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sexta-feira, março 29, 2013

KIMBOMBO: VOCE AINDA SE LEMBRA?

Lí, em tempos no face book, uma reconstituição do jovem José Quitumba, o "Paizinho", em que ele e amigos bebiam kisângua em recepientes de azeitonas. Grande imaginação.
 
Trataou-se de uma recomposição da História recente dos nossos musseques onde a ausência de bolso para a cerveja ou a ausência desta era compensada pela fabricação caseira de uma bebida fermantada designada por Kimbombo.
 
O  Kimbombo era feito à base de arroz fermento e açúcar e havia quem adicionasse uma pilha para incrementar a fermantação. Hoje, os meninos e mesmo alguns jovens já nem sequer imaginam que houve um tempo em que a cerveja não era para todos. As consequencias para a saúde eram tantas.
 
Apesar da imaginação do angolano, entre o entorpecer-se daquela forma, para esquecer as malambas, a viver com muitas malambas sem solução, a escolha recaia, para uns, no suicídio que era tomar a "kissara" como também era tratado o kimbombo. Muitos morreram anémicos, outros por graves complicações respiratórias e outras patologias.
 
A reconstituição do meu amigo Quitumba serve, quanto a mim, para recordar um passado tenebroso vivido pelos angolanos e reflectirmos sobre o que de mau o povo viveu em tempos que não desajamos que  voltem a acontecer.

"Onde hoje se colhem rosas já foi um campo de espinhos". Think about it (Pense nisso)!

sábado, março 23, 2013

Soberano Canhanga fala ao Lusophone Society of Goa

A "Lusophone Society of Goa" é uma media digital e imprensa que visa o fomento da lusofonia no mundo.
"Econtrado" nas redes sociais, fui convidado a conceder-lhes uma entrevista, em português e inglês, que abaixo reproduzo.

1 - Estreou na Literatura angolana em 2010, com o "Sonho de Kauía" e como jornalista profissional é responsável pela comunicação institucional da maior empresa diamantífera angolana, a Sociedade Mineira de Catoca. O que significa para si ser jornalista e escritor ao mesmo tempo?
Ser jornalista e escritor é uma combinação harmoniosa a que me entrego com prazer, já que o jornalista e o escritor habitam o mesmo corpo.
O jornalismo é um sonho de há muito que se materializou com formação neste campo. O exercício da assessoria de Comunicação Institucional em Catoca é a exploração do outro lado da minha formação em Comunicação Social. É uma nova experiência prazerosa a qual procuram chegar grande parte dos jornalistas angolanos, depois de muito tempo a trabalhar em noticias diárias ou periódicas. Quanto à literatura, é apenas um complemento do meu ser. Na verdade, prefiro que me considerem como um "anotador ou contador de cenas", pois estou a entrar na literatura por mero acaso, como extensão do jornalismo que nunca deixei de exercitar, pois o jornalismo, para mim, é como se fosse um vício.

2-O seu livro "Manongo Nongo", lançado em 2012, é um conto infanto-juvenil. Qual a razão de se virar para os mais novos?
- Na verdade, tratam-se de vários contos (fábulas). Uns já ouvidos na infância e recontados com novos cenários e personagens, outros são de minha criação.
Os povos que tiveram um longo período sem o registo escrito faziam a sua História e preservavam a sua cultura através da oralidade. Fui influenciado, na minha infância, pelas estórias e história que ouvia contar dos mais velhos. Decidi levar parte desta oralidade para a literatura, como forma de legar aos mais novos as experiências e vivências que me foram transmitidas na infância de forma oral.
Hoje, são poucas as famílias que conservam o hábito de cantar para embalar uma criança ao sono ou contar uma estória. Já que a juventude hodierna não tem registos orais para reproduzir aos seus filhos, os livros podem ajudar a cumprir esta missão.

3- Porque é que se considera "anotador ou contador de cenas" e não gosta de se denominar escritor?
Considero que os escritores, digno desse nome, são aquelas pessoas que se cultivam para o ser. Que escrevem com profissionalismo e que vivem a fazer ficção. Eu sou um jornalista que, com alguma folga de tempo, vou procurando transcender do jornalismo à literatura. Por outro lado, eu não faço uma literatura clássica. Sou um repórter de vivências e que me sirvo da literatura para representar a realidade. Apesar de tenderem para a ficção, os meus escritos têm uma vertente vivencial. Se houvesse um meio termo entre o jornalismo e a literatura, a crónica por exemplo, é neste género que melhor me situo. Sou um cronista.

4 - Como caracteriza actualmente a literatura angolana?
O lado criativo está no bom caminho. Há maior liberdade de os escritores escreverem e publicarem sem qualquer forma de censura activa ou passiva. Regista-se também o surgimento de muitos novos escritores. Apenas há dificuldades em publicar, visto que não há uma grande cultura de leitura e, por este facto, vendem-se poucos livros. Os livros em Angola são também relativamente caros, pois não temos uma industria de papel e impendem sobre os livros publicados fora do país elevadas taxas aduaneiras. Isso faz dos escritores autênticos mendigos à procura de patrocinadores para as suas criações artísticas. Muitas vezes os escritores têm de suportar os gastos com a edição, como é o meu caso.

5-Quais são os seus escritores angolanos preferidos e porquê?
O primeiro livro que li foi "Vozes na Sanzala" de Uanhenga Xitu. Gostei do livro, gosto da sua bibliografia e da sua forma de escrever. Também admiro a escrita do Ondjaki, um escritor jovem e bastante produtivo, como admiro Jacinto de Lemos, Jofre Rocha, Roderick Nehone, Izaquiel Cori e Ismael Mateus. Há mais nomes mas prefiro citar apenas esses. Todos eles têm uma literatura cativante e tenho-os também como contadores de cenas. Uns, Uanhenga Xitu que é uma figura incontornável da literatura angolana, demonstram mais preocupação com o conteúdo do que com a forma de exposição e, às vezes, eu sigo-lhe o exemplo.

