Translate (tradução)

domingo, março 01, 2026

O PAPÁ ESTÁ NO CÉU!

 (In: O gajo do pastor)

Naqueles anos em que os velhos já não tinham a energia de outrora para refrear a algazarra das crianças e dos adolescentes da igreja — todos tratados como filhos, sem excepção — a mocidade parecia padecer de um estranho pigarreio. Algo lhes entupia a garganta e, para aliviar, recorriam ao fritz, nome codificado para as alcoólicas que circulavam como sacramentos clandestinos.

Ndonga, Xikito, Kajila K’Elombo, Tombinho, o infalível Kaxikana e o sempre presente Manyinga, entre outros da mesma igualha, tinham como ponto de concentração um bar que, por ironia divina, ganhou o cognome de “Céu”. Era lá que tudo acontecia, paredes‑meias com a casa arrendada por Xikito. Quando alguém perguntava aos filhos “onde estavam os pais”, a resposta vinha certeira e com inocência bíblica:

— O papá está no Céu.

E estavam mesmo… a provar bênçãos fermentadas.

A Classe Kwanza‑Sul, emancipada e já caminhando para duas décadas, tinha como pastor regente um aposentado que decidira servir a Cristo como vocação tardia. Contava‑se que vivera uma vida de homem carnal e só depois da aposentação se convertera, formando‑se em teologia.

Certa vez, visitado por Ndonga, o filho do pregador, alegre como sino de Natal, soltou uma pérola doce como mel de pau:

— Só vieste hoje? Ontem o aniversário do papá bateu. Até vinho houve!

Se era verdade ou intriga infantil, ninguém soube. A verdade é que o pregador ficou gravado como “amigo da juventude”: uma alma que combatia com candura para não deixar que as ovelhas se precipitassem no abismo da desordem mundana.

Era domingo e já se fazia fim de tarde. As diligências religiosas estavam concluídas: visitas aos enfermos, actas fechadas, relatórios alinhados. Sem que ninguém chamasse ninguém, os comparsas reencontraram‑se espontaneamente em casa de Xikito. Desta vez não foram ao “Céu”. Nenhuma visita de anciãos estava prevista. Era dia de descanso espiritual e etílico só até às 17h.

Os telemóveis não eram ainda para todos. Tudo funcionava à base de recados e bilhetes. A palavra, quando dada, era cumprida:

— Palavra d’honra!
Cumpria‑se.

Relaxados, olhos distribuídos entre a televisão e a garrafa de cerveja que borbulhava ouro, as papilas gustativas brincavam com o chouriço assado e o pão fornecidos por Kaxinda. A vida dos jovens da ngelu só se podia comparar ao Éden paradisíaco.

Mas a pequena Kitilda, conhecedora de que as acções dos pais contrariavam o código metodista, irrompeu da cozinha em tom preocupado:

— Tikitô, Tikitô! Patoie, patoie, patoie...

O mundo congelou. Entre acreditar e ignorar a advertência da menina de dois anos, a prudência falou mais alto. Garrafas escondidas — mal-escondidas — e hálito comprometido de cevada e porco assado. Apenas o anfitrião foi à porta saudar o pregador, despachando-o como se fosse leproso.

Semanas depois, Ndonga trabalhava em missão de evangelização porta a porta com o pastor SS. O sol era intolerante e a sede não perdoava. Dirigiram‑se a uma roulotte. SS pediu dois hambúrgueres e um refrigerante para si. O íntimo de Ndonga, ressacado, implorava por uma bitola. O pastor, conhecedor das suas ovelhas, atirou com ironia pastoral:

— Meu jovem, estás à vontade. Se quiseres uma cerveja, podes pedir!

Ndonga congelou. Era permissão? Era armadilha? Era parábola? Jogou pelo seguro: pediu água. Água pura. Água que limpava a alma e castigava o fígado. 

Mais tarde, ao recordar o episódio, classificou o pastor com a ironia que lhe era própria:

— Esse é o gajo do pastor. Nem santo, nem pecador. Apenas humano, com humor suficiente para nos lembrar que até os guardiões da fé sabem que a tentação também se serve em copo gelado.

Sem comentários: