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terça-feira, março 03, 2026
RETALIAÇÃO IRANIANA E VULNERABILIDADE REGIONAL
segunda-feira, março 02, 2026
A LÓGICA DO VASSALO MODERNO
Num comunicado conjunto, os líderes da Alemanha, França e Reino Unido — Friedrich Merz, Emmanuel Macron e Keir Starmer — condenaram os ataques iranianos, ignorando o contexto da agressão prévia por parte dos seus aliados. Nenhuma palavra sobre os bombardeamentos israelitas. Nenhuma nota sobre as bases americanas que cercam o Irão como muralhas de intimidação. Apenas a condenação da resposta, como se o direito à defesa fosse privilégio exclusivo do Ocidente.
Entretanto, alguns países manifestaram-se contra os ataques norte-americanos e israelitas:
- O Ministério das Relações Exteriores do Brasil declarou que “o governo brasileiro condena e expressa grave preocupação com os ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irão. Os ataques ocorreram em meio a um processo de negociação, que é o único caminho viável para a paz.”
- Por sua vez, o governo chinês afirmou que “os ataques devem cessar imediatamente e a soberania do Irão deve ser respeitada.”
- A Rússia classificou os ataques como “acto de agressão” e alertou para o risco de desestabilização regional.
- A Espanha considerou a ofensiva “contraproducente” e apelou ao regresso ao diálogo diplomático.
- Países africanos e do Golfo Pérsico também se manifestaram, pedindo “fim das hostilidades, respeito ao direito internacional e retomada do diálogo”.
Todavia, vários outros países, embora não tenham figurado no comunicado conjunto da "troica europeia", alinharam-se diplomaticamente com os parceiros europeus, mantendo o silêncio cúmplice que caracteriza a lógica do vassalo: não se contesta o senhor, mesmo quando este viola princípios internacionais.
A perigosidade deste silêncio é profunda. Como advertia Martin Luther King Jr., “o que mais preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” Quando os que têm voz se calam, a injustiça ganha legitimidade. Quando os que deviam defender o equilíbrio se omitem, o mundo torna-se refém da força e da conveniência.
A Carta das Nações Unidas, que consagra o direito à soberania e à legítima defesa, vai sendo ignorada por aqueles que a redigiram. O princípio da equidade internacional é substituído por uma moral de dois pesos e duas medidas, onde o aliado pode tudo e o adversário não pode nada.
A lógica do vassalo moderno não é apenas diplomática. É moral. É a renúncia à consciência crítica em nome da obediência estratégica. É o abandono da justiça em favor da conveniência geopolítica. E é, sobretudo, o risco de que, amanhã, qualquer país possa ser a próxima vítima, enquanto o mundo civilizado assiste, impávido, como quem diz: “não sou iraniano, não sou palestiniano, não sou sírio… nada disso me afecta.”
Mas afecta. Porque o mundo é um tecido interligado. Quando se rasga num canto, o desfiar é inevitável.
domingo, março 01, 2026
BARBAS EM CHAMAS, SILÊNCIOS EM FUMAÇA
Vivemos tempos em que a estabilidade colectiva, firmada na Carta das Nações Unidas, parece uma peça de museu. O princípio da não ingerência, da autodeterminação dos povos, da soberania dos Estados, vai sendo corroído por narrativas de conveniência, por sanções selectivas e por intervenções que se dizem libertadoras, mas deixam rastos de ruína.
O filósofo francês Alain Badiou advertia: “A verdade não é aquilo que se impõe, mas aquilo que resiste.” E o que resiste hoje são os povos que, mesmo cercados, mesmo vilipendiados, ainda ousam afirmar a sua identidade, a sua história e os seus projectos de futuro.
A morte de líderes como Saddam Hussein, Muammar Khadaffi e Khamenei não apenas eliminou figuras tidas como "controversas". Ela desmantelou estruturas, desorganizou sociedades, abriu espaço para o caos. O que se seguiu à queda dos regimes depostos pelo ocidente não foi a paz prometida, mas a fragmentação, o extremismo e o êxodo.
