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sexta-feira, outubro 01, 2021

AINDA SOBRE O "ARROZAL BENGUELENSIS"

Durante os meses de Agosto e Setembro/2021, fiz milhares de quilómetros por estradas. Percorri Cabinda de sul a norte, fiz Luanda-Soyo-Luanda, Luanda-Cuito-Luanda e Luanda- Quibala-Luanda, fora o roteiro Luanda-Huambo-Chipindo-Longonjo-Menongue-Cuchi-Lubango-Benguela- Sumbe-Luanda, feito em Maio.

Notei que os acidentes com camiões, sobretudo os articulados, e alguns ligeiros também acontecem mais ali onde a estrada está degradada. Na ida e regresso do Cuito vi dois pesados capotados à entrada de Calomboloca, só para citar um de vários exemplos que se acham a mãos de semear.
À propósito da relação entre qualidade das rodovias versus acidentes ou capotamentos de camiões carregados, Moh Canhanga escreveu que "se a estrada tivesse sido reparada não teríamos a 'novela' do arroz em Benguela". Elogiei o jovem, que espreitou para fora de caixa e viu que havia mais árvores naquela "floresta" de debates, para além dos jovens fotografados em flagrante posse do produto transportado pelo camião acidentado.
- Teria havido capotamento se a rodovia estivesse em condições de circulação?
- Talvez sim, talvez não!
Há acidentes causados pela degradação das rodovias, como há outros acidentes que ocorrem em perfeitas pistas, onde é chamada a responsabilidade do condutor ou o estado técnico do equipamento ...
O mérito da colocação do do jovem Moh Canhanga vai para a necessidade de se olhar para fora de caixa e buscar outros ângulos de análise.
Ora, os behavioristas (comportamentalistas) americanos realizaram um estudo para aferir o "instinto animalesco incubado no homem" e a tendência em destruir coisa alheia.
Pararam, durante uma semana, um carro novo num descampado para ver qual seria o comportamento da população.
Mesmo sem que se conhecesse o dono, ninguém o danificou.
Na semana seguinte, alguém passou e quebrou, propositadamente, um dos vidros. Em menos de 48 horas, o carro ficou totalmente descaracterizado.
Voltemos ao arroz de Benguela. Se o primeiro que se deparou com o acidente tivesse ido para socorrer e proteger a carga, eventualmente os demais colaborassem nessa demanda. O primeiro que tomou para si um saco de arroz abriu o caminho e despertou o lado animalesco dos demais.
Já fiz um estudo semelhante com o lixo. Quando construi a minha casa, a envolvente era uma lixeira (espaço em que a vizinhança preguiçosa e antabônica depositava os seus descartados). Empenhei-me uma semana a limpar e controlar. Os mesmos que ali deitavam lixo, perderam a coragem de largar o primeiro saco num espaço totalmente limpo.
Depois de ler o estudo dos behavioristas americanos, larguei um saquinho de lixo no espaço e, no dia seguinte, estava a área repleta de sacos!
Levei mais uma semana a limpar e controlar.
Resumindo: um de dois factores ou ambos terão propiciado o assalto ao camião de arroz em Benguela.
a) a qualidade da rodovia;
b) o estado psico-social e ético do primeiro assaltante.
Tenho dito.

Soberano Kanyanga
29.09.2021

PS: publicado pelo Jornal de Angola de 03.10.2021

quarta-feira, setembro 29, 2021

VIAGEM DE SONHO A KALULU

Realizada num 15 de Setembro, já leva século, quase. Não existia ainda a EN120 ou, para ser mais preciso, sobre o largo e caudaloso Kwanza, o novo atalho, desenhado entre o Alto Dondo e o Fortim da Kibala, não possuía ainda travessia. Pretendia-se encurtar a distância entre a crescente capital e a florescente Nova Lisboa de então. Ao pôr-do-Sol emergia a capital do novo distrito, Benguela Velha.