6-Acha que vale a pena incutir o espírito lusófono nos países e regiões de língua portuguesa?
A lusofonia é uma cultura. É algo existente, independentemente da dispersão dos falantes pelo mundo. Goa e Timor não estão nem próximos dos outros países lusófonos nem distantes. Estes territórios estão aí onde Deus e a aventura humana quiseram que estivessem, conservando uma cultura e língua já seculares. A língua estará lá para sempre como permanecerá em África e na América do Sul. É também importante ter em conta que a globalização aumenta a diáspora lusófona. Logo, é de incutir o espírito lusófono nos países e regiões que se expressam em português, e também noutros que queiram adoptar ou comunicar-se nesta língua. É o caso da Guiné Equatorial que vem reclamando o estatuto de membro efectivo da CPLP. Quanto à questão linguística, sou um expansionista. Venham mais falantes!

quinta-feira, março 14, 2013

IGREJA E A POLÍTICA ACTIVA

Vi, a 27.02.2013, um documentário na RTP-África sobre o comportamento da igreja Católica perante a luta pela independência em Moçambique, algo semelhante ao que se passou em Angola e nas demais colónias. No documentário, vários entrevistados disseram que os padres e bispos da Beira e Tete eram pró “indígenas” e, nalguns casos,  até apoiavam os guerrilheiros da FRELIMO, ou quando não o fizessem, pelo menos não os denunciavam à PIDE. Ouvi e vi depoimentos de ex-guerrilheiros a dizer que vezes houve em que recebiam dos padres (italianos hispânicos, nórdicos, etc.) de Tete e Beira medicamentos, comida e outros apoios. A diocese tinha um jornal que também servia de instrumento de denúncia das atrocidades de Salazar e Marcelo Caetano, tendo sido vendido após a morte do “bispo-revolucionário” que por lá andou.
Em Lourenço Marques (Maputo), porém, o bispo era um reaccionário. Era dum alinhamento impressionante com a política repressiva do Estado Novo. Foi apresentado o bispo a afirmar que “eles (os padres) eram portugueses e estavam ai por Portugal e quem assim não entendesse que fosse embora”. O bispo católico de Lourenço Marques entre 1973-74, que foi o período estudado, chegou mesmo a entregar um dos seus padres à PIDE. Ele mesmo acompanhou o agente da PIDE à casa do padre para ser investigado e interrogado.
Quantos africanos terá esse “lobo”, que ainda, torturado?
Por cá, Angola, não devem faltar clérigos que de dia usam batinas e de noite a farda dos elementos que “espancam” activistas e críticos sociais.
Basta ver quantos clérigos se intrometem em assuntos de política explícita ou partidária, esquecendo-se da doutrina bíblica que apela ao amor, perdão, compaixão, caridade e tolerância.
Há clérigos de distintas denominações religiosas que são autênticos activistas políticos deste ou daquele partido. As suas pregações e homilias não passam de comícios onde, de forma directa e aberta, propagandeiam a favor deste ou a desfavor daquele.
São esses que fazem aumentar o cepticismo dos crentes levando-os muitas vezes ao agnosticismo.

domingo, março 10, 2013

POR QUE NÃO NOMEAR EM VEZ DE NUMERAR RUAS DE LUANDA?

OLHANDO BEM,

Não tem o mesmo valor  denominar uma rua com a letra "F" ou atribuir-lhe o topónimo "4 de Abril" que tem um significado especial para Angola. A primeira forma é apenas uma letra. A segunda se refere ao dia em que se assinou a paz para Angola, depois de 4 décadas de guerra.

Na antroponímia bantu os nomes têm significados (épocas ou períodos especiais, homónimos de familiares ou personagens que nos marca(ra)m, etc.). Defendo que tal deva acontecer em relação aos topónimos, visto que há muitos heróis (vivos e defuntos) por homenagear.

Este exercício vem a propósito do que tenho estado a constatar nas Novas cidades que se erguem em Angola (destaque para Talatona, Nova Vida e outras) onde em vez de se nomearem as ruas, elas são simplesmente numeradas ou ainda nomeadas por letras.

Numa altura em que muitas ruas com topónimos do tempo colonial, que homenageavam homens que contribuiram para a nossa desgraça, ainda estão nomeadas como fazia sentido ao colono, existindo outras renomeadas mas com nomes soviéticos e ou comunistas como Lénine, Karl Marx, Engels, etc., não será inoportuno perguntar se estarão em faltam nomes em Angola dignos de serem atribuídos às ruas das novas urbanidades?!

A professora Gabriela Antunes, por exemplo, tem o seu nome atribuído a uma rua de Portugal, não acontecendo o mesmo em Angola. Terá ela contribuido mais para a afirmação de Angola e dos angolanos ou de Portugal? Isso para não falar de políticos, escritores, jornalistas, economistas, músicos, sacerdotes, juristas, filósofos, autoridades tradicionais, heróis da resistência, antigos combatentes e veteranos da pátria, kandongueiros, mágicos, médicos, etc.

Lendo o Vº volume do livro "Agostinho Neto e a independência nacional" pude aprcebere-me, de acordo com documentos da PIDE arquivados na Torre do Tombo e reproduzidos no citado livro, que já em 1972, o Presidente do conselho militar do Ghana tinha ordenado que praças e ruas de Accra tivessem nomes de figuras africanas que lutavam pala independência dos seus territórios. São citados, Agostinho Neto, Holden Roberto, Amilcar Cabral, entre outras figuras.

- Quem me pode dizer onde fica a "Rua Holden Roberto", em Angola, só para citar este nome da luta de libertação de Angola?

