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quinta-feira, janeiro 01, 2026

ESCOLAS, IGREJAS E O PARADOXO DA SOLIDARIEDADE

Nas comunidades rurais de Angola, o cenário habitacional é frequentemente marcado por construções precárias: casas maioritariamente de adobe, pau-a-pique e coberturas improvisadas com chapas de zinco envelhecidas ou capim. A paisagem revela não apenas carência material, mas também um desafio profundo de mobilização comunitária para o bem comum.

Quando se propõe a edificação de uma escola comunitária — mesmo que provisória — para elevar o nível de conhecimento das crianças e da própria aldeia, a resposta é quase sempre categórica: “É obrigação do governo.” E de facto, é. Todavia, quando o Estado ainda não chegou, seria nocivo à comunidade “quebrar esse galho”, se quem mais ganharia seria ela própria?

O paradoxo torna-se mais evidente ao observarmos as igrejas locais. Com recursos escassos, os aldeões conseguem erguer templos imponentes para os seus padrões, sustentando-os com ofertas semanais — pecuniárias e alimentares. A fé mobiliza, une e constrói. Mas por que não se aplica essa mesma força à educação, à saúde, à dignidade dos que servem?

Em tempos, sugeri a construção comunitária de casas para professores e enfermeiros que percorrem até 200 km para prestar serviços à aldeia. Argumentei que isso atrairia suas famílias, reduziria faltas e garantiria melhor atendimento. A resposta foi dura: “É obrigação do governo. Eles são pagos e não dividem seus ordenados connosco.”

E os pastores? Que mais-valia trazem? São pagos com as ofertas domingueiras e outras dos mesmos crentes que negam colaborar com a educação e a saúde. Os pastores dividem os seus rendimentos? Ou será que oferecem algo mais intangível — fé, esperança, pertença — que os torna dignos do esforço colectivo?

Esta reflexão não pretende desmerecer a fé, mas sim convocar a consciência comunitária para o valor da educação e da saúde como pilares de emancipação. Se a fé constrói templos, que a razão construa escolas. Se o espírito acolhe pastores, que o corpo acolha professores e enfermeiros. A solidariedade não deve ser selectiva. Ela é o cimento da cidadania.

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