Saudoso do meu Libolo, fiz-me à estrada, na minha Power Glic "olhos de águia". Luanda-Alto Dongo-São-Pedro foi um mimo, dançando ao som roncaresco da bichona.
Chegado ao Kwanza, enorme e apressado de uma viagem que o leva do Citembo a sul de Luanda, deparei-me com a ponte Filomeno da Câmara. Comprida e majestosa. Alta sobre um rio rápido e pedregoso. Quão engenhosos terão sido os seus obreiros!
- Ei-la! - Gritei para mim mesmo, fazendo-se eco, rio abaixo. E a ponte era longa!

Transpu-la. Era Kalulu o destino e Kabuta, do café negro, forte e quente, o próximo marco sem paragem nem narrativa. À passagem, far-se-ia noite, num atalho curvilíneo sem alcatrão. E assim foi.
Ao raiar do sol, Kalulu à espreita. Quem não te vê?!
Como tu apenas a capitalíssima do Distrito de Kwanza-Norte, Golungo Alto, que o elevar do comboio a longínquas terras de Njinga pretende levar ao ostracismo. Maldito comboio de 1917!
- Que não nos venham a nós dias nefastos. Soliloquiei.
- A nós basta a Filomeno da Câmara que nos leva ao Huambo e terras inimagináveis dest'Angol'amada! - Cogitei premonitório.
Cheguei a Kalulu, pois claro! Passei a Kapopa e visitei a Missão e o Musafu inteiro. Espreitei a Mbanze dos Dambos. Retornei, pela Pedra Santa, sempre. Alonguei-me no alcatrão, quase sem a cor inicial que fumegava aos olhos negros de pretos cansados de contratado. Passei pela Fortaleza e o Palácio que se esconde em sua axila abaixo. O posto administrativo do Concelho é à direita, contígua à Fazenda onde exploradores de negros depositam moedas lacrimejantes.
Reparei com minúcia as casas da vila, erguidas por brancos da metrópole ou filhos nascidos cá. Albergam hoje mestiços que se dizem donos disto e d'aquilo, da terra também, mas que se negam, na vergonha mesquinha, negros ou brancos. Preferem um termo intermédio!

Mais adiante é o Cassequel, corruptela de areal extraído do materno Kimbundu. A Mbanze é mais adiante.

Sem mesmo pousar as malas ou limpar a poeira agarrada à Chevy como parasita faminto em hóspede corpulento, pus-me a conversas exploratórias, de bar em bar e de esquina em esquina.
- Olá, nosso patrício! Aceita café?
- É da Kabuta ou do Lwati? Eu aceito, nem que seja da Kisala!
- Tem o Kisongo ainda a Divisão de Agricultura e Florestas? Tem a Munenga o dendém e o girassol? - Café-palavra-café. Fui intercalando.
E nas conversas, a vila que é pequena, rua e meia, no dizer de nossos asoko¹ kibalenses, parecia grande. Os falares depreciativos denunciavam a existência de quatro blocos: o do Hagâcê, o do Cêcê, o dos nativos autóctones da Mbanza e o dos mulatos herdeiros. E parecia que todos os prosélitos se digladiavam, mesmo sem mando ou complacência dos patronos, tirando os mulahatu² e os descendentes de negroides que regaram cafezais com lágrimas e suor.
- Somos os mais fortes, os donos, os mais poderosos, os que mais fizeram, os que mais fazem, os que sempre aproveitaram a terra, os que dão de comer, os que mijam grosso, os que...
- E tu, forasteiro, em que ala te enquadras? - Provocou-me uma cobiçada rapariga de cor cremosa que sugava para si todos os olhos. Era assim onde passasse, embora tida como sem ala.
- Sou de cá. Dos que defendem o todo como união das partes. Sou dos que pedem alcatrão para São Pedro-Kabuta-Kalulu-Kibala. Dos que se indignam com o porvir que há-de-ser com a nova travessia no Kyamafulu! - Respondi amável. Porém, quando me preparava para acolher o abraço dela, despertei da viagem. Era sonho?!
=
¹- Plural de Kis(s)oko, homólogo.
²- Relativo a mestiços ou mulatos.
Obs: texto sujeito à revisão.

terça-feira, setembro 21, 2021

ANDULO QUE NÃO FALA UMBUNDU

A reabertura de Luanda ao país, dois anos depois de chegar a covid-19, está a ser vivida com grande intensidade. Talvez pensando na experiência da "mini-paz", aquela de 1991-92 que trouxe a falsa quimera de "twaliyeva, twayovoka", a que se seguiu um fecho pior até 2002. O acordo de Lusaka de 20 de Novembro de 2004 e o "Gurne" que se lhe seguiu foram aborto de mini-paz e nenhuma se iguala a essa que estamos com ela.


