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sexta-feira, janeiro 30, 2015

DE QUE SE SUSTENTAM OS JORNAIS PRIVADOS EM ANGOLA?

(CONSTATAÇÃO INACABADA)
De que se  sustentam os jornais "privados" angolanos?
Já lá se foi o tempo em que os jornais eram "cadernos com notícias intercaladas por anúncios publicitários",  onde a publicidade/propaganda "preenchia espaços sem noticias". Hoje, numa visão mercantilista focada, não só para informar, mas, acima de tudo, para o lucro, as noticias é que passaram para lugar secundário nas prioridades de paginação e preenchimento das páginas de um jornal. As noticias, razão de ser, na tradição dos jornais, passaram a "espaço de informação actual, interpretativa ou opinativa que intermedeia anúncios publicitários ou que preenche espaços sem publicidade". Perante esse novo conceito, folheei os dois hebdomadários que me chegaram hoje às mãos, tendo constatado que no primeiro, por sinal o mais lido (estudo divulgado pelo mesmo, a 10.jan. 2015), constam apenas dois anúncios de propaganda comercial e um institucional. No segundo jornal, também de referência, estão cinco anúncios, sendo um institucional e outro que me pareceu publicitação de um outro jornal da "mesma casa" patronal.
Perante esta constatação da fraca presença de anunciantes e tendo em atenção as fracas tiragens e o baixo número de pessoas que compram jornais regularmente, uma pergunta me ocorre.
- De onde os jornais privados angolanos  retiram o dinheiro com que pagam os salários, equipamentos, imóveis e impressão do jornal físico em gráfica?
a) com o dinheiro resultante da quase inexistente publicidade?
b) com o resultado das vendas do jornal físico?
c) com outras engenharias? c.1) quais e para que fins?
d) sem anunciantes em quantidade, é rentável criar e ou comprar jornais em Angola?
e) qual será a estrutura de custos médios mensais de um jornal hebdo (receitas-despesas funcionais-impostos)?

sábado, janeiro 24, 2015

AUSENCIA DE CERTIFICADOS CONDICIONA INSCRIÇÕES NAS UNIV´S PÚBLICAS

Tudo quanto há de oficial as inscrições ao ensino universitário público terminam hoje em todo o país.
Também é sabido que muitos institutos médios e, sobretudo, os colégios privados que ministram aulas até ao ensino médio, entregaram tardiamente os certificados, havendo aquelas instituições que ainda não certificaram os seus finalistas.
Há mesmo quem diga que essa morosidade na entrega de certificados é premeditada, existindo um "acordo secreto" entre os colégios e as universidades privadas.
Como a coisa funciona?
Atrasando os colégios privados a entrega dos certificados, os alunos ficam impossibilitados de concorrer, neste ano lectivo, ao ensino superior público, devendo recorrer às confrades universidades privadas.
Seja ou não verdade, os factos apontam para esse caminho, pelo que, em rigor aos factos, o Ministério do Ensino Superior devia prorrogar, pelo menos por mais uma semana, o tempo para inscrições.
Será que vai faze-lo?

terça-feira, janeiro 20, 2015

O FEIJÃO "ENXOTA CLIENTE"

Nos meus tempos de criança já tinha ouvido falar e visto o “peixe catana” ou “cikolamwenho”. Tão duro, tão duro que precisava de uma afiadíssima catana ou machado para o desfazer em bocados nem sempre ao gosto do retalhista/cozinheiro. Era o peixe que, em Kalulu, nos anos oitenta do século XX era vendido nas empresas cafeícolas Libolo I, Libolo II e Libolo III.
Tempos depois, com a fome que se seguiu aos dias das refregas pós-eleitorais de 1992, surgiram dois tipos de feijão. Um era o “espera cunhado” e outro o ”afugenta sogra”. O primeiro era de fácil cozedura, não demorando mais do que quarenta e cinco minutos. O segundo era de uma dureza nunca vista e que naqueles tempos de fome e penúria muito servia a algumas noras mal-educadas para afugentar as sogras.
- Mamã almoço hoje é feijão. Só que está já há duas horas e meia e não está a cozer. O gás, essa é segunda botija, e nada! - Diziam.
Quando pensava ter já ouvido e assistido a muita coisa, hoje fui surpreendido com o feijão “afugenta cliente”. Isso mesmo, “Afugenta cliente”. Não é bluff.
Fiz, com antecipação de 24 horas e reconfirmação de 4 horas antes o pretendido almoço, um pedido para pitéu em instância turística para o “magnata”, a digníssima e dois herdeiros do “trono sobático”. Gentil, como sempre, a gestora, parecia encaminhar o assunto em boa praia. Trocamos mensagens com as devidas cordialidades e formalidades. Um título e um agradecimento desse lado, outro título e agradecimento da praxe do outro lado.
- Papá, o almoço hoje é onde?- Perguntou Renato já acossado pela fome, ainda no meio do culto Metodista.

