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sábado, junho 02, 2007

LÁZAROS DA CIDADE E DA SOCIEDADE

Ocorreu-me hoje reflectir convosco sobre a história do rico e do pobre Lázaro; uma história famosa e que foi contada por Lucas no capítulo 16 do seu Evangelho: na terra, o pobre Lázaro sofria de fome à porta do rico avarento que nem as migalhas lhe dava. Depois de mortos, Lázaro foi para o céu e o rico para o inferno. Atormentado, o rico pedia socorro e intercedia pela misericórdia do Pai Abraão para que enviasse Lázaro afim de molhar, em água, a ponta do dedo e refrescar-lhe a língua, já que estava "aquecido" pelas chamas.

A resposta de Abraão é sugestiva: "Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida, e Lázaro somente males. Agora ele é consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, entre nós e vós foi estabelecido um grande ABISMO, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão pouco vir daí para junto de nós.)".

Nos Dicionários, a palavra "abismo" tem dois significados: «fosso profundo ou escuro de que se desconhece o fim; disparidade, diferença ou distância extrema entre pessoas ou coisas».

Ora, a história de Lázaro e do rico é sempre antiga e sempre nova, pois as relações entre lázaros e ricos, ainda hoje, são reguladas por uma série de "abismos" que distinguem uns de outros .

No seu livro "África Renascida", Dom Francisco da Matta Mourisca estabelece bem a diferença entre os ricos: há os ricos-ricos, desprendidos, os ricos de facto e de afecto; e os ricos-pobres, os ambiciosos, ou seja, os ricos de facto, mas pobres no afecto. O rico de que nos fala São Lucas é desta estirpe.

Hoje, se olharmos para a sociedade e entrarmos na cidade, facilmente nos damos conta da disparidade, ou seja, dos "abismos" que caracterizam as relações entre os lázaros (e as lazarinas) e os filhos de certos ricos.

Atentem às diferenças:

*Enquanto o filho do rico, além de nascer já rico, recebe brinquedos automáticos; Lázaro beneficia dos serviços de uma parteira do bairro porque nem sempre encontra lugar na maternidade e corre, asvezes, o risco de ser roubado para ser vendido (ou trocado). 2007 registou a história da mãe de um dos Lázaros que teve o bebé nas escadas de uma maternidade por falta de 3 mil kwanzas;

*Enquanto o filho do rico é matriculado no melhor colégio do país ou do estrangeiro, e lida com o computador desde pequeno; Lázaro nunca foi à escola porque a sua casa é na rua onde aprende a roubar e a se defender.;

*Enquanto o filho do rico dorme numa cama confortável, protegida por um mosquiteiro tratado; Lázaro dorme no papelão, ao lado do contentor e lá convive com os mosquitos e baratas com os quais partilha (aliás, disputa) a refeição, que são os restos de comida deitados pela empregada do rico;

*Enquanto o filho do rico foi registado e tem um nome, Lázaro não tem nome: seu nome é Lázaro e é filho de uma mãe ignorante, sofrida e de pais que morreram na guerra ou que o abandonaram no contentor, como se de um "desperdício humano" se tratasse.

*Enquanto o filho do rico tem a formação intelectual e humana asseguradas e, por isso, será um dos futuros líderes da nação com grande cultura, bom comportamento e uma grande reputação social; Lázaro é o futuro líder dos delinquentes, um réu que será vítima do peso da lei e da força da justiça.

Lázaro é um vagabundo, um errante que caminha para o cárcere! Aliás, um dos pontos de encontro entre os dois, é exactamente o tribunal: o filho do rico como Juiz de Direito e Lázaro como réu delinquente, esfarrapado, humilhado e abandonado; coisificado, banalizado e maltratado...

Estes são alguns dos "abismos" que, ainda hoje, regulam a convivência entre filhos de "ricos pobres" e os lázaros, vítimas do "empobrecimento da cidade e da sociedade".

POR ANTÓNIO ESTÊVÃO

sábado, maio 26, 2007

Long life África! LONG LIFE CANHANGA!


Eu e África há 32 anos juntos nessas comemorações.



Não era ainda, eu, sequer projecto, quando líderes africanos se reuniram em Adis-A-Beba para constituir a Organização de Unidade Africana OUA, aos 25 de Maio de 1963.

Quis porém o destino que 11 anos mais tarde eu fosse trazido à luz e com o meu continente comemorar a data no mesmo dia.

Volvidos agora que foram 33 anos desde o meu surgimento, três festas me foram brindadas. A minha com os colegas e amigos de serviço, aqui em Catoca, a das minhas famílias na metrópole (Luanda) e a geral, a festa do Continente.

