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quinta-feira, novembro 29, 2018

UM PASSEIO A KAXITU

Viajar, nos dias de hoje, de Luanda para outras províncias, por estrada, é preciso rezar ao terço, ganhar coragem e inspiração. E quando o objectivo da viagem é visitar um ente enfermo em hospital, "a pessoa vai já com o coração 'ensalsado'", como apimentam as nossas mamãs. Luanda a Kaxitu são uns, às vezes,  nada fáceis sessenta e tal quilómetros que levam a enfrentar táxi apertado, onde haja obras, taxistas barulhentos com suas músicas dislateiras sempre em volume alto, lotadores-bandidos-kibioneiros, etc. "Só Jesus na causa"!

No táxi, um coumbi de nove lugares adaptado para o dobro, a algazarra de vozes nos remete ao interior do mercado Roque Santeiro, no seu auge. Uns discutindo inteligência entre angolanos e zairenses, outros esperteza entre os catetenses e outros povos e outros ainda "mangando" a passividade dos ovimbundu e sua propensão para a migração interna e adaptação à trabalhos agrestes. Tudo como que procurando o sexo dos anjos, conversa só para encurtar distância e dar alguma utilidade à função bocal de falar.
- Xê, nós de Catete não gostamos abuso. Quem abus'apanha. - Atirou uma jovem, nos seus vinte e poucos anos.
- Mô marido é de Malanje, "malanjinho" num paga renda. - Ripostou outra.
Xê, você falá zazá é boelo. "Jurro com dieux", angolano "no" matemática num apanha langa. Langa, língua lingala e francês fala bem. Vocês matemática, cabeça água-água. - Defendeu-se um jovem em tom alto para se fazer ouvir numa algazarra de vozes desencontradas. Mas não era tudo ainda.


De paragem em paragem uns saiam e outros entravam. Quando a vítima da estiga se ausentasse outro cobria-lhe o lugar para sofrer ou defender a honra maculada. E, se razões para mais "consumição", inexistissem, alguém inventava algo.
- Ei mano, você que "entraste" agora, és do "sulu", não é?
- Sim, mana, sou de Kamakupa.
- Mostra ainda o teu Bilhete.
O jovem vasculhou as algibeiras todas e a mochila. Dos papéis que ocasionalmente lhe saiam dos bolsos, nada se parecia a bilhete de identidade ou sua réplica.
- Mana, bilhete, assim no táxi, é então p'ra quê? - Procurou defender-se.
- Num vos disse, os do "sulu" quando vêem aqui, primeiro emprego deles é trabalhar na fábrica de blocos. Nem bilhetes não têm. O único documento deles são cópias de facturas dos clientes. - Estigou a moça que se dizia de Luanda.
 
Um riso total instalou-se na multidão. O moço preferiu manter-se em silêncio até que as plaquetas das gargantas dos estigadores ficaram ressequidas e os estômagos dos que riam desalmadamente doridos. Respondeu depois.
- Mana é a situação. Mas se ainda "nó" sabe, vou lhe dizer que gente do sul, mesmo velho que se arrasta, sabe ler e escrever. Nos lá no centro, que vocês analfebisticamente chamam sul, toda gente andou na escola e na igreja e, por isso, aprendeu a respeitar os semelhantes, os animais e a própria natureza.
Foi o remate final e a conversa mudou de rumo. Eventualmente, cada um daqueles afoitos estigadores se perguntasse, no seu íntimo, o que significava analfabetisticamente e mais outras loisas disparadas num português cantado como hino religioso. A romaria católica à Muxima, própria de Setembro, preencheu o espaço percorrido até à paragem final. Seriam outras gentes, outras falas e outras cenas...

Chegado a Kaxitu, tempo ainda de adentrar o hospital, em hora recomendada para visita, vestido de pano até ao joelho, como mandam os bons costumes (mulher não deve expor zonas púdicas ou íntimas em público), surge pela frente o "camarada segurança" a travar a marcha.

- Minha senhora, sem pano por cima não entra- Atirou o segurança, kalashikov na mão, a impor respeito.
- Kokolo dyami, ngi banga kyebi? Assim, então, irmão chefe-segurança, saí de Luanda para visitar parente que lhe internaram aqui, família próxima não tenho, faço o quê, mô deuju?!
- É ordem superior.- Repetiu autoritário o segurança, sem mais nem menos.
- Mas, mano-chefe, esse ordem superior então é quenhê nome dele, se meu vestido é 'mbora mesmo de ir com ele na igreja Católica apostólica romano, vestido que uso na promaica e tudo? Camá odêpê, faxavor, meu irmão. Me mostra com ele, esse ordem superior, para me explicar se Muxima, nossa Senhora, é menos importante que hospital.
Pela ordem superior o segurança ficou. Nem à chefia imediata recorreu para dirimir a (in) conformidade do "pano para todas". À "mamã das perguntas", como ficou conhecida naquele primeiro de Setembro, mês de Neto, apenas uma solução, apenas uma se mostrou. Hipotecar a sua carteira, com telefone e tudo, em troca de uma tira de tecido para reforçar a cobertura do corpo, da cintura ao joelho.
Para piorar a situação de quem já é a azarenta, ao sair da visita, terá passado próximo do hospital Provincial um carro daqueles que carregam fiscais que correm com as quitandeiras de esquina e a mana do pano já lá não estava. Pasta, telefone, dinheiro, tudo foi. Apenas os prantos ficaram. Com os prantos da idosa, a alegria do segurança-chefe e do seu ordens superiores de "pano para todas, sem excepção"!


Publicado pelo Caderno Fim-de-semana, Jornal de Angola, 9/9/2018

domingo, novembro 25, 2018

NA PRAÇA VERMELHA

Já tinha tido antes uma pequena experiência de tentar pôr o coiso na coisa, com cuspo, e, entalado entre os músculos, gritar "ai, xta doce! ", mas sem que algum efeito estranho, prazeiroso ou de acelerar o coração, bombear o sangue e avolumar os músculos fosse verificado. Era apenas uma brincadeira de papá e mamã e foi há muitos anos.
A caminho da adolescência e juventude, o tempo é curto. O sonho é ser mais velho e livre, fazer coisas proibidas pelos makota e ser como eles. Surrar os dikotas malaikes, namorar as moças mais vistosas, mesmo sem o lado lidiminoso apurado ainda, deixar os cocoritos e, às vezes, a porrada de "cagar bichos" que os mais valho nos infringiam com a sua doutrina militarista de "forjar o ferro no fogo do sofrimento" e desgraça. E diziam vaidosos:
_ Sofrimento forja. O suor que se gasta no treino é sangue que se poupa no combate.
Foi nesses termos que atingi o ano 12 da minha existência.
A minha prima Fátima estava casada com um tropa da FAPA-DAA. Vivia no bairro popular e ele no Huambo onde pilota a helicóptero. A sua mãe, acometida de uma patologia que me escapa, vivia na rua 10 da Comissão do Rangel. Momentos após ao seu passamento, meu tio foi cuidar da casa que se achava desocupada. Anro 5-A, junto ao beco longitudinal que cortava a urbanização em quatros blocos, pois a escola ocupava o quarteirão todo e interrompida o beco. A moradia de dois quartos é sala, construída em placas de betão pré-fabricadas, tinha anonácea pequena, trepa deitas de flores vrrmelha à volta do quintal, goiabeira pequena e uma mangueira já grande e que dava fruta duas vezes por ano. Verdes ou maduras, a árvore tinha sempre mangas. Era nela que me divertia, quando não tivesse aulas ou antes delas. Imitando simios, pulava de ramo em ramo, provando se as mangas estivessem ou não prontas para a colheita.
Na parte traseira da nossa casa vivia um casal de Nguengo. O pai era ausente. A mãe, cabelos longos e muito simpática, era nossa mana mais velha. Tratava-a por tia Helena, mãe do Feito e outros irmãos, duas eram gémea. O "ti- Fausto", contemporâneo de meus primos já jovens era tio do meu amigo Feito.
A Amélia era vizinha da casa dianteira, casa colada ao beco. A mãe trabalhava na ODP que ficava na ponta da rua, na perpendicular com a Comandante Cantiga e início da Rua de Bissau.
A menina devia ter a minha idade, um ou dois anos mais velha no máximo. Frequentava com regularidade a nossa casa onde o arroz-doce o feijão e as mangas não faltavam. Também fazia pequenos serviços. Ora me ajudando, a meu pedido, ora a pedido do meu primo Zito que era FAPLA em licença de saúde, depois de ter levado uma bala encravada no tornozelo, na célebre batalha que apagou o temível Tembi Tembi.
A amizade entre Zito e ela, Amélia, embora pequena, era muito próxima que a minha amiga deixava de me dar confiança quando ele estivesse em casa.
Pior, foi quando o tempo de licença terminou e decidiu não voltar ao Moxico. Tornou-se caseiro e as minhas brincadeiras com a Amélia mínguaram.
Uma vez estava eu com a panela de arroz-doce no fogão primix (a petróleo com injecção de oxigénio), decidi trepar à mangueira do quintal e colher duas mangas que se mostravam amarela. Entre eu e os passarinhos alguém tinha de chagar primeiro. A Amélia viu-me pela rua e anunciou.
- Posso antrar, não vais me bater?
- Podes.
- Teu primo não está aí?
- Não.
Meu tio e o meu outro primo (a quem até hoje trato por mano Arnaldo) eram trabalhadores. Um na autoprotecção da Enatel e outra na CPPA. Só o Zito, que passou a fugir das rusgas, ficava em casa, mas nesse dia havia saído.
A Amélia entrou e propôs um pacto.
- Vou te ajudar a lavar a loiça e varrer o quintal, desde que partilhes o teu Matabicho, arroz doce, comigo.
Não titubiei. Arroz cozido, arroz partilhado. Depois da refeição outra sugestão.
- Quero descansar. Podes estender o teu luando e dormirmos juntos no vosso quarto?
Eu partilhava o quarto com o meu irmão polícia que não podia saber que uma miúda estranha o adentro. Na inocência, estendi a lona militar, e lá nos metemos.
-Pega também o lençol. - Sugeriu para acrescentar: "Apaga a luz e fecha as portas e janelas".
Obedeci. Momentos depois, ela já percorria toda minha inocente biografia.
- Tira a roupa.
Tirei sem perguntar por quê.
- Vem por cima de mim.
Comecei a sentir estranheza, mas obedeci.
Pegou a minha pistola. Demorou carregar e tal só aconteceu por causa de umas manobras perigosas da inimiga.
- Põe a pistola na trincheira funda da revolução.
Pu-la. Porém, a relva que circundava a trincheira foi um incómodo.
- Faz assim, assim, assim. Mete tua língua na minha boca.
Tudo novo. Cumpri as ordens entre desconforto e curiosidade. Uns passos e vozes conhecidas fizeram interromper a operação. Era o Zito e o Fausto, dois fugitivos da vida militar.
- Amanhã Virei mais. Faz de novo arroz-doce.
Dia seguinte, fui às bombas compara petróleo, acarretei água, preparei o fogão, a panela do feijão que se seguiria ao arroz-doce e, com o arroz a enxugar, trepei a árvore para controlar os movimentos da Amélia e fazer-lhe o convite.
- Podes vir.
Não demorou. Comemos o arroz e momentos depois, na mesma Praça Vermelha, com a cor da revolução, fui comido como no dia anterior. Desta vez, de forma gostosa, pois já sentia algum sangue bom a correr em mim.
Ao terceiro dia, já possuído de lídimo, fiz o convite. Mas na hora dos vamos ver, o meu primo Zito, com dinheiro na mão conseguido num kadyenge qualquer, e talvez farto de arroz com feijão daquela época, manda-me à Praça das Corridas comprar peixe. Fui e voltei a correr, fazendo vênia ao nome do mercado que ficava ao pé do Supermercado Nzala ikola de António Silvestre.
Como manga doce tem sempre pretendentes, ao chegar à casa não vi nem a Amélia, nem meu primo Zito.
Procurei estudar os movimentos dela e nada. Decidi ficar na parte dianteira do quintal que me ajudaria ver a Amélia a passar. Qual meu espanto?
Receoso de que eu descobrisse e eventualmente contasse ao tio ou ao mano, o primo Zito faz a Amélia pular pela janela frontal do quarto, exactamente no sitio onde eu me encontrava. Só tive tempo de falhar-lhe uma galheta, ganhando uma valente sova do primo kwemba filipado, de muitas batalhas militares no leste de Angola, e rebarbado.
Assim fui "deflorado" na praça Vermelha!

quinta-feira, novembro 22, 2018

NGOMA, KISAKA E XOXOMBO

Nasceu Xoxombo. A escola nomeou-o António Silva. Sabe-se lá, por que carga d'água, na adolescência e toda juventude que não viveu completa, ficou mais conhecido pelo nome de nascença. Xoxombo na escola, na aldeia e até n’outras andança pouco conseguidas.

Desde pequeno se revelou inteligente, regatado e pouco dado a traquinices. Não era como o seu puto Sabalu-a-Soba, galão galanteador. Os atributos de XOXOMBO fizeram com que, a entrar para os "meses do acordo de Alvor", que se seguiu ao golpe militar na ‘metroia’, tivesse já a sua quarta classe, do tempo colonial e não doutro tempo qualquer, bem feitinha. Contava uns doze ou treze anos, algo incomum, naquele tempo, sobretudo para um filho de negro contratado, ainda mais filho de um simples tractorista que evoluiu para camionista de patrão alemão.

 Xoxombo estudou mais. Mas, mais e mais, a vida lhe foi agreste. Chegou a guerra pós-independência e teve de empregar-se como professor brigadista da "Comandante Dangereux", ‘combatente da linha de frente’, isento, por dois anos, do serviço militar obrigatório. Aos vinte anos, estava em Luanda, capital de sonho de todo jovem do interior. Era a forma de evitar a farda militar.

No ano em que não lhe foi renovada a licença professoral, teve de voltar à aldeia de Munenga, onde a ausência de "quadros" permitia o ingresso imediato na educação. Contava já uns anitos acima do vigésimo. Sempre jovem polido, trato fino, modos requintados e um português com sotaque saxônico, aprendido dos alemães em cuja casa o pai trabalhava e ele crescera. Xoxombo era, aos olhos das mocitas ardentes de desejos pecaminosos um ‘virgem por deflorar’.

- Mano Xoxombo num me paquera só por cá di quiê?- Questionavam-se sedentas e sedutoras aos olhos cegos de Xoxombo. Só livros. Só debates, só prosa. Xoxombo para as moças, um invisual.

 À roda, no folclore do bairro, à sexta à noite ou noutro dia qualquer luarento, a música era vezeira:

 - Wombela, Wombela, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela.
- Nange, nange, kate okyo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo Wombela!

 Felicidade alheia, tristeza sua. António Silva, o mais culto do vilarejo, afogava as mágoas em destilados etílicos que o levavam a fermentar força de rinoceronte na profundidade das águas do Longa, rio de sua natalidade umbilical. E Xoxombo, já sem o pudor da educação do berço, sem mais o comedimento urbano que muito cultivou, sem mais a paciência que aprendera com os missionários, saia em defesa de sua "dama desonrada". Chamava uns tantos impropérios aos que com gargantas ressequidas continuavam cantarolando. Até que que rouco, como as que o insultavam procurando por uma reacção mais erótica, se cansava e ao quarto, no silêncio da cama solitária, se escondia meio satisfeito e meio envergonhado, ouvindo aquele coro que com o tempo deixaria de ser chacota.

 - Nange, nange, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate kyo wombela!

