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segunda-feira, abril 27, 2015

JUSTINO HANDANGA CANTA MÚSICA REGIONAL OU FOLCLÓRICA?


"Folk lore" é um termo anglófono que significa sabedoria popular. Quando essa sabedoria é musicada ou cantada estaremos em presença de música folclórica ou folk music. O termo ganha seu sentido etimológico no século XIX e indica, especialmente, a música feita pela sociedade pré-industrial, fora dos circuitos da alta cultura urbana. Durante o século XX, o termo "folk music" recebeu um segundo significado: um tipo específico de música popular que é descendência cultural da música tradicional rural, ou de outro modo influenciada por ela.

A música folclórica sobrevive melhor em zonas onde a sociedade, geralmente rural, ainda não é afetada pela comunicação de massas e pela comercialização da cultura. Era geralmente partilhada e executada pela comunidade como um todo, sendo muitas vezes transmitida pela tradição não escrita.

As canções tradicionais de um povo tratam de quase todos os tipos de actividades humanas. Assim, muitas destas canções expressam crenças religiosas ou políticas de um povo ou descrevem sua história. A melodia e a letra de uma canção popular podem sofrer modificações no decorrer de um tempo, pois normalmente a transmissão é oral e passam de geração em geração.

Muitas vezes ouvi certos jornalistas angolanos a rotularem a música que não se faz em Português e Kimbundu como sendo música folclórica, pelo simples facto de não ser executada na capital do país, e como se “Angola fosse Luanda e o resto matagal”.

E, pergunto: A Música de Socorro (Uiji), Justino Handanga e José Kacyungu (Centro), Santos Católica (Leste), Kahinza (Kwanza-Sul), etc. é toda ela folclórica?

Na foto: Soberano Canhanga e Justino Handanga

sexta-feira, abril 24, 2015

A FORÇA DO PREGÃO FEMININO


Em Lucas 16: 1-16, lê-se que "quando Jesus ressuscitou apareceu primeiro às mulheres (Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé) e só mais tarde se apresentou a seus discípulos, todos homens, (sendo esses incrédulos e ´cobradores´ de provas materiais. Fê-lo Tomé ao exigir que só acreditaria caso visse as marcas das feridas).
-Por que se terá apresentado primeiro às mulheres?
- Quem são os campeões da difusão de pequenas e grandes mensagens/novidades?
- E por que algumas denominações religiosas impedem ou inibem as mulheres de pregar a palavra santa, se foi a elas que Jesus ressuscitado se apresentou primeiro?
- Quem mais, entre os antigos cristãos, difundiu aos povos a Boa Nova da ressurreição de cristo?
Aleluia!

domingo, abril 19, 2015

MÃOS À OBRA

MÃOS À OBRA
No serviço, na zunga, na kitanda, na "rabota", na Igreja, na escola ou em qualquer ofício digno, andar já se torna melindroso.
O mundo está tão apressado que os patrões (todos os que destinatários da nossa prestação física e ou intelectual) querem tudo para "ontem".
É preciso correr sem tropeçar, ser célere no pensar e agir.
Ou varremos o trabalho ou o trabalho varre-nos!

terça-feira, abril 14, 2015

A ÁRVORE DE NDEMUFAYO

Em 2004, integrando uma delegação do Primeiro-Ministro angolano de então que visitou Ondjiva, conheci Oyole, local em que se encontram sepultados os restos mortais do guerreiro rei kwanyama, Mandume ya Ndemufayo.
Como recordação, peguei uma das folhas da árvore mítica em que se diz "o rei se terá suicidado para não se render aos alemães e desencorajar a luta pela independência do seu povo".
Chegado a Luanda, a folha foi colocada num quadro e tinha um grande valor simbólico. Ela, por si só, contava-me a história sobre a resistência dos ovambo/kwanyama e recordava-me sobre as peripécias daquela viagem Luanda-Lubango-Kahama-Xangongo-Ondjiva, Oyole(ida) e Ondjiva-Luanda (regresso).
Infelizmente, alguém não valorizou o quadro e o seu conteúdo, jogando-o entre os descartados.
Longe do Kunene, sem acesso à árvore, espero que alguém que me conheça e que passe por lá me ofereça uma folha de "omufyati", a árvore sagrada dos ovambo/kwanyama.

