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domingo, maio 21, 2006

A ÁFRICA DOS NOSSOS DIAS


Várias vezes perguntei aos colegas da licenciatura em História se já tínhamos a África dos grandes poetas nacionalistas e dos políticos dos anos 50, 60 e 70 do sec. XX?
Esta pergunta sempre colocada de propósito para criar debate, nem sempre colheu um consenso na turma. Uns dizem que sim e outros dizem que não.
Para mim, a questão principal é que desde os primórdios da presença estrangeira no continente (sec. XV) que o mesmo vem dançando uma música alheia. Eu me explico.

De guerra em guerra, de fome em fome, de golpe em golpe, de catástrofe em catástrofe, assim vai o continente cuja organização de países independentes assinala a 25 deste mês 43 anos de existência. Pior ainda porque o continente se foi endividando ao mesmo tempo em que as suas riquezas foram sendo saqueadas. Primeiro pelos colonialistas, depois pelos mentores da guerra fria, depois ainda por interesses inconfessos de determinadas potências e por fim, por africanos corruptos que se endinheiram com bens públicos enquanto o povo vai minguando dia após dia.

A OUA agora transformada em União Africana que tem a NEPAD (Nova parceria ecónomica para o Desenvolvimento D’África) como escudo de combate à fome e miséria precisa ainda de um empenho maior dos líderes políticos do continente e das sociedades civis organizadas. Graçam-nos ainda a impunidade a corrupção e a ausência de transparência. Muitas são ainda as liberdades cerceadas e grande é o fosso entre os géneros. São ainda desafios da União Africana a pacificação da região dos grandes lagos, do Sudão (Darfur), da Somália e Casamance (Senegal). Permanece ainda o conflito fronteiriço entre a Etiópia e a Eritreia e está ainda por acontecer a autodeterminação do Sahara Ocidental (RASD) ocupado pelo Marrocos.

Faltando dias para o meu aniversário que é também o de África (25 de Maio) abro os livros de História e releio o que diziam W. Du Bois (pioneiro do Panafricanismo), Senghor, Kaúnda, Lumumba, Keniata, Touré, A. Neto, A. Cabral, entre outros africanistas que proclamavam uma África multinacional e multi-etnica que fizesse frente aos estragos causados pela Conferência de Berlim (1884/5) que a dividiu com esquadro e régua para alimentar apetites meramente doministas, expansionistas e exploratórios, dividindo povos, culturas e famílias. Ao continente foi imposto um tráfico negreiro durante séculos que resultou na punção demográfica que se verifica ainda hoje.

Se formos mais profundos e reconhecermos que países houve que propunham nas suas constituições renunciar o próprio Estado-Nação a favor de Uma Grande Nação Africana saída de Adis-a-Beba (Etiópia 1963), então estamos em presença de “Uma união por acontecer(?)”. O que me parece termos, no momento, é a África profetizada por A. Neto que é “um corpo inerte onde cada abutre debica o seu pedaço”.
Perante tal situação, parece-me que o recurso para que os pedaços que restam caiam em nossos pratos é apenas um:
- Estudar, estudar e transformar os bocados que restam em boa sopa que alimente bocas famintas, em mantas que agasalhem milhares e em habitações que protejam milhares da chuva, do frio e doutras intempéries.

Essa é a minha luta, a sua luta, a nossa luta enquanto jovens.
Soberano Canhanga

domingo, abril 30, 2006

O POVO É QUEM MAIS ORDENA!



Continuam a cantar, e com razão, os portugueses que “ o povo é quem mais ordena”. Pois é. Aqui também em Angola sempre se disse e diz-se ainda que “ quem manda é o povo”. Não interessa, aqui e agora, lembrar o slogan por completo, ou perguntando “ e quem é o povo”. O povo é povo, e este quando mandatado para mandar, manda; Assim foi no dia 25 de Abril.

Fazendo jus ao ditado dos genitores do 25 de Abril, ou seja, da Revolçução dos Cravos, os homens da Cultura da Nova Empresa em que labuto, organizaram um concurso de poesia com um juri popular.

Queriam fazer brincadeira e não ter a chatice de ouvirem as habituais acusações de batotas e muito mais, por parte dos perdedores. Beneficiados sairiam apenas aqueles que tivessem já claques constituídas.