 (de tanto "secar", Xoxombo-nome masculino- teve de infiltrar-se de soslaio na "kandumba" ou caserna, onde os rapazes mais espevitados de sua idade costumam deleitar-se, à calada da noite, da quentura prazerosa de suas musas).

O terreiro em que se canta é um espaço mais largo, entre várias casotas que variam entre o adobe cru e pau-a-pique, cobertas umas de zinco já acastanhado pelas incontáveis chuvas e calor, outras com colmos de capim que fumegam as nascer e por do sol ofuscado pelo nevoeiro. O chão parece cimentado, de tanto rebatido que está o solo másculo. O folclore é de sempre e já vai na quinta geração. Apenas os executantes é que se revelam de década em década ou mesmo, nos dias que correm, de quinquénio em quinquénio.

Machos, de mostrar o punho e medricas de esconder a espada sempre houve na vida das comunidades. Canções que mantêm a melodia e inovam a letra também. Essa é apenas mais uma. E o sortudo(?) é António Silva, Xoxombo, o professor de feliz memória.

- Wombela, wombela, Xoxombo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo Wombela.
- Nange, nange, kate okyo wombela; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela!

A roda progressiva em que dançavam tinha no centro o tocador de ngoma e, à cabeça, a tocadora de kisaka "chocalho". De tão exímios que eram, os maestros  pareciam apenas transmitir aos instrumentos, ngoma e kisaka, sinais recebidos do além. Dizia-se que “tocavam com a sabedoria de seus avoengos já há muito nos ‘malombe’”. Era ritmo e cadência nunca vistos antes.

De repente, o círculo pequeno, no início, abriu-se. Cinco metros de raio e dez de diâmetro a engolir a aldeia toda. Man-Kibyona, afamado trapaceiro, diferente do comedido Xoxombo, meteu-se na dança. Antes, tinha ficado encostado a uma parede a apreciar as dançantes, a comê-las com os olhos. Quando se meteu na roda, as mulheres mais avisadas endireitaram o pudor. A cada aproximação do Man-Kibyona as damas aceleravam o passo para deixar distância à recta-guarda ou davam passo à direita. Isso contribuía também para o alargamento do círculo e a entrada na roda de mais rapazes e raparigas, todos acordadas pelo roncar da ngoma, farfalhar íntimo da kisaka e vozes melodiosas espalhadas pelo vento.

Os passos eram cadenciados, curtos e rápidos, às vezes. Dois ou três à frente e menor número para trás. Não se atropelavam. Os pés estavam poeirentos mas não eram pisadelas. Era a participação do solo naquele convívio dançante e repleto de emoção. E, em solilóquio, Xoxombo tudo ouvia e tudo consentia. Os galanteios e os desvaneios.
 -Wombela, Wombela, Xoxombo wombele; Xoxombo nange, nange kate okyo wombela!

Um dia sentiu vontade. A coragem terá sido mais forte do que ele fora até à data. Imaginou um quimone apertado, desenhando a mamália. Uns panos riscados e lindos mal amarrados à mbunda que se desprendem do corpo no caminho da dança em que ele era o tocador único de ngoma e ela a tocadora e cantora única de kisaka. Fez do sonho verdade. Ao quinto mês, Kamone era já mulher feita. Nos folguedos com ngoma já o seu dançar era com requinte e discrição. E a chacota encontrou outro personagem.

Publicado pelo Jornal Cultura a 08 de Outubro de 2018

quinta-feira, novembro 15, 2018

O RELÓGIO

Não o do velho Trinta. Refiro-me ao que anda no seu pulso. Marca horas?
Era outra a serventia doutora, quando o relógio suíço, de corda, ainda não eram os a pilha, tinha elevado valor no pulso ou fora dele, dando charme ao homem que o carregava mas dando também horas certas para o trabalho, compromisso com a namorada marcado via bilhete ou telefone fixo. Era outro tempo e outras utilidades.
Com o relógio suíço vieram outros marcas e outros adornos: metal dourado, circunferência ou rectângulo e bracelete diamantados. Os adornos vão, hoje, desafiando a imaginação e o bolso. Quem tem dinheiro tem relógio e quem não tem valores usa qualquer coisa parecida a relógio. Com os adornos vieram outros hábitos. Enquanto periférico para a indumentária de homens e mulheres, o relógio se mantém nos pulsos. Só as horas é que nem sempre mostra. Vejamos:
Homens e mulheres que não se desgrudam dos "dikumbi" quando perguntado "que horas são"? Raras vezes enviam os olhos ao pulso que carrega o telefone. A mão vai ao bolso, saca o telefone e deste lêem a hora.
Muitos utilizadores de hoje ignoram a numeração romana que era (são) frequente nos relógios doutro (e desse) tempo.
Expressões costumeiras como "um quarto para as dez", "cinco e meia" ou "passam cinco das dez" deixaram de ser ouvidas, sobretudo da boca dos mizangala que usam as colecções mais vistosas dos últimos lançamentos das principais marcas de relógios.
Os relógios não desapareceram. As fábricas continuam a produzir relógios com cada vez mais requinte. O seu uso continua a ser apregoado, porém, apenas como adereço decorativo. Já não "emite" horas. Muitos estão avariados e há muito!
Leve agora os olhos ao seu antebraço que transporta o relógio e diga, em voz audível, que horas marca.


Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 16/08/18, pg.4.

quinta-feira, novembro 08, 2018

LUSAKA DOS MEUS OLHOS

- Hei, atenção! Vem carro em alta velocidade na tua direcção.
Não era, não senhor. Simples. O susto seguido de SOS se deveu ao sentido de orientação do trânsito rodoviário, processado no lado oposto ao nosso.
Quem não está habituado, pode ter o coração aos pulos, no primeiro impacto. Refeito do susto, adentramos a cidade. Os territórios encravados (sem mar) têm uma forma própria de ser e estar. A cidade fundada em 1905 por britânicos comandados por Cecil Rodhes não foge à regra. Amplos espaços verdes entre avenidas e instalações habitacionais e ou repartições públicas, limpeza a condizer e ordem, acima de tudo.
- A existência da pena perpétua e pena de morte até há três anos fizeram com que houvesse ordem e moralização. Aqui, conta o angolano residente, "um olhar masculino, se mal interpretado pela destinatária, pode levar à cadeia. Por isso, mwangolês, prudência nos actos". - Recomendou preventivo.
A cidade não tem os "apalpa céus" das cidades litorâneas como Luanda. Tem apenas uns poucos que se contam os andares sem buscar fôlego. Mas em termos de jardins, jardinagem, higiene, limpeza e moralização dos munícipes para cuidar o bem público são eles que arranham os céus da boa cidadania.
Como qualquer outro povo, os cerca de 17 milhões de zambianos têm também suas fraquezas. Bem, fraqueza e pontos fortes que dependem de quem julga e da pauta que orienta o  juízo. Esse juiz acha-os "fracos" em ter carne tenrinha e em abundância a bom preço. Um "T-bone" com xima custa metade um terço do que custaria em Luanda. O mesmo dir-se-ia de outras carnes menos comestíveis, provenientes do vizinho Zimbabué. O consumo de álcool é desincentivado. As festas têm regra. Fazer barulho a céu aberto e por tempo prolongado só pode ser obra de um atrevido destemido. O dinheiro, ao que vi e ouvi, não fala todas as línguas. O Kwacha é mais ou menos estável, perto de $11 por cada dólar, e há bom tempo que não se recordam do exibicionismo de outras paragens conhecidas na África lusófona austral.
Dois anciãos, um homem e uma mulher, são tidos como símbolos da moralidade e da manutenção dos bons costumes. Um é o primeiro presidente, o grande father Kenet Kawnda. Outra é a vice-presidente do Mr. Edgar Lungo, a Senhora Inonge Wina.  E os angolanos que conheci em terras de Kawnda perguntavam "como é que o presidente da República, em vez de pegar um jovem como coadjutor, foi logo encontrar uma velhota?"
Simples. So simple. Se você quer coadjutor que aconselhe, que possa dizer "chefe/filho não vá por esse caminho, vá por aquele outro", encontre quem tenha autoridade moral para o efeito. Queres quem só diga "o chefe está certo?" Pegue um puto da libaju que só queira e saiba conjugar o verbo ter. É como percorrer distâncias. Se é para andar rápido, vá sozinho. Porém, se for um caminho distante e em segurança, só acompanhado!