quarta-feira, abril 08, 2015

MINIATURAS QUE FAZEM DIFERENÇA

Nos meus tempos de infância era um assíduo ouvinte da RNA e, principalmente, dos seus noticiários e do programa ANGOLA COMBATENTE. Nessa altura, era frequente ouvir-se os correspondentes da Rádio a usarem a expressão "desde Kalulu recebam os cumprimentos do Soberano Kajila". Felizmente, hoje já não se ouve em toda a antena a troca da preposição "de" pelo advérbio de tempo "desde". Calculo que tenha sido emitida uma portaria proibitiva: "não se diz desde XXXX. Diga-se da Maianga para o mundo ou do Huambo para Luanda".
E foi bom que assim tenha acontecido, devendo repetir-se a dose em relação a outros percalços linguísticos ainda reincidentes.
Mudando de assunto, há estudantes universitários que ainda não se consciencializaram que até nós, os jornalistas, também "lutamos com a Língua de Camões", não sendo ela o objecto de estudo específico do jornalista, embora a deva dominar para melhor comunicar. Muitos não deram conta ainda que o jornalista que "sabe tudo ou sabe muito" é um mito. Não existe. Não é o facto de o indivíduo ser jornalista que o torna muito culto ou dominador da Língua Portuguesa.
Oiço muitos estudantes, na academia, a justificarem que "no rodapé da TPA escreveram Lunda-Norte (com hífen) ou a palavra tal de forma Xis". Outros dizem que na minuta de requerimento que se encontra afixado na Administração "está escrito assim e não como o mestre ensina". Nunca os passou pela cabeça pensar que o funcionário da Administração ou o homem que escreve os oráculos na TPA podem ter menos conhecimentos linguísticos do que eles, podendo ser eles, os estudantes,  os agentes de mudança de quem se espera.
Furtam-se da dúvida e refugiam-se num argumento reducionista da sua própria capacidade intelectiva.
René Descartes recomenda a dúvida metódica: "não ter tudo como verdade acabada". Desconfie. Duvide. Questione. Investigue. Compare. Aprofunde o conhecimento.
Lembro que os conhecimentos específicos (Geografia, História, Direito, etc.) são apenas o "camião carregado" que para chegarem ao destino (serem aplicados com coerência) precisam de uma estrada (uma língua que se domine razoavelmente).
E para terminar, meus amigos (estudantes de LP), quando mesmo é que devemos grafar as palavras com iniciais maiúsculas?
É que, nas pequenas redacções escritas à mão, vejo maiúsculas até no meio da palavra.

sábado, abril 04, 2015

A PAZ QUE "ESTAMOS COM ELA"


