Translate (tradução)

domingo, julho 19, 2026

A ESTRADA E OS BURACOS ÓRFÃOS

(Crónica de viagem)


Viajar pela EN322, entre Kakuzu e Alto Dondo (Malanji e Kwanza-Norte), é experimentar um contraste permanente entre o conforto e a apreensão. O asfalto, em largos troços, apresenta-se em bom estado e convida o condutor a manter uma velocidade compatível com a qualidade da via. É precisamente aí que reside o perigo: quando a confiança se instala, surgem, quase do nada, buracos dispersos, sem qualquer sinalização prévia e sem vestígios de reparação.
São verdadeiras armadilhas. Não aparecem porque o motorista conduza mal. Aparecem porque alguém deixou de cumprir o dever de os eliminar ou, pelo menos, de os assinalar.
Num pequeno aglomerado populacional, reduzi a velocidade para deixar passar alguns peões que saiam das lavras. Um idoso, sentado à sombra de uma mangueira, abanou a cabeça e comentou:
— Tenha cuidado, meu filho. Esses buracos aparecem quando a pessoa já pensa que a estrada está boa. Já vimos pneus a rebentar, viaturas danificadas e acidentes por causa deles.
A frase ficou a ecoar nos meus ouvidos ao longo da viagem. De facto, os buracos parecem surgir de surpresa, como se estivessem à espera do momento em que o condutor relaxa. E basta uma fracção de segundo para um desvio brusco provocar uma colisão ou um despiste.
Ao mesmo tempo, a paisagem oferece um sinal encorajador. A electricidade chegou a muitas aldeias que ladeiam a chamada "Estrada de Kapanda". À medida que a noite se aproximava, pequenas luzes começavam a desenhar o contorno das povoações, revelando casas iluminadas, pequenos estabelecimentos comerciais em funcionamento e crianças a brincar junto às residências.
Junto a uma cantina, um jovem sorria enquanto observava as lâmpadas acesas.
— Antes, quando escurecia, a aldeia morria. Agora há vida até mais tarde. Os miúdos revisam, as pessoas trabalham e já não temos medo da escuridão.
É impossível não reconhecer o alcance dessa transformação. A energia eléctrica leva desenvolvimento, cria oportunidades e devolve dignidade às comunidades. No entanto, esse mesmo progresso perde parte do seu brilho quando a estrada que o acompanha continua a esconder perigos evitáveis.
As perguntas, então, sucedem-se naturalmente:
Quem identifica aqueles buracos?
Quem decide quando devem ser reparados? Quem responde pela ausência de sinalização? E quando ocorre um acidente, será suficiente atribuir toda a responsabilidade ao automobilista, invocando excesso de velocidade, sonolência ou embriaguez, sem considerar que a própria via pode ter contribuído decisivamente para o desfecho?
Mais adiante, noite feita, já na EN120, entre Alto Dondo e Munenga, outra imagem reforçou essas inquietações. O parapeito de uma ponte estava destruído, aparentemente arrancado pelo impacto de uma viatura. Restavam apenas as marcas da violência da colisão e uma sensação de abandono.
Um camionista, que também havia parado para observar o local, comentou:
— Quem bate devia pagar. Hoje falta um pedaço da ponte; amanhã pode faltar uma vida. O acidente passa, mas o prejuízo fica para todos.
A observação era tão simples quanto certeira. Afinal, quem repara os danos causados ao património público? Existe um mecanismo eficaz para responsabilizar quem destrói equipamentos do Estado? Ou os estragos permanecem anos à espera de uma reparação que nunca chega, enquanto o risco aumenta para os utilizadores da via?
Infelizmente, esta cultura de abandono não se limita às estradas nacionais. Nas cidades multiplicam-se postes de iluminação tombados, bancos de jardins arrancados, passeios degradados, fontanários secos ou partidos e inúmeros outros equipamentos públicos que parecem condenados ao esquecimento. O dano torna-se paisagem; a ausência de reparação transforma-se em rotina; e a falta de responsabilização alimenta novos actos de vandalismo e de negligência.
Uma estrada não é apenas uma faixa de asfalto. É um património colectivo que exige manutenção permanente, fiscalização rigorosa e responsabilização efectiva. Cada buraco ignorado representa um risco. Cada grade de ponte destruída e não substituída é um convite ao próximo acidente. Cada equipamento público abandonado transmite a perigosa mensagem de que aquilo que pertence a todos acaba por não pertencer a ninguém.
No fim da viagem ficou-me uma convicção incômoda: as estradas não podem continuar sem dono. Porque, enquanto os buracos permanecerem órfãos e os prejuízos ao bem público ficarem sem responsáveis, serão os condutores, os passageiros e o próprio Estado a pagar, todos os dias, uma factura que poderia ser evitada.

Sem comentários: