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sábado, outubro 25, 2014

SOMOS TRI-CAMPEÕES

Jogam neste momento para o campeonato principal de primeira divisão de futebol angolano as duas equipas que lideram o Girabola e separadas por quatro pontos, quando faltarão dois jogos para o fim da corrida.
O Recreativo do Libolo, primeiro com 52 pontos, vence ao ASA por 1-3, ao passo que o Kabuskorp do Palanca, segundo classificado, com 48 pontos, empata no Lubango a um golo.

A terminarem assim os dois jogos, o Libolo abre o champagne e soma o seu terceiro título nacional de futebol.
Faltam pouco menos de dois minutos para o fim dos jogos. Somos campeões?
DAQUI A NADA A RESPOSTA.

quinta-feira, outubro 23, 2014

OS KM DE AVANÇO E A REDACÇÃO DE SANUKA

No Belas, o "kasula" dos municípios da "Ngwimbi", o momento era de festa e trabalho. Festejavam-se os dados do censo que apontavam mais de um milhão de habitantes destronando o Cazenga que afinal não tinha o milhão da fama de muito tempo. Festejava-se com “lambula” e “maluvu” de bordão trazido da Barra do Kwanza, lá pelas bandas onde o bordão e o “cisombe” abundam. Os pescadores vindos da faina distribuíam as kabwenhas para seca e os peixes mais graúdos às tias do “mbijeéé-mbijééé” que se “tombwelavam” aí mesmo. As mais espertinhas passavam a perna às caloiras no negócio madrugador do peixe fresco.
Só no bairro Km 30 é que a conversa era outra, embora sobre o censo ainda. Em quase todas as ruas e ruelas havia discussão sobre “roubo” de terrenos. Uns tinham adquirido espaços de 20m x 20m mas no dia da última medição para início das obras as contas estavam a bater erradas. Só as dos vizinhos madrugadores na construção é que batiam acima do talhão.
- Porra, se “tombwelaste” no meu terreno, assim fica como, vizinho?! – Gaspar não tinha dúvidas. Tinha medido tudo ao pormenor. Até GPS tinha usado.
- Porra não, vizinho. Haja respeito. Eu cheguei primeiro e cuidei do teu terreno. Deixou de ter capim e minhocas. Quarenta centímetros que o meu pedreiro te descontou até foi favor. – Ripostou Kafuxi com a rabugice que lhe é reconhecida no bairro.
Enquanto os kotas trocavam ameaças, mas sem intenção de “gargantear” o pescoço do outro, Sanuka, miúda do bairro que estuda no IGCA, apareceu com o relatório do censo, com as makas da extensão geográfica na boca.
- Tios, estão se dar “kibeto” só porquê se ainda o Estado também se “tombwelou” lá terreno dele?
- Que conversa é essa, menina Sanuka, cuidado que num se brinca com assuntos de Estado. - Alertaram, já amigados, Kafuxi e Gaspar, atentos às folhas que Sanuka exibia. E pareciam autênticas, com carimbo e tudo.
- Sim, vizinhos. Quando chegou a “dipanda” dos africanos, naquela pressa do “tunda mindele”, Angola e seus vizinhos mariscos, zairenses, zambianos e mais tarde os  namibianos eram como o vizinho Gaspar e vizinho Kafuxi. Não tinham colocado muro ainda nos seus quintais e começaram a viver só assim. Filho de vizinho entra na casa do outro e galinha daqui esgravata ali, sem problema nenhum. Até que um dia o vizinho Angola decidiu murar o seu espaço. Assim tipo já o vizinho Kafuxi fez no seu quintal. Levantou o muro e foi fazendo um “kadesconto” aqui, outro acolá. Desbastou a “kamunda” que estava no meio dos dois terrenos e ficou tudo plano. No lado do buraco, meteu lá a terra que era da “kamontanha” e o terreno dele ficou mais largo. Assim fez também o Estado. Como os vizinhos  do mar, do norte, do leste e do sul estavam a demorar pôr os muros, Angola fez depressa e cresceu mais 5445 km2.
- Boquiabertos os vizinhos, não se deram conta da baba a cair, perante a explicação pitoresca mas documentada da nova intelectual do Km30, ao Belas.
- Mas ó Sanuka, não terá sido o GPS que aumentou o terreno do Estado? Não terá sido o "kaputu" que se enganou nas contas da nossa geografia antiga? Não terá sido fruto das dragagens no mar? Olha que temos portos e avenidas costeiras em construção... – Gaspar, entendido em assuntos de GPS, acordou do sono e procurou entender melhor o assunto dos quilómetros de avanço.
- Deixa, vizinho Gaspar, - ripostou Fafuxi - a população passou de sete para vinte e quatro, querias que o terreno encolhesse?
Chamada ao telefone, pelas colegas da escola, Sanuka se desfez dos vizinhos e foi fazer a composição solicitada pelo professor de cartografia. E escreveu:
 
«Camões que em terra de “cawoyos” é rei escreveu “Os Lusíadas”, poesia épica ou epopeia, em que narra factos notáveis, grandiosos de um povo. A literatura costuma apresentar os factos, geralmente,  atribuídos a um herói. Luis de Camões, atribui a epopeia dos Lusíadas ao povo português, representado por Vasco da Gama, o descobridor das Índias Orientais.
Enquanto povo heróico e generoso, os angolanos têm muitas epopeias. Uma delas, e novíssima, tem a ver com a conquista/resgate/recontagem/reconfirmação(?) da extensão do nosso território nacional, onde estamos a fundar a “Pátria Nostra”. Os dados, ainda fresquinhos, do resultado do censo geral da população e habitação de 16 de Maio de 2014, apontam que a extensão de Angola passou dos então conhecidos 1.246.700Km2 para os nada maus 1.252.145 km2, (pág. 07 do Relatório do censo) mais 5445Km2.
Estranho é que a minha festa continua a solo como se 5.445Km2 fossem nada. Já imaginou um terreno desses para uma auto-construção dirigida? Dava até por ter bois, cabritos, galinhas, gansos, patos, e exploração mineral autorizada caso houvesse recursos no seu subsolo. Os vizinhos Gaspar e Kafuxi deixariam de trocar ameaças de morte e praguejamento à família e descendentes.
E continuo a festejar sozinha o aumento da nossa “geografia” ou a confirmação, via GPS, distinta do metro-a-metro da contagem luz-e-tana do antigamente, porque nos falta gente com olhos lince para nos explicar onde e como se conseguiu tamanha proeza.
 Senhor, professor, atendendo ao facto de a extensão do nosso país estar figurada em relatórios e documentos internacionais e ser objecto de estudo das nossas crianças desde a 4ª classe, qualquer alteração desses números devia ser bem explicada e documentada ,já que os novos dados sujeitarão as instituições de ensino e afins a mudarem os manuais.
E, enquanto festejo, vou também colocando perguntas a mim mesma?
- Como foi mesmo que conseguimos os 5445 quilómetros quadrados?
- Foi devido a dragagem do mar? Temos exemplos claros na baia de Luanda e noutros sítios em que se projectam portos de águas profundas.
- Terá sido por "kasumbula" a um vizinho distraído ou que se tinha dado de “viju” quando nós engatinhávamos ainda na tomada das chaves da nossa Angola?
- Terão sido os tugas que nas pelejas com os  franceses, belgas, alemães e ingleses aceitaram um número que lhes era desproporcional?
Pronto. O angolano é “viju” e, doravante, será assim. Se o meu país cresce, e ainda bem que cresceu em terreno e população (essa duplicou a projecção mais pessimista que havia dos 12 milhões), sempre que endireitar o muro do quintal dou uns “kacentímetros” ao lado do vizinho “kimbonzado”, como fez o vizinho Kafuxi com a "kibela" do vizinho Gaspar que está quase a lhe “gargantar”.
Como o censo será de dez em dez anos ou distâncias ainda maiores, as contas serão feitas pelos nossos filhos».
Sanuka terminou a redacção e leu-a em voz alta para colocar as pausas correctas. Lá fora Gaspar e Kafuxi que foram pedir copia da página sete do relatório preliminar, ouviram a composição e não perderam terreno, brindando-a com uma estrondosa salva de palmas, pois ela é boa em redacção.


Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense, 21.11.2014.

segunda-feira, outubro 20, 2014

O DOTOR WALENDE

Pedra Escrita, 10 de Janeiro de 1981. Vivia-se ainda um tempo calmo no campo militar por aquelas paragens.
Os estrondos de canhões eram para a miudagem do meu tempo contos de fada. De guerra com corpos despedaçados, os mais velhos tinham já vagas lembranças dos dias longos que levaram o país à ”dipanda” e doutros mais funestos que se seguiram ao hastear da bandeira, uma “trungungada” já entre nós, os “mambundu”, que caídos nas intrujices dos guerreadores-frios do oriente e ocidente que, procurando por estender as suas zonas de influência nos novos Estados sem colonos, nos levaram a nos “balaziarmos” sem aparente causa profunda.
Minas que se falavam naquele tempo e naquela região eram apenas as que os prospectores marcaram nas suas aventuras pelas montanhas e savanas, procurando pelo que a natureza encobre aos homens. Minas de ferro, de cobre, de diamantes no Musende, etc. Essas sim, levavam os “pioneiros” a sonharem com o dia em que se tornariam engenheiro de verdade e não como o Mam-Belé, da Munenga, que anda com as mãos sempre pretas de óleos descartados dos tractores agrícolas.
Na fazenda Israel, rebaptizada por Hoji-ya-Henda, ainda se viam homens andando de lado a lado, de campo a campo, capinando ou levando “imbambas”. Viam-se também tractores, desbravando florestas, charruando e gradeando a terra. E floriam milherais, girassóis, tangerineiras e laranjeiras. Floriam ainda mamoeiros, bananeiras. Até jovens e adolescentes floriam e a beleza era com eles.
As mulheres “amigadas” entregavam-se às lavras familiares, enquanto os homens aguentavam a “tonga” a troco de uns Kwanzas que sobravam para comprar o inexistente nas lojas do povo. Aos sábados e domingos, dias de descanso na fazenda, os homens, as crianças e os adolescentes da escola auxiliavam as mulheres e mamãs nos trabalhos campestres familiares, donde provinha o “mbolo ya kizwa” de todos os anos.
Enquanto as bananas da fazenda satisfaziam o estômago carente de fruta, a banana dondí das propriedades familiares, depois de fermentada com sumo de “muxiri” ou “mbundi” e destilada, dava azo a voos cósmicos àqueles que da sua condensada bebida se tornavam artistas. Kyama Ngulu era um deles.
Não tinha mulher, nem lavra, nem filhos. Trabalhava de campo em campo a troco de comida imediata e trocos para uns copos num alambique qualquer. Quando a moda da “doutoromania” se alastrou por aquelas “bandas”, o povo começou a “doutorar e enginheirar” todos aqueles que se apresentassem como exímios artistas nos seus afazeres.
António Xico era o “dotor catana”. Tão grande era a sua perícia em roçar a roça que desafiava as capinadeira mecânica da fazenda. Xika Yangu era o “dotor volanti”. Dizia-se mesmo que “tractorava” com os olhos fechados até em noites sem luar nem estrelas iluminantes. Narciso era “dotor capataz”. Dele ninguém se ausentava sem licença. Dizia-se que o “dotor capataz” tinha olhos e ouvidos de gato, capaz de ver e ouvir em noite escura e barulhenta. O Mam-Belé era o “inginhero” da aldeia e da fazenda. A manutenção de todas as máquinas e equipamentos mecânicos passava por ele. Kyama Ngulu também tinha o seu título. Não era um homem qualquer. Era dos que mais chamavam a atenção dos visitantes àquele bairro. Ou pelo seu estado emporcalhado ou pelo seu “darcensa”, sempre que se dirigisse a uma cozinha para pedir lume ou uma “kabwenha” para o almoço. Se vivesse até hoje, dir-se-ia mesmo que Kyama Ngulu se tinha licenciado por auto-didactismo em ingestão de bebidas alcoólicas tradicionais africanas. Daí o nome de “dotor Walende” lhe ter servido como chave certa na fechadura.
Kyama ngulu não era apenas um copofónico. Era também um filósofo de bairro. Nos óbitos, em que era figura omnipresente, costumava levar os “makota” da região a minutos de reflexão e busca de respostas quase sempre difíceis.
- Por que se lavam os mortos, se vão a enterrar?
- Por que se lavam as toalhas de banho, se os seus donos as usam depois de se lavarem?
- Por que se vestem os finados com a melhor roupa existente ou se compram fatos caros, se vestido e vestes vão a enterrar e a apodrecer?
- Por que se enterram os ricos com fios de ouro, pedras de diamantes e, às vezes, acompanhados de whisky caro, se deles não fazem usufruto?
- Assim, se um gajo desenterrar o rico para aproveitar o que os familiares deitam fora, é bruxaria?
Essas eram as perguntas de Kyama Ngulu que nem sempre encontravam respostas, mesmo por parte dos “makotas” mais bem servidos de experiência e inteligência.
“Dotor Walende” viveu a sua vida entre trabalho tarefeiro, copos, algumas roubalheiras de pouca fartura e surras à mistura quando apanhado com a “boca na botija”. O soba já o tinha julgado “ene” vezes e passou a ser um “réu permanente e entregue à justiça pública”. Até mesmo a polícia da Munenga tinha “desconseguido metê-lo na linha”. Vezes tantas tinha varrido a esquadra e a zona contígua à administração comunal, sem que dele surgisse o arrependimento ou o endireitamento de conduta.
Não o vi partir, mas conta-se, ainda até hoje, que a sua morte foi das mais choradas naquela aldeia libolense. A fama do “Dotor Walende” replica-se aos que vão nascendo, mesmo não se vendo mais a campa que guarda as suas lembranças. É o nome que se atribui a todos que seguem o seu caminho.
As mulheres, viúvas e solteiras, enfeitaram com flores nativas a estrada EN-210, que corta a aldeia em dois quarteirões, e as ruelas interiores da localidade. As moças tinham viajado ao Ndondo e Kalulu para tratar do cabelo, unhas postiças e comprar adornos. Os homens fizeram uma contribuição para enterrar de forma honrosa o seu companheiro de todos os dias, meses e anos.
“Dotor Walende” ou “kawalende” era chato, mas útil para a comunidade. Era “mantenedor” de muitas coisas. Amores esfriados ou inexistentes ele atendia a troco de “walende” ou algum manjar. Corte de capim para reforçar a cobertura das casas, fabrico de adobes, derrube de árvores nas lavras (o que mais o chateava), acompanhamento dos meninos à escola, tudo era obra para o “Dotor Walende”. Até para “porradar” outros gatunos, ele era o primeiro na fila. Por isso, os homens fizeram uma contribuição ordenada pelo soba. Cabritos, vinho, “walende”, canjica e até gira-discos havia. Só não compraram urna funerária para não terem de matar árvores, o que o finado detestava. Também não compraram roupa nova. Apenas lavaram a rota que ele usava, cumprindo com a sua filosofia.
Por cima da sua tumba, uma lápide foi colocada e ali permaneceu até que a guerra pós-eleitoral levou aquelas gentes para muito longe de seus “libatas”, não se sabendo quem se terá acaparado do letreiro.
 
“Aqui jazz o dotor Walende, homem ímpar em todos os tempos”, lia-se.

Obs: texto publicado pelo Semanário Angolense (2014) e no Jornal de Angola de 12.03.2023.

quarta-feira, outubro 15, 2014

A MINHA FÉ NA CULTURA

A língua é um dos principais elementos identitários de um povo, estando por isso intrínseco à sua cultura.
Apesar disso, as línguas de origem africana (bantu) sofreram ao longo do último século um ostracismo que as remeteu ao fundo do quintal, ou seja, elas passaram a ser utilizadas apenas nas áreas rurais, e nos subúrbios das cidades ou em conversas privadas, redundando em perda de identidade.
Tal postura, também herdada pelas novas autoridades angolanas emanadas do processo de independência nacional teve alguns fundamentos:
1º Em 1921, Norton de Matos, Governador português de Angola, exarou o decreto nº 77, nº 5 primeira série, de nove de Dezembro, que estipulava, no seu ponto 3, a obrigatoriedade, em qualquer missão cristã, o ensino da Língua Portuguesa. Rezava ainda o decreto, nos pontos adiantes, a vedação do ensino em línguas estrangeiras bem como a proibição (artigos 2 e 3) do ensino das línguas locais. “Não é permitido ensinar nas escolas de qualquer missão, línguas indígenas, sendo as línguas indígenas permitidas apenas catequese”.
2º O “Estatuto dos indígenas das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique” adoptado pelas autoridades coloniais (Decreto-lei de 20 de Maio de 1954) que visava a "assimilação" dos nativos africanos na cultura lusitana, foi outra arma contra a locução e ensino das línguas nativas no território da então colónia de Angola, uma vez que para se chegar à categoria de “cidadão português de terceira” ou assimilado, o nativo teria de abdicar de práticas animistas, não se comunicar, em momento algum, em língua nativa e adoptar os hábitos e cultura lusitana. Isso levou, até há bem pouco tempo, que determinadas famílias abdicassem de usar as línguas nativas e, inclusive, proibir os filhos de as aprender.
3º A unidade do povo para a luta contra a presença colonial exigia uma identidade e uma língua comum entre todos os patriotas. Essa necessidade fez com que, naquelas circunstâncias, os Movimentos de Libertação Nacional adoptassem a língua herdada portuguesa (comum a todos) para mobilizar o povo para a luta e projecção de uma Nação que se revisse num instrumento de comunicação geral.

4º Alcançada a independência, embora se tenha reconhecido nas Lei Constitucional o respeito e valorização das Línguas Nacionais, foi a língua herdada da colonização que ganhou o estatuto de idioma principal, relegando para papel secundário as dezenas de outras línguas que se falam no país.

