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segunda-feira, junho 10, 2013

A CARGA PROPAGANDÍSTICA E A RESPOSTA PSICO-MOTORA

Tenho observado, com alguma preocupação, o elevado altruísmo dos nossos jornalistas quando abordam os momentos que antecedem os jogos da selecção angolana, ou se preferir, a elevação da exigência aos nossos representantes, pensando-se que no futebol tudo podemos contra quem quer que seja.
A meu ver, esse tem sido um erro crasso da nossa media audiovisual que no calor do momento e servindo-se de vozes menos avisadas da população, mais emotivas do que racionais, vão pedindo aos jogadores aquilo que as aptidões psico-motoras e técnicas não são capazes de proporcionar.
Assim foi no CAN  organizado pelo nosso país, voltamos a fazê-lo nos CAN que se lhe seguiram e agora no jogo contra o Senegal. A povo mal orientado é uma arma muito perigosa, pois deixa de raciocinar e guia-se pela emoção.
Ao pedir-se uma goleada sobre o Senegal que é de longe superior a Angola, tendo em conta o seu posicionamento no Ranking da CAF e FIFA e atendendo ainda ao nível e desenvoltura atlética dos seus executantes, caímos  mais uma vez no populismo, acabando por pedir aos futebolistas nacionais aquilo que à partida sabíamos que não era possível.
Tal atitude, repito, populista cria nos jogadores um excesso responsabilidade e nervosismo que  impossibilitam a realização de um jogo alegre e despreocupado.
No jogo contra  o Senegal, pontuável para o mundial do Brasil de 2014, Angola não jogou contra uma equipa qualquer e, embora tenha empatado em território alheio,  tal sorte não conferia à selecção nacional um hipervalor agregado para que saísse do estádio 11 de Novembro, em Luanda, com uma goleada, como se vaticinava ou se procurava insinuar através da “colocação do discurso vitorioso na boca do povo”, como o fez a rádio e a televisão públicas angolanas.
“Sonhar não é proibido", corroboro. Porém, há que impor limites ou racionalidade aos sonhos, pois nem todos os sonhos se materializam a nosso contento.

sexta-feira, junho 07, 2013

A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NA ELEVAÇÃO ACADÉMICA E CULTURAL DO ESTUDANTE

SUA EXCELÊNCIA…
DIGNISSIMOS ...
CAROS MEMBROS DO CORPO DOCENTE E DISCENTE
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES
É com elevada honra que saúdo suas Excelências ...
José Caetano, Fidel Manassa e Luciano Canhanga
A vossa presença, nesta cerimónia, traduz não só a importância que é dada por vós à formação das novas gerações mas também a vontade e empenho em contribuir para a resposta aos grandes desafios que se nos colocam na luta pelo desenvolvimento, quer na vertente técnica quer na vertente cultural.
Com a permissão dos digníssimos membros da mesa de honra, gostaria que me autorizassem a endereçar os meus agradecimentos a todos os presentes a esta augusta assembleia.
Dirijo uma palavra de especial reconhecimento à direcção da Escola Superior Politécnica da Lunda Sul pelo convite que me foi endereçado, e também pela oportunidade singular,  de pronunciar algumas palavras, ainda que modestas,  neste acto que assinala a constituição formal do Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura desta província.
Os meus parabéns, e uma salva de palmas, a todos os autores desta feliz iniciativa.
Agradeço ainda à Sociedade mineira da Catoca que tornou possível a minha presença e em especial o meu ilustre amigo, o professor e escritor Luciano Canhanga.
Por tudo o que a Lunda-Sul e a sua riqueza cultural representam para Angola, para África e para o mundo, sinto-me orgulhoso e satisfeito por estar entre vós e ser testemunha deste vosso compromisso para com o desenvolvimento  multiforme dos seres humanos.
Luciano Canhanga: Coordenador do Núcleo
Confesso que o tema escolhido para comemorar a constituição formal do Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura da Lunda Sul, deixou-me um pouco embaraçado.
Embaraçado, porque falar da importância da leitura na elevação do nível académico de um estudante, pode parecer uma tarefa fácil, mas acaba por ser complexo por tudo aquilo que somos chamados a dizer para corresponder às expectativas de uma audiência tão distinta  e com tanto interesse, como é precisamente a áurea de convidados aqui presentes.
Se, por exemplo, invertessemos as palavras e perguntássemos qual é o nível académico dos nossos estudantes, em termos de qualidade, e conhecimentos, comparativamente a outras épocas, ou a outros países, penso que perceberíamos melhor a complexidade do nosso tema. Ou, então, se perguntássemos aos vossos professores que respondessem, ainda que em segredo, se estão ou não satisfeitos com o vosso desempenho académico?
A maioria está satisfeita? Não está satisfeita?
E quais as principais fraquezas ou pontos fortes que os estudantes apresentam?
Não quero que respondam directamente. Gostaria apenas que dissessem se mais hábitos de leitura podem contribuir, ou não, para a busca de soluções para estes desafios.
Estou certo de que fazendo este pequeno exercício, será mais fácil mostrar as inúmeros vantagens que uma leitura metódica e sistemática para trazer para a nossa formação integral, o que equivale a defender, a sua importância para o aumento dos nossos conhecimentos académicos.
Plateia na ESPL-ULAN
Acredito que falar-vos do papel que a leitura desempenha no aumento constante do nível académico de um estudante, é falar também  da importância do estudo em duas perspectivas distintas, as quais considero ser:
Por um lado, o estudo metodológico das disciplinas curriculares e;
por outro, uma segunda espécie de leitura, que chamaremos de “Paralela”, e que consiste em cultivar mais conhecimentos, por acréscimo ao currículo da nossa formação específica. 
No primeiro caso, enquadramos o aluno num grupo avançado, mas médio, e diremos que ele será  tanto mais aplicado quanto mais ler e investigar sobre os conhecimentos que o professor transmitir para a aprendizagem de um curso específico;
No segundo caso, teremos  uma aluno que ultrapassa a média geral e não se preocupa apenas em ESTUDAR PARA TRANSITAR DE CLASSE , mas que, antes pelo contrário, aumenta o seu nível de conhecimento e se preocupa em alargar a sua cultura geral a outros horizontes.
Acho que estes dois exemplos são o que nos interessa trazer em debate, hoje.  
A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, no seu Vol. 10, nas páginas 36 e 37, define o Estudante como “aquele que estuda e é aplicado”, com interesse em áreas sociais e associativas. E mostra ainda que ao lado do estudante existe o ESTUDANTECO que se define como o aluno ordinário com fraco rendimento escolar.
Quando falei pela primeira vez em estudantes,  realcei o exemplo particular dos que dedicam uma percentagem das horas livres e dos momentos de lazer para investigar e aumentar conhecimentos noutras áreas da vida económica, social, cultural ou literária, através da leitura.
Antes de continuar, queria que olhássemos um pouco para o interior, a realidade, do nosso país e para aquilo que nós somos, como a principal riqueza de Angola.
Somos um país em crescimento, mas ainda pertencemos à categoria dos países subdesenvolvimentos ou em vias de desenvolvimento. Em termos de tecnologias, transformação da matéria prima, exploração e  distribuição dos recursos naturais e qualificação profissional dependemos, largamente da cooperação e da assistência estrangeira.
Somos um país soberano e politicamente independente, mas do ponto de vista do desenvolvimento científico não podemos dizer que temos hegemonia! Numa classificação de 100 países, ocupamos a 80º posição mundial, segundo o relatório das Nações Unidas sobre o desenvolvimento humano. Temos problemas básicos como o acesso e distribuição da água potável e da energia. Também temos problemas de organização social e administrativa.

