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segunda-feira, abril 14, 2014

ENCONTRO DE CAMARADAS


- Tenho a carcaça bem aparentada mas com muitas peças a reclamarem reparação ou substituição.

A derradeira pergunta do "kimbanda kya putu" havia sido profunda e levou-me a falar-lhe sobre as colisões e despistes do passado. Informei-lhe também sobre o dia-a-dia repartido entre o gabinete, o TBC (tira bumbum da cadeira ou trabalho de campo), a docência e as escrita. Uma única pergunta fez-me viajar ao longo de duas décadas, mais ou menos.

-Quantos anos tens, 38, certo?
- Não, Doutor. Na verdade, tenho 40 e abro sempre o jogo aos médicos para que não me ministrem fármacos para lactentes.
- Entendo. És da geração que se segue à minha. Tudo fazíamos para adiar, por um ou dois anos, a ida do filho a tropa.
A conversa começou assim, ate se "estender" para temas prolixos. Pena foi que o local não permitia mais troca de conhecimentos, mas deu para ambos concluirmos que vestimos as mesmas cores (três) e cantamos o mesmo hino.
Ao lado, não muito longe, no mesmo edifício, andar e corredor, está a sala 27. Não tem letreiro mas todos sabem qual é o seu numero. É a sala dos kotas. Senhores acima dos 40 anos, idade que me espera. Os kotas falam à vontade sobre temas k ate há pouco tempo eram abordados apenas no escuro do quarto, com a mulher desesperada pelo dizimo que não recebe por inoperância da bomba, ou em encontros restritos entre amigos de longa data.
- Epá! - Dizia um para o outro. - Tens de beber muita água. Quando sentires vontade de largar, bate a porta da Doutora.
E, não tardou para que ela, mulata, gostosa e simpática, aparecesse junto de seus pacientes para anunciar:
- Ola, melhor idade! Atrasei-me porque tive urgência na cirurgia, mas já cheguei e peço desculpas pela demora.
A presença dela induziu os kotas a um apelo já conhecido. Todos sacaram das garrafas e mandaram agua, tanta agua quanto puderam, goela adentro.
- Companheiros! Entre medicamentos intermináveis e uma cirurgia, preferi o bisturi. Eu mesmo pedi ao meu doutor. - Dizia um dos kotas. - Vim fazer o controlo, depois de 15 dias sobre a alta médica.
A conversa fluía. Contavam-se experiencia e conhecimentos sobre ervas e fármacos milagrosos, clínicas e farmácias recomendáveis, vantagens e desvantagens do remediar permanente ou recurso à cirurgia corretiva. Perante uma audiência discreta mas atenta, os kotas lembravam também a virilidade dos tempos áureos e a "dobra" de hoje. Conversa aberta de meter inveja, recordando tempos do cabelo ainda negro, apelando ao arrependimento de muitos homens que se haviam bandeado para o lado das tranças e das panelas.
- Era tempo do "kwata panina" mas havia uns embarrados que levavam no mutungu, sobretudo nas cadeias e nas frentes de combate. - Atirou descontraído outro idoso que se fazia movimentar por intermédio de uma cadeira de rodas.
- E tu, kandenge, também transitaste para o nosso clube?
- Não, meu pai, estou quase mas vim cuidar apenas do chassis. - Respondi-lhe irónico, buscando deles curtos, mas rasgados, sorrisos.
O ambiente era de descontração. O interesse comum pela busca da saúde que fraquejava e a condição de paciente gritavam mais altos.

- Olha, jovem, o carro, usado ou guardado, chega uma altura em que os componentes falham. Quando tive a tua idade, se tivesse as "folhas" que tenho hoje, teria feito "longo curso". - Desabafou outro sexagenário, perante a curiosidade duma senhora de idade, frequentadora daquele "kididi kya kudisanza" e, aparentemente, também conhecedora dos problemas com que os kotas "andam com eles".
Noutra porta, a enfermeira chamou: Mariano António!
Perante o silencio e a proximidade do meu nome e o anunciado aos ouvidos atentos da multidão, levantei-me para espreitar o papel. Era a minha vez de ir ao especialista em clínica geral.
Enquanto o homem fechava a ultima ficha para iniciar a minha, larguei um "bom dia doutor" que lhe terá soado muito bem.
- Bom dia, meu jovem. Qual é a sua profissão? - Perguntou o médico, cabelo branco no que resta da calva, procurando por uma empatia que viria a conseguir sem muito custo.
- Sou jornalista na prateleira, emprestado a outras coisas.
- Tem curso superior?
- Fiz Superior de Ciências de Educação, Superior de Comunicação e frequento um mestrado...
- Pufas! - Exclamou o entrevistador que se preparava para perguntas mais técnicas. - Então, meu Doutor, diga-me o que o traz ao hospital e qual é a sua rotina de vida?!
...

