Desde 2002 que me sento, quando calha, nos "bancos enegrecidos" dos comboios que ligam Lisboa-Oriente a Sintra. A viagem é sempre mais do que deslocação, configurando-se num retrato vivo da cidade em mutação.
Todavia, há sinais que destoam. Na estação de Rio de Mouro, uma mulher africana vende milho fervido — ou “milho cozido”, como insiste em chamar. É uma cena que poderia ser banal em Luanda, Praia ou Dakar, mas aqui, na Europa, choca pela informalidade. A venda ambulante, tão comum em mercados africanos, não se encaixa na cultura europeia, onde alimentos se compram em mercearias, supermercados ou médias superfícies, sujeitos a regras de higiene e fiscalização. E não é caso único. Cenas semelhantes repetem-se em outras estações, da Damaia em diante, até Sintra, como se o hábito tivesse encontrado terreno fértil ao longo da linha.
Migrar é mais do que atravessar fronteiras. Impõe aceitar o pacto implícito de respeitar a legislação e a cultura do país de acolhimento. Quem chega deve adaptar-se, não transplantar práticas que colidem com normas estabelecidas. E é precisamente aí que reside a fricção. Muitos oeste-africanos, lusófonos ou francófonos, parecem resistir a essa adaptação, mantendo hábitos que, aqui, se tornam "ilegais" ou pelo menos socialmente desajustados.
Hoje mesmo, contaram-me duas histórias que ilustram bem essa tensão. Uma cabo-verdiana, residente em Lisboa, aos 40 anos já soma seis filhos, número elevado para a média europeia e difícil de sustentar face à carestia de vida. Outra, africana de religião muçulmana, conta dez filhos, estando sob o olhar atento das autoridades locais, pois não dispõe de meios suficientes para sustentar tamanha prole. São exemplos que revelam como práticas comuns noutras geografias entram em choque com a realidade europeia, onde a natalidade é baixa e a exigência de sustento é rigorosa.
E há ainda um dado que salta aos olhos de quem viaja: a presença numerosa de africanos nas carruagens da Linha de Sintra. São maioria esmagadora em muitas paragens e apeadeiros, entrando e descendo em Benfica, Amadora, Cacém, Massamá, Monte Abraão, Damaia, Rinchoa, Sintra e cercanias. A pergunta impõe-se: terão os aglomerados em volta desta linha sido construídos para eles ou será antes a “solidariedade involuntária”, de que falava Durkheim, que os atrai, criando redes invisíveis de proximidade e pertença?
Além de transporte, o comboio é também espaço social, onde se revelam dinâmicas de integração e de desencontro.
O comboio da Linha de Sintra transporta histórias de mobilidade e esperança, mas também expõe tensões culturais. Entre carris e estações, Lisboa revela-se como cidade aberta, mas exige reciprocidade. Acolhe, sim, mas espera que quem chega cumpra as regras que sustentam a vida colectiva.
Vender milho fervido na estação, multiplicar filhos sem meios de sustento, transportar hábitos deploráveis de África — como o falar alto e o descuido com os descartáveis — pode parecer gestos inocentes ou escolhas pessoais, mas são também símbolos de desencontro entre culturas e de uma integração que ainda não se cumpre plenamente.
E se em Lisboa se assiste a este cenário, em Luanda não é diferente. O número crescente de senhoras, nacionais e estrangeiras, que fazem uso da burca — vestimenta feminina muçulmana que cobre todo o corpo e o rosto — levanta preocupações legítimas. Numa cidade e país onde o crime cresce diariamente, com relatos frequentes de raptos e abusos de menores, não seria razoável permitir que pessoas totalmente encapuzadas circulem livremente em espaços públicos, sem que se possa aferir quem são, o que fazem ou onde vivem. Pior ainda é que o número de encapuzadas cresce aos olhos de quem deveria vê-las e pôr um fim à permissividade. Seria anormal exigir que mulheres dessa religião, sem interferência na sua confissão, andassem com o rosto visível? É o mínimo que se pede, pela segurança, pela transparência e pelo respeito à convivência urbana!

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