A máquina de dactilografia foi um instrumento seminal que materializou o pensamento em texto tangível, dominando escritórios, redacções e lares durante mais de um século. A sua história, da aparição à obsolescência, entrelaça-se com a evolução tecnológica e com as memórias íntimas de quem, como eu, aprendeu a dar vida às suas teclas.
Quem possuía essa destreza levava uma vantagem considerável. Ter uma máquina própria e o empenho para "ensaiar velocidade", como foi o meu caso, concedia uma superioridade palpável. O resultado era que, nas palavras do linguajar angolano, "ninguém torrava farinha comigo". Sim, poucos igualavam a minha velocidade e habilidade ao teclar. Esta competência distinguia os seus possuidores no mercado de trabalho, sendo um trunfo inegável, por exemplo, nas redacções de jornais e rádios angolanos ou nos comissariados comunais e municipais, onde as máquinas de escrever eram dominantes em relação à tímida aparição dos primeiros computadores até finais dos anos 90.
A transição para o digital não foi imediata, nem isenta de hábitos arraigados. Levei para o teclado digital a força que se impunha no teclado mecânico e, ainda hoje, sinto a falta do feedback táctil e sonoro da máquina de escrever. Gosto de ouvir o tic-tic-tic do teclado pressionado, um som que é, em si mesmo, uma viagem no tempo.
A desaparição destas máquinas foi gradual, acelerada pela massificação do computador pessoal. Hoje, são artefactos que contam uma história material do trabalho intelectual. Para a geração que as usou, são ícones de uma competência distintiva e provocam uma imediata "viagem no tempo". Para as gerações mais jovens, são relíquias de um tempo em que escrever era um acto físico e irrevogável. A sua preservação é, portanto, crucial, convertendo os antigos meios de trabalho em memória histórica viva de um tempo mecanografado que já não volta.

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