domingo, abril 06, 2014

OS LIVROS E A EXALTAÇÃO À PAZ EM SAURIMO

Saurimo, 04 de Abril de 2014. A Cidade está com um movimento desigual. Coros de igrejas (reconhecidas ou não pelo Ministério da Cultura) atravessam as ruas da cidade de canto a canto. Há chuva, mas ninguém arreda o pé. O destino é o Estádio das Mangueiras onde decorre o culto ecuménico em saudação e oração pelos 12 anos do calar das armas. Cândida Narciso, a governadora, e seu elenco, altas patentes militares e sua praça, comandante da polícia e representantes dos seus diversos ramos, jovens, crianças (que aproveitam o contacto com a relva sintética, enquanto o culto não começa), todos os angolanos residentes na Lunda Sul representados no culto multi-denominacional .
Cantaram os coros seleccionados. Chegou a chuva, mas de pouca dura. Os kimbanguistas decidem enfrentar os dois minutos de chuvisco e inundam o estádio com o som de suas cornetas. O ambiente se refaz. Na verdade, ninguém saiu do estádio. Foi apenas um recuo estratégico das bancadas para a parte coberta do campo de futebol. O culto retoma. Um pastor faz a pregação da "palavra" e o conteúdo é sobre "as vantagens de viver em paz". Faz-se a oração e o protocolo recolhe as ofertas. A governadora dirige-se ao altar e faz apelo à necessidade de se preservar a paz, duramente conseguida, com sangue e sacrifício…
- Olhemos à nossa volta e comparemos com o que éramos e tínhamos há doze anos, antes da paz. – Solicitou a governante.
Chegam os murmúrios voluntários, em jeito de resposta, cada um no seu lugar. A resposta era comum e evidente.
- Muita coisa mudou para melhor. Há muitos ganhos… Respondemos todos, sem coação.
- Então, temos de preservá-la. Temos de multiplicá-la. Temos de expandi-la. - Voltou a apelar Cândida Narciso.
No seu canto, atento, no verso do convite, o cronista apontava: - Mulheres e militares, os que mais sofreram na carne os efeitos da guerra, estão grandemente representados. Ainda bem que todos os angolanos percorrem o dicionário para apagar (para sempre) a palavra guerra que levou muitos de nós a "partir londango por causa do lukango” [1]. De Kabinda ao Kunene e do Lopito ao Lwaw, um só País em PAZ. “Tri-ti-ti” [2] nunca mais, e que a PAZ do Senhor esteja e permaneça connosco para todo o sempre!
Dissipadas as nuvens chuvosas, quando era já o sol quem governava sobre o azul celeste, terminou o culto e todos os caminhos iam desembocar ao Largo 1º de Maio, centro de Saurimo, onde uma equipa procedente de Luanda promovia o festival da PAZ.
Produção agro-pecuária, com produtos alimentares e animais; produção cultural com dança Cyanda,  música ao vivo e de discoteca, artesanato, escultura, e literatura; brinquedos vários para entreter os meninos que, por três dias, desfrutaram de um carrossel. Tudo isso movimentou o largo que se tornou pequeno durante três dias.
Paz com livros
 
Dias antes, a minha caixa de correio electrónico alertava: “Convite para exposição de livros na fera de paz em Saurimo. Estás pronto”? A minha resposta foi imediata.
Os 11 títulos “clássicos da Literatura angolana” (Espontaneidades da minha alma, de José da Silva Maia Ferreira;  Nga Mutúri, de Alfredo Troni;  Delírios, de Joaquim Dias Cordeiro da Mata; O segredo da morta, de António de Assis Júnior; Luuanda, de José Luandino Viera; Sagrada esperança, de Agostinho Neto; Mestre Tamoda e outros contos, de Uanhega Xitu; Mayombe, de Pepetela;  Quem me dera ser onda, de Manuel Rui; Sobreviver em Tarrafal de Santiago, de António Jacinto; Trajectória obliterada, de João Maiomona) reeditados pelo projecto Leia Angola, do Grecima, foram levados a Saurimo ao preço de kz. 500,00. Aos 11 clássicos juntaram outros ficcionistas, dentre eles eu, e lá fiquei autografando para mais de sessenta pessoas em apenas uma tarde.
- Agrada-me o crescimento do interesse dos saurimuenses pela literatura. Foi muito bom autografar 60 livros em uma tarde, numa cidade onde os hábitos de leitura começam a ser resgatados. - Expliquei, satisfeito, à reportagem da TPA.
Os leitores, muitos deles políticos, funcionários da administração do Estado e estudantes universitários, perguntaram também por dicionários e gramáticas, livros que nas aulas de Língua Portuguesa recomendo sempre para comprarem e ler. Infelizmente não havia, mas quem sabe pela próxima se contactem também editoras para se juntarem ao Projecto de Iniciativa Presidencial, o Leia Angola?!
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[1] Expressão em umbundo equivalente a: partir os maxilares por causa da mastigação de milho torrado. Um retrato dos tempos árduos da fome causada pela guerra (música de Capenda Salongue).
[2]Passagem da música de Viñi Viñi, finado músico do planalto central angolano. Tri-ti-ti, por onomatopeia, é o som das rajadas de balas. O mesmo que guerra!

terça-feira, abril 01, 2014

O SUOR DO ARTISTA E A REVOLUÇAO DO BETÃO

Em 2001, numa entrevista que fiz ao ja finado artista musical Teta Lando, nas obras do que viria a ser o seu empreendimento hoteleiro, junto a antiga rotunda da peixeira, à entrada do Hotel Marinha, dizia-me o artista que "estava a enterrar naquelas infra-estruturas os seus 50 anos de labor".
Há já 8 anos que não voltava a "Ilha" de Luanda e o meu espanto foi ter desencontrado o "cemitério" do suor de Teta. A pensão foi destruída como consequência da requalificação da área. Embora seja obvio que ele, Teta Lando,  ou os herdeiros tenham sido indemnizados, do ponto vista afectivo, uma casa feita tijolo a tijolo e com agregação comercial, não é a mesma coisa que a substituta. Na construção da pensão, Teta foi o dono e fiscal da obra.

Esse exercício é tão somente um olhar ao crescimento desmesurado do betão na península dos "an'azanga" onde, depois das cabanas dos pescadores terem cedido a construções de madeira e pequenas ou médias moradias em alvenaria, essas ultimas vão, de igual modo, cedendo espaço à construção cada vez mais vertical. Daí ser meu entendimento que não é demente quem diga, de boca cheia, que até meados do século, a "Ilha" será apenas prédios e avenidas nas duas margens. Tal é, inequivocamente, a tendência que vou vivenciando nos meus 30 anos de residente em Luanda.
Com a mesma velocidade, o betão vai crescendo na península do Musulu e demais orla marítima onde quilómetros de extensão se encontram demarcados e, nalguns casos, vedados com emergentes construções em aço e betão.
Fruto disso, as praias pública vão sendo empurradas para cada vez mais longe, constituindo-se em autênticas viagens o contacto e desfrute das águas quentes do Atlântico.
Se tudo é critica, nem toda é negativa. A vida é dinâmica e aquilo q desagrada à geração anterior e à minha pode orgulhar os homens do amanha que querem dar passos em direcção ao modernismo.
"Estagnar é morrer". A luta entre o paradigma dominante e emergente é uma questão dialéctica incontornável, com vitoria para o novo pensamento. Desde que a inovação seja sustentável e propicie melhores condições para os seres reinantes e vindouros, que venha!
 