Custou sangue e sacrifício.
Lembro-me de kotas que se escondiam em tectos falsos ou em tamborões com água para escapar das rusgas dos militares de ambos ao lados do confronto. Lembro-me do sofrimento das mães obrigadas a mentir que não tinham filhos para não os ver partir ainda imaturos e, se calhar, para nunca mais voltarem. Recordo-me da preocupação dos pais, impotentes, inconformados, mas sem armas para travar o curso dos acontecimentos. Vem-me à memória a tristeza que se apossava das famílias quando o filho varão atingisse os 18 anos, hora de partir (in)voluntariamente ou forçadamente para a "vida kwemba". E havia aquelas famílias em que dois ou três rapazes estavam "abrangidos"...
Sou hoje  pai de um jovem de 18 anos e, felizmente, não enfrento  aquela tristeza vivida pelos pais de jovens nos idos anos 80 do sec. XX.
Eu mesmo, aos 14 anos, estive a fazer recruta semi-voluntária. Se não tivesse o "olhoatento" e "sapar" a tempo para Luanda seria mais um dos desaparecidos, estropiados ou ou desmobilizado e sem meios de subsistência.
Em Março de 2002, depois da morte do Jaguar Negro, estive no Lwena a reportar os momentos políticos e sociais que antecederam ao aperto de mãos, na sede da Assembleia Nacional, entre Armando da Cruz Neto e Geraldo Abreu Mwengo Ukwacitembu "Kamorteiro".
Vivi e vi o que custou a paz, pois estive também,  como jornalista, em algumas zonas de conflito. Vi estropiados com a vida por um fio. Partilhei roupa do corpo com deslocados e ou regressados das matas. Visitei Ondjiva, Kahama, Kwamato, Môngwa e Xangongu, localidades estropiadas, engessadas e com feridas ainda visíveis.
Com feridas ainda sangrentas, canteiros da cidade transformados em cemitérios e poços para o suprimento de água servindo de covas para esconder os mortos dos homens ainda viventes visitei  Kwitu, cidade que a guerra pós-eleitoral partiu ao meio.
Na infância e adolescência, dormitei nas matas sob chuva intensa e frio. Fiz caminho entre capim alto e espinhos. Calcorreei os rios Kazondo, Riaha e Sangisa (Libolo), andei a pé dezenas de quilómetros em asfalto que ensaiava a sua quentura em meus pés frágeis e descalços. Enfrentei atalhos espinhosos, fugindo sempre dos homens do "Barbas".
Já percorri, em 1989, cerca de cem quilómetros seguidos em três jornadas: Kalulu-Munenga-Pedra Escrita-Mbangu de Kuteka. A vila de Kalulu, onde estudava, tinha sido atacada na noite de natal pelos confrades de Kalumbungu. Estava tudo em chamas e os adolescentes, apetecível carne para canhão, nunca eram poupados para engrossar as hostes dos "quebra-pontes e postes", como eram por nós apelidados os insurrectos.
Em 1984, criança ainda, depois de largas noites nas matas, fora da aldeia e do arimbo, fugindo da guerrilha, refugiámo-nos na sede comunal da Munenga. Um veado inteiro apanhava fumaça para não se estragar a carne. Só a “jinginga” foi servida ao jantar. Nessa mesma noite de Fevereiro, os homens da farda apertadíssima atacaram a sede comunal que era guarnecida por tropas das Fapla e da Swapo. Lembro-me ainda do curativo que um enfermeiro da Swapo fez, na tarde da chegada ao vilarejo, à minha ferida na minha perna que já deitava cheiro. Em madrugada repleta de violência inédita, uma bala levou fios de cabelo do meu primo Naldo, hoje comissário da polícia nacional. O francês que o meu primo já falava salvou-nos do rapto gratuito. Muitos parentes e amigos da família morreram naquela trágica madrugada. Andrajosos, exauridos em tudo, partimos a pé para Samba Karinje, em mais um recuo. Lembro-me que a minha mãe teve de trabalhar, pela primeira vez, em lavra alheia por comida...
Aqui chegados, 13 anos depois do calar das armas, reconciliemos as almas.
Ainda falta pão em muitos lares. Água e energia eléctrica  ainda são um luxo para muitos. Escasseiam ainda os empregos, a saúde e formação de qualidade. Faltam estradas e o transito em cidades como Luanda e Lubango é insuportável em horas de ponta. Sei disso. Mas peçamo-los com discernimento, sem entornar o caldo da paz.
Peço a todos angolanos a máxima atenção: o caldo fervente alimenta-se com lenhas. A panela está sobre "maswika". Entre "maswika" se colocam as lenhas. Derrubando uma das pedras que suportam a panela, esta se desequilibra e perde-se o caldo. Onde brigam elefantes é o capim que sofre.
Viva a paz!

quarta-feira, abril 01, 2015

UMA FUBADA A ROBER ADRIEN


Nunca é tarde para se conhecer uma terra, uma cidade ou vila, mesmo tratando-se das que se situam nas proximidades das nossas barbas mas que a falta de oportunidade ou interesse imediato impediam. Aliás, há gente que não passa do costumeiro café da esquina mesmo sabendo da existência do amplo mundo por explorar.

Nesta senda, conheci, finalmente, Caxito (desconfio que a grafia correcta e fiel ao Kimbundu, língua da região, seja Kaxitu: pouca carne), capital do Bengo, sede provincial mais próxima de Luanda e que, em termos de infraestruturas, também deve muito (quando comparada) às demais 17 sedes capitas de províncias.

Poe exemplo, Caxito é uma vila rasgada por uma única rodovia, EN 100, que nos conduz ao "Úkwa, Negaje e Wíje".

Aproveitando a extensão para dia seguinte do feriado dedicado ao dia internacional da mulher, 08 de Março, eu e os de casa, acompanhados pelos compadres Spina e Yana, decidimos "explorar" o Bengo, começando por Caxito.

Encontramos uma cidade (?) inundada, aparentemente sem colectores de esgotos, impossibilitando a prestação de alguns serviços como no "banco do imbondeiro" que se encontrava quase submerso, ante a chuva de véspera e outra do dia, cuja água se juntou à anterior.

Água e lama juntaram-se ao famigerado jacaré bangão (que se terá negado a pagar o imposto indígena no tempo do kaputu) como postais de visita aos neófitos excursionistas.

E como se uma cidade (?) construída em zona plana, sem declive para encaminhar as águas pluviais ao sorvedor Atlântico, fosse pouco, assistimos a um trânsito automóvel muito lento e perigoso, de Cacuaco (Luanda) a Caxito. São apenas duas faixas de rodagem, uma em cada sentido, que não facilitam as ultrapassagens aos inúmeros camiões basculantes que trafegam, sem cessar, dia e noite.

Quem entra no mercado do Panguila confirma, através da montra de veículos acidentados, o grau de sinistralidade na EN 100, associado sempre a excessos de velocidade que, diga-se, muito se deve tambem à curta largura da via, fraca sinalizaçao, ausência de iluminaçao,  escapatórias e faixas para acostamento.

Inexistindo roseira espinhosa sem flor encantadora, gostamos de ver os investimentos em bananais, citrinos, videiras e em piscicultura que dão valor acrescentado à  terra e contribuem para a "nacionalizaçao do prato angolano", como defendia o cidadão Robert Adrien, frequentador assíduo do mercado do "Sassa".

Que tal alargar um pouco mais a EN 100, com mangas para acostamento e vias de serviço para paragens de táxis e autocarros? É apenas a sugestão de um leigo em mobilidade e segurança rodoviárias, mas apaixonado por estradas.

Num discurso trocista, o meu compadre Spina que com sua família foi também curtir Caxito, chegou mesmo a sugerir que "Bengo fosse uma província laboratório para estágio de governadores" ou seja, dizia ele, "tendo em conta o muito que têm de mudar e melhorar, partindo da sua capital, os governantes que se estreiam na gestão provincial deviam começar pelo Bengo, seguindo depois a outras províncias".

Quando o questionei sobre o porquê da sua tese, Spina, sem papas na língua, argumentou:

- Normalmente, o estagiário tem muitas ideias e precisa de terreno para as implementar. - Explicou.

Aqueles que conseguissem mudar algumas coisas no Bengo e Caxito ganhariam como promoção, no dizer dele, uma nomeação sucedânea para outra província mais evoluída.

E nao é que a ideia dele, surgida do nada, ganhou adeptos entre os que apreciavam o funje de carne de caça numa das barracas do mercado do "Sassa"?

- Esse camarada é mesmo um ideológo que devia ser convidado como assessor do Governo. - Afirmou Nhanga, ja meio desiquilibrado ante as elevadas doses de maluvu que ingerira, tentando desfazer-se de fibras de "Robert Adrien" (carne de macaco) que lhe ficaram presas entre os dentes.