J.Caetano: numa turma de Dto. Inst. Sup. Lusíada da L. Sul
O ensino em Angola está em desenvolvimento, nascem novas universidades e cresce o interesse dos jovens em adquirir uma licenciatura, mas falta-nos a excelência da qualidade, da pesquisa e da investigação.
A pergunta que eu quis fazer com esta pequena análise é a seguinte:
O que se espera e qual o perfil que um estudante deve ter, para que Angola possa reduzir esta dependência, em termos de uma maior qualificação académica dos quadros, num futuro próximo? Quais devem ser as nossas prioridades, metas e exigências no domínio do conhecimento geral?
Voltamos ao nosso tema sobre a importância, decisiva, da leitura na elevação do nível académico dos nossos estudantes.
Dissemos explicitamente que cada estudante que não lê e não se aplica no estudo, está a contribuir indirectamente para que Angola aumente a sua dependência exterior; se atrase em relação ao exterior e perca a corrida para o desenvolvimento;
Afirmamos sem receio de errar que cada estudante sem rendimento escolar, é uma pedra a menos na nossa luta contra a fome e a pobreza; é um peso contra a nossa capacidade de maior raciocínio e compreensão das politicas de desenvolvimento. Em resumo, quero dizer que uma população sem hábitos de leitura é uma população mais exposta á ignorância, à doença, às convulsões sociais , ao comportamento bizarro e a toda a esta tragédia e violência que testemunhamos através da rádio, da televisão e dos jornais.
Concluímos com as vantagens da leitura, como fonte de solução dos nossos problemas. Considero que através da leitura aprendemos novos conhecimentos e tornamos mais fácil a compreensão da nossa realidade, por mais complexa que ela seja. A leitura, como pesquisa, é meio caminho andado para  a busca de qualquer solução.  Quem tem hábitos de leitura, aprende a argumentar, corrige as suas fraquezas e melhora o seu raciocínio.
 
Muito Obrigado
José Soares caetano,
Saurimo, 06.06.2013 

sábado, junho 01, 2013

AS MISS E A DEFESA DO INDEFENSÁVEL

Estou envolvido, há já cinco anos, na organização de concursos de beleza, nomeadamente Miss municipal e provincial. Tudo o que venho assistindo nestas andanças é que se tornou prática recorrente a assistência contestar a decisão do júri quando se trate de concursos de beleza ou similares. A priori, a decisão do júri, embora não agrade a todos, é inapelável. É ao júri que cabe julgar, de forma desapaixonada e equidistante, a postura das candidatas, de acordo ao regulamento e requisitos exigidos para o efeito.
O público, embora detentor do seu juízo de valor e capacidade analítica, nem sempre está por dentro dos instrumentos reguladores e requisitos exigidos, procedendo uma análise superficial. Até porque não convive com as candidatas durante a fase de treino.
Para quem está por dentro, e saibam-no aqueles que apenas têm acesso ao momento final, é que:
1-      Trabalha-se, muitas vezes, com jovens de tudo inexperientes a quem se ensina até sentar-se á mesa e manipular os talheres (etiqueta), coisas que a Miss eleita terá de utilizar todos os dias do seu mandato e pós-mandato, mas que não são julgadas na gala de eleição.
2-      O valor intelectual/cultural é medido pelo à vontade, expressão oral e facilidade de comunicação e não apenas pelo nível académico. A classe que frequenta, por si só, não define a intelectualidade da candidata. Esse aspecto é medido pelo júri durante o contacto antes da Gala.
3-      As perguntas que as candidatas a miss respondem durante a gala de eleição são estudadas e decoradas por todas durante semanas. Logo, não e a resposta mais complexa que determina a intelectualidade.
4-      Os concursos de beleza, sejam eles municipais, provinciais, nacionais ou internacionais, não são concursos de cultura geral ou testes de aptidão académica. Por isso, nem sempre a mais escolarizada está mais à vontade ou mais habilitada a exercer o papel de miss. Os conhecimentos de cultura geral e etiqueta são para ser aplicados durante o consulado, em contactos sociais que a miss eleita vier a manter.
5-      Ter boa postura na passarelle, não se incomodar com calçado de salto alto, demonstrar simpatia permanente (sorriso sempre presente), ser cordata e bem-educada, possuir modos correctos, simplicidade e clareza na comunicação, são aspectos fundamentais para quem se candidata a figura pública. Esses aspectos não são medidos durante a gala de eleição, mas sim durante a fase de preparação e entrevistas com o júri.
6-      Para concursos de MISS, possuir 1,70m ou mais é outra das exigências a que se acresce não possuir cicatrizes e ou tatuagens em partes do corpo visíveis.
Todos esses elementos acima descritos e outros subjectivos é que servem de base para o julgamento do júri, sendo normalmente desconhecidos pela plateia/assistência que, regra geral, procede a uma avaliação parcial e emocional.
Para a assistência, um papel que qualquer um de nós já exerceu, o voto vai para a a que atestar maior escolaridade, que nem sempre é proporcional ao conhecimento e expressão oral; a que responder  a pergunta aparentemente mais complexa; a que tiver usado um vestido ou roupa interior mais ousado;  a que tiver a maquilhagem mais aprumada; a que melhor dançar em palco, etc. Logo, entre o júri, a quem se confia a missão “ingrata” de julgar, e o público assistente há sempre quem, no final do concurso, defenda o indefensável.

sexta-feira, maio 31, 2013

EM DEBATE: "A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NA ELEVAÇÃO ACADÉMICA E CULTURAL DO ESTUDANTE".

O escritor e jornalista Tazuari Nkeita, José Caetano de nome próprio, aceitou o convite que lhe foi formulado para no dia 05 de Junho dissertar aos estudantes da Escola Superior Politécnica da Lunda Sul e outros convidados sobre "A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NA ELEVAÇÃO ACADÉMICA E CULTURAL DO ESTUDANTE".
 
A palestra marcará a constituição formal do Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura da Lunda Sul que conta com o apadrinhamento da Escola Superior Politécnica, afecta à Universidade Lweji A Nkonde.
 
- Se está a residir na Lunda Sul ou estiver nesta província, no dia 05 de Junho, sinta-se convidado e passe a palavra a demais interessados.
Pretendemos casa cheia.
 
Data: 06/06/2013
Local: Anfiteatro da ESPLS
Hora: 10h00
 
Contamos consigo e com seus convidados.

sábado, maio 25, 2013

LEITURA NA HORA H

  • Trinta e nove anos depois do meu nascimento, alegria maior não teria sentido.
     Primeiro as felicitações antecipadas dos meus amigos factuais e virtuais. Depois a materialização de um sonho que era oferecer livros a uma biblioteca infantil comunitária da Lunda Sul.
    Escrevi o livro "Manongo-Nongo" com a pretensão de angariar um patrocínio e oferecer toda a tiragem a bibliotecas infantis. Não obtive patrocínio mas custeei a produção de 1000 exemplares e metade foram vendidos, estando a outra metade em ofertas sucessivas.
     
  • Ontem, 24 de Maio, fiz a primeira oferta em média escala. Mais de cinquenta livros oferecidos à Biblioteca Infantil Comunitária que catoca (meu patrão do momento) inaugurou na aldeia de Caxita-Mwandonji, município de Saurimo. Foi o realizar de um sonho.
    Quem me dera ter algo para ler na minha primeira infância!

sexta-feira, maio 24, 2013

MOMENTO PRÉ-NATAL

Já é órfã de mãe, há dois anos, e perdeu o pai há uma semana. Está grávida e sente dores tortas. Maria Canhanga nem chorar consegue (a tradição exige que as lágrimas sejam visíveis e mantidos os caminhos no rosto por elas traçados).
 
Minha mãe, Maria Canhanga,  não sabe se chora a perda do pai, Soba “Ngana Ngunji”, regedor do Kuteka, ou se procura por um lugar mais calmo a fim de preparar o nascimento do seu primeiro filho. As atenções da aldeia de Bango de Kuteka estão viradas nela.
Aconteceu há 39 anos, num dia como hoje.

quarta-feira, maio 15, 2013

UM CANTO À ESTAÇÃO SECA




Kasimbu nosso do cieiro, do frio, do vento seco.
Venha!
Aguardamos por ti com nossas samarras, nossos panos e kapulanas, nossos casacos e mbirikitis.
Não está aqui quem te desdenha!
Kasimbu nosso, traz fartura nas caçadas, nas pescas nas chanas, nos rio sem água, nos lagos límpidos e nos mares agitados de ventos longos.
Para afugentar frio guardamos lenha!