 

sexta-feira, março 28, 2014

OS CINEMAS DOS MEUS MATINÉES

Passei pelo antigo Ngola Cine. Já era. Depois das suas sucessivas adaptações em local para cultos religiosos, armazém comercial e outras utilidades sempre fora do objecto pelo qual foram concebidas as instalações, ei-lo prostrado, totalmente danificado, implorando por um cérebro atento ao seu objecto social, legado histórico e aos novos tempos.
É obvio que os cinemas mono-funcionais do século passado, com uma administração tradicional e estática, ja não atendem as exigências de hoje em que a digitalização é um recurso imprescindível. Porem, sendo os cinemas importantes espaços de recreação, aprendizagem e lazer, por que não uma gestão inovadora dos espaços, conferindo-lhes valor agregado? Restaurantes ao bolso dos circunvizinhos, salões de cabeleireiro e estética, jogos interactivos, lojas de conveniência, cafés e charcutarias, espectáculos de teatro, dança e música, entre outras valências, podem dinamizar as velhas salas de cinema que devem também passar de espaços abertos a fechados. A par disso, devem ainda, onde seja possível, serem criados espaços para estacionamento, facilitando assim a vida dos utentes.
 
Cinemas como Ngola, Kipaka, S. Joao, S. Domingos, Tivoli, Korimba, África, Kilumba, etc., em Luanda, são exemplos de casas que já deram alegrias a muitas gerações e que estão neste momento inoperantes e ou transformados em outras coisas fora do escopo cultural e da exibição de películas.
Quem me dera voltar ao Ngola Cine e assistir ao filme "Njinga a rainha de Ngola"?!

sexta-feira, março 21, 2014

AS QUESTÕES "POLÍTICAS" DO MAN-TONY

(IN MEMORIAM)
 
Economista bem posicionado no BNA onde foi sub-director de Emissão e Crédito e presidente do Sindicato dos Empregados bancários, António Branda ou simplesmente Man-Tony, para os de casa,  foi um homem que conheci por força da vizinhança, no Rangel, e por ser irmão e primo de meus amigos de adolescência: Simão ou Tio, Zazá e Didi.

Simples, apesar de ser doutor e bem posicionado social e economicamente, Man-Tony construiu a sua humilde casa no bairro Precol onde nos recebia a todos como irmãos. Não distinguia os irmãos dos amigos destes. Era, por isso, o nosso kota, o Man-Tony.

Sempre que, por razões por nós desconhecidas fossemos mal recebidos pela esposa, Man- Tony dizia-nos: "não linguem, môs kandengues,  são questões políticas".
Ele não era dado a conversar questões de fórum partidário mas alegava "questões políticas" o que nos deixava confusos.

Hoje, crescidos e amancebados, compreendemos o que ele nos estava a transmitir, o que considerava serem "questões políticas". Na verdade, eram assuntos que a nossa idade e estado civil não permitiam entender. Questões difíceis de gerir que obrigavam-no à gestão política da situação. Man-Tony não era homem de entrar em gritaria com a parceira aos nossos olhos, por mais coberto de razão que estivesse. E geria tudo de forma política, a arte do equilíbrio, do win-win. Pura verdade!
Estamos nós (Didi, Puna, Amany, Canhanga, Zazá, Beto Spina e outros amigos de então), também hoje a gerir muitas vezes situações "políticas" incalculáveis há 20 anos.

E, dizia-nos mais: "Môs kandengues, não se apressem em ter dama. Casa temos, mas o pitéu é complicado". Na nossa inocência sempre pensávamos que fosse mais difícil ter-se casa do que comida. Vemos hoje que, embora cerca de metade do que se cozinha vá ao lixo do que ao estómago, é por causa da comida que mais se encontram clivagens entre parentes.

Oiço, vezes sem conta, que o fulano não dá assistência alimentar, deixou o filho e não deixou a comida, etc. Coisas sem cabimento. Mas, mais uma vez dou razão ao Man-Tony.
"São questões políticas, môs kandengues, não liguem"!

sexta-feira, março 14, 2014

OS POLÍCIAS E FISCAIS QUE “ENVENENAM” A REPUTAÇÃO DE DIRIGENTES


No dia 26 de Fevereiro de 2014 a minha mulher dirigiu-se ao cartório notarial de Viana para reconhecer um documento. Encontrando um espaço vazio para estacionar (o que em Luanda não é fácil), reparou se havia algum sinal de proibição e, não havendo, estacionou e dirigiu-se ao edifício.
Tratada a diligência, vê, com espanto, que o carro não estava no lugar em que o deixou. Atónita, perguntou aos transeuntes o que se passara, tendo estes explicado que a fiscalização de Viana, acompanhada de polícias, tinha rebocado o carro, levando-o a um parque que fica nas imediações da rádio da UNITA.

A única justificação que pôde colher foi a de que “é próximo da casa protocolar e a senhora tem de pagar KZ 50 mil para resgatar o carro”.
Aflita, ligou a informa-me sobre o sucedido, ao mesmo tempo em que jurava de pés juntos que “no local não há nenhum sinal de proibição”, algo que se veio a confirmar do próprio administrador, o Cda. Zeca Moreno.

- Vai ao administrador, ainda que tenhas que pernoitar na casa dele. Se não há proibição para estacionar, ele tem de resolver isso. – Orientei, ao mesmo tempo que fazia outras diligências junto de amigos. Primeiro certificando-me sobre a existência ou não de sinais de proibição de transito no local, e depois solicitando auxilio de quem pode.

Confesso que em países normais, onde os instrumentos reguladores funcionam, onde as leis estão escritas e não estão na cabeça do polícia ou do fiscal, isso seria dispensável.
A mulher acatou a minha orientação e foi ao encontro do Camarada Zeca Moreno. Explicou o sucedido e o edil confirmou que “não há sinal proibitivo, nem nada que leve à remoção de veículos não infractores”. Seguidamente, baixou orientações ao director do parque para a devolução do carro.