Rober Adriens é o nome de um cidadão frequentador das barracas do Bengi e grande apreciador de carne de caça, com preferência à de macaco, e que os miúdos mais gozões do mercado de "Sassa" diziam aparentar feiçoes simiescas.

- Kota Roberto, esse janguto é de quê? - Questionavam em troça, ao que ele respondia e corrigia num sotaque meio afrancesado e arrastado.- Não me chamar kota Roberto. Eu chamar-se mister Robert Adrien e gosta comerr somente ndiba (funji) com carrna de prrimo (macaco). - Dizia de boca cheia, quase feliz, das várias vezes em que foi questionado.

E os rapazes do "Sassa" tanto gozavam com os consumidores de carne de caça, quanto com as cozinheiras dos manjares e com os caçadores de "Robert Adrien", alusão aos símios que são abatidos indiscriminadamente nas matas do Úkwa para pôr as panelas e os estômagos em actividade.

Numa brincadeira que se tornou extensiva, toda a carne de caça passou a designar-se "Robert Adrien".

- Mané, já escolheste o prato do dia?

- Claro: funje a "Robert Adrien"!


In: Semanário Angolense, 28.03.2015

domingo, março 29, 2015

O JORNALISMO E A VALORIZAÇÃO DOS LITERATOS


Foi lançada em Lisboa, a 21 de Março, dia da poesia, uma “brutal” antologia que reuniu mais de mil poetas ou candidatos a poetas do "mundo lusófono".
A media portuguesa deu "carga" ao assunto, não só por a iniciativa ser da Chiado Editora, mas porque a considerou de “culturalmente noticiável”.

Por cá, mesmo tendo alimentado alguns jornalistas culturais, NADA!

Não se sabe que houve angolanos partícipes da Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho Vol. VI, 02 tomos.

Não foi contactada a editora para saber quantos angolanos participaram (conheço dois: Soberano Canhanga e Guilson Satxingo, um jovem do Núcleo Lev´arte da Lunda Sul); o valor estético-literário da obra; onde adquiri-la;
Nada!
Leia aqui: http://www.redeangola.info/entre-o-sono-e-o-sonho-inclui-poemas-de-dois-angolanos/