- Filho, ainda é cedo. Respondi-lhe com um vinco no rosto, dada a sua forma desconcertada de estar perante um local de adoração.
-Mamã, papá não está a falar onde vamos comer:- Resmungou, em busca de auxílio.
- Eu já disse que vamos almoçar num lugar turístico. Por agora devem prestar atenção ao culto e depois partimos para o almoço.
- Papá, vamos comer “papuço”? - Voltou a questionar, já mais alegre pela resposta.
- Sim. Vamos comer kakusu, se te portares bem.
O sol corria para o meio centro. As chapas que cobriam o local de cultos pareciam gritar. Estavam sendo esticadas pela temperatura que atingia o seu ponto mais alto. No estômago, as lombrigas brigavam descontentes e tudo fazia adivinhar outras perguntas sobre o local e hora do almoço.
- Mor, já confirmaste o almoço? - Desta vez foi a digníssima, talvez preocupada com a fome dos filhos (as mulheres têm essa “mania” de pressentir a fome dos filhos) ou mesmo reclamando o seu quinhão.
- Sim, já enviei mensagem a confirmar nossa ida ao local e obtive resposta garantindo que tudo estaria a ser preparado e pronto ao meio dia e trinta minutos.
“Teu culto finda aqui. Despede-nos Senhor. Dirija-nos até ao fim. Por teu excelso amor”! – O coro central entoou o seu último hino, o da despedida dominical.
Fez-se fila para saudar o pastor, o liturgista e os coristas perfilados à saída do templo físico. Renato corria de lado a outro. Se tinha apossado da igreja depois de duas horas e meia de “prisão” no seu imaginário traquina. Os apressados dirigiram-se aos veículos e motociclos e foram “rezar noutras freguesias”. Seguimos-lhe exemplo e procuramos por um ATM que encontramos sem muita demora. Fizemo-nos a caminho do Centro turístico que distava cerca de treze quilómetros.
- Papá olha praia! – Gritaram as crianças. A menina aproveitou lembrar-se que não tinha facto de banho.
- Não é praia, filhos. É lagoa natural. Aí não se nada. É perigoso.
- E só vamos comer mais nada?- Insistiu a menina.
- Sim, Mara, vamos comer e ir descansar em casa. Amanhã é dia de trabalho.
Estacionada a viatura, passamos pela cozinha que estava às moscas. Nem uma brasa acesa. Comecei a temer desconfiar das palavras amorosas da gestora que me garantira, de pés quase juntos, “encontrarás tudo pronto”.
-Será que já está mesmo pronto e só a espera que chegássemos?- Indaguei aos meus botões, sempre seguido pela digníssima e pelos putos que, por instantes, se tinham distraído com a exuberância da lagoa e deixado de perguntar sobre a comida.
- Boa tarde, jovens, podem mostrar-me o “gerente”?- Indaguei.
- Os três moços que jogavam à dama, entreolharam-se e apontaram-me o caminho da sala onde estaria o responsável.
- Boa tarde, jovem. É o gerente?
- Sim. Sou eu mesmo.
- A Drª fulana falou-lhe de quatro pessoas que viriam cá almoçar? O prato é kakusu…
- Sim, boa tarde, mano. Ela falou. Podem dirigir-se á mesa. Querem ficar na sala ou junto à lagoa? Também há sombra e cadeiras.- Aconselhou.
Escolhemos o espaço aberto, com uma visão mais ampla sobre a nascente natural barrada pela acção humana, resultando numa majestosa lagoa com margem betonada num dos lados. Os putos andavam de um lado ao outro como felino que demarca o seu espaço vital.
- Papá, quero andar de canoa.
- Papá, quero nadar nessa piscina bem grande.
- Papá, quero isso… - Renato e Mara não se cansavam de pedir o usufruto daquelas águas, entretanto barradas a nado.
E não tardou a explicação de Mara, que já sabia ler, ao irmão que via no papá um empecilho à sua vontade de mergulho.
- Mano, o papá tem razão. Aí está escrito “proibido tomar banho nesta lagoa”. É por isso que o papá não nos quer deixar tomar banho nessa lagoa.
Sem nado, as atenções voltaram à comida que demorava. A mulher, já impaciente, estava de pé, pronta a ir tirar esclarecimentos, quando o “gerente” se apresentou para o que chamou de uma pequena desculpa.
- Já está tudo pronto. Só falta o feijão!
- Só falta o feijão? Preferia que faltasse o kakusu que pode ser pescado por mim do que o feijão. Queres que aguarde aqui três horas a espera do feijão? – Questionei-o já com um vinco visível no rosto.
- Não chefe. Já está a ferver mas vai levar ainda algum tempo. É só mesmo o feijão que está a faltar.- Justificou-se, esfarrapado, o rapaz.

- Traz já o que tens e o feijão vem mais tarde. - Ordenou minha senhora algo aborrecida. Quatro peixes enxutos, bocadinho de mandioca e batata-doce, um molheco de tomate e cebola e nada mais. Os peixes tinham sido congelados, depois de grelhados, e aquecidos, estando secos e sem temperatura interior. O resto foram só reclamações e o feijão, ainda fervente, serviu mesmo o seu papel de afugentar os clientes que reclamavam de mesa em mesa.
Nota: Texto reeditado e publicado pelo Semanário Angolense, edição de 17.01.2015


quinta-feira, janeiro 15, 2015

REGRESSO À VIDA "PROLETÁRIA"


Com esse agravar da vida que se aprimora, dia após dia, com os discursos políticos e económicos todos direccionados à contenção de gastos e poupança,

Com a crise financeira que estamos com ela instalada nos nosso bolsos e fogões, poupando os burgueses, mas depauperando a “pequena-burguesia” que nos dias de hoje não passa de uma classe média-baixa, vou ensaiando medidas de austeridade que, espero, ajudem a atravessar o longo deserto que se vislumbra adiante e que pode conflituar com os hábitos de consumo instalados em muitos lares.

Pensei no regresso da "kandimba" para medir o arroz e no copo de "reco-reco" para o açúcar; na recolha da palha da serração (restos de madeira) para compensar o carvão e o gás; recorrer às escolas e universidade pública (quanto dói fazer ver o filho a fazer o propedêutico e o teste e ficar sem o nome na lista dos apurados por falta de “empurrão”?) em vez dos colégios e o recurso aos autocarros em vez de táxi e carro próprio para a digníssima.

Fiz uma lista de onde cortar ou poupar e rezava:

Corte no gás: a razão é que nos tempos da “pequena-burguesia” instalada na pós-ditadura do proletariado, a água fervia cerca de três horas, mesmo se sabendo que ela entra em ebulição aos 100 graus centígrados. A canalizada tarda em chegar e mesmo que a tivesse, conta-se, que não se recomenda ao estômago urbanizado.

Corte na comida: cheguei à conclusão que mais comida vai ao lixo do que ao estômago (em minha e muitas casas). Basta ver quão repletas andam as lixeiras e quão gordinhos andam os ngulus desgovernados. No natal, por exemplo, até o cão rafeiro de casa negou-se a comer carne. Apenas as galinhas estavam com os dias contados por causa das cabidelas diárias. Medir o arroz, o açúcar, o chá, o leite, e etc. seria um caminho para a poupança.

Corte nos combustíveis: aqui a coisa ficou complicada pois os autocarros de transporte público urbano e peri-urbano há muito se demitiram da sua função. A empresa distribuidora de energia, mesmo refundada, ainda não deu ar de sua graça e a luz continua no pisca-pisca forçando o gerador a gemer todas as noites. Mas sempre se encontram oportunidades de melhorias como desligar o gerador à meia-noite e a Senhora deixar de usar o carro aos fins-de-semana.

Corte nos gastos com educação: argumentei que toda a minha trajectória foi feita no ensino Público e quando mudei para a privada era já em “segunda agregação” e em tempo de vacas nutridas. Todos que iniciassem um novo nível deviam ingressar numa escola ou universidade pública, beneficiando, enquanto ainda der, de uma preparação propedêutica, se necessário.

Corte nas “kapurenquanto”: essa rubrica foi-me imposta mas arguiu que não precisava de fazer parte da lista por ser uma rubrica há muito extinta.

Apresentada a lista ao conselho de família, os filhos reclamaram que estavam a ser despromovidos. Acusaram-me de antiquado e de estar a igualá-los com quem não disseram. A mulher apresentou igualmente as suas objeções.

- Casa sem energia à meia-noite é escura e propensa a intrusões. Fim-de-semana sem carro é doloroso e mais. As vizinhas acabam confundindo poupança com desgraça. Filhos sem colégio deixam de ter amigos recomendáveis e se tornam rafeiros (?), argumentou a digníssima chefe do poder executivo caseiro.