Agradeço e elogio, nesta crónica apressada, a atitude do administrador de Viana que não titubeou em corrigir a truculência dos polícias e fiscais da municipalidade que dirige. A esses, destaco aqui o Sr. Fernando Binge, que obrigou a minha mulher a um segundo recurso ao administrador Zeca Moreno de quem recebeu os merecidos bafos, apenas o meu desprezo.

Fiquei também a saber que o tal anda mancomunado com o proprietário do rebocador, cobrando Kz 22 mil pelo translado de viaturas, mesmo que se encontrem estacionadas em sítios permitidos. Mau trabalho!

sábado, março 08, 2014

O ÍNTIMO DE BRIGITTE E O SORRISO A ANGOLANA

Apesar da chuva que caiu em Saurimo, na tarde de sábado, 08 Fev. 2014, cerca de meia centena de pessoas presenciaram ao acto de apresentação do poemário de Brigitte Caferro, realizado no Cine Chicapa, com a presença da Governadora da Lunda Sul, Cândida Narciso, que se fez acompanhar de dois vice-governadores e do director provincial da cultura. Soberano Canhanga, também poeta  e  prosador, foi convidado para a apresentação crítica do livro, começando por recitar um poema que escreveu para homenagear a autora e as senhoras presentes:
“SORRISO A ANGOLANA

Nesta sala que me acolhe
No consagrado teu dia

Percorre-me a memória
Os sorrisos mais luminosos que me brindaste
Mesmo multi-atarefada
Mesmo preocupada
Entre emprego e família dividida
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE

De dor gemendo, aflita,

Sonolenta,
De noite mal dormida
Do mona adoentado
Moída pelo trabalho
Pelas lidas caseiras
Cuidando marido ressacado
Ou desviando patrão mal-intencionado
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE!”
Ø Excelências, amigos das artes e, sobretudo, da literatura.
Ø  A minha saudação especial às nossas mães, razão da nossa existência.
Ø Vénia redobrada à Dra. Cândida Narciso que nunca deixou de estar presente num acto de lançamento de livros em Saurimo, dando assim exemplo de que a sociedade só cresce com conhecimento.
A nossa escritora tem como nome artístico Brigitte Caferro, sendo de nome próprio Brigite Causse Caferro. Nascida aqui mesmo em Saurimo, em meados da década de 80 do século passado, é formada em Administração pela Universidade Federal de Paraná, no Brasil. É cantora, artesã e escultora da palavra, sendo este “do meu íntimo mais íntimo” o seu primeiro “artefacto” literário. Brigitte Caferro também pode ser lida na antologia “Amores diversos”, publicada no Brasil, em 2012, bem como na “Folha Carioca” onde ilustrou com um poema a matéria “literotismo”.
O meu primeiro contacto com Brigitte foi pela via do FB, e já quando tinha terminado de ler o seu livro que me fora enviado para essa empreitada difícil que é apresentar o livro às senhoras e senhores aqui presentes.

 Confesso, que quando recebi o convite do grupo Hytweza para comparecer nessa cerimónia de apresentação do poemário de Brigitte, o sentimento foi de satisfação por ser eu um amante fervoroso das letras e incentivador da cultura da leitura e escrita entre os jovens. Embora acometido por uma lombalgia, aceitei o convite. Porém, um calor interior invadiu-me quando me foram pedidos conselhos sobre como organizar um lançamento de livro. Opinei, mas fiquei receoso que algo sobrasse para mim. Assim pensado, assim solicitado. Senti-me criança perante tamanha responsabilidade, embora honrosa e irrecusável.
Estamos aqui dois estreantes. Ela na publicação e eu na apresentação crítica de um livro. A minha missão se torna ainda mais difícil pelo facto de o livro trazer já uma apreciação crítica de Ricardo Alfaya, um escritor, crítico literário, revisor e editor, como se poderá ler na pág. 07 (elementos pré-textuais da obra).

Ø   Queridas mamãs, queridos papás, caros jovens,

Um estudo realizado recentemente pelo investigador Tomás  Lima Coelho, sobre a literatura angolana e feita pelos angolanos, actualizada nesta última quinta-feira, aponta que, de 1849 (ano em que foi publicada a primeira obra de um angolano), a esta parte, o número de escritores nascidos na Lunda Sul ainda NÃO CHEGA A DEZ. São apenas SETE, contando já com a nossa caçula Brigitte Caferro, Sendo que o primeiro lundasulino a publicar um livro em Angola foi o Professor Dr. Vítor Kajibanga com “A alma sociológica na ensaística de Mário Pinto de Andrade, em 2000”. A ele se seguiram Bula Mbungue, Elias Chinguli de Oliveira, Fonseca Sousa, Raul Luís Fernandes Júnior e Valter Hugo Mãe (este último nasceu aqui em Saurimo mas vive em Portugal desde 1976). Brigitte é, portanto a primeira lundasulina a publicar um livro, já que, dos SETE naturais desta província, seis são homens.

Preocupados, vamos fazendo apelos e vamos tomando iniciativas como a criação do Núcleo de Leitura e Literatura, na Escola Superior Politécnica da Lunda Sul, que, desde já, convido todos os jovens a frequentá-lo.

Ø   Ilustres senhoras e senhores,
Já vai sendo tempo de começarem a surgir novos valores na Literatura da Lunda Sul. Precisamos que surjam mais Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita “a fotografia do coração”, conforme nos recomenda a nossa autora no seu poema ARTISTA (pág. 81). “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Brigitte Caferro não vem fazer número. Vem preencher o seu lugar e trazer vida à criatividade artística na Lunda Sul. Vem dizer que é possível desde que se tenha a palavra e a coragem de a esculpir conforme nos ensina nas páginas 05 e 06.“Escrevo desde os meus 13 anos. Anotava num caderno e por questão de segurança passei a digitá-los. Com o evoluir do tempo fui evoluindo a linha de pensamento e melhorei a escrita… Quando senti que a minha sensibilidade artística era muito forte, decidi escrever e publicar esse livro”. Aos jovens, candidatos a escritores, aqui está o conselho mais do que claro. Ser escritor não é algo que se consiga de dia para noite. Exige inspiração e, acima de tudo, transpiração. Muita transpiração para dar forma à palavra.