Figuras nomeáveis, acho que há uma lista infindável. O quê que falta para se atribuirem nomes de figuras nacionais às ruas das Novas Centralidades?

terça-feira, março 05, 2013

EDNA: UMA RARIDADE NO LESTE

Tarde de Fevereiro, 14 horas. O sol do leste de Angola quase afugenta os pedestres que a essa hora frequentam as ruas, cada vez mais movimentadas de Saurimo.
Acolhidos pelo guarda-sol, na ria principal da capital da Lunda Sul, Edna e Marcos aproveitam retirar dos livros que vendem o conhecimento que trazem. Edna é mais lesta na leitura e, apesar de frequentar ainda o ensino primário, demonstra possuir hábitos de leitura e, por isso, muitos livros já folheados.
- Posso fazer-vos uma foto junto a vossa barraca com livros ? – Indaguei.
- Está á vontade. – Respondeu Edna, numa concordância invulgar para meninas da sua idade. – Mas gostaria de saber o que vai fazer com a foto? Respondeu sorridente a adolescente, entre os 16 e 18 anos.
- Pois é. Sou escritor e alegra-me ver jovens a ler e, sobretudo a expor conhecimentos. – Expliquei, mostrando de imediato a capa do meu “10encantos” que levava comigo.
A jovem percorreu o grafismo do papel, como quem explora uma rica coutada, e rapidamente descobriu a apresentação do autor do poemário.
- É o senhor que escreveu o “manongo-Nongo”? Nem imaginava…
- Sim. Já o leste? É o meu segundo livro.
- Já, mas não era meu. Notei que até a foto que usa nas duas capas é a mesma.
De entrevistador passei a interlocutor. As perguntas e respostas vinham dos dois lados.
- E quando é que o senhor vai lançar este livro? – questionou a rapariga.
- É de poesia. - Alertei. – Deve sair em Maio, se Deus quiser. A propósito, onde é mesmo que a menina estuda? Perguntei, tentando desviar a conversa. Não gosto muito de falar sobre o meu lado artístico na rua, como quem se exibe. E já havia gente à volta, uns folheando os livros escolares e de literatura geral, outros apenas para ouvir o adulto que “paquerava” a criança.
- Estudo no 4 de Abril.- Respondeu.
Puxei pela cabeça, pelas escolas que já li os letreiros e nada. Não consegui situar a aludida escola.
- É ensino médio?
- Não. É ensino primário.
A jovem é duma comunicação fluida e daquelas que olha nos olhos do interlocutor. O jovem ao lado, Marcos, continuava com a sua leitura sem participar da conversa, apesar de aparentar ter mais idade do que ela.
- Em todo o caso, foi um prazer falar contigo. Boa sorte e continua a ler. Vou escrever um artigo porque tem sido raro encontrar alfarrabistas e leitores em Saurimo. - Despedi-me.
Edna soltou um sorriso leve e acenou em gesto de um a deus. Um até à próxima, se calhar.

sexta-feira, março 01, 2013

A MINHA QUASE MÃE

Eu
Trinta e um anos depois, nunca me passou pela cabeça descobri uma das façanhas, ainda inauditas, do meu finado pai. Ele era um homem de poucos amigos embora bastante social e aberto. Por isso não conheci os seus amigos de infância, adolescencia ou mesmo da juventude. Apenas aqueles que nos rodeavam quando comecei a me reconhecer como homem pensante. E, pior, porque aos 8 anos vi-o partir para nunca mais, sem tempo para colocar-lhe questões pertinentes sobre os seus tempos de juventude e aventuras da mocidade.
A 13 de fevereiro de 2013, cruzei com uma senhora, na casa dos sessenta ou mais anos, que me disse tachativamente que por um pouco eu seria filho dela.
E, brincava ela, que se tal acontecesse eu seria clarinho como ela…
Intrigado, perguntei se como seria possivel tal situação, eu filho dela e ela minha mãe.
E não demorou para retirar da lúcida memória:
- Tu és neto de Ngana Muriangu “Kaphuku”?
- Sim, mãe. Ainda conheci o pai do meu pai.
- Também sabes que na adolescência o teu pai se havia alcunhado de Chico?
- Sim. Soube disso já no óbito, em 1982. Um primo dele pronunciava António Chico ao se referir ao falecido. Ninguém mais sabia desse nome senão ele. Deduzi que fora uma alcunha do meu pai.
António Fernando Dambi (1940-1982)
- Já alguém te contou que antes da tua “mãe grande” (referia-se à mãe dos meus irmãos mais velhos), o teu pai teve uma mulher?
- Não, mãe (passei a tratá-la por mãe para buscar maior empatia e ela estava a gostar). Apenas sabia que tinha pretendido uma mulher antes de formar família com a mãe dos meus irmãos mais velhos.
A Senhora, alta e não muito forte, vigorosa e um pouco vaidosa,  passou a sua mão, já rugosa, mas cheia de força, sobre a minha cabeça, puxou um suspiro e disse na língua que melhor domina:
- Andono Chico, eme ngi mungaj´é ú sombili (Eu fui a primeira mulher do António Chico).
A mulher discursava na variante kimbundu que se fala na Kibala (K-Sul) e eu em português. Entendíamo-nos bem, pois eu, embora não domine a oratória da língua Bantu, percebo-a. E continuei.
- Porque não ficaram juntos? Eu também queria ser claro e alegre como você. Ironizei.
- Pois é (sempre em kimbundu da kibala), eu, na adolescência, quando nos juntamos, adoecia muito e o teu avô decidiu que devíamos nos separar. Foi por isso que ele arranjou a kimbangala e eu também “amiguei” com outra pessoa.

terça-feira, fevereiro 26, 2013

QUEM É O CULPADO PELA "VENDA" DA IMAGEM DE UM FALSO MANDUME?