Sem os argumentos traduzidos em factos, vou agora procurar por uma consultoria financeira ou por uma escola de formação para levar a família a reaprender a vida "proletária" que se avizinha com o "derrube" das vivências "pequeno-burguesas" que se foram instalando no kubico nos últimos anos de vivência folgada da economia petro-diamantífera. Tem de se voltar às origens!

Obs: adaptado e publicado no Semanário Angolense, de 24.01.2015, sob título "Plano Samanjata para a crise"

 

sábado, janeiro 10, 2015

PAU-DE-CABINDA

Entre amigos:
- Então, vais passar as férias em Cabinda?
- Sim. Tens uma recomendação a fazer ou recado a dar?
- Sim. Tenho. Não te esqueças de trazer um pedaço de pau-de-Cabinda.
- Hum? Pau-de-Cabinda?! Não é muito cedo para a tua idade?
- Traz só e deixa de comentários...
- Mas, diz ainda. Teu motor já precisa de reforço?
- Só porque o teu carro é novo não levas roda suplente?
E cada um foi no seu caminho...

segunda-feira, janeiro 05, 2015

KALIEMATOGI MOUTAIN


É assim que a geografia o regista. Está a 100m acima do nível médio do mar, na zona de transição entre a planície e o planalto angolano.
Falta conhecer quem atribuiu o topónimo e que razões estiveram na origem de tão "estranho nome" que muito se parece a uma expressão em Kimbundu, "kalye/kadye matuji", língua falada pelos povos de Kalulu (Libolo).
Vejamos: kalye/kadye matuji (coma fezes; vai comer fezes).
Para mim, são duas as hipóteses (a confirmar através do estudo da tradição oral)que terão levado à atribuição do topónimo:
 a) Existência (no início da edificação da vila de Kalulu) de fezes de canta-pedras no cimo da montanha pedregosa (quem quisesse lá chegar teria de "comer" muito matuji daqueles animais);
-b) Existência de fezes humanas, na base da montanha, junto à estrada Kalulu-Munenga-Ndondu (situa-se próximo de Musafu, primeiro bairro, e aqueles que não tinham/ têm WC se dirigem ao mato para as necessidades maiores).
Existirá outra causa para a atribuição do topónimo kaliematogi à montanha que é ex-libris de Kalulu?

domingo, janeiro 04, 2015

À BEIRA-MAR DIVAGANDO

Kamuxiba
Hoje começo com um pedido clemência aos antropólogos angolanos e busco harmonização do percurso etimológico do lexema supra.
Não sei se haverá entre os bakongu, donos da "zanga" (parece que a Samba era de Ngola ao contrário da ilha que era a casa de tesouro de Ntotila), vocábulo cuja raiz esteja na origem de kamuxiba. Por isso, vou divagar em kimbundu.
Muxiba=veia, (também extensivo à) canal de irrigação/desaguadouro.
Tal leva-me a deduzir que terá havido na área um canal fluvial desaguando sobre o grande "kalunga-lwiji", sendo ka=diminutivo e Muxiba=veia ou canal irrigador/desaguador.
Outra hipótese leva-me à existência de um povoado Muxiba (?), sendo os pescadores ou primeiros habitantes da praia pesqueira de Kamuxiba, em Luanda, originários de tal agrupamento populacional de  Muxiba.
Aqui, kamuxiba seria corruptela de "mukwa Muxiba" ou "akwa Muxiba" (originário/originários de Muxiba).
Convido os actuais akwa Muxiba e os ana-a-Zanga, vizinhos aí no ístimo, para darem consistência a mais uma divagação dum mukwa Lubolu.

quinta-feira, janeiro 01, 2015

UM DESAFIO AOS PENSADORES DA IMUA

IMUA: Igreja Metodista Unida em Angola

É inicio de ano e tempo para pôr as ideias em marcha. As sagradas escrituras há muito já se podem ler no telefone. Por que não digitalizar o hinário a fim de permitir tê-lo nos tablets e telefones como se faz com a bíblia cristã?

Há também hinos traduzidos para línguas bantu que precisam de revisão e actualização, pois nuns foi apenas usada a "grafização" (representação gráfica) da pronúncia, sem que os aspectos formais e normativos dessas "línguas africanas" fossem tidos em conta na hora da redacção.
 
O hino 160, secção kimbundu, por exemplo, lê-se no coro (refrão) "gloria, gloria, aleluia!", quando podia ser traduzido para "fumanesa, tanesenu" ou  outra expressão "glorificante".

Foi apenas uma provocação aos responsáveis e pensadores da minha "ngelú".

quarta-feira, dezembro 31, 2014

À PROCURA DE NOVAS OPORTUNIDADES

Fazia tempo que a sua vida era matar kasumunas enquanto a mulher treinava atletismo nas ruas da zunga com os fiscais administrativos. Embora não os lesse, Ndinha comprava sempre, no fim da sua jornada, um exemplar do jornal diário que oferecia ao marido que viajava de imediato às paginas de necrologia e anúncios sobre empregos.
No dia em que se anunciou a possibilidade de se aumentar o número de províncias e municípios, a cidade toda, as rádios, jornais e televisões nao falaram de outra coisa senão a possibilidade de os maridos terem mais empregos e as senhoras da zunga mais espaço e territórios para vender. Ndinha que estava cansada das corridas nas ruas da Grande Capital já tinha esboçado o seu plano e cochichou mesmo às amigas que não perderia a oportunidade de se mudar daquela cidade, caso o assunto fosse levado a sério pelas instâncias superiores e pelo marido que matava kasumunas há já três anos, desde a desmobilização da vida kwemba.
Posta em casa, antes mesmo de contar as receitas do dia, Ndinha passou o jornal a Jota que consertava o fofandó que parara de gritar a sua dor de tanto uso por falta da energia da rede pública.

