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sexta-feira, novembro 21, 2008

…TAMBÉM MEREÇO SER FELIZ…


… me desculpa só ué. Eu só a otra. Também mereço ser feliz…

A música alta, tocada num Toyota Hiace empanturrado de gente, transborda cá fora, cuspindo ritmos dançantes e reflexivos, enquanto no apertado recinto senhoras puritanas e libertárias se flagelam com farpas que se esticam ao autor material da proeza.

-Mas esse moço foi criado então aonde, que está a trazer essas suas modas de segunda? Interrogou dona Mingas António, devota católica e frequentadora assídua do santuário da Muxima para a retenção do fraudulento Ti-Xico.

_Mana Domingas deixa só. Retorquiu sua comadre e companheira de rezas e viagens, Madalena José, também procedente do santuário além Kuanza, onde pretende a guarda dum sepulcral segredo.

Madó, como é conhecida na paróquia, é devota, muito dada à caridade e trabalhos sociais na comunidade. A sua elegância contrasta com a vida pacata que leva. Mãe de dois filhos, sem pai, apenas confiados à benevolência do Padre Jacinto que os tem como afiliados.

Enquanto as devotas tentam se acalmar, ou no mínimo procurar fôlego para engolir o “também mereço”do Damásio, uma jovem põe “lenha na fogueira” e desbota:

- Hoje em dia homem já não é empresa privada. Se você tá dormir ou mbora engordar com as regalias, as "outras" também querem…

Mal tinha terminado a exposição, do lado da cabine, desata Manuela, dirigindo-se às devotas e acrescenta:

_ Mamã, os tempos mudaram e os gostos também. Os tios agora gostam coisas que vocês nunca imaginaram fazer…

Domingas António meneou a cabeça e exclamou:

- Issungi! agora é assim? já não há mais respeito das mais velhas, até marido das vossas mães tão a receber e ainda vos acodem com música que as p… também merecem? Deus Nossa Senhora!

Entre o “conversa puxa conversa” uma autêntica confusão se instalou no Hiace perante a gratidão do cobrador que ia distribuindo odores fedorentos aos mais próximos.

_Esses jovens nem higiene laboral têm, possas! Mal o mecânico termina os trabalhos juro. Nunca mais essa merda! desabafa desgostoso, um quarentão.

A viagem prossegue. Com ela a “música do momento” que passa e repassa. Entre prós e contras se fomenta multi-logo e aumentam os volumes bocais. O que, cá fora, sai é já um turbilhão de vaias e elogios e palavras desencontradas. Sons paridos pelos altifalantes, gemidos do carro cansado e sufocado pelo excesso de peso e gritarias que procuram espaço num chilrear humano. Jovens atrevidos assobiam ao desgosto da senilidade ortodoxa.

À primeira paragem, Domingas António decide abandonar o carro e aliviar-se do sufoco. Junto à berma, uma orda de larápios a aguardavam com passos de fuga ensaiados. Mal dona Minga, com sacola a tiracolo, poisou o primeiro pé no chão, um atrevido espectou-lhe uma kibiona para a desconcentrar.

Aflita, entre resguardar a sanidade moral e a sacola, preferiu a primeira opção. Aliás nem tempo teve para pensar e a sacola com os haveres já repousava em mãos alheias.

-Socorro, é ngombiri!, socorro sô polícia! me levaram a pasta. Vociferava aflita.

A confusão reinante no interior do pseudotaxi estendeu-se à rua Revolução de Outubro, onde nem polícias, nem fiscais se aprontaram para o solicitado SOS. Os tempos estão mesmo mudados, atirou aos botões.

A sociedade impiedosa assistia impávida ao filme. O ladrão caminhava impune. E os carros se sucediam na paragem. Aos soluços ficou Domingas António, seguindo o rasto da música que rumava ao São Paulo, destino daquele Hiace. Sempre com a “queta do momento” num vai e vem sem fim. Me desculpa só ué. Eu só a otra. Também mereço ser feliz…

O tema levado à Capela, ai na Dona Amália, virou motivo de reflexão caseira para um debate de mulheres de idade a ser moderado por Madalena José.

_ Valerá apenas ceder ou vamos continuar a "muximar" para reter os nossos maridos? foi a pergunta da noite.

Dias passados a comadre Madó que ficou de animar o debate também surpreendeu o padre Jacinto com a sua melhor amiga, Maria, e a resposta tarda em chegar.

Até lá, outras prosas.

(na foto o rei Jacob e as suas "outras")

Luciano Canhanga

7 comentários:

Isa disse...

Ola fiz um ensaio sobre esta musica está muito interessante
Isa

São disse...

-- SER FELIZ-- !
Mudam-se os tempos
e as vontades,
deixam incrédulos
os que abraçam os ventos
os que não sabem,
ouvir as verdades
para muitos,
Homem ainda é empresa,
e é empresa privada,
não sabem dar valor,
ao que sente o coração...
vivem na incerteza o amanhã,
prendem os empresáros,
com os filhos.
não recebem a luz divina,
nem mesmo na MUXIMA!
SÃO

Esqueci-o disse...

Apenas as Sras se manifestam? quer dizer que os "Empresa privada" concordam com a situação? Ou não há HOMENS a visitarem este Blog?

Angola Debates e Ideias. Gociante Patissa disse...

Gostei de saber q vai "parir" um texto para honrar a sua querida mãe. Li no recém-saído semanáario O País um dossiê sobre "a outra" e eventual embargo à música, concretamente na Rádio Ecclesia por imcompatibilidade de mensagem. Como artista, embora reconheça e não discuta o direito à princípçios editoriais, julgo que o artista tem também a missão de denunciar fenómenos sociais, alguns dos quais mantidos na sobra do sinismo. Isso é o ponto, sendo que mediante área de actuação se define a forma. A não ser que o próprio Matias Damásio se dispa da pele de artista e afirme defender "a outra" como opção, no radicalismo q a juventude lhe permitir, ele não devia ser julgado por moralismos.

Edson Macedo disse...

Meu caro amigo por causa do furor da outra algu+em fez a própria a responder à outra. Não sei, infelizmente de quem é a letra mas q está, lá isso está:

Eu sou a própria
Akela k todos conhecem
Ao meu lado ele é FELIZ
Todo mundo diz...
E sempre me falam
Se esforça para compreender-me
Faz de tudo p´ra me ver sorrir
Seus sentimentos me enamoram
De emoção, meus olhos choram
Sou tua até no nome
Não dou chance à trambiqueiras
Tu sabes k eu tb te amo
E k tu és o meu dono
Eu posso, eu posso
Dizer que tu me amas demais
E que meu amor te dá prazer
Eu posso, eu posso
Tantas coisas ja sacrifiqei
Por ti meu GRANDE AMOR!!!
Em janeiro nos casamos
sou mais k tua mulher
Perante o altar juramos
Xtarmos juntos até morrer
K alegria poder ter
Este homem só para mim
só tenho k agradecer
a Deus por olhar por mim
Kdo ele se deprime em casa
deita no meu colo
Kdo ele fica triste em casa
pede o meu consolo
Eu sei k ele é só meu
De segunda à segunda
E eu te amo mesmo assim, eu te amo mesmo assim
Entreguei-te minha mão e me puseste o «anel»
e a melhor parte foi kdo me disseste:
«Tu és mulher para subir ao altar»
Desculpa só eh eu sou a própria
Eu te confesso sou FELIZ
Oh meu senhor eh aiaiaia
Sei que mereço ser FELIZ!!!
Eu mereço ser FELIZ...
Eu posso, eu posso...
Eu posso, eu posso...
Por isso eu assumo eh
Assumo eh assumo eh assumo eh
Eu sou a PRÓPRIA!!!
assumo eh EU SOU A PRÓPRIA...
EU SOU A PRÓPRIA...

Aquele abraço a todas que no fundo não deixão de ser sempre... a própria...

KimdaMagna disse...

Um pseudo táxi...
uma rua da Revolução sem polícias, mem fiscais...
uma música do momento...

Não há dúvidas a globalização tá mesmo aí.
Só restam mesmo ( quase) as peculariedades climáticas.
A prosa tem uma análise social muito interessante

Xaxuaxo

Canhanga disse...

Obrigado a todos quantos depositaram aqui "suas críticas e elogios. Xtou-vos mui grato pelo encorajamento.