No acampamento dos prospectores da Angloamerican, em Kalunda, município de Makondo, no Muxiko Leste, encontrei uma fruta silvestre que os tucokwe chamam Thongo. Familiar para mim, pois também se expande pelo centro e centro‑norte de Angola, tornou‑se companheira inesperada da jornada, durante dois intensos dias de trabalho (30 de Junho e 1 de Julho/2026).
Dez frutas guardadas no bolso do colete percorreram mais de mil e quinhentos quilómetros, sobrevivendo ao calor e ao pó das estradas. Ao chegar, transformaram‑se em três copos de sumo saboroso, refresco que parecia conter o néctar da fruta e o espírito da viagem. As sementes, agora expostas ao sol brando, aguardam o momento de serem lançadas à terra, como promessa de continuidade e gesto de perenização de uma experiência que não se quer efémera.
Os “kalwandas” ou lwandizados que comigo viajaram a Kalunda ignoraram o valor daquelas frutas, excepto o mwatha Mwangongo, natural da Lunda Norte, talvez por não reconhecerem no silvestre a força da memória. Mas eu vi ali mais do que alimento. Vi a persistência da natureza, a lembrança da minha infância a cortar dias sim e semanas também o sertão, a resistência de um cheiro e sabor que atravessam regiões e épocas e a possibilidade de transformar o ordinário em extraordinário.
A fruta silvestre recolhida em Kalunda, ignorada e entregue à fome das aves, é, para mim metáfora de vida, símbolo da bondade e beneficência da floresta e testemunho de que a flora guarda riquezas invisíveis aos olhos apressados. O sumo extraído, nutritivo e saboroso, é também narrativa de uma viagem que se inscreve na memória de uma terra que insiste em oferecer, mesmo no silêncio, sinais de futuro.
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In: Viagem ao Muxiko Leste


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