O “Apostolado”, jornal católico de Angola, citando historiadores angolanos e namibianos, diz que esta imagem não é do Rei Manudume.
 “Historiadores angolanos e namibianos tentam pôr fim à controvérsia sobre a imagem do rei Mandume Ya Nemufaio.Os peritos concluem ser falso o rosto do soberano que se espalhou pelo país e o mundo. Mandume é conhecido com a imagem de um homem de grande porte físico, com o corpo descoberto e mais jovem.

No entanto, os especialistas apresentaram no recente encontro realizado no seu memorial, em Oyole, uma imagem diferente onde aparece de corpo inteiro, com uma estatura média, trajado dos pés à cabeça, muitas delas no meio dos seus soldados, armados com espingardas.
 

A própria Universidade "Mandume Ya Nemufaio" já anunciou que vai alterar a imagem que ostenta.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

A MINHA NOITE DE 22 DE FEVEREIRO DE 2002

ONDE VOCÊ ESTAVA AO PRINCIPIO DA NOITE DE 22 DE FEVEREIRO DE 2002?

Eu, nesse dia, tinha inventado uma desculpa e saí do serviço (LAC)mais cedo. Quando se deu o anúncio da morte do "Barbas" estava no bairro da Cuca, com meu amigo Kito (João Manuel). Tínhamos ido à casa da mana Rita, irmã dele, à procura do Aires o sobrinho do Kito.
 
Decidimos depois ir ao MC (Marechal Caetano, Tala Hady) ao encontro do José Ndonga que estava em casa da Namorada. Mal chegamos ao Nzamba 1 começaram os disparos festivos. Já dentro do taxi ouvimos pela rádio que o "Barbas" tinha sido abatido no Lucusse. A imensidão dos disparos e o peso da notícia fizeram com que nos metéssemos de volta à casa nnoutro kandongueiro a caminho do Rangel, onde vivíamos.
 
O resto foi só festa. Mas dias depois, seria enviado pela LAC ao Luena, reportar a chegada de milhares de deslocados que viviam em áreas sob domínio/ocupação da Unita e  acompanhar tb as "negociações" da Paz do Kamorteiro.

E fiz muitas amizades que se constituíram em excelentes fontes de informação do lado da Unita, depois da "Paz do Luena".

terça-feira, fevereiro 19, 2013

IIPD ESQUECIDA PELA RUSGA OU PROTEGIDA PELO PADRINHO?

O negócio da fé continua nos bairros de Luanda.
Se não fosse a mulher que esteve mais atenta do que eu teria chamado a polícia para “repor a ordem”. Ao ouvir os “aleluias e amens” pronunciados em sotaque brasileiro, saídos de instalações que já acolheram armazém para produtos coca-cola, igreja mundial renovada e posteriormente uma outra confissão que atende pelo nome de igreja internacional do poder de deus, só uma ideia me veio à cabeça:  “Mas esses já não foram proibidos de negociar a fé em Angola”?!
-Marido, tem calma. Esses são outros, respondeu ela, recebendo-me o telefone que já discava para o 113.
- Mas esses também não são “igreja do pastor Murras”?
- São. Melhor, devem ser. Mas esses não foram abrangidos pela ordem do governo… Respondeu ela, também ainda algo chateada com o fecho da sua “mundial do comércio da fé”, onde frequentava há cerca de mês e meio.
- Mas como foi que a comissão de inquérito se esqueceu de arrolar estes charlatões?
- Marido, não fala assim. Deve ser a igreja do Rivaldo, o jogador. Sabes com quem ele anda a negociar…
- Sim sei, mas deviam ser todos rusgados…
Esta pequena prosa, que é verdadeira, só vem mostrar que os homens da rusga contra os vendedores de fé deixaram alguns impunes e continuam a vender em alta e a granel, agora que a procura parece ser maior do que a oferta, com o fecho dos principais "carteis do negócio da fé".
Há como mandar os homens de volta ao terreno?
Por favor, mandem aos bairros pessoas com experiência da S.T. e P.C.U. do antigamente!

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

O AMOR NOS FOLGUEDOS DO MEU TEMPO

A kilata foi, calculo que ainda seja, uma forma de diversão entre populares do Kwanza-Sul (norte e centro da província).
Em tempos de guerra (anos 80 e 90), perante a ausência de formas mais evoluídas de diversão, os jovens tocavam batuques (feitos de latas, daí o nome kilata) e bujão (um tubo PVC, fechado numa das extremidades, que, quando batido ao solo, provoca uma ressonância). A estes instrumentos, muitas vezes, se juntava a viola de três cordas, também ela rudimentar, mas executada com uma perfeição e sonoridade só daquele tempo.

O cancioneiro era/é rico, e uma das canções se referia à concubina/rival.
 
Nas aldeias do municipio do Libolo, fez sucesso a canão que rezava:
- A mukajina ku ngi kwate bu xingo (bis)
- Ku ngi kwate bu xingo, eye wa ngi sange!
 

- Ó rival não me apertes ao pescoço; - Não me apertes o pescoço pois foste tu quem me encontrou já "amigada" com ele.
 
Ouvia-se ainda a canção "wombela", cujo refrão citava.
- Nange, nange, katé okyo wombela, (citava-se o nome de alguém) nange, nange katé okyo wombela!
(Tanto sobrou que foi forçado a violar alguém)

Música do Folclore kwanza-sulino dos anos 80 e 90 do sec. XX, tocada em "kilata" e outros folguedos.



