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sábado, junho 29, 2019

UM OLHAR AO EMPREGO TEMPORÁRIO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

A resolução do problema da falta de emprego, sobretudo para a juventude, é um Grande Desafio para o Presente Executivo, sendo uma questão que depende da combinação de múltiplas variáveis como a promoção do empreendedorismo, aposta na indústria extractiva e de transformação, nos serviços, etc. Para se atingir tal desiderato, acções concretas estão a ser tomadas, de modo a promover o investimento no país, propiciador de postos de trabalho.
A criação de postos de emprego, a meu ver, não deve ser pensada a olhar somente para a Função Pública, de si já muito pesada e lenta. Aliás, ela nem é atractiva do ponto de vista salarial.
No "antigo regime", foram tomadas algumas medidas "paliativa" que reclamam agora por uma solução definitiva e urgente e coerente. Alguns jovens (e nem todos com Conhecimentos Habilidades e Atitude), foram acomodados em algumas instituições públicas para, em tempo determinado por Lei, "realizar trabalho temporário e específico" (pelo menos assim devia ser), nalguns casos, ao arrepio da legislação aplicável, esses cidadãos permaneceram nas instituições mais do que o Decreto Presidencial 104/11 de 23 Maio (Art. 10º) permite.
Não havendo vagas e não podendo as instituições realizar concursos de ingresso, esses cidadãos têm, técnica e juridicamente, os seus contratos findos (são apenas 12 meses não renováveis). Aqui, surge o busílis da questão.
- Como manter em tais nos organismos públicos capital humano não contemplado no fundo salarial da função pública?
- Como manter funcionário sem contratos válidos e sem vínculo permanente com a Administração Pública?
- Que trabalho sazonal e específico é esse (para qual foram contratados) e que perdura, às vezes, mais de cinco anos?
Alguns líderes de instituições que se encontram na situação em narração que tomaram a decisão de dar fim a esses contratos (alguns feitos para mera acomodação de parentes, ressalvando-se alguns excelentes quadros e sem parentela nas instituições contratantes), são tomados como os "maus de uma fita" que há muito vinha riscada de imperfeição/ilegalidade.
A correcção de práticas e procedimentos errados exige coragem e determinação. A chantagem, com supostas cartas a Instâncias Superiores, atirando culpas ou acusando de insensibilidade a quem nada tem a ver com "maracutaias" e pretendendo somente REGULARIZAR o capital humano nas instituições que dirigem, é perpetuar um cancro que pode ser debelado e com menores prejuízos.
O emprego, sobretudo para os jovens, está dificílimo. Disto sei e confirmo. Porém, repito, a solução não passa pelo refúgio ou aglomeração na Função Pública. É preciso olhar para além da ponta do nariz.
É preciso pensar juntos e encontrar soluções definitivas e eficazes. Por mais que haja trabalho por fazer, sem que haja dinheiro, não se fazem contratos e, ao existirem contratos, têm de ser feitos em obediência à lei que contratados e contratantes devem dominar e respeitar.
Sou (ainda) um jovem. Felizmente empregado desde os 22 anos, tendo passagens pelo sector empresarial privado, aliás onde tenho feito o meu percurso profissional. É para lá que devemos mirar.
Ao Estado cabe promover boas políticas que fomentem a produção e o emprego. Não nos devemos envergonhar de trabalhar numa "usina" que obrigue os seus integrantes a usar fato-macaco ou uniforme. O fato e gravata, muito apreciados entre os jovens de hoje, podem esperar por nós quando atingirmos a maturidade técnica e profissional, mais adiante. Há exemplos bastantes de pessoas que começaram a partir caroços e que se tornaram em homens respeitados e gerindo Grandes organizações.
Pensemos também fora de caixa. Quem sabe, assim ajudemos os dirigentes que pretendem corrigir os erros do passado e fazermos de Angola um país onde impere a ordem e a lei?

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 29.11.18

quarta-feira, junho 26, 2019

CONTANDO ESTÓRIAS PARA AJUDAR A CRESCER (III)

 Quando menino, entre 1980-84, passei várias vezes pelo local onde surgiu o conglomerado habitacional de Pedra Escrita (1986_7). Era de imensa vegetação nativa (entre árvores, arbustos e capinzais) que foram desaparecendo aos poucos, fruto da acção humana.

As árvores nativas foram cortadas para "dar lenhas" ou campos agrícolas, sendo que outras não foram plantadas. Hoje, a aldeia e sua envolvente apresentam-se completamente desarborizadas, não abonando a uma vida sadia.
Sempre que nos deslocamos à região, os nossos reparos e sugestões têm sido para, pelo menos, serem plantadas árvores com utilidade alimentícia, cuja acção seria antecedida de campanhas de sensibilização da população (com ênfase nas crianças, adolescentes e jovens) sobre as vantagens (económicas, sanitárias, ambientais, paisagísticas e outras) da arborização.
 
Tal sentimento levou-nos a plantar uma árvore frutícola no acto que marcou aquilo que seria o "lançamento da primeira pedra" para a construção da "biblioteca comunitária" de Pedra Escrita (Libolo, Munenga, EN240).
A cajá-mangueira é uma planta tropical, oriunda do Brasil, e que, com certeza, se vai adpatar às "terras lubolenses".

 Uma das vantagens para se poder desenvolver projectos sustentáveis na aldeia em referência é a receptividade dos aldeões que aspiram pelo crescimento da sua comunidade.
São, por isso, convidados todos quantos possam fazer alguma coisa inovadora na aldeia de Pedra Escrita na região.

terça-feira, junho 25, 2019

CONTANDO ESTÓRIAS PARA AJUDAR A CRESCER (II)



Ainda em meados da primeira década deste século, estávamos, por via da página www.mesumajikuka.blogspot.com, a fazer advocacia para que a aldeia de Pedra Escrita (Libolo, Munenga, EN 240) pudesse ter uma escola e uma Posto Médico. Para o efeito, gritámos alto (escrevendo) e apelamos, inclusive, a ONG como a ACM (liderada pelo Ernesto Cassinda) sem que tivéssemos logrado. Veio a pré-campanha para as eleições e a aldeia (com perto de... mil habitantes) foi inscrita no PIP (Projectos de Investimento Público) municipal, com escola de três salas, um Posto Médico e um fontanário (água não tratada).
Os aldeões contam que "naquele ano, rir era só rir" quando comparada a aldeia a outras que não tinham ganho nenhuma obra.
"As obras começaram juntas, mas só a escola e o chafariz terminaram", conta um dos anciães da aldeia.
A escola foi projectada para três salas de aulas, um gabinete, uma arrecadação e dois lavabos. Porém, não sendo a aldeia autónoma em termos de professores e técnicos de saúde, "demandava uma casa para professores e outra para enfermeiros", tão logo terminassem as obras, conta ainda o interlocutor.
Inaugurada em 2012, deparámo-nos com a falta de material de leitura para os alunos. Procurámos angariar livros, tendo recebido por parte do General Rui Ramos resposta promissora, "desde que a escola tenha espaço para guardar os livros e colocação de mesas e cadeiras".
Vimos que nada disso havia e fomos alimentando a ideia de construirmos (nós mesmos) uma sala para acolher os livros e os leitores e depois pedirmos os livros para as crianças e os adultos letrados que se vão transformando em analfabetos funcionais.
Entre a ideia e o início da sua materialização transcorreu algum tempo, pois a acção envolve dinheiro e uma caminhada (que pode ser) a solo.
Em Maio deste ano (2019), fizemos o anúncio público (Jornal de Angola e Face Book) da decisão de erguer naquela comunidade a "biblioteca comunitária" e já começamos a juntar os blocos, a que seguem a areia e o cimento para o início efectivo da obra. Antes disso, falámos com a comunidade, que acolheu a ideia, e endereçámos ao administrador comunal da Munenga uma carta a formalizar contactos orais. O terreno indicado é o adjacente à escola, devendo a "biblioteca" posicionar-se entre o Posto Médico (inconcluso) e a escola.
O projecto arquitectônico está sob responsabilidade de Mohamed Canhanga (finalista de Arquitectura e dono da Arquitect'Art 97).

