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quarta-feira, dezembro 31, 2014

A PROCURA DE NOVAS OPORTUNIDADES



Fazia tempo que a sua vida era matar kasumunas enquanto a mulher treinava atletismo nas ruas da zunga com os fiscais administrativos. Embora não os lesse, Ndinha comprava sempre, no fim da sua jornada, um exemplar do jornal diário que oferecia ao marido que viajava de imediato as paginas de necrologia e anúncios sobre empregos.
No dia em que se anunciou a possibilidade de se aumentar o número de províncias e municípios, a cidade toda, as rádios, jornais e televisões nao falaram de outra coisa senão a possibilidade de os maridos terem mais empregos e as senhoras da zunga mais espaço e territórios para vender. Ndinha que estava cansada das corridas nas ruas da Grande Capital já tinha esboçado o seu plano e cochichou mesmo às amigas que não perderia a oportunidade de se mudar daquela cidade, caso o assunto fosse levado a sério pelas instâncias superiores e pelo marido que matava kasumunas há já três anos, desde a desmobilização da vida kwemba.
Posta em casa, antes mesmo de contar as receitas do dia, Ndinha passou o jornal a Jota que consertava o fofandó que parara de gritar a sua dor de tanto uso por falta da energia da rede pública.
Pelos fundos do quintal, onde Jota se encontrava, não tardou surgir o grito de alegria:
- Ndinha, minha mboa, amarra o cabrito e as galinhas que estão na capoeira. Vamos procurar chefe Kapwete.
- Quem é esse Kapwete, Jota?
- Mulher, não esquenta. É irmão do chefe Kamundanda. Vamos. Há novos cargos na Libaju. Não ouviste que país vai aumentar? Temos de nos apressar se não vamos “lerapiar”.
- Mas, cargo então aonde, Jota. Coisas que explicas nunca só ficam esclarecidas. -Resmungou Ndinha.
- Vamos. Prepara as crianças e podes também avisar as tuas colegas que queiram singrar longe de Luanda. Vão criar 3 novas províncias, 75 municípios e sei lá quantas comunas. Já imaginaste quantos vão subir? É vida!
- Jota, é mesmo já você que vai subir?- Tentou contrariar Ndinha, na sua manina de “só para contrariar”.
- Eu não porquê? Eh? Não porquê?! Já não sou secretário executivo da Libaju? Aponta aí. “Se tenta” e oito novas circunscrições, vezes 17 comissários eleitorais, sem contar os departamentos e secções, administradores comunais, os “lima-unha”, os “joga-cartas de baralho” e os “leva-mala” do boss. Três províncias, vezes trinta directores, três vice, o staff e dependentes, os assessores… Jota fez pausa para levar ar fresco ao peito que reclamava água fria, devido à ressaca do dia anterior. E prosseguiu: “se tenta” e cinco administradores municipais e seus adjuntos, mais o staff das repartições... Dizem que até os deputados vão subir para 135. Vamos, não me faz perder mais tempo e oportunidade. Temos que levar o cabrito e as galinhas ao chefe Kapwete que está a fazer a lista. O período de recrutamento é curto e temos que aproveitar agora que os tubarões estão ainda na distração das festas e a engordarem com os cabazes. Vamos!
- É verdade mô Jota, mô amori. É mesmo muita vaga, Jojó. Vou também avisar a mana Miquilina, minha chefa-adjunta na Anazunga. Ela também estudou até à quarta classe do tempo de Agostinho Neto. Sabe ler, escrever e fazer contas de dinheiro. Ninguém lhe aldraba na tabuada!
- Sim dama. É muita vaga mas também muitos dos môs avilos ainda sem função, vivendo de “mixas” ou das damas como tu. Essa é a oportunidade da nossa salvação.- Respondeu Jota.
- Sim amor. Haja o que hajar, dessa vez ninguém mais nos kasumbula. Vamos, antes que as vagas dos municípios acabem. Nas províncias assim já se tombwelaram, mas nos municípios e comunas ainda deve sobrar. – Respondeu Ndinha com o kasula às costas, o filho mais velho agarrado à saia e puxando o cabrito pela corda. A galinha, o pato e um casal de pombos estavam na quinda que seria ofertada ao boss das listas.
- Vamos aproveitar o período festivo de natal e ano como motivo da oferta. Assim, o chefe Kapwete não alega “motivos de ordem moral” para recusar as ofertas em troca de umas vagas num dos novos municípios ou comunas que estão na forja.
- Vamos Mô Jota, homem vijú.- Respondeu Ndinha entusiasmada.
A família partiu, deixando para trás a casa arrendada na Fubu, e as dívidas das birras por saldar. Se vai dar certo ou errado ainda ninguém sabe porque o tal anúncio no jornal não passou de uma antecipação do dia das mentiras, 01 de Abril. Como não se despediram dos vizinhos nem levaram a pouca mobília, que Ndinha foi juntando com o dinheiro da zunga, ainda podem voltar a casa na maior tranquilidade. Há porém um mujimbo que corre e que aumenta a expectativa do casal.

Obs: texto publicado no Semanário Angolense de 08.08.2015
 

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