Long life África!
Long Life Canhanga!

sexta-feira, maio 11, 2007

NASCEU O SOBERANO!

As 5h05 do dia 11 de Maio/07 recebi a notícia sobre o nascimento do meu mais novo filho. Chamem-no por Soberano Elsiano Francisco Canhanga.

Repousa neste momento junto a mãe na Clínica Espírito Santo em Luanda, na rua da Liberdade (Vila Alice).


Um à parte à "avó" Vitina e à madrinha Lami: liguem 912337570, o telefone dele. A mãe responderá por ele.


Aos demais: Contactem o pai ou a mãe nos terminais já conhecidos.

Os melhores votos,
Soberano Canhanga (pai)

segunda-feira, maio 07, 2007

OUTROS TEMPOS VIII


“Na Namíbia, na Rodésia e na África do Sul está a continuidade da nossa Luta”. Valeu o Slogan de A. Neto.

Primeiro o Zimbabue conseguiu a sua independência em 1980. Já não estava vivo o Cda. Neto.

Depois, a Namíbia em Março de 1990, também se livrou da África do Sul que viria a assistir, quatro anos mais tarde, a queda do regime de segregação racial.

Valeu Kota manguxi, mas,

-Que tal dos Congos?

Soberano Canhanga

sábado, maio 05, 2007

SAURIMO: PRIMEIROS PASSOS PARA DESENVOLVIMENTO

Se a guerra e o isolamento por ela provocado justificavam o atraso no desenvolvimento da Lunda Sul em geral e da cidade de Saurimo em particular, o mesmo já não se pode dizer agora com a paz reinante no pais. É grande o impulso económico que se espera do arranque da barragem hidro-eléctrica de Chicapa aprazada para o Junho, o mais tardar.

Fruto da implementação pelo governo local do Programa de Oferta e melhoria de serviços sociais Básicos à População e do empenho de empresários que actuam na região, a Lunda Sul é hoje uma província que pode ombrear com as demais no que toca aos desafios para o desenvolvimento.


A título de exemplo a Transportadora aérea nacional, TAAG, retomou quarta-feira dia 18, as suas carreiras regulares para Saurimo depois de mais de dez anos de paralisação motivada pelo mau estar da pista que já recebeu trabalhos de melhoria. Ao longo da semana cinco carreiras vão fazer a rota Luanda/Saurimo/Luanda fazendo concorrência a Air gemini, única que voava para Capital da Lunda Sul.
No que toca à indústria, novos passos começam a ser dados.

A firma Lumege inicia ainda este ano a construção, em Saurimo, de uma fábrica de cerveja e água mineral, fruto de um financiamento de quatro milhões de dólares norte-americanos disponibilizados por um sindicato dos bancos de Poupança e Crédito (BPC), Comercial Angolano (BCA) e de Comércio e Indústria (BCI) rubricado há dias em Saurimo entre as partes. Mais de cem empregos directos podem ser criados com a instalação da fábrica.


Outros desenvolvimentos ganha também o sector de Hotelaria e turismo. Na cidade o Hotel Luachimo (na foto) ganha novo rosto com a aplicação de Dez milhões de dólares norte-americanos disponibilizados pelo Banco de Poupança e Crédito (BPC) ao grupo Chicoil para a sua reconstrução em 12 meses podendo proporcionar outra centena de empregos aos saurimuenses e não só.

Ainda em Saurimo outras infraestruturas hoteleiras ganham corpo numa cidade que não possui sequer um hotel ou mesmo pensão de referência há mais de 20 anos.

A pouco menos de dez quilómetros da cidade de Saurimo, no Luari, cresce o complexo hoteleiro Txisseque que para além de uma esplanada e casas de repouso vai contar ainda este ano com uma pousada já em construção.
São os passos tendentes ao desenvolvimento de Saurimo, que no dizer dos seus habitantes pode ser uma terra ideal para se viver.


Soberano Canhanga

quarta-feira, maio 02, 2007

SAUDADES DOS FEITOS E DOS OUVINTES


Apenas estas palavras (do título) para traduzir o que me vem na alma e aquilo que tenho ouvido de ouvintes (ex-ouvites) e amigos dos tempos em que militei na LAC de Janeiro de 1997 a Março de 2006.

Foram Nove anos que deram muita experiência a que foi apelidado de “o bombeiro”, -uma espécie de pau para tudo que fosse obra. E foi o “bombeirismo” que me tornou homem.

“Dicas da cidade” foi o programa em que nos iniciamos na comunicação estereofónica.

Leda Cristóvão, Stella Marisa, Marlene Pinto (Amaro), José de Assunção, Rossana Miranda, Paulo Muhongo, Francisca Pacavira, Antónia Bartolomeu, Agostinho dos Santos, Isaac António, entre outros nomes que ficaram menos tempo, foram os meus companheiros de partida. Constei dos seis que foram cooptados para estagiar na redacção de notícias no segundo turno, juntamente com o Assunção e o Paulo. Em 1997 era editor do turno, 9h00/12h30, o Mário Inácio.

Lembro-me, como hoje, dos berros que "nos passava" e do calor que o inundava na hora da edição do noticiário.

Na rádio, acolhida por contentores, me fui afirmando, aos poucos, é claro. De início apenas a redacção e depois, também a locução, alimentando as “Frentes Informativas” e depois o “Giramundo” e os noticiários das 9h e 12 horas, sem me esquecer daquele que foi o meu forte, a reportagem, de que guardo grandes lembranças e saudades.

E se tudo o tempo levar, não me esquecerei das condolências escritas por políticos para lamentar a morte que não me levou em Junho de 2005.

Grandes amigos, os políticos!

Luciano Canhanga

terça-feira, abril 24, 2007

EM DEFESA DA MULHER ADÚLTERA: Estratégias de um advogado!

Depois de muita insistência do Jornalista Luciano Canhanga, teimoso e de OLHO sempre ATENTO, decidi partilhar convosco a minha reflexão a respeito da estratégia de um Advogado que vocês conhecem bem; e que veio em defesa da mulher adúltera. A história é famosa e sobejamente conhecida: Jo 8, 1-11.

Com efeito, a Lei de Moisés recomendava que toda a mulher apanhada a cometer adultério devia ser apedrejada. Ora, aquela mana apanhada em flagrante foi trazida diante de Jesus para o castigo preceituado pela Lei. «De acordo com a Lei de Moisés, esta mulher devia ser apedrejada», sentenciaram, os Fariseus e Escribas a espera que Jesus ratificasse a famosa prescrição!...Até aqui, tudo bem. Só que, depois, o Advogado da adúltera entrou em cena. Sigam o meu raciocínio e atentem à estratégia de Jesus Cristo:

1. Reparai que, com essa história, os Fariseus e os Escribas quiseram colocar Jesus entre a espada e a parede. Eis o grande dilema: Se Jesus dissesse que a mulher poderia ser apedrejada, como perceber a doutrina sobre o Amor ao Próximo que Jesus vinha pregando? Se pedisse que a mulher não fosse apedrejada, os Escribas e Fariseus acusariam Jesus de violar a Lei de Moisés. Foi nesta altura que o Advogado deu a famosa resposta que desconcertou e atrapalhou os juízes: «Quem nunca pecou -disse Jesus- que seja o primeiro a atirar a pedra!». Pois, é! E agora?...

2. Na verdade, o Único a atirar a pedra, seria o próprio Jesus Cristo já que, como sabemos, “nunca cometeu pecado algum”;

3. Quando Jesus disse que quem não tivesse pecado, fosse o primeiro a atirar a pedra, os juízes que montaram o tribunal, passaram a réus! É que depois de um rápido exame de consciência, os homens decidiram retirar-se um por um a começar pelo mais velho (se calhar, é o que mais pecados tinha!), deixando a pobre mulher com o seu Advogado!

4. Com o tribunal em debandada (porque os juízes passaram a réus em fuga), o Advogado Jesus teve Ele mesmo de pronunciar a sentença, depois de um diálogo com a sua “cliente” de ocasião!

5. No novo diálogo com a mulher, Jesus não aprova o pecado por ela cometido; mas manda-a para casa com fortes recomendações de nunca mais tornar a pecar...Eis, um Advogado que veio condenar não o pecador, mas o pecado, ao contrário do que era comum na cultura judaica.

6. Mais ainda: a cultura judaica era profundamente machista. Ora bem: não tendo a mulher cometido adultério sozinha, onde esteve o homem que com ela cometeu tal pecado? Sabemos que, de acordo com a mesma Lei, o homem poderia repudiar a sua esposa infiel, ao contrário da mulher que sofria as mais hediondas sevícias: estava-se, como era óbvio, diante de uma lei opressora, que violava os Direitos Humanos e a dignidade da mulher...

No seu livro “África Renascida”, Dom Francisco da Matta Mourisca diz que as mulheres pecadoras eram desprezadas até por aqueles que as prostituíam, a exemplo da Mulher Adúltera, imortalizada nas páginas do Evangelho. Ora, dizia o Bispo do Uíje, «o único homem que podia atirar pedras à mulher, porque não tinha pecado, foi o único que a salvou das pedras- o próprio Jesus. Retrato comovente da figura de Cristo, que veio salvar o que estava perdido: não só o homem senão também a mulher».