sexta-feira, fevereiro 08, 2013

VILA DE KATOFE RETRATADA POR QUEM A VIU NASCER

Katofe
Lúcio Flávio da Silveira Matos é natural de Katofe, município da Kibala, Kwanza-Sul, emigrado em 1975 devido ao clima antes e pós independência, para Portugal e depois para o Brasil onde entre muitas coisas desenvolve actividade académica numa universidade. Lúcio Huambo, como também assina algumas de suas crónicas, é um homem que reflecte sobre Katofe e que narra, nas suas prosas e poesias, a saudade, os mitos e os cantares da terra que o viu nascer.
Em tempos, o Lúcio publicou um artigo que ressaltava os homens adultos do seu tempo de meninice que deram cabo dum leão. Foi o motivo que accionou a minha já desperta curiosidade, resultando numa entrevista que tenho o prazer de publicar nesta página.
Caro Lúcio, Havia uma cidade, pequena, mas com este estatuto ganho em 1974, que é a Kibala. A dez quilómetros erguia-se a vila de Katofe com igreja sumptuosa e casas magestosas (naquele tempo) que comentário?
Comentário: O meu blog inclui uma resenha histórica, intitulada "A décima ilha", escrita pelo meu pai - com heróicos 92 anos feitos em Novembro de 2012 - em que ele narra a lenta mas sempre progressiva colonização açoriana na região do Katofe. A igreja que consideras "sumptuosa" realmente foi o último fruto de um progresso que se considerava imparável, à época; o meu próximo post abordará a evolução da arquitectura da igreja que teve três versões. A primeira foi uma pequena ermida sem torre de sinos (sineira) e a segunda já tinha uma torre com sinos, mas em 1964 mostrou-se exígua para o povo que a frequentava aos domingos e dias de Festa do Divino Espírito Santo, quando havia muitos forasteiros. O progresso das casas foi paralelo ao da igreja; as primeiras casas do Katofe foram de pau-a-pique, depois de adobe, e as primeiras casas de tijolo cerâmico cozido foram erigidas a partir de 1962. A casa de dois pisos no início da povoação, construída pelo Kimbaça Emílio Dias, um dos três pioneiros açorianos, era de adobe e foi construída no início da década de 1950. Ali, era a primeira pousada dos colonos que iam chegando livremente dos Açores, sem quaisquer apoios do governo português. A minha família só se mudou da casa de adobe para a de tijolo cerâmico em 1968. A luz eléctrica foi instalada na povoação em 1966. Ainda, em 1975, quando fomos obrigados a sair pela guerra civil, a nossa geleira funcionava a petróleo.

Katofe era uma colónia agrícola?
Resposta: Era uma colónia agro-pecuária, essencialmente baseada na pecuária de laticínios, que foi implantada de forma livre e espontânea por três açorianos que primeiro viveram alguns anos na Quibala. Ao se fixarem no Catofe, mandavam notícias para os Açores e assim de forma livre se foi estabelecendo um fluxo migratório por afinidade de famílias e não por incentivo governamental. A leitura do supracitado artigo do meu pai vai esclarecer muitas questões que tenhas sobre o desenvolvimento do colonato.

Eram os não nativos todos ou maioritariamente açorianos?
Resposta: Os colonos eram todos açorianos; havia cerca de setenta famílias originárias da ilha de S. Jorge, nos Açores. Entre os colonos havia dois da ilha Graciosa e um da ilha Terceira que casaram com mulheres jorgenses que já se encontravam no Catofe. Esses colonos não-jorgenses vieram originariamente para o Kwanza Sul para trabalhar na construção dos colonatos que o governo colonial resolveu implantar na Cela, a 60 quilómetros. Contudo, ressalte-se que nos colonatos estabelecidos pelo governo inicialmente era proibida a utilização de mão-de-obra nativa, enquanto no Catofe, por ser de colonização livre, os trabalhos de agricultura e pecuária eram feitos com a cooperação de mão-de-obra nativa.
Qual era a ocupação principal daquelas famílias?
Resposta: A ocupação principal sempre foi a pecuária de leite. Inicialmente, houve muitos revezes. O progresso começou a fazer-se sentir a partir de 1965, quando a ELA - Empresa de Laticínios de Angola, com sede na Cela, foi estabelecida com capital acionário igualitário do Estado, firma portuguesa Martins & Rebelo e dos lavradores das regiões da Cela e Catofe. O posto de laticínios construído no Catofe era só destinado à recepção de leite, que era encaminhado refrigerado em camião-tanque para processamento na fábrica da Cela.
Que outras infra-estruturas havia à data?
Resposta: As principais infra-estruturas estabelecidas até 1974 eram a escola, o internato escolar e o posto de saúde, todos frequentados também por população autóctone. Havia previsão para estabelecimento de uma agência de Correios na década de 1970, o que não se realizou até hoje.
Havia uma administração da vila?
Resposta: Não havia uma administração da vila. Os colonos organizaram uma cooperativa que era a principal voz representativa, através do seu presidente, junto às autoridades governamentais.
 
Como eram as relações entre os filhos dos brancos e dos negros de Katofe?
Resposta: Posso considerar boas com tendência a melhorar muito. A integração era maior no futebol, com a equipa da povoação, de brancos e negros, a realizar frequentes jogos nas cinco aldeias mais próximas, à volta da povoação - Hombe, Songue, Kikula, Kassala e Katoka; segundo relatos de quem foi ao Catofe, essas aldeias não existem mais.

Quando foi que a vila de Katofe começou a ser fundada?
Resposta: Penso que no início da década de 1940, com os três pioneiros André de Oliveira, João de Oliveira e Emílio Dias. O André de Oliveira morreu nos primeiros anos vitimado pelas febres, pois o terreno na época era bem infestado por mosquitos e mosca-do-sono.

Lembra-se dos primeiros habitantes não autóctones de Katofe?
Resposta: Os três pioneiros foram André de Oliveira, João de Oliveira e Emílio Dias. Depois, juntou-se a eles Vicente Teixeira de Matos, o meu pai, que foi apelidado pelos autóctones de Kilamba.

