Apossado de fome, às vezes combinada com a sede, já comi carne assada sem sal, depois de caçadas colectivas. Sabia bem. O suco da carne quente e meio assada cumpria o papel de desidratante em dias solarentos, em jornadas sob fogo e calor intenso. Carne totalmente crua, nunca!
Não sei se entre o fogo e o sal qual terá sido a primeira descoberta do homem primitivo. Imagino a alegria do meu ancestral quando, pela primeira vez, viu doseados sal e fogo sobre carne tenra, acabada de caçar. Talvez tenha sido nesse mesmo dia que pensou em extrair a seiva da palmeira (maluvu). A primeira lhe soube doce, gaseificada e refrescante. Mas a do dia seguinte, colectada numa cabasa (casco seco de fruto) foi diferente. O homem teve então um almoço inédito: carne salgada, assada e acompanhada de maluvu doce e entorpecente.Aprecio Moët & Chandon, mas J.C. Le Roux talvez se tenha inspirado nesse homem primitivo que descobriu o prazer da combinação entre fogo, sal e bebida doce e fermentada.
O gesto ancestral de assar carne e temperá-la com sal pode ser visto como o primeiro acto de cultura gastronómica, uma vitória sobre a natureza bruta. Como escreveu Lévi-Strauss, “o cru e o cozido” marcam a passagem do natural ao cultural. O fogo não apenas cozinhou a carne, mas também iluminou o espírito humano. O sal, por sua vez, tornou-se símbolo de aliança e permanência. “Vós sois o sal da terra”, diria mais tarde o Evangelho cristão.
Assim, entre fogo, sal e seiva fermentada, nasceu o alimento e a comunhão. A festa e a memória. Cada gole de espumante moderno, cada taça de vinho, carrega em si esse eco longínquo: a celebração da vida que começou à volta da fogueira.

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