quarta-feira, março 25, 2015

DEPOIS DA CHUVA A RUSGA



No dia em que a cidade ficou inundada, de tanta chuva que caiu em cerca de 36horas, o Governo Provincial de Luanda e os seus parceiros sociais viram-se quase que forçados a estabelecer um “planos de emergência” para o desanuviar o trânsito automóvel e a limpeza das ruas da urbe que estavam apinhadas de lixo e lama.
Os homens da fiscalização (farda verde, banga nos land cruizer da caixa aberta, rebocadores na traseira da patrulha) meteram-se a levar tudo o que fosse carro mal estacionado ou há muito parado na via pública.
Depois dos fiscais, ou simultaneamente, chegava uma outra patrulha de medicina alternativa com ambulância, cordas e anestesiantes. Chamavam a este grupo de "equipa Kitoko".
Naquela tarde de sol preguiçoso, como carvão molhado que patina no fogareiro para assar a lambula do almoço, já cinco viaturas, daquelas que soçobravam pela rua, acolhendo dementes e kangonheiros em horas esquivas, haviam sido removidas pelos homens da administração. No mesmo local, dois dementes recolhidos pela "brigada kitoko" contavam já piadas na ambulância e a caminho do manicómio.
Quando os fiscais se preparavam para remover a sexta viatura, deparam-se com um homem maltrapilho, chaves na mão, cabelo há décadas reclamando por pente, corrente ao pescoço e sem rumo aparente.
- É mais um deles. - Gritaram os três fiscais que inspecionavam visualmente a área a partir do cimo da carrinha de cor branca e riscas amarelas em todas as suas faixas laterais.
- Mais um. Agarrem-no. Matadidi, prepara o calmante. - Ordenou o chefe dos fiscais aos para-médicos tradicionalistas.
De seguida, fiscais e “kitokistas” trocaram olhares sem falas. Apenas gestos a combinar o desenrolar da operação de captura.
Ouviu-se um "agarra, agarra maluco" vindo de todos os lados: fiscais na carrinha de patrulha, para-médicos na ambulância e os monandenges nas cercanias. Agarra maluco para cá, agarra maluco pra lá e o próprio visado, às tantas, sem saber ainda o que se passava, também ajudou a gritar “agarra maluco” até que foi atingido pela corda em forma de laço.
- Porra! Não sou maluco, pa! Me larguem, seus gatunos de merda! - Tentou ainda defender-se, mas com a perna já no laço.
Suspeitando que se tratasse de assaltantes, o suposto demente agarrou com mais força a mala de chaves, a peça de viatura que havia extraído da sucata e a sua chave 14/15 de boca com que visitara a cabeça do para-médico kitoquista que teve de ser suturado ali mesmo e vacinado contra tétano.
- Me larguem, porra! Sou mecânico. - Gritou o suposto demente perante o espanto da assistência.
- Um mecânico com uma corrente ao pescoço? E por que vives em sucatas abandonadas, coabitando com homens distantes da razão? - Questionou um dos homens da “Brigada Kitoko”.
- Estava apenas a aproveitar umas peças dessas sucatas para o meu "acaba de me matar" que também corre o risco de ser removido da via pública por inoperância prolongada. - Esclareceu.
- E a corrente ao pescoço?- Voltou a perguntar o chefe da brigada de recolha de dementes, já mais calmo.
- Essa corrente também a recuperei na sucata e vai ajudar a acorrentar o gerador ao poste de energia que está mesmo no quintal. – Explicou Manuel Kaferro (como se ficou a saber mais tarde), ainda assutado.
Dada como certa a explanação do homem que até era técnico superior em mecatrónica, porém submetido ao desemprego forçado pela crise dos "dodós" que levaram o antigo patrão, um importador de carros usados, a declarar falência, desfizeram-se os mal-entendidos.
Os homens da farda verde prosseguiram o seu trabalho, removendo tudo o que lhes desse dinheiro na esquina. Rebocando mais veículos estacionados em lugares permitidos do que as sucatas, há muito sem dono, que nunca chegariam a ser reclamadas. Manuel Kaferro, o mecatrônico, teve de ir à casa refazer-se do susto e testar a peça que tinha conseguido antes da chegada da “Brigada Kitokista”. Esses últimos acabariam por receber uma chamada para irem socorrer um demente real em dificuldades numa lixeira automóvel da Quinta Avenida.
Por cima do meu muro, fiquei a ver a lagoa artificial criada pelos homens das obras a encher-se de água que vinha de todas as partes altas dos subúrbios de Viana; os alevinos (filhotes de peixes), na lagoa, em festa por causa da chegada de água mais oxigenada; os putos “pescadores” com as redes e as garrafitas em que guardam os peixinhos que vendem a troco de rebuçados; as mamãs do bairro a muxoxarem por causa da água que lhes invade os quintais e os aposentos, e os papás preguiçosos a aplaudirem “viva a chuva", pois seriam dois dias de folga ao serviço!

Obs: in Semanário Angolense, 21.03.2015.



segunda-feira, março 23, 2015

TODOS E TODAS SEM CRASE

Tenho lido em textos, alguns até jornalísticos, passagens como "que à todos diz respeito".
Crasear é ainda um dos "problemas que estamos com ele".
Frequentei, em 2002 ou 2003, um curso propedêutico de L. Portuguesa, facultado pelo SJA e ministrado na Universidade Católica de Angola no qual aprendi esse detalhe da Nossa Língua.
Só há crase quando estamos em presença de um nome (substantivo) antecedido por um determinante feminino e uma preposição "a". Logo, "a"(preposição)+ "a"(determinante/artigo)="à" (contração da preposição com artigo feminino).
Em "à todos" não há nem nome feminino, nem determinante. Existe apenas uma preposição (que nos dá a ideia de movimento para...).
Em suma, a redação deve ser: que a todos diz respeito.

domingo, março 22, 2015

EM KIMBUNDU NOS ENTENDEMOS III


Em Kimbundu, todos os verbos na forma infinitiva começam invariavelmente pelo prefixo "ku", correspondente ao "to" inglês:to be, to see.
Na língua dos Ngola, temos: Kulesa (lamber), kwenda (andar), kukamba nguzu (fraquejar), kwya (ir), Kwiza (vir), kubiluka (virar), kuxaxata (apalpar), etc.