Por que razão foram lá parar (idos dos açores ou outros pontos do distante Portugal continental)?
Resposta: Os três pioneiros foram André de Oliveira, João de Oliveira e Emílio Dias foram inicialmente para Kibala trabalhar para o Capitão Sandão, que era um militar açoriano casado na Kibala com uma nativa negra e vários filhos; resolveram tornar-se independentes e estabeleceram-se nas baixas do Katofe porque, segundo as informações colhidas na Kibala, havia ali bastante terra livre e boa para a criação de gado leiteiro, que é a vocação primordial dos jorgenses. Depois, juntou-se a eles Vicente Teixeira de Matos, o meu pai, que foi apelidado pelos autóctones de Kilamba. O meu pai foi encontrado no serviço militar no Huambo, onde o meu avô paterno tinha uma fazenda perto do Forte da Quissala; o meu pai foi para Angola atrás do pai, tendo abandonado os estudos em Portugal, quando ia fazer o curso de Veterinária. Quando foi convidado para ir criar gado no Katofe, mal saísse definitivamente do quartel, e bem longe do pai, ele não titubeou, afinal era um jovem de vinte anos.
AS FÁBULAS DO LÚCIO
O Lúcio Silveira tem estado a publicar no seu blog, MUKANDAS DO KABIÁKA, poemas com conteúdo que retrata Angola e fábulas da nossa terra (Angola). O meu entrevistado não descarta a possibilidade de converter as lindas e ricas fábulas em livro impresso. Quanto à poesia, o livro está a caminho da gráfica.

domingo, fevereiro 03, 2013

FINALMENTE UM MURRO NA MESA: VENDEDORES DE FÉ SOB OLHO DO GOVERNO

Em finais do século XIX Angola era tida pelo sociólogo Émile Durkhein como “um espaço aberto à evangelização”, dando vazão ao surgimento dos Metodistas, Evangélicos, Baptistas e, mais tarde, igrejas messiânicas de origem africana.
Até ao final do século XX, Angola já não era aquele "corpo carente de evangelização", pois, apesar da guerra civil, os cristãos e até mesmo muçulmanos tinham preenchido todos os “espaços vazios”. Tudo o que veio a seguir, embora se apregoe como fé e tenha aderentes, é mais fruto de cisões e negócio com a crença alheia. Ou seja: uns crêem numa solução divina para seus fardos terrestres, através da confissão religiosa, e outros lucram com a “cegueira” alheia, prometendo um paraíso imediato na terra e solução de males como a pobreza.
O “negócio da fé” nunca prosperou tanto em Angola quanto nos últimos 20 anos com a Maná, Iurd e toda a gama de renovadas que surgem como cogumelos em principio da temporada chuvosa.
Era, e é, preciso pôr cobro à situação. Há gente que de tanto sofrer procura nas “igrejas” a solução e acaba ainda mais arruinado com falsas promessas de decuplicar os rendimentos caso deposite nestes vendedores de fé os seus já parcos bens. Uns surgem do Brasil e outras proveniências com uma Bíblia a cobrir a genitália e uma das mãos a tapar a nudez na bunda, mas remetem, todos os dias, avultadas remessas de dólares aos seus países de proveniência onde têm vidas de Lord.
Finalmente, embora de forma bastante tímida, alguém bateu por cima da mesa e exibiu uma cartolina amarela às "igrejas do pastor Murras" . Nem me ocorria pensar que só as "mundiais" já vão próximo de uma dezena!
A Iurd fica 60 dias sem “comercializar” fé, de forma aberta, decidiu o Governo angolano, em nota publicada no sábado, 02 de Fevereiro, enquanto as mundiais ficam interditas de “vender” o que não têm.
Fruto dum inquérito mandado instaurar pelo presidente da república, “a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é responsabilizada pelo incidente ocorrido a 31 de Dezembro passado, no estádio da Cidadela Desportiva, que provocou a perda de vidas humanas e decidiu suspender a actividade da organização religiosa por 60 dias e argumenta que perante a gravidade dos factos o Executivo decidiu que a matéria dos autos seja remetida à Procuradoria-Geral da República para o aprofundamento das investigações e a consequente responsabilização civil e criminal”.
Segundo o documento a Comissão de Inquérito constatou que o incidente deveu-se à superlotação no interior e exterior do Estádio da Cidadela, causada pela publicidade enganosa, consubstanciada no slogan: “O Dia do Fim –venha dar um fim a todos os problemas que estão na sua vida; doença, miséria, desemprego, feitiçaria, inveja, problemas na família, separação, dívidas, etc. Traga toda a sua família”.
O Executivo faz saber ainda que “em virtude de se constatar que as Igrejas Mundial do Poder de Deus, Mundial do Reino de Deus, Mundial Internacional, Mundial da Promessa de Deus, Mundial Renovada e Igreja Evangélica Pentecostal Nova Jerusalém, apesar de não estarem reconhecidas pelo Estado angolano, realizam cultos religiosos e publicidade sejam interditadas de realizar quaisquer actividade religiosas no país”. Já Iurd, que numa actividade levou à morte 17 pessoas no final do ano, fica suspenda de efectuar o seu “comércio de fé e curas milagrosas” durante 60 dias.
A nota avança que “a suspensão e a interdição referidas nos pontos 2 e 3 sejam fiscalizadas pelos Ministérios do Interior, da Justiça e dos Direitos Humanos, da Cultura, da Administração do Território e da Comunicação Social e pelos Governos provinciais, devendo vigorar enquanto durarem as investigações pela Procuradoria Geral da República…”
Aleluia irmãos!