Nota-se que a "área nobre" em que foram projectados os equipamentos sociais como escola, Posto Médico, Jango comunitário (também já existente) e fontanário carece de vedação ou delimitação que evitasse a sua ocupação pelos aldeões e consequente subaproveitamento. A invasão (in)voluntária do espaço na "zona nobre" da aldeia levou-nos a encarar alguma dificuldade em "assentar" o projecto da biblioteca já que era intenção do projectista que a biblioteca não prejudique visual e esteticamente o Posto que, ao ser concluído, ficará na parte traseira.

A aldeia de Pedra Escrita (Libolo, Munenga, EN240) clama ainda pela conclusão do Posto Médico, casas para enfermeiros e professores que fizeram dos lavabos da escola seus dormitórios e precisa também de educação ambiental, pois verificámos uma gritante ausência de arborização na comunidade.

domingo, junho 23, 2019

CONTANDO ESTÓRIAS PARA AJUDAR A CRESCER (I)

O menino (na foto) estuda a segunda classe e não tem o que ler. Quando não vai à escola, frequenta a lavra ou brinca com os amigos usando o seu "hola-hola" (trotinete rudimentar) que também o ajuda a carregar mantimentos da lavra à aldeia de Pedra Escrita (Libolo). Como ele, estão dezenas de outros rapazes e raparigas que nem jornal encontram para adestrar as práticas de leitura que os professores vão tentando transmitir nas aulas de ...Língua Portuguesa. A falta de material de leitura faz com que os mais velhos, há muito alfabetizados, se tornem também analfabetos funcionais, por falta de exercitação da leitura e da escrita.
- Hoje, com os telefones, nem bilhetes se escreve e quem sabe ler e escrever está empatado com aquele que não sabe. Todos se limitam a ligar e falar. - O desabafo é de Gonçalves Carlos, antigo professor que, impossibilitado de retornar à educação, depois de anos de calvário, preferiu cuidar do campo.
Se a educação vai como vai, a saúde "está no chão". A construção do que viria a ser o Posto de saúde foi abandonada em 2011.
- Era para ser Posto. Estávamos já todos contentes, mas só terminaram a escola. - Narra um aldeão que acrescentou: por favor, sei que você, para além de nosso irmão, é jornalista e escritor. Não põe meu nome no jornal nem no livro. Aqui no mato as coisas mudam muito.
O Posto Médico ficou pela décima fiada (viga geral) e, passados 8 anos, "nunca mais o empreiteiro apareceu", nem a edilidade municipal, responsável pelos programas de investimento público, vulgo PIP.
Sem quem cuida dos doentes, as doenças todas possíveis, sarna, "lombrigas" (oxiúros), anemia, paludismo, incluindo tênue desconfiança de cegueira dos rios, fazem morada, sem que a aldeia, com mais de mil almas suplicantes, possa ser socorrida em tempo e de forma permanente.
Essas estórias reais (nuas e cruas) visam tão somente despertar quem, para essas gentes do Libolo (comuna da Munenga, EN240), possa "mover uma palha".
Quase tudo é necessário e urgente.
O autor dessa prosa já iniciou a concentração de material para a construção de uma Biblioteca Comunitária.
São chamadas as ONG para acudirem a questão da saúde e dormitórios para os professores (contratados de localidades distantes) que ocuparam os 2 wc, fazendo com que as meninas e os meninos se desfaçam do "incômodo estomacal" na mata.

sábado, junho 22, 2019

PARTILHANDO & COMPARANDO

 
Para mim, nunca será inoportuno recapitular. Quando ainda garoto, a entrar para a puberdade, ouvia falar da célebre "Escola Superior do Partido", também conhecida como "Universidade do Katambor". Era famosa por bons e maus motivos. Uns atestavam que "os quadros do Glorioso eram tão experientes e competentes que só precisavam de uma espécie de 'agregação académica', outorgada depois de uma curta passagem pela Escola do Partido".
Outros, os que me pareciam mais comprometidos com o saber académico, argumentavam que "de lá saiam 'doctores de fato' que nem sequer (?) sabiam noves fora".
Com ou sem razão, a escola inexiste hoje, pelo menos na sua anterior concepção e vocação de formar "técnicos superiores partidários em ciências sociais".
Aqui, ao lado, o partido "homólogo" fundado por Handimba, Nujoma e parceiros, em 1960, conserva a sua. E foi adentrando o pátio da referida instituição que tomei as seguintes notas:
Ovamboland é terra dos três presidentes do país, que somam 90, 84 e 77 anos respectivamente, sendo eles Samuel Nujoma, Lucas Pohamba e Hage Geingob.
O País, cujo lema é Igualdade, Liberdade e Justiça, tem como hino nacional "Namíbia terra dos bravos" . E os murais da escola contam a história desse povo bravo, formado por várias etnias, sendo das mais representativa os Owambo que possuem ±700 mil falantes, entre o sul de Angola e norte da Namíbia (terra dos Khoisan, Damara e Namaqua).
O País, independente desde 21 de Março de 1990, tem de extensão territorial 825418 Km2 e uma população estimada em (apenas) 2500000 habitantes, sendo 2,2hab/km2, com um Índice de Desenvolvimento Humano MÉDIO.
Fundada em 1890, Whindoek, sua capital, possui perto de 230 mil habitantes, distribuídos em 645 Km2, tendo, portanto, uma densidade de 357hab/km2.
Ao menos estivessem lá os murais (na Escola do Katambor), ajudando turistas e curiosos a conhecerem um pouco da História do GLORIOSO ou mesmo ensinar a trajectória política e militar do MPLA-movimento-partido aos inúmeros militantes de última carruagem que pouco ou não sabem sobre o partido que "representam" em várias esferas do país.
Voltei à SWAPO PARTY SCHOLL, vi, li e gostei.

Publicado no jornal Nova Gazeta de 07.03.19 

sábado, junho 15, 2019

CADÁ: KEN'TE VIU E KEN'TE VÊ?!

Diz a oralidade, mais vale tarde do que nunca. CADA, no Amboim, foi sempre um nome audível e pelas melhores referências, no meu tempo de undengue. Avós e papás que lá haviam trabalhado ou passado ou ouvido falar replicavam aos mais novos o que de bom o homem tinha implantado, transformando a virgem natureza em exuberantes campos de café, fábricas transformadoras e processadoras, luxuosas vivendas e escritórios a que se acresciam os acampamentos para negros contratados de terras distantes do planalto e capatazes brancos de chicote leve na mão pesada de pouca instrução. As escolas, com destaque a S. João de Brito, o monumental hospital, a barragem, a sede administrativa da Cooperativa, etc. eram contados e recontados nas noites de serão quer houvesse ou não luar. E o njangu repletava-se de estórias de fazer história. Os jovens enchiam-se de ideias, de ilusões. Memorizavam e imaginavam aquilo que era a "grande cidade" com brancos de barriga cheia, mandões, e sua esposa a ordenarem às empregadas negras:
-Maria!
- Xinyola!