Kasimbu nosso de cada ano, trás noites estreladas para nossos serões de ana-a-ndenge.
Que todos dias se empenham!


sábado, maio 04, 2013

LIBOLO: DE CHACOTA GERAL A ORGULHO NACIONAL

  • Depois de um longo silêncio, traço hoje algumas linhas sobre o Recreativo do Libolo, equipa da minha circunscrição natal.
  •  - No Girabola, à décima jornada,  embora com 2 jogos em atraso, fruto da nossa participação nas Afro-Taças, estamos entre as piores equipas. Com 8 jogos disputados o Libolo, bi-campeão angolano de futebol, soma apenas 5 pontos e ocupa a última posição da tabela classificativa, numa competição em que o líder, com 10 jogos, já soma 26 pontos.
  • - Na Liga dos Campeões Africanos estamos entre as melhores. O Recreativo do Libolo apurou-se, a 04 de Maio de 2013, à fase de grupos, depois de ultrapassar o Enugu Rangers da Nigéria por um agregado de 3-1.
  • De motivo para chacota geral, o Libolo passou a orgulho nacional.  Para mim, terminou a hibernação.
  • O LIBOLO NÃO MORREU. ESTÁ A CAMINHO!

quinta-feira, maio 02, 2013

RESPONSABILIDADE SOBRE TEXTOS NÃO ASSINADOS NOS SITES

A quem recai a responsabilidade material e civil por um texto/artigo divulgado num site público ou institucional, em que a matéria (artigo), não assinada pelo autor, belisque o campo do alheio?
Essa questão colocada a um jurista sénior da nossa praça (Luanda) surge a propósito de muitos textos de opinião, cujo conteúdo se dirige a pessoas (singulares ou colectivas), aparecerem em sites institucionais sem que os seus autores sejam identificados. Veja o que nos diz o jurisconsulto Nguvulo Makatuca: "não havendo assinatura, a responsabilidade seria da publicação. No caso, do órgão que haja publicado a matéria. Caberia a este órgão fazer a prova de que a responsabilidade seja de terceiro. Daí o facto de os órgãos deverem sempre identificar o autor da matéria, mesmo nos casos em que este opte por agir sob anonimato”.
O jurista prossegue ainda que,  neste caso, estaríamos perante uma responsabilidade objectiva (independente de culpa) devido os benefícios obtidos pelo órgão com a publicação da matéria. Caso o autor estivesse identificado, haveria responsabilidade solidária de ambos.
 A parte lesada pode, segundo NM, demandar qualquer um deles (em regra a parte com melhores condições para reparar o dano), podendo esta, a demandada,  exercer o direito de regresso sobre a outra parte, caso prove que o dano tenha sido causado por culpa exclusiva da outra parte. A responsabilidade do meio que publica um texto de opinião que lese interesses de terceiros legalmente salvaguardados fica sempre difícil excluir, a menos que o tenha feito com a menção expressa de que não assumia qualquer responsabilidade sobre o conteúdo dos textos assinados.

Caro colega (jornalista), ilustre gestor de Site/media, fica então o conselho e preste atenção ao que é publicado sem assinatura. À partida, todo o texto não assinado é da estrita responsabilidade do órgão que o veicula, sendo demandado, no caso, o director/responsável da publicação.
 

segunda-feira, abril 29, 2013

DEVIOS na RÁDIO FAZEM RECLAMAR PROVEDOR dos OUVINTES

Quem não tem conhecimentos sobre a ciência jornalística/radiofónica e que oiça a rádio que se faz hoje em Luanda pode  vir a pensar que aquilo que se faz se constitui no auge do bom radialismo.
Programas interactivos com ouvintes, informação sobre o transito automóvel fornecida na hora pelos ouvintes (lado positivo), deficiente componente formação e ausência de informação rigorosa, fracas reportagens (quase todas eles de circunstância) e, às vezes, linguagem menos cordata para com os ouvintes…
Nalguns casos, os radialistas chegam mesmo a ofender os seus ouvintes, tratando-os de acéfalos ou mentecaptos e outros epítetos,  a meu ver, agindo em contra-mão daquela que deve ser a linguagem urbana e cordata na rádio.
Infelizmente, é isso o que a juventude ouve. São esses os elementos de referência para quem queira seguir radialismo.
Se alguém hoje perguntar a uma criança que queira ser jornalista “tu queres ser como Maria Luisa, Rui Carvalho ou como o ´fulano da nova vaga´, com certeza que a resposta será: quero ser como o fulano da nova vaga.
Se por um lado as inovações na rádio são úteis e a tornam dinâmica, trazendo o ouvinte como actor do processo de radiodifusão, é também de mister utilidade urbanizar a linguagem, apostar na formação através da rádio e não deixar perder a vertente informação rigorosa, porque a rádio não é apenas entretenimento.
Também entendo que devia haver, no nosso caso, uma entidade ou instituição que velasse por corrigir os desvios, ainda que sob a forma de apelos: uma provedoria dos ouvintes, se calhar.

segunda-feira, abril 22, 2013

NOSTALGIA DA DECÊNCIA, SOLIDARIEDADE E DISCIPLINA*


NOTA: O texto que se segue é da autoria de Graça Campos, exímio artista das letras. Por o ter considerado monumental e "GRANDE AULA DE HISTÓRIA E MORAL", acabei por roubá-lo da sua página do face book, transplantando-o aqui a fim de O partilhAR com os meus leitores mais fieis.
 
