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quinta-feira, janeiro 15, 2026

PEDRA, BRONZE E IDEOLOGIA

Em 1963, durante a visita oficial à então província ultramarina de Angola, o Presidente da República Portuguesa, Américo Tomás, chegou à cidade de Carmona, hoje Uíge, onde foi erigido um busto em sua homenagem, repousando sobre uma estrutura de mármore no principal largo da cidade. A escultura, símbolo da autoridade colonial, permaneceu no local até à independência de Angola em 1975.

Com a ascensão do modelo socialista e a redefinição dos símbolos públicos, o busto de Américo Tomás foi removido do pedestal, sendo substituído por uma figura emblemática do marxismo internacional: Vladimir Lénin, descrito na época como o “guia mundial dos trabalhadores”. A nova escultura representava o alinhamento ideológico do novo Estado angolano com os países do bloco socialista, num contexto de luta anti-imperialista e afirmação revolucionária.

O busto de Lénin permaneceu no largo até perto de 1990, ano da queda do Muro de Berlim, que marcou o declínio das referências soviéticas em várias partes do mundo. Com o fim da Guerra Fria e a abertura política em Angola, o monumento foi desmontado e separado: o pedestal de mármore encontra-se hoje no Hall do Governo Provincial do Uíge, enquanto o paradeiro do busto permanece desconhecido.

Mais do que simples estruturas de pedra e bronze, os monumentos são marcos da memória colectiva, que espelham os ciclos de poder, os ventos da transformação e os pactos simbólicos entre o Estado e o povo. A sua trajectória convida à reflexão sobre o papel da escultura pública na construção da identidade nacional, na pedagogia da história e na reconciliação com o passado.

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