-Senhora não! Patroa, está bem?
-Si, phatala!
Conheci a cada aos 42 anos (Nov. 2018). Já não é o que era há 42 anos, ou seja em 1976 e muito menos em 1974 quando os mentores da CADA ou seus herdeiros ainda lá se encontravam gerindo com mestria (e alguma repressão aos autóctones) o fruto do seu abnegado trabalho e créditos bancários. Na CADA tudo desandou, com relativa excepção que se encontra hirta mas sem os fiéis de sempre. O comboio há muito deixou de visitar a sua estação terminal. A empresa foi extinta e os carris encontram poiso nos tectos de casas precárias ou mesmo fundidos em siderurgia de Viana, em Luanda. A barragem já não produz energia e a água já não chega aos campos. Das máquinas e equipamentos agro industriais apenas velhas sucatas para oxigenar a memória de um idoso quando convidado a contar historia.
- Canhanga, foste conhecer apenas agora a CADA?


- Foste tarde. Imagino que já não tenhas encontrado nada!

- É verdade, meu kota. Quase nada, tirando escombros daquilo que terá sido uma grande cidade angolana no meio de cafezais.
E os que conheceram CADA no seu tempo áureo repõem as imagens que teimam em permanecer na memória:

Augusto Alfredo, um mumboim assumido, diz mesmo que “Quem conheceu o passado lembra-se das Estradas asfaltadas, jardins zelosamente amparados, hospital, cine-clube, supermercado, escolas com ensino de qualidade, pista de aviação, oficinas gerais, estação de comboios etc. Água canalizada e energia eléctrica. Era um lugar aprazível. Hoje, lamenta, “tudo é saudade! Até a linha de caminho-de-ferro que ligava a Gabela ao Porto Amboim, numa distância de 123 quilômetros, foi desactivado por decisão administrativa. Tudo acabou. O estado actual é de abandono e degradação! Pior, mingua a esperança.

A igreja Católica é, segundo Mazungue, como também se apresenta nas redes sociais, “o raro consolo”. Alfredo prossegue que “em 1973, a partir das 19 horas, era proibida a circulação de estranhos na vila, até foi construída uma estrada em torno para desviar o trânsito que seguia para Boa Altura, Pange, Boa Lembrança e Nova Ereira.

Com recurso à forte memória, Augusto Alfredo “Mazungue”, conta a dedo um a um os serviços e edifícios que frequentou e viu desaparecer. “O cine-clube, o supermercado, escolas com ensino de qualidade, a pista de aviação, as oficinas gerais, a estação de comboios, etc.

Foi a minha única visita e paixão à primeira. Quem conheceu antes, nos tempos áureos da CADA tem, com certeza, vários episódios para contar.

sábado, junho 08, 2019

HÁ DIAS EM QUE A VIDA SE PARECE TEATRO

Hoje* só me veio à cabeça o camarada Robert Gabriel Mugabe. Conheci-o ainda garoto e ele ainda jovem a transitar para o "kotismo". O nome levou-me aos idos de 80, eu  garoto, a ver e ouvir nos noticiários da RNA e TPA a emissão era apenas vespertina) sobre os Países da Linha da Frente e a SADCC que, inicialmente, me parecia ser a cinco: Angola, Zambia, Zimbabwe, Botswana e Moçambique (países que estavam ao encalce dos ataques da "aviação  racista sul-africana", como se dizia na Rádio e Televisão de então).
Enquanto preparava a indumentária para a caminhada, fiquei ainda a pensar:
 
- Será que os kotas, jornalistas de então, viam racismo até nos aviões militares? Não eram apenas as pessoas (algumas), o regime instalado em Pretória, eram também os carros, os navios e os aviões?!

Pois, com Rober Mugabe no pensamento, o kota da ZANU que depois de deixar o palácio viu Grace a voar de sua vida e, ao que dizem, a massa a ser-lhe também roubada, nada mais me ocorria fazer senão percorrer a Avenida que tem o seu nome na capital do antigo Oeste Africano.  Apanhei-a perto do bairro Olímpia, descendo ao Museu Natural, seguindo pelo Museu Nacional, Teatro, Ministerio da Agricultura, Água e Florestas, até ao By pass para Katutura, aonde se dirige.

Ao subir e fazendo a curva para sul, apanhei, posteriormente a Avenida da Independência que também se "afunda" no Katutura, e depois a Hosea Kutako que vai igualmente ter ao Katutura.
Mais adiante, depoos de me embrenhar por algumas streets, apanhei a Mandume Ndemufayo que, ao que pude analisar, tambem vai ao Leste.
- Fogo! Excelente construção rodoviária. - Exclamei audível.
É que todas elas nascem além city, atravessam o centro e vão morrer ou cruzar longe da cidade fazendo distintos círculos entreligados por roads, streets e strasse.
 
Um dia volto para percorrer a Agostinho Neto em toda a sua dimensão.
*27 Jan. 19

sábado, junho 01, 2019

PEP: DE CÁ E DE LÁ

 
O dicionário apresenta o acrónimo como sendo Pessoa Exposta Politicamente, Profilaxia Pós-exposição e outros conceitos. É também a marca de uma cadeia de lojas, essencialmente, de vestuário para crianças, senhoras e homens (em pequena escala). A boa criatividade angolense atesta que PEP é Preço/produto Especial para Pobres" E não é mesmo? Ao olho, pode parecer haver alguma qualidade naqueles produtos a preço de banana (inferida através da relação entre a necessidade e a satisfação dessa) mas, no fundo, é só para o roto se vestir ou o "faminto matar a fome". O pobre fica satisfeito, entretanto, quem pode dar mais por algo diferente, com maior visibilidade, durabilidade e utilidade opta por uma loja "no pep". Essa é uma estória.
 
A outra é que muitas senhoras e senhores que na banda evitam passar, sequer, ao lado de uma porta da pep, como se perto dela se possa contrair alguma doença patogénica, são os primeiros a adentrarem as PEP de outros países. O argumento, segundo ouvi de umas mwangolês, falantes dum Português "aprendido a cabeçadas" e que me confundiam com dâmara, é de que "embora lá na ngumbi não entre em nenhuma pep, aqui que ninguém conhecido me está a ver, vou só comparar umas coisitas para misturar com outras de marca e oferecer a uns sobrinhos e afilhados".
Mas, vocês afinal são assim? Não sabem que os produtos vendidos em lojas pep são os mesmos e que só enfeitam em mãos de comprador(a) pobre e que só embelezam o corpo de utilizador igualmente pobre? Até quando vão conservar essa mentalidade pobre de não entrar, na banda, em uma loja pep, mas carregar todas as bujingangas que vos apareçam pela frente numa pep de Windhoek ou Joanesburgo?
 
Se és pobre, sê onde for que seja, assume-te como "pep user" e nada de grandezas de papel onde até o cérebro é minúsculo. Pior é que mesmo a fingir tanto, na hora de efectuar o pagamento, acabam por solicitar um intérprete para o "she wants to know if can get a special price".
 
E quem é o interprete? Um outro mwangolê que vê ouve e cronica.
Para quê só, minha conterra?!

