Nos anos 80, na Rua da Ambaca, Kaputu (Rangel), os bilos eram mais do que simples brigas de miúdos: eram rituais de afirmação, de hegemonia entre grupos e quarteirões. Os líderes não pelejavam todos os dias; bastava medir forças uma vez. O perdedor reconhecia o vencedor e reverenciava-o. Em caso de empate, surgia o kisoko — meio termo que selava a paz entre iguais.
Naquele tempo, figuras como Raimundo (o kota Ténis), Tomás e Paulito eram respeitados, mas não se envolviam tanto nas pelejas quanto o recém-chegado Man-Páscoa.
— “Olha, o Man-Páscoa chegou!” — murmuravam os rapazes na fila do pão do depósito do Kilwanje.
— “Esse é tejo, não faz nada” — provocava um zombador do grupo do Kilwanje.
Man-Páscoa, inicialmente catalogado como “fakiri”, suportou provocações até ao limite. Um dia, cansado das zombarias, respondeu com firmeza:
— “Respeito não se pede, conquista-se!” — e desferiu uma bofetada forte e certeira. O adversário, humilhado, no dia seguinte ainda sofria as consequências.
A notícia correu rápido. O temido Man-Domingo, líder do grupo rival, apareceu para defender o seu pupilo. O bilo, junto ao depósito de pão do Kilwanje, foi intenso:
— “Aqui mando eu!” — gritou Man-Domingo.
— “Hoje não. Hoje somos taco-a-taco!” — respondeu Man-Páscoa, firme.
A luta entre Man-Páscoa e Man-Domingo só não terminou em humilhação ao homem do Kilwanje porque os homens da ODP presentes intervieram rápido, quando o viram numa apertada kapanga. Mas o recado estava dado: Man-Páscoa não era qualquer um. Daquele dia em diante, ele e os seus pupilos passaram a ser respeitados na fila do pão.
Quando os “maiorais” não entravam em cena, a defesa do grupo da Rua da Ambaca ficava a cargo de Raimundo (Ténis), Malick (Ngonçalo) e de mim que tinha testado vitoriosamente em Zé Kandungu, do grupo do Kilwanje. Os demais estavam sob nossa jurisdição.
— “Se mexerem com vocês, chamem-nos. Nós seguramos a barra.” — dizia Raimundo, reforçando a coesão do grupo.
— “Aqui ninguém fica sem pão, nem sem respeito.” — completava Malick.
A chegada de Man-Páscoa foi um marco. Ele trouxe segurança, respeito e equilíbrio às disputas entre os grupos da Rua da Ambaca e do Kilwanje. Mais do que um líder de pelejas, tornou-se símbolo de coragem e de justiça entre as crianças e adolescentes do bairro.
O seu legado mostra que, mesmo nos bilos da infância, havia códigos de honra, diálogos de rixa e de paz e, sobretudo, a busca por reconhecimento. Man-Páscoa personificou essa busca, transformando-se em referência para todos nós. Retornou ao seu Kalulu, dedicando-se humildemente à agricultura.
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Imagem gerada por IA

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