Sete dias de estada em Bruxelas são, para um lubolense não ocidentalizado, uma espécie de penitência gastronómica. Não me refiro à fome, porque comida existe em abundância, mas ao sabor, essa entidade invisível que faz a diferença entre alimentar o corpo e confortar a alma.
Os garçons e as garçonetes atendem com a eficiência fria de quem cumpre um protocolo. Sorrir parece tarefa facultativa. Quanto à cozinha, perdoem-me os belgas, mas recordou-me a Paciência, minha antiga empregada doméstica. Mulher honesta, dedicada, incapaz de furtar um bago de arroz. O problema era o tempero. Ou melhor, a ausência dele. Em Catoca, quando ela terminava os seus cozinhados, havia sempre alguém a comentar:
— Isto sabe a capim.
E toda a gente entendia o que aquilo queria dizer.
Bruxelas é uma cidade antiga, pesada de história e estórias. Tem uma imponência urbana que Lisboa dificilmente iguala. Quando desembarquei no antigo Aeroporto de Portelas, com colegas procedentes da Bélgica, comentei que a diferença entre Bruxelas e Lisboa me lembrava a diferença entre Luwanda e Kalulu. Os companheiros que conheciam o Lubolu sorriram imediatamente; os outros ficaram à deriva, como quem escuta uma adivinha sem possuir a chave.
Era, afinal, a forma mais simples de explicar uma sensação. Bruxelas parece cidade já crescida, amadurecida por séculos de poder, comércio e política. Lisboa conserva ainda algo de vila engrandecida pela História e pela saudade.
Mas seria injusto terminar aqui o paralelo.
Porque Lisboa possui aquilo que Bruxelas, pelo menos para mim, não conseguiu oferecer: a capacidade de nos devolver a casa sem precisarmos de atravessar o Atlântico.
Numa rua discreta de Odivelas, longe dos roteiros turísticos e do ruído dos postais ilustrados, existe um lugar que poderia muito bem chamar-se “Kudisanga kwa makwaxi -a-Ngola”, o encontro dos filhos de Angola à volta da panela comum. O restaurante, dirigido por Georgina Caldas, tornou-se um pequeno território nacional implantado em solo português. Funciona na Rua Vieira da Silva, em Odivelas.
Ali, Angola chega primeiro ao nariz, depois à boca e finalmente ao coração.
Há mufete. Há kalulu. Há feijão de óleo de palma. Há kitaba. Há jinguba. Há cabidela. Há carne seca. Há maxanana. Há kizaka. Há aqueles sabores que não cabem nas receitas porque transportam memórias, conversas de quintal, vozes de avós e sombras de mulembas.
Tudo o que um angolano procura quando a saudade começa a apertar encontra-se, de algum modo, naquela mesa.
Foi por isso que resisti tanto a escrever estas linhas.
A publicidade gratuita nunca foi o meu forte. Além disso, os bons lugares merecem ser descobertos como se descobrem as fontes escondidas: por mérito próprio.
Mas depois de duas visitas consecutivas, ambas marcadas por um atendimento afável e por uma cozinha que respeita o sabor original das coisas, o cronista venceu o homem cauteloso.
Observei, numa mesma sala, angolanos, cabo-verdianos, guineenses, portugueses e outros viajantes da vida. Uns chegavam pela comida. Outros pela música. Alguns apenas pela companhia. Todos acabavam por partilhar algo mais do que uma refeição.
O espaço vive num equilíbrio raro entre o calor africano e a comedida elegância europeia.
Talvez seja essa a maior virtude de Lisboa. Não os monumentos. Não os eléctricos. Não o Tejo. Mas a capacidade de acolher pequenos pedaços de outras pátrias e permitir que sobrevivam.
Por isso, se um dia for a Lisboa e sentir que a distância de Angola se mede mais pelo estômago do que pelos quilómetros, já sabe: existe um lugar onde a saudade se serve à mesa, acompanhada de funji, conversa e memória.
E, por algumas horas, come-se como se estivesse em casa.

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