Indecências

Sinto profunda nostalgia de alguns aspectos da "ditadura do proletariado" que nos governou até aos 90. Daqueles tempos, guardo algumas boas lembranças da disciplina, da solidariedade, da decência e outros.
Naqueles tempos, ninguém ficava indiferente a um óbito em casa do vizinho; ninguém assobiava para o lado à passagem de um cortejo fúnebre. E, claro, mulher alguma ia ao funeral para mostrar as pernas ou as mamas.
Naqueles tempos, a ODP reprimia, adequadamente, as afrontas à moral pública. Cidadãos surpreendidos em actos merecedores de algum recato, como sejam namorar ou, mesmo, ir um pouco mais além, eram apropriadamente açoitadas com catanas. Fossem eles quem fossem. Aliás, naquela altura, todos éramos, apenas, angolanos. Ser filhinho de papai é invenção dos dias hoje. Naqueles tempos, o que orgulhava as famílias era ter um membro nas FAPLA. Hoje, como se sabe, os motivos de orgulho são outros: cifrões e sobrenomes.
As pessoas que estão abaixo da minha geração acreditam que corrupção em Angola é chaga que vem do passado. Não é nada. No "meu tempo" corrupção ...só nos livros.
Quando olham para as fortunas de algumas famílias, as gerações mais novas podem ser induzidas a pensar que esse processo de acumulação vem do passado. Nada mais falso! Há 20 e poucos anos, todos, ou quase todos, estávamos no mesmo patamar. Sem fortunas, mais felizes da vida.
Naqueles tempos todos éramos todos os tais " ana mbuiji tu dila xinji dimixi", cantados pelo inesquecível David Zé.
Mas do que tenho mesmo muita saudade do passado é da decência. Naqueles belos tempos era de todo inconcebível que um cidadão angolano se apresentasse aos balcões da TAAG para fazer check in de calções e camisola sem manga, os chamados parte os cornos. Aliás, pessoas assim vestidas seriam travadas a vários metros da entrada do aeroporto.
Hoje, faz-me imensa confusão que a um matulão de 20 ou mais anos seja permitido viajar nos aviões da TAAG de tangas e parte os cornos. Onde é que já se viu isso? Por causa desses liberalismos, até mesmo os vôos internacionais da TAAG estão transformados em quitandas de mau cheiro porque se permite que matulões viagem de camisolas sem manga, expondo os seus sovacos a outros passageiros. Ua, meu Deus, quanto dibuzo sai daqueles sovacos...
Por tudo isso quero deixar aqui uma sugestão: que a TAAG, a Alfândega, SME e outras autoridades que operam nos nossos aeroportos internacionais travem a indecência. Calções são para crianças. Adulto que se apresente num aeroporto para uma viagem indecentemente vestido deve receber ordem para fazer QRF imediato.
Aliás, como podem mãe, esposa ou namorada que se prezem permitir que o seu ente saia de casa de "cuecas" e bibe para uma viagem?
Eu não acredito que o mundo ache graça alguma ao facto de alguns angolanos preferirem viajar mal vestidos. Pelo contrário.
Se dependesse exclusivamente de mim autorizaria a TAAG o exercício do direito de preferência.
Todas as discotecas de Luanda vedam o acesso a pessoas inapropriadamente vestidas. A TAAG, um dos principais símbolos do país, deveria, no mínimo, ser autorizada a adotar procedimento similar.
Em homens adultos, calções, chinelos e parte os cornos são trajes de quintal e praia e nunca para viajar em avião público.

 
* Título do autor do Blog.
- Texto de Graça Campos com o título "Indecências".

segunda-feira, abril 15, 2013

ENTRE O BAIRRO E O 5º ANDAR

Quando essa bananeira (foto)saiu de Catoca, Lunda Sul, era um "botão" com poucos centímetros. Hoje já tem um rebento e o primeiro cacho está para breve.
Agricultura é paciência. É "correr por gosto".
Aos meus amigos que me dizem para "deixar o bairro (Viana) e ir ao Nova Vida", digo que É isso que me retém no bairro.
Gosto de seguir o crescimento das minhas plantas, colher as primeiras frutas e ouvir o chilrear dos passarinhos logo pela manhã. São os meus despertadores, algo que jamais terei no quinto andar do edificio público e com espaço limitado.

quarta-feira, abril 10, 2013

DESABAFO DUM EX-PRATICANTE QUE ANSEIA POR AUTO-REGULAÇÃO NO JORNALISMO ANGOLANO

Há muito sem vem debatendo se "o jornalismo angolano é de facto uma classe".
 
No meu ponto de vista, falta coesão, falta uma entidade associativa forte e abrangente que leve ao processo de auto-regulação.
 
Tenhamos como exemplo os enfermeiros: têm uma ordem que regula o exercício da profissão, sejam eles de nivel básico, médio ou superior. Aliás, desapareceram os cursos básicos de enfermagem. E nem todos que usam batas nos hospitais são enfermeiros: uns saão maqueiros e ou assistentes de limpeza.
 
No jornalismo angolano, a coisa ainda está confusa. Kuduristas, simples locutores, e jornalistas de facto aparecem misturados na mesma "sopa". Todos dizem que são jornalistas, como se não fosse preciso escola e estrada para se ser, de facto, um jornalista; Como se o jornalismo fosse das profissões mais banais e irresponsáveis...
 
Torna-se ingente uma instituição que ponha ordem na coisa. Ou formação comprovada ou estrada comprovada que dê equivalência ao título. Quem não é jurista não exerce advocacia.
 
Quem não é formado em medicina e com cedula da ordem não exerce medicina em Angola. Até os psicólogos criaram uma ordem.
 
Que falta aos jornalistas para colocarem ordem na casa?

Com esse estado de coisas não me espantarei se um dia vier alguém lá do "morro" e extinguir a profissão de jornalista e a substituit por uns kuduristas ou propagandistas...

quinta-feira, abril 04, 2013

QUANDO FOI LANÇADO O SLOGAN “UM SÓ POVO, UMA SÓ NAÇÃO”?

  •  Em “Agostinho Neto e a Libertação de Angola”, Vol. V, pg 148, descobri que este slogan foi lançado/pronunciado pela 1ª vez por Agostinho Neto, a 4 Fev. 1970, no campo Vitória é Certa, Lusaka/Zâmbia.
  • As palavras de ordem eram “uma luta contra o tribalismo/regionalismo que afectava o MPLA”.

    DE KABINDA AO KUNENE: UM SÓ POVO, UMA SÓ NAÇÃO!

sexta-feira, março 29, 2013

KIMBOMBO: VOCE AINDA SE LEMBRA?