Publicado no jornal Nova Gazeta de 07.02.19

quarta-feira, maio 29, 2019

NO AERO HOSEA KUTAKO

- How are you (como está)? - Perguntou a jovem do atendimento aos passageiros para emissão da passagem e pesagem das malas e outras imbambas.
- Estou bem, obrigado. And you? - Retorqui, usando a minha habitual língua e experimentando a alheia.
- Brigado. - Respondeu a jovem, 19 ou vinte anos aproximadamente, a olhar para a ferrada fisionomia e curiosidade em aprender "port'angolês".
- Luciano, good name. Are you going do Cabinda? (Luciano, bonito nome. Va...is a Cabinda)? - Voltou a questionar.
- No. Im going to Luanda. Cabinda is far away (Vou a Luanda. Cabinda fica longe). - Respondi-lhe abrincar.
- Até cabinda's people white (Os cabindenses são brancos)? - Voltou a questionar, curiosa.
- No. Cabinda is north of Angola, near Republic of Congo. They are Black (Não. Cabinda é norte de Angola, próximo da República do Congo. Eles são também negros). - Expliquei, ao que a jovem ficou mais curiosa ainda.
- But they look like white. Use then skin cream (Mas eles parecem brancos. Será que usam creme para clarear a pele)?
- Sim, filha. Isso mesmo. Alguns se paculam, mas não são todos. - Respondi, desta vez em "port'angolês".
- And what's paculam (o que é paculam)?
- Its mean that some of then use frequentely cream to clear the skin (significa que alguns usam creme para clarear a pele).
- Thank you mister Luciano. Good trip to Angola (obrigado, Sr. Luciano e boa viagem a Angola)...
Durante a viagem fiquei a "banzelar" no avião. O que levou a moça namibiana a me confundir com os paculados, mesmo depois de ter levado com o sol de Whindoek nas caminhadas matinais de todos os dias durante uma semana?
Pela próxima digo-lhe as respostas que me ficara pela garganta.
- Im from Libolo and we don't use paculation! Those people that use paculation left our contry by Bitcheket post border, in Cabinda, going to RDC (eu sou do Libolo e não uso creme clareante de pele. Aquelas pessoas que se paculam e que dizem ser angolanas de Cabinda, abandonam o nosso país pelo posto fronteiriço Bitchekete, em Cabinda, rumando ao Congo Democrático)!


quarta-feira, maio 22, 2019

DESTIN'OESTE

(Windhoek)
Desde que frequentei a quarta classe (1986/7) que interiorizei, de muitas, uma certeza: caminhar para oeste basta ser levado pelo sol. O caminho é onde ele se dirige, deixando que, de manhã, lhe bata ardentemente às costas e, quando já ele se posicionar à frente, lhe ofusque a visão em confronto directo. Foi o que fiz nesta quarta etapa de "descobrimento e comparação" da cidade dos Warriors à nossa "quadricentésimo, quadragésimo sexto aniversariante".
 Partindo, como sempre, do centro, marchei em direcção à Dr. David Hoseia Meroro Avenue que nos leva a Westline. Há também um shopping por lá. Quando já se viam poucas casas (abro parêntesis para dizer que não vi construção precária, nem desordenada como as nossas cubatas de chapas), apanhei a Avenida Circular que parte do sul ao norte e que nos leva a Khomasdal e Okahandja, fazendo, à direita, um ângulo inferior a 90° para não colidir com o sol que me fustigava ardente.
Quase sem rumo pré-determinado (andando apenas por andar), fiz-me àquela percorrida rodovia, deixando para trás várias estradas perpendiculares de bom recorte técnico-arquitectónico e drenagem.
Outro detalhe: os canais pluviais estão sempre limpos e com cobertura vegetal. Nem mesmo nos "mabululos" da cidade ousam depositar descartados nas passagens hídricas como acontece na nossa banda.
 Já próximo de Khomasdal (menos de meio quilómetro) e quando mais adiante da rodovia os olhos só me mostravam montes cobertos de vegetação espinhosa, decidi apanhar uma perpendicular que me parecia rumar à cidade. Era a Dr. Kuaima Rikuako Street e eu já levava nas pernas mais de dez mil passos marcados ainda com vigor.
 Confesso, depois de 1990, ano em que os namibianos deixaram Kabuta (Libolo) para virem votar e proclamar a sua independência, nunca mais tinha andado tanto. Uma média de dez quilómetros ao dia, sendo sete dias consecutivos.
No ano da independência deles, a causa foi o ataque da guerrilha (que tem nome) à vila de Kalulu, quando festejámos o natal de 1989. Depois foram caminhadas longas e extenuantes: Kalulu-Mussende-Munenga-Pedra Escrita-Kuteka-Pedra Escrita-Munenga (felizmente, na última etapa, o chefe Gika levou-me na sua mota até Kalulu, aonde, em Março de 1990, fui para terminar a sexta classe, no ano lectivo 1989/90).
Desta vez é mesmo caminhar por gosto e nem sei se já percorri tanto assim uma outra cidade, perfurando-a pelos quatro pontos cardeais, ponta a ponta.
 A partir da rua Dr. Kuaima Rikuako, já sem o vigor inicial, pois tinha também a sede como adversária, para além do sol que passei a encarar frontalmente, fui pensando na fluidez do trânsito automóvel nesta cidade. Quem não anda e não se apercebe das várias artérias circulares e perpendiculares que a cidade e seu entorno possuem, pode alimentar a ideia de que "a cidade não regista engarrafamentos como os nossos porque tem poucos carros". Seria ledo engano. O que a torna saudável e com um trânsito que corre como sangue num corpo jovem e são é a quantidade e qualidade de artérias. Há muitas viaturas circulando sem cessar, pelo menos durante o dia, mas há avenidas, ruas, ruelas e travessas bastantes para que tudo aconteça sem stress. Não há, à beira das rodovias montículos de areia varrida mas nunca recolhida e que volta a espalhar-se pela estrada e entupir as sarjetas, como acontece na nossa Luanda. 
Outra constatação é o facto de se poder caminhar em toda a sua extensão. Será que podemos ainda nos alcandorar a chegar a esse patamar?
- Podemos! Porém, tal como as coisas estão na banda, só chegaremos a esse desiderato com medidas enérgicas e bastante corajosas. Não nos devemos dar por felizes tendo casebres de chapas erguidas sobre rodovias, como acontece nos Zango e noutras paragens. Não nos devemos sentir cómodos com o crescimento desordenado das cidades, sem macro-drenagem, sem que a construção das casas seja fiscalizada pela autoridade competente e sendo ocupadas antes do seu término.
Para mudar o cenário de Luanda, precisamos de aprender com os outros, mesmo sendo "mais novos", ao risco de nos contentarmos a ser comparados, ad eternum, ao vizinho do Nordeste.

Publicado pelo jornal de Angola a 24.02.19

quarta-feira, maio 15, 2019

OS NINGOÇUS À VOLTA DE UM NEGÓCIO

Considero negócio a actividade formal cuja prática, em local apropriado, é reconhecida, geradora de emprego, sustento e imposto para o Estado.
Ningoçu é toda a cadeia informal de negociatas e biscates que possam surgir à volta de uma actividade formal.
Assim, tendo decidido ir desmaiar a fome no "restaurante aberto" da Chicala, ao istmo de Luanda, onde se vende peixe fresco e grelhado, notei, com atenção, a quantidade de pessoas que se movi...mentam naquele espaço, procurando levar "pão para casa" ou, no mínimo, saciar vícios resistentes, mesmo em tempo de crise financeira reconhecida e assumida.
Dentre as "ningocistas", pude anotar: a senhora da jinguba e a do jola myongo; o moço dos discos de música, pen drive, acessórios eléctricos, etc; o rapaz que lava o carro; a interceptadora de possíveis clientes dos "restaurantes"; a mamã do Tpa (sobre ela já dediquei uma crónica); o tio do mictório; o vendedor de kangonya aos pescadores, lavadores de carros e estivadores; a mana que vende bebidas que nada têm a ver com a vendedora do almoço; o rapaz das recargas telefónicas e da graxa para que o funcionário público (normalmente bangão e com ares de bem remunerado) chegue ao local de trabalho com sapatos feitos espelho, dando a entender que sai de um dos restaurantes mais chiques da cidade... São "n" NINGOÇUS.
Feita a observação, algumas perguntas não se fazem calar.
- Por que também não se transformam esses ningoçus em negócios, abrindo esses pequenos serviços periféricos onde se fundem os negócios típicos da cidade?
- Por que não ter um parque para estacionamento e lavagem automóveis em que se pague pela limpeza e segurança?
- Por que não se colocam espaços para a venda estacionária e não ambulante de souvenirs e acessórios diversos?
- Por que não se instalam, mesmo que em regime de franchising, quiosques representando as empresas de telecomunicações ou, no mínimo, seus produtos?
- Por que não se aglutinar aos "restaurantes de peixe" tabacarias, cafeterias e demais serviços úteis?
Teriamos pessoas a se orgulharem de ter um emprego ou de ser empresário, estadas mais cómodas para os frequentadores, mais impostos para o Estado e garantia de um futuro melhor para todos.
São apenas ideias de leigo.


