstrar o seu compromisso com a legalidade, transparência e com a sociedade, pautando assim pelos princípios elementares presentes num estado democrático e de direito, em que a liberdade da pessoa humana se afigura como um pilar da democracia.

"É apanágio da Polícia Nacional garantir a segurança do cidadão, pelo que acções contrárias a este princípio devem ser oportuna e exemplarmente combatidas", lê-se no documento.

Os trabalhos da comissão não invalidam todos os outros trâmites em curso no sentido de apurar responsabilidades individuais, pelo que, devido a gravidade da infracção, está igualmente em curso um processo que poderá resultar na expulsão dos infractores dos quadros da Polícia Nacional.

No documento, a Polícia reitera a sua missão de continuar a tomar medidas para o rigoroso cumprimento das regras básicas de actuação policial, no sentido de acabar com este tipo de atitudes.

S.C.

sábado, dezembro 15, 2007

NIEMEYER: CEM ANOS DE CONCRETO


"Se a recta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito”. Esta é uma das frases mais célebres de Oscar Niemeyer, arquitecto brasileiro que completou 100 anos no dia 15 de Dezembro 2007.

A agência do Rio de Janeiro escreve que Niemeyer “criou prédios que poderiam ser considerados esculturas, entre eles, os prédios de Brasília”.

Para além da arquitectura, Niemeyer é também uma grande enciclopédia histórica. Basta notar que viveu a I Guerra Mundial, o surgimento do primeiro Estado comunista do Mundo (URSS), a morte da Sociedade das Nações, o surgimento dos ultra-nacionalistas (Nazistas), a II Guerra Mundial, o nascimento da ONU, a Guerra Fria, as guerras para as independências das antigas colónias europeias na África e Ásia, a ruptura do Socialismo e vários outro acontecimentos. E note que Niemeyer assume-se como um comunista…

O projector da “nova” capital federal brasileira (Brasília) é também tido como um possível arquitecto do que se espera ser a nova capital angolana, ou no mínimo, a nova Luanda.

Mais anos se desejam a Niemeyer e mais sonhos em concreto (cimento).

sexta-feira, novembro 09, 2007

A MORTE NÃO LEVA OS IMORTAIS


MOÇAMBICANOS assassinos, malditos assassinos. Calaram a voz, mas ficou a música. "Nobody can stop reggae because reggae is strong". Cantou Lucky Dube, o astro sul-africano do reggae, morto a tiros em Johannesburgo, na África do Sul.


A morte assassina chamou-o aos 43 anos, mas é sabido que Luky não morreu porque os imortais nunca vão.


A sua música de intervenção contra a segregação racial, e mais tarde apelos à unificação, como "different colors one people", imortalizaram-no.


Lembro que o seu primeiro álbum chama-se "Rasta Never Die". Seguiram-se Slave, Prisoner e Together as One, entre outros que o imortalizam.


No total 21 álbuns, sendo o último Respect. Um respeito que os bandidos não tiveram.


A morte não leva os imortais

Long life Lucky Dube

Long Life Reggae


Let's live together as one


domingo, outubro 21, 2007

terça-feira, outubro 02, 2007

QUANDO AS FAPLA CHEGAR(EM)...


Hoje vivi um daqueles dias que ninguém quer ter.
O esforço e o cansaço já vinham de ontem, porém hoje foi o atingir do pico.
Confesso que se fosse máquina estaria a fumegar. É também hoje dos poucos dias em que tento chamar a veia imaginadora e não consigo. Geralmente quando estou cansado islolu-me. E Sempre que me isolado reflito e ou abstraiu-me. Hoje nada!
Apenas lembrei-me de uma antiga canção, daqueles tempos do "Angola Combatente" da RNA, e que rezava:

C- "Quando as Fapla's chegar(em) é melhor desaparecer"
R- "Bandido"

De Bis em Bis vou tentando "me recompor".

Foto: MIG das Fapla na Batalha do Cuito Cuanavale 1988

Luciano Canhanga

domingo, setembro 23, 2007

OUTROS TEMPOS IX


São 7h e 21 de Domingo, dia 23 de Setembro. Naquele tempo era o período da retomada das aulas no ensino geral (primário). E lembro-me do ingresso na OPA que era simultâneo à entrada na escola do povo. Minha estreia (na pré-kabunga) foi em 1981. E cantávamos.
- Bom dia camarada professor. Pioneiro de Agostinho Neto na Construção do Socialismo, Tudo pelo povo.
E eram bons tempos para aquela infância despreocupada. Sem Games, tão pouco Ply stations e outros inventos de agora. Computador? - Quem ouvia falar nisso?- Ninguém (na buala).
E vieram em 1983 os confrontos entre os Cdas das Fapla e a unita. E fomos recuando, recuando. Antes só se recuava não haviam deslocados como se diz agora. Éramos recuas. Acompanhávamos os (des)avanços das gloriosas Faplas.
Tanto recuamos, minha mãe, minhas três irmãs e eu (pois já éramos órfãos de pai desde 1982) que chegamos a Luanda. Cidade grande e alheia. Tínhamos que ser "baptizados". A mãe nos negócios do género (comida da loja), eu o mais velho a ajudá-la e às vezes fazendo o meu próprio negócio para suportar a compra de cadernos e roupa. Mais à vontade as minhas irmãs, "zerando", ou seja, jogado ao zero.