Lí, em tempos no face book, uma reconstituição do jovem José Quitumba, o "Paizinho", em que ele e amigos bebiam kisângua em recepientes de azeitonas. Grande imaginação.
 
Trataou-se de uma recomposição da História recente dos nossos musseques onde a ausência de bolso para a cerveja ou a ausência desta era compensada pela fabricação caseira de uma bebida fermantada designada por Kimbombo.
 
O  Kimbombo era feito à base de arroz fermento e açúcar e havia quem adicionasse uma pilha para incrementar a fermantação. Hoje, os meninos e mesmo alguns jovens já nem sequer imaginam que houve um tempo em que a cerveja não era para todos. As consequencias para a saúde eram tantas.
 
Apesar da imaginação do angolano, entre o entorpecer-se daquela forma, para esquecer as malambas, a viver com muitas malambas sem solução, a escolha recaia, para uns, no suicídio que era tomar a "kissara" como também era tratado o kimbombo. Muitos morreram anémicos, outros por graves complicações respiratórias e outras patologias.
 
A reconstituição do meu amigo Quitumba serve, quanto a mim, para recordar um passado tenebroso vivido pelos angolanos e reflectirmos sobre o que de mau o povo viveu em tempos que não desajamos que  voltem a acontecer.

"Onde hoje se colhem rosas já foi um campo de espinhos". Think about it (Pense nisso)!

sábado, março 23, 2013

Soberano Canhanga fala ao Lusophone Society of Goa

A "Lusophone Society of Goa" é uma media digital e imprensa que visa o fomento da lusofonia no mundo.
"Econtrado" nas redes sociais, fui convidado a conceder-lhes uma entrevista, em português e inglês, que abaixo reproduzo.

1 - Estreou na Literatura angolana em 2010, com o "Sonho de Kauía" e como jornalista profissional é responsável pela comunicação institucional da maior empresa diamantífera angolana, a Sociedade Mineira de Catoca. O que significa para si ser jornalista e escritor ao mesmo tempo?
Ser jornalista e escritor é uma combinação harmoniosa a que me entrego com prazer, já que o jornalista e o escritor habitam o mesmo corpo.
O jornalismo é um sonho de há muito que se materializou com formação neste campo. O exercício da assessoria de Comunicação Institucional em Catoca é a exploração do outro lado da minha formação em Comunicação Social. É uma nova experiência prazerosa a qual procuram chegar grande parte dos jornalistas angolanos, depois de muito tempo a trabalhar em noticias diárias ou periódicas. Quanto à literatura, é apenas um complemento do meu ser. Na verdade, prefiro que me considerem como um "anotador ou contador de cenas", pois estou a entrar na literatura por mero acaso, como extensão do jornalismo que nunca deixei de exercitar, pois o jornalismo, para mim, é como se fosse um vício.

2-O seu livro "Manongo Nongo", lançado em 2012, é um conto infanto-juvenil. Qual a razão de se virar para os mais novos?
- Na verdade, tratam-se de vários contos (fábulas). Uns já ouvidos na infância e recontados com novos cenários e personagens, outros são de minha criação.
Os povos que tiveram um longo período sem o registo escrito faziam a sua História e preservavam a sua cultura através da oralidade. Fui influenciado, na minha infância, pelas estórias e história que ouvia contar dos mais velhos. Decidi levar parte desta oralidade para a literatura, como forma de legar aos mais novos as experiências e vivências que me foram transmitidas na infância de forma oral.
Hoje, são poucas as famílias que conservam o hábito de cantar para embalar uma criança ao sono ou contar uma estória. Já que a juventude hodierna não tem registos orais para reproduzir aos seus filhos, os livros podem ajudar a cumprir esta missão.

3- Porque é que se considera "anotador ou contador de cenas" e não gosta de se denominar escritor?
Considero que os escritores, digno desse nome, são aquelas pessoas que se cultivam para o ser. Que escrevem com profissionalismo e que vivem a fazer ficção. Eu sou um jornalista que, com alguma folga de tempo, vou procurando transcender do jornalismo à literatura. Por outro lado, eu não faço uma literatura clássica. Sou um repórter de vivências e que me sirvo da literatura para representar a realidade. Apesar de tenderem para a ficção, os meus escritos têm uma vertente vivencial. Se houvesse um meio termo entre o jornalismo e a literatura, a crónica por exemplo, é neste género que melhor me situo. Sou um cronista.

4 - Como caracteriza actualmente a literatura angolana?
O lado criativo está no bom caminho. Há maior liberdade de os escritores escreverem e publicarem sem qualquer forma de censura activa ou passiva. Regista-se também o surgimento de muitos novos escritores. Apenas há dificuldades em publicar, visto que não há uma grande cultura de leitura e, por este facto, vendem-se poucos livros. Os livros em Angola são também relativamente caros, pois não temos uma industria de papel e impendem sobre os livros publicados fora do país elevadas taxas aduaneiras. Isso faz dos escritores autênticos mendigos à procura de patrocinadores para as suas criações artísticas. Muitas vezes os escritores têm de suportar os gastos com a edição, como é o meu caso.

5-Quais são os seus escritores angolanos preferidos e porquê?
O primeiro livro que li foi "Vozes na Sanzala" de Uanhenga Xitu. Gostei do livro, gosto da sua bibliografia e da sua forma de escrever. Também admiro a escrita do Ondjaki, um escritor jovem e bastante produtivo, como admiro Jacinto de Lemos, Jofre Rocha, Roderick Nehone, Izaquiel Cori e Ismael Mateus. Há mais nomes mas prefiro citar apenas esses. Todos eles têm uma literatura cativante e tenho-os também como contadores de cenas. Uns, Uanhenga Xitu que é uma figura incontornável da literatura angolana, demonstram mais preocupação com o conteúdo do que com a forma de exposição e, às vezes, eu sigo-lhe o exemplo.