Publicado pelo jornal Nova Gazeta, 31.01.19
 

quarta-feira, maio 08, 2019

CONVERSA ENTRE VELHOS COLEGAS

 
Na Avenida Agostinho Neto, estendi o meu olhar à "Angolan House" com a sua bandeira baixada à meia-haste pela acção incessante do vento.
Sem paragem concreta, segui a Jan Jonker Street, passando pelo "Maerua Mall". Segui, sempre em frente, até encontrar a linha férrea e, com ela, continuei até ao cruzamento entre a Jonker e a Sam Nujoma Avenue. Já não havia cidade a Leste. Apenas montes recheados de arbustos espinhoso, como é natural por essas bandas.
O regalo foi mesmo ver uma cidade de 130 anos, projectada sobre colinas que drenam com imensa facilidade as águas pluviais. É como a nossa cidade do Dundo. É com ela que mais se parece/parecerá a cidade dos bravos (warriors). Vivendas, maioritariamente, e poucos edifícios a desafiarem os céus, contrariando as capitais costeiras que crescem em altitude. Aqui, dizem eles, "há terrenos bastantes para construir em extensão"
De volta ao centro da city, passei pelo National Botanic Garden, até cruzar com a Robert Mugabe Avenue. Mas não contente ainda, segui, um pouco mais a baixo, até encontrar a Avenida da Liberdade e inflectir para norte, até ao Ministério da Igualdade no Género e Proteção da Criança. É assim que se chama o MISFAMU deles. Estavam completados os 10 mil passos que são o propósito diário da caminhada.
Surgiu, então, um novo desafio que era o de elevar essa fasquia (10 mil passos/dia) como média semanal. Ora, no domingo e segunda-feira não tinha passado dos três mil passos. Precisava, por isso, de mais 5 mil passos. Olhando para o pôr-do-sol, marchei uns metros até à Avenida Mandume Ndemufayo (próximo do shoping Vernhill) e inverti para sul, fazendo mais 4 mil passos, até à Autoridade Rodoviária. Aqui, o "INEA deles" parece ter mesmo autoridade pois as vias estão bem conservadas. Pelo menos melhor do que as nossas.
A parte final foi marcha inversa, na mesma Mandume Ndemufayo, em direcção à baixa (Vernhil.). "Varridos" o norte, sul e leste da cidade,  restando-me apenas o pôr-do-sol, pus-me a pensar no que seria a conversa entre velhos amigos de escola.

- Quem me dera que pudesse também, com a mesma facilidade, percorrer as ruas da minha Luanda onde, nos dias que correm a conversa imaginária (tantas vezes real) pode ser essa:
. Epá, lembras-te daquele wi, com facas na cara, que foi nosso colega no IMEL?
. Yá,o Star.
• Star ou Kanyanga?
• É o mesmo wi. Chamávamo-lo por Star. Não é quele que amarrava bwé?
• Yá é o mesmo.
• Mas é o que então?
•Fogo, vi o gajo a andar bwé a pé e a "caloriar" p'ro caneco. Temos que "lhe" fazer uma kixikila. O mwadyé tipo está frustrado ou a sofrer. Tipo perdeu emprego ou coisa parecida.
•Mas, ó wi, estás mesmo a falar do Star? Só pode ser brincadeira. Ele gosta de caminhar. Deixa o popô na baixa para evitar que a barriga lhe roube os músculos das nádegas.
•Aié, então pensei a toa do brother. Mas que estava a caloriar, estava!
Em Luanda, seria essa a conversa de bar entre velhos colegas.

Publicado no Jornal de Angola de 02.06.19

quarta-feira, maio 01, 2019

OS SINDICATOS E A ÁGUA PARA POUCOS

Conta-se que nos Congos (Belga e Leopoldoville), o MPLA, avisado que a luta sindical era uma poderosa arma para dignificar o trabalhador angolano e combater a exploração do homem pelo homem, "andou" sempre (desde 1963) de mãos dadas com a sua Unta do camarada Pascoal Luvualu, servindo para “mobilizar e organizar os trabalhadores nas zonas rurais e os refugiados nos Países limítrofes para apoio político e material à Luta Armada de Libertação Nacional”.

Chegada a independência e proclamada a República Popular de Angola, a Unta continuou a sua acção de força mobilizadora dos trabalhadores em prol do Partido e dos ideais políticos delineados por este para o novo país, pois, “no período de 1977 a 1991, UNTA e os Sindicatos nela filiadas afirmaram-se como uma organização de trabalhadores que, sob orientação do MPLA-PT, desempenhou um papel decisivo na construção das bases materiais e técnicas da sociedade, que acabava de surgir”.
 
Assim, com esse casamento "ideologico-trabalhista" alguma pequena burguesia terá ficado "sem alguns caninos ou mesmo molares" e as reivindicações confinaram-se aos apelos alegóricos, no primeiro de Maio, onde os "proletários" de todo o mundo (pessoas que nada mais podiam dar ao Estado senão a capacidade de procriar/prole) eram chamados a unir-se em prol de "um salário que já não comprava" ou uma causa que reclamava inovação.
Com o mono-partidarismo e mono-sindicalismo, chegámos a 31 de Maio de 1991, data em que foram assinados em Bicesse, Lisboa, os acordos que poriam fim à guerra civil e ao mono-partidarismo, acontecendo antes a revisão da então Lei Constitucional que respaldou tais mudanças.
Veio o cessar-fogo, pluripartidarismo, liberdade de pensamento, de expressão e de imprensa, liberdade sindical, etc. e mais alguma coisa. Se o Partido governante ganhou concorrência, também à Unta se juntou a CGSILA de Manuel Difuila, ex integrante da Unta, trazendo nova pulungunza ao campo das reclamações e exigências para uma vida menos indigente para os trabalhadores.
Os rótulos, quanto às aproximações politico-ideológicas, não faltaram e ainda vão surgindo aqui e acolá, tendo em contas as colagens e descolagens dos líderes sindicais e partidários. É a História com um pouco de estórias.
Quanto ao hoje importa reflectir, nesta nova era da “governação lourencista”, são as frequentes ameaçam paralisações, fundadas em exigências cabíveis ou descabidas no bolso do patrão que só (des)encaixa dividendos com o trabalho (não) realizado pelos trabalhadores reclamantes.
Ao que me vai chegando aos ouvidos, parece estarmos a voltar aos anos da abertura ao plurissindicalismo, em que, por tudo e nada, se partia para a "arma mais violenta do trabalhador", a greve. E, mais preocupante do que isso, a meu ver, são os relatos sobre a existência de duas a três comissões sindicais em algumas empresas, revezando-se na apresentação de pautas reivindicativas, sendo os mais extremistas aqueles sindicatos criados no “pós-cisão” da União Nacional dos Trabalhadores Angolanos. Há mesmo, segundo relatos que me chegam ao ouvido, empresas em que uma dada Comissão Sindical diz ao patrão que "estão cientes da fraca produção ou recolha de receitas" e, por isso, atestam continuar a trabalhar para fazer crescer a organização e, com ela crescerem juntos social e salarialmente, enquanto outra comissão sindical declara "guerra" ao empregador, sem saber se trabalham ou não o suficiente para que a empresa possa atender ao que se exige. Provavelmente, isso explique, por exemplo, que algumas cidades (como o KK) estejam divididas em "lado da UNTA e lado da CGSILA ou outra Central Sindical", a contar com o facto de algumas ruas possuírem água e outras enfrentarem uma seca prolongada.

segunda-feira, abril 29, 2019

PESSOA MONA A DYALA Ô A MUHATU?

