Em Angola, os táxis colectivos — popularmente chamados de candongueiros ou “azuis e brancos” — são parte essencial da mobilidade urbana. Cada viatura tem dois protagonistas: o condutor, que dirige, e o cobrador, que recolhe o pagamento e organiza os passageiros dentro do carro.
Mas há uma terceira figura, menos conhecida e igualmente indispensável: os lotadores. Estes profissionais são os organizadores das “praças” (locais de embarque, também chamados de “placas”). São eles que anunciam os destinos, chamam os passageiros, orientam-nos para o primeiro carro da fila e mantêm a ordem. Quando surgem conflitos entre condutores ou cobradores, são os lotadores que intervêm para resolver as querelas. Em tempos passados, chamavam-se simplesmente “chamadores”. Hoje, continuam a ser a ponte entre passageiros e veículos, garantindo disciplina e fluidez no embarque.
Entre esses organizadores, destaca-se Amélia Sutila, uma mulher que desafia padrões num espaço dominado por homens. Com perto de quarenta anos e quatro filhos, vive no Bairro Kapalanga, antigo município de Viana, hoje Mulenvos.
“É casa própria”, diz orgulhosa.
Sempre que passo, a caminhar, pela rotunda junto à Igreja Católica de Viana, chama-me a atenção a voz feminina que convoca passageiros para os táxis coletivos. É única naquele espaço, rivalizando com jovens do sexo masculino que a respeitam e a tratam como “nossa mamoite”.
Durante algum tempo hesitei em abordá-la, receoso de receber uma “tampa”. Desta vez, porém, a coragem venceu a timidez e encontrei um ser alegre e simpático.
— Boa tarde, minha mana! Gostaria que me desses uma entrevista, mas sem interromper o teu negócio — provoquei, com humor.
Amélia sorriu, segura do que faz.
— Para publicar aonde? — perguntou, com semblante de quem aceitava o desafio.
Enquanto organizava dois taxistas em desentendimento sobre quem chegara primeiro, mostrei-lhe provas no telefone:
— Sou cronista. Escrevo e publico no Jornal de Angola — disse, exibindo recortes de crónicas já publicadas.
— Eu aceito, mas depois de sair no jornal vem mostrar também — concluiu, entre firmeza e simpatia.
A conversa foi breve. A paragem em que actua é organizada e movimentada. Faz questão de ter as viaturas alinhadas por ordem de chegada e lota uma a uma.
— Aqui há ordem. Os desordeiros não conversam comigo. A esquadra 46 está próxima — afirmou, com determinação e sorriso quase maternal.
Quando perguntei sobre o rendimento, respondeu sem rodeios:
— Diariamente, ganho entre quinze e vinte mil. É dinheiro que dá para comer, pagar propinas e me arrumar.
Brinquei:
— Falou em arrumar-se...
— Sim. Perfume, roupa em condições, cabelo, etc. Eu me aprumo como se estivesse a ir às instalações do patrão.
Amélia Sutila é exemplo de mulheres que olham para as oportunidades e empreendem o seu capital. Não é por ser mulher que comanda e organiza, há mais de um ano, uma paragem de táxis coletivos. É por ser inteligente e resiliente. Mais “Amélias” são necessárias para fazer Viana — e Angola — melhor.
Publicado no Jornal de Angola de 11 Jan. 2026

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