Entretanto, apesar de vilipendiadas ao longo do tempo, as línguas africanas faladas no espaço territorial de Angola não morreram. Elas persistem e vão cada vez mais, buscando o seu merecido lugar. É desta forma que um número, ainda reduzido, de “angolenses” se vai batendo pela valorização e ensino das mesmas, levando-as, inclusive, à literatura, não apenas na transcrição gráfica dos fonemas mas também obedecendo aos instrumentos reguladores das mesmas, como os alfabetos convencionados nacional e internacionalmente.
Olhando para o FENACULT (Festival Nacional de Cultura) decorrido de 31 de Agosto a 20 de Setembro de 2014, dois aspectos configuraram-se transcendentais e aumentaram a minha fé de que um dos elementos primordiais da nossa cultura, as línguas nativas de origem bantu, venham a ter o reconhecimento e valor que encerram para os povos que habitam Angola.

Reunidos na província do Kwandu-Kuvangu (Cuando Cubango, segundo a grafia ressuscitada pelo Ministério da Administração do Território e fornecida aos media públicos), cento e setenta delegados ao V encontro de Línguas Nacionais recomendaram “a necessidade dos topónimos de origem africana serem escritos de acordo com a grafia bantu estabelecida pelo A.F.I. (Alfabeto Fonético Internacional)” e demais convenções do CICIBA (centro de Estudos da Civilização Bantu).
As direcções provinciais da Cultura, segundo os presentes, “devem aprofundar os estudos sobre o mapeamento linguístico das suas províncias, com a supervisão do Instituto de Línguas Nacionais, bem como estabelecer uma parceria técnico-científica com instituições nacionais e estrangeiras afins”.
A esse encontro seguiram-se declarações, não menos importantes, da titular da pasta da Cultura que afirmou, na cerimónia de abertura do III Congresso Internacional de Língua Portuguesa, (19 Outubro) que “Sem qualquer mácula, deve permanecer o diálogo, já que a diversidade linguística do país constitui a sua grande riqueza na validade e diversidade cultural”.
As afirmações da Ministra Rosa Cruz e Silva surgem quase que como resposta ao que um pequeno grupo de angolenses vem escrevendo desde que o MAT orientou a alteração da grafia, nos media pública, de alguns topónimos angolanos. O discurso da Ministra vem, a meu ver, conferir uma abordagem mais responsável e equilibrada sobre um assunto que não foi encarado com a seriedade necessária, tratando-se de uma questão que mexe com um bom punhado de angolanos, alguns com e outros sem voz audível. É o “vamos conversar que chegaremos a meio termo sem ‘trunguguismos’ a que sempre fomos, eu incluído, apelando em vários escritos nas redes sociais”.

A 26 de Fevereiro de 2014, o Jornal de Angola estampava que “o Ministério da Administração do Território vai levar ao Parlamento, para debate e provável aprovação, uma proposta de Projecto de Lei sobre as denominações das províncias, localidades e municípios do país que está a ser preparada”. Lia-se ainda na notícia que “Bornito de Sousa esclareceu que o seu Ministério vai adoptar novas grafias para algumas províncias, tendo exemplificado a retirada da letra “K” e a introdução do “C”, algo que já se observa nas designações usadas pela media, sobretudo a pública, em cumprimento a uma orientação daquele Departamento Ministerial enviado às redacções e que se baseia em “uma Portaria de 1971, de 12 de Fevereiro, sobre a Divisão Administrativa e Toponímia da então Província Ultramarina de Angola”. Se tal exercício “visou a realização do censo”, é importante que o bom senso e o diálogo prevaleçam e que os alfabetos convencionados pelo nosso Governo, através da Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República sejam aplicados nas designações das nossas circunscrições.

Os topónimos e antropónimos de origem bantu não são meras designações. Encerram sentidos e conotações semânticas que devem ser respeitados tanto na grafia quanto na articulação fonética para que designem aquilo que foi projectado. Não é certo, por exemplo que se diga “Canjala” (relativo à fome) quando se pretende dizer é “Kanjala” (pequena fome), ou Canhanga em vez de Kanyanga, que não são a mesma coisa.

É por essa e outras razões digo: “não há bota, por mais suja e pesada que seja, que vá aniquilar as nossas línguas e a nossa identidade cultural, secular”. É por isso que mantenho a minha Fé na Cultura!

Obs: Texto publicado pelo Semanário Angolense na rubrica "Aplausos e muxoxos"

sexta-feira, outubro 10, 2014

NALL TEM NOVA DIRECÇÃO

ANGOP: 04.10.2014

Lunda Sul: Núcleo de Amigos da Leitura com novos corpos gerentes

Saurimo- Os novos membros que integram os órgãos directivos do Núcleo de Amigos de Literatura, na Lunda Sul, tomaram posse sexta-feira, tendo como Presidente da Assembleia Geral, Luciano Canhanga.

Para presidente do Conselho Directivo foi empossado Guilson Satxingo, coadjuvado por Alves Chaxe, enquanto a pasta de secretário geral ficou com Alfredo Lologi.
Ruth Limata responde pela pasta das Finanças, sendo Fábio Pedro para a Informação e Intercâmbio, e Celestino Cussecala, como secretário para Eventos e Recreação.
O Conselho Fiscal é presidido por Brigitte Caferro e tem como vogais Domingos Rodrigues e Vivi da Cruz.
Os novos responsáveis do Núcleo comprometeram-se em tudo fazer para dinamizar as actividades da instituição.O Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura é uma associação apartidária, sem fins lucrativos e tem como finalidade promover e incentivar as crianças, adolescentes e jovens à prática de leitura. A mesma promove debates e escrita criativa nas escolas e comunidades, para além de outras acções afins.  

domingo, outubro 05, 2014

O TIO, O PASTOR E O GREGO DO "SETE & MEIO"

Depois de a “Classe de Kwanza-Sul” se ter emancipado do cargo de Kalemba, eu virei motivo de disputa aos domingos entre o casal que me adoptara. Cada qual queria puxar-me para o seu lado, qual galinha a proteger pintainho tresmalhado.

Órfão aos oito anos e deslocado de guerra — ou recuado, como se dizia nos anos 80 para designar quem fugira dos tiros para aterrar nas cidades protegidas pelo Governo da República Popular de Angola — eu era como vergôntea fina: qualquer vento me dobrava.

Entre os Metodistas Unidos, a Classe é o local para encontros semanais no bairro; o Cargo, a “Igreja” grande do domingo. Era nessa geometria espiritual que eu crescia, sem ainda perceber bem por que razão a fé também tem caminhos distintos.