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

O ANO EM QUE OS PALANCAS NÃO "VIRAM O PAPA"

Foram 14º no CAN-2013 entre 16 equipas
Não encontrei outra analogia senão essa: “ir ao CAN e não marcar sequer um golo é o mesmo que ir ao Vaticano e não ver o Papa”.
Os palancas negras, designação oficial da selecção angolana de futebol, estiveram pela sétima vez numa fase final do campeonato africano de futebol, CAN, e, por mais incrível que pareça, sofreram mas não marcaram nenhum na baliza contrária.
Os jogadores da selecção angolana empataram a zero, em jogo contra o Marrocos; perderam por zero-dois, em partida contra os anfitriões, África do Sul; e perderam por um-dois, frente a Cabo-Verde, sendo que os três golos foram marcados por jogadores cabo-verdianos, um dos quais auto-golo.
Em sete participações, essa de 2013 foi a mais desastrosa, sendo as melhor conseguidas a participação do Ghana e a de Angola (2010) em que a seleção passou à fase de eliminatórias directas (4ºs de final).
Nada mais havendo por relatar, senão engolir a mágoa por termos uma das mais fracas selecções do continente, resta pedir àqueles que pensam futebol para apostarem nos palanquinhas. É no trabalho com os mais novos que pode residir a nossa alegria.
Mãos ao trabalho!

segunda-feira, janeiro 28, 2013

UM POUCO DE RESPEITO PELOS MORTOS NÃO FAZ MAL

Sou dum tempo em que óbito não era lugar para crianças e os jovens recolhiam-se, pesarosos, ao ver um cortejo fúnebre passar. Os mortos mereciam muito respeito e as campas, por serem últimas moradas dos de cujos, eram também respeitados.
Os tempos me parecem ser outros. Os a vida evoluiu e eu fiquei estagnado no tempo ou as coisas desandaram e eu cultivo modos que muita juventude desconhece.

Desloquei-me ao Alto das Cruzes, para “partilhar a dor”  de alguém que perdeu uma ente querida. Entre vândalos que pisam campas “alheias”, num desrespeito total aos finados e aos familiares, muitos aí presentes, uma idosa cuja atitude diária chamou-me à atenção.
 
Pipa, o filho dela, foi morto (assim reza a lápide) em Fevereiro de 1976, aos 17 anos. Pela foto, o jovem era militar. A sua campa diferencia-se das outras por ter o terreno adjacente pintado de cinza metalizada e a óleo. Há vasos com flores naturais e folhas verdes bem cuidadas. Não se vê poeira em canto nenhum daquele túmulo que se parece a uma casa. A idosa, desde Fevereiro de 1976 que faz companhia ao jovem soldado todos os dias, pelo menos trinta minutos. Já não chora. Chega, vassoura, balde d´água e pano de pó na mão: rega as plantas, limpa o pó, recolhe as folhas secas, senta num banquinho, olha para a campa, projecta um reencontro, que espera para breve, e faz uma oração.
 
E, comovido, chorei.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

QUEM MAIS TRANSFERE DÓLARES VIA WESTERN UNION?

Estou numa agência bancária e, como sempre, vejo muitos rapazes e raparigas a serviço de brasileiros (sobretudo teólogos), chineses, vietnamitas, portugueses e oeste africanos nas filas para transferências bancárias, via Western Union.
Cada estrangeiro, em média, transferem entre USD 5000 a 10.000, servindo-se de cidadãos nacionais pagos a preço de banana, o que multiplicado pelo número de vezes em que são vistos nos bancos, onde até já se tornaram familiares e constituíram amizades, pode dar em altas somas por mês.
Perguntar não ofende a ninguém:
- Onde tiram estes estrangeiros tanto dinheiro que remetem aos seus países?
-  O governo angolano, através das instituições financeiras e de ordem e segurança, controla estes traficantes?
- Que dizer dos nossos inertes explorados por chineses, revendidos aos angolanos, cujo o dinheiro vai para China?
- Pagam impostos?

sexta-feira, janeiro 18, 2013

SAURIMO: PRIMEIRA BIBLIOTECA PÚBLICA ESTÁ EM CONSTRUÇÃO

As obras caminham a bom passo e o edifício de dois andares, que se ergue defronte ao prédio que acolhe as direcções provinciais e outras repartições de serviços públicos, já tem as paredes erguidas, restando apenas a pintura, acabamentos internos e apetrechamento.
 A construção da Biblioteca Municipal de Saurimo é resposta a um vazio que se fazia sentir na cidade há já muito tempo, depois da degradação e desmantelamento da Biblioteca deixada pelo colono. “Quando terminar será um alívio para a juventude estudantil” disse entusiasmado Manuel Mutale, 25 anos, estudante da Escola Superior Politécnica, afecta à Universidade Lueji a Nkonde.
Tudo quanto se sabe, o apetrechamento da mesma em livros não será bico d´obra, uma vez que a municipalidade possui um acordo de geminação com a câmara de Trás-os-Montes, Vila Real, que tem já fornecido apoios do género à apêndice da Universidade pública e escolas secundárias da província. “Neste momento há mais de 60 mil títulos doados pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, no quadro do acordo de cooperação existente entre Saurimo e aquela autarquia portuguesa”, disse uma fonte ligada à ULAN. Grande parte dos livros estão por catalogar na biblioteca da Escola Superior que se debate com a falta de bibliotecários especializados e espaço físico, avançou a fonte.
A falta de uma biblioteca pública é um dos factores que contribuiu, até aqui, para os baixos indices de leitura entre os jovens e adolescentes, na capital da Lunda Sul.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

POBRE COM DINHEIRO EM JANEIRO É HOMEM(?)

- Trim, trim, trim… o telefone tocou. Na linha um amigo.
- Epá, fazes-me um reforço? A balança desequilibrou-se.
- Mô mano, estou mal. Lamento...
Nem terminou a conversa. Noutro telefone, pi.rim.rim.rim.rim.rim.rim… outra chamada. Na linha uma amiga de longa data.
- Epá posso fazer-te um pedido? És único amigo que me podes ser útil. Estou pior do que uma gata…
- Vai, fala amiga. Espero que a tua preocupação esteja ao meu alcance.
- Yá. Estou mal. Me empresta só dinheiro.
- Hum! Para pagar quando?
- Não sei, mas estou mal. Já nem dinheiro para táxi tenho.
- Amiga, esse pedido chega em hora imprópria… Tenho propinas dos miúdos. Sabes que tenho uma prole elevada…
- Yá entendo, mas…
Ufff. Até já dizem que pobre com dinheiro em Janeiro é Homem.
- Por que será que nesta fase todos estão sem reservas?
- Que tal passar a guardar o dinheiro do ordenado de Dezembro para ser gasto em Janeiro?

domingo, janeiro 13, 2013

O TI DOMINGOS MORTELADO

Era procedente do planalto angolano. Não se sabia se do Huambo ou Bié porque nunca o perguntamos e ele também nunca nos explicou, talvez porque se julgasse irrelevante. Angola não é dos angolanos? Que importa o local de nascimento se nestes 1246700km2 cabemos todos nós e mais uns tantos "chinocas" que já nos dão sobrinhos?