6-Acha que vale a pena incutir o espírito lusófono nos países e regiões de língua portuguesa?
A lusofonia é uma cultura. É algo existente, independentemente da dispersão dos falantes pelo mundo. Goa e Timor não estão nem próximos dos outros países lusófonos nem distantes. Estes territórios estão aí onde Deus e a aventura humana quiseram que estivessem, conservando uma cultura e língua já seculares. A língua estará lá para sempre como permanecerá em África e na América do Sul. É também importante ter em conta que a globalização aumenta a diáspora lusófona. Logo, é de incutir o espírito lusófono nos países e regiões que se expressam em português, e também noutros que queiram adoptar ou comunicar-se nesta língua. É o caso da Guiné Equatorial que vem reclamando o estatuto de membro efectivo da CPLP. Quanto à questão linguística, sou um expansionista. Venham mais falantes!

quinta-feira, março 14, 2013

IGREJA E A POLÍTICA ACTIVA

Vi, a 27.02.2013, um documentário na RTP-África sobre o comportamento da igreja Católica perante a luta pela independência em Moçambique, algo semelhante ao que se passou em Angola e nas demais colónias. No documentário, vários entrevistados disseram que os padres e bispos da Beira e Tete eram pró “indígenas” e, nalguns casos,  até apoiavam os guerrilheiros da FRELIMO, ou quando não o fizessem, pelo menos não os denunciavam à PIDE. Ouvi e vi depoimentos de ex-guerrilheiros a dizer que vezes houve em que recebiam dos padres (italianos hispânicos, nórdicos, etc.) de Tete e Beira medicamentos, comida e outros apoios. A diocese tinha um jornal que também servia de instrumento de denúncia das atrocidades de Salazar e Marcelo Caetano, tendo sido vendido após a morte do “bispo-revolucionário” que por lá andou.
Em Lourenço Marques (Maputo), porém, o bispo era um reaccionário. Era dum alinhamento impressionante com a política repressiva do Estado Novo. Foi apresentado o bispo a afirmar que “eles (os padres) eram portugueses e estavam ai por Portugal e quem assim não entendesse que fosse embora”. O bispo católico de Lourenço Marques entre 1973-74, que foi o período estudado, chegou mesmo a entregar um dos seus padres à PIDE. Ele mesmo acompanhou o agente da PIDE à casa do padre para ser investigado e interrogado.
Quantos africanos terá esse “lobo”, que ainda, torturado?
Por cá, Angola, não devem faltar clérigos que de dia usam batinas e de noite a farda dos elementos que “espancam” activistas e críticos sociais.
Basta ver quantos clérigos se intrometem em assuntos de política explícita ou partidária, esquecendo-se da doutrina bíblica que apela ao amor, perdão, compaixão, caridade e tolerância.
Há clérigos de distintas denominações religiosas que são autênticos activistas políticos deste ou daquele partido. As suas pregações e homilias não passam de comícios onde, de forma directa e aberta, propagandeiam a favor deste ou a desfavor daquele.
São esses que fazem aumentar o cepticismo dos crentes levando-os muitas vezes ao agnosticismo.

domingo, março 10, 2013

POR QUE NÃO NOMEAR EM VEZ DE NUMERAR RUAS DE LUANDA?

OLHANDO BEM,

Não tem o mesmo valor  denominar uma rua com a letra "F" ou atribuir-lhe o topónimo "4 de Abril" que tem um significado especial para Angola. A primeira forma é apenas uma letra. A segunda se refere ao dia em que se assinou a paz para Angola, depois de 4 décadas de guerra.

Na antroponímia bantu os nomes têm significados (épocas ou períodos especiais, homónimos de familiares ou personagens que nos marca(ra)m, etc.). Defendo que tal deva acontecer em relação aos topónimos, visto que há muitos heróis (vivos e defuntos) por homenagear.

Este exercício vem a propósito do que tenho estado a constatar nas Novas cidades que se erguem em Angola (destaque para Talatona, Nova Vida e outras) onde em vez de se nomearem as ruas, elas são simplesmente numeradas ou ainda nomeadas por letras.

Numa altura em que muitas ruas com topónimos do tempo colonial, que homenageavam homens que contribuiram para a nossa desgraça, ainda estão nomeadas como fazia sentido ao colono, existindo outras renomeadas mas com nomes soviéticos e ou comunistas como Lénine, Karl Marx, Engels, etc., não será inoportuno perguntar se estarão em faltam nomes em Angola dignos de serem atribuídos às ruas das novas urbanidades?!

A professora Gabriela Antunes, por exemplo, tem o seu nome atribuído a uma rua de Portugal, não acontecendo o mesmo em Angola. Terá ela contribuido mais para a afirmação de Angola e dos angolanos ou de Portugal? Isso para não falar de políticos, escritores, jornalistas, economistas, músicos, sacerdotes, juristas, filósofos, autoridades tradicionais, heróis da resistência, antigos combatentes e veteranos da pátria, kandongueiros, mágicos, médicos, etc.

Lendo o Vº volume do livro "Agostinho Neto e a independência nacional" pude aprcebere-me, de acordo com documentos da PIDE arquivados na Torre do Tombo e reproduzidos no citado livro, que já em 1972, o Presidente do conselho militar do Ghana tinha ordenado que praças e ruas de Accra tivessem nomes de figuras africanas que lutavam pala independência dos seus territórios. São citados, Agostinho Neto, Holden Roberto, Amilcar Cabral, entre outras figuras.

- Quem me pode dizer onde fica a "Rua Holden Roberto", em Angola, só para citar este nome da luta de libertação de Angola?