Nos seus 76 poemas, Brigite apregoa, acima de tudo, o amor, o ser e a sociedade. A escrita de Brigitte é, sobretudo, intimista. É o seu grito ao encontro do “nós” social. A fotografia desta poesia intimista pode ser encontrada na pág. 17 “Dois corpos e uma paixão” ou ainda na pág. 21 “Vem amor/com teu fogo/causar-me curto circuito… /com teu cabo de alta tensão/ fazer-me conexão…”.

Nos “amores de Brigitte” encontramos também dilemas. A antagonia entre o estar juntos e compreender/enfrentar a separação. A ansiedade, o desejo de regressar e de reconquistar colos… Próprio de quem se encontre distante dos seus. Próprio dos migrantes.

Brigitte mostra-nos com surrealismo, na pág. 25, em que diz viver num “mundo de sonhos” onde o ”maior pesadelo é a realidade” de um dia “encontrar-te”. Em oposição, na pág. 20, Brigitte fala sobre o fim do tempo ou o fim da missão, mais quando tempo não houver para o “abraço final”,  quando deixarmos de “dividir a sala, sorrisos e futuros”…
Considero a poesia de Brigitte Caferro, como desabafos da alma que nos chegam por via da escrita. Neles, impera o verso livre, não se destacando formas tradicionais como o soneto, as quadras e as métricas, etc. Encontramos porém elementos metalinguísticos, próprios do género literário. E, Brigitte também reinventa a língua com que trabalha no seu “íntimo mais íntimo”. Bastará ler o “penso, repenso e tripenso” (pág. 27), ou ainda elementos como a rima em “chamas-me p´ra cama/mas não me amas/ És o fantasma/que corrompe minha alma” (Pág. 53).

A anáfora e a gradação, outras características deste género, também estão representadas em vários textos como “Quero voltar a ser criança…/Quero voltar ao passado/… Quero regressar à meninice…/(pág. 56).
No “íntimo mais íntimo” de Brigitte nota-se também o recurso à personificação e a expressões metafóricas como se pode conferir em “As luzes revelando segredos sombrios/no palco da cidade adormecida” (pág. 97) ou ainda o pintar “… na tela da alma/amores, sonhos e ilusões…”

Outra questão, não menos importante, é o facto de a angolana Brigitte Caferro, ter escrito com base no discurso brasileiro da língua portuguesa ou aproximando o discurso ao AOLP de que Angola, por razões óbvias, cultural e socialmente ponderáveis, ainda não aderiu.
Grande parte da produção científica e intelectual, escrita em Língua Portuguesa, vem do Brasil e de Portugal, sendo o país americano, aquele que mais falantes possui. Daí, a necessidade de um apelo aos jovens, aos professores das nossas crianças. Escrevam de acordo ao português padrão, aquele convencionado até hoje, mas não deixem de estar atentos às regras do AOLP, para que tão logo os linguistas e os políticos se entendam não fiquemos na fila de trás, quanto à aplicação das novas regras.

Quero agradecer a Brigitte Caferro pela ousadia que teve em trazer-nos os seus gritos da alma e pedir que não se embale nos elogios que esteja ou vá receber. Continue a cultivar-se e a polir a palavra. Vá lendo os clássicos da literatura lusófona e, sobretudo, aqueles que reinventaram a língua como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, António Jacinto, Alexandre Dáskalos, Agostinho Neto, Alda do Espírito Santo, entre outros. Vá também tutorando os jovens que a vão procurar para dar forma aos seus textos. Somos poucos para a grande empreitada que é desenvolvermos a nossa terra, a nossa Lunda Sul, a nossa Angola.
Para terminar,
Precisamos que surjam mais jovens como Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita a fotografia do coração. “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Tal como recomendou, uma vez, o já finado mais velho Mendes de Carvalho, a quem rendo homenagem, “os jovens não precisam de ter pressa em publicar. Devem antes cultivar-se”. Porque a literatura adiada não apodrece. Ela amadurece.
E já que estamos a comemorar o dia internacional da mulher, com a apresentação do livro de uma jovem mulher, por que não irmos à página 75 e desfrutarmos do poema Mulheres?

“Dos seios/liberam as mulheres/ a essência-fragrância/que hipnotiza os homens/e que os leva ao êxtase!/ Doces como teixos/ as mulheres precisam ser/irrigadas e acariciadas/ Também mimadas/amadas e protegidas/ para que não se tornem venenosas”.
Muito obrigado,

SOBERANO CANHANGA (Jornalista e escritor)
Saurimo, 08 de Março de 2014.

quarta-feira, março 05, 2014

O CARNAVAL DO RANGEL E A HOMENAGEM QUE FALTA A MAN-BRÁS

"Mamá, atuzemba. Atuzemba, atuzembel´anyi?! (Mamã, não gostam de nós. Por que não gostam de nós?!) Quando vai aí, Atuzemba está com o povo. Quando vem aqui, Atuzemba está com todos"

O refrão que já leva muitas décadas pertence ao grupo carnavalesco ATUZEMBA, do distrito urbano do Rangel, em Luanda. Não venceu o desfile central enem sei se desceu à nova marginal para dançar sob os olhares silenciosos (sob olhos secos) do Camarada Manguxi que repousa ali no seu mausoléu...

A coroa do carnaval de Luanda voltou, em 2014, ao Rangel, mercê da soberba actuação do União Sagrada Esperança, do bairro (agora distrito urbano) que me viu crescer e fazer-me homem. Foi no Rangel, entre a Rua da Ambaca, da Saúde, Comandante Cantiga, Rua do Paraná, Rua da Mão e rua do Povo, entre outras, que tomei contacto com o carnaval luandense, ainda no tempo do já finado “carnaval da vitória” que se realizava em Março para assinalar a saída do último “carcamano sul-africano-racista” do solo pátrio, a 27 de Março de 1976, depois da invasão estrangeira que visava inviabilizar a proclamação da independência de Angla pelo MPLA.