Entre brincar e ganhar sete “poetas” se increveram para recitar poemas alheios ou de sua criação. As claques foram batendo palmas, e doutro lado o apresentador que é homem há decadas ligado a eventos culturais ia puxando a brasa para o que achava estéticamente belo e original.

Não foi que na hora do “quem ganha” houve empates? Dois segundos lugares e dois quintos. Feitas as contas, todos saíram a ganhar. O juri popular nunca é batoteiro e o povo é quem mais ordena.

Valeu um quinto lugar para o neófito Soberano que conseguiu fazer claque para os próximos jogos!

Por: Soberano Canhnaga

sábado, abril 29, 2006

O QUE ACHA DOS 365 DIAS DO OLHO ATENTO?

Precisamente hoje. O Olho Atento completa um ano de existência. Pelo caminho compreensões e incompreensões. Paragem como aquela entre Junho a Agosto/2005. Uma infertilidade em Novembro (viu mas não publicou). Alguns elogios. Etc.

Viu e contou assuntos como “Se a Ilha falasse...”, “Incontinências”, “10encantos”, “Cânticos anónimos”, publicou provérbios, etc., e criou links como:
http://10encantos.blogspot.com
http://olhoensaios.blogspot.com (contendo trabalhos académicos e profissionais e Adágios em língua Ngoya).
Foi citado pelo Jornal digital http://angoladesporto.com e pelo blog http://desabafosangolanos.blogspot.com, etc.

Você que é leitor do Olho Atento, faça a sua apreciação sobre este ano de existência. Deixe-a no post a comment.

Por: Soberano Canhanga

quarta-feira, abril 26, 2006

RETORNARÁ NANDÓ AOS TEMPOS DA CCPM?


Quem viu integralmente, in situ ou pela Televisão angolana, o debate parlamentar sobre as doenças que afactam os angolanos, com realce para a cólera, paludismo e DTS’s, viu um Nandó mais solto ao falar. Um Primeiro Ministro que comunicou aos deputados e angolanos que o assistiram pela TPA, diferente daquele Nandó “cabulador” que estudava mal as perguntas e respondia-as lendo.

Siceramente, o Primeiro Ministro terá ouvido, para a defesa de tese que fez no dia 25 de Abril, o grito do Isamel Mateus lançado no Cruzeiro do Sul que reclamava "um Primeiro Ministro mais comunicativo". E está aí. Catorze anos depois, Fenando da Piedade Nandó, já nas vestes de “sub-chefe” do governo fez recordar o Nandó amado que era o Vice-Ministro do Interior, aquele da CPPM. Comunicativo, de poucos verbos e sarcástico. Um Nandó Sábio e sabedor do que dizia. Por isso colhia aplausos em vez de vaias.

O Nandó que vi ontem mostrou-se isso mesmo. Falou curto e foi objectivo. Mostrou que tinha a lição bem estudada e respondeu, uma a uma, as questões e questiúnculas dos deputados da oposição.

O Primeiro Ministro que me parece não gostar muito de matemática, pecou apenas nos %s (por centos). Até do calão se serviu, não para baixar de nível, mas para se fazer entender. Disse que “dos dois biliões da China um bilião e oito centos já foram torrados”. Pareceu-me que tomou nota das perguntas como numa prova oral e respondeu-as de seguida sem titubear.

Se os políticos estão condenados a receber mais vaias do que aplausos, desta vez o Primeiro dos Ministros recebeu aplausos. Ninguém ou poucos se sentiram entrujados.


Soberano Canhanga

sexta-feira, abril 21, 2006

OLHO está ATENTO

Luciano Canhanga retomou o seu blogue Olho Atento, a partir de Luanda, Angola, depois de um grave acidente de viação. Não sei classificar muito bem o seu blogue, mas ele mistura bem, como se fosse um sábio, jornalismo com literatura. E, por uma associação rápida, lembro-me do livro que acabei de ler, o de Lobo Antunes, sobre o seu tempo em Angola, durante a guerra colonial. A magia da terra angolana, reconhecida pelo escritor, revê-se neste blogue.

Por ele se fica a conhecer a realidade angolana, quiçá muito diferente das versões oficiais que nos chegam. Em suma, dificuldades do dia a dia dos angolanos (que eu conheço com mais de trinta anos de distância). Basta ler este bocado da sua escrita: "Parece-me que vivem duas categorias de pessoas em Angola. Os Homens (governantes e clientes) e os Selvagens (nós os simples mortais)".