Pelos fundos do quintal, onde Jota se encontrava, não tardou surgir o grito de alegria:
- Ndinha, minha mboa, amarra o cabrito e as galinhas que estão na capoeira. Vamos procurar chefe Kapwete.
- Quem é esse Kapwete, Jota?
- Mulher, não esquenta. É irmão do chefe Kamundanda. Vamos. Há novos cargos na Libaju. Não ouviste que país vai aumentar? Temos de nos apressar se não vamos “lerapiar”.
- Mas, cargo então aonde, Jota. Coisas que explicas nunca só ficam esclarecidas. -Resmungou Ndinha.
- Vamos. Prepara as crianças e podes também avisar as tuas colegas que queiram singrar longe de Luanda. Vão criar 3 novas províncias, 75 municípios e sei lá quantas comunas. Já imaginaste quantos vão subir? É vida!
- Jota, é mesmo já você que vai subir?- Tentou contrariar Ndinha, na sua manina de “só para contrariar”.
- Eu não porquê? Eh? Não porquê?! Já não sou secretário executivo da Libaju? Aponta aí. “Se tenta” e oito novas circunscrições, vezes 17 comissários eleitorais, sem contar os departamentos e secções, administradores comunais, os “lima-unha”, os “joga-cartas de baralho” e os “leva-mala” do boss. Três províncias, vezes trinta directores, três vice, o staff e dependentes, os assessores… Jota fez pausa para levar ar fresco ao peito que reclamava água fria, devido à ressaca do dia anterior. E prosseguiu: “se tenta” e cinco administradores municipais e seus adjuntos, mais o staff das repartições... Dizem que até os deputados vão subir para 135. Vamos, não me faz perder mais tempo e oportunidade. Temos que levar o cabrito e as galinhas ao chefe Kapwete que está a fazer a lista. O período de recrutamento é curto e temos que aproveitar agora que os tubarões estão ainda na distração das festas e a engordarem com os cabazes. Vamos!
- É verdade mô Jota, mô amori. É mesmo muita vaga, Jojó. Vou também avisar a mana Miquilina, minha chefa-adjunta na Anazunga. Ela também estudou até à quarta classe do tempo de Agostinho Neto. Sabe ler, escrever e fazer contas de dinheiro. Ninguém lhe aldraba na tabuada!
- Sim dama. É muita vaga mas também muitos dos môs avilos ainda sem função, vivendo de “mixas” ou das damas como tu. Essa é a oportunidade da nossa salvação.- Respondeu Jota.
- Sim amor. Haja o que hajar, dessa vez ninguém mais nos kasumbula. Vamos, antes que as vagas dos municípios acabem. Nas províncias assim já se tombwelaram, mas nos municípios e comunas ainda deve sobrar. – Respondeu Ndinha com o kasula às costas, o filho mais velho agarrado à saia e puxando o cabrito pela corda. A galinha, o pato e um casal de pombos estavam na quinda que seria ofertada ao boss das listas.
- Vamos aproveitar o período festivo de natal e ano como motivo da oferta. Assim, o chefe Kapwete não alega “motivos de ordem moral” para recusar as ofertas em troca de umas vagas num dos novos municípios ou comunas que estão na forja.
- Vamos Mô Jota, homem vijú.- Respondeu Ndinha entusiasmada.
A família partiu, deixando para trás a casa arrendada na Fubu, e as dívidas das birras por saldar. Se vai dar certo ou errado ainda ninguém sabe porque o tal anúncio no jornal não passou de uma antecipação do dia das mentiras, 01 de Abril. Como não se despediram dos vizinhos nem levaram a pouca mobília, que Ndinha foi juntando com o dinheiro da zunga, ainda podem voltar a casa na maior tranquilidade. Há porém um mujimbo que corre e que aumenta a expectativa do casal.

Obs: texto publicado no Semanário Angolense de 08.08.2015
                       publicado no Jornal de Angola de 10.11.2019

quinta-feira, dezembro 25, 2014

O JORNALISMO QUE VAMOS TENDO

Numa "conversa", comunicação virtual (teclagem), o meu amigo Tazuary Nkeita depois de uma estupenda entrevista que concedeu à ANGOP: (http://ads.portalangop.co.ao, 07 Dezembro de 2014, 11h42 - Lazer e Cultura), que considerei "digna de ser levada aos estudantes e jornalistas juniores, colocou-me algumas perguntas/provocações que, no seu entender, deviam ser objecto de uma discussão profunda antes de as levar aos estudantes.

Reproduzo-as com as minhas respostas:

Jornalismo em Angola
- Que jornalismo temos?
            LC:      O possível. O que se deixa fazer.

- Somos jornalistas ou somos assessores deste e daquele?
            LC: Mais assessores do que jornalistas. Os jornalistas contam-se aos dedos. O jornalismo bem elaborado também se conta. A assessoria é mais presente.


- Somos equidistantes e podemos sê-lo no dia a dia? Porquê?
            LC: A equidistância está por ser conseguida.
Somente quando houver mais jornalistas do que assessores ou a clara distinção entre assessoria e jornalismo puro.
Não tem havido equidistância porque a propaganda e propagandear acções institucionais se confunde ainda com a informação objectiva e isenta de "maquilhagem" jornalística.


- Que diferenças existem entre imprensa estatal/pública e imprensa privada e porquê?
            LC: Uma é, por via de norma, a tutelada pelo Estado.
É pública e patrocinada com o dinheiro de todos. Outra é fruto de iniciativa privada para diversificar a informação e, como empresas, lucrarem tratando informação que é acompanhada de propaganda publicitária (paga). Noutro prisma, uma publicita os órgãos do poder e outra (entre noticias) publicitam as empresas.
Há muito que se diga sobre esse tema.


- Há fosso? Como reduzir esse fosso?
LC: O fosso se pode reduzir através de formação e acções de credibilização da media quer pública quer privada (com ou sem objectivo indirecto de alcançar ou manter os poderes instituídos). A autorregulação também pode contribuir para um jornalismo mais responsável (com cassação de carteira, caso houvesse, etc.). Ainda vamos longe e temos de labutar arduamente para que tenhamos um jornalismo ideal. Ou ficaremos apenas pelo "jornalismo angolano/à moda angolana".


- Devemos imitar ou assimilar e processar os conhecimentos?
LC: Sou pela absorção e processamento de conhecimentos universais. Jornalismo puro será como a arquitectura, economia ou sociologia pura (ajusta-se aos aspectos particulares do país, mas não perde a essência).


- Os jovens (jornalistas ou não) têm futuro em Angola?
LC: Os jovens terão o futuro que nós os mais velhos lhes permitirem ter. Têm as oportunidades (não tantas) que também lhes permitimos ter. Ontem fui jovem e hoje adulto, um pai de jovem, mas vou ainda reclamando as oportunidades que não tive. Se isso vai melhorar ou piorar, não sei. Houve um tempo que as lojas não tinham nada mas todos tinham emprego na função pública e na tropa. Hoje para se ir à tropa já se diz que é preciso cunha. Os empregos dependem ainda do desenvolvimento da indústria, da agricultura e dos serviços (isso abrirá oportunidades aos jovens). A função pública vai "desengordando", o que é bom mas há ainda instalações e instituições sem quadros qualificados. E que tal reflectir também sobre o tipo de educação e ensino que temos? Isso fará nos próximos anos a diferença.


- Têm oportunidades?
LC: Muitos terão diplomas sem conhecimentos. Outros (poucos) terão conhecimentos sólidos e esses disputarão as poucas oportunidades que surgirem. Os demais ficarão a lamentar-se com os diplomas vazios de conhecimentos na mão.

sábado, dezembro 20, 2014

NO TEMPOS DE CIPAIOS E CAPATAZES


No edifício rosado da vila crescente de Lumbala Ngimbu, Xavier Martins e Ernesto Del Ponte dividiam o corredor longo e estreito. Duas salas com portas paralelas se enfiavam ao fundo, ganhando janelas pelas laterais e pelos fundos, um arrojo da arquitectura daquele tempo oitocentista. Uma das salas era do administrador do posto e a outra era a do secretário.