 Fonte: MULELE, S/D.

quinta-feira, março 19, 2015

EM KIMBUNDU TB NOS ENTENDEMOS II

Pronomes pessoais associados ao verbo "kudya" (comer), no modo indicativo e tempo presente.
Pron.    verbo
===     ====
Eme - ngidya
Eye - udya
Mwene - udya
Etu - tudya
Enu - mudya
Ene - adya





Fonte: MULELE, S/D.

segunda-feira, março 16, 2015

EM KIMBUNDU TAMBÉM NOS ENTENDEMOS I

No seu "Manual de aprendizagem de Kimbundu"*, sem data, que me chegou às mãos em 1993, MULELE, diz que os substantivos comuns, em Kimbundo, subdividem-se em seis classes que fazem o singular e plural de forma distinta.


Ei-los, seguidos de exemplos nos dois números.
1- classe: mu-a (muthu-athu)- pessoa
2- classe: mu-mi (mundele-mindele) - branco
3- classe: ki-i (kima- ima; kyama-yama)- coisa; animal
4- classe: di-ma (dibengu-mabengu) - ratazana
5- classe: i-ji (ingo-jingo) - onça
6- classe: ka-tu (kambonga-tumbonga) - criança.
Nota: nesta obra, que suponho anterior ao alfabeto convencionado pelo Instituto de Linguas Nacionais, em 1984, o autor já usa K em vez que Q embora não transforme "U em W" e "I em Y" quando essas vogais se encontrem diante das demais vogais "a, e, i, o, u".
O autor explica ainda que "G", antes de "E e I",  terá sempre o som de "gue". Os sons portugueses equivalentes ao "ch" são representados pela letra "X".
* título de minha autoria pois o dactilografado de Mulele não  apresenta a capa.

segunda-feira, março 09, 2015

DIVAGANDO À BEIRA DA PRAIA


Mabunda: é o nome da praia pesqueira de Luanda, junto à Samba.
Tentei encontrar o sentido semântico do termo, levando-me à divagação etimológica.
Étimos mais próximos:
a) dibunda/mabunda: vocábulos ambundu equivalentes em português à trocha/trochas.
b) mbunda/jimbunda: equivalentes à nádega/nádegas.
Mabunda serão trochas das senhoras que vão à compra de peixe, imbambas dos pescadores que vão à faina?

segunda-feira, março 02, 2015

É LÍCITO QUE UM CRISTÃO METODISTA TENHA BENS MATERIAIS?


08.02.2015
Aleluia, Igreja!

Ciseke cinji ngun’evu (é imensa a alegria que sinto).
Oremos a Deus: hino 10 em Português, hinário Povo Cantai!
(Vem Espírito Divino, grande ensinador…)

Agradeço ao Pastor e a direcção da Igreja por me terem cedido o púlpito e ser usado como instrumento na transmissão e reflexão da palavra Santa. Trago como tema desta manhã o tema: A BUSCA DA VIDA E DA PROSPERIDADE
E começo com perguntas cujas respostas vão conduzir a nossa reflexão.
  • É lícito que o cristão Metodista tenha bens materiais?
    > Que fazer para que tenhamos vida saudável prosperidade material na terra e lugar reservado no reino de Deus?
  • Disse Jesus, em Mateus 7:7-12, aos seus discípulos:
    “Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto.
    - Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, abrir-se-á.
    E perguntava o mestre aos seus doze discípulos, a mesma pergunta que faço aqui aos irmãos.
    Aleluia!
    - Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão?
    - Mamã, quando o filho tem fome e pede comida, você lhe dá uma mandioca, uma batata, um pão ou uma pedra?
    - Resposta.
    E, se lhe pedir um peixe, (para acompanhar com xima) dar-lhe-á uma serpente?
    - Resposta
    Pois então dizia o mestre:
    - Se nós (homense mulheres) que somos maus, sabemos dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais o vosso Pai celestial. Esse  dará boas coisas àqueles que lhe pedirem. 
    Amados irmão,