A perseguição e captura de Nicolás Maduro, o cerco a Cuba, a demonização e ataques ao Irão, tudo isso parece seguir um roteiro onde o “outro” é sempre o culpado, e o “civilizado” é sempre o redentor. Mas como bem disse Eduardo Galeano: “A história nunca diz adeus. Diz até logo.”
Ó país [líder] silencioso, se chegar a tua vez, que farás? Quando os tambores da destruição baterem à tua porta, será tarde para perguntar por que não te importaste com o que fizeram ao vizinho. O mundo não é uma colcha de retalhos isolados. É um tecido interligado, onde o fogo numa ponta pode consumir o todo.
Hoje, muitas barbas estão em chamas. É tempo de termos as nossas de molho. Não por medo, mas por consciência. Porque o silêncio diante da injustiça é também uma forma de violência.
E aqui reside a maior perigosidade: o silêncio daqueles que deviam emitir a sua voz firme. O silêncio dos que têm poder de palavra, de decisão e de influência transforma-se em cumplicidade. A omissão, quando se esperava coragem, é o terreno fértil onde o vilão prospera. Como advertia Martin Luther King Jr., “o que mais preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.”
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
OS CARROS E AS MAKAS DO AEROPORTO
Os passageiros que chegam nos voos noturnos trazem consigo cansaço, ansiedade e, muitas vezes, problemas familiares ou laborais que motivaram a viagem. Aos empregados das empresas que operam nos aeroportos exige-se pontualidade e excelência, pois para isso concorreram, assinaram contratos e recebem remuneração. Alegar sono ou esquecimento no cumprimento das tarefas é “lançar areia aos olhos dos clientes”.
A segurança, por sua vez, tem regras próprias e ordens que devem ser cumpridas sem brechas. Era 23h40 de 30 de Janeiro de 2026, no município libolense da Munenga. O avião, procedente de Sá da Bandeira, um DH quase lotado, aterrou. A bagagem demorou, mas não foi eternidade. E os carros?
Os taxistas estavam no lado de fora, no portão das chegadas, à espera de clientes para engrossar a conta do patrão e levar kwanzas para casa. Mas os carros para as bagagens não estavam lá. Os carregadores/repositores de carrinhos, responsáveis por repor os carros eventualmente levados na última chegada, não apareceram. Sem carrinhos junto ao carrossel e sem explicações, os passageiros com malas pesadas saíram em busca deles. Não sabiam que “quem saísse não podia reentrar pela mesma porta” larga e automática. Homens e mulheres ficaram do lado de fora, tentando encontrar carrinhos para transportar as malas.
A briga, que seria dos encarregados dos carrinhos, foi transferida para os jovens polícias que cumpriam à risca as ordens de segurança. Em matéria de segurança não se podem abrir brechas, mas a rigidez acabou por penalizar quem não tinha culpa. Os passageiros, já cansados e ansiosos, foram levados a depor no piquete policial, enquanto os faltosos dormiam nos gabinetes e compartimentos do aeroporto Ngana Soba ya Kamoxi.
A razão maior está do lado dos passageiros. Eles agiram por necessidade diante da ausência de carrinhos e da falta de informação. Os carregadores/repositores de carrinhos foram os principais faltosos, pois não cumpriram a função básica de garantir meios para o transporte de bagagens. A polícia, embora correta na aplicação das regras, transferiu para os passageiros o peso de uma falha estrutural que não lhes cabia.
A desorganização dos serviços de apoio criou a “maka”. Os passageiros foram injustamente penalizados, enquanto os verdadeiros responsáveis se ausentaram das suas obrigações.
sexta-feira, fevereiro 20, 2026
CONSCIÊNCIA E HIGIENE NAS RUAS DE VIANA
Na Rua Hoji-ya-Henda, encontrei dois “operativos” que conversavam com uma vendedora ambulante de mandioca fervida. Um deles, após provar a porção que comprara, atirou para o asfalto a parte que não lhe interessava.
Aproximei-me, decidido a intervir:
— Operativos, bom dia!
— Bom dia, senhor! — respondeu um deles, com ar grotesco.
— Desculpem-me. Aquele balde de lixo é vosso? Pertence ao vosso posto?
— Sim.
— Então, se vocês têm balde de lixo, por que o seu colega jogou a sobra no asfalto? É para dizer que “o governo não limpa”?
O homem avaliou rápido a situação. A altivez inicial cedeu lugar à humildade.
— Desculpa, pai. Isso é questão de consciência individual.
Retomei:
— Pois é. Os mais lúcidos devem ensinar os menos lúcidos. Só assim teremos uma vila melhor.
Os dois homens abanaram as cabeças em aprovação. Continuei a minha caminhada, desconfortável com o cheiro do lixo e da urina que impregna cada esquina.
Por: Soberano Kanyanga (munícipe há 20 anos)
Publicado no jornal Pungo a Ndongo a 30.01.2026
domingo, fevereiro 15, 2026
UM VOO SEM VOZ NEM IMAGEM
O silêncio dentro de um avião não é o silêncio da contemplação, nem o repouso da viagem. É um vazio que se impõe, como se a bordo tivesse sido decretada a ausência de música, de filmes, de anúncios, de qualquer sinal que nos situe entre a origem e o destino. O passageiro, entregue à monotonia, descobre que a única “performance” disponível é o ressonar da ocupante da cadeira da frente.
domingo, fevereiro 08, 2026
CAMINHADA, LEITÃO E SOLIDARIEDADE MECÂNICA
Eram três angolanos: duas mulheres e um homem. Uma das senhoras tinha uma encomenda por despachar nos correios e o homem, já mais velho, acossado pela fome e pela sede de caminhar, encontrou companhia para satisfazer o desejo das pernas e o roncar do estómago. Rumaram da José Malhoa ao El Corte Inglês. Bons passos, marcados sem stress nem pressa.
Adentraram a grande superfície — como chamam os tugas. A Fina, que também é fina no trato das questões laborais e profissionais, despachou a encomenda enquanto Suzana vasculhava a internet para confirmar que nada de anormal contra a sua organização circulava nas redes sociais.
Cumprida a demanda, meteram-se a percorrer o longo corredor do piso inferior até ao “Forno do Leitão do Zé”.
— Eu também gosto de porco — emendou a Fina, ao que Suzana acompanhou na decisão.
Pediram três pratos, regados com água e refrigerantes. O preço era razoável e aceitável para a vida do “turista” com poucos dias ainda de estadia. Enquanto o velho Soba e a Fina acompanhavam os preparativos e entretinham com conversa jovem brasileiro que os atendia, a Suzana foi ocupar uma mesa de quatro lugares.
Berta, jovem cafuça, ocupava uma das mesas. Inicialmente parecia cabo-verdiana. Depois, chamados por uma força invisível, juntaram-se à mesa próxima. Já eram quatro negroides. Chegou a amiga de Berta, Luísa, com sotaque ainda angolano. Depois, outra senhora negroide ocupou a mesa da mesma fila, perfazendo seis negros sentados espontaneamente lado a lado.
O ajuntamento não programado foi obra da lente da solidariedade mecânica _ conceito de Émile Durkheim _, sendo uma forma de coesão social baseada em semelhanças — culturais, linguísticas, raciais ou religiosas.
Segundo a teoria de Durkheim, indivíduos que partilham origens ou identidades comuns tendem a se reconhecer mutuamente e a se agrupar, mesmo sem combinar previamente.
Os angolanos e africanos, ao se encontrarem no mesmo espaço, foram atraídos uns pelos outros por afinidades de língua, sotaque e aparência. A proximidade espontânea criou uma pequena comunidade momentânea, marcada pela sensação de pertença e reconhecimento.
O encontro no “Forno do Leitão do Zé” não foi apenas gastronómico: foi um retrato vivo da solidariedade mecânica, essa força silenciosa que aproxima pessoas semelhantes e lhes dá a sensação de estarem em casa, mesmo longe dela.
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Publicado pelo Jornal de Angola a 23.22.2025
domingo, fevereiro 01, 2026
LYAMBA: PROIBIÇÃO, CONSUMO E REGULAÇÃO
Em Angola, o porte e consumo de lyamba permanecem proibidos por lei. O "Relatório Nacional sobre Drogas 2022" assinala que “a cannabis é a substância ilícita mais consumida no país, sobretudo entre jovens dos 15 aos 34 anos”.
A norma jurídica vigente enquadra o consumo como ilícito, mas a realidade mostra que o uso se tornou mais visível em espaços públicos ou de frequência pública, contrastando com os tempos em que os fumadores se escondiam e envergonhavam de ser catalogados como "lyambeiros ou kangonyeros".
Nas ruas da Vila de Viana, junto ao residencial Kizomba, o consumo é perceptível em quintais onde se organizam festas e descampados, acompanhado pelo cheiro característico e pelo estalar das sementes queimadas.
A lógica económica ajuda a explicar o fenómeno: quanto maior o número de consumidores, maior a procura; quanto maior a procura, maior o preço ou a produção. Assim, a lyamba torna-se um negócio lucrativo, ainda que clandestino.
Experiências internacionais:
- Namíbia: O consumo de cannabis é ilegal. A legislação herdada do período colonial prevê penas severas. Em 2023, o Namibian Legal Assistance Centre afirmou que “a criminalização da cannabis é discriminatória e desactualizada”, defendendo reformas legais.
- África do Sul: Em 2024, o Parlamento aprovou a Cannabis for Private Purposes Act. O texto legal estabelece que “adultos podem cultivar e consumir cannabis em casa, desde que não haja crianças presentes”. A venda comercial continua restrita, mas a lei eliminou registos criminais de condenados por posse.
- Holanda: Conhecida pela política de tolerância, permite a venda de pequenas quantidades em coffeeshops. Contudo, a posse acima de 5 gramas e o cultivo comercial permanecem ilegais. Em 2025, o governo iniciou um projeto-piloto para regulamentar toda a cadeia de produção e distribuição. O Dutch Ministry of Health declarou que o objectivo é “tornar o mercado mais transparente e controlado”.
A comparação mostra três modelos distintos:
- Proibição rígida (Namíbia) mantém o consumo na clandestinidade.
- Legalização parcial (África do Sul) reconhece o uso privado, mas limita o comércio.
- Regulação controlada (Holanda) integra produção e venda em sistema oficial.
Angola enfrenta o dilema entre manter a proibição, que não impede o consumo, ou avançar para uma regulação que permita controlar, tributar e reduzir riscos sociais.
Em síntese, a lyamba já é um negócio lucrativo na prática. A questão que se coloca é se o Estado angolano deve continuar a combatê-la apenas pela via repressiva (mas branda e incossistente) ou se deve considerar modelos regulatórios que conciliem saúde pública, economia e liberdade individual.
Fontes:
_ Relatório Nacional sobre Drogas 2022 – Angola
_ Namibian Legal Assistance Centre, 2023
_ Cannabis for Private Purposes Act, South Africa, 2024
_ Dutch Ministry of Health, Pilot Project on Cannabis Regulation, 2025.
Publicado no Jornal Pungo a Ndongo, a 24 de Janeiro de 2026
quinta-feira, janeiro 29, 2026
LINHA DE SINTRA: ENTRE CARRIS E DESENCONTROS
Desde 2002 que me sento, quando calha, nos "bancos enegrecidos" dos comboios que ligam Lisboa-Oriente a Sintra. A viagem é sempre mais do que deslocação, configurando-se num retrato vivo da cidade em mutação.
segunda-feira, janeiro 26, 2026
Nota de Autor
Soberano Kanyanga é o nome literário de Luciano Canhanga, escritor, cronista e investigador das tradições culturais angolanas. A adopção do pseudónimo corresponde ao compromisso estético e intelectual que o autor assume com a palavra escrita, com a memória colectiva e com o imaginário das comunidades que o formaram.