No Rangel, dançávamos ao carnaval da vitória com o Grupo Atuzemba, União Estrela do Kaputu (Zona 15), União Mãe Ya Ndengue, Andorinhas, União Povo do Rangel, União Juventude, e tantos outros que animavam o município inteiro, antes e nos dias do desfile. Agradava-me assistir aos ensaios e ver aquela gente alegre. Alegria espontânea e não comprada ou a troco de alguma distinção à marginal. E dançávamos eufóricos ao som da ngoma de lata, reco-reco, pwíta, chocalho, etc. O rei e sua rainha vestiam-se à moda angolana e exibiam coroas feitas a base de ferros recortados e outros metais. Era tudo a base do improviso e da espontaneidade. A criatividade também morava connosco e já se dizia que corria no sangue.

Mas quem mais alegria dava aos munícipes todos, em especial às mamãs peixeiras e outras quitandeiras da praça das Corridas (hoje mais conhecida como praça do Tunga Ngó) e da Praça Nova (defronte a administração comunal do Rangel) e aos meninos e meninas da minha infância “rangelina”, era o Man-Brás, exímio vocalista de carnaval, dançarino e tocador de ngoma e pwita. Man-Brás sofria de algum distúrbio mental que não cheguei a definir e alimentava-se frequentemente de carne que lhe era ofertada pelas kintandeiras que apreciavam os seus toques e retoques de dança carnavalesca.

Depois da exibição, perguntava sempre: - Há uma gordurinha? - O homem referia-se a miudezas que voluntariamente lhe eram ofertadas.

Seguindo o som do seu batuque, muitas crianças chegavam a se perder, dando lugar a outro tocar de lata, desta vez, por parte das famílias cujos petizes se perdiam no rasto da ngoma do Man-Braz que continua o seu percurso.

- Nanyi wa ngi bongela kamona ka dyal'ê?! (Quem terá encontrado uma criança de sexo masculino?!)

Fruto disso, muitas mães preferiam mandar parar o Mam-Brás e tocar por alguns minutos à porta de casa, oferecendo-lhe depois aquilo que houvesse. Assim, as crianças deixavam de o acompanhar. Mas não era a mesma coisa ver o Mam-Braz tocar à porta de nossa casa e vê-lo exibir-se em rua livre ou na Praça das Corridas.

Mam-Brás foi um feitor e zelador do nosso carnaval de bairro. Carnaval alegre, sem preço, sem patrocínios, sem contrapartidas e que não era encomendado por ninguém. Man-Brás corporizava essa alegria de quem estava e sentia-se livre na sua terra.

O Man-Brás vivia na Rua Pernanbuco, também conhecida nos últimos tempos por rua do “ti Avelino dos Santos”. Pernambuco, a Joana, era uma exímia dançarina cuja história não me atrevo relatar por falta e precisão de dados. Mas que foi tão boa a dançar ao ponto de ganhar o nome de uma das ruas do Rangel, isso ela foi.
Apesar de sofrer de distúrbio mental, Man-Brás tinha o reconhecimento e respeito de todos. Era prendado pelas mamãs que gostavam do som do seu tambor, da voz do seu canto e dos toques da sua dança, quer na rua ou nos mercados onde preferencialmente se fazia exibir. Nada cobrava. Apenas recebia o que lhe era dado de oferta no momento da exibição e fazendo do seu carnaval, sem época, o seu ganha-pão.

Man-Brás que, ainda faz ecoar no meu ouvido a nossa alegria de criança esboçada com o refrão: Man-Bragéé-é, Man-Bragéé-é! é o meu homenageado neste carnaval de 2014, cujo vencedor, em Luanda foi o União Sagrada Esperança do Rangel que homenageou os traços identitários da cidade capital angolana.

Que o próximo homenageado do carnaval seja o Man-Bragéé-é, Man-Bragéé-é!

sábado, março 01, 2014

CUIDEM DE VÓS E CUIDEM DA VOSSA ALDEIA!

- Iswaswa mu haxi, ka! (lixo no chão, não! A frase em língua bantu, ucokwe, falada no nordeste de Angola, difundida por colunas altifalantes vai ecoar por muito tempo naquela aldeia e redondezas, pois o público alvo foi, maioritariamente, crianças e adolescentes que tiveram um sábado diferente, no primeiro dia de Marco de 2014.
Saypupu é uma aldeola que fica há 34 km de Saurimo, a capital da província angolana da Lunda Sul. É o aglomerado populacional mais próximo da vila mineira de Catoca que se ergue, com a actual configuração, desde 1995. Apesar de no tempo pré-independência se ter feito exploração diamantífera residual na actual mina de Catoca, a comunidade de Saypupu é preexistente à exploração mecanizada do kimberlito de Catoca que dá nome à maior diamantífera angolana.
São pouco mais de 50 famílias que vivem da agricultura de subsistência, caça e pesca. A fauna e os recursos piscatórios são abundantes, mas o crescimento populacional, fruto, em parte, da melhoria das condições sanitárias faz da comunidade uma das mais carenciadas.
Quem vai a Saypupu não precisa de inquirir os aldeões para notar que há uma taxa de fecundidade e de natalidade elevada. Todas as senhoras apresentam-se com crianças ao colo, sendo que a maternidade começa na adolescência.