Desta vez, as manas e os manos que já viveram nas décadas de guerra pré-eleitoral e todas as mini-paz, decidiram:
- Se abriram Luanda, vamos aproveitar sair, ir passear, visitar as famílias, ver monumentos, fazer turismo, revitalizar-se longe dos filhos, etc.
Uns estão a sair mesmo com turismos, uns é com pick ups e jeeps. Outros é mesmo com e em camiões. O sarcov-2 e sua pandemia ainda estão a ser ignorados (mas, cuidado)!
De Miconje à Foz do Kunene e do Lobito ao Lwaw, as estradas variam entre o muito bom, o bom, o razoável, o dá para chegar ao destino e o horrível a precisarem de cabeça pensante e mão trabalhadora para conseguir dinheiro e refazê-las.
Foi nesse turbilhão de ideias e de "vamos aproveitar" que a minha "ndona" disse para mim:
- Ó coiso, você num tá de férias?! Ainda vamos ao Andulo!
Para quem esteja em falta, qualquer ordem é só já acatar. Peguei as malas e pu-las no carro. Tutulukutu! Nem tempo tive para em pensar em tal Andulo em que nunca estive.
Quando tentei reclamar, só um pouco, a procurar mostrar que existo, a senhora ansiosa em ir à sua terra "natal", gritou-me um "vamos com Gêpess". Nem sequer perguntou se o telefone tinha saldo de dados para alimentar o GPS. Fomos. Andar era só andar.
Depois de duas horas e meia ao volante, ergui a cabeça e vi uma placa escrita QUIBALA NORTE. A mulher também retirou os olhos do whatsapp e exteriorizou um estalido bocal (na minha língua é muxoxu).
- Fiiuuu! Não estavas só a temar que não conheces o caminho? Estamos a chegar à Quibala. Depois da Vila, entra pelo caminho do Mussende. - Ordenou.
Acelerei. A estrada estava boa. O velocímetro parecia decidido em ficar entre os 120 e 140Km/h. O motor contava uma canção alegre. Parecia empolgado. Não demorou, encontramos outra placa: ANDULO.
A mulher falou para mim, desta vez, com carinho.
- Ó marido, ainda chegamos!
- Chegamos onde?
- Não viste a placa?
- E as casas partidas, e o bunker, e a administração? - Lembrei-me da guerra e do tempo em que na recruta adoptei a alcunha de Matoumorro e comecei a rajadá-la com perguntas.
- Calma. Tudo isso está lá à frente. - Respondeu-me, ao que de imediato baixou o vidro para saudar:
- Ndati, ó manas, ainda passaram bem?!
À saudação recebeu silêncio apenas. Achei estranho mas ela relevou, atestando que "o Andulo estava a ser invadido por gente estranha que não falava umbundu" e podia tratar-se desses grupos trazidos pelo comércio e pelo garimpo nas margens do Kwanza.
Seguindo o ritmo da canção da máquina, voltei a acelerar. Não tardou, encontrámos uma vila. Os povos falavam uma língua bantu do norte de Angola. Algumas palavras me pareciam familiares. Eram próximas do Lingala. Mas outras se aproximavam ao Kimbundu.
- Andulo por aqui?! A mim parecia estranho. Menos a ela que fixou o olhar nos destroços duma residência que parecia majestosa num tempo a caminho de meio século.
A falar com os botões, fiquei à busca de respostas sobre o que fora aquele edifício de dois pisos, deitado abaixo, antes de ter sido transformada em simples pedaços de betão e ferros retorcidos. Vieram-me à memória a história e estórias de 1975 quando o norte de Angola foi disputado pela FNLA e pelo MPLA que proclamou a RPA.
Para a mulher, estávamos a entrar no Andulo. Apenas quando viu os as redes, os pescadores, as canoas estendidas ao sol e o extenso mar se deu conta de que estávamos num "Andulo" em que não se fala Umbundu.
- É Nzeto, afinal! - Concluímos.
Um amigo ambrizetano (pois nasceu antes do 25 de Abril), disse-me já em Luanda quem foi que dinamitou o edifício que conta a história da guerra na vila de Nzeto.
- Até 1975 e alguns anos depois, era edifício do Comércio. Depois, terá sido convertido em Sede Municipal do MPLA. Foi durante a insurreição pós-eleições que as milícias do partido perdedor invadiram a vila e dinamitaram o edifício. - Contou o Nelson.
Vieram-me outras memorias do Libolo. Junto ao Cine há um edifício que era de dois pisos cujos "pés" foram estropiados, fazendo-o cair sem possibilidade de ter proveito. O Laboratório da "Escola Técnica Preparatória", o Tribunal dos anos oitenta e a esquadra policial tiveram a mesma sorte, em Kalulu.
Consciente de que estava no seu país, extenso e diverso, mas não no seu Andulo bieno, a mulher soltou um "e agora"?!
- Pois é. Agora é seguir a estrada ao encontro de novas "descobertas". Há Mbanza-a Kongo, Noki, Soyo e Matadi pela frente!