Natural do Libolo, Cuanza‑Sul, e radicado em Luanda, Luciano Canhanga construiu um percurso marcado pela observação fina do quotidiano, pela recuperação das narrativas locais e pelo diálogo contínuo entre a infância, a oralidade e a modernidade angolana. A sua escrita combina ternura e rigor, humor e crítica social, numa constante afirmação da identidade cultural.
Contos para Lúcia, obra dedicada à sua filha, inscreve‑se na continuidade desse projecto literário: resgatar valores, afectos e memórias que atravessam gerações, valorizando o espaço familiar como território de aprendizagem sensível e criativa. Cada história é um gesto de carinho, um fragmento de vivência e um convite à imaginação.
quinta-feira, janeiro 22, 2026
AMÉLIA SUTILA, MULHER LOTADORA DE VIANA
quinta-feira, janeiro 15, 2026
PEDRA, BRONZE E IDEOLOGIA
Com a ascensão do modelo socialista e a redefinição dos símbolos públicos, o busto de Américo Tomás foi removido do pedestal, sendo substituído por uma figura emblemática do marxismo internacional: Vladimir Lénin, descrito na época como o “guia mundial dos trabalhadores”. A nova escultura representava o alinhamento ideológico do novo Estado angolano com os países do bloco socialista, num contexto de luta anti-imperialista e afirmação revolucionária.
O busto de Lénin permaneceu no largo até perto de 1990, ano da queda do Muro de Berlim, que marcou o declínio das referências soviéticas em várias partes do mundo. Com o fim da Guerra Fria e a abertura política em Angola, o monumento foi desmontado e separado: o pedestal de mármore encontra-se hoje no Hall do Governo Provincial do Uíge, enquanto o paradeiro do busto permanece desconhecido.
Mais do que simples estruturas de pedra e bronze, os monumentos são marcos da memória colectiva, que espelham os ciclos de poder, os ventos da transformação e os pactos simbólicos entre o Estado e o povo. A sua trajectória convida à reflexão sobre o papel da escultura pública na construção da identidade nacional, na pedagogia da história e na reconciliação com o passado.
domingo, janeiro 11, 2026
ANGOLA VS PORTUGAL: DESCOBERTAS & RECIPROCIDADE
Seguiram-se degredados, condenados, pobres sem terra, artesãos sem mercado, analfabetos e soldados. Paulo Dias de Novais, em 1575, fundou a colónia de Luanda com quatrocentos homens, muitos deles aventureiros e militares sem fortuna. Vieram em nome da “civilização”, mas logo se dedicaram ao comércio de escravos e à apropriação de terras e recursos naturais. Ficaram quinhentos anos, sem que ninguém lhes cobrasse renovação de estadia ou exigisse documentos. Tornaram-se donos de tudo quanto era nosso, por "dádiva" que diziam divina.
Hoje, cumprida a “missão civilizadora”, não será lídino que nós também descubramos o outro lado? Vamos com passaportes, levamos algum dinheiro e ficamos para conhecer como são por lá as coisas. Não nos apossamos de terras, de minas de ouro ou poços de petróleo, nem de mulheres alheias. Apenas buscamos oportunidades. Quem é, afinal, o maior pecador nesta equação de aproveitadores?
Os números falam por si. Em Angola, embora o fluxo de novos emigrantes portugueses tenha diminuído [menos de mil chegaram em 2024] a comunidade instalada continua numerosa, mantendo presença visível nas cidades e nos negócios. Ilegais, com sobreestadia, também os há e nem temos fechado supermercados para os rusgar.
Até 1975 viviam "ilegalmente" no território angolano perto de meio milhão de portugueses. Em 2014 a estatística apontava 120 mil e actualmente são cerca de 30 mil.
