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domingo, fevereiro 08, 2026

CAMINHADA, LEITÃO E SOLIDARIEDADE MECÂNICA

Eram três angolanos: duas mulheres e um homem. Uma das senhoras tinha uma encomenda por despachar nos correios e o homem, já mais velho, acossado pela fome e pela sede de caminhar, encontrou companhia para satisfazer o desejo das pernas e o roncar do estómago. Rumaram da José Malhoa ao El Corte Inglês. Bons passos, marcados sem stress nem pressa.  

Adentraram a grande superfície — como chamam os tugas. A Fina, que também é fina no trato das questões laborais e profissionais, despachou a encomenda enquanto Suzana vasculhava a internet para confirmar que nada de anormal contra a sua organização circulava nas redes sociais.  

Cumprida a demanda, meteram-se a percorrer o longo corredor do piso inferior até ao “Forno do Leitão do Zé”.  

— Desculpem-me. Não resisto ao porco, embora a médica tenha recomendado “comer apenas o que nada e o que voa” — atirou o velho Soba.  

— Eu também gosto de porco — emendou a Fina, ao que Suzana acompanhou na decisão.  

Pediram três pratos, regados com água e refrigerantes. O preço era razoável e aceitável para a vida do “turista” com poucos dias ainda de estadia. Enquanto o velho Soba e a Fina acompanhavam os preparativos e entretinham com conversa jovem brasileiro que os atendia, a Suzana foi ocupar uma mesa de quatro lugares.  

Berta, jovem cafuça, ocupava uma das mesas. Inicialmente parecia cabo-verdiana. Depois, chamados por uma força invisível, juntaram-se à mesa próxima. Já eram quatro negroides. Chegou a amiga de Berta, Luísa, com sotaque ainda angolano. Depois, outra senhora negroide ocupou a mesa da mesma fila, perfazendo seis negros sentados espontaneamente lado a lado.

O ajuntamento não programado foi obra da lente da solidariedade mecânica _ conceito de Émile Durkheim _, sendo uma forma de coesão social baseada em semelhanças — culturais, linguísticas, raciais ou religiosas.  

Segundo a teoria de Durkheim, indivíduos que partilham origens ou identidades comuns tendem a se reconhecer mutuamente e a se agrupar, mesmo sem combinar previamente.  

Os angolanos e africanos, ao se encontrarem no mesmo espaço, foram atraídos uns pelos outros por afinidades de língua, sotaque e aparência. A proximidade espontânea criou uma pequena comunidade momentânea, marcada pela sensação de pertença e reconhecimento.  

O encontro no “Forno do Leitão do Zé” não foi apenas gastronómico: foi um retrato vivo da solidariedade mecânica, essa força silenciosa que aproxima pessoas semelhantes e lhes dá a sensação de estarem em casa, mesmo longe dela.

Publicado pelo Jornal de Angola a 23.22.2025

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