quarta-feira, setembro 01, 2021

A RÁDIO E OS "FANTOCHES" DA MINHA VIDA

Em 1977, o meu pai mandou comprar o seu segundo rádio em Luanda. Vivíamos ainda em Kitumbulu (fazenda de meu avô paterno). Era um Philips cinzento, de 4 pilhas grandes, made in Singapura, lembro.

Mesmo sem ladrões por perto, António Fernando Dambi havia inscrito o seu nome na parte superior. Tal receptor, na altura em ondas curtas e médias, durou até 1983, um ano após o seu passamento, desconhecendo-se se o meu finado irmão Fernando o levou como herança única ou se e deixamos perdido nas fugas constantes dos homens da UNITA.
Essa história do rádio vem para trazer à memória o tempo em que me começou a chegar ao ouvido, via rádio, o  termo fantoche.
Certa vez, perguntei ao meu pai o que era fantoche, ao que me terá respondido que "eram bandidos da Unita".
- A Unita é o quê? Eles têm fantoches?
- A Unita mesma é que é fantoche? - Respondera o homem que era de poucas falas e confesso militante do MPLA.
No meu tempo de filho, filho era filho e tinha os seus irmãos, primos e amigos para brincar e ir detalhar. O pai era pai e tinha também os seus irmãos, tios, primos e amigos com quem privar. Pai era pai e não era "amigo do filho". Por isso, contentei-me que "fantoche era Unita e a Unita era fantoche". Era o que aquele aparelho inteligente dizia todos os dias às 13, às 19 no Angola Combatente, e às 20horas.
Para "poupar pilhas", o meu pai ligava o rádio nessas horas e não havia noticiário em que não se falasse de fantoches e bandidos que "eram a mesma coisa!"
Em Setembro de 1979, fui matriculado na "pré-kabunga". Parecia que os fantoches tinham crescido como eu. Na escola, o professor e os manos da quarta classe falavam quase todos os dias sobre os fantoches. Ora abatidos, ora violaram mulheres grávidas e mataram velhos, ora minaram e explodiram pontes e cidades. E nós, os manos mais novos, apenas "seguíamos bala" de conversas codificadas para nossos parcos conhecimentos lexicais: abaixo fantoche! Viva a revolução e o internacionalismo proletário!
Tais conversas deixaram-me mais confuso ainda, ao ponto de voltar a perguntar:
- Pai, proletário é o quê e internacionalismo é o quê?! - Eu era uma máquina de perguntar e ele gabava-se de ter um filho ávido em saber e que crescia com sabedoria. Por isso sempre profetizou que eu seria professor.
- Luciano, ouve bem! - Chamou-me à atenção. - Proletário sou eu que trabalho na fazenda. Todos os trabalhadores são proletários. - Explicou, curto e sem mais detalhes.
- Está bem, papá proletário! E internacionalismo é o quê, pai? - Voltei a indagar, insatisfeito.
António Fernando Dambi agachou-se, como sempre fazia, para que eu subisse ao seu ombro e fôssemos andando. Ele caminhando e eu na "digweza".
- Já viste os camaradas cubanos, nê? - Fez-me recordar.
- Sim, camarada pai proletário! Andam a passar com as colunas (carros militares).
- Pois é. Internacionalistas são os cubanos que saíram da terra deles para vir nos ajudar a lutar contra os fantoches. - Explicou.
- Mas, os camaradas fantoches também são muitos? Têm muita força que nós não "lhes" aguentamos?
O jovem, 39 anos, parecia desinteressado ou eu o estava a perguntar coisas que no seu entender "ainda não eram para a minha idade".
- Olha aí os pássaros. São bonitos nê?! - Tentou distrair-me e ver se eu mudasse de conversa. Porém, lembro-me, que voltei a insistir.
- O papá ainda não me disse se os fantoches são muitos e têm muita força...
- Luciano, os camaradas internacionalistas vieram nos ajudar para não demorarmos a aniquilar os fantoches.