Conta-se, geralmente entre os mais velhos, iminentes bibliotecas vivas, que: Certa vez, ao tempo em que as autoridades tradicionais eram obrigadas a recrutar, entre os seus, pessoal activo (jovens e adolescentes de ambos sexos) para os levar ao posto colonial (administração), de onde os fazendeiros e serviços públicos iriam escolher "mão-de-obra" semi-escrava (pesudo-contratos) para as suas empreitadas, um soba, cumprindo a orientação que recebera do Posto levou os seus (filhos e sobrinhos incluídos) ao administrador comunal para evitar represálias. Chegado ao local, o administrador, um semi-analfabeto, barbudo e barrigundo, vira-se ao régulo e pergunta:
- Ove lá, ó preto! Quantas pessoas trouxeste?
Atónito, velho Kikundu, olhos apenas na palmatória com se se esborrachava as mãos dos sobas faltosos, nem mais atenção prestou á pergunta. Pensando ele que "Pessoa" fosse nome de alguém, e que se lhe tivessem perguntado onde estava o Pessoa, meteu-se aos prantos, temendo pela reprimenda.
- Pessoa nãe. Mona a dyala ô mona a muhatu? (Quem é Pessoa? É homem ou mulher?) - Indagou entre os seus, sem que resposta alguma lhe fosse também dada .
Bangão e maldoso, lá veio, de novo, o chefe de Posto.
- Ove lá ó preto! Não me consegues dizer quantos patrícios trouxeste sem que o verdugo do capataz te suba às costas?
E não se fez demorar o "grito" da palmatória para o choro inocente daquele homo angolensis.
Velho Kikundu foi devolvido à sua aldeia com as mãos inflamadas, enquanto os desafortunados aldeões levados à renda dos que já lá sofriam ano e meio seriam recolhidos para uma "tonga" onde o chicote assobiava de hora em hora em costas nuas, onde a sede se escondia medrosa no suor do labor e onde o peixe e fuba podres eram luxo na hora da fome.
Noutro dia, já na tonga, a empreitada era escavar uma montanha para nela fazer passar o tractor. Homens "destratados" foram mobilizados. A fila chegava a meio quilômetro. Maior mobilização, para uma só tarefa não havia, registo. Sete dias era o tempo expectado pelo patrão-aldrabão. Fuba: um saco. Feijão, meio saco. Peixe seco do Tômbwa: Meia caixa.
Capataz recebeu sem reclamar. No terreno, dia e meio, racção minguou. Quem vai pedir reforço?
- Vai o capataz. - Disseram todos.
- Nem que me matem. - Retorquiu ele receoso da brutamontisse daquele colono branco.
Um jovem, dezanove anos na imaginação do narrador. Saiu do fundo e colocou-se a diante.
- Ki kapataji ketele, eme ngyako (se o capataz não quer eu vou falar com o branco)!
- Eye, wiñana iki (você, um simples macaco no entendimento do branco?)
- Ngyako.- Insistiu disposto.
Uns já afiavam catanas e flechas para suprir a carência com recolecção. Vida humana emprestada a meros viventes, abaixo de javali.
Katako, de sua graça, lá se meteu a caminho da residência senhoril.
- Ses(s)a, phatalá! Nzangi yeli eji njila ijikuka mas subha é pocu!
(Dê-me licença patrão. A malta mandou transmitir que o caminho será aberto mais a fuba é pouca).
O patrão, nem uma nem duas. ficou-se pelo "diga-lá/repita-lá".
Katako, letra a letra, a mesma mensagem com a mesma entoação e vigor.
- Ó criado?! - Chamou Costa Curta ao doméstico embrenhado em tarefas domiciliares para interpretar e traduzir no seu "Pretuguês".
- Faló assi: caminho estó abrir, mas fuba co pexi nú chegó.
Hora depois, voltava Katako acompanhado de um serviçal, carregando reforço alimentar. Foi, ali mesmo e sem mais anuência do patrão, elevado à categoria de capataz. O medrica teve de se entregar à fúria dos jacarés no rio Longa.


Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 17.01.19

segunda-feira, abril 22, 2019

O MILHO E O 'MILHONÁRIO'

 
Corria o ano de 2013. Uma agência internacional anunciava que "Angola era o sexto país com mais milionários em África", somando quase cinco mil indivíduos que juntavam, cada um deles, o valor líquido e imóvel (excepto a residência oficial) de mais de um milhão de dólares americanos.
Mangodinho, quando ouviu falar sobre o assunto, "se" bateu no peito.
- Não pode! Disseram que o meu nome não "encosta". Eu também devo estar lá nessa lista de "milhonários"! - Disse vociferando. 
- Como assim, Mangodinho, você que só dorme e sonha porque Deus dá sonho de favor? - Perguntou Sembe, Sebastião nome dele da escola.
- Eu sou "milhonário" e ponto final, não me estraguem o dia. Aqui, nessa Aldeia, milheralmente falando, quem torra farinha comigo? - Questionou Mangodinho, de mãos e braços abertos, como que a mostrar o "mundo todo" de que ele se sentia dono e senhor. - Quenhê que torra farinha comigo, me diz só. Quenhê?!
Sembe e outros rapazes, todos na "mangação" do Kota Mangodinho.
- Esse Mangodinho deve estar a ficar xonê. Só pode ser. Você, casa de verdade não tem, comida é milho desde manhã até à noite. Jihuwa (mandíbulas) tipo filho de boi que perdeu a mãe e não está a mamar. Assim, tôs milhões é de quê, Mangodinho, nos mostra ainda com ele.
-  Então vocês mesmo não disseram? Eu produzo o quê? Eu como o quê? O outro milionário não disse "ele caga milhões"? E eu que semeio, cuido, colho, vendo e me alimento preferencialmente de milho sou quê, sôs burros?! Sou "milhonário", fiquem já a saber e avisem os gajos que vão actualizar a lista, no ano que vem, para não se esquecerem de pôr o meu nome na lista!
Eu sou "milhonário. Tenho milho que basta para dar e vender!

Publicado no Jornal de Angola de 30.01.19

segunda-feira, abril 15, 2019

É SOCIALISMO, CAMARADA!

Algures em Duque de Bragança ou Kalandula, para os nativos que nunca se aportuguesaram, conta-se que num pequeno rio com pequena represa natural, antecedida por uma transposição artificial, crianças, jovens e adultos faziam da água mansa daquele trecho elemento imprescindível para correr com as imundícies do corpo e para relaxe.
Todos, sem excepção, "banhavam" prazerosamente. Os mais idosos e cheios de posses e pudor faziam-no mais a baixo, junto à barreira natural que elevava o volume de água reprimida. Os jovens, com "força de ngufu", ocupavam o centro da "lagoa", servindo de intermediários entre os makota, à jusante, e os tundenge à montante. Esses últimos, a partir do ponteco, jogavam-se rio adentro, expelindo a energia carregada e exercitando todos os músculos, como só a natação permite. Se frquejassem na tentativa, os jovens pelo meio do trajecto, acudiam e reprimiam veementemente o atrevimento. Mas quem não aprende tentando? E se o fracasso acontecesse entre o meio e a meta, lá estavam os papás com o seu socorro e lições de vida.