De 1972 a 1983, um grupo de kwanza-sulinos espalhados pelos templos de Luanda decidiu fundar a sua própria classe, que mais tarde viria a ser cargo. A malta era variada — havia malanjinos, kwanza‑nortenhos e gente do centro-Norte — mas os kikís dominavam. Talvez por isso o nome “Classe Kwanza-Sul” nunca tenha provocado celeuma.

A Classe subordinava-se à Igreja de Kalemba, ali atrás do cemitério de Sant’Ana. Quando ela se emancipou, separou também o casal que me criava: ele ficou em Kalemba, ela seguiu para a nova Igreja Moisés. E, como quem dá de comer é a mãe, lá fui eu atrás dela. Do tio recebia o costumeiro sermão e o dinheiro do ofertório — entregue religiosamente antes de cada um seguir o seu caminho.

A tia ia com as amigas; eu, com os meus kambas da EBF e do Pavilhão Infantil. O regresso juntava-nos de novo, entre compras no Nzala Ikola e paragens na Praça das Corridas.

Numa dessas manhãs, a tia faltou ao culto por razões que o tempo, generoso, tratou de apagar. Segui com os meus amigos em direcção à Moisés. À altura do Nzamba‑1 vimos uma roda de gente: curiosos, devotos, passantes… todos colados a um homem que falava desenfreado. Era um novo pregador — desses que o meu amigo Murtala cantou em música como pastor murras.

No púlpito improvisado tinha um livro “Verbo Divino”, tão verborrágico quanto ele próprio. Até quem saía de outras ngelús parava para “comer um koxitu” do sermão que, aos mais treinados, lembrava o Sermão do Monte.

Pregava assim:

— Irmãos e irmãs, um bom cristão deve dar a face esquerda depois de levar a galheta na direita… fui enviado pelo nosso Pai, tal qual os profetas da antiguidade…

A multidão ia aplaudindo, assobiando, entusiasmada. Até que, do meio da massa, saltou um grego do Sete‑e‑Meio com um:

— É mentira!

O pastor perdeu o fio e devolveu:

— Vai para o car(v)alho, seu bandido!

Foi como desligar o gerador. A multidão, antes efusiva, virou-lhe costas. Do aplauso passou‑se ao mixoxu.

Continuámos caminho até ao Pavilhão Infantil, onde ainda chegámos a tempo de cantar o “Kasanje‑Kasanje” do tio Farias, a “Margarida Morena” da mana Cândida e “o elefante que incomoda muita gente”.

À tarde, esperei pelo tio, como sempre às duas. Contei‑lhe o episódio e perguntei:

— Tio, pastor que é quase Deus também ofende?

Ele ergueu os olhos:

— Como assim, sobrinho? Na Igreja Kwanza-Sul o vosso pastor mordeu a língua?

— Não, tio. Foi um pastor de rua… respondeu com palavrão ao grego do Sete‑e‑Meio.

O ancião ajeitou o chapéu e procurou não quebrar o encanto da fé nem desautorizar o pregador:

— Meu sobrinho… faz sempre o que eu te digo, mas nem sempre o que eu faço. O diabo anda à espreita. Tanto o tio como o pastor podem errar. Aliás, não foi o pastor quem ofendeu o grego. Foi o diabo que se serviu da boca dele.

E assim ficou explicado o deslize — não da carne, mas da boca emprestada.


In: O gajo do pastor
Obs: Publicado pelo Semanário Angolense

quarta-feira, outubro 01, 2014

A BANHEIRA E A BACIA

- Amiga chega na minha banheira. Tem feijão, tem vassoura, tem chouriço, tem jimboa, tem alho, tem tudo.
A zungueira percorre Luanda de lês a lês com o megafone que manda para os ventos soltos o pregão do costume. E correm as donas de casa, correm as empregadas domésticas para Pará-la e comprar o que interessa.

- Joana, enche a banheira para lavar os pratos. – Berta ordenou, já noite, à filha.
Quer o recipiente em que ela carrega os produtos que vende, quer o recipiente em que se lava a loiça (onde não haja lavatório ou pia para os brasileiros) são bacias e não banheira.

- Jojó, me dá o “barde” e o “apá” do lixo. – Pediu Isabel ao filho para acrescentar: - "Quando estávamos a vir, “se demos encontro” com a prima Maria que foi “na” praça do “Adorfo” vender makayabu. Se estás a ir "no" rio Luzia,  pega "na" Jaja e “lhe traz” já na mãe dela que foi lavar roupa".
- Mamã, "mi" dá só aquela mochila. É muita coisa à frete de "me".- Respondeu o filho.
 Variadíssimas vezes ouvimos expressões como essas. Alguns dos oradores ou redactores são universitários que não deixam de receber críticas pela forma como "vilipendiam" a oratória e a escrita da Língua Portuguesa. Às vezes, fico com a sensação de que desaprendi a escrever. É tanta "bujarda" que me chega aos olhos e outras tantas vezes aos ouvidos.
 "Os médicos enterram seus erros. Os juízes aprisionam-nos. Os que escrevem expõem-nos", dizia um filósofo clássico.
Pior ainda quando o conteúdo que se quer transmitir, sobretudo nas redes sociais, vale menos do que o texto. Para quê se expor e "manchar" a banga toda? Por que não colocar apenas um  "like" nos textos encontrados nos murais do face book, a atrever-se a escrever palavras cuja ortografia não domina?
 “Se uns exibem as barrigas, há os que exibem os narizes e outros mambos. Outros ainda decidem exibir os seus ‘descompassos’ com a língua escrita. Esses precisam de exercícios. Os da barriga fazem abdominais e talvez lá cheguem. Os dos narizes fazem cirurgias e talvez fiquem menos narigudos. Os dos textos que revelam o seu questionável nível de instrução (não estou a falar de diplomas, porque estes até no Pau Grande tiram-se), devem mesmo voltar à escola para aprender a não ferir sensibilidades alheias. É tanta pedrada junta que um dia desarrumam o mundo!”
Escrever bem é difícil mas aprende-se. Leia muito. Pratique  a escrita normativa (fora dos clichés e abreviaturas do face book), faça cópias de livros bem escritos. Só quem lê passa a conhecer as palavras e a escrevê-las correctamente.
Não será bom que o seu empregador se aperceba de lacunas graves em questões básicas de escrita, interpretação e expressão oral.
É a falar que se aprende a falar. Leia sempre em voz alta para aperfeiçoar esse lado.