Mal terminou a explicação, sacou da sacola uma banana e deu-ma. Sabia que eu gostava de bananas. Talvez voltasse a pedir mais uma e com banana na boca não perguntaria sobre fantoches e internacionalistas.
Em 1989, quando passei para a sexta classe, ganhei o direito de comprar, na papelaria da escola Kwame Nkrimah, um dicionário, o primeiro da minha vida que era meu. A viver no internato da missão católica de Kalulu e com tempo de sobra para leitura, comecei a "mastigar" o livro.
Descobri que fantoche era um boneco animado por uma mão humana ou por cordéis.
- Porra! - Exteriorizei. - Mas então os unitas são bonecos?
Levei tempo para compreender que era uma alusão metafórica. Uma comparação entre os revoltosos alimentados por agentes externos, tal como os bonecos-fantoches dançam, e a perseguir uma agenda que era de terceiros, o imperialismo de que, dizia o rádio, eram agentes.
O dicionário e o tempo levaram-me a descobrir a expressão, caudilhos, que os fantoches usavam, quando abriram a sua rádio ou usavam a rádio do Peter Bota.
Não é que caudilho é uma "ofensa" boa?! Descobri que a figura do caudilho é fisicamente vigorosa e disciplinada, demonstrando experiência militar e conhecimentos que inspiram as massas a segui-lo e respeitá-lo (aproximando-os do populismo). Dizia-me o Dicionário Prático Ilustrado, de que não sobra folha, que o caudilhismo está relacionado à personificação carismática de um líder.
Senti saudade de ter o meu pai de volta e perguntar-lhe por que é que a guerra entre fantoches e caudilhos estava tão demorada, mesmo com os apoio dos camaradas internacionalistas cubanos. Mas ele já tinha partido para a sua viagem sem regresso. Compreendi que só mesmo os livros e o ouvido atento às conversas dos manos que tinham estudado muito me dariam as respostas.
Antes de ingressar no ensino médio, por via de um teste de aptidão, em 1993, tomei contacto, numa leitura que estava a fazer de uma revista Spunik, o termo guerra fria.
Eu já tinha sobrevivido a dois ataques da UNITA (1984 na Munenga e 1989 em Kalulu). Tinha visto e ouvido falar em valentes sovas dadas aos fantoches pelas gloriosas Fapla, pelos camaradas internacionalistas cubanos e camarada amigos da SWAPO. Sabia que nessas guerras morriam pessoas e as balas eram quentes. É por isso que fugíamos da aproximação dos fantoches ou dos seus ataques. Como é que, afinal, havia guerra fria?
Fui ao dicionário para perceber que era aquela guerra que os comunistas, nossos amigos, e os imperialistas, amigos de nossos "inimigos", faziam no nosso solo pátrio.
- Afinal, com a tal de guerra fria, todos fomos fantoches?!
O camarada proletário António Dambi devia estar vivo para discutirmos essas coisas.
Melhor, foi quando entrei para a universidade, em 2000. Eu com o pico ainda encravado na garganta, por conta daquela resposta de que "proletário sou eu que trabalho na fazenda", descobri que o meu pai estava entre a certeza e incerteza.
Sete filhos gerados em 42 anos era, na verdade um proletário, um feitor de prole. Porém, havia trabalhadores sem filhos e proletários que não trabalhavam. É outra metáfora dos sindicalistas comunistas que aproxima o trabalhador mal remunerado aos meros "fabricantes" de filhos que serviam como soldados em guerras imperiais.
Comprei um Dicionário Enciclopédico e escrevi na segunda folha interior:
- Oferta póstuma a António Fernando Dambi.
É pena que nunca o lerá e, mesmo que voltasse, os netos cuidaram, seguindo meu exemplo de pesquisa, de folhear e desfolhar o mestre mudo da minha consolidação.
Ou ele sabia que o recrudescimento do conflito militar entre fantoches faria deles meros reprodutores para alimentarem a guerra fria?
- Pode ser que ele tivesse razão!

