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quinta-feira, outubro 15, 2026

DA GARAPA AO KAPORROTO: IDENTIDADE, SABOR E RESPONSABILIDADE

Iniciei-me desde tenra idade a ver e a ajudar os adultos da família na confecção da garapa e na destilação do kaporroto — bebida que hoje, não sei bem por quê, passou a ser designada por “água do chefe”. 

No tempo colonial, o kaporroto era produto de fabrico clandestino, quase ritualístico, feito longe dos olhos da autoridade. Hoje, tornou-se bebida de produção e venda aberta, presente em mercados, festas, feiras e encontros comunitários.

Todavia, os métodos de produção nem sempre são os mais ortodoxos. A crítica começa pela qualidade da água usada na confecção da garapa — embora esta seja submetida à fervura, para que o líquido saia em forma de vapor e se condense. A seguir, vem a assepsia dos tambores e recipientes onde cai o álcool condensado, bem como a forma de arrecadação e distribuição, que muitas vezes carecem de cuidados mínimos de higiene.

Em última instância — e talvez mais importante — está o grau alcoólico do destilado posto à venda. Não há instrumentos de medição e os apreciadores tentam ao “sabor da língua”, confiando no paladar como termómetro da potência. Essa prática, embora tradicional, pode ser perigosa, sobretudo quando se trata de consumo público e venda informal.

Se por um lado a kapuka ou kaporroto emerge como símbolo da nossa identidade — tal como o vinho para os europeus — por outro, precisamos de avançar na cadeia de produção, tornando-a técnica, higienicamente bem elaborada e culturalmente recomendada. Não se pode levar o veneno para dentro, disfarçado de tradição.

A garapa, esse sumo doce da cana-de-açúcar ou de outros “sumos-base”, é o ponto de partida. No Libolo e noutras regiões, ela não se limita à cana: faz-se garapa de banana, mandioca, milho, batata-doce, maboque, laranja e tantas outras frutas domésticas e silvestres ricas em sacarose. Para a confecção da garapa de milho, banana ou mandioca, acrescenta-se frequentemente a seiva de uma raiz suculenta e adocicante chamada muxiri — ou mbundi, entre os Ovimbundu — que actua como catalisador natural da fermentação, conferindo sabor e vigor ao produto final.

Esse saber ancestral, transmitido de geração em geração, revela a criatividade e a adaptabilidade das comunidades rurais, que transformam o que têm em bebida, sustento e símbolo. Mas o saber precisa de ser acompanhado pela responsabilidade. A bebida que nos representa deve também proteger-nos.

É tempo de resgatar o valor simbólico do kaporroto, sem perder de vista a saúde pública. Que se preserve o sabor, o encontro e a memória, mas que se introduza também o rigor, a medição, a assepsia. Só assim poderemos brindar com orgulho, sem receio, à nossa própria história.

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