Obs: Texto publicado no Semanário Angolense.

domingo, setembro 28, 2014

EU E AS MISS(ES)

Possuir idade entre os 18 a 24 anos; ter habilitações literárias mínimas a 9ª classe; ser natural da província ou residir nela há mais de cinco anos; possuir altura igual ou superior a 1,72m; não possuir tatuagens, piercings ou cicatrizes e partes visíveis do corpo; não ser arqueada, entre outras, são algumas das prescrições para se candidatar ao concurso Miss Provincial.
Uma das questões que tenho ouvido burilar, nestes meus anos de convívio organizacional, tem sido a questão das habilitações, quando na presença de candidatas com maior grau académico (que não redunda sempre no maior nível de conhecimentos), se elege uma candidata que ateste menor grau escolar. Cheguei a perguntar para mim mesmo se o concurso Miss era desfile de certificados de habilitações literárias, uns do “Triângulo do Pau-Grande”, ao Cazenga, ou disputa entre as que melhor sabem desfilar, exalar beleza, saber estar em convívio social, e um maior a vontade quando abordada pela media e outros actores sociais.
Quando se encontra um ponto de equilíbrio  entre a beleza e a formação académica, concorrentes, organizadores, patrocinadores e a assistência saem felizes. Mas não é tudo. Há outros ecos que surgem sempre da montanha, reportando-se ou à cor, mais clareada ou menos do que isso, ou ainda à naturalidade das candidatas.
- Senhor professor, perguntou-me um internauta e atento ao que se passa à volta dos concursos de beleza, uma biena pode concorrer no Bengo?
 - Pode. Respondi. A condição é residir no Bengo há mais de 5 anos ou ser filha de naturais do Bengo.
Felizmente, o jovem não voltou a colocar nenhuma outra questão e terá ido “espalhar a boa nova”. É bom quando se tem a ombriedade de se perguntar, antes de maldizer quem com muito esforço faz algo acontecer. É bom que se respeite o trabalho alheio que nem sempre é fácil como nos parece num julgamento barato. Olhando para dentro, o comité e o júri trabalham semanas com as candidatas e tomam notas de quem pode representar de forma mais condigna a província, qualquer que seja.
O público, apesar de peça fundamental para que a gala aconteça, tem um julgamento sumário. Vê apenas um lado da peça. Apaixona-se pela voz ou pelo corpo. Às vezes nem repara na altura. Chega a eleger a que apenas está a fazer número por expressa vontade ou por questões estratégicas.
Apesar de me parecer estar a entrar em desuso, os concurso provinciais de miss são investimentos avultados e que têm de dar algum retorno, em termos de projecção da imagem  da circunscrição que a elegeu. Espera-se que a detentora  da coroa seja presente e actuante, contribuindo, com o seu charme, na adopção de boas práticas sociais. Uma miss que não mova durante o seu mandato sequer uma palha não é digna de ser coroada. E, infelizmente, exemplos dessa natureza são os que mais temos de sobra.
Espero que este ano seja diferente e tenhamos jovens dedicadas como a Elsa Mualengue da Lunda Sul e a jovem do Kwanza-Sul que passou de Zungueira a Miss e empresária do presente. Esses sim. São exemplos que orgulham as províncias e a Nação.
PAZ, TRABALHO E TOLERÂNCIA.
Pelo ano haverá mais.

segunda-feira, setembro 22, 2014

NÚCLEO DE LEITURA E LITERATURA GANHA FÔLEGO NA LUNDA SUL

Criado em 2013, o Núcleo de Jovens Amigos da leitura e Literatura da Lunda Sul ganha fôlego, depois de alguma apatia. Jovens preocupados com a inexistência na cidade de um espaço para debates e “oficina” de arte literária decidiram juntar-se e revitalizar o Núcleo, fazendo dele um espaço para o intercâmbio de conhecimentos que levem ao afinar da pena literária.
Depois de um encontro preliminar, a 13 de Setembro, juntando duas dezenas de jovens e adolescentes, o grupo voltou a reunir-se neste domingo, 21 de Setembro, sob a liderança de Guilson Satxingo.
O próximo passo, segundo Satxingo, será a eleição e tomada de posse de um corpo directivo que deverá elaborar um calendário de reuniões ordinárias e outros encontros, confirmou o jovem.
A reunião deste domingo teve como convidado o escritor Soberano Canhanga, mentor e padrinho do Núcleo, que falou aos presentes sobre a necessidade de os jovens trocarem experiências e conhecimentos académicos e culturais e se empenharem nos estudos para que tenhamos renovação ao nível da classe intelectual.Não basta estar licenciado, disse, é preciso ter conhecimentos. Nesse quesito, a leitura, o debate cortês e o ensaio da escrita são peças fundamentais para que o jovem ganhe o reconhecimento social.
No grupo, o realce vai para a presença de uma rapariga, Ruth, que se sente apaixonada pela literatura, tendo ganho de presente um exemplar do livro "O Relógio do Velho Trinta", ao passo que um outro "Manongo-Nongo" foi ofertado ao colectivo.
Há muito tempo procurava por um grupo onde pudéssemos falar sobre assuntos de interesse juvenil e conhecer a nossa literatura, disse Ruth Limata.
Os jovens, alguns deles já declamadores de poesia, procuram buscar o conhecimento e o reconhecimento social pela via do estudo e do trabalho, uma acção que merece apoio institucional e de pessoas particulares para que possam desenvolver actividades e crescer cultural e intelectualmente.
 
Capas para processos, cartões para membros, apoios financeiros e materiais como blocos de notas, esferográficas, etc., serão bem-vindos.
 