Entre os petizes, aqueles que iam desprovidos de produtos de higiene e limpeza, quando deles precisassem, tinham a oportunidade de executar pequenos serviços e ganhar um esfregar apressado de sabão ou sabonete pelo cabelo que, depois, espalhavam para o corpo todo. Outros espargiam porções nada abonatórias de sabão em líquido pelo corpo que, depois, distribuíam as espumas pelo "mukutu". Mas havia aqueles que se deslocavam ao rio apenas para umas fimbas. Eram já tidos como grandes nadadores, prontos a integrar, na juventude, o inimaginavel corpo de bombeiros-salvadores que em Duque-Kalandula não havia.
Certo dia, Dimas, menino de lápis e caderno sempre, afamado na vila de "explicador de outros meninos e meninas de pés limpos e tranças permanentemente reparadas", acossado pelo abrasador sol de meio-dia, em período de férias, decidiu buscar por um mergulho. Àquela hora, poucos manos e tios se podiam encontrar no rio dos mergulhos. Apenas um dikota transeunte. Bem podia fazer-lhe um serviço mínimo, se solicitasse, mas...
Dimas subiu ao ponteco. Olhou à direita e à esquerda. À montante, onde poucas raparigas acarretam água, e à jusante, onde apenas um dikota soltava as alparcatas para buscar o bálsamo escondido na frescura da água. Jogou-se rio adentro. Nadou e, num abrir e fechar de olhos, fez-se caralmente ao senhor que saudou.
- Boa tarde camarada tio. Não precisa de ajuda para nada?
- Boa tarde camarada pioneiro. De momento. Nada a peticionar. - Respondeu-lhe o senhor.
O Viandante desatou as alparcatas, os calções, a camisa e soltou a ânsia de mergulhar. Fê-lo sem muitos movimentos. Apenas imergia e emergia no mesmo lugar, passando pelas partes íntimas e depois pela cabeça um pedaço de sabão, cuja espuma, à distância, fazia dele um homem branco.
Dimas deu outra fimba. Como sempre, em um minuto sem inspirar, atingia a barreira habitualmente frequentada pelos mais velhos.
- O camarada tio pode dizer de que aldeia é?
-De Carreira de Tiro, Malanje-capital. Tem lá parente?
- Não camarada. Era apenas para saber. Já agora, o camarada também lê marxismo-leninismo?
-Não, meu pioneiro. Um dia vou ler mas acabei de frequentar o curso de alfabetização que já me permite ler um pequeno bilhete.
Dimas pretendia, na verdade, uma aproximação que o permitisse esbranquiçar também o seu cabelo e sentir a dor do sabão em seus olhos. Mas faltou coragem para pedir e meteu-se água a dentro.
Quando o senhor se preparava para abandonar a água, o menino, sem fazer-se perceber, nadou até ao sabão e, rapidamente, esfregou-o na cabeça e no peito.
Um susto atacou o indivíduo que precisou de segundos para se recompor do susto e agir.
Com algum esforço, alcançou o bracito de Dimas que se preparava para o nado de regresso à parte mais funda daquela represa.
-Quê isso pioneiro? Já não se pede nem nada? É esso "enducação"?
- É socialismo, camarada tio. É distribuição dos meios pela comunidade. Assim, a minha carência também é do camarada tio e suas posses também são minhas, camarada. É isso socialismo!(?)

segunda-feira, abril 08, 2019

VIAJANDO COM O FILHO À DAMARALÂNDIA

Mangodinho, soba de Kuteka, foi à Damaralândia participar de uma reunião com os homólogos de lá. Ao contrário das primeiras vezes em que se fazia acompanhar de um dicionário, bloco de notas e um lápis enfiado no cabelo, para as anotações e consulta de palavras anglofonas desconhecidas, desta vez, fez-se acompanhar do filho que dizia saber falar inglês.
Logo à chegada, o longo papo que tiveram foi sobre civismo. E começava o filho assim:
- Ó papá! Por que é que aqui as ruas e os prédios são todos limpos se também é África e são negros como em Angola que é tudo cheio. De lixo é areia nas estradas?
- Filho, aqui são organizados. Todos consciencializados de que cada um e cada família deve limpar e pintar a sua casa, não jogar o lixo na rua nem destruir os bens públicos.
- O papá não disse que eles (alguns) também andaram em Angola como refugiados? Como é que eles não nos ensinaram a limpar ou como é que não aprenderam a sujar?
- Primeiro, eles viviam em acampamentos de refugiados organizados de acordo com os seus hábitos e costumes. Só iam às cidades para comprar ou vender o que tivessem a mais. Segundo, a questão não pode ser "como é que não aprenderam a sujar". Nos é que precisamos de nos organizar. Devemos fzer lá aquilo que aqui não se faz, ou seja, não jogar lixo do prédio para a rua. Não desperdiçar água, não sujar as paredes, não andar a toa pelas ruas, não atravessar fora das passadeiras, não vender em locais não autorizados, não partir os bens públicos como postes de iluminação, assentos nos jardins, papeleiras, etc.
- Mas o papá diz, sempre que estamos aqui, para poupar água...
- Sim. Aqui chove pouco e não têm rios como nós. Eles fazem permanentemente racionamento de água. É por isso que não se pode gastar muita para que a pouca existente chegue para todos.
- Mas, papá, como é que naquela rua em que passámos ontem havia uma conduta rota e água a correr pela rua?
- Rupturas acontecem em todo o lado. O importante é que sejam reparadas para que não se estraguem os passeis nem as estradas. Voltaremos a passar por lá amanhã para ver.
- A EPAL daqui também demora reparar?
- Não sei, filho. Amanhã vamos confirmar.
- Se demorarem arranjar o papá vai fazer participação?
- Vou fazer nota, filho. Ainda não sei onde fica a empresa deles que cuida da água ou das reparações das condutas danificadas.
- Papá, a nossa energia foi (cortada) mas não vi os homens da ENDE deles...
- Aqui a energia é pré-paga, como se põe saldo no telefone. Quando a quantidade comprada acaba, ninguém precisa de desligar os cabos. Um dia, isso também vai acontecer connosco e precisamos já de nos habituarmos a poupar energia.
- E como é que se poupa energia se ela não se vê, não se pega, nem sai de um cano como a água?
- É fácil. Muito fácil poupar energia. Basta não ligar equipamentos electrónicos que não estejam em uso. Por exemplo, quando não estás no teu quarto, não precisas de ter o aparelho de AC ligado. Se não estás a assistir à televisão, não precisas de ter o monitor ligado. Arca e geleira vazias não precisam estar ligadas. As lâmpadas devem estar desligadas durante o dia. É deste jeito que se poupa energia.
- Vou passar também a proceder assim, papá.
- Pois é. Assim deve ser. E cada um que tenha aprendido deve ensinar os outros e insistir com eles para mudarem de mentalidade. Só assim estaremos ao nível desses nossos vizinhos.

Publicado pelo jornal Nova Gazeta a 18.04.19

segunda-feira, abril 01, 2019

PÃO COM CONDUTO

O Sol daquele dia era diferente. Único entre os já muitos sóis e noites vividos. Parecia que a bola vermelha e quente cairia sobre a terra para queimar tudo e acabar com todos. Mesmo assim, chovia a pingos preguiçosos que secavam em tempo apressado. A sede então, ah! Essa era tanta. Parecia que os caudais dos rios secariam. As pessoas, em todos os atalhos que levam às lavras, nas estradas que ligam terras distantes e cidades em que impera a banga, o bom vestir e o bem falar, estavam todas ora com a garrafa de água na boca, ora com a boca no caudal do rio, sorvendo a mistura de hidrogénio e oxigénio (H2O).
 