Por Pê. António Estévão


sexta-feira, abril 20, 2007

IMAGENS DE LUANDA

A ferocidade da vida caminha a passos largos com a pobreza. São visíveis a olho nu, nas ruas de Luanda, nas paragens de candongueiros, nos autocarros e nas longas filas de marchantes imagens que nos lembram filas intermináveis de contratados e escravos do sertão ao embarcadouro.

Escravos sim. Duma vida que vê degradados os seus valores mais elementares como o humanismo, a solidariedade e o amor ao próximo. Apenas de forma isolada nos “surpreendemos” com gestos amistosos de quem deixa a cadeira para um idoso, a uma mulher grávida ou com criança ao colo, ou ainda o apaziguamento de uma contenda.

Acabei de ver um sujeito das FAA a esmurrar em plena luz e sem causa aparente um jovem que por sinal até se dirigia à oficina em que trabalhava. Motivo: Escorregou na lama que encobria o asfalto e tocou-lhe na farda.

Desumanamente todos passamos. Ninguém socorreu o jovem que sangrava nas narinas. Também ninguém repreendeu o sargento.

Soberano Canhanga

quinta-feira, abril 12, 2007

CULTURA COKWE EM SAURIMO

DE PEDRA E CAL
A pouco menos de dez quilómetros da cidade capital da Lunda –sul, Saurimo, está a aldeia do Luari. Entre nativos e deslocados, forçados pela guerra a abandonar as suas comunidades rurais no interior da província, Luari é hoje uma aldeia com mais de duzentas famílias camponesas que tudo fazem para perpetuar a cultura Lunda- Cokwe.

A mandioca, a ginguba (amendoim), o feijão e o milho são as principais culturas, sendo a pesca e a caça actividades complementares à dieta e ao lazer, ao mesmo tempo que se ensaiam outros produtos destinados à venda, como o abacaxi e o abacate, muito procurados pelas empresas que actuam na região.

Junto à aldeia, cresce um complexo turístico - Ciseke - que conta com uma esplanada e casas de campo, estando em construção um motel.

Informações recebidas no local dão conta que os antigos moradores de um ex-internato, em escombros, e os das casas vizinhas, serão deslocados, para dar lugar à construção de um motel, valorizando a área envolvente a uma atractiva lagoa natural .

“Já nos disseram que o Mwata comprou mais de três mil chapas de zinco para cobrir as nossas casas e também vamos poder trabalhar aqui mesmo quando ele precisar", referiu-nos um ancião, contactado no local,tendo-se escusado a apontar o nome do empreendedor e sequer o seu .

Fontes anónimas atribuem o empreendimento Txisseque ao actual Governador, Miji Itengo, tendo no âmbito da responsabilidade social da sua empresa, já erguido um estabelecimento escolar na comunidade .

Dia após dia a comunidade do Luari assiste à mudança para melhor do ambiente circundante adivinhando-se até dias ainda mais prósperos, já que "há empregos à vista”. Entretanto, o que não sofre alteração, mesmo sob a pressão da aculturação, é o modo de vida do seu povo. A principal referencia é o ritual da festa de iniciação, masculina e feminina - Mukanda wa Kandandji e Mukanda wa Pwo - que vêem sendo passados de geração em geração.

“Estar no Luari é estar com a nossa cultura”, afirmou Pedro Sacahumba, secretário do bairro.

Ritos como o Mukixe e o Kandangi (máscaras) e Cianda (dança tradicional), entre outros, são ensaiados de forma organizada e pedagógica, pela sociedade que pensa deste modo perpetuar os valores característicos à peculiaridade da sua cultura.

Crianças, ainda de tenra idade, ensaiam diligentemente os passos das danças e rituais que conferem original singularidade à sua cultura.

“Assim como fazem os nossos pais, nós também estamos a aprender para depois ensinar aos mais pequenos", confidenciou-nos Fernando Nuati, um adolescente que fazia o papel de comandante de dança Muquixe, rigorosamente mascarado .

Para Avelino Carlos - Muanga-saia - líder musical dos Astros da Lunda-sul “apesar da influência de outras culturas divulgadas pela televisão, a cultura Cokwe está intacta e como a aprendizagem acontece sempre na comunidade com os mais velhos não há nada que a afecta”. Disse acrescentando que tem sido função dos mais velhos, esmerarem-se na forma como acompanham a continuidade na execução dos ritos e máscaras pelos mais novos, preservando a sua pureza e integridade.