O Núcleo usa, para as suas reuniões, as instalações da Escola Superior Politécnica da Lunda Sul, Universidade Lueji A Nkonde e foi formalmente apresentado às autoridades políticas e administrativas da Província.
 

quinta-feira, setembro 18, 2014

FAAG-ANGOLA JÁ LÊ "O RELÓGIO"


Soberano (Luciano) Canhanga: à esquerda
Os colegas da turma 2 do curso de mestrado em Ciências Empresariais, ministrado pela FAAG e UFP, acederam ao livro "O Relógio do Velho Trinta" lançado a 16 de Agosto na cidade do Kuito (Angola).
Cerca de meia centena de livros foram adquiridos pela turma 2 que cursou "Gestão da Tecnologia de Informação" no período compreendido entre o8 a 12 de Setembro.
Canhanga e Robson
No final do módulo, o professor da cadeira, Robson Moreira, recebeu de oferta um exemplar, tendo o outro sido entregue à FAAG-Angola.
O autor agradece a amabilidade dos colegas e aguarda por críticas.

segunda-feira, setembro 15, 2014

EU, O TIO E O VELHO KAFEJÁ


O prazer que ele tinha de caminhar, conversando, era tão grande que só hoje se reconhece o valor que encerra. A idade, esse somar de segundos, minutos, dias, semanas, meses, anos, décadas e etc., transfigura-nos. Torna as pessoas diferentes. Pensam diferente, de forma mais estruturada e evoluída. A cada segundo que se passa algo minúsculo, mas real, acontece em nós. Ele gostava de caminhar e conversar. Eu, às vezes, na minha inocência, falava com o meu íntimo e perguntava-me por que ele gostava de estar comigo, impedindo-me de estar com os meus amigos que nas traquinices da idade, ante a ausência dos pais, perdidos na busca do “mbolo ya kizwa[2]”, passam tempo a “estigar”[3] o coitado do vizinho “Velho Kafejá”!

Francisco Ngandu, ou simplesmente Chico, era um pouco mais idoso do que ele e tratavam-se por tio e sobrinho. Eram parentes maternos. Avô Chico, para os rapazes de família, era calvo e com o occipital saliente, aparentado ao desenho escolar de um grão de feijão. Talvez por isso é que os meninos mais “mal-educados” do Kaputu o tratavam por “Velho Kafejá”

Saído da “bwala”, repleto de conhecimentos escolares para a idade, mas sem a esperteza dum “kanuku da ngwimbi”[4], encontrou o tio na casa dos sessenta, pois veio a reformou-se três anos depois. Já a sua filha o tinha presenteado com três continuadores do nome: Raquel, Josira e Bruno. A netinha mais velha tinha apenas seis anitos e o “kasula” deliciava-se ainda com o leite do biberon, sempre que a mãe se dirigisse ao serviço.

Chegou inteligente mas sem a esperteza e domínio dos truques da sobrevivência numa cidade-acampamento (sim, acampamento de recuados de todos os pontos da Angola em chamas), expunha-se inocente e desavisado nos apertados becos do Rangel, sem a mínima noção do perigo que enfrentava todos os dias ao cruzar com os “gregos”[5] do México, sempre que se fizesse a caminho da Praça das Corridas.

O velho, avisado e vacinado pelo tempo de vivência luandina, estava sempre atento e com os conselhos na ponta da língua.

- Olha, sobrinho! Faz um “kaburaco” aqui na cintura dos calções e guarda o dinheiro do peixe. Cuidado com os “gregos”. Fumam lyamba e não têm juízo na cabeça!

 Algumas vezes ouvia-o com ouvidos retentores. Outras vezes, se bem que poucas, o conselho caía em saco roto de “mabela”[6] que dava ao arrependimento e às reprimendas da mãe que herdara uma mão sempre leve.

Aos domingos aconteciam mais conversas. Transpunham o Rangel, Terra Nova e invertiam pelas traseiras do cemitério de Sant´Ana, a caminho do templo da Igreja Metodista Unida de Kalemba. Sentavam num mesmo banco corrido, daqueles feitos pelo marceneiro que respeita a Deus, não deixando as roupas dos fiéis a mercê de pregos mal assassinos. O idoso carregava a bíblia que não lia e o sobrinho o Hinário “Povo cantai!” onde guardava o dinheiro para o ofertório e para os doces à saída do culto. Apenas aos domingos o sexagenário levava a mão ao bolso para as guloseimas do sobrinho. E cantavam juntos “madibesa kala nvula”[7] ou o “nome bom, doce a fé….”.

Depois do culto, boca adocicada, estômago resmungante e conversa de fazer crescer. Era sobre o progresso que falavam na hora do regresso à casa. Metiam-se a caminho do bairro Popular, a casa da Teresinha, a filha que vivia num “kaprédio do tempo colonial”. Visitavam-na religiosamente, independentemente da diferença da profissão religiosa.

Na verdade, o tio precisava de um sobrinho ou um neto a quem pudesse transmitir experiências. Não queria ficar com os seus conhecimentos em stock, sem que alguém deles fizesse usufruto e os legasse às gerações vindouras.

- Cada tempo é um tempo. Há coisas diferentes mas muitas se mantêm na mesma. Por isso, sobrinho, “jikula meso”. - Dizia, vezes sem conta.

Ainda indesperto, cansado de caminhadas, quando se podiam fazer transportar num autocarro da ETP, depois rebaptizada por TCUL, o sobrinho respondia inocente:

- Estou acordado tio. Quem dorme não anda!

- É que não te oiço responder. Estás a ver os carros aqui na Estrada de Katete? Passam rápidos. É preciso olhar aos dois lados e correr ao atravessar. Meus olhos já viram muitos a serem "engomados".

- ´Stá bem, tio. Mas tio sabe que criança não morre. É como “Kilombo”[8] que só desaparece...

- Sim sobrinho. Não há óbito de “Kambuta” nem de alto, de branco ou de preto, ainda mais o “kilombo” que é apenas um acidente de nascença (biológico), não faz sentido separar as pessoas vivas ou defuntas. Mesmo a “kitata”[9] e o “ngombiri”[10] que não fazem coisas recomendáveis não se fala deles quando Deus os chama. Apenas se diz que alguém morreu. O ofício dele fica esquecido. - Explicou  antes de "fechar" com uma advertência:

Não fala com os estranhos essas coisas de mais velhos, sobrinho. Primeiro aprende e depois vai aos debates. Pronto. Agora acelera o passo e vamos à igreja onde deves ficar atento à pregação.