  • Parece admirável a aula do Mestre! Ensina de modo claro, simples, utilizando situações e figuras do dia a dia. E é essa a melhor forma de podermos transmitir a palavra santa e buscar que ela seja entendida na sua plenitude.
  • Nesse texto, Jesus quer mostrar o grande amor de Deus pelo seu povo e por isso recorre à situação familiar, quando o pai é o encarregado de alimentar os filhos. E o mestre usa comparação entre pedras no lugar de pão, serpente no lugar de peixe...
    E a mesma pergunta que Jesus fez a seus discípulos, manda-me o espirito de Deus fazê-la à minha congregação.

  • Quem estaria em condições de enganar o seu filho, dando-lhe pedra em vez de uma mandioca, batata ou pão, ou dando uma serpente, em vez de um peixe?
  • O amor que sentimos pelos nossos filhos biológicos é menor em relação àquele que o nosso pai nutre por nós. Por isso, busquemo-lo e o acharemos. Batamos a sua porta e esta abrir-se-nos-á.
  •  “Pedi e recebereis!” Quem pede, recebe. Batendo à porta, ela se abrirá. O nosso pai é amoroso e temos um caminho para chegarmos a ele. Fazendo a sua vontade e pedindo em oração.
     Posto isso, queridos irmãos, volto à pergunta inicial.
    - É lícito que um cristão tenha bens materiais?
  • Encontramos na Bíblia Sagrada passagens que nos mandam que caso vendamos os nossos bens os levemos à casa do Senhor para que se tornem bens comuns, ou que levemos a décima parte dos rendimentos à casa do tesouro para que haja mantimentos…
  • No Antigo Testamento existem muitos exemplos de pessoas que Deus abençoou com bens materiais. Abraão, Job, David, Salomão, Jacob são alguns exemplos de pessoas que eram, de facto, proprietários de muita riqueza material, que veio de Deus. O sábio rei Salomão, diz-nos no Salmos 112:1-3 que “Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR, que em seus mandamentos tem grande prazer. A sua semente será poderosa na terra; a geração dos rectos será abençoada. Prosperidade e riquezas haverá na sua casa, e a sua justiça permanece para sempre.”
Vemos, caros irmãos que Deus não gosta nem deixa que seus filhos sofram.
Coloquemo-nos nos nossos lugares de pais e mães humanos.
O que é que não fazemos pelos nossos filhos bem comportados, aqueles que fazem a nossa vontade? Nós só não damos aquilo que não temos ou que sabemos que lhes pode fazer mal.
Se seguirmos o caminho que cristo nos indica, se amarmos a Deus, acima de todas as coisas, se amarmos ao próximo como a nós mesmos e fizermos aos outros, apenas aquilo que aceitaríamos que os outros fizessem a nós, teremos todas essas dádivas que a bíblia nos mostra e seremos, então, homens e mulheres abençoados.
    E diz-nos então o nosso texto conclusivo extraído em Mateus 6:33: Busquemos, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas que pedimos nos serão acrescentadas.
  • Não adianta buscar outros deuses, nem outra confissão religiosa que não seja a nossa. Deus está aqui. Está connosco. A solução para tudo quanto nos faltar é persistir em buscar, em oração, e fazer a vontade de Deus, o Todo-Poderoso.  

  • Hino 11 em Umbundu, hinário Povo Cantai! (Lovitima vi yela/tu sivayi Yehova…)

Deus abençoe a sua palavra.

Amem!