Creio valer a pena espreitar o seu blogue. Repito sempre isto: foi uma enorme alegria eu ensinar ao Luciano os rudimentos de ligação à blogosfera. Longa e feliz vida para ele.
Colocado por Rogério Santos ( Profesor da Univ.Católica Portuguesa) at 12/17/2005 12:01:00 PM
http://industrias-culturais.blogspot.com

segunda-feira, abril 10, 2006

EU, Soberano, DIGO...


Quando disse que era preciso repensar a Igreja, muitos chamaram-me Ateu... Porém, noto hoje que aqueles que conhecem os meus ideais já compreendem que tudo o que fiz foram reflexões profundas sobre um bem social, a religião, e a melhor forma de nela estar.

Parti sempre da refutação, para me submeter a uma introspecção. Exercício que recomendo a muitos.

Lembro, agora, que mesmo os mais incrédulos e amigos da "vida" concluem que a Igreja (religião) é um contrapeso aos excessos da carne. Por isso, é boa pelos valores que prega e cultiva, embora apareçam nos dias hodiernos algumas seitas emergentes desviantes.

Uma vez postos nela (Igreja), logo nos damos conta de que vale sempre a pena aderir, porque Deus é bom, Suas promessas têm realização.

Pois o tempo e os homens passam e assim como nos dias de Noé, os nossos também estão próximos do fim que pode acontecer a qualquer hora e de forma menos esperada.

Por:Soberano Canhanga

terça-feira, abril 04, 2006

Pergunta de Abril


Quatro anos sem tiros...
A assinatura do memorando de entendimentos do Luena, em Abril de 2002, levou os angolanos a consentir cedências em nome de um bem maior, a paz. Assim é que Elementos que ajudaram a destruir o país foram gracejados de bens e etc.

No computo geral, Valeram ou não as cedências consentidas? Que mudou na sua vida de 2002 a esta parte?

Na foto os Generais Armando Cruz Neto CEMG/FAA e Geraldo Kamorteiro Forças militares da UNITA

Por: SoberanoCanhanga

segunda-feira, abril 03, 2006

QUANDO AMADORES FAZEM O TRABALHO DE CASA...


Sinceramente a nossa televisão é um caso raro...

Quando escrevi que a nossa televisão era um embuste muitos não acreditaram.
Viram o que nos fez ontem com os jogos de futebol do Petro e do Inter?

Por uma alegada anomalia não foi possível passar a segunda parte do jogo do Petro, na cidadela. E que tal do Jogo do Inter que também não foi mostrado? Outra anomalia? Ou é a propria TPA que é a grande anomalia?

Ainda se duvida que a TPA cedeu o lugar cimeriro ä multi-escolha?
E, a propósito, que anomalia foi essa que não permitiu mostrar o jogo do Petro de Luanda?
Ou não será dessa que os milhares de telespectadores que por amor ä camisola ainda se esforçam em ver a TPA terão o esclarecimento?




Por: Soberano Canhanga

quinta-feira, março 23, 2006

A "banalização" da notícia nas FM's



Diz o B+a=ba do jornalismo que é um dos critérios de valorização da notícia ou de noticiabilidade de um facto, a sua proximidade (geográfica, ideológica, cultural, enfim). Geografia significa a identificação entre o homem/receptor e o facto.

À medida que a distância se for prolongando, mais a importância se dilui no espaço, restando apenas pequenas ilhas (exemplo: alguém do Huambo residente em Luanda ou de Luanda com familiares no Huambo se interessar por questões domésticas de lá).

No caso das rádios em FM este que seria um elemento de apego no alinhamento das notícias, há muito se perde. É só ouvir noticiários abertos com reparação de uma estrada terciária em Cabinda ou sobre um seminário qualquer no Lubango, ou roubo de carro no Moxico, e outras "coisinhas" em Benguela, quando em Luanda, onde está a Rádio, os marginais ensaiam todos os dias técnicas para “receber” telemóveis, mas não se diz aos ouvintes que precauções tomar. Quando as estradas se tornam picadas e não se noticia, quando assaltantes fogem da cadeia e também não é notícia.

Neste gritar para quem não nos ouve, uma coisa me ressalta à vista. As FM's de Luanda foram nos últimos tempos “assaltadas” por jovens oriundos das províncias de Benguela, Cabinda e Huila, possuidoras de congéneres. Estes, como que puxando a brasa para a sardinha vão, nos seus alinhamentos, priorizando factos relacionados com as suas zonas de origem em detrimento de notícias locais, repletas de interesse público.

Note-se que que "o ouvinte interessa-se mais em saber sobre o vidro quebrado da casa do vizinho do que a queda de uma casa longe de si".

Perante o facto estaremos a viver um desconhecimento das regras elementares do jornalismo ou apenas uma “banalização ” do que é notícia?
Uma pergunta que abre o debate.



Por: Soberano Canhanga

quinta-feira, março 09, 2006

A OFERTA DO PR (em Cabinda) E AS PALMAS QUE SAMAKUVA NÃO TEVE

Dois acontecimentos marcaram os três últimos dias.

Cabinda vai ter uma nova cidade, há 15 quilómetros da actual cidade, no Yabi. “Serão 44 edifícios de cada 15 andares que perfazem um total de 5 mil vivendas com padrão de vida semelhante ao da Europa e Ásia”. Pelo menos foi o que disse o chinês da C.I.F.

Para facilitar a transportação dos materiais de construção e outras mercadorias de Luanda a Cabinda e Vice-versa, “o Presidente da República ofereceu duas embarcações à Província”. Isso foi o que disse André Brandão, o ministro dos transportes e é exactamente aqui que o pico atravessa a garganta.
Será que o Presidente ofereceu mesmo, comprando as embarcações do salário dele ou na condição de gestor principal do erário Público (Chefe do Governo) ordenou que se comprasse com o dinheiro do país dois barcos?

A outra situação que não podia escapar ao olho atento foi o discurso de Samakuva na abertura da quinta reunião da Comissão Política da UNITA. Até que começou bem com as mulheres a oferecerem flores brancas, simbolizando a paz que precisamos, e os homens da UNITA a ripostarem com a mesma moeda. “No teu dia, mulher recebe este bouqué”.

Porém, na hora do Viva fulano, viva sicrano, Samakuva não evitou vaias femininas. Alda Satchiambo (secretária do galo no Huambo) e Lizete Pena (viúva de Salupeto Pena e embaixadora na Polónia) são exemplo de mulheres que não se deram o trabalho de gritar vivas ao presidente Samakuva, tão menos levantaram os braços com o punho cerrado. Ficaram entre viva e abaixo.

Já no discurso o líder do galo voador embrulhou-se em acusações contra o mais directo adversário político, o MPLA, a quem atribuiu responsabilidades sobre a insubordinação no seu partido. Não é essa uma grande lata?

Por: Soberano Canhanga

domingo, março 05, 2006

Nós e as Afro-taças

Bem gostaria de me calar, mas...

Um diamante sem brilho e uma ASA quebrada foi o que vimos ao longo da última semana de Fevereiro e Primeira de Março.

As duas equipas começaram a defrontar-se em Luanda para a super-taça de futebol, com empate nulo em Luanda e uma vitória do vice-campeão (ASA) em Malanje por duas bolas contra uma do campeão.

Idos às Afrotaças, na Namíbia, os fuscos Diamantíferos foram travados pelo desconhecido Civic e nada mais conseguiram do que uma sova. Quatro a zero. Do lado contrário, uma ASA que chegou ao Ruanda com muita sorte, pois teria quebrado em pedaços ainda em território nacional. Os aviadores foram obrigados a efectuar um voo de crocodilo (voo baixinho), perdendo diante do APR por três/dois.

Estas mesmas equipas viriam a medir forças dias mais tarde já no home land para a primeira jornada do Girabola. Sem convencer, empataram novamente a Zero bolas nos Coqueiros .

Chagada a vez da desforra, e quando os técnicos apregoavam a reviravolta em jogos a efectuar na capital contra os adversários das afro-taças, vimos no Domingo dia cinco, novamente um vice-campeão sem estrutura para o voo contra o APR na Cidadela, perdendo por Zero/um, e nos Coqueiros um campeão sem brilho para ofuscar o Civic,vencendo sem convencer por dois/um.

Em resumo às afro-taças foram: um Diamante Chokwe sem Brilho e Uma ASA quebrada sem altitude.

Também sem combustível estão os “idosos” do Petro-Atlético de Luanda, Alhinho e Cia. que já “metem tanta raiva” no Girabola.

Na foto: Palancas negras
Por: Soberano Canhanga

sexta-feira, março 03, 2006

TROCA DE POSICOES


Quando num país tudo o que era principal passa à alternativa, é de admitir...

Imaginem que a TPA mesmo com o seu canal Bis passou a alternativa cedendo o primeiro lugar à Multi-escolha.

Os geradores, que eram alternativos, passaram a número um trocando com a EDEL.

Os carros cisternas trocaram de posição com a EPAL que virou alternativa.
Os autocarros públicos perderam o lugar cimeiro para os kandongueiros. São agora alternativos.

As casas de câmbio e os bancos comerciais perdem contra a eficiência das kinguilas.

As conservatórias e os serviços oficiais do Estado perdem lugar para os falsificadores do Palanca e do Pau Grande do Cazenga no tratamento de documentos essenciais.
E há tantas e tantas troca de posições. Será que só o olhoatento vê isso?


Por: Soberano Canhanga

quinta-feira, março 02, 2006

Pergunta de Março

Por que é que no Carnaval aparecem tantos homens vestidos de Mulher?




Viva a Mulher

Nos tempos do Viva Fulano, hoje, seria um dia de comícios longos em todo o país, com os Vivas que só uns conservam na memória.

Viva Camarada Irene,
Viva Camarada Deolinda,
Viva Camarada Engrácia,
Viva Camarada Lucrécia e
Viva a Camarada Mulher do Comissário municipal ou comunal.

Hoje, 2 de Março, e como estamos no ano de 2006, com tudo mudado, quero sair da sala e gritar apenas pela brecha da Janela.

Vivam todas as mulheres angolanas
Vocês merecem!

Recebam por isso, as flores que não vos dei.


Por: Soberano Canhanga

domingo, fevereiro 26, 2006

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

A carga pedagógica nos adágios Ngoya


A carga pedagógica nos provérbios em Ngoya
A zona sobre qual me vou debruçar é a que vai do Libolo a Kibala, abrangendo Kilenda, Ebo, Gabela, Mussende e parte do Uaco Kungo. (Exibir mapa).
Trata-se de uma zona de transição etnolinguística entre os ovimbundu e os ambundu. Por isso, a nossa língua contém elementos das duas línguas com maior ou menor acentuação, à medida que nos vamos aproximando ou distanciando dos pólos.
No período da existência do reino do Ndongo, o Libolo, a Kibala, Ebo, Kilenda Gabela e até parte do Uaco Kungo eram partes integrantes deste reino, razão pela qual quando perguntamos a alguém que língua fala, a resposta é sempre Kimbundu. Demonstrou-o muito bem o Reverendo Vinte e Cinco no seu livro “Os Kibalas”. O Dr. Moisés Malumbu no seu livro “os ovimbundos do planalto central de Angola” faz também excelentes apreciações sobre os povos vizinhos dos ovimbundu e das relações de interdependência.
Não basta, porém, esta relação de pertença para dizermos, como muitos o fazem, que “somos bailundus ou kimbundus por extensão da língua. Temos características próprias, costumes próprios e uma língua própria que deve ser estudada. Temos os nossos provérbios com grande carga pedagógica e no que toca a outras particularidades da nossa cultura e História, é só vermos que nenhum outro povo, dos que habitam Angola, construiu necrópoles (sepulturas em pedras) senão os nossos ancestrais.
O que quero partilhar convosco é que independentemente dos kibalas falarem uma língua parecida com o kimbundu ou umbundu, esta língua tem um nome. Deve ser perpetuada a novas gerações e por isso, investigada, divulgada e ensinada.
Tenhamos como exemplo a própria língua portuguesa que falamos, herdada do colono.
É uma língua que deriva do latim, tal como o espanhol, o italiano, o francês, o romeno, entre outras e recebe empréstimos do inglês e línguas africanas.
-O português é ou não uma língua própria?-Tem ou não um nome?-É ou não estudado, desenvolvido, divulgado e transmitido a novos falantes?
Este exemplo chama-nos atenção para o que devemos fazer para a valorização da nossa língua.
Não quero, aqui e hoje, definir que nome atribuir à nossa língua. Pesquisei um pouco e encontrei várias divergências entre os autores. Mas que temos que investigar, isso temos.
Em seguida quero mostrar-vos o que tenho feito para demonstrar a carga pedagógica dos provérbios da nossa língua que chamo por ngoya neste ensaio.
(Posso pecar na pronúncia e na grafia, pois não temos um alfabeto adoptado, mas o sentido está lá. O resto vai melhorar com as vossas contribuições).
Sentido pedagógico dos provérbios
Permitam-me que vos fale um pouco da Grécia antiga, tida como “a terra do ‘franco falar” pela liberdade existente na altura dos grandes filósofos como Sócrates cuja escola forjou o grande Platão (Atenas) e a Academia, Aristipo (Cirene) e os cirenaicos, Diógenes e os cínicos, Euclides (Megara) e os megáricos, entre outros.
Hoje, mais de 25 séculos passados, O "grande mestre" tem sido ainda opção preferida de muitos educadores que lembram o hábil inquiridor, que finge tudo ignorar para tudo demolir, e investir, a seguir, despido dos julgamentos precipitados, na construção do saber, legitimado pela participação do interlocutor. É a refutação e a maiêutica. Assim é também a escola ngoia nos seus fundamentos didácticos.
Vejamos os casos seguintes:
1. -O mahaki o’hombo a zekessa ombua o nzala.
Literalmente para o português significa que por confiar demasiadamente na queda dos testículos do cabrito que serviriam para o seu jantar o cão passou fome.
Perante uma acção precipitada, os mais velhos largam sempre este conselho. Depois de uma introspecção, o jovem deve concluir que: é preciso ter sempre um plano alternativo e não confiar demasiadamente numa única via.