Mas não era só sol, chuva miúda, sede e cansaço. Era também fome. Será que andar debaixo do sol também aumenta a fome?
As viagens, de véspera e do momento, ao volante, tinham sido longas e extenuantes, embora tivessem sido mais sobre estradas do que em picadas; mais asfalto do que buracos; mais luz do que noite. Só que os quilómetros não eram poucos e as paragens, para pegar isso e deixar aquilo ou atender o estômago resmungão tinham roubado bastante tempo.
Depois de CADÁ (é mesmo assim que se pronuncia), cidade que assiste impávida todo seu recheio de tempos áureos a cair (1,2,3… até nada mais haver) chegámos, de volta à vila de Kibala, Kwanza-Sul, por onde havíamos passado na noite anterior.
 
O ingrato estômago teve de nos levar a uma roulote, estrategicamente implantada na bifurcação entre dois caminhos que juntam aldeias periféricas do vilarejo. Próximo do que foi a moageira CAIMA. É também lugar de encontros e reencontros da moçada local e de galanteio.
 Um jovem estava encostado à roulote. Vi-o e não me contaram. Ao seu encontro ia uma mana vestindo blusa verde floreada, panos à cintura e um lencito à cabeça.  Diziam, a contar pela denunciante pronúncia, ser duma terra do centro da noss'Angola.
O mano, calças jeans muito largas na parte superior, a fazer desaparecer o mataku e demais condimentos, e uns chinelos “avaziana”, isso mesmo “avaziana”, era kibalense. Na cara dele lia-se muita esperteza, mas na boca e na cabeça pouca inteligência.
Os dois pararam, antes da saudação, ao "se darem encontro" no atalho que liga as duas aldeias periféricas da "cidade" (como chamam o vilarejo), próximo da roullote.
- Caró, saudade que te estou a ouvir é mbastante, tipo água no rio Kakungulu. Desde anteontem sem te ver. Será que não gostaste do que “se” falámos?
- Yá, João. Também senti lá vontade. Falei mesmo vou “le” procurar para se descontar lá um kabukadu. Ó João, também trouxe fome, tó te falar! Me paga lá ainda um pão com conduto lá dentro, tipo aquele que provámos na casa do teu amigo Nito…
A conversa prosseguiu com pícaros de “sarcasmo” ao meu ouvido. Era só rir a toda a largura da boca. Juro mesmo, funji ou pirão com conduto já ouvi e já comi. Pão com conduto (hambúrguer) foi primeiríssima vez.

Publicado pelo jornal Nova gazeta a 06.12.18

sexta-feira, março 29, 2019

LÁGRIMAS DE VIÚVA

 
Na minha terra nunca foram de crocodilo. Explico as de crocodilo. Mesmo que uma dor ou saudade lhe arranque lágrimas, jamais serão vistas, pois ele vive na água e o fluido lacrimal é, imediatamente, arrastado pela corrente. Por isso, se costuma dizer, aos inimigos que fingem chorar ou aqueles que simulam um comportamento inespontâneo, que "soltam lágrimas de ngandu".
No Kwanza-ao-Sul não! Uma viúva que é, de facto, viúva, que tenha coabitado e produzido frutos amorosos com o seu de cujos, chora e verte lágrimas espontâneas dias sem fim, até que o rasto delas seja de todos visível como um leito de um rio intermitente, ora seco mas com riscos a marcar a passagem de água, ora inundado.
A senhora que tenha perdido o cônjuge, chora, evocando aos que partiram antes que o recebam na graça. Enumera os seus entes queridos partidos e aos quais distribui preces e recados. Mas é o seu amor finado a causa de todos os prantos. E chora em cada alvorada, cada aurora e quando a saudade bater.
- Pai do fulano (assim se dirige uma mulher ao marido), cumprimenta o meu pai. Quando encontrares o mano sicrano dá-lhe também meus cumprimentos e não esquece avisar o tio Beltrano que a kasule dele já tem "chucha" e está quase a ser pedida em casamento. - Recomenda no seu choro cantado e acompanhado, sempre, de fartas lágrimas.
Quem se deleita com esse choro permanente, manhã e entardecer, é a criançada inocente, que marca as horas do "canto da viúva" , e se pergunta:
- Porquê desse esforço e agenda de choro da "kabulungu"?
Mas ela, acompanhada de uma idosa ou em solilóquio, até a última visita abandonar a residência, já dias avançados ao komba ditôkwa (varrer as cinzas das fogueiras diurnas e nocturnas, para dar por encerrado o óbito) chora com fartura. Lava a boca, mas não o rosto. Lava o corpo, mas não a cabeça. E, até ao último dia, em que a viúva é "solta" para com as de sua intimidade ir ao rio, ir à lavra, à faina e a outras tarefas, ela mantém aquele leito seco no seu rosto deixado pelas lágrimas.
- Mana fulana chorou bem o seu marido.
- Mana fulana nem vimos as lágrimas (em favor) do marido.
- Mana beltrana eram só gritos de kapuka. Lágrima que é lágrima nada!
São os comentários que se ouvem depois do óbito terminar.
Mas, afinal, sentimento está nas lágrimas? Quem não tem "kinduli" (rasto de lágrimas sobre o rosto) não chorou? Não sente saudade e ausência? Não é viúva digna desse nome?
Minha mãe chorou meu pai até se "cavar um rio" sobre seu rosto. É parte de nossos hábitos e costumes, já em desuso. Até hoje, ela ainda se recorda de seu António como se tivesse partido há poucas semanas, quando já lá se vão perto de quarenta anos.
Só não sei e nunca consigo entender o porquê daquelas lágrimas!
 
Publicado pelo Jornal Nova Gazeta de 24.01.19

sexta-feira, março 22, 2019

ANDANDO ESTRADA A BAIXO

"Walkind down the street/Distants memories are buried on the past/for ever"!.. é trecho da letra de Brian Adams, aqui trazida para retratar o que tem sido minha ocupação nos últimos dias.
Tal como a minha cidade do Zango V, a cidade que me acolhe temporariamente tem condições para caminhar. Passeios com alguma ordem e uniformização, trânsito bem regulado e sol de enegrecer. Espreitando o boletim do Ministério da Administração Interna e Migração li que é visão do o...rganismo "Registar a população e gerir a migração de acordo aos melhores rácios mundiais", sendo missão "gerir o registo da população nacional e facilitar a migração legal".
 
Já que entrei de forma legal, meti-me a fazer contas, enquanto caminhava e reflectia sobre o que me aparecia à leitura. Vejamos:
Angola com seus 1246700 km2 possui uma população de ±30 milhões de habitantes, uma densidade média de 24,06 hab/km2. Parece pouco n'ê?!
O antigo Sudoeste Africano com seus 825418 km2 e uma população de ±2500 assume uma densidade média de 2,2 hab/km2. Nestes termos, a Namíbia tem menos de 10% da população angolana, embora o seu território seja maior do que a metade de Angola. É a inexistência de pressão demográfica sobre a sua capital (e território todo) que justifica a paz social aqui verificada e que a torna um destino temporário ou mesmo definitivo para muitos angolanos cansados de "lenga-lenga" de Luanda.


Imagine que, para uma densidade populacional paritária com Angola, o país ao sul teria uma população de 20 milhões de seres, ao contrário dos seus 2.5milhoes. Pouca gente nê?!
Sim. Andando sem pressa e sem destino certo. Apenais marcar passos até não mais cidade houver pela frente, atingindo um dos várias montes que circundam a cidade, completei o percurso norte-sul do plateau. Cinco mil passos a norte e outros cinco mil a sul, numa distância aproximada de 9km. Falta percorrer a horizontal, nascente-"morrente". Mande-me Ndemufayo é a Avenida que corta longitudinalmente Whindoek.

Publicado no Jornal de Angola de 10.03.19