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sábado, abril 18, 2026

AS MÁQUINAS DE DACTILOGRAFIA: MEMÓRIA MECANOGRAFADA

A máquina de dactilografia foi um instrumento seminal que materializou o pensamento em texto tangível, dominando escritórios, redacções e lares durante mais de um século. A sua história, da aparição à obsolescência, entrelaça-se com a evolução tecnológica e com as memórias íntimas de quem, como eu, aprendeu a dar vida às suas teclas.

A sua aparição remonta ao século XIX, mas foi no século XX que se consolidou como símbolo de modernidade administrativa. Em Portugal e nas suas então colónias, como Angola, adoptou um layout distintivo: o teclado português, uma variante do AZERTY. Este padrão, presente em máquinas icónicas como as Olivetti, definiu a experiência de gerações de utilizadores. Foi numa dessas Olivetti que eu própria aprendi a teclar, apoiado por um manual de dactilografia que a minha amiga Ilda Branda me ofereceu, depois de ela ter frequentado um curso numa igreja perto do Triângulo do Rangel, paredes-meias com o Centro de Saúde da mesma área. Dominar a sua lógica [o posicionamento das teclas e a distribuição pelos dedos] tornou-se uma arte valorizada, uma nova habilidade profissional conhecida como dactilografia.

Quem possuía essa destreza levava uma vantagem considerável. Ter uma máquina própria e o empenho para "ensaiar velocidade", como foi o meu caso, concedia uma superioridade palpável. O resultado era que, nas palavras do linguajar angolano, "ninguém torrava farinha comigo". Sim, poucos igualavam a minha velocidade e habilidade ao teclar. Esta competência distinguia os seus possuidores no mercado de trabalho, sendo um trunfo inegável, por exemplo, nas redacções de jornais e rádios angolanos ou nos comissariados comunais e municipais, onde as máquinas de escrever eram dominantes em relação à tímida aparição dos primeiros computadores até finais dos anos 90.

A transição para o digital não foi imediata, nem isenta de hábitos arraigados. Levei para o teclado digital a força que se impunha no teclado mecânico e, ainda hoje, sinto a falta do feedback táctil e sonoro da máquina de escrever. Gosto de ouvir o tic-tic-tic do teclado pressionado, um som que é, em si mesmo, uma viagem no tempo.

A desaparição destas máquinas foi gradual, acelerada pela massificação do computador pessoal. Hoje, são artefactos que contam uma história material do trabalho intelectual. Para a geração que as usou, são ícones de uma competência distintiva e provocam uma imediata "viagem no tempo". Para as gerações mais jovens, são relíquias de um tempo em que escrever era um acto físico e irrevogável. A sua preservação é, portanto, crucial, convertendo os antigos meios de trabalho em memória histórica viva de um tempo mecanografado que já não volta.

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