“Até agora continuamos a fazer a circuncisão que demora seis meses a um ano. As meninas também têm um ritual parecido e é aqui que se passam todos os valores". Concluiu.

Segundo, Ana C. G. Marques*, "entre os cokwe, as máscaras não são um disfarce mas sim uma instituição que contribui para a perpetuação das diligências sociais e Culturais, um veiculo de transmissão do conhecimento colectivo, a negociação das magnas preocupações e aspirações humanas. Através dela celebram-se a esposa, a irmã e a mãe, declarando-se a autoridade e o papel moderador da mulher na sociedade.

Mwana pwo é uma máscara confeccionada em madeira para a realização de rituais de passagem da puberdade. Na sociedade tradicional cokwe, a comunidade junta-se no centro da aldeia para assistir à mascara mwana pwo dançar, ela representa o ancestral feminino. A seu lado as mulheres aprendem as boas maneiras, os princípios éticos e a solenidade com que se devem impor na sociedade".

A sociedade cokwe sempre preservou a consciência colectiva da sua identidade histórico-cultural, através dos seus mitos de origens e de outras marcas culturais.

*(MARQUES, A.C. Guerra, http://tucokwe.org, acesso e correcção aos 26.06.2009)
Luciano Canhanga (licenciando em Ensino da História pelo ISCED/Luanda)

terça-feira, abril 10, 2007

MEMÓRIAS DO LUENA E DA PAZ

No Moxico após a Morte de Savimbi
Tarde de 22 de Fevereiro de 2002. Trabalho à tarde na LAC e peço a Editora Paula Simons que me dispense para resolver um assunto doméstico a partir das 17 horas. Assim acontece. Rumo ao Rangel e depois ao bairro da Cuca com o João Manuel. Deslocamo-nos à casa do Aires, sobrinho dele e agora meu afilhado. Não o tendo encontrado decidimos procurar o Zé Ndonga que tinha ido ver a namorada no Tala Hadi.

Pelo caminho recitamos uma antiga propaganda radiofónica cantada em Umbundo. “Ove a Savimbi etaly tua ku kuata…” continuando com o “Agarra Savimbi, Kuata… agarra…” Era tão alto o sentimento de insatisfação pela guerra que o homem levava a cabo com queima de comboio à mistura.

De repente ouvem-se tiros vindos de todos os lados. Tentamos procurar refúgio e não havia. Multidões invadiam os candongueiros no Zamba I para se esconder dos tiros. Era hora do Angola no Coração, programa da RNA que sucedeu ao Angola Combatente. Não tardou a notícia e o delírio. É Savimbi… O Savimbi morreu! Festa total em Luanda.

O percurso ao Tala Hadi e depois ao Rangel foram feitos em táxis mas sob fortes disparos anárquicos que foram travados com apelos na rádio. Festa sim, mas aos tiros não. O povo estava eufórico e mesmo assim pouquíssimos foram à cadeia.
Ida ao Luena
Uma semana mais tarde sou apontado pelo Editor-Chefe da LAC, Ismael Mateus e pela Editora da Manhã, Paula Simons, para ir ao Luena, capital do Moxico, ver como estava a situação humanitária das centenas de milhares de pessoas que vinham das matas. Homens, mulheres e crianças que viveram à sobra da UNITA e de Savimbi e que voltavam à cidade, muitos pela primeira vez, desprovidos de tudo. Em Luanda havia uma outra UNITA, a Renovada que lutava pelo controlo efectivo do partido mas sem arcaboiço, já que a praxis dita que a paz militar faz-se com os feitores da guerra.

Ao Luena chegavam todos os dias mais de mil indivíduos desprovidos de tudo. Piolhentos, (até Lukamba Gato, secretário-geral da UNITA de então, estava igualmente roto e desnutrido), esfarrapados, diarreicos, enfim. Clima desolador e constrangedor para um ser humano. Foram estas as imagens que reportei, alojado em casa de uns amigos do PAM que arranjei no local. Aliás a boleia ao Moxico foi num avião ligeiro do PAM.

Nas matas, e com Savimbi morto, decorriam os contactos exploratórios entre as FAA que tinham um Estado-Maior avançado no Luena e os sobreviventes militares das colunas rebeldes em que despontavam Abreu Kamorteiro e Gato. Nessa altura a TPA mostra imagens do primeiro encontro entre oficiais superiores da Forças armadas angolanas e Kamorteiro, chefe de estado-maior das forças militares da Unita, a que se seguiu um outro encontro com participação de Lukamba Gato. Um Gato cabeludo e piolhento que falava a um telefone IRIDIUM que lhe tinha sido emprestado por uma alta patente das FAA.