O provérbio análogo e mais adaptado para aconselhar crianças é o que dita:
-Úlielela kufula, kuimba ndungue úputu. (confiar é falhar, aconselhar é carência de actividade). Este, tem o mesmo significado real e mesma carga pedagógica que o precedente.
Mas há outros exemplos:2.
_Hima oli tombetá kundenji inji uenjia’co.Numa tradução literal para a língua portuguesa significa que: por mais que o macaco faça piruetas, conhece sempre o precipício.

Sentido pedagógico: Por mais que alguém seja louco está sempre ciente do perigo.
Em educação, as teorias vão e vêm, as experiências se sucedem, mas, por vezes, algumas ideias permanecem e algumas experiências resistem, ainda que de forma parcial, a novas práticas.
Vejamos agora:
_Uateleka sanji li uilo ué.
Literalmente para português quer dizer que: quem cozinha uma galinha também tem vontade de comer carne.
Sentido pedagógico: Um convite para se estar à vontade não deve significar libertinagem.
Em que contexto se aplica?
Lá na Kibala quando se abate uma galinha para uma visita ela deve ser servida completa. Os anfitriões comem o que restar da mesa. O convidado deve porém saber que pelo facto de lhe ter sido servido o frango completo não significa que os anfitriões não gostem de carne de galinha.
Os provérbios em ngoia reflectem também um ensino virado para a experiência.
_Quantos apressados terão sido arrastados pela corrente de um rio sazonal por imprudência?
Aqui a nossa sabedoria dita através de mais um provérbio:
-O luiji ki luezuka lupixile.
(se o rio estiver cheio deixe-o passar).
O ensinamento é que: se alguém estiver furioso deixe-o descarregar toda a sua fúria e aborde-o depois para chamá-lo à razão. Pelo contrário não haverá entendimento. Ou ainda, se se deparar com um conflito deixe primeiro amainar os ânimos. Não seja apressado.



Por: Soberano Canhanga

Bibliografia
-Baptista Mondin: Introdução a Filosofia
-Gabriel Vinte e Cinco: Os kibalas
-Gilda Naécia de Barros: Sócrates -Raízes Gnosiológicas do Problema do Ensino- Conferência na Fac. Educação da Universidade de São Paulo.
-Moisés Malumbu: Os ovimbundos do planalto central de Angola.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

VAIAS À TPA


Nos últimos tempos, confesso, não tenho sido muito dado a ver a TPA pelos ataques de coração que me provoca. Imagem distorcida e programas para fingir. Enfim, uma televisão que já não se justifica para o país que somos.
Ontem, 21 de Fevereiro 2006, infelizmente, porque fiquei sem saldo na multi-escolha tive de recorrer à alternativa (TPA) para assistir ao jogo Benfica/Liverpool ou outro qualquer que decidissem passar. E não foi o do Benfica, equipa com mais adeptos em Angola, dada a ligação Angola/Portugal, que passaram. Foi o do Real/Arsenal.