Em Portugal, por sua vez, a comunidade angolana cresceu 66% em 2025, chegando aos 92 mil residentes legais, tornando-se a segunda maior entre os estrangeiros.
Reciprocidade, pois. Ontem vieram sem passaporte, hoje nós vamos com documentos. Ontem instalaram-se sem pedir licença, hoje buscamos apenas oportunidades legítimas. Ontem apropriaram-se de terras e de vidas, hoje procuramos trabalho e dignidade. A história, vista de frente, devolve-nos o espelho: quem descobriu quem, e quem aproveitou mais?
Por: Soberano Kanyanga
quarta-feira, janeiro 07, 2026
UMA HISTÓRIA POR CONTAR EM MAKELA MA NZOMBO
Na rua principal de Makela ma Nzombo [Maquela do Zombo], onde o trânsito flui em dois sentidos separados por um longo "chouriço" e a vida administrativa pulsa entre edifícios públicos, emerge uma estrutura silenciosa e enigmática. Entre a Direcção Municipal da Saúde e a Administração local, no lado direito de quem sobe, encontra-se um edifício de alvenaria cuja laje superior está desabada — como se tivesse sido interrompido por uma força súbita.
O edifício, hoje com a parte superior decepada e sem função aparente, levanta perguntas que ecoam entre os visitantes e os moradores mais novos:
Que serventia teve antes de ser danificado?
Quem o construiu?
Quem o destruiu, quando e porquê?
Nenhuma placa, nenhum registo visível, nenhuma memória oficial parece responder com clareza ao visitante de Makela ma Nzombo.
Mais do que ruína, a estrutura representa uma história por contar — um capítulo suspenso da memória urbana, que desafia o esquecimento e convida à investigação. A sua presença física, entre instituições que simbolizam cuidado e governação, reforça o contraste entre o que foi e o que poderia ter sido.
Recuperar a história deste edifício é mais do que um exercício de curiosidade: é um gesto de respeito pela verdade, pela arquitectura interrompida e pela memória dos que ali viveram, trabalharam ou resistiram.
quinta-feira, janeiro 01, 2026
ESCOLAS, IGREJAS E O PARADOXO DA SOLIDARIEDADE
Quando se propõe a edificação de uma escola comunitária — mesmo que provisória — para elevar o nível de conhecimento das crianças e da própria aldeia, a resposta é quase sempre categórica: “É obrigação do governo.” E de facto, é. Todavia, quando o Estado ainda não chegou, seria nocivo à comunidade “quebrar esse galho”, se quem mais ganharia seria ela própria?
O paradoxo torna-se mais evidente ao observarmos as igrejas locais. Com recursos escassos, os aldeões conseguem erguer templos imponentes para os seus padrões, sustentando-os com ofertas semanais — pecuniárias e alimentares. A fé mobiliza, une e constrói. Mas por que não se aplica essa mesma força à educação, à saúde, à dignidade dos que servem?
Em tempos, sugeri a construção comunitária de casas para professores e enfermeiros que percorrem até 200 km para prestar serviços à aldeia. Argumentei que isso atrairia suas famílias, reduziria faltas e garantiria melhor atendimento. A resposta foi dura: “É obrigação do governo. Eles são pagos e não dividem seus ordenados connosco.”
E os pastores? Que mais-valia trazem? São pagos com as ofertas domingueiras e outras dos mesmos crentes que negam colaborar com a educação e a saúde. Os pastores dividem os seus rendimentos? Ou será que oferecem algo mais intangível — fé, esperança, pertença — que os torna dignos do esforço colectivo?
Esta reflexão não pretende desmerecer a fé, mas sim convocar a consciência comunitária para o valor da educação e da saúde como pilares de emancipação. Se a fé constrói templos, que a razão construa escolas. Se o espírito acolhe pastores, que o corpo acolha professores e enfermeiros. A solidariedade não deve ser selectiva. Ela é o cimento da cidadania.
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Publicado no Jornal de Angola a 09 de Novembro de 2025