As imagens sonoras emitidas, a partir do Luena, proporcionaram-me conhecimentos sobre a situação dos que vinham das matas, a quantidade de pessoas que viviam à sombra do líder rebelde, como também me conferiram alguma respeitabilidade entre os colegas de redacção, chefias e outros jornalistas. Não eram tantos os jornalistas que tinham tido a minha experiência recente.

Cobertura das negociações FAA/FMUnita
Um mês depois da morte de Savimbi as “negociações” passaram das matas para a cidade do Luena. Algumas roupas usadas (de fardo) foram oferecidas de emergência aos líderes da UNITA provenientes do “Maquis” como Marcial Dachala, Alcides Sakala Simões, Lukamba Gato (secretário-geral), os generais Wambo Kalunga, Samuel Chiwale, Black Power (João Baptista Tchindadi), entre outros, todos rotos e desnutridos. Bem nutrido estava apenas o general Apolo que comandara a frente norte (Bengo, Uige) e tido como o autor do ataque ao Comboio no Zenza do Itombe.

Foi este o clima que encontrei. Uma carta de recomendação do Director de Informação José Rodrigues ao general Nunda, Chefe de Estado-Maior adjunto das FAA para que me fosse dado “apoio informativo”, enquanto fonte. As conferências de imprensa aconteciam na sede do Governo Provincial, porém as “negociações” entre as partes aconteciam no Estado-Maior avançado das FAA, onde ninguém da imprensa tinha acesso, embora se passassem a imagens de que era tudo no governo.
A entrevista com Generais da UNITA
Meio vestidos e meio calçados ou seja, Farda gasta pelas lavagens e caminhadas e calçando chinelos num quarto fortemente guarnecido por uma tropa esfarrapada e desabituada ao tratamento cortês citadino, e sob elevados níveis de alcoolémia, foi neste ambiente que conheci o general Kamorteiro, na pensão Horizonte (?) e outros chefes militares da UNITA como Samuel Chiwale, Wambo Kalunga, entre outros a quem pedi uma entrevista que me foi dada no dia seguinte.

O clima parecia ameno, não fossem aqueles miseráveis deslocados que chegavam todos os dias das matas rebentando até às costuras uma cidade de si já empobrecida.
Naqueles dias de fome para milhares já Kamorteiro se fazia passear num Jeep Hiunday Santa fé entregando-se apaixonadamente ao Wisky e sempre com um filho menor ao lado. Dias depois, numa hora seis da manhã, viria a partir o carro, embatendo contra uma árvore duma rua larguíssima do Luena. Quanto ao consumo desesperado de álcool, os seus subordinados, também generais, não se deixavam ficar atrás. Ao gargalo e muito Wisky. Foi nesse ambiente que fui recebido num dos quartos da pensão pelos generais Chiwale e Wambo para a primeira entrevista à LAC, dos sobreviventes da coluna. Foi um sucesso em Luanda.

Conselho Nacional da Família
Depois da assinatura do memorando de entendimento entre as partes militares, que já estavam em trégua ordenada pelo governo, inicialmente no Luena e depois, a 4 de Abril na Assembleia nacional em Luanda, Luena tornou-se o centro das atenções dos políticos. Em Maio de 2002 o Ministério da família e Promoção da Mulher decide realizar no Luena o seu Conselho Nacional da família em que participaram representantes de todas as franjas da sociedade. Foi a minha terceira estada, por uma semana, na capital do Moxico, aproveitada para outras reportagens sobre a situação humanitária que continuava preocupante.

As “amizades”
Todo o que se seguiu foi apenas um conhecimento sobre a vida política de então, a UNITA e seus dirigentes bem como os contornos que se seguiram à paz. Assistiu-se à luta pelo poder civil na UNITA entre os partidários de Gato (os da mata) e Manuvakola (os da cidade ou Renovada) com vitória dos da mata e depois a batalha pelo controlo da bancada parlamentar que resultou no afastamento “compulsivo” de Filipe Chimpolo e sua substituição por Gerónimo Wanga, bem como o polémico desvio de milhões de dólares por parte de Lukamba Gato já nas vestes de coordenador da comissão de gestão do partido do galo negro que desembocou numa sindicância.

Os desenvolvimentos seguintes foram os congressos, primeiro da UNITA, depois o do MPLA e mais tarde o da FNLA (o dito da reconciliação, mas marcado por cenas de pancadaria entre partidários de Holden e Ngonda).