sexta-feira, novembro 02, 2018

QUANDO SE DESTAPA O VÉU DA FALSA REVERSIBILIDADE DA MORTE

Nas comunidades rurais e periurbanas conservadoras não se permite a frequência de infantes aos óbitos muito menos aos funerais. Morte é bastante dolorosa para que as crianças sejam esposas a ambientes de elevada comoção. Às vezes órfãos menores, e para evitar o choque, eram aclamados com expressões como "seu pai viajou ou sua mãe foi à cidade ver um familiar".
O cidadão educado nessas circunstâncias apenas começa a se aperceber do verdadeiro significado da vida e da morte na adolescência plena ou mesmo a entrar para a juventude.
Nessas idades, certas proibições e inibições se tornam permissões e, às vezes obrigações. Mas o recém entrado ao convívio dos adultos não tem ainda a maturidade suficiente. Não raciocina até ao limite das suas faculdades. Assim, frequentar aos óbitos e funerais são tomados, ainda como se "de diversão se tornasse". Vai para conversar, para se divertir, para ajudar no que lhe for solicitado e, nalguns casos, para comer e beber em fartura, pois os óbitos têm sido locais para que "bons comensais" façam gosto à arte, próprio da juventude que pela libertação de calorias precisa de repor energia em qualidade e quantidade.
Aos jovens não visitados pelo infortúnio, a morte se torna normal, sem dor, apenas um caminho a que todos seguem. Que é, é. Mas... É já quando a emoção dá lugar à razão pura e surge a crítica de tudo quanto nos é posto à frente, que a morte se torna anormal. O nosso subconsciente resiste em aceitá-la. As vezes se conserva o cadáver por tempo considerável, enquanto se fica entre a certeza da morte e a reversibilidade dela. Chora-se a meio gás. Acredita-se e não se acredita no passamento para outra dimensão da vida Apresenta-se a realidade de forma eufemística, como se quem deixou de se mover e de falar recuperasse essas faculdades e com o seu ser e estar de costumes voltasse, mais minutos, menos minutos, ao nosso convívio.
Chega, porém, o dia e a hora em que desaba o tecto dessa "crença miúda da reversibilidade". E aí, caímos na real. O nosso ente já não volta. Nem em parte estará connosco, pelo menos fisicamente. Vamos deixá-lo num campo onde impera o silêncio. Onde não se visitam os entes mas apenas o campo medonho. E o mundo desaba. É o fim que nos leva a reflectir também sobre o nosso fim. Quando chega esse momento, nada mais vale. As flores, a campa de mármore, os adornos, os títulos, as posses conseguidas e aquelas com que é bafejado no último adeus... Nem mesmo as roupas novas o cemitério chick ou a urna cara. Nada mais tem valor.
Aos de bom coração restará apenas agradecer tudo de bom quanto aconteceu. A vida, a amizade, os convívios e até algumas brigas para apimentar as relações. É o que fica na recordação, quando a saudade insistente bater à porta. Nada mais!

Texto publicado pelo Jornal de Angola de 04.11.2018

segunda-feira, outubro 29, 2018

RELATOS A ENTERRAR

 Fazer-se ao interior, partindo da capital de Angola, confere o prazer de mergulhar nas vivências positivas das populações, reviver estórias e História do povo e "coscuvilhar" coisas que a memória perdoa mas teima em não esquecer.
- Boss, esquecer é permitir que volte a acontecer, mesmo estando ainda vivos. - Assim defende Rafael Paca, jovem de Golungo Alto.
Como ele, há muitos angolanos que viveram na alma as agruras da guerra. Rafael diz que já percorreu dezenas de quilómetros à pé, fugindo de tropas dos dois movimentos.
- As primeiras fugas eram no tempo da rusga para a vida militar, mas o sofrimento era tanto que um dia fui me apresentar e fiz tropa no Lukala. - Conta.
Porém, as memórias de Rafael não se ficam por aí.
- Em 1992, naquela mini-paz assinada em Portugal, fui desmobilizado das FAPLA. Aí é que a coisa piorou. Kavulandunge tomou a província e as pessoas fugiram para o Dondo, para Luanda e para as bwalas. Eu, como não tinha possibilidades, fiquei aqui (próximo do entroncamento entre Ndala e Ngulungu). Certo dia, os tropas de Kavulandunge desconfiaram que um jovem, meu amigo e colega nas extintas FAPLA, pertencera ao "Minse-Disa", pura invenção deles para nos cabar. Os homens parecia que tinham sede de torturar. Mandaram-no despir-se, correr para transpirar, e jogar-se a um monte de feijão maluco. Ele coçou que se coçou. Metia dó, que até pediu que o matassem...

Rafael atesta, com as mãos sobre o peito e repetindo vezes sem conta a expressão " palavra d'honra", que assistiu a tudo sem nada poder fazer em prol do amigo e temendo que tivesse a mesma sorte.
- As vezes, se um deles pretendesse a tua senhora inventava já que você é anti-motim ou Minse-Disa e te tiravam a vida já, já.
Foram somente dez minutos de percurso e de conversa até ao montículo que atende quem queira telefonar, deixando o asfalto e adentrando a selva por um atalho de aproximadamente quatrocentos metros. Toda a relva é feijão maluco que obriga "andar com respeito".

segunda-feira, outubro 22, 2018

UM CARRO PRETO NA KIBELA DO KAMBA


Um viandante saído de longe decidiu fazer a merecida vénia ao amigo que junta tostão a tostão para que do simples matagal surja um serviço de grande utilidade aos homens da estrada e da vizinhança.
Na "via da Trombeta", depois do nó Ngulungu vs Ndalatando, o mukwaxi decidiu "enterrar dignamente o seu suor de todos os dias e muitos anos. Já leva uns sete anos a" montar bloco sobre bloco", sacrificando do conforto a mulher e os filhos.
Quem sabe um dia tenham a merecida recompensa?!
Espero que sim.
Quando o espaço estiver aberto, nós os amigos, devemos ser dos primeiros.
A localização é excelente e exuberante. Os quartos são vastos e cómodos. O tanque d'água é "inesgotável". A energia está a um dedo. Há chilrear de pássaros à volta. Há paz que basta e história sobre nacionalismo kwanza-nortenho que o restaurante se prestará a contar todos os dias a todos utentes e clientes. O vizinho do Dani produz "motas 100% angolanas".