Está bem tio! Está bem. A lição foi absorvida!

Obs: Publicado no Semanário Angolense sob título: "Eu, o tio e o Velho Kafejá", 20. Set. 2014


[1] Abre o olho (Kimbundu).
[2] Pão de cada dia (Kimbundu).
[3] Insultavam; instigavam a… (calão).
[4] Rapaz da cidade (calão).
[5] Delinquentes; bandidos (calão).
[6] Ráfia (Kimbundu).
[7] Cântico religioso (bênçãos como água).
[8] Albino  (Kimbundu).
[9] Prostituta (calão).
[10] Violador  (Kimbundu).

 

quinta-feira, setembro 11, 2014

OVILAMO

(Crónica publicada no Semanário Angolense na rubrica "Palmas & Muxoxos")
 
Batem-se palmas quando alguém aprova algo bem feito ou bem dito. Soam estalidos bocais ou “mixoxu”, plural de “muxoxu”, quando se reprova uma atitude ou acção. É isso que se espera desta rubrica de crónicas que hoje se inaugura nas páginas do SA que atende a um “nga dibeka” do autor. Falando verdade verdadeira, o Director desabafou numa brincadeira que precisava de cronistas para o SA e eu “kasumbulei” a oportunidade. Isso mesmo. Candidatei-me via face book e obtive dele o “escreve já”.
Antes de iniciar o aprofundamento dessa conversa, apelo aos prováveis seguidores da odisseia que em muitos casos descuidarei o tratamento normativo da Língua Portugues. Portanto, aqui escreverei Português e “Angolês” que deve estar já aí a chegar!
 
O ponto 02 deste ponto prévio tem a ver com o “ovilamo” que na língua umbundo é saudação. Não sendo um “habitué” e ainda que fosse, teria sempre de saudar os Kotas do SA, que espero me recebam com ternura, e os leitores de quem aguardo leitura e crítica. Portanto, estais todos cumprimentados. Nga mi menekena, menekenu!
 
Bajular virou ciência? É a “maka” de hoje, também retirada dum “bate-letras” com um jovem desconhecido. E escrevi a minha verdade verdadeira, nua e crua. "Até a mulher que tenho (grande ‘mboa’ em tamanho e qualidade) foi graças ao chefe Graça que me escalou em missão de serviço a Katabola e lá conheci a vice-comissária municipal que depois, pelos caminhos da amizade desinteressada, me apresentou a prima-irmã com quem me amancebei".  Tem ou não razão de ser, agradecer aquela senhora do Bié?
Uns “muxoxaram”, acusando-me de adulador dum templo já em ruínas. Outros bateram palmas e uns ainda ficaram pelo NIM. Nem sim, nem não. São os que se posicionam sempre em cima do muro, esperando que o bom vento os leve ao quintal da fartura.
Defendi-me com os dentes, já cariados que me restam na boca, e as unhas, sempre roídas, que “isso não é graxa. É humildade e gratidão”. Disse-lhes, aos ‘artistas da pedra barata e gratuita’, que “ser grato é elevação. Ser elevado dá abertura e reconhecimento. Abertura dá fartura. Fartura dá estatuto. Estatuto dá poder”. Filosofei o máximo, buscando sofistas clássicos e contemporâneos da Grécia, Roma e Angola. Também temos sofistas!
Dito isso, ficaram mais furiosos ainda, mas… Mas que dizer-lhes mais depois de tanta verdade e más respostas ao “mahezu”?
Parte da minha turma: JL-A-1996
Exemplifiquei ainda com outro apontamento: o primeiro cronista em quem me inspirei, ainda nos tempos do IMEL, Curso de Jornalismo e não esse de hoje, chamado “de Comunicação Social”, em que se estuda quase tudo e sabe-se quase nada, foi precisamente o Salas Neto, com suas Crónicas de Areal. Era moda para nós, os estudantes, termos um jornalista sénior a quem seguir: uns imitavam o Kinguri ou o Mateus Gonçalves. Umas a Maria Luisa (Fançony ou Rogério). Outros o Sebastião Inácio Neto (Xé, não vale a pena chamar Kota Senghor, vai te mandar saudar a progenitora…). Uns imitavam o Balduino Carlos, Ernesto Elias, Edgar ou Dedaldino. Eu gostava de crónicas. Se calhar, foi por isso que quando fui à LAC para estágio profissional, o Mateus Gonçalves olhou para mim e disse muito sério: “puto escreves bem mas não tens voz para ler”. E fiquei a “reportar” muito tempo sem pôr voz, até que o avião do Maitre Beye desapareceu dos radares costa-ivoirenses. Era Sábado e José Rodrigues,  o Editor-chefe, fez-se de repórter. Com o loucutor atrasado tive de abrir o noticiário das 12h30. Portanto, (não me tratem de Senhor Portanto) dizia que escolhi o Salas como modelo na escrita da oralidade luandense. O Prof. Cacá Alberto que o diga! Mandou tarefa para fazer crónicas, sem estipular a quantidade. Na aula seguinte tinha 15 “filhotes de crónica” sobre a mesa. Tudo de minha autoria. A amizade começou ja mesmo aí, até hoje, longe de adivinhar a existência futura de jornais privados, como o SA, e vir a conhecer “caralmente” o ‘artista da palavra popular luandense’. Face book, hi5 e outros "devires" eram obras de “malucos” que eram seguidos à lupa para não “bombearem” os prédios das cidades. Isso é bajulação?
 
O indivíduo consegue um emprego e, contente da silva, desabafa consigo mesmo, com os amigos e transeutes: “graças a Deus, consegui deixar de matar ‘kasumuna’!” Isso também é “bajú” ou há "revús" para tudo e nada?
 
Se calhar, eu seja apenas um estagiário da “bajulogia”, que nunca chegará lá aonde alinham as vedetas do campeonato mundial da competição.
Kota Salas, quanto à bajulação estamos conversados. Que chovam aplausos e “mixoxu” depois do meu “ovilamo”.
 
Obs: Semanário Angolense, 06.09.2014