Publicado pelo Jornal Cultura, 02 MARÇO 2022

domingo, agosto 29, 2021

DE LUANDA A MICONJE

O mapa, conseguido no google, marca 1025 quilómetros, numa imaginável viagem terrestre que passaria por Matadi, RDC, para cortando toda a extensão, sul-nordeste, da província de Cabinda.
Foi, porém, de avião que fiz a primeira etapa da viagem, com duração aproximada de uma hora. Na verdade, foram menos, se termos em conta a curta distância em linha recta entre as cidades de Luanda e Cabinda, de onde parti por estrada até Miconje.
A segunda etapa foi até Buco-Zau, passando por Lândana, onde a terra abraça o mar numa alegria contagiante, recebendo o Chiloango que nele se entrega preguiçoso e prazeroso.
Numa das aldeias de Lândana, onde as laranjas e bananas imperam, fizemos a primeira paragem numa praça erguida pela edilidade.
O meu estômago pedia mesmo cikwanga e cabrité ou makayabo, mas eram bananas maduras e verdes (de mesa e banana-pão), citrinos e tubérculos de vária sorte que se faziam aos nossos olhos. Comprámos as gordas e suculentas laranjas e as dóceis bananas.
Rumamos. Pé no acelerador e no travão, transpondo florestas, buracos, penhascos, curvas e contracurvas até nova paragem.
Era uma construção erguida sobre um monte e com uma grande escadaria.
Não resistindo ao encanto de toda aquela exuberância no meio da virgem floresta, perguntei o que era.
Hospital Alzira da Fonseca
- Alzira da Fonseca. - Responderam-me.
- Mas quem é essa senhora? Fazendeira? Empresária? Rainha? - Mil perguntas que o vento levou.
- Não, chefe! É um hospital regional, o maior nestes municípios de Lândana, Buco-Zau e Belize.
Engoli.
Partimos para a floresta. Rica em recursos florestais. Verde e virgem ainda. Uma donzela mesmo. O maior espanto, porém, foi a riqueza que a floresta esconde, qual kisonde brilhante entre a areia movediça.
- É ouro! Há ouro! - Gritou o rapaz que nos servia de cicerone.
Dez mineiros, dois seguranças, um militar. Observamos sem questionar.
- Aqui segurrança é necessárria por caso de garrimperros de orr. - Explicou o cicerone, acrescentando que "tirrotero nunca ouvi. É mesmo só prevenção dos garrimperros".
Mais estrada, sinuosa como sempre, com curvas intensas e chuva miúda a molhar o chão vermelho-preto e o carro cansado e resmungão. Há serra adiante. Belize ficou para trás. A zona 33 de Miconje é caminho para a histórica Dolisie, no Congo Brazza, baluarte do MPLA. Aqui, Miconje, a floresta é mais fechada. As árvores são altas com copas largas e algumas parecem lombrigas sem fim. Outras, largas sem medida. Há ouro também!
PS: publicado pelo Jornal de Angola de 05.09.2021

domingo, agosto 22, 2021

O RANGEL DOS ANOS 80 E O KOTA KAMBWALANGA

Kaputo (aquém)

No Kaputo dos anos oitenta, vivíamos todos como família de mesmo sangue. Tínhamos, grande parte dos moradores da Rua de Ambaca e adjacentes, a origem kwanza-sulina, a língua comum que nossos pais glosavam sem levar mão à boca e a cultura que era forte sem as frivolidades desses tempos.