Nota: Dani Costa é um kamba jornalista que conheci no início de nossos percursos profissionais.

segunda-feira, outubro 15, 2018

MALAVU, LUNGILA E MAMÃ ME LEVA

Que haverá em comum entre estas três "pérolas da língua e garganta", consumidas no Uige e em outras terras da imensa Angola?
Em princípio nada. Para adentrar a questão e tocar o seu âmago, precisei de viajar e conhecer Carmona, Uíge anteontem e hoje. General Carmona é uma outra história mais ligada à presença colonial portuguesa.
Antes destes chegarem ao território uigense, já os povos se deleitavam com apetecíveis destilados, fermentados e bebidas naturais como a seiva da palmeira ou malavu.
Aqui, surge o lungila que é um fermentado, à base de sumo de cana-de-açúcar. Traduzido para Português, o termo lungila (do Kikongo) significa "aturem-me". É o que acontece quando alguém se encharca desse produto.
- Vozeira que vozeira, ao ponto de se sentir "o único" na aldeia. - Explica a ancião Nsimba.
Mas no Uige não se fala apenas de lungila.  Poucos saberão disso, sobretudo os mais novos. Quem conta são sempre os mais velhos.
- Com os brancos, surgiu o "mamã me leva". Era um vinho tinto que se produzia (engarrafava) na antiga cidade de Carmona.
O mais velho Nsimba explica o porquê do pomposo nome de "mamã me leva".
- Com um copo a pessoa ficava alegre, bem disposta e mesmo e até o mais tímido já conversava. Se não tinha coragem de se dirigir a uma "pequena" já podia. Com dois copos, aumentava a voz e até os baixinhos pareciam altos no tamanho e da voz. Ao quarto copo, os efeitos se reflectiam sobre os joelhos que ficavam "bwazeza", sem força. Aí o consumidor, sem força nas pernas, a única coisa que conseguia dizer era "mamã me leva".
Há também o nosso secular e sempre presente malavu que é a seiva da palmeira. Quando me contaram que malavu também atacava nas pernas não quis acreditar. Certa vez, ainda éramos jovens, conta o mais velho Nsimba, estávamos a ir a Kimbele. Uma moças bacongo, saídas de Luanda pediram.
- mais velho, faxavori, nos paga só um kabidon de malavu.
- Filha, malavu faz abrir as pernas. - Respondeu o meu amigo Sabichão. Ele gostava mbora de brincar...
- Tio, faxavori. Retorquiu a jovem em tom suplicante, o que levou o Sabichão a pagar um litro de malavu. - Prossegue o narrador. Elas era três e nós duas pessoas na carroça da Peugeot 507. Minutos de pois, a primeira moça começou a reclamar que estava a "caloria em todos os lados". Não te avisei, mbora? Recordou o Nsimba, hoje é mbuta muntu.  Não tardou, quando o carro parou para meter mais gasóleo no depósito,  a amiga dela confirmou o efeito da bebida.
- E o que disse a moça, mais velho Nsimba.
- "Mama me leva". Mas não era do vinho, era do malavu. Disse que estava a sentir as pernas a tremerem. Sabichão, o meu amigo, ainda avançou conversa misturada com malícia.
- Não te disse que malavu faz abrir as pernas? Põe calça jeans e amarra pano por cima! - Falou ele.

Texto publicado no jornal Nova Gazeta de 18.10.2018 e no Jornal de Angola de 18.11.18


segunda-feira, outubro 08, 2018

MASA, NGANA!

Assim terão respondido as súbditas de Ngola ao serem abordados por homens brancos que acabavam de desembarcar numa canoa movida a remo e que se fez da Foz à região intermédia entre Kisama e Ndondo.
- Que terra é essa? - Terão questionado os emissários de Sua Majestade, Rei de Portugal, capitandados por Paulo Dias de Novais que travaria, anos adiante, pesadas lutas contra as forças do Soberano Ngola Kilwaji kya Samba, titular dos povos do Ndondo.
- Masa, ngana (é milho, Senhor). - Responderam as akwandongo que se encontravam a moer milho numa pedra, à beira do caudaloso Kwanza. Terão percebido "o que é isso que estais a moer?", emitindo a resposta que se tornou topónimo.
Os livros de História sobre as epopeias do legatário Paulo Dias de Novais e os que narram a resistência dos africanos à presença europeia estão prenhes de cenas sobre os avanços, recuos e até captura e prisão do Português. As confrontações entre lusitanos e holandeses pelo domínio de Luanda também estão retratados em livros.
Até que o brasileiro Salvador de Sá e Benevides apareceu em socorro da "soberania portuguesa", os holandeses se tinham assenhorado de Luanda. Massangano, contam os livros e as lápides, foi o baluarte onde se travaram e se defendeu o brasão das quinas.
Até aqui, bastar-nos-ia a Biblioteca Nacional, o Arquivo Histórico Nacional ou, para os mais afortunados, a Torre do Tombo ou o Arquivo Ultramarino. Mas estaria, mesmo assim, em falta o contacto físico. Pois é, a "cidade" (à época) de Massangano, erguida no Séc. XVI, conserva até hoje as suas planas ruas "arquitectónica ente desenhadas sobre a parede alta do Rio", a Igreja Católica (religião de Estado naquele tempo), Fortaleza com seu longo mastro (sem bandeira alguma), a Primeira Câmara Municipal, a residência oficial do chefe da câmara, o Tribunal e casa de Reclusão, entre outros edifícios em ruínas, todos eles autênticos fortes paleolíticos e já sem a cobertura.
É essa a preciosidade, com valor histórico-cultural e turístico, que o Kwanza abraça no seu descendente leito para o Atlântico e que a inexistência de uma estrada em condições esconde aos curiosos e aos putativos turistas.
Aos aventureiros que se lançam ao desafio de "descoberta", num bom jeep, são "apenas 33 minutos de sacrilégio até encontrar o "tesouro histórico - turístico" que, normalmente, transforma o desconforto e cansaço da viagem em agradáveis momentos de contemplação.
No tempo doutra "divindade", o asfalto fazia-se da rodovia principal, EN 130, ao conglomerado de Massangano. Hoje, porém, são apenas buracos, lamentos e, as vezes, alguns milímetros da antiga negrura do asfalto a contar outra história do valor que já teve Massangano.
Entre desventuras, há também aplausos: a fortaleza é monumento classificado pelo Estado Português, Portaria de 24 Abril de 1923, e devidamente reconhecido Ministério da Cultura de Angola.
É pena que sejam hoje os cabritos que mais o frequentam do que os homens desse tempo. Por lá já chegou a energia eléctrica, saída de Kambambi, faltando apenas o asfalto e a promoção mediática do que o matagal esconde aos homens.
Os candeeiros de azeite e torcida de algodão, que ao tempo se achavam colocados em postes de pedra e cal, cederem lugar às lâmpadas eléctricas. O kakusu (tilápia) e bagre abundantes no Rio e lagoas próximas já podem ser congelados. A vida ganha(ria) vida com asfalto.
É imperiosos contar e mostrar mais a História e as estórias da "primeira capital" da autoridade portuguesa em terras Ngola, que se acha encravada entre a Muxima e Ndondo, pelo corredor do Kwanza.

Publicado no Caderno Fim-de-semana,Jornal de Angola, 19/08/18, pg.10.

segunda-feira, outubro 01, 2018

AO PÉ DA ESTRADA

É indubitável. Para quem lê a história da distribuição agrícola pelo país, Libolo, Aboim Uije e Golungo Alto são "terras do café".
No passado, as margens das estradas e das picadas estavam cobertas do arbusto que, em Novembro, engalana-se de um branco de cheiro inigualável, sendo Julho o mês em que o vermelho toma conta das fazendas. É o bago vermelho. Assim ficou registado na literatura histórica e na mente de quem, a partir da cidade, pensa e decide o campo.
O café robusta, plantado em terreno alto e de nevoeiro permanente, demanda sombra frondosa, sacha, poda e colheita com maior intervenção humana do que mecânica. É diferente da espécie arábica: plantas expostas ao sol, regadas a jacto, inundação ou conta-gotas, com passagens para tractor agrícola e labuta facilitada.
As ladeiras das estradas e picadas do Libolo, Golungo Alto e Aboim têm hoje mais bananeiras e palmeiras (resistentes) do que cafezal que se esconde na profundidade do matagal robusto e opaco.
Muitos se perguntarão "por que razão o café vai, aos poucos, cedendo espaço à mandioqueira, ao canavial e, sobretudo, ao banana?".
Pois, não será muito difícil aferir que o quilograma de café não anda acima de duzentos kwanzas, mesmo contando com o enorme trabalho que há entre plantar o arbusto até colher o bago, seca-lo, ensacá-lo e armazená-lo. Tem pelo meio a sacha, poda, desinfestação, o feijão maluco a complicar a vida do recolector e a cobra a amedrontar os noviços na arte da apanha do grão-ouro.
A bananeira é oportunista e afasta a erva daninha. Dispensa a poda e qual to mais rebentos houver maior será a colheita. A banana pode ser comida ainda verde (fervida) ou madura. Quando putrefacta, é submetida à destilação por processo artesanal, resultando em apetecível "das ponteira".
Um cacho de banana ou uma pilha de cana dão um lucro mais imediato e a custo resumido de produção do que um quilograma de café. É só por isso que os pequenos camponeses vão substituindo os cafeeiros que ladea(va)m as nossas estradas nas famosas zonas cafeícolas por plantações de bananal e canavial.
De terceiro maior produtor mundial do bago vermelho, em 1973, quando imperavam as monoculturas obrigatórias para os nativos e facilitadas por trabalho semiescravo ou mão-de-obra ultra barata para os colonos, Angola terá que "pedalar" até à exaustão se pretender ascender a um décimo posto desse campeonato mundial de café.
O pequeno agricultor já não se contenta única e exclusivamente com o café. A renda não aguenta doze meses. E, se comprador no houver, como às vezes dizem acontecer, pior ainda!
 
Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta de 01.11.2018
 

sábado, setembro 29, 2018

PENSANDO EM CACHIMBADAS ELECTRÔNICAS

 Mangodinho, nessa vida , já viajou que baste. À pé, de troli, de bicicleta, de moto, de tractor (na carroceria e na máquina agrária) de canoa e de barco também, de comboio e, finalmente, de avião. O pássaro de ferro que gira o mundo e faz das distâncias uma criança. A primeira vez em que corpo dele saiu de um sítio para outro, sem ver o capim ou a água a correr para trás, foi aos 18 anos quando foi rusgado, manhã cedo, no Kuteka, para a vida kwemba. No avião, espanto era espanto e, se as moscas não sentissem medo dos miúdos em desgraça, mas determinados em ir cumprir uma missão patriótica, se teriam alojado mesmo em sua cavidade bocal. É verdade. Avião é outra coisa. Pior ainda para quem só o via passar a milhares de milhas.
- A pessoa fica quilómetros acima do chão e o "bicho" sempre a batalhar contra os ventos, contra a força de gravidade que quer derruba-lo para baixo, a escorregar parece bagre que pessoa quer pegar para logo mais fazer enfeite no prato do jantar e ele, o bicho do avião,  a dizer "quero voltar na água lamacenta que é meu habitat". Não! Avião é coisa. É invento grande! - Cogitou.
Mangodinho, dessa vez, de novo no pássaro de metal. Espanto já não lhe vem à cabeça. Somente a imaginação de quanto tempo os "caravelistas da metroia" faziam para vir colocar feitorias comerciais e colónias na distância (hoje) de dez horas num assento flutuante. Quase verbalizou mas se conteve e pensou.
- Esses gajos vão pensar é primeira vez. Não. Nando Pessoa já é meu colega na arte de escrevinhar e Bismark também na arte de politicar. Ainda estou a ir "lhe" visitar no país que o Hitler, anexou à Alemanha do sô Marque.
 

Puxou da sacola que já repousava na bagageira um livro, o seu predileto "Arte da Guerra". Pensou em cachimbar como sempre faz às horas esquivas, no seu kapredito, mas ouviu a "aérodona" a dizer "não se fuma, nem mesmo que seja um cigarro electrónico".
- Porra! Esses gajos também, pá! Então a música electrónica já substituiu a acústica. Agora, um gajo também se quiser fumar é já na electrónica? Assim, sai mesmo fumo de phango ou makanya tratado junto da fogueira branda? Inventem outro avião que pode me levar ao Kuteka, mesmo sem aeroporto. Poupem ainda inteligência e dinheiro. Lá, onde me queria autarcar também estão a precisar de viajar sem sentir a rabujice dos buracos na coluna gasta dos idosos. Fumar na electrónica, ando a ouvir e ver nas noites da Ngimbi, mas eu, Mangodinho de Kuteka, é mesmo pelo cachimbo que não vou exibir apenas por respeito à norma e à tradição.
Mais velho não fuma cigarro de adulto no meio de noviços!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 5/7/2018



sábado, setembro 22, 2018

PELAS ESTRADAS DA TERRA

Bem o título podia ser "pelos estradas rebatidos da vida" ou "neve de poeira". Cada viagem é única, singular, prenhe de descobertas. Luanda ao Dondo já deu azar e prazer. Curto prazer nos poucos dias em que se aproximava à via expressa com separador no eixo central. Sol de pouca dura. Voltaram ao "ais" do antigamente. Gritos de homens torturados pelos equilíbrios e desequilíbrios da máquina resmungante e "ais" do carro que se bofoca e tritura. Até a terra, triturada pela passagem sem fim de viaturas, também solta seus gritos em busca de socorro. E me vem à memória o motorista filipado das FAPLA que ignorava o buraco na precaução de evitar um explosivo. Felizmente, já não se cantam nem contam minas. Foram apagadas do vocabulário politico-mediático. Apenas as estradas sugadoras de dinheiro nosso e vidas nossas.
Outro troço digno de anotação é o que nos leva de Kalulu à Kibala, paralela à EN240. Maior inteligência teve quem o traçou e quem decidiu, nos tempos de vacas hordas, alcatroá-lo, conferindo-lhe dignidade de via secundária de grande utilidade. Facilitaria a vida de que se fizesse do Sul ao Norte, sem ter de passar pelo Dondo. Kibala-Kalulu-Kabuta-Ponte Filomena-Ndalatandu-Etc. Uma boa agropecuária demanda estradas, uma circulação segura e rápida também. As estruturas metálicas para as pontes ganham ferrugem. As bases prontas para receber alcatrão ganham buracos. O tráfego que já foi fácil é sacrilégio. E, como poucos decisores por lá passam, nem o recado da estrada aos gabinetes chega.
Foi adentrando tal "atalho" entrecortado, "kabucado asfalto, resto poeira, se revezando", que matei a curiosidade de há já quarenta anos, quase. Sempre me fiz à pé ou em meio rolante do Limbe (aldeia hoje inexistente) ao Lussusso (12 km) e do Limbe ao Desvio para Munenga - Kalulu (26km). O que há em comum são os 42 km que separam o desvio da Munenga e o do Lussusso para Kalulu.
- Mas os brancos, quando construíram a vila, medida as distâncias e meteram no meio a aldeia que cresceu para Vila ou foi mera coincidência?
A pergunta dos tempos de undenge persiste na cabeça de outros tundenge de hoje. A idade e a possibilidade apenas permitiram-me conhecer a estrada na qual (Lussusso-Kalulu) nunca havia circulado. E deu para aferir quanta serventia tem e virá a ter quando ela for valorizada e concluída. Há dinheiro apodrecendo à beira dos rios!


Publicado pelo Jornal Nova Gazeta, Agosto 2018
 

quarta-feira, setembro 19, 2018

SODRASTA QUEM É?

Sodrasta é um termo (inventado por mim) para designar a mulher madrasta de marido. O masculino é sodrasto, à semelhança dos termos madrasta e padrasto.