Segunda é uma das mães de Saypupu. Dança embriagada com a filha às costas. A menina, com um ano e meio de vida aproximadamente, está acometida de um furúnculo na genitália. A mãe, há pouco saída da adolescência, mostra-se menos preocupada com o que se passa com a filha. Ensaia toques de cyanda, a dança local, ao som alto espalhado  por colunas montadas a propósito da campanha de sensibilização sobre as doenças provocadas pelo lixo nas comunidades. Segunda dança. Nas costas, a criança geme de dor.
- Tenho 20 anos e sou mãe de cinco filhos. – Disse quando perguntada por uma das minhas colegas que comigo foi à campanha de recolha de resíduos sólidos e sensibilização sobre os perigos do mau manuseamento do lixo.
Puxei pela cabeça para compreender com quantos anos Segunda se tornou primípara e qual tem sido o espaçamento entre os filhos. O meu esforço só teria compensação se a voltasse a perguntar, algo que achei deselegante e incómodo. Preferi ficar à fala com os meus botões.
Como Segunda, há outras senhoras que dançam ao som da cyanda e do ku duro. Outras mulheres que se tornaram mães precoces e que estão divididas entre recuperar a mocidade  adiada e a maternidade exigente. O álcool, consentido pelos maridos, torna-se o refúgios para uns e para outros.
Mais despreocupados estão as “ana jo” (crianças). Prestam atenção às explicações dos palestrantes, acompanham os visitantes voluntários na campanha de limpeza da aldeia, seguem os passos, conversam e também dançam. Dançam a tradicional cyanda e dançam também o “do cotovelo”. Dançam alegres, despreocupadas e inovadoras como as outras crianças das médias e grandes cidades iluminadas e inundadas de veículos automóveis e salões para festas. Aqui não. A sombra de duas mangueiras gémeas é o salão. A picada que recorta a aldeia em dois blocos é riscada pelas rodas estreitas das motorizadas. As crianças falam português, a língua da escola, mas é em ucokwe que todos mais se entendem. Por isso, o discurso é bilingue para que todos percebam o que se pensa e o que se diz.
- Há água potável que sai da vizinha vila mineira, mas falta ainda a energia eléctrica pública e um centro hospitalar. Faltam também os mosquiteiros. - Apelou o secretário da aldeia, sempre atento aos sinais do soba, o seu chefe.
Ouvimos os recados transmitidos de forma implícita e explicita. A responsável pala área social da empresa explicou os esforços que o Governo e  a companhia fazem junto das populações para inverter o quadro.

- Sabemos que as aldeias à volta da nossa empresa têm muitas necessidades. Entendemos as vossas reclamações, mas temos de lutar juntos. Não é possível colocar tudo o que pretendem em aldeias muito dispersas e pouco habitadas. É preciso juntar as aldeias para que um único posto médico, uma escola, um fontanário ou um Centro Infantil possam atender muitas pessoas. Há um projecto de unificação das aldeias que o Governo e nossa empresa já apresentaram aos sobas. Precisamos do apoio dos sobas e das populações para realizarmos este projecto que nos vai facilitar a todos. – Concluiu, agradecendo e apelando ao início da campanha.
Vassouras, pás, sacos de plástico, tambores e baldes para o depósito de lixo. Antes a distribuição de luvas de borracha. Todos. Quase todos, com excepção do soba que não vi participar da campanha de limpeza. A equipa visitante tinha de tudo: cronista, fotógrafo, camarógrafo, desportistas, assistente social, avaliador de diamantes, enfermeira, funcionários administrativos, técnicos de segurança laboral e segurança patrimonial, engenheiros, tradutores, etc. Uma equipa recheada. Os aldeões também eram muitos, embora as crianças, adolescentes e alguns jovens se tivessem  destacado. A maioria dos pais e as mamãs de Saypupu continuaram na sobra das mangueiras,  dançando ou se dirigiram aos seus aposentos, assistindo, na sombra, a recolha dos resíduos que eles mesmo espalharam.
Hora e meia ou duas de labuta intensa: desenterrar, resgatar entre o capim, recolher plásticos, vidros, tecidos, pilhas e outros resíduos que são, geralmente, arrastados pelas águas pluviais até ao rio que serve de fonte de abastecimento para a vila mineira e a aldeia.
Quando o sol se mostrava mais forte do que os homens acossados pela sede e pela fome, a música que sempre acompanhou os obreiros cedeu lugar à voz falada ao microfone.
- Vamos lavar as mãos com água e sabão. - Um homem e uma senhora fizeram um coro desafinado, imitando o Pedrito do Bié.
- Se você pegou no lixo, lava as mãos com sabão.
- Se você pegou na areia, lava as mãos com sabão…
- Lava, lava, lava, lava. Com água e sabão!
Apelo feito, apelo cumprido. De repente, uma fila junto à viatura que levava uma pequena cisterna. Todos lavaram as mãos com água e sabão para se refugiarem, posteriormente, à sombra das mangueiras gémeas onde a música e a dança prosseguiam.
Aos trabalhadores foi servida água mineral, leite de soja e pães. Os que não trabalharam também se meteram na fila e todos comungaram daquele pão e leite de soja. A festa tornou-se geral.
- Iswaswa mu haxi, ka! (lixo no chão, não! - Voltava a apelar-se, ante a existência de garrafas e plásticos em área já limpa. Mais uma recolha e outros apelos.
- Iswaswa mu haxi, ka!
Quando o roncar do estômago e a dureza do sol celebraram casamento, expulsando os visitantes, não restou outra solução senão o "até breve"!
Os tambores ficam para depositarem o lixo caseiro. O carro virá recolher uma vez por semana. Cuidem de vós, cuidem da vossa aldeia e lembrem-se sempre:
- Iswaswa mu haxi, ka!