Filho de vizinho era filho mesmo ou sobrinho. A irmã do amigo era mana e todos os de cabelo branco era avós. Entre os tios, aqueles que chamavam nossas mamãs por cunhada ou mana despontava Kambwalanga.
- Wanañe, a mon'Elombo?¹ - Era assim que me saudava, sempre que cruzasse com ele, pelos lados dos chamados prédios dos cubanos, à antiga floresta de eucaliptos do Rangel, onde prestava serviços de apoio doméstico.
Glosava, embora raras vezes e só com estranhos, algum português. Uma comunicação do tipo "tira água ou dá pão" como costuma brincar a minha progenitora, fazendo alusão aos que possuam pouco ou nenhum traquejo no uso da língua portuguesa. Kambwalanga, de seu nome, era um homem impoluto, um poço de músculos, força e resistência que usava para levar isso e aquilo, montar e desmontar, quando não fosse mesmo para travar até "ventos". Era visto a andar frequentemente a pé, sempre vestindo calções à moda alemã. Aliás, nas conversas com minha mãe e seu irmão Francisco Sentido, que visitava com frequência, costumava falar (em seu materno Kimbundu) sobre a vida de fazendeiros alemães que habitaram o Libolo, a exemplo "Bikman" e Krosigk" de quem herdou o gosto pelos calções.
Demente para uns e consciente para outros, Kambwalanga apresentava ligeiros distúrbios psicossomáticas recortados com momentos de aparente lucidez que lhe permitia manter conversas com fio condutor e com recurso à memória que parecia de grande fertilidade.
Apesar da sua compleição física, nunca o vimos lutar ou entrar em troca de dislates, como era comum em outras pessoas com distúrbios.
Os miúdos do meu tempo, anos 80 do século XX inventaram que Kambwalanga “era o único libolense que tinha percorrido a pé os cerca de 280 quilómetros que separam Kalulu de Luanda, dispensando todas as boleias que lhe tinham aparecido”. Mera invenção dos petizes.
Não se lhe conhece nenhum filho, ou vontade de construir ou arrendar uma casa em Luanda. Para os que se encontrassem no Libolo, Kambwalanga vivia com o irmão Francisco Sentido que trabalhava na Casa Americana. Porém, só o visitava com frequência, depois de ter deixado de com ele partilhar o quartinho na Rua de Ambaca, ao Kaputo. Ele dormitava debaixo de prédios, entre os conglomerados B e C, ou onde a noite o encontrasse.
Nunca alguém apareceu a reclamar dívida contraída ou paternidade não assumida, embora se contasse que antes de apresentar pequenos distúrbios emocionais sazonais Kambwalanga fora um homem com casa, lavra de meter inveja e uma linda mulher.

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¹- Estás bem, filho da Kilombo?

domingo, agosto 15, 2021

NÂMBWA E O "PROTESTANTISMO"

Igreja "Apostante". É assim que alguns idosos ainda tratam a Metodista. Apostante é uma corruptela de Protestante, nome por que ficou conhecida a corrente Wesleyana trazida a Angola por William Taylor, no longínquo Março de 1885.

O Metodismo é marca na região de Nambuangongo. Todas as aldeias têm uma, sendo na maioria delas a única. Mas quem descuida do que é seu abre brechas para outros. O monopólio metodista sofre "ataques" que preocupam alguns crentes fervorosos da região de Nambuangongo.

- Era a única até ao fim da terceira guerra, mas agora as igrejas estão a surgir mais do que cogumelos em tempo de chuva. - Reclama o ancião Afonso José que diz não se lembrar quando se tornou metodista.

- Aqui, no Nâmbwa, todos viemos do ventre já metodistas. Mesmo hoje, as pessoas ainda nascem metodistas. Pena é que os jovens de hoje em dia se comportam como porcos que quando lhes soltamos do curral já não querem saber do dono que os criou.