Sodrasta/sodrasto vêm assim substituir as expressões sogra-madrasta/sogro-padrasto, aglutinando o conceito em uma só palavra.

sábado, setembro 15, 2018

NO VATICANO O AMOR GRITOU ALTO

Os sinos, primeiro, anunciaram bem alto, ritmados, convidativos... Mpã, Mpã, mparãm, mpãm, Mpã, Mpã, Mpã, pã-pã-pã-pã!
Na porta de entrada, um jovem garbosamente vestido e com gestos polidos, a lembrar-me um gentleman francês, indicava à rapariga, garbosamente avermelhada no seu vestido longo e justo, os parentes e as correspondentes mesas.
- Esse é o meu tio Luciano e vem com a esposa. Leva-os à mesa dos tios.
Antes de a jovem que fazia o protocolo para os "Ver'importante parents" fazer a vênia, confirmei a saudação ao Leo com um aperto de mão e batimentos leves mas rápidos no lado do seu coração.
- Boa noite Leo. Irlanda, o Leonel é meu primo, filho do finado Gasolina, portanto, irmão do noivo. - Apresentei.
- É, por que te chamam por tio se são teus primos?
- Eu era amigo do meu tio e, se calhar, tenho autoridade de tio.
O moço que conferia os convites fez o registo e a "moça que fazia protocolo" esticou-se toda numa vênia nunca vista. Acompanhamos e dividimos a mesa com os parentes da noiva, vindos aparentemente do Huambo, a confiar nos discursos e nas localidades que descreviam.
Dudu, o primo Dumilde, barba a Pedalé, kambutice e corpice também. Até nas mawanas, o filho da tia "Enfica" ou Linda João, se parece ao finado Ministro da Defesa Pedro Pedalé. Nas nossas festas de família, é o "gajo" que cuida de impor respeito. Aliás, você vê o moço e o respeito te vem já à cabeça, tipo aquela reverência que os Kwemba (tropas) e os fugitivos da vida militar faziam ao camarada pedalé. O gajo é um kambuta que impõe respeito!

Noutro lado estavam as "miúdas". A Fina e o barão, a Miulk e a kota dela Dilma, a minha prima "brasileira". O Dino também. Discreto, o gajo, a dar uma de kasule da Linda, mas a criar já barba de mais velho que o não deixa discreto entre os imberbes de sua idade.
Epá, família toda. Alegria toda. Todos aqui reunidos pelo Vá e noiva. O Santo João, da lavra do  comandante Infeliz, apareceu também no seu fato axadrezado. Kambuta bangão, de mawanas também. Meu primo era único. E a autora principal da festa, a mãe do Vá...
- Ó Carlota Toala, estás deslumbrante minha tia. Obrigado. Muito obrigado pelos primos que tenho.
Ela, toda encabulada, minha ti'amiga, quase sem voz para as palavras que lhe vinham na mente. Agarrou-me num abraço.
- Sinta-te à vontade sobrinho. Ainda bem que não viajaste. Deu para estarmos juntos...
Insinuoso, o "didjei" músicava melodias e misturas "saborosas" , ao repasto multigostos.
- Vinde testemunhar. Vinde deleitar-vos. Vinde imitar (boa imitação faz bem)... Era o falar da aparelhagem sonora, cuspindo ritmos pelo salão.
Depois foi a vez de os nubentes fazerem - se à pista. No boda do  Vaticano foi assim.
Vaticano já é Senhor. Valdane João [Jorge Castro] está casado!

Publicado no Jornal Nova Gazeta de 4 de Outubro 2018

sábado, setembro 08, 2018

ESCOLAS, PROTÓTIPOS E INOVAÇÕES

A presente (re) flexão (leiga) surge a propósito do que se vem assistindo quanto ao surgimento e lançamento no mercado de novas instituições de ensino, sejam elas universitárias ou de níveis inferiores.
Entrado na Kabunga em 1981, frequentei uma turma que terá sido a terceira, na aldeia de Kalombo. Até aqui nada de especial, senão o facto de ter sido no ano em que os pais decidiram colocar "carteiras fixas" plantadas no chão cru da sala única da "escola" que se achava bem próximo do chafariz comunitário.
Os anos lectivos subsequentes foram todos vividos em turmas de "reajustes e inovações" nas escolas que frequentei até ao ISCED de Luanda, onde fui cursar Didáctica de História, em 2000. Não sendo turma primeira, pouco terão os professores de lembrança, embora alguns se tenham despontado, mesmo sem terminar o curso, como o amigo Bayo Vunge que fui reencontrar "inaugurador do Curso de Comunicação Social", no ISPRA, em 2003.
Ali sim. O Bayo e seus colegas eram "estudantes-laboratório", fundadores de um novo e primeiro curso no país. Enfrentaram as maiores dificuldades materiais e pedagógicas para que o curso vincasse. Eu não. Cheguei um ano mais tarde. Já não era o da implantação, mas o dos ajuste e ou inovações ao protótipo. Alguns professores haviam sido substituídos e alguns métodos melhorados. Até o apuramento de novos estudantes e a relação desses com a instituição estavam em mutação. O protótipo tem o seu valor e a sua história, assim como os ajustes e inovações ou réplicas.
Olhe agora para as demais organizações pioneiras e atribua-lhes os quesitos.
Quantas vezes, no caso das académicas, se tornaram mais conhecidas pela força inventiva e destemida de seus estudantes associados do que pelo próprio marketing comercial?
Voltemos ao ISPRA. Ao tempo, tinha uma forte equipa de basquetebol, liderada por um intrépido estudante de metro e meio, Yuri Simão, o meu "amigo kambuta". Foram tantas glórias que alguns jovens e adolescentes, em fim de ensino médio, escolheram a instituição como destino para o desejado curso superior. O marketing desportivo foi grande e catapultou a instituição, apesar dessa ter apostado e espalhado diversas bolsas entre jornalistas de então.
Tal caminho me parece estar a ser seguido pelo instituto superior do "Bairro Militar" que tem apostado no trabalho com a associação de estudantes. Essa, ao que contam, é forte no desporto universitário (organizado pela FANDU) e em actividades de beneficência, competentemente apadrinhada pela instituição. E o nome vai voando, se espalhando.
A última organização, da associação estudantil, foi um curso sobre Documentos Administrativos do interesse do jovem estudante. Sem a mediatização que se esperava, sabe-se que a mensagem contada de boca em boca e replicada de face em face book ou reencaminhada de what em whatsapp atinge um universo inimaginável. Afinal de contas os jovens em idade plena são dos que mais usam, hoje, as redes sociais, sendo concomitantemente grandes consumidores dos produtos universitários.
A todos os "estudantes laboratórios" e aos que se lhes seguem, nos tempos dos ajustes, o meu BEM HAJA INOVAÇÃO!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 23 Agosto 2018

sábado, setembro 01, 2018

PARTILHANDO SABEDORIA E CONHECIMENTO

- Os jovens estão hoje melhor qualificados tecnicamente... Dizia o Mais velho que me chamou ontem para uma conversa profissional e "familiar".
Agradeci e retorqui que os jovens, nós, precisamos de nos sentar mais vezes com a geração de nossos pais e deles beber experiências e sabedoria. A academia apenas nos dá conhecimentos.
O mais velho, a quem trato carinhosamente por papá, abanou a cabeça, em gesto de aprovação, e prosseguiu, visitando a sua rua rica e sábia memória.
- Na nossa tradição bantu, uma conversa tem sempre introdução (yalakuhu em Kikongo e mahezu em Kimbundu). Assim é também na vida profissional (as partes de um documento/exposição são: introdução, desenvolvimento e conclusão ou fecho).
- Quem atravessa um rio, por meio de uma canoa, não deve defecar no ponto de partida. A canoa pode avariar trajecto, regressar, e o individuo ter de suportar o cheiro da defecação (por outras palavras, não discuta com o soba no dia em que pretendas mudar de bairro. Podes voltar...).
- A barriga pede sempre mas nunca agradece. A vida não é apenas a barriga. Por isso, é preciso empreender. O Mais velho contou bons exemplos de lutas travadas pela vida que resultaram em sucesso profissional e bem-estar familiar.
- Para viver em paz, acrescentou, é preciso não gritar. Citou a experiência de um psicólogo francês e exemplificou. Quem mais grita entre o grilo e a formiga? Quem mais incomoda quem dorme? Quem mais é perseguido por via da sua gritaria?
- Humildade e honestidade são importantes na vida que dá muitas voltas. Os pais passam e os filhos ficam. Há que deixar boas referências.
- Educação e formação é obrigação de um pai. Filho com bons princípios tem uma estrada aberta, lisa e longa pela frente.
Obrigado papá "MasCa" pela sabedoria e conhecimentos com que me tem brindado. Ntondele!