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

ALÔ, SENHOR DEPUTADO, GRAFIA DAS CIDADES VAI AO PARLAMENTO

Acabo de ler no jornal de Angola (edição de 26 de Fev. 2014) que o Ministério da Administração do Território vai levar ao Parlamento, para debate e provável aprovação, uma proposta de Projecto de Lei sobre as denominações das províncias, localidades e municípios do país que está a ser preparada.
Lê-se na notícia que Bornito de Sousa, o Ministro, falava durante um encontro com jornalistas e esclareceu que o seu Ministério vai adoptar novas grafias para algumas províncias, tendo exemplificado a retirada da letra “k” e a introdução do “c”.
O Ministro informou ainda, cito o Jornal de Angola, que os topónimos para as comunas, municípios e localidades “têm como base a grafia em português, a língua oficial”.
Uma fonte conhecedora do assunto escreveu (F.B., 26.02.2014) que o que o MAT orientou aos media para aplicação rigorosa é “uma Portaria de 1971, de 12 de Fevereiro, sobre a Divisão Administrativa e Toponímia da então Província Ultramarina de Angola, a fim de buscar uma harmonização da grafia”, sendo que, segundo ainda a mesma fonte, “o MAT está a querer ser apenas rigoroso e agir em conformidade com o que está legislado”.
Na busca de uma Lei nova que esteja adequada com a nossa realidade actual, com a nossa cultura, segue a fonte, o MAT está a preparar o projecto de Lei sobre a Toponímia que será trazida a debate público para as contribuições de todos e, desta forma, em conjunto, encontrar-se a melhor solução para este problema.
Três  perguntas:
- Por que foi “impingida” aos órgãos da comunicação social a aplicação rigorosa de uma lei de 1971 que corrige para pior determinados topónimos surgidos ou já rectificados no pós-independência? Coloco aqui o exemplo do Kuando Kubango e Kwanzas Norte e Sul.
- Afinal de contas, que documento o MAT pretende levar ao poder legislativo? O projecto de lei ainda desconhecido ou a Portaria de 1971 que não admite a utilização das letras K, W e Y (constantes dos alfabetos convencionados pelo nosso Governo através da Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República)?
- Na eventualidade de se pretender levar ao Parlamento ou a uma consulta mais alargada uma nova proposta de lei, com que contribuições, dos mais distintos círculos da sociedade angolana, conta o MAT na fase de elaboração do documento?
Pedido aos ilustres representantes do povo à Assembleia Nacional
 Senhor Deputado, a grafia das cidades vai ao parlamento. A decisão está no seu voto.
Kumbi lyu tunga zemba lyu xika mwixi! (O dia de construir o palácio é o de assobiar!). Não se pode perder uma oportunidade singular.
 Se você é um deputado defensor dos valores africanos de origem bantu, defensor das nossas origens, da grafia dos nossos nomes de acordo aos significados que encerram e a nossa identidade cultural, sei que vai votar CERTO.
 Basta reflectir no seguinte: o nosso maior rio de Angola que dá nome à nossa moeda deve escrever-se com CU ou com KW?
·      Espero que até à chegada da proposta de lei ao poder legislativo, os representantes do povo consultem sociólogos, linguistas, antropólogos e historiadores, para que o trabalho de casa esteja feito. Que os deputados da maioria e da minoria não cumpram apenas a "disciplina Partidária”. Estudem o assunto, busquem consultoria, façam o “dever de casa” e votem em consciência representando os vossos eleitores.
Até lá, até que se esclareça se o que vai ao Parlamento é a Portaria de 1971 ou uma Nova Lei, espero que consigamos (opinion makers) influenciar os Governantes e Legisladores, discutindo e opinando de forma aberta, alargada e desapaixonada. Vamos buscar consensos. Vamos buscar posições que não nos levem a mudar de leis quando um dia vierem outros homens a governar Angola. O Partido pode ser o mesmo mas os homens e as mentalidades, tenho certeza,  serão diferentes.
Seja o que for e venha o que vier. É preciso investigar, idoneamente! 

 

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

A "GUERRA" DOS TOPÓNIMOS: FINALMENTE UM PASSO

O aeroporto do Namibe deixou de se chamar Yuri Gagarin e foi rebaptizado com o nome de Welwitchia Mirabilis. Em rigor, apenas homenageou-se um austríaco em vez dum russo, pois a  planta que existe no deserto já era designada pelos nativos por ntumbo, tendo sido cadastrada pelo botânico Fredrich Welwitch com a designação de Tumboa. Apenas depois da sua morte, e em sua homenagem, a planta rara ganhou o nome actual  (Reginaldo Silva, fb, 13.02.2014).

Apesar de se ter apenas mudado o nome de um russo para um austríaco, tomei nota, com bastante agrado essa evolução no pensamento político-cultural dos governantes angolano. Chego à conclusão de que, afinal de contas, sempre será possível rebaptizar os topónimos angolanos de origem bantu, atribuídos e registados, muitos de forma errónea e ao acaso,  pelos portugueses. Para os povos  bantu, cada substantivo/nome encerra um significado. E mais, o CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu), e mesmo as autoridades angolanas (Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República) convencionaram alfabetos para as nossas línguas, devendo a redacção dos topónimos e antropónimos bantu obedecer a estas convenções.

Continuo a considerar que os topónimos angolanos cujos registos não correspondem à redacção correcta, nem ao significado que encerram devem seguir o “caminho do aeroporto do Namibe”, ou seja rebaptizados e registados.
O estudo da Direcção Nacional de Organização do Território, Ministério da Administração do Território, sobre Divisão Política-Administrativa e Toponímia de Angola apenas ganha os meus elogios por ter enumerado e codificado as províncias, os municípios e as comunas do país, sendo necessário também serem “provisoriamente” nomeados. Dada a ausência de um estudo e discussão abrangentes sobre a redacção exacta dos topónimos de origem bantu, obedeceu-se apenas, neste caso, às designações da administração colonial.
Com todo o respeito que me reservam os responsáveis do MAT, com quem tenho uma comunicação aceitável, não me revejo na obrigatoriedade dos media angolanos adoptarem essa redacção colonial como se o “documento em construção”  tivesse força de lei.
Haverá incapacidade, de nossa parte, para se fazer um estudo etimológico dos nomes bantu da nossa toponímia? Reitero. Não aceito que a nossa moeda, de que todos nos orgulhamos, o Kwanza, seja grafado com KW e o rio de quem ganha o nome seja CU.
À semelhança do aeroporto Yuri Gagarin, que passou a chamar-se Welwitchia Mirabilis , espero que as províncias que ladeiam o rio Kwanza sejam grafadas como deve ser ou que a nossa moeda se escreva Cuanza em vez do habitual Kwanza.
Que a capital da Lunda Sul seja Sawlimbo e que a província do sudeste de Angola seja Kwando-Kubango e a sua capital Vunonge.
Que um dos municípios do Wambu (Huambo) seja Cikala Co Lohanga e que a antiga cidade de Silva Porto seja escrita Kwitu-Vye…
Pode ser que o tempo me derrote, mas não custa nada debater e buscar consensos alargados. O país, a sua história e futuro, a todos diz respeito.