A província do Moxico ocupa uma área de 223.033 quilómetros quadrados, a maior do país. Está localizado no centro leste de Angola, fazendo fronteiras, a Norte com a província da Lunda-Sul, a Sul com Kwando Kubango, a Nordeste com a República Democrática do Congo, a Leste e Sudeste com a Zâmbia e a Oeste com a província do Bié. Moxico tem um clima tropical húmido com duas estações principais (chuvosa e seca). O seu subsolo virgem com os seus recursos minerais, tais como: cobre, carvão, manganês, diamantes, urânio, volfrâmio, ferro, estanho e o molibdénio, o mel, a acera e a pesca artesanal. A agricultura, piscicultura, apicultura e a exploração de madeira são potencialidades económicas. A população do Moxico subdivide-se por várias etnias, nomeadamente Luvale, Cokwe, Bundas, Luchazes, Umbundo e Lunda-Dembos. A sua população estima-se em 800.820 mil habitantes. A província controla dois mil e 643 autoridades tradicionais, exercendo as suas actividades em conformidade com a realidade político-administrativa do país.

Soberano Canhanga

segunda-feira, abril 02, 2007

PERGUNTA D'ABRIL: BODAS DE BRONZE VIDA DE BRONZE?

Com pendentes ainda por resolver entre os antigos contendores, Angola assinala no dia 4 de Abril 5 anos da sua mais prolongada paz militar, depois da independência a 11 de Novembro de 1975.

4 de Abril, dia da assinatura do memorando complementar aos acordos de Lusaka (20 de Nov. 1994) foi consagrado à paz e reconciliação nacional.

-Da paz militar à paz social que distância nos falta?
-Bodas de bronze é já vida de bronze?


Soberano Canhanga

quinta-feira, março 15, 2007

UM ANO

Exactamente hoje. Em Catoca, Lunda-Sul, há hora e meia de voo de Luanda, enfrentando a dureza da saudade e da gestão de famílias à distância.
-O que mudou? perguntou-me um amigo ao telefone.
-O relatório ainda está por ser feito. Se calhar, imediatamente ,nada. Mas se acontecer calamidade já há almofada...
-E o filho já colegia? Outra pergunta.
- ... Ainda não, por opção, não por carência...
-E a construção como vai?
-Possa, esses gajos são chatos. Sempre a farfalhar a vida íntima... A casada já vive em casa própria... as condições de vida e habitabilidade vão melhorando.... Tchau. Também mereço dormir!
De repente outros amigos ao vivo.
-E o brinde, meu?

-Epá, tenho óbito. Sobrinho da minha mulher... abram o demi-sec e façam-no por mim...
-E não sais?
-Não. Hoje vou trancar-me e solver a saudade da "metrópole"!


Soberano Canhanga

terça-feira, março 06, 2007

OUTROS TEMPOS VII


“Sul-africano um dia pagará”. Cantamos na infância este refrão. Naqueles tempos da OPA era questão de orgulho cantar… Hoje crescidos esperamos que a canção se torne acção. É possível?

-Quem passa a factura (pelas agressões da África do sul racista a Angola)?

Na foto: Nelson Mandela. Primeiro presidente negro da África do Sul

Soberano Canhanga

quinta-feira, março 01, 2007

PERGUNTA DE MARÇO: QUEM LIXOU QUEM?


Queixam-se frequentemente os políticos angolanos, quando estão com o pé na lama, de estarem a ser "lixados" por uma alma invisível. O Partido maioritário é a palavra mais pronunciada pelos queixosos na intenção fácil de (re) carrilar os seus comboios.

O mês que se fez ao poente trouxe à luz um caso insólito e ainda inesclarecido pela justiça. Trata-se de um alegado cárcere privado ou ocultação de doente em residência particular… Chamemos-lhe os nomes que permitam comunicar… O envolvido, ou pelo menos indiciado, é Ngola Kabango, homem de História e passado conhecidos pelos angolanos … Em sua defesa e em defesa de sua dama, pessoas ligadas a Kabango e algumas à FNLA, partido de que é vice-presidente, soltaram acusações contra tudo e todos que lhes pareceram fantasmas ou no mínimo interessados em quedar o Kabango ao passo que outros dele se demarcaram como se de merda estivesse borrado.

-Mas afinal, quem lixou quem?

-O Kabango ao Benedito ou o fantasma ao Kabango?

-Sairá Kabango limpo desta borrada?

Soberano Canhanga

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

QUARTA-FEIRA SEM CINZAS


Choveu na marginal e as cinzas foram todas levadas de véspera pela chuva vespertina. A marginal do Carnaval foi varrida. Cacuaco novamente isolada de Luanda. Isolada está também a zona sul de Luanda através do bairro da Samba cuja estrada está novamente cortada...

Ai como dói ver casas dançantes ao som da água… E desta vez, pela prima vez, o Carnaval será dançado no Sábado para ser concluído na mesma marginal.

Vamos estender a indumentária e voltar à rua…

Na foto: Ravina causada pela chuva em Saurimo

Soberano Canhanga

sábado, fevereiro 17, 2007

SE ELES PUDESSEM VER E AGIR


QUANTA DOR me provocam as ravinas que comem Saurimo todos os dias a olho nu. Sou forasteiro e novato ainda nesta urbe, mas sinto como se ela fosse já minha.

Sei que bons trabalhos foram, em tempos, efectuados em parte da cidade, mas o mal ainda persiste noutras. À saída para Lucapa a estrada pode ser definitivamente cortada pela fúria da água da chuva. A imagem fala por si. E não fica muito longe da Cidade. São poucos metros do Txicumina, a primeira rotunda que d à cidade.

Entre a cidade e o rio Muangueji as manilhas que escoam as águas duma nascente próxima estão entorpecidas e a corrente passa por cima do já desaparecido asfalto, roendo a plataforma (estrada).

Contam-se estórias de trabalhadores de Catoca que ficaram dois dias sem trabalhar porque no mesmo sitio a chuva tinha sido mais forte do que a reacção dos homens do e com poder.

É certo que a natureza já foi, em tempos, mais forte do que os homens. Hoje, porém, o homem contorna quando quer. Se querer é poder que a canção se torne acção.

Soberano Canhanga

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

OUTROS TEMPOS VI


Cresci recitando slogans como “Ao imperialismo nem um palmo da nossa terra” ou ainda “Reagan tira as mãos de Angola”. Era naquele tempo sinónimo de orgulho gritar aos ventos tais sentimentos e anseios que afinal de contas tomavam conta de muita gente levada pelo “tufão” revolucionário.

Meu espanto foi ver, anos depois, Gente Graúda do Partido/Governo (o mesmo de sempre) a jorrar rios de lágrimas para rogar o nosso reconhecimento (Angola) pelos compatriotas do mesmo “Reagan” amaldiçoado.

E hoje ("Reagan" tira as mãos ou põe o corpo todo a "nosso" convite)?

Soberano Canhanga

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

DE CHORO EM CHORO

Mais de dezasseis mil famílias desabrigadas pela chuva, no leste de Angola, Moxico.

Desta vez foi o rio Zambeze que não aguentou o volume da água, transbordando e afectando as populações ribeirinhas nos municípios do Alto Zambeze e Cazombo.

Milhares de lavras foram arrasadas ou estão submersas. Os especialistas calculam em dois anos o período de fome no Alto Zambeze e Cazombo. A Zâmbia voltou a ser o nosso refúgio numa atura em que os refugiados da guerra ainda estão por voltar...

Em Luanda os governantes calculam os prejuízos provocados pelas últimas enxurradas (apenas 17 e 22 de Janeiro) em 85 milhões de dólares (cerca de sete biliões de kwanzas).

Com particular relevância nas províncias de Luanda, Bengo, Benguela, Bié, Huambo, Huíla, Kwanzas-Norte e Sul, Moxico, Kuando-Kubango, Lunda-Sul e Zaire, a chuva provocou até ao dia 3 de Fevereiro a destruição de 10.353 casas, o desalojamento de 28.531 famílias, o desaparecimento de 10 pessoas, a morte de outras 114 e o desabamento de 38 pontes.

A estes números acrescentam-se ainda 147 escolas destruídas e cinco postos de saúde em escombros, ainda quatro mil hectares de terrenos arrasados e mais de cinco mil lavras submersas. E o Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica promete mais chuva nos próximos dias… Assim vamos de choro em choro.

Soberano Canhanga

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

4 DE FEVEREIRO 46 ANOS: QUE SENTIMENTO?


Contra ventos e marés nossos pais e ou avós bateram-se para começar o protesto violento que levou Angola à Independência em 1975. Não interessam as cores defendidas no caminhar da luta contra a presença colonial portuguesa... Valores, atitudes e esperanças foram alimentados... sobretudo, um futuro risonho para seus filhos e netos... E o mais importante tornou-se, pelo menos foi dito, que seria resolver os problemas do povo.

_Que sentimento estará agora a rodear grande parte dos valorosos combatentes de primeira hora para a libertação de Angola?
_Satisfeitos ou insatisfeitos pelo rumo das coisas?

Na foto: ministros Boaventura Cardoso, Desidério Costa e J.B.Kussúmua, na Lunda Sul 04.01.07

Soberano Canhanga