quarta-feira, agosto 29, 2018

A HISTÓRIA QUE (NÃO) SE APAGA


A caminho da sede do Sporting de Luanda, que já foram Leões no Girabola, há uma amostra da antiga ferrovia que saia do Mbungu, espraiava-se pela Marginal e rasgava a cidade baixa até à Mayanga. Outro ramal, saído do Porto, ia "visitar" a Ilha de Luanda. São tempos que apenas a idade avançada dos que o viram descreve ou os livros quase já sem cor.
Outra rota, não menos importante, passava pela Boa Vista e rumava à Funda. Pelas bandas da Petrofina ainda conheci, nas traquinices dos anos oitenta, os carris que, aos poucos, foram sendo recolhidos para suportar as coberturas de casas precárias.
Da Estação do Museke, entre Rangel e Kazenga, partia um outro ramal que seguia ao Kikolo, sendo o seu término a moagem de trigo. Nesse comboio, com suas carruagens de madeira, ainda viajei variadas vezes em busca de "sabão cocó", restos da Induve que os aldeões (à data) recolhiam, fundiam e acrescentavam um pouco de água para conferir-lhe uma forma mais aquosa. Chegou a ter vedação até à cervejeira do " cuco". Porém invadido pelos deslocados , em 1992 e anos subsequentes, foi completamente desmantelado, dando lugar à casebres e edifícios no seu traçado. Não resta sequer história para contar aos filhos de hoje.
Entre o nó rodoviário Ndalatandu-Ngulungu partia outro ramal. Tinha como vocação o transporte, essencialmente, de café que se colhia a toneladas vastas por aquelas paragens.
À semelhança do homólogo Caminho-de-ferro do Amboim, que partia do Porto Amboim à Gabela, o ramal do Ngulungu vai desaparecendo do mapa visual. Hoje, os carris e travessas são, semanas sim meses também, roubados para suportar os tectos das mabatas e ou vendidos aos sucateiros de Luanda. Daqui a nada, se nada mais se fizer, para impedir que a história se apague, nada sobrará, à semelhança dos ramais do Kikolo, Mayanga, Ilha de Luanda e Funda.
Uma atenção é reclamada ao oficialmente extinto Caminho-de-ferro do Amboim (ainda constava dos manuais do ensino primário da década de oitenta), cuja visita e retrato me estão na vontade e pela garganta.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 02/08/2018 e Jornal de Angola de 26/08/18

quarta-feira, agosto 22, 2018

PUMBA: ARTEFACTO DE CAÇA ENTRE AMBUNDU DO KWANZA-SUL

Um dos artefactos de caça usado pelos angolanos das aldeias interiores é a pumba. É à volta da lavra, para impedir a invasão de pacas, coelhos javalis e outros animais devastadores, que se coloca(va) uma cerca, normalmente feita de galhos de árvores. As pumbas eram/são colocadas em aberturas deixadas a propósito, como portas de entrada, transpondo a cerca.
 
Essas armadilhas também pod(iam)em ser montadas em caminhos habituais dos animais. São construídos com pedaços de troncos de árvores dispostos paralelamente, suportando uma carga que é detonada pela piscadela dos animais num gatilho colocado à superfície. O kabolo, entre os ambundu do Libolo e Kibala (pumba) não escolhe o animal alvo. Basta exercer pressão sobre o gatilho. O cão pode ser vítima. A cobra também. O termo "unyuna" significa visitar as armadilhas, algo que normalmente acontece manhã cedo. É uma tarefa diária que envolve percorrer a fronteira sertaneja da lavra para visitar todos os artefactos. E quando a colocação de artefactos/armadilhas vai para além das cercanias do campo cultivado, a visita é mais extensiva e demorada. E há/havia dias excelentes em que a kizaka (folhas de mandioqueira) ficava aposentada por alguns dias ou mesmo semanas.
 
Para além da pumba, existem um outro artefacto maior e com mesmas funções. É a chamada "kindamba". É quadriculada, mais larga e com mais peso. Colocada onde normalmente os animais vão roer terra por alegadamente conter NaCl (sal). O artefacto quadriculado suportado por uma baliza (dois paus verticais e um transversal com duas varas que se estendem da "baliza" ao gatilho, na parte inferior traseira. 
 
Para que a frequência dos animais não cesse, normalmente os mais velhos costumam deitar água salgada ou mesmo sal nos locais onde os animais vão roer terra, alegadamente por conter sal. O engatilhamento é semelhante ao da pumba.

Texto publicado pelo jornal Nova Gazeta de 25.10.2018



 

quarta-feira, agosto 15, 2018

DELEITANDO A PAZ DE KILOMBO

"Mana Minga mukulu mwengi, mana wavala mona omusasa..!"
Na paz proporcionada pela exuberante vegetação, no jardim botânico de Kilombo, Ndalatando, todos cantam e dançam. As árvores, nos reencontros facilitados pelo vento, cantam uns gemidos e dançam, soltado folhas-estrume que as alimentam e dão de comer a outras nascentes.
A água, cálida, límpida, descendo preguiçosa, mas sempre vistosa, canta seus versos nos reencontros intermináveis com as pedras em pequenas cascatas.
Os bichos, os insectos, apito na boca, piiiiiiii, piiiii. Um interminável coro, às vezes chegando à orquestra.
Os pássaros, senhores das copas e dos ramos intermédios, um chilrear sem fim. O botânico do Kilombo é uma festa. Será por isso que "Mano António dya Mulawla" gostava de visitar o espaço em suas férias presidenciais? E tinha suficiente razão. Precisavam os akwaxi em gozo de férias de ir à metrópole beber vinho quando o maluvu do Kilombo é dos mais doces e gaseificados?
Voltemos à música. Kujiza vinha da lavra, Kilombo afora. Kinda à cabeça onde carregava pepino silvestre, batata, vassoura e outros mimos para os twana em casa. No sangue carregava assinaláveis ml de álcool. Kapuka ou maluvu não se descortinou.
- Mano meu nome é Kujiza. Você está a se fotografar, me fota também.
Enquanto rolava a prosa, da kinda ainda na cabeça veio um som. O rádio que carregava entre os mantimentos decidiu tocar e de lá saiu uma música das terras vizinhas de Malanje:
"Mana Minga mukulu mwengi, mana wavala mona omusasa" (mana Minga antigamente era diferente quem fazia filho criava-no).
E como o Kilombo é uma festa, saiu uma masemba até a música deixar outro recado.
"Mukulu, kuvala kitadi, lê-lo ke Kima" (antigamente, devido à lavoura, quem mais braços tivesse mais cresceria a sua lavra, os filhos eram por isso tidos como dinheiro, hoje não têm o mesmo valor, façam-se, portanto, poucos filhos, para que possam ser criados com dignidade). Quem não ouviria e cantaria uma mensagem assim?
De regresso, ainda no centro do Kilombo, um artesão faz dinheiro com bambus, fazendo lindos vasos e levando souvenirs à casa dos que se fazem ao botânico. Rosas de porcelana ou um broto da planta para decorar o quintal e nunca mais faltarem rosas também há. Diligentes, os guardas e os agro-gerentes estão sempre prontos.
- A rosa, cem kwanzas. A roseira, quinhentos. O vaso e os jarros de bambu variam de quinhentos a mil. - Anunciam.
Já á porta, prontos para o bye bye, de novo outro segurança.
- Gostou, mukwaxi? Volte sempre. Pela próxima venha acompanhado, assim demora e desfruta mais. Não deixe de falar sobre as belezas do Kilombo e aconselhar visitas. A entrada, como viu, custa apenas cem kwanzas!

Publicado pelo jornal Nova Gazeta de 13 de setembro de 2018