José Afonso, filho primogénito do mais-velho Afonso, diz-se, hoje, um "crente em tremura". Explica que promessas não realizadas acabam por desanimar o obreiro.

- É melhor trabalhar a olhar somente para Cristo do que fazer promessas que nunca se realizam. - Desabafou.

Desafiado a argumentar a razão da sua ambiguidade, José Afonso larga sem rodeios:

- Trabalhei durante muitos anos no Departamento de Trabalho com Crianças do Distrito. Andei muito a pé de aldeia em aldeia. Todas essas aldeias (apontava para a mata cerrada onde só ele pode determinar a localização dos aglomerados) tinham os programas e os executavam com a minha supervisão. Prometeram-me uma mota. Aí pensei: vou usar a minha já que vai ter a outra substituta. Até hoje, nga kinga nga lembwa[1]! Como é que se vai manter a igreja sem trabalho com crianças? Como é que se larga crianças em gozo de férias como se fossem cabritos sem aprisco, crianças sem actividades da EBF?

Antevendo um futuro sinuoso, caso as coisas não mudem, e buscando uma analogia com o partido do seu progenitor, num misto de brincadeira e conversa séria, José Afonso atirou.

- O camarada sabe o quê que fez o MPLA forte e numeroso? Diz se sabe, pelo menos aqui no Nâmbwa.

O cronista ficou calado para deixar que ele mesmo respondesse.

- Está aqui o meu pai Afonso. É da Fê-Nê-Lá. A avó Treza, que está a nos ouvir, é da base de Kaji Mazumbu, desde jovita[2], onde foi professora guerrilheira do MPLA. Eu já combati nos dois exércitos. Na Fenê[3] fui com o pai Afonso que está aqui. Depois, quando abri os olhos, fui FAPLA. Igreja que não tem crianças e jovens vai ficar só para os velhos. Lhes pergunta se estou a mentir. - Desafiou, olhando para os dois idosos.

Feitas as deduções e colagens, o fio de raciocínio leva-nos a entender que o movimento do seu pai ficou confinado à terceira idade por ter desinvestido ou nunca investido em crianças e jovens.

- Já que o irmão diz que é escritor e tem amigos na Conferência que o leem, leva-lhes o recado. Um dia vamos acordar só com velhos na igreja. - Terminou, já a fazer a curva para o seu aposento. Era hora da janta.

___

[1] Fartei-me de esperar.

[2] Púbere, adolescente.

[3] Alusão à Frente Nacional de Libertação de Angola.

domingo, agosto 08, 2021

O LIFUNE QUE RASGA O BENGO

Encaixado, quase à força, entre paredes rochosas e montanhosas, no seu curso montante, corre sem pressa, pelas matas virgens interiores até afogar-se no Atlântico, qual casal cansado e saciado de coito prolongado.

O seu leito rochoso é facilidade para as travessias e o surgimento de algas que alimentam cardumes. Vimo-los deleitando-se com dendém e enchidos levados de Luanda para tentativa de pesca lúdica, espraiando-se ao sol de meio-dia.

O Lifune é vida!

Nos curtos rápidos e escarpados, suas águas sussurram gemidos melodiosos, ejaculando sêmenes-sementes em paradisíacos ilhéus férteis e sombrios do médio rio. É o Lifune, cujas margens verdejantes, estão repletas de húmus que alimenta a selva fechada com árvores grossas, frondosas e desejosas de beijar o sol. É nessa densa floresta, outrora acolhedora de destemidos guerrilheiros contra a presença colonial, que se desenvolve a agricultura. É desse mato fechado que sai a banana, a mandioca, a jinguba, o milho, o dendém, o maluvu[1] e a cana com que se fabrica lungwila[2].

Na Lunda, perto de Saurimo, há outro rio, o Lufune, quase homógrafo, que é menor no caudal e na ousadia. Mas tem ngandu também e dá nome à aldeia de Ngandu Lufune kexi kunyonga[3]

 



[1] Vinho de palma.

[2] Aturem-me.

[3] Jacaré assassino e irracional