Figuras nomeáveis, acho que há uma lista infindável. O quê que falta para se atribuirem nomes de figuras nacionais às ruas das Novas Centralidades?

terça-feira, março 05, 2013

EDNA: UMA RARIDADE NO LESTE

Tarde de Fevereiro, 14 horas. O sol do leste de Angola quase afugenta os pedestres que a essa hora frequentam as ruas, cada vez mais movimentadas de Saurimo.
Acolhidos pelo guarda-sol, na ria principal da capital da Lunda Sul, Edna e Marcos aproveitam retirar dos livros que vendem o conhecimento que trazem. Edna é mais lesta na leitura e, apesar de frequentar ainda o ensino primário, demonstra possuir hábitos de leitura e, por isso, muitos livros já folheados.
- Posso fazer-vos uma foto junto a vossa barraca com livros ? – Indaguei.
- Está á vontade. – Respondeu Edna, numa concordância invulgar para meninas da sua idade. – Mas gostaria de saber o que vai fazer com a foto? Respondeu sorridente a adolescente, entre os 16 e 18 anos.
- Pois é. Sou escritor e alegra-me ver jovens a ler e, sobretudo a expor conhecimentos. – Expliquei, mostrando de imediato a capa do meu “10encantos” que levava comigo.
A jovem percorreu o grafismo do papel, como quem explora uma rica coutada, e rapidamente descobriu a apresentação do autor do poemário.
- É o senhor que escreveu o “manongo-Nongo”? Nem imaginava…
- Sim. Já o leste? É o meu segundo livro.
- Já, mas não era meu. Notei que até a foto que usa nas duas capas é a mesma.
De entrevistador passei a interlocutor. As perguntas e respostas vinham dos dois lados.
- E quando é que o senhor vai lançar este livro? – questionou a rapariga.
- É de poesia. - Alertei. – Deve sair em Maio, se Deus quiser. A propósito, onde é mesmo que a menina estuda? Perguntei, tentando desviar a conversa. Não gosto muito de falar sobre o meu lado artístico na rua, como quem se exibe. E já havia gente à volta, uns folheando os livros escolares e de literatura geral, outros apenas para ouvir o adulto que “paquerava” a criança.
- Estudo no 4 de Abril.- Respondeu.
Puxei pela cabeça, pelas escolas que já li os letreiros e nada. Não consegui situar a aludida escola.
- É ensino médio?
- Não. É ensino primário.
A jovem é duma comunicação fluida e daquelas que olha nos olhos do interlocutor. O jovem ao lado, Marcos, continuava com a sua leitura sem participar da conversa, apesar de aparentar ter mais idade do que ela.
- Em todo o caso, foi um prazer falar contigo. Boa sorte e continua a ler. Vou escrever um artigo porque tem sido raro encontrar alfarrabistas e leitores em Saurimo. - Despedi-me.
Edna soltou um sorriso leve e acenou em gesto de um a deus. Um até à próxima, se calhar.

sexta-feira, março 01, 2013

A MINHA QUASE MÃE

Eu
Trinta e um anos depois, nunca me passou pela cabeça descobri uma das façanhas, ainda inauditas, do meu finado pai. Ele era um homem de poucos amigos embora bastante social e aberto. Por isso não conheci os seus amigos de infância, adolescencia ou mesmo da juventude. Apenas aqueles que nos rodeavam quando comecei a me reconhecer como homem pensante. E, pior, porque aos 8 anos vi-o partir para nunca mais, sem tempo para colocar-lhe questões pertinentes sobre os seus tempos de juventude e aventuras da mocidade.
A 13 de fevereiro de 2013, cruzei com uma senhora, na casa dos sessenta ou mais anos, que me disse tachativamente que por um pouco eu seria filho dela.
E, brincava ela, que se tal acontecesse eu seria clarinho como ela…
Intrigado, perguntei se como seria possivel tal situação, eu filho dela e ela minha mãe.
E não demorou para retirar da lúcida memória:
- Tu és neto de Ngana Muriangu “Kaphuku”?
- Sim, mãe. Ainda conheci o pai do meu pai.
- Também sabes que na adolescência o teu pai se havia alcunhado de Chico?
- Sim. Soube disso já no óbito, em 1982. Um primo dele pronunciava António Chico ao se referir ao falecido. Ninguém mais sabia desse nome senão ele. Deduzi que fora uma alcunha do meu pai.
António Fernando Dambi (1940-1982)
- Já alguém te contou que antes da tua “mãe grande” (referia-se à mãe dos meus irmãos mais velhos), o teu pai teve uma mulher?
- Não, mãe (passei a tratá-la por mãe para buscar maior empatia e ela estava a gostar). Apenas sabia que tinha pretendido uma mulher antes de formar família com a mãe dos meus irmãos mais velhos.
A Senhora, alta e não muito forte, vigorosa e um pouco vaidosa,  passou a sua mão, já rugosa, mas cheia de força, sobre a minha cabeça, puxou um suspiro e disse na língua que melhor domina:
- Andono Chico, eme ngi mungaj´é ú sombili (Eu fui a primeira mulher do António Chico).
A mulher discursava na variante kimbundu que se fala na Kibala (K-Sul) e eu em português. Entendíamo-nos bem, pois eu, embora não domine a oratória da língua Bantu, percebo-a. E continuei.
- Porque não ficaram juntos? Eu também queria ser claro e alegre como você. Ironizei.
- Pois é (sempre em kimbundu da kibala), eu, na adolescência, quando nos juntamos, adoecia muito e o teu avô decidiu que devíamos nos separar. Foi por isso que ele arranjou a kimbangala e eu também “amiguei” com outra pessoa.