Do outro lado estavam os cobradores de imposto indígena, os cipaios e seus cacetes, os serviçais e os queixosos e queixados. Mais longe, mas no mesmo quintal engalanado de flores que desbrochavam em todas as épocas, estavam as casas para as "sentinas": duas para os brancos da administração e um “covil” que servia a "negralhada" toda, onde homens e mulheres acossados pelas descargas fisiológicas se revezavam minuto sim, minuto sempre. Kapita era empregado auxiliar e cuidava de levar e trazer o que os brancos pedissem.

Certo dia, daqueles em que o céu parecia ter descido à terra, ameaçando queimar tudo e todos, Xavier na sua sala suava. Del Ponte também de suor molhava a malha da camisa estampada que quase lhe mordia o corpo torneado. Os dois se pareciam a nascentes de rios que se alargavam a cada chuva, a cada gota. Já tinham trocado os lenços pelas toalhas que mesmo assim não bastavam para se enxugarem. Água nos moringues já não havia.

Kapita, atrás dum monandege traquino, na vista do administrador se colocou.

- Ei, ó preto, pega uma bacia e traz água. Tens um minuto e meio. - Ordenou Xavier Martins, o administrador.

Dois passos à frente, outro grito e Kapita ainda sem descodificar o que lhe fora solicitado.

- Kapita! Outra bacia para mim, uma toalha límpida e um minuto e meio para a empreitada. - A voz de Del Ponte, um luso de descendência hispânica era inconfundível. O homem era dos principais queixinhas de Xavier Martins e culpado pelo desterro de muitos serviçais à roça Camokomoko, autêntica colónia de morte nos tempos da administração estrangeira no Leste de Angola.

- Coitado. Mbacia chamado por um e por outro, 'deve ser muito sério o que esse irmão aprontou'. - Kapita assim pensou e meteu-se mangueiras e laranjeiras abaixo, gritando e procurando por Mbacia.

- Mano Mbacia, ó Mbacia, se estás a te esconder é melhor se apresentar, porque o branco está a ficar vermelho. Mwata mutolo nyi secretario já informaram no cipaio e disseram que se o Minuto e Meio não vier contigo, vais mijar  água com sangue.

Kapita gritou até fazer-se ouvir por todos os que se tinham dirigido ao posto administrativo, sem que ninguém o pudesse ajudar. Nem Mbacia, nem Minuto e Meio se apresentaram.

Desolado, pensando nas palmatoadas que levaria por conta do fugitivo Mbacia que não pôde encontrar, dirigiu-se aos soluços ao gabinete do secretário Del Ponte.

- Sô secretario, Mbacia nyi Minuto e Meio ma lunga o ma pwo? (Bacia e o minuto e meio são homens ou mulheres?) 'Num li vistei casa tudo'. - Explicou numa mistura entre ucokwe e português.

Del Ponte, furioso, fez-se como flexa ao gabinete do administrador, informando que Kapita se tinha gozado deles e se recusado a dar-lhes água.

Xavier Martins, um flexa que já tinha sido capturado nas guerras de conquista do Leste, pegou, com as próprias mãos em Kapita e o acorrentou pelo pescoço, juntamente com outros dois empregados que se faziam passear pelo quintal. Foram mandados à roça Camokomoko desbastar uma montanha durante as manhãs e cortar lenhas durante as tardes.

Lá ficaram, os três, cinco anos, sempre labutando acorrentados ao pescoço. Até às "sentinas" sempre juntos: Kapita, Katonde e Sandumba...

Num Novembro de mangas fartas, sede na hora doze acompanhava a fome da fuba levada pela chuva. Na frondosa mangueira, habilidosamente, decidiram subir e desfrutar-se de polpa que cumpriria as duas funções: matar sede e fome num só trago.

Mangueira acima se fizeram. Lá foram os trigémeos. Uma formiga brava, entretanto, sangue humano queria sugar e Katonde, o do meio, não foi poupado.

- Wawé, ndifa! (Ai, morro!) - Exclamou em Umbundu.

Pretendendo desfazer-se do incómodo quebrou o galho. Outro abaixo acolheu a corrente. Katonde e Sandumba num lado e Kapita noutro balouçando.

- A suku a tatê, tukutise ño (Deus pai. ajude-nos). - Gritava Kapita.

- Capatajééé, Tukwase! (Capataz, ajude-nos!) - Replicavam apelos, em ucokwe, Sandumba e Katonde.

Mukwa Kuxaha, o cipaio, e Mukwahenda, o capataz, meteram-se a caminho. Um com a espingarda e o cacetete e o outro com o chicote.

- Toma a chave, liberta um e depois o da outra ponta. O do meio desce com a corrente. - Ordenou o cipaio.

O capataz trepou, mas o coração pesou-lhe a alma. Na sombra, o cipaio arma na mão, pronto a atirar.

- Sô cipaio, “quarente” está complicado desamarrar”. em só me ajudar. - Iscou o capataz.

- Desce de lá seu sebo e se eu conseguir resgata-los, coloco-te na condição destes desgraçados. – Ameaçou o cipaio antes de concluir: - Dou-te a espingarda e atira neles, antes de eu cumprir em ti a minha promessa. Desce de lá, pá!

Mukwahenda também temendo pela sorte. Livrou-se da árvore. Fez-se à sombra, caçadeira na mão. O cipaio descalçou as botas, arregaçou as mangas e ajeitou os calções de caqui. Embravecido agarrou a árvore como quem lhe pega pela garganta. Confirmou as chaves dos cadeados no bolso. Subiu ao colmo. Sedento de sangue soltou valente bofetada a Kapita que apenas suspirou antes de levar o rio de saliva ao rosto do assassino.

- Ai é? É la em baixo que vamos ajustar as contas.- Verberou alto.

Mukwa Kuxaha, soltou Katonde e voltou ao lado de Kapita que sangrava na boca. Quando o cipaio se preparava para descer, Mukuahenda, o capataz, deu-lhe a provar do veneno.

- Tuááá! - A bala certeira de caçadeira abraçou-o de morte. Fez-se silêncio e depois o eco além savana. O cheiro de pólvora e as aves predadoras fizeram-se anunciar. Era sangue e pedaços espalhados pelo matagal.  
Kapita e o capataz meteram-se mata adentro. Catonde e Sandumba seguiram a caminho do pantanoso Lunge-Bunge, não se sabendo qual foi a sua sorte. Outrossim, ficou registado que o corajoso capataz e os seus troféus entregaram-se ao Movimento.

Obs: Texto publicado pelo Semanário Angolense

segunda-feira, dezembro 15, 2014

OS PENSAMENTOS DE VHM EM SAURIMO


Os corredores apresentavam uma correria e uma enchente que seria anormal noutros dias de aulas ou provas de conhecimentos. Não era só na Pública, mas também na privada. Parecia um que haveria um teste para emprego em toda a cidade. O branco das tshirts predominava e as conversas eram sobre o jovem do Janela aberta.

Se fosse num ambiente de manjares, comícios e “bebícios” diria que o jovem jornalista Victor Hugo Mendes juntou à fome a vontade de comer.
Tratando-se de livro e leitura, digo que o autor de "Meu livro de pensamentos" juntou a fama que tem, enquanto rosto de TV, (que lhe proporciona muitos admiradores e seguidores) à sede de leitura que aos poucos vai crescendo na Lunda Sul.

Ao assistir às longas filas de estudantes da Escola Superior da Universidade Lweji A Nkonde e Instituto Superior Politécnico da Universidade Lusíada, ambos na capital da Lunda Sul, só me devo sentir feliz e orgulhoso. Tem sido nestas duas instituições de ensino universitário em que "prego", há já três anos, "a necessidade de as crianças, adolescentes e jovens, sobretudo os estudantes, lerem cada vez mais".

A minha alegria aumenta também por ter notado que mais de 75% dos que se fizeram às filas são meus estudantes de Língua Portuguesa ou o foram nos dois últimos anos.

Sempre pensei que seria possível haver leitores na Lunda e noutros pontos da Angola distanciada do mar, desde que alguém tocasse o clarim do despertar intelectual. Já há um Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura na Lunda Sul que se reúne, todos os domingos, para troca de saberes, numa micro-imitação às quintas da União dos Escritores.

Victor Hugo Mendes, ou simplesmente VHM, fez-se à estrada, na primeira semana de Novembro, o mês da independência, percorrendo milhares de quilómetros, num itinerário que o levou de Luanda a Malanje, por sinal sua terra umbilical, Lunda Sul, Moxico e Lunda Norte, deixando palavras, sorrisos e algum conforto.

Que venham outros escribas e tantos outros fazedores de arte e animem conversas com os leitores e apreciadores de coisas belas e originais, como fez VHM na Escola Superior Politécnica e no Instituto Politécnico Lusíadas da Lunda Sul.
Saurimo agradece e eu também.

Ainda sobre VHM e o seu “Livro de Pensamentos”, não sendo normal em Angola que um escritor, mesmo aqueles do quilate de Pepetela, José Eduardo Àgua Lusa, Manuel Rui Monteiro, Uanhenga Xito, Roderick Nehone, Jacinto de Lemos, Jofre Rocha e equiparados, venderem mais de vinte mil exemplares de um livro em apenas um ano, os “Pensamentos” de VHM são para mim um “study case” que já reclama, há muito, pela incursão crítica dos especialistas em literatura e vendas.

Quanto a mim, um leigo nessas andanças, ocorre-me apenas levantar algumas questões que podem servir de pano de fundo para uma apreciação mais aturada por parte de quem tenha créditos firmados para a crítica literária e análise do comportamento do mercado.

  1. O que faz VHM vender tanto, sendo mais estreante na arte da escrita?

  1. Carisma?
  2. O facto de ser figura de Tv?
  3. Qualidade (estética e conteúdo) do livro?
  4. Publicitação e fácil acesso aos media?
  5. Preço acessível?

Como disse atras, só o facto de VHM ter vendido em um ano tanto, mais do que muitos veteranos juntos e em muitos anos, já é motivo de satisfação visto que o meu pregão tem sido para o aumento de leitores. É preciso buscar a quantidade (leitores e obras para leitura) para se chegar à qualidade do texto e dos consumidores de produtos gráficos ficcionados ou não.

  1.             E, pensando nos consumidores e no seu comportamento após usufruto do produto, outra bateria de perguntas me invade, porque gostaria de saber com que ideia se fica depois da leitura da última página do tão cobiçado “Livro de Pensamentos” de VHM:

  1. Um romance ficcionado?
  2. Um livro de auto-ajuda?
  3. Um livro auto-biográfico?

 

Cada um dos leitores desta prosa e da prosa de VHM terá, com certeza, as suas respostas, ou pelo menos algumas. Porém, caberá, sobretudo, aos críticos da arte literária (ao que se diz mais propensos a elogios do que à análise aturada com aplausos e ou apupos), e aos especialistas em vendas esclarecer aos milhares de leitores o tipo de texto que VHM nos apresenta e as razões das longas filas para se ganhar um autógrafo do autor que é, sublinhe-se, meu “amigo de peito”.
NOTA: texto publicado no Semanário Angolense a 08.11.2014

sexta-feira, dezembro 12, 2014

A COBRA DO HOSPITA LEVADA AO TEATRO


É um conto inserto no livro “O colecionador de pirilampos”, editado pelo Grecima, 2014, “colecção novos autores”, em que se retrata a coabitação do kimbanda, catequista e médico para salvar um soba mui querido e que sofrera uma picada de cobra.

 “Apesar do esforço abnegado dos três para salvá-lo, nada puderam… nem sinais vitais ao chegar ao hospital que distava 30 quilómetros. Porém, com a visão ainda  viva, ao ver o desenho de uma cobra no hospital, o soba pôs-se a correr, pensando que fosse outra cobra viva que estava pronta a dar-lhe outra picada”.

 Essa estória que cobre as páginas 25-32 foram teatralizadas pelos jovens do Núcleo-Lev´Arte da Lunda Sul, peça apresentada numa tarde cultural realizada nesta quinta-feira, 11.12, na Escola Superior Politécnica da Lunda Sul.



O “Colecionador de Pirilampos” é o quinto livro de Soberano Canhanga (dois romances, dois livros de contos e um poemário) que publica desde Dezembro de 2010.
Obrigado Núcleo-Lev´Arte da Lunda Sul.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

NALL JUNTA-SE AOS LEV'ARTEANOS


Ilustres amigas e amigos das artes,

Distintos convidados,

É para nós, Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura da Lunda Sul, uma grande honra ter-vos aqui, e

permitam-me que vos saúde calorosamente, em nome da Direcção da Escola que nos acolhe, Engº Fidel Manassas, e em nome do Presidente do Núcleo, o Jovem Guilson Silvano.

Senhoras e senhores,

Iniciámos esta caminhada em 2012, aqui mesmo, assinalando o nosso surgimento com a realização de uma palestra subordinada ao tema: a importância da leitura para o sucesso acadêmico. Focalizamos a leitura de textos académicos e ou lúdicos como fonte de conhecimento e de exteriorização de pensamentos e saberes que levam cada um de nós à excelência...

Passados dois anos, e perante a apatia que se apossava da nossa iniciativa, decidimos injectar ao nosso Núcleo sangue novo e uma nova direcção, que tem sido sábia e corajosamente liderada por jovens voluntariosos da nossa cidade. Para eles, caros convidados, peço uma salva de palmas.

A partilha de carências, dificuldades e anseios com outras formas de realização da arte fazem-nos hoje olhar para além do nosso foco inicial e atrevemo-nos a ser um Núcleo aglutinador de todas as formas artísticas.