E o pior não foi apenas isso. Foi notar que no intervalo do jogo o Pivot da “Nossa Televisão” e o analista mais comentaram o jogo que não mostraram do que aquele que foi exibido.

O que gostei mesmo foi a rubrica “isso não pode ficar assim” do Programa Luanda, exibido no "canal bis". Esta, foi bem arranjada e foi um conselho conversado que se impunha. Os utilizadores das nossas praias têm de ser os primeiros a cuidar delas.

Pois claro. Palmas ao programa Luanda e vaias a TPA-Desporto no dia 21.


Por: Soberano Canhanga

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Os nossos Malogrados

Os Nossos Malogrados

Aprendi que morrer é morrer. Partir para não mais voltar. Por isso mesmo, sempre doloroso, independentemente de quem se vai.

Aprendi também, vendo e ouvindo, ao longo dos trinta ciclos que carrego, que há mortes que deixam todos estarrecidos, pesarosos, porque o finado parte forçado. Filhos por fazer, casamento por consolidar, curso superior por terminar, frutos por colher, enfim. Diz-se que foi puxado pelo Diabo e é por isso um malogrado. O malogrado Pedro de Menezes, por exemplo.

Para além desses há os que até dão trabalho à família. Retirá-los do quarto de dormir para o quintal para apanharem o sol, lavá-los, enfim. Depois de longa vida vivida tornam-se novamente bebés. Já se formaram no que pretendiam, trabalharam o que deveriam, procriaram quanto queriam e inclusive já “viuvaram” os próprios filhos, etc., etc. Numa só palavra, “já deram o litro”. É o caso do nosso “malogrado Mesquita”.

Quis a media pública, por ignorância do termo ou por excesso de pesar, dizer, e disse mesmo, nas suas edições que o finado locutor e professor de locução Mesquita Lemos, foi um malogrado, morrendo aos 93 anos. Que malogro!

Intrigado e preocupado com o ensino das novas gerações que aprendem tudo pelo que ouvem ou lhes é dado a ver pela Televisão, fui ao dicionário para tirar dúvida e esclarecer.
Malograr, diz o dicionário enciclopédico alfa, editado em 1992, é: perder-se cedo de mais, prematuramente.

Talvez num país como o nosso onde se morre aos quarenta anos os noventa e três de Mesquita tenham sido poucos. Se assim for, a minha mão à palmatória.


Por: Soberano Canhanga/ 20 Fev.06

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

O ANO DOS FAMOSOS

O ano começou com a morte de Lurdes Van-Dúnem (tia Lurdes para os mais chegados), exímia cantora, com mais de 50 anos de carreira e arte decorativa (sua última paixão). Chorámo-la. E sem que terminássemos a enxugar as lágrimas, lá veio o destino tirar-nos outro homem das artes que foi Beto Gourgel. Trovador, actor de televisão (em Conversas no Quintal), cronistas (no jornal de Angola) entre outros não menos importantes feitos protagonizados enquanto vivo, lá se foi o Beto com toda a sua arte de viver e fazer viver.

Bem vivo estava ainda o outro Beto. O Beto Van-Dúnem para os parentes e para os vários “sobrinhos” que deixou. Osvaldo Serra Vandúnem foi ministro do interior (último cargo que ocupou no governo), Embaixador de Angola no Brasil e Portugal, Chefe da casa civil da presidência da república e membro do Bureau político do MPLA (partido no poder). Enterramo-lo no Alto das Cruzes na sexta-feira, 10 de Fevereiro, depois de nos ter pregado a surpresa uma semana antes no Brasil, após uma intervenção cirúrgica.

Sem que o luto fosse lavado, da África do Sul tocou de novo o sino fúnebre. Morreu Flávio Fernandes. Tenha ou não deixado saudades enquanto servidor público, FF foi um homem da política que já “bateu”. Primeiro pelos feitos, naquele tempo de só bater palmas, e depois pelos defeitos, já nos tempos de “olhos abertos”. A Mais memorável cena foi a exigência que os malanjinos fizeram ao Presidente da República para que não mais o deixasse em Malanje aquando da sua última visita àquela terra onde o finado era "todo-poderoso".