Uma arma destruidora bastante usada na
guerra civil
 O tio Domingos Mortelado não tinha um dos pés, perdido na guerra (calcula-se que tenha sido a guerra pela independência), em sitio e circunstancias que só ele sabia. Vivia da sua lavra e do esforço de sua mulher e filhos. Era único na aldeia a usar muletas embora fizesse quase tudo. Cortava lenhas, capinava e também tomava o seu copo com os outros homens da aldeia. Apenas não podia trabalhar na fazenda onde a labuta era mais agreste.
Todos os miúdos e miúdas da aldeia contígua à fazenda Israel (Libolo) hoje reagrupada e denominada por Pedra Escrita, tratavam-no por tio Domingos Mortelado. Até parecia que Mortelado fosse seu apelido. Nunca alguém questionou porque era mutilado e porque era assim tratado.
Perguntar? A quem? Havia espaço para tal?
- Podia ser entendido como uma discriminação o que era impensável naqueles tempos.
E a vida corria bem. Ti Domingos Mortelado p´ra cá, ti Domingos Mortelado para lá. Sem que ele se importasse do cognome.
Hoje já não vive. Mas fica na saudade de muitos miúdos e miúdas do meu tempo que só mais tarde se aperceberam que Mortelado não era seu nome, mas a condição que a guerra lhe tinha imposto. Na verdade ele era o tio Domingos, o mutilado.

terça-feira, janeiro 08, 2013

UM OLHAR AO MOVIMENTO LITERÁRIO NA LUNDA SUL

Uma cronologia* elaborada por Tomás Lima Coelho e Manuel Seca Ruivo, que lista os escritores angolanos desde o surgimento do primeiro livro escrito por um angolano (José Maia Ferreira), em 1847, até ao presente, ilustra que entre os cerca de 600 autores angolanos apenas 04 são da Lunda Sul a saber: Bula Mbungue, Fonseca Sousa, Valter Hugo Mãe e Victor Kajibanga. É Obvio que o estudo ainda recebe contribuições para se seja o máximo realista, mas é um indicador que nos deve preocupar e levar à reflexão.
Enquanto capital do distrito, no tempo colonial e capital de província de 1975 a esta parte, Saurimo teve sempre um ensino liceal e não faltou a diáspora académica ao longo dos tempos. Porém, apesar destes condimentos que são a formação intelectual e a criatividade que propiciam a existência da literatura, o número de escritores da província é de 04 e se juntarmos os escritores das duas Lundas teremos apenas um total de apenas 9 escritores. São ainda muito poucos os que mostram a cara através da escrita criativa ou académico-cientifica.

Só para se ter uma ideia, o Huambo tem 51 escritores listados; Benguela tem 47; Malanje, aqui ao lado, tem 32. O Kwanza-Sul tem 18; Cabinda tem 07; Moxico tem 09 e apenas Kwando-Kubango e Kunene têm cada 02.

Daí que julgo ser necessário pensar-se numa solução. É preciso incentivar os jovens a criar e registar em papel aquilo que criam. Mas, antes, temos de incutir nas crianças e jovens o hábito da leitura, do debate, da reflexão e do uso correcto da língua em que trabalhem: seja a língua herdada do colono (português) ou as nossas línguas de origem bantu. Julgo ser este o caminho para que possamos fazer crescer o número de escritores na província e no país.

É ingente que os jovens os mais velhos escrevam e publiquem as suas experiências e memórias, merecedoras de serem legadas às novas gerações. É urgente que os nossos professores “reinventem” o saber científico, o registem e publiquem.

É preciso também que as instituições públicas e os empresários locais apoiem aqueles que já escrevem para que possam publicar e servir de mola impulsionadora dum movimento literário ao nível da província.

Não havendo quem escreve, porque não habituamos as crianças a ler e a praticar a escrita, temos de fazer uma analogia com o futebol: É possível aspirar a primeira divisão nacional sem jogadores em quantidade e qualidade na praça local?

Se calhar, a solução seja criar uma espécie de “núcleos de leitura, debate e escrita” que nos darão talentos que nos permitam, no futuro, ombrear com os grandes que também tiveram de gizar políticas de formação, formal ou informal, ostentando hoje fama e a tradição que têm. Benguela é um exemplo no campo literário para não falar de Luanda.

Buscando o exemplo de Benguela, há dois anos que o governo daquela província instituiu o Prémio Provincial de Cultura e Artes, uma versão local do Prémio Nacional. Os vencedores de cada uma das sete categorias recebem Kz 700 mil. Sabendo que o artista que se empenhe com qualidade pode ganhar no principio do ano esse dinheiro, quem é que não escreve? Quem é que não pinta, quem é que não esculpe, quem é que não cria moda, quem é que não investiga sobre a nossa tradição e costumes do nosso povo? Quem é que não canta e quem é que não dança?

Entendo que não basta que existam as instituições artísticas sem o essencial que são os artistas porque já é sabido que sem panela não se faz o funje.

Sem leitores nunca teremos escritores.


(Texto escrito a propósito do dia da cultura nacional que hoje se assinala em Angola)
 
* Autores de Angola: Naturalidade e bibliografia (ebook), no prelo.