Assim, proclamamos hoje a fusão do Núcleo de Amigos de Leitura e Literatura da Lunda Sul ao Movimento cultural Lev’ Arte, surgido em 2006, em Luanda e que possui representações na Huila, Kwanza- Sul, Kwanza-Norte, Benguela, Malanje, Moxico, Bengo, Huambo e Namibe. A Lunda Sul torna-se, desde agora, o mais recente membro do Movimento artístico-cultural Lev´Arte.
A nossa missão é levar arte aos artistas e amigos das artes. A promoção da Leitura e Literatura, teatro, música, humor, artes plásticas, artes visuais e todas as demais formas de representação do génio criador e inventivo do homem passam a ser a nossa preocupação.

O Núcleo passa doravantea designar-se: NÚCLEO-LEV’ARTE da Lunda Sul.

Para materializarmos essa difícil mas necessária tarefa, gostaríamos de contar com a experiência, os conhecimentos e apoios morais e materiais de todos quanto nos assistem e se interessam pela cultura e pelas artes.

Reitero a minha incontida gratidão à Governadora da Lunda Sul, que teve a amabilidade de nos chamar para apresentarmos o projecto inicial e manifestar o seu apoio pessoal e institucional; ao Engº Fidel Manassas, pelo seu amor à ciência e ao conhecimento; e ao meu discípulo Guilson Silvano, pela coragem em tripular esse barco.

Muito obrigado.

Luciano Canhanga
16horas, 11.10.2014

quarta-feira, dezembro 10, 2014

ATÉ SETEMBRO, NETO!

Homenagem a Agostinho Neto
"kya ngi bonzo" é uma expressão ambundu que significa aborrecível, cansativo, chato… é o que sinto ao ver uma media, abram-se alas à audiovisual, mais virada ao entretenimento do que à formação. Não escreverei neste texto sobre a forma questionável e, às vezes,  parcial, maculando a qualidade das notícias de que tenho sido brindado ao proceder o zapping/sintonização das Tv´s e rádios públicas.
Reporto-me simplesmente à forma parcial, amadora e desrespeitosa como é tratado na nossa media aquele que se convencionou/reconheceu como o Herói nacional.
Não sou adepto de celebrações do tipo da Coreano do Norte. Não peço que Agostinho Neto seja presença diária e obrigatória na media publica e privada, pois nem sempre haverá factos. Mas podem ser feitas rubricas que permitam os jovens e crianças conhecê-lo um pouco mais.

O que me aborrece é ver os dias do ano repartidos em onze meses e vinte e três dias para o Executivo e seus titulares, nos mais diversos graus hierárquicos e regiões, sobrando míseros sete dias de Setembro para se lembrarem de uma figura que já “dorme como pedra lançada ao poço”. Se “a pedra” foi lá parar por obra da natureza humana, não deixemos, pelo menos, que o lago do nosso conhecimento se seque, pois o mesmo Neto da nossa Independência também nos recomendou “a criar, criar amor, com os olhos secos”.
 

Não vejo em Agostinho Neto um ser que amedronte, que faça concorrência aos vivos, nem aos seus negócios políticos e económicos ou afins.
Lembremo-nos dele nem que seja pelo facto de ter hasteado a bandeira que carregamos orgulhosamente ao peito e nos ter ensinado a cantar um Novo Hino.
Lembremo-nos dele, nem que seja para contar a sua trajectória académica e missionária (filho de professora primária e de pastor Metodista) ou política, pelas cadeias que enfrentou devido à sua relutância em se opor à colonização, quando os seus proventos bem podiam dar-lhe uma vida folgada num território colonizado.
Falar sobre Agostinho Neto, mesmo que uma vez por semana, não seria um favor a ele e a pessoas saudosas como eu. Não peço a deificação dum homem mortal, embora declarado “Guia Imortal”. Entristece-me notar que crianças angolanas que frequentam o ensino primário português conhecem D. Afonso Henriques e as nossas do Ensino Médio, muitas pouco ou nada sabem sobre o Fundador da Nação. Não estará a faltar mais conteúdos nos programas escolares, radiofónicos, televisivos e nas conversas entre pais e filhos?
Que saudade sinto de ouvir Tabonta, os irmãos Kafala e outros “músicos da revolução” evocando e chorando neto nas suas criações artísticas. Que saudades das brigadas jovens de literatura com o “njila ya muxitu”de John Bella!
Para terminar essas súplicas vou me contentar com o “bombas que partem casas não metem medo ao povo unido” de Mwana-a-Kitoko e voltar aos prantos quando tivermos Neto não à dimensão poluidora do antigamente hodierno, mas à dimensão que merece.
É tanto esquecimento que me aborrece!

 

sexta-feira, dezembro 05, 2014

RECUO NO TEMPO


Os meus amigos (destaque ao Lauriano Tchoia) há muito me queriam ver no show do mês, da nova energia. Falhei, faltei, até que, finalmente, lá fui me "caloirar", quando os outros já vão na sexta velocidade.

Encontrei casa a rebentar pelos ângulos rectos, muitos com saudades dos tempos de "undenge", outros com saudade do "ouvido contar" ou narrado em livros de gente que nunca se abeirou junto ao palco dum kutonoka ou kudisanga.
Primeiro cheguei acanhado. Em boa verdade diria "fox" com a mamã grande que me fez atrasar com a maka dela do "vestido de preferência". Cada evento, um novo vestido. Ara xisa!

Antes que não me espalhe, cheguei mesmo com cara de quem "cheirou na dibinga dum walendado" e vi passarem por mim, naquele palco Plaza, o sobrinho de Sofia Rosa que cantou a sua "manyinga" (sangue), Legalize que se "legalizou" com voz tipo mesmo do Urbano de Castro e o Gaby Moi, puto do David Zé.
No fim já, quando se ouvia o "ngi dila ngi banza, ngi banza kamba dyami", o meu motor emocional pegou. António Paulino cantou ainda o "ponta-pé" que me levou mesmo a desferir um valente ponta-pé à cadeira de frente e por pouco adentrava a nádega duma kindoza que revivia um tempo que sua idade denuncia não ter vivido.

 - Estás mas’é a gritar só para entreter e agradar o kota te garante as finanças, pá! – Desabafou maldosa uma senhora com os cabelos todos esbranquiçados, mas com um corpo ainda bem conservado.

Foi a segunda vez que o desferi um ponta-pé involuntário. Na primeira vez que o fiz tinha imaginado um “sul-africano-carcamano” a nos bombardear impiedosamente e desalmadamente com "bombas que partem casas não metem medo ao povo unido". Desta pensei mesmo na mulher de casa e que estava à minha direita. O meu inconsciente terá cogitado: pela próxima que me fizeres atrasar ponho-te uns "conta-pé" como esses do tio Paulino.

E eu, ainda sem terminar minha "jijinda", lá estava o kota a terminar o show com o seu "ungibekela jijinda, alaposa"!

 Estou com o pé esquerdo dorido.