Entre méritos e deméritos contam-se na folha de serviços públicos de FF a pasta de secretário do conselho de ministros, Ministro da saúde, administrador da clínica Multiperfil, ente outros. FF é também tido como fundador do “Cabritismo” moderno, ou seja, pertence-lhe a frase segundo a qual, “o cabrito come onde estiver amarrado”.

Se a partida de Flávio Fernandes significou o cumprimento de uma profecia sua “só quem coloca um cágado num tronco o poderá de lá retirar”, neste caso Deus que deu a vida, a partida, ontem, de Mesquita Lemos, o decano dos jornalistas angolanos e professor de locução de muitos dos nossos mestres, pode ser entendida como “tirar demais”. Em apenas quarenta e cinco dias já quase se perde a conta dos famosos que partiram.

Deus,
-Quantos homens fizeste famosos em tão pouco tempo e que os poderão substituir nas tarefas que muitos deixaram a meio. Ou estamos em presença do ano dos famosos?



Soberano Kanyanga, 16.02.06

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

CAN 2006 uma Autêntica Bicharia

CAN, 25ª edição, só Bicharia

Hoje são, sete de Fevereiro. Egipto e Costa do Marfim jogam, sexta-feira, a final do CAN. Quanto a Angola, já dizem as “más línguas” que a nossa selecção Palancas Negras devia ser rebaptizada, fazendo-se o que os camaroneses fizeram. Escolher vários nomes e submetê-los a um plebiscito. O motivo é simples:

-Olhando para as palancas que ruminaram no estádio da academia militar de Cairo vimos que nem todas eram negras. Brancas, mistas, e até zairenses. Por que não tratá-las por Palancas mistas?

-Olhando agora para o CAN. Fica-se logo com a noção de que a vigésima quinta edição foi uma autêntica bicharada, já que as dezasseis selecções presentes à fase final fizeram lembrar a arca de Noé. A comissão organizadora colocou no mesmo recinto (Egipto) vários bichos e poucos homens.
Comecemos por aqueles que deveriam domesticar a selva.

-Bafana bafana (bravos rapazes) da África do sul: perderam tudo. Contra as águias de Cartago, contra a força nacional e contra os chimpolopolo.

-Warriors (Guerreiros) do Zimbabué: perderam contra as super águias e contra os leões do taranga vencendo no fim as estrelas negras.

-Sili (Força nacional) da Guiné-Conacri: esta força teve força. Ganhou os jogos contra águias de Cartago, chimpolopolo, e bafana bafana.

-Faraós do Egipto: começaram por ganhar os líbios, empataram com os leões do Atlas e ganharam igualmente os elefantes.

Estes humanos iluminados pelas estrelas negras (black stars) do Ghana tiveram que lutar contra:

-Simbas do Congo Democrático: empataram com as palancas, perderam contra os leões e venceram os falcões.

-Super águias (antigas águias verdes) da Nigéria: ganharam as estrelas negras, ganharam os guerreiros e ganharam os leões.

-Chimpolopolo da Zâmbia: venceram os bafana bafana, perderam contra a força nacional e perderam contra as águias do Cartago.

-Palancas negras (mistas) de Angola: empataram com os simbas, venceram os falcões e perderam contra os leões indomáveis.

-Leões de Taranga do Senegal:
venceram os guerreiros, perderam contra as estrelas negras e voltaram a perder contra as super águias.

-Leões indomáveis dos Camarões: venceram os simbas, as palancas, e os falcões.

-Elefantes da Costa do marfim: perderam contra os faraós e venceram os líbios e os bafana bafana.

-Águias de Cartago da Tunísia: venceram os chimpolopolo, os bafana bafana e perderam contra a força nacional.

-Leões do Atlas do Marrocos: empataram com os líbios, empataram com os faraós e perderam contra os elefantes.

-Falcões do Togo: perderam todas as batalhas. Contra as palancas, contra os leões e contra os simbas.

No total dez bicharias distintas em que se destacam três tipos de leões (Indomáveis, de Taranga e do Atlas) e dois tipos de águias (de Cartago e as super de Nigéria).
Sem designação especial estão apenas os líbios de Khadafi.


Por: Soberano Canhanga