E voltei para a escola. Sem documentos tive de recomeçar na segunda classe, quando no Libolo já trilhava a terceira. -Que fazer???
Estávamos em Setembro de 1984. Entrei na Sala 18 da escola 518 do Rangel. Era professor da turma o meu primo Arnaldo Manuel Carlos. Enquanto professor (da brigada Comandante Dangereux) tinha conseguido se reenquadrar em Luanda, pois, naquele tempo se dizia "O Professor é um combatente da linha da frente para acabar com o obscurantismo e criar o homem novo". Hoje é Primeiro Superintendente da Polícia.

No Baptismo os bandidinhos de Luanda não deixaram de exercer sua influência. E na Quarta classe perdi os documentos ficando sem realizar o exame final. O Destino foi um avanço. Regresso à terra para ganhar juízo. E ganhei. O meu regresso à "Metrópole", em 1990 já era um adolescente e com a sexta feita e foi motivado por um outro recuo. A guerra piorou. Os professores doutras terras tinham ido embora e não haveria em 1990 o terceiro nível na Escola Nkuame Krumah.
Posto em Luanda, já não éramos nós que nos despedíamos com o _ Até manhã Cda professor, se Deus quiser amanhã viemos mais... eram outras crianças. E o ciclo estava no fim.

Olhando para a degradação de valores em todo o país, penso hoje que tipo de homens constitui a minha geração. O Homem novo sonhado ou um homem até um pouco ultrapassado?

Na foto o meu filho Luciano Delfim Canhanga. Juntamente com o Fernando, a Argemara e o kota deles Mociano espero que sejam os "homens" novos.

domingo, setembro 09, 2007

PARTILHAR ALEGRIA SUADA


Um pouco de exagero, se calhar, no título, mas quero partilhar esta alegria de um amigo, um kota das lides profissionais, que me liga 18 meses depois para anunciar o nascimento da Twene.

Está o meu amigo na casa dos quarenta e tal. Quase quarenta e cinco se não me engano. É unigénito sendo igualmente esta Twene a sua primogénita.

Quis, somente, o meu kota/amigo, saber se na língua do meu berço, o Kimbundo, ou noutras que tenha conhecimentos básicos não representava ofensa.

Primeiro em Kimbundu: juntando a raiz pareceu-me que não. Pois o prefixo tw (indica Plural). Exemplo: twana (filhos). ene (eles)?

E comuniquei com emoção que pode ser palavra vazia. Surgida apenas da junção de dois nomes (paterno e materno) e com alguma queda para a fonia Kimbundu, porém de uma coisa tenho certeza; Nesta língua não é asneira.

Quanto a outras línguas o meu arriscar seria diminuto na medida em que Matuba que em Kikongo é agradecimento e Matondo que é louvor são respectivamente em Kimbundu e Umbundu testículos.

Espero, com esta alegria contagiante, não ter induzido o meu amigo a erro e que a Twene continue a nos dar muitas alegrias.

Na foto: Eu e Argemara Princesa Canhanga ao colo.

Luciano Canhanga

terça-feira, setembro 04, 2007

NÃO DIREI NADA!


Nunca fiz nada
Contra a vossa Pátria
Mas vós
Apunhalastes a nossa!
...
Quero, hoje, 4 de 7mbro homenagear o "poeta maior" e recordar um trecho de sua obra.
Neto faria a 17 de 7mbro 85 anos de idade. Aos 10 de 7mbro completam-se 28 anos da sua partida.

Quanto à actualidade, continuarei a dizer.

imagem "roubada" do blog da Ana Mathaya
Soberano Canhanga

sábado, agosto 25, 2007

DITO E FEITO: ANGOLA CAMPEÃ





Dito e feito: Nos textos que antecederam este eu profetizei: “O jogo será a doer mas é certeza de que a taça, a nona, é nossa”!!!

Vinte horas e 53 minutos. Soava o apito final do árbitro grego da partida entre Angola e Camaões. Mostrava o placard 86;72, 14 ponto de diferença num jogo que conheceu um empate nos primeiros 10 minutos a dez pontos, com 33-31 ao intervalo.

A partida foi testemunhada pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que viveu os últimos segundos em pé. Angola conquista o Afrobaket2007, a sua nona taça continental desde 1980, ano em que se estreou na competição.

Olhemos para a trajectória: Final; Angola – Camarões (86;72);

Meia-final: Angola-Cabo Verde (93-60);

Quartos de final: Angola –Rep. Cent. Africana (78-51).

Angola na 1ª fase:

Angola-Rwanda (109-66); Angola-Cabo Verde (100-44)

e Angola-Marrocos (108-58)

CLASSIFICAÇÃO FINAL:

3º Cabo Verde e 4º Egipto (53-51): 5º Nigéria e 6º Tunísia (83-82)

7º República Centro-Africana; 8º Côte d`Ivoire; 9º Senegal;
10º Marrocos; 11º Mali;
12º Rwanda; 13º África do Sul; 14º Moçambique;
15º RD Congo e 16º Libéria.

O Afrobasket 2007 realizou-se, pela 1ª vez na história da organização, em 5 cidades, nomeadamente: Grupo A – Benguela: Angola, Rwanda, Marrocos e Cabo Verde. Grupo B – Huíla: Mali, Senegal, Egipto e Cote d’Divoire. Grupo C – Huambo: Libéria, Nigéria, RD Congo e R.Centro Africana. Grupo D – Cabinda: Camarões, Moçambique, África do Sul e Tunísia. Luanda recebeu os jogos da 2ª fase e da final.

Na foto: PR JES

Luciano Canhanga