Luanda, Outubro, 04,2014.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

A PRAGA DE MWANGEJI E NDUNDU


Fazia tempo que sua vida eram só lamentos. Mwangeji tinha perdido a vontade de viver. Tamanha era a desgraça e o desprezo a que fora votado, depois de muito ter servido a seus vizinhos e dependentes. Na verdade, a vida miserável que levava era também a que seu primo enfrentava num território distante, embora parte do mesmo país. Nasceram num tempo que a História se encarregou de esquecer. As lendas e as crónicas de gentes que por eles passaram fazem ténues referências ao tempo em que toda a terra estava submersa. Terão sido trazidos à luz, nos dias da separação das águas e surgimento de terra firme.

 Vivia cada um confinado ao seu território natural. Embora primos, Ndundu e Muangeji não se conheciam fisicamente. Toda a comunicação era através do avô Kasai que tinha ligações permanentes com seus dois filhos, Lwaximu e Cikapa.

Mwangeji, mais velho e filho de Cikapa vivia a sul do território e Ndundu a norte.

Já velhinhos, sofrendo desprezo de quem deles viveu e se sustentou por muitas décadas, os dois co-irmãos passaram a padecer de doenças várias derivadas do desrespeito com que eram brindados pelos homens à volta e pela podridão em que suas casas se tornaram.

Tinham contado a seus pais, já seculares, o que se passava com eles e estes, aconselharam-nos a trocar experiências a ver se se salvavam da opressão e infra-vida a que estavam votados.

Foi nessas circunstâncias que Mwangeji decidiu escrever uma carta ao Ndundu, contando a sua saga.

- Querido irmão, espero que estejas bem. Embora nunca nos tenhamos visto, julgo oportuno, narrarmos o quanto fomos úteis e a vida que levamos hoje para que nossos filhos e netos prevejam situações anómalas que lhes possam ser impostas pela ganância dos homens capitalistas desse tempo.

Nasci entre colinas. Papá e mamã deixaram-me um vasto território que herdaram de nosso avô. Durante minha juventude vivi quase solitário. Filhos menores, abundância em peixes, caranguejos, algas, misoji, águas límpidas e solos férteis para irrigar. Assim vivi com fartura até à chegada dos homens. Primeiro negros, depois os brancosos. Na luta entre eles, os primeiros correram com os segundos e eu não fui poupado. Meu quintal passou a depósito de tudo que saísse descartado de suas casas: areias transportadas de longe, latas, plásticos e papelões, óleos e pilhas, tudo atiram em minha casa. Já sofri de pneumonia. Já tive sarna. Já chorei e implorei. Nada! Uns, preocupados mas sem poder, já fizeram músicas contando meu presente e passado. Outros retiram de mim pedaços para remendar seus terraços de ferro e aço. Já fiz famílias felizes. Crianças deram suas fimbas em minhas exuberantes piscinas naturais. Jovens apaixonados em minha casa rocaram primeiros beijos e até cenas de pro-criação assisti. Já fui padrinho, pastor e advogado na hora de divórcio litigioso. Tudo de bom fiz, aos homens, mas eles me remetem aos confins da pocilga…”- Mwangeji pousou a pena no tinteiro e começou a ler o que escreveu, limpando com um pano enxugador os pequenos borrões.

– Irmão do norte, embora este seja o nosso legado, fazer sempre o bem aos homens de todas as raças e credos, temos de alertar aos nossos filhos para procurarem contenção na bondade e viverem o desprezo com maior preparação.- Rematou.

Mwangeji fechou a carta e a colocou numa caixa flutuante que a faria chegar ao pai Cikapa e este para o avô Kasai, de onde seu tio Lwaximu a pegaria para a entregar a Ndundu.

Quando a carta lhe chegou às mãos, Ndundu estava embravecido. A sua casa tinha sido literalmente arrasada por areias enviadas por uma nova cidade. Antes dos homens do cimento e asfalto terem invadido a vizinhança, a sua vida, embora pacata, era de um idoso sadio. Os Pirilampos reproduziam-se em seus cabelos rastejantes e embebidos em águas frias e cristalinas. Suas terras eram guarnecidas e seus quintais murados. À semelhança de seu primo do sul, acolheu casamentos e divórcios. Deu beleza a gente rejeitada pelo amor e em suas águas ganharam vida milhares de vizinhos e transeuntes da cidade do brilho incessante. – Mano, faço de teus prantos minha música.

- Até há pouco, ainda respirava saúde. Os miúdos desse tempo já desrespeitavam kabucado com suas manias de estragar tudo que é natural. Mas agora que limparam dezenas de hectares na direcção do sol poente, todo lixo é na minha casa que pára: água de esgoto sem fundo, miram para mim. Areias de ravinas provocadas pelo corte do cabelo vêm cá ter. Lixo das compras exageradas deixam na minha porta. Até combustíveis e óleos dos carros capitalistas vêm cá ter, matando tudo à volta de mim. Já me chamaram de “Velho praia suja”, “colchão de areia”, "ribeira morta", "desgraça do presente", entre outros nomes que me escapam à memória. À semelhança do que li na tua carta, irmão, também assisto ao choro dos inconformados sem poder, bem como ao desprezo dos poderosos sem zelo e sem pudor. Já ouvi canções de saudades dum tempo que a vizinhança me procurava para se aconselhar na acalmia do meu rasto.

As minhas portas eram autênticas postais para gente próxima e de terras distantes que por cá buscava repouso e sustento. Não havia ser que passasse por mim sem a saudação com a devida vénia. Até o meu nome à sua cidade atribuíram, porém, hoje só recebo desprezo que me cria uma enorme repulsa. Dei água aos homens e dei leite aos seus animais. Levei comida a seus pratos, lavei suas roupas e lágrimas e dei ouvidos a seus prantos. – Escreveu Ndundo, filho de Lwaximu, neto de Kasai e bisneto de Nzadi.

Embora sem força e quase sem vida, Mwangeji ainda leu a carta – resposta de seu primo e, por meio de um sobrinho comum, puderam combinar o castigo aos seus malfeitores.

“Não mais lhes daremos água sempre que suas sedes pretenderem matar em nossas casas. Guardaremos nossas águas debaixo dos colchões de areia com que nos brindam.

Não mais lhes daremos peixe sempre que cozinharem seus pirões e ximas. Guardaremos o resto de nossos cardumes em casa de nossos pais e nosso avô Kasai.

Não mais lhes daremos terras férteis para suas lavouras. Exportaremos nossas terras repletas de húmus e faltarão verduras em seus pratos.

Não mais se banharão em nossos estuários nem se servirão de nossos leitos para utilidade alguma.

Seus animais enfrentarão sede e penúria. Seus filhos jamais conhecerão rios e andarão distâncias para ver cardume.

Seus poemas não mais escreverão, sob o farfalhar de um caudal e sob picada de peixe miúdo em pés adultos”.

E a praga se cumpriu, tempos depois, por longos e infinitos anos.


Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense a 29.11.2014